Por Miguel Lamas
A visita do Papa Francisco I ao Brasil - planejada pelo Papa anterior, Bento XVI, antes de sua renúncia - adquiriu uma nova dimensão política após as gigantescas mobilizações de milhões de pessoas em Junho e no "Dia Nacional de Luta" dos trabalhadores no 11 de Julho.
Estas grandes manifestações, protagonizadas principalmente por jovens, inciadas por protestos contra o aumento das tarifas de ônibus, conseguiu uma primeira vitória impondo o cancelamento do aumento das tarifas de transportes, e evoluindo rapidamente à demanda por saúde, educação e trabalho, mostrando que o "milagre" brasileiro sob o governo do PT beneficiou, principalmente, aos bancos, às transnacionais e latifundiários do agronegócio, mas não aos trabalhadores e o povo.
Como evento extraordinário para o Brasil, os manifestantes questionaram fortemente os gastos de bilhões de dólares para a construção de estádios para a Copa do Mundo. As "Jornadas de Junho" abruptamente mudou a realidade política brasileira. A presidente Dilma Rousseff, que tinha um índice de aprovação de 58% antes dos protestos, caiu agora para os 30%. Os manifestantes estão exigindo a renúncia de governadores, como Sergio Cabral do Rio de Janeiro, onde as manifestações foram muito grandes e onde chega o Papa.
Em 11 de Julho houve outro fato extremamente importante, que era a unidade dos oito centrais sindicais em um dia nacional de luta, no qual milhões de trabalhadores mostraram a vontade de lutar por suas reivindicações, apesar do freio das direções sindicais governistas (especialmente da CUT) que se recusam a organizar uma greve geral.
A visita papal e da Igreja no Brasil
O Papa visita durante 7 dias o Brasil, onde ele preside, no Rio de Janeiro, a Jornada Mundial da Juventude (a Igreja estima 2 milhões de participantes).
A Igreja Católica brasileira sempre teve uma significativa influência política. No Brasil foi muito forte a "Teologia da Libertação", que se originou na década de sessenta e mobilizou milhares de padres e freiras para organizar as Comunidades Eclesiais de Base que atingiram milhões de participantes e teve forte influência sobre o massivo Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (camponeses) e também no surgimento do Partido dos Trabalhadores. Se baseava no chamado "compromisso com os pobres". Os sacerdotes Frei Betto e Frei Leonardo Boff, tiveram uma influência decisiva na fundação, em 1979, do Partido dos Trabalhadores, liderado pelo fervoroso católico Lula.
Apesar das intenções e honestos esforços de milhares de militantes católicos da teologia da libertação, que lutaram para melhorar a vida dos pobres e reforçaram a sua mobilização de luta - em muitos casos foram reprimidos, presos e torturados por isso - a cúpula da Igreja Católica orientou esse movimento para impedir um desenvolvimento revolucionário e conduzi-lo rumo à conciliação de classes do Partido dos Trabalhadores com o capitalismo, que terminou, no poder, aliando-se às multinacionais, aos bancos e ao agronegócio, e o próprio Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra converteu-se em um dos pilares do governo do PT, em grande parte abandonando a luta histórica pela terra. A Igreja Católica, como uma instituição global, está aliado desde o Império Romano aos exploradores e ricos e não aos pobres. João Paulo II e, especialmente Ratzinger, Bento XVI, perseguiram os teólogos da libertação. A Leonardo Boff chegaram a puni-lo com um ano de silêncio.
Agora Francisco I vem dizer "reconciliar-se" com a Teologia da Libertação, para reforçar a influência da Igreja Católica (que desde 1970 caiu de 90% de fiéis para os 57% de hoje) e, mais uma vez, para tentar frear a rebelião de milhões de jovens e do povo no Brasil. Por um lado falou que não se atendem as questões da juventude, como a necessidade de trabalho e disse que se deve "alimentar a chama do amor fraternal". Mas não mencionou os responsáveis capitalistas, governos como o de Dilma Rousseff, as multinacionais e os banqueiros, culpados diretos da exclusão (Teria-se que amá-los e convencê-los de que "amem" aos pobres?). Por isso Dilma Rousseff pôde saudar, ao lado do Papa, o seu discurso, propondo uma "aliança entre o governo e a Igreja no combate à pobreza."
Preparar a greve geral
Pr'além da confusão que poderia provocar o Papa e a Igreja, uma vez que eles têm prestígio em setores da população, o povo, a juventude e os trabalhadores já saíram massivamente às ruas e comprovaram que eles podem impor suas demandas (como foi o cancelamento de aumento das tarias) com a luta (e não com o "amor" aos exploradores) e que o governo de Dilma Rousseff é o principal responsável pela situação dos jovens e do povo. Como diz o jornal Combate Socialista da CST/PSOL: "As centrais falam de uma nova jornada de luta em 30 de Agosto, no entanto sem fazer assembleias para discutir com as bases. É necessário preparar uma verdadeira greve geral, com assembleias de base democráticas, para discutir o programa de luta, que tem que ter como centro enfrentar e derrotar o governo de Dilma Rousseff, a sua política econômica e seu pacto de ajuste fiscal. Essa será a única maneira de conquistar o passe livre, serviços de saúde e educação de qualidade, salários de acordo com a inflação, a prisão dos corruptos... unificando a juventude com a classe trabalhadora."
FONTE: UIT-CI
Sobre este blog:
Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
terça-feira, 23 de julho de 2013
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Albert Einstein: Porquê o Socialismo?
por Albert Einstein
Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos económicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do socialismo? Eu penso que sim, por uma série de razões.
Consideremos antes de mais a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Poderá parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas em ambos os campos tentam descobrir leis de aceitação geral para um grupo circunscrito de fenómenos de forma a tornar a interligação destes fenómenos tão claramente compreensível quanto possível. Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no campo da economia torna-se difícil pela circunstância de que os fenómenos económicos observados são frequentemente afectados por muitos factores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente económicas por natureza. Por exemplo, a maior parte dos principais estados da história ficou a dever a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram as terras e nomearam um clero de entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores segundo o qual as pessoas se têm guiado desde então, até grande medida de forma inconsciente, no seu comportamento social.
Mas a tradição histórica é, por assim dizer, coisa do passado; em lado nenhum ultrapassámos de facto o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis pertencem a essa fase e mesmo as leis que podemos deduzir a partir deles não são aplicáveis a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objectivo do socialismo é precisamente ultrapassar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu actual estado não consegue dar grandes esclarecimentos sobre a sociedade socialista do futuro.
Segundo, o socialismo é dirigido para um fim sócio-ético. A ciência, contudo, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não nascerem já votados ao insucesso, mas forem vitais e vigorosos – adoptados e transportados por aqueles muitos seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da sociedade.
Por estas razões, devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre questões que afectam a organização da sociedade.
Inúmeras vozes afirmam desde há algum tempo que a sociedade humana está a passar por uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu pensamento, permitam-me que exponha aqui uma experiência pessoal. Falei recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e comentei que só uma organização supra-nacional ofereceria protecção contra esse perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me: “Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”
Tenho a certeza de que há tão pouco tempo como um século atrás ninguém teria feito uma afirmação deste tipo de forma tão leve. É a afirmação de um homem que tentou em vão atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de ser bem sucedido. É a expressão de uma solidão e isolamento dolorosos de que sofre tanta gente hoje em dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?
É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com um certo grau de segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente do facto de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.
O homem é, simultaneamente, um ser solitário e um ser social. Enquanto ser solitário, tenta proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são próximos, satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas. Enquanto ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus semelhantess, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Apenas a existência destes esforços diversos e frequentemente conflituosos respondem pelo carácter especial de um ser humano, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode atingir um equilíbrio interior e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente possível que a força relativa destes dois impulsos seja, no essencial, fixada por herança. Mas a personalidae que finalmente emerge é largamente formada pelo ambinte em que um indivíduo acaba por se descobrir a si próprio durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade, e pelo apreço por determinados tipos de comportamento. O conceito abstracto de “sociedade” significa para o ser humano individual o conjunto das suas relações directas e indirectas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. O indíviduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que lhe fornece comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível através do trabalho e da concretização dos muitos milhões passados e presentes que estão todos escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”.
É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido – tal como no caso das formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e abelhas é reduzido ao mais pequeno pormenor por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as interrelações dos seres humanos são muito variáveis e susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta, e como neste processo o pensamento e a vontade conscientes podem desempenhar um papel.
O homem adquire à nascença, através da hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, com a passagem do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos, através da investigação comparativa das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode divergir grandemente, dependendo dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que aqueles que lutam por melhorar a sorte do homem podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, devido à sua constituição biológica, a exterminarem-se uns aos outros ou a ficarem à mercê de um destino cruel e auto-infligido.
Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar permanentemente conscientes do facto de que há determinadas condições que não podemos alterar. Como mencionado anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os objectivos práticos, não está sujeita à mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações com fixação relativamente densa e com bens indispensáveis à sua existência continuada, é absolutamente necessário haver uma extrema divisão do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um pequeno exagero dizer-se que a humanidade constitui, mesmo actualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo.
Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egotismo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo naïve, simples e não sofisticado da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, apenas dedicando-se à sociedade.
A anarquia económica da sociedade capitalista como existe actualmente é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos perante nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros lutam incessantemente para despojar os outros dos frutos do seu trabalho colectivo – não pela força, mas, em geral, em conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo bem como bens de equipamento adicionais – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.
Para simplificar, no debate que se segue, chamo “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda exactamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está em posição de comprar a mão-de-obra. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. A questão essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que recebe, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas para a mão-de-obra em relação ao número de trabalhadores que concorrem aos empregos. É importante compreender que, mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.
O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses das secções sub-privilegidas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar a conclusões objectivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos.
Assim, a situação predominante numa economia baseada na propriedade privada do capital caracteriza-se por dois principais princípios: primeiro, os meios de produção (capital) são privados e os detentores utilizam-nos como acham adequado; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro que não há tal coisa como uma sociedade capitalista pura neste sentido. É de notar, em particular, que os trabalhadores, através de longas e duras lutas políticas, conseguiram garantir uma forma algo melhorada do “contrato de trabalho livre” para determinadas categorias de trabalhadores. Mas tomada no seu conjunto, a economia actual não difere muito do capitalismo “puro”.
A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e queiram trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe quase sempre um “exército de desempregados. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.
Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de aquisição como preparação para a sua futura carreira.
Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeque a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.
No entanto, é necessário lembrar que uma economia planeada não é ainda o socialismo. Uma tal economia planeada pode ser acompanhada pela completa opressão do indivíduo. A concretização do socialismo exige a solução de problemas socio-políticos extremamente difíceis; como é possível, perante a centralização de longo alcance do poder económico e político, evitar a burocracia de se tornar toda-poderosa e vangloriosa? Como podem ser protegidos os direitos do indivíduo e com isso assegurar-se um contrapeso democrático ao poder da burocracia?
A clareza sobre os objectivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Visto que, nas actuais circunstâncias, a discussão livre e sem entraves destes problemas surge sob um tabu poderoso, considero a fundação desta revista como um serviço público importante.
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Einstein escreveu este trabalho especialmente para o lançamento da Monthly Review , cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1949. Tradução de Anabela Magalhães.
Texto original em: http://www.monthlyreview.org/598einst.htm.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Egito: Basta de repressão! Nenhum apoio aos militares!
Por Miguel Lamas (El Socialista - Izquierda Socialista, Argentina)
Egito após a queda de Mursi
Nesta última segunda-feira o Exército massacrou uma manifestação de civis desarmados, da Irmandade Muçulmana, assassinando a 51 pessoas e deixando a 451 feridos à bala de guerra, no Cairo. O terrível incidente ocorreu poucos dias depois da queda do presidente Mohamed Mursi causada por manifestações de milhões de pessoas que exigiam sua saída.
Os militares deram um golpe, em 3 de julho, fingindo estar ao lado do povo, jogando flores desde as aeronaves para a multidão e dizendo que era para "democratizar". Os militares já não podiam mais sustentar Mursi e corriam o risco de que destruíssem as próprias Forças Armadas, cujos soldados confraternizavam com os manifestantes.
A Irmandade Muçulmana é o movimento que constituiu a base do governo Mursi, e agora manifestavam-se para que o libertassem (está preso) e o reconduzissem ao poder. A brutal repressão militar se descarrega sobre eles, apesar de que até duas semanas atrás os militares apoiavam o governo de Mursi. Eles não se atreveram a reprimir milhões de pessoas mobilizadas contra Mursi. Em vez disso, reprimiram selvagemente a mobilização pacífica da Irmandade Muçulmana. Essa repressão pode se voltar amanhã contra a esquerda, os sindicatos ou aos jovens que se mobilizaram contra Mursi. Por isso é necessário repudiá-la como um ato aberrante que deve ser punido e que mostra que os militares e seu novo governo, liderado por Adli Mansur, um juiz que presidiu o Suprema Corte de Justiça, não são uma alternativa para o povo como eles dizem.
A rebelião contra Mursi, o golpe e o novo governo
Mursi venceu as eleições em junho de 2012 e rapidamente decepcionou as expectativas populares. Em janeiro de 2011, o povo egípcio se revoltou contra a ditadura de Mubarak exigindo liberdades democráticas, mas também para exigir melhores salários, mais trabalho e pôr um fim à exploração das multinacionais e grupos empresariais ligados aos militares. Mas Mursi, pactuando com as Forças Armadas, seguiu com uma política neoliberal governando com as multinacionais, grandes empresários e banqueiros e pactuando com Obama, aplicando as prescrições do FMI sobre a flexibilização trabalhista. Ainda atribuiu a si próprio superpoderes, enquanto o país se afundava em uma grave crise sócio econômica, mantendo-se o massivo desemprego entre os jovens.
Como resultado, as massas se levantaram contra Mursi e ocuparam durante dias a Praça Tahrir, clamando por uma "segunda revolução". A queda de Mursi foi provocada por essa mobilização revolucionária do povo e não pelos militares. Equivocadamente milhares comemoraram o papel dos militares.
Na semana passada, a Unidade Internacional dos Trabalhadores (UIT-CI), em uma declaração apoiando ao movimento popular pela derrubada de Mursi, advertiu: "Nós rechaçamos ao golpe militar! Nenhuma confiança nos militares nem no governo de "transição"! O golpe militar é um rearranjo das Forças Armadas, diante do medo da revolução e das massas. Assim querem evitar que siga se desenvolvendo a revolução e que percam o controle. (...) Seu principal objetivo não é atender às demandas das massas, mas permanecer no poder por meio de governos submissos, desde onde protejam seus interesses econômicos em aliança com multinacionais e setores do imperialismo, enquanto o povo trabalhador segue afundando na pobreza e no desemprego. Além disso, as Forças Armadas egípcias têm acordos com os EUA, dos quais recebem milionárias somas de dinheiro para seu armamento..."
A mobilização popular que derrubou a Mursi, foi liderada pelo movimento Tamaroud (Rebela-te), com grande peso da juventude, que afirma ter reunido cerca de 22 milhões de assinaturas por um abaixo-assinado exigindo a renúncia de Mursi.
Tamaroud faz parte da Frente de Salvação Nacional, composta por forças e figuras políticas burguesas como Mohamed Al Baradei, figura apoiada pelo imperialismo, ex-chefe da agência de controle nuclear da ONU. Esta frente apoiou abertamente ao golpe militar. A frente designou ElBaradei para estar no governo "de transição" junto com o partido ultra islâmico Al Noura.
Em poucos dias os militares, com a repressão, começam a desmascarar-se. Abrindo também uma crise política já que o partido Al Noura rompeu com o governo pela repressão da segunda-feira, 8. No fim das contas, seguia aberta a crise, a repressão e a instabilidade política.
É necessária uma alternativa revolucionária
O problema central da revolução egípcia é a falta de uma direção revolucionária. Nem a Irmandade Mulçumana, nem os militares, nem os seus atuais aliados "liberais" liderados por Baradei podem oferecer uma saída a favor do povo, dos trabalhadores e dos jovens, porque todos servem ao imperialismo, às multinacionais e aos grandes empresários. E podem colocar o Egito à beira de uma guerra civil. Diante da crise é necessária uma alternativa revolucionária independente de todos os setores patronais. Uma alternativa dos movimentos juvenis, os comitês populares que começaram a se formar na mobilização, os novos sindicatos de trabalhadores, que devem repudiar a repressão e deixar de apoiar ao governo "civil-militar" para planejar a construção de um poder operário e popular.
O governo civil-militar reprime e pretende reformar a Constituição com um grupo de "notáveis", amigos das Forças Armadas. É necessário mobilizar-se para repudiar as ações militares repressivas, a comissão de "notáveis" e exigir a convocação imediata de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, com plenos poderes para decidir como será a economia, a educação e a organização política do país.
Nesse sentido, devemos continuar impulsionando a mobilização de massas por um plano econômico que dê as soluções que o povo exige, pela expropriação das empresas multinacionais, das empresas dos militares e dos grandes grupos econômicos nacionais, pela nacionalização dos bancos, pelo não pagamento da dívida externa para, com esses recursos, conceder um aumento salarial imediato, dar pleno emprego e melhor educação e saúde para todos e pela vigência do pleno exercício das liberdades democráticas e contra todas as formas de repressão; julgamento e punição aos autores dos massacres populares.
Fonte: UIT-CI
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Há 60 anos morria Stalin
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| Postdam (aos arredores de Berlim), 1945. Se reuniram Churchill, Truman e Stalin e pactuaram as "zonas de influência". |
O homem que traiu o leninismo e a revolução
Em 5 de março de 1953, vítima de uma hemorragia cerebral, morreu um dos homens mais poderosos do século XX. A URSS e sua "esfera de influência" já não existem mais. O debate sobre o papel de Joseph Stalin continua plenamente válido para os revolucionários do século XXI.
Em 1953, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), o maior país do mundo, era a segunda potência industrial e se preparava para disputar a conquista do cosmos com os Estados Unidos. Até então, para a "história oficial" do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e suas agências, que dominaram a Europa Oriental, essas conquistas foram graças ao trabalho de um homem: o "pai" Stalin. Apenas três anos depois, o novo secretário-geral do PCUS, Nikita Khrushchev, que fazia um "relatório secreto" contra Stalin e se iniciava uma "desestalinização". Em ambos os casos, a burocracia mentia ao povo soviético e para os trabalhadores do mundo, para preservar seus privilégios e a convivência com o imperialismo.
A ascensão de Stalin ao poder
Em meados dos anos 20 se produziram na jovem URSS mudanças muito profundas. Em 1917, se tinha conseguido a vitória do primeiro governo operário e camponês na história, apoiado na mobilização dos trabalhadores e do povo da Rússia e das nacionalidades oprimidas pelo czarismo. Se assentava nos sovietes, a democracia operária e a condução revolucionária e internacionalista do Partido Bolchevique. O imenso sacrifício que permitiu ao povo soviético ganhar uma sangrenta guerra civil deixou o país devastado. Na Europa, especialmente na Alemanha, a traição da socialdemocracia impediu novos triunfos da revolução socialista.
Neste contexto, enquanto se agravava seu frágil estado de saúde, Lenin começou uma dura batalha contra a burocratização do Estado e do partido. O seu apoio fundamental no Politburo era Leon Trotsky. O chefe da nascente burocracia era Joseph Stalin.
Favorecido pela morte de Lenin, Stalin ganhou o controle do aparato burocrático. Em 1924 se iniciou um curso de contra-revolução política, que se sintetizou na fórmula nefasta do "Socialismo em um só país". Apoiando-se no cansaço das massas soviéticas, o aparato burocrático conseguiu derrotar a Trotsky e a Oposição de Esquerda.
A regressão político se assentou no estabelecimento de uma ditadura cruel. Nos anos 30 reinava na URSS um regime repressivo que impôs um genocídio, com milhões de perseguidos, deportados a campos de concentração e mortos. Os "processos de Moscou" levou ao fuzilamento do que restava da velha direção bolchevique. Trotsky foi assassinado no exílio em 1940 por um agente de Stalin. Igualmente nefasta era a política de conciliação com as burguesias, chamada de "Frente Popular", e a substituição do partido leninista para sua caricatura, o "centralismo burocrático" stalinista.
A URSS no pós-guerra
Graças aos enormes esforços do Exército Vermelho e do povo soviético, que custaram 20 milhões de mortos, a URSS desempenhou um papel protagonista na Segunda Guerra Mundial para esmagar o nazismo (ver "70 anos após a vitória de Stalingrado"). Stalin foi capaz de fortalecer a sua figura adjudicando-se os méritos dessa conquista. E pessoalmente liderou os pactos que assinou com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos para estabelecer uma divisão do mundo no âmbito da dominação imperialista. Se fixaram as "esferas de influência" do pós-guerra. A burocracia soviética estendeu o seu poder através da criação de regimes semelhantes ao da URSS na Europa Oriental, as "democracias populares". A partir de 1949 se fortaleceu ainda mais pela vitória da revolução socialista na China, sob a liderança do Partido Comunista e de Mao Tse Tung.
No início dos anos 50, em um terço da humanidade se tinha expropriado a burguesia, com regimes totalitários. Stalin era o supremo ditador do assim chamado "socialismo real". Mas as massas soviéticas tinham começado a recuperar-se do esforço de guerra e se iniciava um novo ascenso, que provocou rearranjos e temores nas cúpulas da burocracia.
A morte de Stalin caiu bem à burocracia
Ainda hoje é muito comentando se Stalin teve um acidente vascular cerebral ou foi envenenado. Tudo seria possível nos corredores do poder stalinista e, em última instância, tem pouca ou nenhuma importância. O fato é que 1953 foi um ano abalado por novos atos de revolta das massas. Na URSS se produziram as grandes greves dos campos de concentração de Vorkuta e Cazaquistão. E em Berlim Oriental, pela primeira vez houve uma importante greve operária que foi esmagada pelo ocupante Exército Vermelho.
Os dois principais tenentes de Stalin eram Gregory Malenkov e Laurente Beria, que pretendiam manter-se no topo da cúpula. Eles não conseguiram. Beria, chefe dos sinistros serviços secretos, foi baleado em dezembro. O novo Secretário Geral, Nikita Khrushchev, foi consolidando sua manipulação e seu poder. Em 1955 foi destituído Malenkov.
Para fornecer uma válvula de escapre às reivindicações crescentes contra a ditadura, a burocracia encontrou seu bode expiatório: o falecido Stalin. Em fevereiro de 1956, com um relatório surpreendente e repentino de Khrushchev, foram atribuídos "erros" e um injustificável "culto da personalidade" (ver El Socialist nº 23). Não houve nenhum tipo de revisão ou crítica às políticas de pactuação com o imperialismo e as burguesias, que levavam à derrota ou estagnação das revoluções. A única questão "política" foi reivindicar como grande mérito de Stalin sua perseguição ao "trotskismo".
Este "mudar para que nada mude" teve sua confirmação em Outubro de 1956, quando o Exército Vermelho esmagou à sangue e fogo os trabalhadores húngaros que reivindicavam socialismo sem exército de ocupação e repressão. De qualquer forma, para manter a "desestalinização", em 1961, o caixão de Stalin foi retirado do lugar de maior honra que ocupava no mausoléu central junto a Lenin e mudou-se para as muralhas do Kremlin.
60 anos depois
Hoje, praticamente ninguém nega o caráter despótico do regime de Stalin e continuam saindo à luz seus traços genocidas, que Trotsky denunciou na década de 30. Alimenta-se assim a versão dos imperialistas e da socialdemocracia de que a URSS era simplesmente uma sinistra ditadura totalitária "herdeira do leninismo". Em sentido oposto, algumas vozes de "esquerda" continuam justificando a Stalin e seus crimes, com o argumento absurdo de que era a única maneira possível para que avançasse o "socialismo". Ao mesmo tempo, como a expropriação da burguesia foi revertida e se restaurou a exploração capitalista-imperialista em todo o mundo, muitas vozes tiram a conclusão de que fracassou esse falso "socialismo" porque houve um equivocado "estatismo".
Para desenvolver esses debates, é imprescindível lembrar a luta de Lenin, Trotsky e da Oposição de Esquerda para impedir a vitória e a consolidação do aparato burocrático que Stalin encabeçou. Trotsky argumentava que seria inevitável o fracasso da burocracia caso permanecesse no poder, já que iria transformar sua capitulação ao imperialismo na restauração direta do capitalismo. Só com uma nova revolução, que esmagasse a burocracia e retomasse o caminho inicial de luta consequente contra a burguesia e o imperialismo, de independência de classe e democracia operária, que se poderia ter salvo a URSS. Segue pendente a luta pela vitória da revolução socialista e a reconstrução da direção operária e internacionalista que a encabece.
A "sífilis" do movimento operário mundial
Em suma, como tantas vezes se referiu Nahuel Moreno aos partidos comunistas stalinistas. Desde 1953 observou que a morte de Stalin não alterou o problema mais grave da humanidade, vencer a burocracia e superar a crise de direção instalada na década de 20. Essa é a razão de ser da luta de Trotsky e o trotskismo revolucionário.
Moreno fazia uma sistemática contraposição entre leninismo e estalinismo. Dizia em 1957, comentando a "unanimidade" burocrática: "Este sinistro regime totalitário [stalinista] não tem nada a ver com o verdadeiro leninismo, com o comunismo. Com Lênin era exatamente o contrário que ocorria: não houve um só problema importante - uma vez que se fez a revolução para a guerra contra a Polônia - que resolveu, por unanimidade. Nunca havia unanimidade. Lenin foi derrotado repetidas vezes, embora a guerra civil e a defesa contra o ataque imperialista de vinte nações impuseram enormes restrições às liberdades democráticas operárias. A tendência dos leninistas era, precisamente, alcançar a uma democracia como jamais conheceu a humanidade."*
O regime inaugurado por Stalin, até que finalmente as massas soviéticas acabaram com ele, foi um dos mais terríveis que a humanidade já conheceu.
* "El marco histórico de la revolución húngara". Ver Escritos sobre a revolução política em www.nahuelmoreno.org
FONTE: UIT-CI
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sexta-feira, 5 de julho de 2013
Egito: A mobilização revolucionária derrubou Mursi!
Nenhum apoio aos militares! Só os trabalhadores e o povo no poder serão solução!Egito. Praça Tahrir. Declaração da UIT-CI
A queda do presidente Mursi, no Egito, foi o resultado de uma imensa mobilização revolucionária do povo trabalhador, dos jovens e mulheres concentrados vários dias na Praça Tahrir. As Forças Armadas deram um golpe para derrubar Mursi e instalar um novo governo de "transição" obrigados pelas circunstâncias e para evitar que o processo revolucionário passasse por cima deles também, que vinham respaldando o governo de Mursi.
O povo egípcio voltou a sair às ruas e novamente ocupou a Praça Tahrir, exigindo que Mursi se fosse, porque este governo do partido islâmico da Irmandade Muçulmana (HH) rompeu com as expectativas abertas pelo povo egípcio há um ano. A revolução de 2011, foi feita para exigir liberdades democráticas, mas também para exigir melhores salários, mais trabalho e por um fim à exploração das multinacionais e grupos empresariais ligados aos militares. Essas expectativas foram frustradas pelo governo Mursi, apoiado pelas Forças Armadas, que seguiu governando para as multinacionais, grandes empresas e banqueiros, pactuando com Obama, e endossando o corrupto poder empresarial dos militares. O presidente Mursi, surgido a partir de uma poderosa revolução democrática, editou decretos que outorgavam a ele superpoderes como presidente. Enquanto isso, o país mergulhava em uma grave crise sócio-econômica, com uma inflação de 8%, um desemprego de cerca de 15% e uma economia semi-paralisada, onde o turismo, uma das principais fontes de receitas caiu 30%, o que foi aumentando a insatisfação e o protesto social.
Por isso as massas saíram às ruas sob as consignas "Fora Mursi" e "por uma segunda revolução". Estima-se que a mobilização na Praça Tahrir passou a ser maior do que a do triunfo da revolução no início de 2011 que pôs fim à ditadura de Mubarak. Então, também os militares, que tinham sido o sustentáculo do antigo regime, cederam à força da revolução popular e deixaram cair o ditador.
Outra vez os protagonistas centrais da mudança são as massas mobilizadas e não os militares, que na nova etapa, foram o principal esteio sustentador do governo Mursi e a Irmandade Muçulmana, que acaba de cair.
Repudiamos o golpe militar! Nenhuma confiança nos militares nem no governo de "transição"!
O golpe militar é só um rearranjo, um reacomocadamento, das forças armadas ante o medo da revolução e das massas. Não saíram a reprimir ao povo por medo de um estouro que os derrotasse. Querem assim evitar uma maior desestabilização e que se siga desenvolvendo a revolução até que percam o controle. É uma manobra dos de cima para tentar desviar e derrotar a revolução usando a reação democrática, combinando as eleições com novas medidas autoritárias e repressivas. Seu propósito fundamental não é atender às reivindicações das massas, mas permanecer no poder por meio de governos submissos, desde onde possam seguir protegendo seus interesses econômicos (controlam 40% do PIB) em alianças com multinacionais e setores do imperialismo, enquanto o povo trabalhador se afunda na miséria e no desemprego. Além disso, as Forças Armadas egípcias também têm pactos com os EUA, de quem recebem somas milionárias para seu armamento e equipamento.
Por tudo isto repudiamos o golpe militar e seu plano de transição política apoiado pelas máximas autoridades religiosas e os principais dirigentes da oposição política pró-EUA como o Prêmio Nobel da Paz, Mohamed ElBaradei.
Entendemos o júbilo das massas na Praça Tahrir, pelo triunfo da queda de Mursi, mas não compartilhamos as expressões de apoio ou de confiança nos militares e na polícia que são forças repressivas e defensoras do sistema de exploração e de pilhagem das multinacionais e outros exploradores no Egito.
Somente o povo, seus trabalhadores, as mulheres e a juventude revolucionária mobilizados e no poder, pode conseguir as mudanças fundamentais que têm sido levantadas desde a revolução iniciada em 2011.
A mobilização revolucionária deve continuar
A queda de Mursi mostra que a revolução árabe continua e que não conseguiram pará-la no Egito, nem em todo o Norte da África e no Oriente Médio. Parte desse processo tem sido a rebelião popular da Turquia contra o governo de Erdogan e a continuidade da resistência contra o ditador da Síria.
Nem este governo de "transição" militar-civil nem nenhum outro que seja composto pelas forças militares e políticas pró-empresariais e pró-ianques darão saída aos objetivos democráticos e sociais das massas. A mobilização da classe trabalhadora e do povo egípcio e suas organizações devem continuar porque são a única garantia de mudança. Só um governo dos trabalhadores e suas organizações populares, sindicatos e juventude, trará uma saída definitiva aos problemas do povo.
O problema central da revolução egípcia é a falta de uma direção socialista revolucionária com peso de massas. Justamente esse vazio que é ocupado circunstancialmente pelos militares e por formações ou líderes políticos patronais, como antes fez a Irmandade Muçulmana (HH) e agora o Prêmio Nobel da Paz Baradei. As massas estão fazendo a experiência com os governos surgidos da revolução, encabeçados por forças políticas patronais islâmicas como a HH e outras. É necessário que ao calor das mobilizações, protestos e greves, venham se consolidando organismos alternativos de massas, tais como os sindicatos independentes ou as organizações juvenis que estão encabeçando as convocatórias à Praça Tahrir, para se construa um poder operário e popular alternativo.
Nesse sentido, e sem dar apoio ao governo cívico-militar, é preciso continuar impulsionando a mobilização operária e popular por um plano econômico que dê as soluções que o povo exige, para a expropriação das multinacionais, das empresas dos militares e dos grandes grupos econômicos nacionais, para a nacionalização dos bancos, pelo não pagamento da dívida externa para, com esses recursos, conceder um aumento salarial imediato, dar pleno emprego e melhor educação e saúde para todos. Pela o exercício pleno das liberdades democráticas, não a limitações e planos autoritários dos militares e seus pactos a partir do topo, não a Comissão de Notáveis para fazer uma Constituição, pela livre eleição de uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana que discuta tudo e que o país quer o povo mobilizado.
Viva a mobilização revolucionária da Praça Tahrir!
Nenhuma confiança nos militares nem em Baradei!
Continuar a luta para alcançar um poder dos trabalhadores e do povo!
Unidade Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional (UIT-CI)
4 de julho de 2013
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