Só ir à aula todo dia, estudar e tirar boas médias em provas de faculdade não compreende a idéia de vida que tenho na cabeça [óbvio que essa condição não é definitiva e que, fora o cotidiano estabelecido, consistimos num infinito de detalhes muito além], não é um prazer em vários pontos. Claro que isso nunca serviria nem de longe como defensiva quando o assunto fosse das minhas faltas, perda de tempo ou usuais notas baixas. Como ainda não exerço nenhuma prática no âmbito dos meus estudos e nem vejo nenhum retorno material da vida que levo, costumo sentir-me desinteressado e entediado (se bem que, de vez em quando, tenho impressão que ainda que fosse diferente minha situação, eu seria igualmente insatisfeito). Chame-me de materialista ou imediatista se quiser. Ma se as pessoas constroem a sua vida toda de sacrifícios diários, abdicando do que gostam e fazendo o que não gostam por dinheiro [e não tem nada a ver com o sustento básico. Estou falando dos privilégios, da busca constante por maiores confortos, de extravagância, a maldita vaidade, saca?], não me sentiria nunca um bicho solitário, as pessoas são materialistas [e geralmente de um materialismo burro, fútil, irritante... e mesmo assim a questão nem é material comigo]. Quanto a ser imediatista: paciência tem limites pra que não se torne conformismo ou outra cabeça-durice qualquer.
É tudo uma questão de perspectiva, circunstância, compreensão.
Quando sento pra escutar fragmentos de canções, ver desenhos ou textos que produzi sinto-me mais vivo do que quando alguém reconhece ou me congratula por alguma atividade cotidiana que realizo. Não que eu seja realmente bom nessas coisas (tocar, desenhar e escrever), mas gosto de ver algum fruto meu e gosto de compartilhá-lo quando o acho legal, quando considero válido. E compartilhar os frutos do nosso esforço nos faz mais próximos uns dos outros, por ser outra forma de comunicação, de relacionamento. É muito importante, faz-nos sentir existentes num aspecto social, coletivo, interpessoal. E não é à toa que nos dias de hoje, dadas as circunstâncias nas quais somos obrigados a viver, que as pessoas são tão distantes nesse sentido, de compartilhamento, de interação. Ora, o esforço mais pregado nesse mundo é o da busca por dinheiro. Coisa que não adiciona nada de coletivo em ninguém, mas, pelo contrário, só fomenta individualismo.
O culto ao dinheiro está ininterruptamente atraindo novos adeptos [na verdade, somos imersos no mundo dele. Dia após dia ele se reafirma como sendo o único, inevitável e insubstituível caminho a ser percorrido pelas pessoas. De fato, ele construiu toda uma cultura aos seus pés, desenvolveu a vida humana segundo o manual, segundo a ordem, segundo a Palavra do Dinheiro]. Através de várias ilusões e fantasias que são alimentadas em torno dele, todo esse fetiche que ele possui. A satisfação, a felicidade, a autonomia, a liberdade que ele promete. O respeito, a superioridade, o poder e o domínio que ele simula. Toda essa imaterialidade com a qual ele mascara sua atuação única e exclusivamente material.
Vivemos no mundo concreto. Onde é necessário alimentar-se e obter descanso, no intuito de mantermos nossas funcionalidades biológicas. Isso demanda acesso a digno alimento e boas condições de descanso. Então, tratam-se de condições materiais, necessidades indispensáveis pro bom funcionamento de nosso organismo. O humano físico. Mas, fora isso, existimos em outros aspectos, tão importantes pra uma vivência agradável quanto o que é demandado de concreto pelo nosso corpo.
A Psicologia divide o ser humano esquematicamente como um ser constituído pela relação existente entre os âmbitos: Físico (correspondente a tudo que nos compõe materialmente, ao que nosso corpo demanda e produz), Mental (abarcando o que nos constitui emocional e intelectualmente, esse nosso lado imaterial de sentimentos, de idéias, entendimento e etc) e Social (cujo objeto é a interação do indivíduo com seu meio social, o grupo com o qual o indivíduo interage, do qual faz parte, do qual é derivado sócio-culturalmente). Sendo que quando estamos com algum problema num desses pilares que nos sustenta, todo o nosso ser está comprometido, em risco de crise, adoecimento e, até, morte.
Uma palavra que diz muito do mundo humano é “relação”. Somos essencialmente o resultado de nosso relacionamento com o mundo. Relacionamento com as coisas, com as pessoas, com as idéias, sentimentos. Somos relacionamentos materiais e imateriais, individuais e coletivos [Mas a falta de um desenvolvimento integral do ser humano atualmente, costumamos ter atrofiados outros tipos de relacionamentos que não sejam com as coisas e com o aspecto individual que nos constitui. As pessoas, as idéias, os sentimentos, o imaterial e o coletivo não são minimamente mencionados se comparados com o material, as coisas e o aspecto individual...].
A vida que é imposta a grande maioria de nós – especialmente os citadinos - não atende a todas as nossas necessidades. E nós mesmos, quando conversamos à respeito, geralmente nos mostramos conformadamente cientes disto tudo. Do muito esforço, do pouco descanso, da metronomia do relógio nos marcando os passos, da insatisfação crescente, da falta de calor nessas relações mundo afora, do medo de cair dessa corda-bamba na qual caminhamos, nos empurrando por necessidade de autopreservação.
E o que se pode fazer? Qual a solução [pro sofrimento]? Se é que existe alguma. Sendo que muitas vezes não sabemos nem dizer contra o que lutamos cotidianamente [e outras vezes nem sabemos que existe uma luta]. Outras vezes enxergamos o inimigo errado, os motivos errados... É importantíssima a ciência de que, na realidade, somos muito tolos, somos muito ignorantes, sem eufemismos: Somos burros mesmo. Burros, burros, burros. Intelectualmente, emocionalmente, interpessoalmente... Mas não por opção, claro. Ninguém pensa: “Cara, ser burro é tão legal. Eu também quero ser outra pessoa idiota, vazia e descartável!”. É puramente uma questão de condição a qual estamos submetidos arbitrariamente. Ser uma pessoa de capacidades desenvolvidas exige condições demais. O ser humano nunca pára de crescer [só quando acha que não cresce mais, que já é o maior que se pode ser, que alcançou o limite. Quando ele cai na cegueira do se achismo, na estupidez da arrogância e se condena a ser medíocre pelo orgulho]. Pessoas esclarecidas são raras. É uma aqui e outra acolá. A grande maioria é lixo orgânico vivo [eu sou lixo orgânico vivo], mas por questão de fatores históricos. Acontecimentos subseqüentes que desembocaram no que tudo é hoje. Essa falta toda que é. De alimento, de sentimento e entendimento.
A culpa não é de um dono só. O mundo não é de um único alguém. Muito menos de um pequeno conjunto... E minha circunstância mediocrezinha não é somente minha. Pois quando se é parte integrante de um todo, para o próprio todo, toda parte significa tudo... [deveria significar, pelo menos]
(Eu deveria parar de misturar tudo e falar de uma coisa de cada vez quando eu quiser falar... A bagunça que eu faço estraga tudo que é aproveitável)
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