Introdução ao livro de mesmo nome publicado na Argentina por Izquierda Socialista.
Por: Abelardo Pardales
Em 11 de setembro de 1973 triunfava o golpe de estado que deram as forças armadas chilenas contra o governo da Unidade Popular (UP), liderado por Salvador Allende. Passadas várias décadas, segue sendo ainda válido perguntar-se: era possível vencer contra Pinochet? Poderiam os trabalhadores ter tomado o poder? A leitura dos artigos reunidos no livro que apresentamos, escritos entre 1970 e 1973, permitiria dar uma resposta afirmativa. Pinochet triunfou, mas poderia ter sido diferente. O processo histórico não está fatalmente determinado, como se estivesse seguindo um roteiro. Pelo contrário, depende da combinação das lutas e organizações e direções que se desenvolvem em defesa dos interesses das diferentes classes em luta. As variações nesta complexa combinação produzem resultados completamente diversos. Ver o que faltou ou esteve debilmente desenvolvido é a obrigação que temos os revolucionários de aprender com as experiências vividas - vitoriosas ou derrotadas -, e fazer com que as revoluções triunfem, em um período em que o mundo está cheio delas.
O Partido Socialista (PS) e o Partido Comunista (PC) dizem que não se poderia derrotar Pinochet
Socialistas e Comunistas foram os principais partidos operários com base operária e popular que integravam ao governo da UP. Eles tem dado uma resposta negativa a essas perguntas.
O PS tem um balanço claro: o governo da UP fracassou porque foi muito rápido. Se tivesse ido mais devagar, não assustando a burguesia, educando-a sobre os benefícios do socialismo como um sistema mais racional, então as coisas poderiam ter sido de outra forma. O argumento é uma justificativa para ocultar a responsabilidade que teve o PS no triunfo do golpe. Toda a reacionária renovação deste partido, que culminou com a "transição" pactuada com a Democracia Cristina e o próprio Pinochet, se justificou sob este verdadeiro mea culpa. E tão fiéis foram ao preceito de não ir tão rápido que no período pós-Pinochet, os governos socialistas de Lagos e Bachelet tem sido os mais pró-imperialista da história do Chile, totalmente à serviço dos lucros dos conglomerados econômicos.
Para o PC em vez disso, não foi possível derrotar o golpe por causa da "traição das Forças Armadas" ao governo de Salvador Allende. Falar de "traição" é imprescindível para sustentar a farsa de que houvera nas instituições armadas uma conduta oposta, ou seja, a lealdade ao governo da UP, as chamadas Forças Armadas "patrióticas". E assim, durante todo o período da Unidade Popular este partido se dedicou sistematicamente a incutir a ideia contrarrevolucionária de que as forças armadas eram patriotas, ou pelo menos neutras, e que elas estariam ali se a direita ou o fascismo atacassem. Não está descartado que em um processo revolucionário conjunturalmente hajam divisões e que até mesmo algum general possa cumprir pontualmente algum papel em favor da revolução. Mas é um erro fatal confundir essa possibilidade excepcional e passageira com a definição marxista das forças armadas burguesas. Como disseram Engels e Lenin, sua razão de existir é a defesa da classe burguesa dominante e seu estado.
Em junho de 1973, o general Carlos Prats cumpriu um papel importante na derrota do "Tanquetazo", a primeira tentativa de golpe de estado. Após ele evitar esta ação golpista, o PC lançou em seu jornal El Siglo "Forças Armadas, puro povo". Assim, o PC reforçou falsas expectativas nas alegadas "Forças Armadas patrióticas" que levaria a Unidade Popular à derrota. O próprio general Prats, que agora encontra-se na imensa lista de vítimas da repressão, reafirmou o seu caráter solidário à ordem burguesa, já que não fez nada quando começaram as ações diretas que prepararam o golpe. Quando foram detidos e torturados os marinheiros de Valparaiso, que denunciaram estas preparações. Confrontado com a iminência do golpe antes preferiu dar um passo ao lado, do que combatê-lo. Na véspera do triunfo de Pinochet o PC acusava de "traidores" aqueles que denunciavam a detenção dos marinheiros e o golpe que estava por vir. E isso foi crucial para o resultado do golpe de Pinochet, como veremos adiante.
O Poder dos trabalhadores
Mas se o tema da política quanto às Forças Armadas foi tão crucial deve-se a que a luta entre a burguesia e o imperialismo, por uma parte, e os trabalhadores e o povo, por outra, se fazia cada vez mais aguda. Por fora do governo da UP começou a surgir um crescente poder operário, nos chamados Cordões Industriais, que se unificavam não por ramos de produção, mas territorialmente. Esta organização alternativa da classe trabalhadora deu um salto e se generalizou diante do bloqueio patronal de outubro de 1972. Em essência foi a resposta exitosa à “greve da burguesia”. Diante do perigo que significava esta bloqueio à UP, as massas deflagraram toda sua energia revolucionária, fazendo por sua própria conta funcionar a sociedade. Na vanguarda desta iniciativa estiveram os trabalhadores dos cordões, que generalizaram sua organização aos centros industriais mais importantes do país. Emergiram como o verdadeiro poder dos trabalhadores, dirigiram as fábricas expropriadas para evitar o boicote econômico e a sabotagem, mantiveram a produção e a distribuição. Em coordenação com as distintas fábricas, compartilharam o transporte, trocaram matérias-primas, combustíveis, etc. Em suma, surgiram como os organismos que centralizavam e dirigiam a luta. Assim foram vistos por moradores e camponeses que recorriam a eles em busca de orientação. Os Corões Industriais demonstraram na prática não só que desempenharam um papel central na derrota do bloqueio patronal, mas também que eram capazes de colocar em funcionamento a produção e sua distribuição sem a tutela patronal. Comprovaram desta maneira que a burguesia não era necessária no processo produtivo e que constituía só uma classe parasitária
Sem dúvida, este poder dos trabalhadores onde estava a chave do triunfo da revolução chilena, foi boicotado e combatido pelo Governo da UP e especialmente pelos ministros comunistas que constituíam sua ala direita. Foi assim como Orlando Millas, ministro de economia, e Mireya Baltra, ministra do trabalho, insistiram para conseguir que as fábricas fossem devolvidas aos seus antigos donos. Por sua parte a CUT, transformada de fato em parte do governo e dirigida pelo comunista Figueroa, quis submeter os cordões industriais a suas diretivas burocráticas. O PS nunca os apoiou como partido, se bem a título individual, heroicos militantes cumpriram trabalhos de direção nos cordões, mas em conflito com as diretivas de seu partido. Da parte do MIR, não se deu importância a este fenômeno por sua concepção popular e não operária da revolução, pela qual apostavam em trabalhar sobre os camponeses e povoados como seu lugar preferencial. Em suma, a maioria das forças de esquerda não colocaram no centro de sua política o apoio aos cordões industriais e seu desenvolvimento.
O Enfrentamento Armado
A burguesia estava cada vez mais alarmada, pois via que as massas haviam derrotado o bloqueio patronal, que surgia um poderoso poder operário nos Cordões Industriais, que expropriava as industriais e as fazia funcionar. O governo da UP, que o imperialismo e a burguesia haviam tolerado para ganhar tempo, conter e desviar as lutas, estava sendo transbordado pelas demandas cada vez mais radicais dos trabalhadores e do povo. Todos estes elementos combinados produziu na burguesia uma mudança radical no ano de 1973: sem renunciar a travar o funcionamento do governo desde a Justiça e especialmente desde o Parlamento, se lançou de cheio à preparação do golpe de estado. Para isso contou com a condução e financiamento do imperialismo norte americano que, através da CIA, de seus diplomatas, as multinacionais e altos funcionários do próprio governo ianque, lhe deu seu pleno apoio. Todos recordarão o famoso “Comitê dos 40”, dirigido pessoalmente por Henry Kissinger, que levou a cabo o plano concreto para assessorar as forças armadas na derrubada de Allende.
Sem dúvida, paralelamente a esta realidade, que se fez cada vez mais evidente, surgiram dentro das próprias forças armadas, desde baixo e espontaneamente, sem que nenhum partido o propusesse, numerosos grupos de suboficiais e soldados que se organizavam e denunciavam aos oficiais golpistas. Foi um crime político que ninguém tomara essas denuncias como ponto de partida para organizar os soldados e os suboficiais contra o golpe com a clássica política leninista de levar a luta de classes ao seio das forças armadas para dividi-las, para quebrar a verticalidade do comando, para destruir a conspiração, e para organizarem-se e unirem-se aos cordões industriais.
Allende, o PC e o PS, fizeram tudo ao contrário. Ante as numerosas denúncias que realizavam suboficiais e soldados sobre os golpistas, Allende as subestimava, o que levou a que a oficialidade se encarregasse dos denunciantes. O PC, como já vimos, seguia proclamando aos quatro ventos que as forças armadas eram “patrióticas” e que defendiam o governo de Allende, enquanto os preparativos do golpe se faziam mais palpáveis. O PS, por sua vez, trazia ao palco o verborrágico esquerdista Carlos Altamirano para dizer que se havia que realizar a ditadura do proletariado, que havia que superar o parlamentarismo burguês, que havia que tomar o poder, etc, no entanto, não dizia concretamente como fazê-lo e terminava apoiando Allende, que seguia na direção oposta. O MIR teve em alguns momentos consignas corretas como “soldado denuncie o oficial golpista”, mas que não tinham consequências organizativas práticas pois as suas se davam em uma orientação conspirativa distante do verdadeiro poder centralizador que surgia nos Cordões Industriais.
Este foi um grande crime político, que impediu o triunfo da revolução chilena, já que as direções majoritárias não se apoiaram nessa divisão horizontal que se dava massiçamente nas Forças Armadas, não a aproveitaram para derrotar os golpistas. A simples orientação de organizar aos soldados quando saíam gratuitamente a apoiá-los e organizá-los em sua luta no interior das forças armadas, teria criado à alta oficialidade dificuldades insuperáveis para levar a cabo seu plano. Se aproveitassem esta oportunidade, tendo a política correta para dividir as forças repressivas e para mobilizar e armar os trabalhadores, o golpe não teria triunfado.
Faltou uma política revolucionária de independência de classe
Então a conclusão é clara: se podia derrotar a Pinochet, e estaria colocada a luta pela tomada do poder e avanço na revolução socialista. O golpe triunfou porque Allende, o PC e o PS durante anos destilaram o veneno da conciliação de classes e a confiança nas forças repressivas burguesas, própria de todos os reformistas, sejam comunistas stalinistas ou socialdemocratas. Eles disseram aos trabalhadores e ao povo chileno que avançariam até o socialismo pactuando com a burguesia progressista que tinha contradições com o imperialismo ou de mãos com as forças armadas patrióticas e neutras. Estes partidos se dedicaram a molhar a pólvora, ao tirar o pavio revolucionário das massas, que demonstraram uma e outra vez, especialmente desde seus Cordões Industriais, a força e a organização necessária para fazer a revolução socialista. Faltou uma política de independência de classe e a busca clara de avançar até a conquista do poder, como fez na experiência vitoriosa de 1917 o partido bolchevique, com Lenin e Trotsky na Revolução Russa.
Recorrendo aos artigos deste livro, o leitor encontrará as caracterizações e propostas políticas que foram desenvolvendo a corrente trotskista que encabeçava Nahuel Moreno, e que se foi expressando em suas publicações de então.
O PRT-A Verdade e o PST, sendo consequentemente internacionalistas, iam seguindo os processos revolucionários de Bolívia, Uruguai, Argentina e Chile, ao calor da situação revolucionária aberta em todo o mundo desde 1968 com o maio francês. Polemizavam com a maioria das forças de esquerda latino americana, que defendiam a política equivocada defendida pelos partidos comunistas encabeçados por Fidel Castro, de apoiar aos distintos governos burguesas nacionalistas, em lugar de desenvolver a mobilização independente das massas por seu próprio poder.
O “Socialismo do Século XXI” não é uma política revolucionária
Passadas várias décadas, o “Socialismo do Século XXI” de Hugo Chávez ou o “Socialismo Andino” de Evo Morales, assessorados por Fidel Casto, reeditam a fracassada e trágica experiência da Unidade Popular chilena na utópica e reacionária política de que é possível conseguir um progresso para os povos, e, inclusive, o “socialismo”, convivendo com o imperialismo, com uma economia mista capitalista com as multinacionais estrangeiras, e com setores das burguesias “nacionais” ou “progressivas”.
Na Venezuela longe de se avançar ao socialismo, o que fez o presidente Chávez durante mais de uma década de governo, e agora seu assessor Maduro, é manter salários miseráveis, desabastecimento, violar e desvalidar os contratos coletivos, enfraquecer a autonomia das organizações sindicais, criminalizar os protestos, levar as empresas estatais a um verdadeiro desastre, e entregar a indústria petroleira às transnacionais através das empresas mistas. No caso boliviano, as frequentes paralisações, greves e mobilizações por pensões e salários dignos ou dos indígenas do Tipnis pela integridade de seu território, tem demonstrado que Evo Morales, longe de governar para seu povo, o faz para as multinacionais que dominam os grandes negócios de gás e de petróleo. As penúrias que seguem sofrendo esses povos em seu suposto avanço ao “socialismo” demonstram mais uma vez que para conseguir um progresso duradouro, um autêntico bem estar para as maiorias populares e de trabalhadores, não há outro caminho senão romper com a burguesia e o imperialismo, expropriar as grandes empresas exploradoras, e reorganizar o conjunto da economia, para que passe a ser dirigida democraticamente pelos trabalhadores. Os governos do suposto “socialismo do século XXI” não só mantém a exploração capitalista-imperialista, como também, com uma linguagem de esquerda, são o maior obstáculo para que as massas tomem o caminho da revolução e conquistem autênticos governos dos trabalhadores, camponeses e do povo.
O mundo segue mostrando processos revolucionários por todos os lados, incendiados pela contínua crise do sistema capitalista e os ascensos de massas. Em um momento, é América Latina, em outro a queda das ditaduras dos países árabes, ou as greves e mobilizações dos trabalhadores europeus. Depois que foi derrubado pelas mobilizações de massas o aparato ditatorial e burocrático dos partidos comunistas, na ex-URSS e o leste europeu, surgem novas organizações. Se abrem novas oportunidades para avançar nas lutas e para retomar o caminho até a construção de partidos revolucionários que retomem a tradição e a política de um autêntico socialismo, e que vá conquistando os triunfos que permitam a derrota definitiva do capitalismo imperialista em todo o planeta. O socialismo será com democracia e mundial ou não será.
FONTE: La Clase
Sobre este blog:
Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
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domingo, 22 de setembro de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
A verdade sobre a proposta do Socialismo do Século XXI
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, faleceu. Nesta situação reiteramos, tal
como expressa a nossa organização irmã o Partido Socialismo y Libertad (PSL) da
Venezuela, que acompanhamos a dor do povo venezuelano e expressamos nossa
solidariedade com sua família e com a população. E rejeitamos categoricamente
as posições assumidas pelo MUD, a oposição política da velha burguesia
venezuelana pró-ianque, que usou da dolorosa doença de Chávez para questionar a
legitimidade do governo do PSUV, posando de "democráticos" quando
foram os impulsionadores, junto aos EUA, do fracassado golpe de estado de abril
de 2002.
Sem
dúvida, sua morte não apaga um dos temas mais debatidos pela esquerda mundial:
qual é a realidade do proclamado "socialismo do século XXI"? É
verdade que a política de Chávez e de outros presidentes latino-americanos
avança rumo ao socialismo?
Discordamos
dessa visão, porque o que está em jogo na Venezuela são os problemas não
resolvidos dos trabalhadores e do povo e a política do governo do PSUV, antes
com Chávez ou agora com Maduro, com o chamado Socialismo do Século XXI, que não
demonstra ser realmente uma saída de fundo para o povo trabalhador.
Nós
sabemos que na Venezuela a maioria do povo continua confiando no projeto de
Chávez. Como também sabemos que milhares de lutadores no mundo têm a
expectativa de que se esteja avançando na Venezuela rumo ao socialismo. Junto
com os companheiros do PSL, somos dos que dizem claramente que não
compartilhamos dessas expectativas já que o projeto do Socialismo do Século XXI
é uma farsa de socialismo. Por trás dos discursos "anticapitalistas e antiimperialistas"
de Chávez, de Maduro e de outros líderes do PSUV, se sustenta uma política de
pactuação com as multinacionais do petróleo, os banqueiros e de ataque às
condições de vida dos trabalhadores e dos setores populares. Este é o debate
que queremos fazer com a vanguarda sindical, juvenil e popular da Venezuela e
de todo o mundo.
América Latina, um continente de
lutas operárias e populares
A Venezuela é parte de uma América
Latina cruzada por um crescimento dos conflitos sociais (greves, manifestações
indígenas, camponesas, estudantis) e pelo desgaste político dos governos, em
sua maior parte de caráter populista ou de centro-esquerda. São os governos
que, como o de Chávez, chegaram ao poder com o apoio e a esperança de milhões
que produziam uma mudança de fundo em seus países. Estamos falando de governos
como o de Evo Morales na Bolívia, Correa no Equador, Lula/Dilma do PT no
Brasil, de Mujica (Frente Ampla) no Uruguai, dos Kirchner (peronismo) na
Argentina, Humala no Perú, Lugo no Paraguai, Daniel Ortega (FSLN) na Nicarágua
ou Mauricio Funes (FMLN) em El Salvador.
Mas a realidade foi mostrando que
todos eles, pr'além de algum enfrentamento parcial e limitado com setores do
imperialismo, de diferentes maneiras, aplicaram políticas de ajuste aos
debaixo, governando em favor dos ricos, das corporações multinacionais e dos
grandes empresários, mantendo as mesmas estruturas capitalistas de seus países.
Por isso o ano de 2012 foi um ano cheio de grandes lutas operárias e populares.
Na Bolívia, Evo Morales, o
principal aliado de Chávez, assumiu prometendo o "Socialismo Andino"
e que iria consultar sua base indígena e camponesa. No entanto, nos últimos
dois anos vem mostrando seu verdadeiro rosto, de conciliador com os
latifundiários e as multinacionais de mineração e dos hidrocarbonetos. No final
de 2010, por exemplo, quis impor um "gasolinaço" (aumento de 100% do
preço da gasolina), que foi exigido pelas transnacionais. O que provocou uma
rebelião popular que obrigou o governo a recuar. Em 2011 quis impor a
construção de uma estrada no TIPNIS, pactuada com a Petrobras, Total e Repsol
para exploração petrolífera, sem consultar aos milhares de indígenas que ali
vivem. O que provocou outra grande mobilização indígena que sofreu uma
repressão brutal. A COB fez várias greves por salários.
No Brasil, governado pelo PT em
coligação com partidos patronais (PMDB), primeiro por Lula e agora por Dilma,
tem experimentado uma onda de greves a partir de 2011, mostrando a grande
insatisfação popular com a queda do nível de vida. Tudo começou em 2011, com a
greve dos trabalhadores da construção civil e continuou em 2011-12 com greves
por salário dos bombeiros no Rio de Janeiro, os policiais civis e militares, os
motoristas rodoviários, ferroviários, metalúrgicos de Niterói, professores e
uma greve de dois meses de funcionários públicos.
Na Argentina, o governo peronista
de Cristina Kirchner sofreu em 2012 a primeira greve geral, depois de 10 anos,
convocada pela CGT e a CTA que romperam com o governo. No Peru, do
"nacionalista" Humala, houve uma grande greve que abrangeu 350 mil
professores e mineiros e os povos indígenas protagonizaram grandes
enfrentamentos, com dezenas de mortos pela repressão. O governo de Correa
também se viu confrontado pelos povos indígenas. Nestes exemplos, é preciso acrescentar
as mobilizações massivas dos estudantes no Chile; a luta dos trabalhadores
judiciais e dos universitários da Colômbia ou a triunfante rebelião popular do
povo de Colón, no Panamá.
Sem dúvida, Chávez procurou desempenhar um papel, ao lado do Brasil de
Lula, de potência regional, utilizando os recursos energéticos para estabelecer
relações de subordinação e dependência de diferentes países. Isso se refletiu
no impulso dado à ALBA frente a ALCA. Mas onde foi mais evidente o papel de
Chávez como garantidor da ordem, foi na entrega do lutador social ligado às
FARC, Pérez Becerra, somando-se desta forma à política repressiva de contrainsurgência
do imperialismo, também tão aplicada na Colômbia tanto por Uribe como por
Santos.
Venezuela não marcha rumo a
nenhum Socialismo
O conflito social também se reflete
na Venezuela. De acordo com o relatório "Conflitos Sociais na Venezuela
2012", do Observatorio Venezolano de Conflictividad Social (OVCS), os
protestos aumentaram em 3% em relação a 2011, produzindo-se no período em
estudo, um registro de pelo menos 5.483 protestos. Os protestos sindicais foram
2.256 (41,15%) e por habitação digna 1.874 (34,17%).
Esta realidade, muitas vezes
desconhecida fora da Venezuela, mostra que, após 14 anos de governo de Hugo
Chávez, os problemas dos trabalhadores e do povo não têm encontrado soluções de
fundo. Assim como tampouco não há solução para a perseguição e assassinato de
dirigentes e ativistas sindicais e camponeses por parte de
"pistoleiros" agentes das empresas e do capital, que, protegidos pela
impunidade proporcionada pelo regime chavista, já mataram mais de 200 líderes,
camponeses e indígenas em sua maioria, como também trabalhadores durante os
anos do governo Chávez. Teve grande repercussão e gerou grande desgaste ao
chavismo o fato de que, um dia antes de sua morte, foi assassinado o cacique
Yukpa Sabino Romero que vinha recebendo ameaças há muito tempo.
A reeleição de Chávez em outubro do
ano passado, mostra que milhões de pessoas ainda têm esperanças de que as
reiteradas promessas não cumpridas do governo do PSUV finalmente se cumpram.
Muitos trabalhadores e setores populares, com muitas dúvidas e com menor
expectativa, deram seu voto em rejeição à direita e aos velhos políticos
burgueses, agora reciclados no MUD, que levaram o país ao desastre em que
culminou o “Caracazo” de 1989. Mas, infelizmente, o governo do PSUV, fosse com
Chávez em vida e ou mesmo agora sem ele, não irá responder a essa legítima
esperança, porque a afirmação de Chávez de que "estamos fazendo uma
revolução socialista" é falsa. Nós sabemos que tanto na Venezuela como no
mundo, muitíssimos lutadores honestos antiimperialistas e de esquerda creem que
Chávez, unido à Cuba, está impulsionando o socialismo do século XXI. Mas a
realidade é outra e este debate é necessário que seja elucidado porque está em
jogo que tanto a luta do povo venezuelano como a dos povos da América Latina e
do mundo não desemboque em uma nova frustração.
Para os socialistas revolucionários
não pode haver socialismo nem antiimperialismo quando o petróleo venezuelano, a
principal fonte de recursos do país caribenho, é compartilhado com as
multinacionais. O chavismo enche a boca de "soberania petroleira",
mas converteu a PDVSA em uma empresa mista com as empresas petrolíferas
transnacionais como a Chevron, Total, Mitsubishi, Repsol, Petrobras, Lukoi e
empresas norueguesas ou chineses. Além disso, das 10 maiores empresas do país,
5 são bancos e seguradoras e 4 são transnacionais: Movistar, Prock Gouble,
General Motors e Coca-Cola (Dados em “Últimas Notícias", 25/10/12).
Além de que a Superintendência de
Bancos no fim de novembro mostrou que o lucro dos bancos aumentou em 93% em relação
ao período de janeiro-novembro de 2012. Ano após ano, os lucros do setor
financeiro continuam crescendo, em um país onde o salário mínimo se encontra
muito abaixo do valor da cesta básica.
Assim, a redistribuição da riqueza
se fez em sentido inverso ao que propagandeia o chavismo. As volumosas receitas
do petróleo permitiram financiar programas sociais que desempenharam um papel
positivo nos primeiros anos do governo, mas que já são insuficientes e a maior
fatia da receita advinda do petróleo foi para os bolsos dos empresários,
nacionais e estrangeiros, e aos banqueiros. Em 1998, o setor assalariado
participava em 39,7% da riqueza criada enquanto que os patrões se apropriavam
de 36,2%. Em 2008, o setor assalariado já recebia 32,8%, do valor criado,
enquanto os patrões passaram aos 48,8%.
A expropriação de algumas empresas
têm repercutido favoravelmente, fora da Venezuela, para milhares de
trabalhadores e ativistas sociais. Mas, na realidade, essas desapropriações não
tiveram nada de favorável para seus trabalhadores ou para o país. Em todas se
pagam grandes indenizações e não há nenhum controle operário democrático. Na ex
CEMEX, uma cimenteira de grande porte, não tem sido respeitado o convênio dos
trabalhadores e a venda de cimento está sendo alvo de superfaturamento,
sobretaxas, e manejos corruptos por funcionários do governo. Em Orinoco Iron,
ex TAVSA, expropriada em 2009, o contrato laboral expirou há dois anos. Tal já
é a situação que, infelizmente, muitos trabalhadores temem ou rejeitam a
possibilidade de expropriação. Como foi o caso da empresa Polar que, diante da
ameaça de expropriação, os trabalhadores se mobilizaram contrariamente.
Por ser essa a realidade do governo
de Chávez é que, sob um discurso "socialista", se está atingindo ao
povo trabalhador e não se resolvem os problemas de fundo. Já sob o novo mandato
de Chávez, com Maduro exercendo a presidência, houve uma brutal desvalorização
de 46,5% acompanhada pelo anúncio de que os empresários deverão vender para o
Estado apenas os 60% do ganho cambial das divisas estrangeiras advindas de
exportações. Assim, os preços dos produtos de primeira necessidade continuaram
a aumentar enquanto os salários seguem lá embaixo; as convenções coletivas não
são respeitadas, continuando os apagões, por falta de energia fruto do
insuficiente investimento, e se criminalizam as manifestações e protestos. Por
isso também as lutas continuam. Não pode haver socialismo se governando em um
pacto com as multinacionais para beneficiar aos banqueiros. Não se pode
continuar desrespeitando os direitos dos trabalhadores.
Não é Antiimperialismo nem
socialismo apoiar a ditadores como Assad (Síria) e Kadafi (Líbia)
Tampouco pode haver socialismo nem
reivindicar-se revolucionário, como fez Chávez quando apoiou a um ditador
genocida como a Bashar Al Assad. Hugo Chávez e Bashar Al Assad "trocaram
informações sobre a situação política e de segurança na Síria e na região do
Oriente Médio, especialmente sobre a maneira exitosa de como o governo sírio
tem contido as gangues terroristas armadas que ameaçam a paz" (comunicado
reproduzido em El Comercio, Perú, 07/04/12). Em outras palavras, Chávez chamou
ao povo rebelde sírio de "gangues terroristas" e avalizou os
massacres do ditador.
Chávez foi visto com simpatia pelo
povo árabe por seus inflamados discursos antiimperialismo e por sua ruptura
diplomática com o Estado sionista de Israel. Hoje eles estão decepcionados pela
dura negativa de Chávez, de Castro e de toda a velha esquerda stalinista do
mundo, em apoiar a Revolução Árabe. É incompatível falar de antiimperialismo e
da luta dos povos contra a opressão e, simultaneamente, endossar a sistemática
tortura, repressão e assassinato que aplicou Kadafi ou que agora aplica Bashar Al
Assad contra seu povo. Basta ouvir as próprias palavras de Kadafi que queria
"entrar em Bengazi como Franco em Madrid", aludindo à forma como o
fascismo esmagou a resistência operária e popular, em 1936, para que não resta
nenhuma dúvida sobre o caráter do coronel líbio. Mas pesam mais os interesses
petrolíferos em comum, como agora também está pesando por trás deste apoio à
Síria, ao apresentar o reacionário e repressivo regime iraniano que o sustenta,
de Ajmadinejah, como outro líder do antiimperialismo.
O internacionalismo é um dos
pilares fundamentais do verdadeiro socialismo. Por sua parte, foi o stalinismo
que falsificou esse princípio, e sempre agiu, contra os fatos da luta de
classes mundial, defendendo os seus interesses burocráticos acima da
solidariedade com as lutas operárias e populares.
Tanto Castro quanto Chávez
continuaram essa tradição. Eles colocaram os interesses de suas burguesias e
burocracias petroleiras e a defesa de suas próprias burocracias estatais sobre
a luta dos povos árabes, pois sabem que uma vitória destes povos os enfraquece
enquanto setor privilegiado. Confrontados com as lutas e revoltas que se
espalham ao redor do mundo, todos os burgueses, novos ou velhos, assim como as
burocracias tremem, porque sabem que a ascensão das lutas das massas serve de
exemplo para todos os povos explorados do mundo.
A
unidade Chávez-Fidel Castro não leva a Venezuela rumo à Cuba Socialista dos
anos 60
O peso que Chávez teve sobre a esquerda mundial
seria inexplicável sem a bênção de Castro. Já em 1992, Chávez foi recebido em
Cuba com honras de Estado. Após o colapso dos acordos comerciais preferenciais
com a Rússia, Chávez cobriu os 60% das necessidades energéticas de Cuba
entregando petróleo a preços mínimos. Isto permitiu-lhe aparecer perante a
esquerda mundial como um referente revolucionário e socialista, para além de
suas políticas concretas ou seus planos de entrega de cestas de alimentos para
a população pobre (não muito diferente de Lula, por exemplo).
A direita pró imperialista e seus meios de
comunicação dedicam espaços para denunciar que o chavismo leva a Venezuela para
a sua "cubanização", rumo ao "comunismo". Isto quer dizer a
Cuba Socialista que, na época de Che, expropriou a burguesia e o imperialismo e
anunciou o primeiro Estado socialista na América. Isto ratificaria aos setores
da esquerda mundial, que apoiam o governo chavista, quase com o mesmo argumento
assegurando que "pouco a pouco" a unidade Chávez-Castro levará ao
socialismo. Inclusive esses mesmos setores são os encorajadores de que há uma
luta entre dois setores do chavismo, que um de "esquerda", com Maduro
encabeçando (com o apoio de Chávez) que seria pró Cuba e o outro, o de Diosdado
Cabello, que seria a ala "direita" anti Cuba.
Esta versão, infelizmente, não é correta, porque
poderão haver essas frações no chavismo, mas a sua luta não é para avançar ou
não para o socialismo, mas posições de poder dentro do mesmo projeto do falso
socialismo do século XXI, apoiado pela direção castrista.
Duas razões o explicam: 1) ter passado mais de 14 anos
de governo Chávez, com o apoio de Castro, e, como já mostramos, predominar na
Venezuela a propriedade privada e os acordos com as multinacionais e 2) o que
existe não é que a Venezuela esteja se "Cubanizando", mas sim que
Cuba está se "Venezuelanizando". O que quase ninguém diz. O que
queremos dizer com venezuelanizando? Que desde a década de 90, Cuba tem
caminhado rapidamente em direção à restauração do capitalismo, abandonando as
conquistas socialistas dos anos 60, seguindo o caminho da China e do Vietnã.
A direção do Partido Comunista Cubano, esconde este
processo. Mas é um fato que o "modelo econômico cubano" é baseado em
capitalismo de empresas mistas, com capitais espanhóis, canadenses, franceses,
brasileiros, italianos, chineses ou britânicos em itens básicos como níquel
(Sherritt), hotelaria (Sol Meliá), rapé e charutos, alimentos (rum, cerveja e
outros) e agora açúcar. Em Cuba, como na China, sob uma suposta
"modernização do socialismo" crescem as desigualdades sociais. Com
uma exploração dos trabalhadores que tem apenas um salário médio mensal de 15 a
20 dólares. Com uma ditadura de partido único que proíbe o direito à greve e de
organizar sindicatos livremente. É neste sentido de ir concentrando todo o
poder no chefe de Estado que podemos dizer que Chávez toma referências
políticas dos regimes do stalinismo, como ocorreu na reforma da Constituição. O
Chavismo impulsionou um acelerado processo de burocratização do Estado, de um
Estado burguês, poder que se utilizou e utiliza contra os trabalhadores e serve
apenas ao aparelho de Estado.
Por isso a unidade Castro-Chávez não tem nada de
progressista e revolucionário. Mas que o castro-chavismo é a nova versão,
reciclada, do reformismo stalinista que sempre lutou para a conciliação das
classes, com a falsa teoria da "revolução por etapas", com a qual se
justificava que se podia "avançar" para o socialismo governando, numa
primeira fase, aliado a um setor da burguesia.
Com esta "teoria" se traíram as revoluções
triunfantes como as da Nicarágua e de El Salvador. Na década de 80, Fidel
Castro e a direção cubana aconselharam a não fazer "uma nova Cuba" na
Nicarágua, mas realizar uma aliança com a burguesia para apoiar uma
"economia mista". Hoje, 35 anos depois, Daniel Ortega governa uma
Nicarágua capitalista em meio à miséria do seu povo. China e Cuba estão
chegando ao cúmulo de defender uma suposta modernização do "modelo
socialista" aliados com as multinacionais e explorando seus povos.
E a história demonstra que todos estes modelos
"nacionais e populares" fracassaram como na Nicarágua, como o
peronismo na Argentina, o MNR na Bolívia ou o velazquismo no Peru. Da mesma
forma não haverá saída para os povos com Evo Morales, Mujica, Correa, Kirchner,
Lula-Dilma ou Chávez.
A
luta por um verdadeiro socialismo
As lutas dos trabalhadores, da juventude e do povo
venezuelano necessitam evoluir rumo a uma verdadeira saída socialista. Sabendo
que se não houver uma solução para o projeto chavista tampouco não há com a
direita encarnada no MUD, de Henrique Caprilles. Eles são a velha política da
oligarquia pró-ianque.
Na Venezuela a luta por um socialismo genuíno, passa
pelas propostas que levanta o nosso partido irmão, o Partido Socialismo y
Libertad (PSL), encabeçado pelo dirigente operário Orlando Chirino. Por isso
reafirmamos nosso apoio à necessidade de construir uma nova alternativa
política para os trabalhadores na Venezuela que apoie as lutas dos
trabalhadores e da população e que lute estrategicamente por reais
transformações socialistas e um governo dos trabalhadores.
A consigna "Nós, os trabalhadores, devemos
governar" e que o petróleo seja 100% venezuelano, estatal, eliminando os
contratos das empresas mistas e sob o controle dos trabalhadores, para dar
salários, trabalho, educação, saúde e habitação, seguem vigentes.
Defendemos a plena independência política frente aos
governos capitalistas e as variantes políticas capitalistas; um salário mínimo
igual à cesta básica; a cessação de pagamento da dívida externa; o cancelamento
dos tratados de livre comércio e contra os tratados de dupla tributação
assinado pela Venezuela; a nacionalização dos bancos e multinacionais sob o
controle dos trabalhadores; uma reforma agrária que garanta aos camponeses a
terra; o reconhecimento dos territórios indígenas; contra a criminalização do protesto
e o resgate das organizações sindicais, como um instrumento de luta da classe
trabalhadora, com autonomia dos governos e dos patrões, sem burocracia sindical
de qualquer tipo ou cor.
Desde o Comitê Coordenador UIT-CEI, chamamos os
trabalhadores, a juventude e os lutadores antiimperialistas e de esquerda do
mundo a realizar este debate sobre a atualidade e o futuro do processo revolucionário
Venezuelano e latino americano, em meio a sua atual encruzilhada, bem como a
apoiar suas lutas com a perspectiva de uma mudança verdadeiramente socialista,
assim como a apoiar os processos revolucionários que estão ocorrendo no Norte
da África e no Oriente Médio, ajudando a reconstruir um verdadeiro
internacionalismo de classe.
Comitê Coordenador UIT-CI/CEI
Unidad Internacional de los Trabajadores - Cuarta
Internacional (UIT-CI) / Comitê de Enlace Internacional (Frente Obrero de
Turquía-Lucha Internacionalista do Estado Español)
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