Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ucrânia: rebelião popular frente a crise sócio-econômica




A mobilização de centenas de milhares de pessoas na Ucrânia forçou o governo a revogar as leis repressivas (anti-protestos), enfrentou e derrotou a polícia em muitos casos, e há dezenas de prédios públicos de ministérios ocupados e de províncias e forçou a renúncia do primeiro-ministro e todo o seu gabinete.

Ucrânia, um país de 45 milhões de habitantes, que pertenceu à antiga União Soviética, está enfrentando uma crise terminal relacionada com a crise mundial e o neoliberalismo extremo que levou à pobreza a grande parte da população, a massiva fuga de capitais por parte de uma oligarquia saqueadora que não paga impostos, são meses de atraso nos salários dos trabalhadores estatais, e o país não consegue pagar o gás importado da Rússia. O desemprego é muito elevado (8%) e o salário médio na Ucrânia é entre 2 e 2,5 vezes menor do que na Rússia e Bielorrússia, e muitíssimo menor do que na União Europeia. Estas são as razões básicas para o descontentamento popular e da força da mobilização. A rebelião tem relação direta com o processo da revolução árabe e os protestos em massa no país vizinho, Turquia.

O governo liderado pelo presidente Viktor Yanukovych é pró-russo, aliado a Vladimir Putin e é contra a adesão à União Europeia (UE). Putin parou o acordo com a UE concordando com Yanukovich baixar o preço do gás (a 50%) que lhe vende e se oferecendo um empréstimo de 15.000 milhões de dólares, mas vinculado a seus próprios planos de pilhagem da Ucrânia.A mobilização começou justamente em novembro de repudiando a decisão do governo de congelar o acordo de associação com a UE. A oposição burguesa, liderada pelo ex- primeiro-ministro Yuli Timoshenko, exige a entrada para a União Europeia e setores populares apoiam porque tem ilusões de que isto poderia melhorar a situação (enquanto que na Grécia ou no Estado Espanhol são muitos que dizem que tem de sair da União Europeia em crise, ante os ajustes antipopulares que esta impõe). Precisamente a mobilização popular com milhares de pessoas instaladas na Praça da Independência, em Kiev, adquiriu o nome de "Euromaidan" (Praça Europa). A revolta popular que se mantém desde há dois meses, transbordou a própria direção, enfrentou violentamente a polícia com centenas de feridos em ambos os lados e alguns mortos, agora exige novas eleições nacionais.

Os socialistas revolucionários apoiamos a mobilização do povo, da juventude e dos trabalhadores ucranianos por seus direitos democráticos, contra a dura repressão e pelo seu direito a decidir seu destino retirando o atual governo repressivo. Acreditamos que a solução não passa nem pela entrada na UE e nem em apoiar aos líderes dos capitalistas que estão saqueando o país, sejam situação ou "oposição", nem por acordos com a Rússia. Neste sentido, destacamos o manifesto do agrupamento ucraniano Oposição de Esquerda que convoca à lutar pelo não pagamento da dívida e à ruptura com o FMI e "nacionalizar a metalurgia, a mineração e as indústrias químicas, em conjunto com as empresas estruturais (energia, transportes e comunicações) que, controladas pelos trabalhadores, devem contribuir para o bem comum". Só um programa dos trabalhadores e do povo, com base em recuperar o controle das riquezas e da produção nacionais, pode começar a resolver a crise.

Miguel Lamas para "El Socialista" (de Izquierda Socialista, Argentina, UIT-CI)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O acordo Irã-Estados Unidos: se fecha o cerco contra a Revolução Síria

Por Layla Nassar, Josep Lluis del Alcazar

Na publicação "Lucha Internacionalista", do Estado Espanhol. Em 10/12/13.


No dia 24 de novembro Estados Unidos e Irã firmaram em Genebra um tratado provisório segundo o qual Teerã congelará durante sei meses seu programa nuclear em troca de um abrandamento das sanções. Nesse período se poderá negociar um acordo definitivo. O pacto tem o aval da alta representante da política exterior europeia, Catherine Ashton, e dos ministros de exteriores da Rússia, França, Alemanha, Reino Unido e China.

Israel, lança altos brados. Como sempre, fomenta o discurso do medo, ainda mais quando a luta dos povos da região abala seu quadro de estabilidade. Mas por trás de toda a conversa, Obama está fazendo seu trabalho: sem armas nucleares no Irã (e sem armas químicas na Síria) nada poderá ofuscar o maior exército do mundo. Mas no fundo fica uma pergunta que não tem nenhuma resposta justificável: Por que Israel pode ter armamento nuclear fora de todo o controle internacional (...) e o Irã tem que ceder senão quer ser afogado por sanções? Todo o aparato imperialista está trabalhando para conseguir que Israel - um dos quatro países do mundo que não ratificou o tratado de não proliferação nuclear - continue sendo a única potência nuclear no Oriente Médio, uma zona estratégica do planeta.

Por que Irã aceita as condições do imperialismo? A resposta chave é interna. As mobilizações e o mal estar entre a população, derivadas do impacto econômico da crise capitalista, agravado pelas sanções e a falta de liberdades (depois do esmagamento da revolta de 2008), tudo isto, poderia fazer chegar ao Irã a onda revolucionária que sacode, todavia, o Norte da África e o Oriente Médio.

O desemprego, que agora chega a 11,2% (3,5 milhões) ameaça disparar.

A taxa anual de inflação é de 39%. O rial, a moeda local, perdeu 75% de seu valor em dezoito meses. As exportações de petróleo passaram de 2,5 milhões de barrís diários em 2011 (por valor de 95.000 milhões de dólares) para menos de um milhão (69.000 em 2012). O valor de 2013 será ainda menor. Com o acordo se aliviam as sanções contra Teerã e a possibilidade de começar a exportar bruto.

Mas a colaboração entre o regime dos aiatolás e o imperialismo na região leva anos. De fato, Irã tem sido determinante para manter o governo da ocupação americana no Iraque de Nuri Al Maliki, que viveu o exílio entre Damasco e Teerã. No último 1º de novembro o primeiro ministro iraquiano visitava Washington com o tema das relações com Irã na agenda e se oferecia a facilitar a reta final das negociações.

O acordo sela a unidade contra a Revolução Síria


Os primeiros a felicitarem-se pelo acordo foram o ditador sírio Bashar Al-Assad e os islâmicos do Hezbollah, a milícia libanesa aliada de Teerã que combate na Síria junto ao regime. Também desde o Iraque, Maliki o saudou como um "grande passo para a segurança e estabilidade" na região. A negociação do acordo se cruzou com a ameaça de ataque imperialista na Síria. O teatro dos enfrentamentos entre os interesses do Irã e os do imperialismo quanto ao regime sírio desaparece e se evidencia o acordo de fundo entre o imperialismo e os Aiatolás: afogar a luta da juventude e dos trabalhadores.

Se fecha o cerco e o imperialismo pactua com os principais aliados do regime sírio: primeiro com Rússia a entrega do arsenal químico sírio para evitar um ataque direto; e agora com Irã que renuncie a disputar com Israel a hegemonia militar na região. Parece que as discrepâncias se acabam e se certifica a frente de "todos" contra o povo da Síria. Al-Assad pode estar tranquilo: ninguém de fora irá se interpor em seu caminho. Tampouco é casual que a outra contraofensiva da contrarrevolução, o golpe de estado do Egito que conta com o apoio dos norteamericanos e de Israel, também contara com o apoio do regime de Bashar Al Assad.

Com o acordo entre os Estados Unidos e Irã, o regime de Al Assad tem carta branca para interromper a Revolução, agora ainda mais isolada. Nos dias em que se firmavam os acordos, o regime lançava uma nova ofensiva na região de Qalamun contra as posições rebeldes com o apoio de Hezbollah e das milícias xiitas iraquianas.

Faz falta a solidariedade internacional com a luta do povo sírio

A Revolução Síria se enfrenta com um governo ao qual não falta armamento, que chega da base russa e do Irã, enquanto se aplica o embargo dos Estados Unidos e da União Europeia contra as forças revolucionárias. A entrada de armamento procedente de Qatar e Arábia Saudita, e consentida pela Turquia a conta-gotas, tem sido dirigida a setores islâmicos (Al Nusra e o Exército Islâmico do Iraque e Síria), que lutam por objetivos totalmente alheios ao da Revolução e tem imposto um conflito sectário que trouxe confrontos com os comitês locais, o exército livre e os curdos.

Mas, apesar desse brutal isolamento, a resistência do povo sírio contra o regime não pára. Possivelmente porque os 150.000 mortos e as dezenas de milhares de detidos, desaparecidos e torturados são muitas razões para continuar a luta. Mas a esquerda internacional, a que deveria se colocar ao lado deste povo contra o tirano, o imperialismo e o bloqueio das grandes potencias que querem estabilidade a qualquer preço, abandonou este povo.

Aqueles que se identificam com o chavismo o fazem abertamente, apoiando o regime assassino. Os PCs assinando teorias conspiratórias, negam mesmo a existência da revolução. E outro setor diz: "que não se molha" porque tudo é "muito complicado", que exige uma revolução "pura" para terminar impondo ao povo sírio uma série de condições que não se aplica à esquerda em sua prática cotidiana. E com esta política de uns e outros, a esquerda síria está cada dia mais isolada, sem armamento e sem apoio político nem material, enquanto o islamismo vai se impondo sobre o terreno, com a força que chega de fora. Basta de silêncio cúmplice, faz falta de uma vez por todas colocar em marcha a solidariedade internacional com o povo da Síria.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A morte de Nelson Mandela

Escrito por Miguel Lamas, jornal "O Socialista" 12/12/13, de Izquierda Socialista, seção Argentina da Unidade Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional.

As duas faces da trajetória de Mandela. A da luta revolucionária contra o regime racista e a posterior, de suporte do capitalismo na África do Sul.

Quase não houve líder da política mundial imperialista e até do empresariado mundial, que não tenha expressado uma grande admiração pelo recém falecido líder sulafricano Nelson Mandela. Na época do Apartheid, muitos deles estavam apoiando o seu encarceramento. Que agora rendam homenagens também mostra as duas caras da trajetória de Mandela. A da luta revolucionária contra o regime racista e, mais tarde, a de sustentáculo do capitalismo na África do Sul.

Todos o elogiam porque, dizem eles, soube "reconciliar" os brancos e negros na África do Sul.

Mas nem todos o lamentaram pela mesma razão. A maioria negra (80% de 50 milhões de habitantes) venera Mandela como um libertador, um herói nacional que liderou a luta contra o sinistro regime racista do apartheid.

O apartheid


O regime do apartheid (separação) foi imposto pela minoria branca colonialista descendente de ingleses e holandeses que haviam colonizado o país desde o século XVII. Os negros não tinham direito ao voto, não podiam entrar em bairros brancos, nem em hotéis, escolas, hospitais ou transportes "para brancos". Em 300 anos de colonialismo haviam sido despojados de quase tudo: as melhores terras e a propriedade das minas e fábricas estava (e ainda está) nas mãos dos brancos. Aos negros se reservou o papel de mão de obra barata.

Por ter liderado a luta revolucionária nacionalista negra, liderando o Congresso Nacional Africano (CNA), Mandela foi preso durante 27 anos, desde 1963 à 1990, entre os 44 e os 72 anos de idade. A rebelião dos negros, liderada pelo CNA e a central operária COSATU, que incluiu a resistência armada, foi sangrentamente reprimida, milhares de ativistas negros foram presos, torturados e assassinados. Mesmo assim a rebelião não se deteve e conseguiu apoio mundial, dos povos africanos e dos afro-norteamericanos, que realizaram um boicote planetário contra o regime racista. Mandela, encabeçando o CNA, foi o grande líder da revolução para destruir a ditadura do apartheid. Por esse fato Mandela foi amado por seu povo. Contudo, e com a influência do Partido Comunista Sul-Africano e o castrismo, já dizia que seu objetivo não era uma revolução socialista.

Queda do apartheid

Em 1990, o regime do apartheid foi isolado internacionalmente, diante de uma rebelião negra imparável. Em 1990, Mandela, ainda preso, pediu para se encontrar com Frederick Le Klerk, chefe do governo racista, e propôs um acordo para que o libertassem da prisão: suprimir o regime do apartheid e convocar eleições com base em "um homem, um voto", a consigna democrática negra. Em troca, Mandela se comprometeu a garantir as propriedades dos brancos e deixar impune o genocídio contra os negros. Mandela explicou a Le Klerk que essa era a única maneira de "reconciliar" brancos e negros, e que, caso não aceitasse esse acordo, a revolução negra seria imparável e os capitalistas racistas brancos perderiam tudo. Le Klerk aceitou o acordo.

A queda do apartheid não foi uma concessão generosa de Le Klerk, mas um triunfo revolucionário das massas negras. Mas, com o acordo com Mandela, conseguiram impedir o desenvolvimento da revolução até seu cume, o que significava a expropriação de terras e minas que os colonizadores brancos tinham roubado do povo negro. Impediram a vitória de uma revolução socialista. O acordo foi uma traição a essa luta. Assim, Mandela e o CNA no governo, desempenharam o mesmo papel que na Nicarágua cumpriu o sandinismo quando derrubou Somoza em 1979, ou Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, o PT de Lula no Brasil. Ao serem direções partidárias da conciliação de classes, para manutenção do capitalismo, por serem "parceiros das transnacionas" (como disse Evo Morales), traíram os objetivos sociais da revolução, pactuando com os capitalistas. No caso da África do Sul, com os capitalistas brancos.

O CNA ganha as eleições

Foi assim que, em 1994, o CNA venceu as eleições levando Nelson Mandela à presidência, que incluiu em seu governo o antigo chefe racista Frederico Le Klerk.

Uma minoria de capitalistas negros, a maioria deles novos ricos líderes do CNA, puderam acessar a lugares anteriormente proibidos. Mas praticamente não houve nenhuma mudança em relação ao poder econômico monopolizado pelos brancos que seguem sendo donos das terras, minas, fábricas e grandes cadeias comerciais. Chegando à África do Sul de hoje, um país com igualdade jurídica, mas com a maior desigualdade social do mundo, com 50% de pobres (quase todos negros) e 12% do povo com AIDS.

O próprio governo de Mandela começa a aplicar um duro plano neoliberal. Os negros que antes não tinham acesso a hospitais ou escolas para brancos, agora tampouco podem fazê-lo. Porque foram privatizados e seu preço é proibitivo. Em 1999, termina o mandato de Mandela, que se retira. Os presidentes que o sucedem, também do CNA, Thabo Mbeki e logo o atual Jacob Zuma, aprofundaram o modelo capitalista neoliberal.

A "reconciliação" fracassou

No funeral de Mandela o atual presidente negro Jacob Zuma, do partido de Mandela, foi vaiado. O desastre social produzido pelo capitalismo, ainda dominado por brancos, trouxe de novo a maioria negra à uma nova revolução. Assim é demonstrado pelas grandes greves dos últimos dois anos. Uma greve emblemática foi a da mina de platina Marikana, no ano passado, onde 34 mineiros foram assassinados por negros comandados por brancos. As imagens abalaram o país porque pareciam ter saído dos tempos do apartheid. O forte movimento operário negro está se reorganizando e em muitos sindicatos se abriu uma dura luta contra a burocracia sindical que responde ao CNA.

Este ano, durante dois meses, havia centenas de milhares de trabalhadores em greve, na construção civil, metalurgia, mineração e funcionários públicos. O NUMSA, sindicato metalúrgico com 400.000 trabalhadores, liderou uma das greves mais duras e ameaçou retirar o apoio ao governo nas próximas eleições. Este fato por si só abre a discussão sobre a necessidade de uma alternativa política dos trabalhadores para conduzir uma nova revolução socialista que liquide o poder capitalista na África do Sul.