Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Questão constante

Costumava questionar-me com grande frequencia, e ainda me questiono bastante, sobre o modo como se deve fazer uso da vida. O que seria suficientemente importante e válido pra gastar uma vida toda praticando, construindo ou procurando? Que espécie de uso dar a corpo e mente sãos? A resposta desse tipo de questionamento está alicerçada única e exclusivamente dentro de padrões sócio-culturais desse âmago existencial do indivíduo, filtrado e condicionado por inúmeros fatores objetivos e subjetivos... Ok, ok, ok. A maior parte das declarações sobre o sentido da vida trata-se meramente de uma construção conceitual furada e intimista pra explicar algo incerto.

Mas o que me ocorre na maior parte das vezes é que: Ou você escolhe o que fazer ou deixa que alguém o escolha por você. Tratando-se de uma questão, primeiramente, de consciência e depois de vontade prática, que determinará a autonomia individual.

Quantas pessoas não adotam uma prática social completamente corriqueira que julgam ser fruto de sua própria vontade, mas que, na verdade, não passa de mera reprodução de alguma conduta predominante no seio da sociedade? Quantas pessoas não são entupidas de proposições pré-fabricadas advindas dos grandes veículos de comunicação? Quantas pessoas se preocupam com profundidade com o tipo de vida que andam exercendo em seu tempo?

Estudar, me empregar, casar, ter filhos e curtir uma aposentadoria tranquila em casa? Acumular bens, ter exímio histórico profissional, investir tudo nas minhas habilidades, viajar até não poder mais? Abdicar do irracionalismo do mundo e mergulhar em outra ideologia, praticar contra-cultura, ser marginalizado, marginalizar, fazer história, virar uma? Pagar uma miséria vergonhosa pra uma penca de assalariados e encher o peito pra dizer que é um empresário, um indivíduo de sucesso? Virar artista, sentir na pele, falar sozinho? Embriagar-me de otimismo, embriagar-me de pessimismo, ser um sóbrio calado e ranzinza?

A reflexão é importante. A auto-crítica, o auto-domínio, o auto-controle, essa capacidade de tornar-se o que se quer, transformar-se de acordo com a vontade consciente, ser dono de si. Se não passar da reflexão, no plano imaterial das idéias, não é real, portanto, é inválido.

Isso anda martelando na minha cabeça... Como sempre.

Pra valer tem que ser real, tem que ser profundo, tem que ter sentimento. A sinceridade sempre me atrai. A naturalidade sempre me atrai. A cortesia sempre me atrairá...

Opa, olha a hora. Vou me arrumar para o trabalho. Abraço.

"É só saber querer
Pra poder chegar."

(Canta Maria, de Geraldo Vandré)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O castigo de um dia:

É acordar e não sentir a Vida.

Pingo de Suor

Sementes do homem, minúsculos multiplicantes. Carne, osso, impulso elétrico comunicante. Processos bio-químicos, psico-temperamentais. Óvolo, fecundo feito a mãe terra. Constante emanar e absorver das ondas invisíveis de tudo e todos, energia eterna. Bombeamentos sanguíneos, emaranhado de veias, vida em cada parte. Ressoar do som nas cavidades, decodificação luminosa, abstrações, unhas, cabelos, dentes, artes. Cadeia de DNA, o sempre renovar-se. O gemido. Um tiro. Um assalto, um genocídio. O perpetuar-se, o anúncio vermelho entre-pernas. O rangido dos tempos, a memória da espécie. Escolhes ou deixas que escolham por ti, tu pensas os pensamentos dos outros ou pensas por si...? A política, o carinho, o pão e o vinho. A morte sem domínio. A bomba atômica! A juventude, a revolução. O fim, a finalidade do canto e da comoção. Um fundo de poço, a falta de um acento na vida toda ou num momento, o grande desentendimento. Os tolos, o todo. Sacrifício da vida em nome de vidas outras. O século da morte. Segurar a história com as mãos, ser da Vida uma boa expressão. Dormir sossegado, sentindo a segurança e o aconchego do lar, esquecendo-se dos cometas, das imensas petecas espaciais que giram sem parar. Esta na qual moramos na superfície e formigamos à toa. Amando, vivendo, matando e morrendo, numa burra vida egoísta. Nós balançamos na forca...

"A Terceira Lâmina", Zé Ramalho.



"É aquela que fere
Que virá mais tranqüila
Com a fome do povo
Com pedaços da vida
Como a dura semente
Que se prende no fogo
De toda multidão
Acho bem mais
Do que pedras na mão...
Dos que vivem calados
Pendurados no tempo
Esquecendo os momentos
Na fundura do poço
Na garganta do fosso
Na voz de um cantador...
E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera
Que o começa a devorar...
Acho que os anos
Irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a idéia
De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador...
E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera
Que o começa a devorar...
Acho que os anos
Irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a idéia
De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador..."