Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
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terça-feira, 7 de abril de 2020

O Poço - Aceitar ou não a barbárie como único e "óbvio" caminho?

por Eduardo Rodrigues

Trimagasi e Goreng

O filme “O Poço” (“El Hoyo”, original espanhol; “Platform”, no inglês) tem suscitado várias reflexões na internet, sido muito indicado nas redes sociais e conta com 97% de relevância no ranking da Netflix. Enquanto, de um lado, espectadores se debruçam na busca do significado do filme em perspectivas numerológicas, religiosas, filosóficas e meta-cinematográficas atrás da real intenção do diretor – que, de fato, cortou cenas finais e decidiu por uma “conclusão inconclusiva” – há, por outro lado, aqueles que buscam potencializar aspectos políticos do filme como instrumento de denúncia do sistema capitalista (e até do socialista) em exagerações equivocadas, vendo estes sistemas onde não existem e, ainda, perdendo a oportunidade de discutir outras temáticas mais verificáveis na ficção em si.

O filme inicia afirmando haver “três classes de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”. Sem demora compreendemos que aquela edificação vertical (o tal Poço) é composta de muitos andares, com cada andar abrigando um par de pessoas e uma estranha plataforma que todo dia desce trazendo um banquete servido pela Administração para garantir a alimentação dos “inquilinos”. Acontece que essa comida posta na plataforma passa por todos os andares, parando à disposição de cada par de pessoas por apenas alguns minutos ao dia. De modo que os ocupantes do andar de cima sempre comerão antes e deixarão suas sobras aos ocupantes do andar debaixo, que comerão e deixarão suas sobras ao do andar inferior seguinte, e assim por diante até que uma hora a comida acaba e os pares dos andares mais profundos do Poço devem se virar... Além dessa disfuncional divisão de alimentos, as duplas são trocadas de andar aleatoriamente uma vez ao mês. Ou seja, um par pode estar bem servido de alimentos em um mês no andar 48 ou 6 e, então, no mês seguinte passar uma fome desesperadora que leva à loucura nos andares 171, 222 ou outro dos mais baixos...

Toda essa construção do filme prova - para desgosto dos “apolíticos” - que é impossível despolitizar O Poço, uma vez que estes elementos levam à essência do que significa o próprio debate político: sistemas de sociedades, conflitos de interesses, relações de poder, luta pela sobrevivência, convívio humano em adversidades extremas, egoísmo versus altruísmo, distribuição e escassez de alimentos, adaptação conformista ou rebelião inconformista, entre diversas outras temáticas. Tudo está no filme e tudo isso, óbvio, são temas políticos. Temas gerais e interessantes, passíveis sim de relações e paralelos com a realidade em certas medidas e com os devidos cuidados. Mas, para os objetivos desse texto, quero focar em apenas um ou dois aspectos específicos quanto as figuras do velho Trimagasi e do protagonista Goreng face à situação que vivenciam na película.


TRIMAGASI, A REALIDADE QUE MATA A INGENUIDADE

Goreng é o protagonista do filme e contracena boa parte com o velho Trimagasi. Tudo começa no andar de número 48, quando Goreng, um homem adulto, acorda e conhece esse sério, distante e frio senhor de idade de olhar blasé. Após alguma relutância (pois “falar cansa”), Trimagasi passa a conversar com Goreng e vai mostrando sua curiosa personalidade.

O velho conta que assistia às propagandas na televisão. Que seu consumismo o empurrava a querer adquirir os bens mais modernos, estes que não paravam de ser reinventados e melhorados e, por isso, era sempre obrigado a comprar a nova versão do que já tinha. Até que certo dia, enfurecido de sentir feito de tolo pelos vendedores do canal de compras, jogou a televisão pela janela e acabou matando um “imigrante”. Se defende dizendo que foi um acidente e não foi culpa sua, que o homem “nem deveria estar ali”. Revela que foi mandado ao Poço para cumprir a sua pena em troca de não ser internado em um sanatório e que só ficaria ali mais dois meses. O presente e o próximo, depois sairia.

Notemos que Goreng tem muitas dúvidas, faz várias perguntas e questiona o funcionamento do Poço enquanto que para Trimagasi tudo é muito “óbvio”, simples. Óbvio que os de cima não escutam os debaixo, pois aqueles estão melhores; óbvio que os debaixo são humilhados pelos de cima, pois aqueles estão piores; óbvio que ele também deve humilhar, ser humilhado e não ser escutado, ao mesmo tempo que os xinga de “filhos da puta” por isso; é óbvio também que cada vez haja menos pessoas no Poço, porque elas estão morrendo; é óbvio que as vezes se está lá em cima e as vezes se está lá embaixo; enfim, “óbvio” que é tudo como é.

A dupla passa o mês inteiro no andar número 48, numa relação de coexistência pacífica que evolui para uma relação amigável, onde Goreng lê seu livro do Dom Quixote para Trimagasi quando este não consegue dormir, enquanto o idoso comprador compulsivo conta os dias que faltavam para o mês seguinte fazendo riscos na parede com a Samurai-Plus – sua faca de cozinha mais moderna e que fica mais afiada na medida que mais se faz uso dela.

De modo geral, há um simbolismo nesse velhinho. Ele representa a aceitação e resignação às estruturas do Poço. Como aqueles que chamam de “pragmáticos”: quem joga o jogo, aceita as regras, não as questiona e só pensa nos resultados permitidos ali. Isso é o que fica evidente ao extremo no momento em que a dupla é transferida do andar número 48 direto para o andar número 171, em uma sequência tenebrosa: Goreng acorda completamente amarrado à cama e aí se trava um diálogo diabólico com seu colega de quarto, onde Trimagasi explica que não chegaria comida nenhuma para eles agora que estavam tão fundo no Poço. Que isso os enlouqueceria pouco a pouco, destruiria sua amizade e, portanto, chegaria o ponto da fome e da desconfiança onde se imporia a necessidade de praticar o canibalismo. O velho explica que é mais fraco, por isso, teve de se precaver amarrando o colega logo. Explica que Goreng servirá de alimento até o final do mês, sendo cortado em pequenas fatias de carne pela Samurai-Plus. O velho ainda promete que cuidaria dos ferimentos para que Goreng não morresse logo e, assim, não estragasse sua carne. Aqui a grande questão é que o agora canibal Trimagasi aceita a condição de barbárie do Poço, a entende como parte da luta pela sobrevivência ali, sendo que não seria a primeira vez que comeria carne humana, inclusive. Falando em uma racionalidade calculada que durante vários dias ambos se alimentariam de Goreng, mas que faria aquilo com “respeito” e de maneira “limpa”. Retrucando os gritos do colega que a culpa não era sua, mas sim de todos os andares acima que impediam a comida de chegar até ali. “Óbvio”.

A cereja desse bolo medonho é que Trimagasi passa a chamar Goreng de “caramujo”, dizendo que facilitaria entender o colega agora como um animal, para poder comê-lo. Eis o grau de bestialidade e barbarização que a lógica do status quo valida na cabeça do velho: “comer ou ser comido”, com todo o “respeito”. Enquanto Goreng implora e grita aterrorizado por aqueles planos dia após dia.

Evidentemente que a crise de comida é uma virada inesperada e terrível no filme. Não passou pela cabeça do protagonista o que ocorreria se ambos fossem parar em andares mais profundos do Poço, não lhe ocorreu que não chegaria alimento e nem o que mais poderia acontecer de “óbvio” por lá. Ele não imaginou ser atacado e amarrado para ser mutilado pelo colega de quarto. O desespero toma conta dele nos dias em que o velho ainda tenta fazer jejum para adiar o início da mutilação. Até que chega o dia em que a lâmina corta um bife da sua coxa e Goreng explode de dor e horror. Mais uma reviravolta: acontece o contrário do que queria Trimagasi e, com ajuda da estranha Miharu, é Goreng quem o mata o velho com ódio e quem come da sua carne com toda a culpa ao longo do mês no andar 171. O sobrevivente se alimenta até que o cadáver apodreça. Agora contando com a companhia fantasmagórica de um Trimagasi o assombrando e zombando dentro de sua cabeça, como um profundo trauma de remorso por ter chegado ao ponto extremo que alcançou. Se justifica consigo mesmo que não teve outra escolha, que foi obrigado e que eles não são iguais por isso.


GORENG, UM “MESSIAS” FACE AO STATUS QUO

Antes de buscar a tentativa de mudar a lógica do Poço com Baharat, Goreng ainda experimenta mais um andar de fartura de alimentos no número 33 e depois mais um andar de escassez absoluta no número 202 - onde acaba devorando o corpo de Imoguiri, quem, aparentemente, se enforca ao ver o horrível sistema onde esteve trabalhando por tantos anos antes. Abstraindo a parte das alucinações fantasmagóricas e messiânicas que são vividas por Goreng no andar 202, podemos dizer que ele conseguiu entender desde as altas até as mais baixas perspectivas o dito “sistema vertical de auto gestão”. Essa consciência do fracasso e horror do sistema o revolta e o impele a querer mudá-lo.

Em um dos diálogos com a ex-funcionária Imoguiri, o "herói" afirma que “mudanças não acontecem espontaneamente”.  E a própria Imoguiri sugere que talvez Goreng estivesse ali no Poço justamente para fazer a diferença no sistema e, durante novas alucinações canibalescas, seu fantasma chega a chamá-lo de “Messias” enquanto ele comia sua carne e bebia seu sangue. Num ritual com citações bíblicas do "cordeiro de Deus". O evidente paralelo desse messianismo cristão com a vontade de mudar as coisas soa a um deboche, em parte. E é. Porque ele depois evolui para uma franca repressão assassina contra os que não concordarem.

Chegando ao andar de número 6, surge Baharat que é humilhado pelos de cima e frustrado na sua tentativa de sair do Poço escalando os andares restantes. Não pode contar com a boa vontade dos racistas ocupantes do 5º andar que, literalmente, cagam na sua cara. Goreng é solidário e convence Baharat que seja necessário intervir na lógica do Poço. Goreng quer descer os andares em cima da plataforma de comida, escoltando e distribuindo o alimento para que chegue aos mais famintos lá embaixo enquanto Baharat é convidado a ajudá-lo e a aproveitar o instante do retorno da plataforma para seguir rumo ao andar zero, ao topo do Poço onde está a Administração.

Goreng e Baharat se armam com barras do estrado de suas camas, sobem na plataforma e começam a sua missão. Pedem que os 50 primeiros andares façam um jejum neste dia, para que os famintos dos demais andares possam comer. A reação dos ocupantes varia: uns negam e outros aceitam, alguns pelo convencimento e outros pela coerção, ameaça e violência física que passam a empregar Goreng e Baharat contra aqueles que se negavam a cooperar. Ao passarem do quinquagésimo andar, afinal, começam a distribuir as porções de comida igualmente para os pares de famintos dos andares inferiores. Uma divisão de pães numa versão hardcore de cristianismo coercitivo que chega a ser questionado por um velho dos andares de cima “o messias multiplica os pães, não os toma!”.

Em outro diálogo – com o “homem sábio” – Baharat e Goreng são chamados a criar um símbolo, uma mensagem a ser entregue ao andar zero e à própria Administração do Poço. Há um apelo pelos bons modos pacíficos de “convencer antes de vencer”. Mas logo vemos que nem os bons modos, nem a simbologia e nem a pretensa mensagem tem o tipo de poder necessário para enfrentar os fatos. Pois após uma longa descida beneficente distribuindo comida para quem não comeria, a boa intenção dos mocinhos é solapada pela cruel realidade do Poço outra vez. São muito mais andares do que imaginavam. Calculavam ser uns 250, mas já iam longe disso e vendo cada vez mais andares com pessoas mortas, com mais pessoas enlouquecidas e mais pessoas violentas até encontrarem novamente com Miharu, que estava sendo agredida e que termina esfaqueada por um brutamontes. Goreng e Baharat lutam contra a dupla de assassinos, vencem o combate com dificuldade e saem gravemente feridos, com a sentença de morte já sendo executada em seus corpos.

Seguem descendo até o andar de número 333, onde ambos os companheiros de luta morrem tentando proteger o símbolo, alimentar quem tinha fome e entender qual era sua própria mensagem, tudo ao mesmo tempo. Basicamente, eles morrem na luta por mudar as coisas e por conquistar a liberdade. Uma série de cenas que não se sabe mais se são parte da realidade, se são delírios antes da morte ou um simples tapa-buraco mítico do diretor para que o filme ficasse com um final mais... qualquer-coisa...


UMA (IN)CONCLUSÃO POSSÍVEL E AS REFLEXÕES PRINCIPAIS

O fato é que não se vê uma mudança nas formas opressivas, violentadoras e estruturalmente assassinas do Poço. O que nos leva a considerar a possibilidade de que o próprio final do filme e sua “explicação” não são o mais importante. Que as mensagens mais interessantes de ponderar já foram apresentadas e postas para apreciação ao longo dele, antes da sua conclusão.

Afinal, aquela “mensagem” que Baharat e Goreng queriam entregar ao nível zero e à Administração – fosse ela só um pratinho de comida (que, particularmente, nada diz) ou fosse ela a criança faminta no fundo do paço que não deveria estar lá (e, talvez, nem estivesse mesmo) – termina ela própria sem o seu tradutor, sem o seu mensageiro, tal como diz Trimagasi na escuridão após o andar 333. O filme termina sem uma explicação porque ele é mais um exercício de reflexões e no seu decorrer já colocou os problemas que queria colocar. Seja a barbárie, fome, ganância, egoísmo, altruísmo, coletividade, conflitos, vontade de mudança, coragem, covardia, resignação, etc.  

Pois o final se descola daquela concretude oferecida entre as quatro paredes, entre os vários andares e as diversas relações estabelecidas ali. Se desvanece essa resposta final assim como se desvanece a mente do protagonista, que vai morrendo e só vai deixando os caminhos especulativos e subjetivistas da velha questão sem solução: “o que há após a morte?”. Portanto, sem a densidade imagética e sem a significação verbal real necessárias para explicar e responder com todas as letras o que se dá, então já não importa mais nada desse “depois”.

E apesar de ver muito mais pessimismo nesse filme, entendo que o intrigante nele é o desconforto causado pelo próprio sistema. Que, independente do que resulta da ação contra ele, o importante do filme foram as reações das personagens como alegoria das pessoas do nosso mundo injusto. A dupla rebelde não teve sucesso e isso pode ser lido como um: não dá pra mudar um sistema desgraçado como esse, simplesmente. Ele não vai ser solidário porque não é baseado na solidariedade, ponto final.

O que importa mesmo é que havia um sistema bárbaro e vil destruindo homens e mulheres e diante de cada pessoa ali dentro se colocavam as questões: É preciso mudar isso ou não? Se pode lutar contra as regras ou não? De que maneira se poderia mudar esse sistema? Você se adapta e dança conforme a música ou se rebelará contra isso tudo? Como? Por que? Por quais objetivos faria ou deixaria de fazer? O que importa no filme é como aquelas pessoas responderam à essas perguntas. Enquanto uma grande maioria se submetia e aceitava aquela barbárie, a alimentando e reproduzindo elas próprias, mesmo indignadas, se conformavam e colateralmente já estavam permitindo matar e morrer e suicidarem-se. Havia outras ali que tentavam fazer a diferença em menor ou maior grau de intervenção, com maneiras de inconformismo mais ou menos efetivas, mais individuais ou mais coletivas. Havia ainda aquelas que simplesmente desistiam. Na aceitação das regras, na desistência da vida ou na luta tenaz, vemos as respostas de Trimagasi, de Imoguiri e de Goreng-Baharat.

Essa é uma das reflexões interessantes e que melhor servem para fazer um paralelo com a realidade cruel de crise profunda dos sistemas societários que hoje estamos vivenciando no Brasil, na América Latina e em todo o planeta, seja sob os regimes políticos fracassados ou os sistemas econômicos em frangalhos que forem. A mensagem é que as sociedades verticais, onde não existe distribuição justa e igualitária de recursos e do poder, serão sempre um inferno de brutalização, de conflitos e de barbárie, como cada vez mais são hoje mesmo...

A simples existência daquelas três classes do filme já não é o “fundo do poço”? A terceira classe de pessoas se referia aos suicidas? Foi uma missão suicida a de Goreng e Baharat?

Mesmo após entender o terror do sistema se deve compactuar com ele como fez Trimagasi?

Nós devemos aceitar a barbárie como nosso único e “óbvio” caminho? Essa moralidade doentia tão normalizada de sobrevivência?

Goreng e Baharat deveriam ter tentando mudar as coisas no Poço como fizeram? Aquele era a única maneira?

O medo do fracasso em tentar mudar as coisas é mais heróico que qualquer tentativa corajosa mesmo que ineficaz?

Por que eles não cogitaram o caminho de destruir o Poço com apoio dos demais presos? Não seria o mais adequado estrategicamente?

Na vida real, a maioria das pessoas segue qual desses perfis diante da crueldade do mundo? Conformismo, desistência ou tentativa-erro de mudança?

Você é o Trimagasi, Imoguiri, Baharat ou Goreng?

sábado, 12 de outubro de 2019

Devaneio sobre Coringa: entre revolta e loucura

(tem um monte de spoilers)


Dentre as várias possibilidades de interpretação, uma das mais evidentes é que o filme Coringa - em diversas camadas - é a de ligação entre protestos populares por dignidade, empregos, salários e direitos sociais à ideias beirando a insanidade coletiva, rebeliões vingativas, vontade de assassinatos e até terrorismo revanchista. Por mais que não se afirme isso, por mais que haja uma nublada relação de nexos de causalidade entre as ações das massas revoltas em Gotham com os atos pessoais do protagonista em contínua decadência mental, essa talvez seja a impressão que mais fique no imaginário dos espectadores: há uma lógica de "liderança popular" anti-herói. Todo o martírio de Artur até tornar-se Coringa produz revolta anticapitalista, afinal é dos desdobramentos desse sistema em crise e apodrecido que compõem parte importante de seus sofrimentos, bem como dos sofrimentos dos demais trabalhadores da cidade. No entanto, o caminho que trilha o personagem é o de um ressentimento individual violentamente vingativo... Nessa perspectiva, é terrível e reacionário como o filme mescla a lógica e legitimidade da luta popular, a consciência de classe, o ímpeto de rebelar-se contra a injustiça de governos cruéis e tão frios às nossas necessidades, como se tudo isso fosse uma marcha ao abismo geral do caos puro e simples, sem objetivos, sem organização, sem nenhum projeto de libertação estruturado e facilmente aderente ao mais anárquico dos extremismos - como no imaginário do que seria o estopim de um atual "neofascismo" ordeiro como resposta a uma rebelião "anarcoterrorista" por parte dos pobres. O contexto que vivemos hoje é de uma época de crise política, econômica e social que tanto detona vários protestos nos Estados Unidos, coração do capitalismo, quanto também na China, no Brasil, na Venezuela, na Argentina e agora recentemente no Peru e Equador - não é curioso pensar que ao mesmo tempo que o filme passa nos cinemas, há governos caindo por aqui? O contexto, definitivamente, é este. As castas governantes sejam de "direita" ou "esquerda", sejam estatistas ou ultra liberais das corporações transnacionais estão incomodadas por todo lado pela marcha caótica que trilham. Coringa está nessa vibe de: "turbulências narrativas". É o espírito do nosso tempo esse conflito. O filme - fodasticamente construído em todos os sentidos - atira para todos os lados, tendo como eixo o desconserto e a perplexidade, ambiguidades e contradições inúmeras em um enredo que confunde real e irreal numa mente doente e um mundo conturbado, apela ao conflito emocional da plateia submetendo Artur a sofrimentos contínuos na intenção de desatar compaixão e empatia pelo desgraçado comediante do proletariado. Sofreu na mão da família, talvez seja abandonado pelo pai, desempregado, sendo espancado nas ruas, sofrendo de transtornos que não pode tratar pois foi destruída a assistência social que lhe garantia remédios, até seu ato desesperado de auto defesa - comove e revolta, como a realidade da nossa classe. Há uma questão aqui também: o suicídio. Artur planejava se suicidar ao vivo, na TV aberta, durante sua entrevista de estréia como se fosse a piada fatal que ele contaria. Mas a pressão da oportunidade e da revolta de Artur, transformando-o no Coringa encaminhou outra decisão. Entre explodir seus miolos diante da plateia, ele explodiu sua fúria junto aos miolos do âncora do talkshow, que ali representou o também frio e cruel deboche da TV contemporânea aos problemas populares. Da auto-defesa do primeiro assassinato ao extremo do terror individual que mata, há um salto. Enquanto "palhaços" vão às ruas e terminam lá elegendo como líder-símbolo um "palhaço louco" inspirandor de um movimento pautado por assassinatos (kill the rich) e que termina revirando a cidade toda do avesso, qual será o lado da plateia? Conflito. Essa miríade de conflitos e contradições é a engrenagem do filme. Inclusive, há uma coisa em comum entre HQs de super heróis e filmes de hollywoodianos: primeiro, o povo é sempre uma massa de gado que precisa de heróis para sempre serem salvos; segundo, a ideia de rebeliões e revoluções sociais nunca chega a uma conclusão positiva ou mudança fundamental, essas ideias sempre tem que ser massacradas, amaldiçoadas e esvaziadas de racionalidade sã e objetivos claros. O filme, evidentemente, é sobre o Coringa. Mas a mensagem é à nossa classe: "não pirem!". A mensagem é aos governos: "olhe, como eles estão pirando, hein!". E, podemos ainda esticar a corda até interpretar outro recado, como um convite e uma ameaça, talvez? "Parece incurável. Precisamos de Batman". Talvez seja por isso que Coringa ao final do filme ri e responde à sua psiquiátra que ela não entenderia a piada. A piada de que a loucura coletiva é que cria os "super heróis" - entra aqui a cena de Bruce Wayne com seus pais abatidos no chão pelos palhaços mascarados da multidão que roubavam o colar de pérolas de sua mãe. Há tantas vítimas e vilões-colaterais na narrativa, mas os "verdadeiros vilões" que constroem todo o sistema em crise de Gotham nem sequer tem máscaras, nem nomes e nem aparecem... Ou é impressão minha? Coringa é como um fenômeno-resultado da degeneração social de Gotham, que afunda na depressão e produz as condições para uma rebelião. Mas a loucura sistemática antipopular que massacra tanto Artur como o restante dos "clowns" da cidade é a raiz do problema central que o filme não esgota: a loucura capitalista contemporânea.

"A vida é assim..."?

terça-feira, 19 de junho de 2018

Esse blog fez 10 anos e nem percebi

Comecei a usar esse blog muitos anos atrás fundamentalmente como um exercício. Exercício de reflexão, de produção textual e de expressão do que pensava e sentia. Não tinha o menor objetivo de torná-lo algo "propriamente público", pois não passava de uma "brincadeira pessoal". Era um pouco da tal de intimidade pública de arestas aparadas, invenção das redes sociais. Durante um certo tempo tive alguns colegas bloggers que também postavam seus próprios blogs e que passaram a compartilhar comigo algumas coisas legais por aqui... Depois descarreguei várias coisas aqui, em signos virtuais para memórias e sensações residuais de toda sorte. Nada demais porque nunca foi para ser algo mais que meus próprios murmúrios pessoais para mim mesmo - não na maior parte do tempo, pelo menos. Mas como tudo muda, mudou também o teor das postagens. E o que era só brincadeira foi virando uma brincadeira diferente. Depois mais diferente. Até virar "só uma página" estranha de vários textos políticos em espanhol e inglês que eu traduzia. Perdeu toda a graça e sentimento que um dia teve, rs. Mas, blergh!, passou. Deixa pra lá. O importante é que esse blog bobo foi bem útil para mim em alguns momentos e, de alguma forma, me ajudou - junto de muitas outras experiências reais - como o tal do exercício que deveria ser, no aprendizado das ordenações de ideias, das palavras e até em um pouquinho de poesia. 10 anos é muito pra vida humana, por mais que não signifique quase nada na História da Existência.

E, quando olho aqui, vejo que muito do que penso hoje já pensava há uma década atrás - talvez eu não tenha mudado tanto quanto imaginei que mudaria em uma década ou talvez não seja bem assim, e eu só não esteja atento agora enquanto digito. Enfim: para ajudar a perceber o que mudou, vou voltar a digitar aqui. Partindo do que acabo de fazer agora. Boa noite: são 4h da manhã e escuto Casa das Máquinas, o disco "Lar das Maravilhas".

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mais uma visão sobre a morte




O que seria da vida se não houvesse a certeza da morte?
A morte é um evento intrigante.


Sempre se inventam hipóteses do "além vida". Mas, de fato, ninguém faz ideia "do que vem depois". E grandes mentirosos são os que dizem saber. E que descriteriosos são os que, na ânsia por alguma resposta, aceitam promessas sem garantias, só para sanar o vazio de perspectivas. Ou que, com medo das possibilidades de "penalidade eternas" dantescas, aderem à cartilhas de "salvação", sem pensar na possibilidade de estarem errados, fazendo o jogo de um deus que nem exista...

A condição de estar vivo, não precisamos comentar. Perambulamos por aí pela face da terra com nossas ideias e propósitos, etc, buscando fazê-lo "da melhor forma possível". Uns, inclusive, lutando para construir um mundo melhor e outros fazendo, através da inércia ou da ação, o tremendo desfavor de mantê-lo justamente do jeito que ele vai: cada vez pior.

Se for para escolher o que mais conforta... eu prefiro a versão mais poético-materialista que diz: quando morremos, nos redistribuímos pela existência material, nos dissolvemos no mundo, na terra, no ar, nos sais, e servimos aos que permanecem, enquanto alimento de organismos micros e macros, no solo, na grama. Energia reaproveitada pelo ciclo natural da vida, em outra forma. "Fenecemos", mas continuamos fisicamente através de nossa transformação. Só restando o eco do que fomos, "quando gente", reverberando nas memórias dos que nos conheceram, nos corações dos que nos amaram, nas fotografias, lembranças, no que dissemos e ensinamos, no que compartilhamos e/ou no sangue dos filhos que deixamos, na nossa participação na História, nossas obras. Insignificante ou significantemente. Ordinária ou extraordinariamente, o que restará será o que fomos quando vivos e o que fizemos.

Se a nossa consciência se vai, fica, se transforma também, aí não há como saber. Mas, veja bem, o que eramos antes de nascermos, afinal? Você sabe explicar? De repente, voltemos a ser justamente isso... alguma inclassificável parte de um todo existencial maior do que nós e nosso tempo, anterior e posterior, que seguirá seguindo. Indiferentemente, sem nós.

Mas enquanto isso, vivamos e saibamos utilizar o "tempo" que temos.

Deixo aqui um vídeo, de um grosseiro e simpático velho ateu, nosso ''finado'' George Carlin.

domingo, 18 de setembro de 2011

nostalgia amanhecida

Na quietude serena da noite é mais fácil ser nostálgico.

É meio um problema a nostalgia aparecer de manhã cedo, depois de toda uma noite acordado, pois o dia cobra atenção. De dia as pessoas estão de pé, vivendo a vida, espreitando e, sem querer, inibindo o intimismo que paira livre durante a noite. O dia cobra alguma sociabilidade... que ocupa o espaço da solidão que de vez em quando quer seu momento. De modo que a noite me parece sempre mais apropriada para os sentimentalismos solitários e pequenos tormentos.

Ter companhias não apaga a Solidão da qual falo... Mas companhias outras distanciam o desfrutar da nostalgia, essa doce amiga. Essa visita constante alojada no meu peito...

Linda, o dia é cheio...
E pra conservar a magia:
Venha à noite, quando teremos a madrugada toda em nosso leito.
Onde os sonhos que não nos permitem durante o dia
sejam nosso desejado tempo perfeito.


sábado, 13 de agosto de 2011

Pedaços desolados

Mas... e quando todas as palavras se vão? Guardadas nas bocas, no peito dos ausentes. E quando não há a quem falar e deparamo-nos sós na cidade? E quando o silêncio é a única resposta, já que tornou-se impossível fazer perguntas a alguém? O telefone chama, mas ninguém atende. Quando gritas, se o eco cala? No momento em que percebemos a mudez do mundo. No deserto das profundas ruas noturnas. Que somos quando estamos sozinhos, senão bichos incompletos? Pedaços desolados. Amputados uns dos outros...


Ontem, uma bela moça da minha idade faleceu de câncer e isso mexeu muito comigo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Você não cansa? Eu canso

De tropeçar e afundar-me em tanta gente instável e insegura, os egos movediços; De conviver com incansáveis e repetitivos pronunciamentos vãos, sem referências e sem fins, de quem não se apega a nada nem ninguém, que vive da sua egoísta solidão; De esgueirar-me na fuga do fogo-cruzado de asneiras, por vezes obrigado a esconder-me atrás d'alguma máscara de burrice ou puro descaso pra despistar os belicosos cães do caos, decisão desesperada; Dessa época do pós-moderno poetizado, pintado e cantado, escrito em blogs bobos, discursado em mesas de bar, bebido a cada copo magoado, esbaforido em auto-destrutiva fumaça cínica, posto em estandarte, como se fosse o avesso do abismo, como se fosse salvação ou sabedoria.

Eu vejo ao longe um brilho, fixado na abóboda celeste. Farejo o ar e percebo um desbotado gosto de coisa boa. Vou fazê-la de Norte, vou fazê-la Cabana. Porque eu já vi que seguir esse caminhar contínuo, que caleja e fere a palma dos pés, dá mais vida do que me revirar no solitário e liquidificante perder-se proporcionado pelo caminho que agora abandono... Posto que quem não vive de verdade, de mentiras vai morrendo: Escolho morrer de verdade, sincero e são, no contra-senso das chorosas flores cadentes. Sei que não sou o único a cansar de ver tanto cansaço...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Uma espécie de tensão...

Ver um vídeo bem focado, um desenho caprichado ou uma foto em alta resolução me dá uma noção assustadoramente bem mais forte da realidade... Não 'to sendo claro. Mas, tipo, é como pegar um choque, ficar doente, passar um dia na rua sob um sol impiedoso, deitar na praia de noite... ou desfazer um vínculo forte...

Ou quando você está incerto. Sabe? Quando você percebe que, de verdade, o futuro é um mistério pro ser humano. Quando tudo o que você tem se resume ao agora e a si mesmo. Quando você nota o quão intensamente bela são as minúcias do mundo e quão solitária e insignificantemente se configura a sua existência diante do algo infinito, absoluto e indizível que emana pr'além de seu corpo vedado, tolhido...

Sendo esse corpo tudo o que você realmente possui.

Quando se aguça a noção do real, do instante presente, das estruturas físicas e sensações emotivas, misturando você e todo o resto. Sabe do que estou falando? Isso me deixa inquieto. Dá vontade de ultrapassar todos os ditos limites dos quais se ouve falar... Tira o sono, todo esse negócio de andarmos por aí, de sermos parte e todo, autônomos mas interligados, de fios elétricos, bioquímicos, de nomes e mais nomes designando substâncias, de simbolismos segregadores e unificadores ou aproximadores e desaproximadores, feitos de tempo, sendo corpóreos e incorpóreos, falando por ondas e pulsações, decodificando luzes com nossos olhos, andando por sobre a face espetaculosa dessa peteca espacial...

Essa ânsia devoradora, viciada em sensações e entendimentos superiores, é produto homúnculo inerente desse órgão complexo que nosso crânio aloja? Essa ferramenta aguada e faíscante é realmente natural...? É um perpétuo defeito vivo biologicamente sistematizado que resume o bicho-homem? Seria instinto, seria utilitário, seria poder? É o deus selvagem que devemos domar e instrumentalizar em função de algo maior que deus?

Meu bocejo mecânico mandando dormir...?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Última Casa de Julho

Nossa, o mês de Julho, pra quem fica de férias, é uma coisa muito boa. Eu tive um semestre longo e cansativo que, felizmente, foi bem sucedido academicamente. Ter esse tempo de descanso é ótimo, hoje admito. Não ligo mais praquele sussurro ansioso ecoando na minha cabeça, aquelas inquietações não tornam mais minhas férias num longo e arrastado período pra roer de unhas... Eu ando finalmente aprendendo a lidar com os fatos, eu acho. Vou indo.

E nessa ida, leio meu blog e penso, "nossa, quanta bobagem". E, de vez em quando, "nossa, bobagem mesmo era o início desse blog, que bom que andou se transformando"... Digo, é aquele negócio: as vezes a gente sabe que andou crescendo de verdade, por mais que não tenham se passado décadas necessariamente... E acabamos olhando de cara torta pro passado, com vergonha de si mesmo, saca? Por sermos tão exigentes com a gente mesmo.

Esse negócio de aprendizado é engraçado. Parece que no desenrolar da história, a gente vai tendo momentos de clareza. Agimos de um modo, daí aprendemos um modo melhor, então passamos a nos policiar, sendo que aos poucos amolecemos de novo, as vezes. Daí tentamos de novo com mais força. Umas pulsações de consciência, que vão e voltam. A cada estalo desse aprendemos a importância do agora, a necessidade de planejamento e diligência, o valor da vida, essas coisas todas... E vivemos lembrando e esquecendo, lembrando e esquecendo, mas, cada vez mais, o aprendizado enraiza mais fundo nos nossos hábitos, mudando de verdade o nosso dia-a-dia, acredito...

Tal qual no início do ano, eu agora planejo mais esforço nas minhas atividades, uma força renovada e ampliada pro próximo semestre. Atualmente é só isso que eu ando querendo, de certa forma. Não vou me torturar agora com a frustração de desejar o que eu realmente ainda não vou conseguir por questões fáticas, sólidas, decisivas, que ainda precisam ser transpostas. A gente tem que saber encarar a realidade dos nossos limites.

É necessário ser humilde e saber reconhecer até onde se pode ir... Assim como, a partir de então, se trabalhar pra ir ainda mais além, sendo também ambicioso. Vou por aqui passeando, nos dias restantes de Julho...

sábado, 24 de abril de 2010

Constante Continuidade e Preocupações

De vez em quando, diante de um espelho, fotografia ou por conta do encontro com algum velho conhecido, nos damos conta da vida como ela é. Posto que um dia suas mãos foram menores, seus traços mais suaves e sua feição não fora cabal como agora parece... Eis então a consciência do Tempo se manifestando. E uma torrente de inferência premonitória, questionadora e nublada se espalha em nossos sentimentos, perpassando desejos e temores na incógnita do futuro...

Já é Abril, cara. E Abril já está terminando. Hoje é aniversário de um amigo, está fazendo 25 anos. O conheço desde meus 15 ou 16. E eu já tenho 20. Estou na faculdade, no meio do curso. Minha avaliação semestral já está na segunda etapa, já já estará terminando. Tem material pra estudar, atividades pra cumprir, depois provas de novo. Ocupam vez nas adjacências as atividades extra-curriculares e, pr'além delas, as coisas que me interessam mas que não contribuem diretamente com a formação técnico-acadêmica proposta por meu curso. Eu tenho a incumbência de ser diligente; O cotidiano segue as diretrizes, as normas, os esquemas menores, ditados e monitorados pelos esquemas sociais maiores que regem o mundo. Notícias de jornal [sem mencionar a tendenciosidade dos meios de comunicação] contam como vai o país, a conjuntura política, e nós, as partículas sociais, perambulamos entre possibilidades partidárias, ações políticas desvinculadas do governo, ONG's, fatos políticos [veja, por exemplo, toda a crítica sobre a hidrelétrica de Belo Monte ( para vídeo de Maurício Tolmasquim, Pres. Empresa de Energia Elétrica, e Ildo Sauer, conselheiro IEE/USP, analisando a polêmica, Clique aqui)], fatos sociais [os danos sobre as terras e as comunidades indígenas de lá e o interesse na mão-de-obra barata que a região vai angariar pro projeto e os protestos que andam rolando (horrível ver, por exemplo, gente falando absurdos sobre usar a força contra os indígenas, que serão vitimados mais adiante, pra parar os protestos, como na parte de comentários do Diário do Pará, clique aqui ) ], algum desastre natural [Haití, Chile, inundações e deslizamentos no Sul do Brasil], alguma alarmada epidemia [essa H1N1 que me fez tomar uma vacina com o mutirão de vacinação realizado agora] e etc, ou podemos nem sequer nos meter a procurar entender nada, nos dedicando ao nosso caminho, feito burro-de-carga com viseira...

Seria loucura ou muita ignorância viver feliz e satisfeito ao considerarmos a amedrontadora história recente do Brasil, a rasgante e colossal história recente da humanidade, o século XX, o século sangrento, as duas guerras mundiais e os perigos de auto-destruição da humanidade através de guerra nuclear, a enegrecida epopéia dos sonhos Comunistas e a dilaceração, amputação, à traição, dos sonhos de todo um planeta de escravos modernos, o próprio presente que é minado de problemáticas em âmbitos regionais ou planos internacionais [pra quem não sabe: ainda existe MUITA guerra, morte, fome e injustiça social], a imensa proporção da problemática ambiental que se apresenta hoje numa configuração nunca vista antes pela humanidade e etc. Então, como é que você, que constitui a juventude dos nossos tempos, tolamente, se desliga? "Ah, esse negócio da ditadura acabou, agora está tudo bem", "Ah, política não se discute", "Ah, se cada um fizer seu papel certinho, no seu canto, fica tudo bem", "Ah, cada um com seus problemas". Trabalha, estuda, namora, festeja, reclama e sofre quieto escolhendo o caminho mais condizente com a sua realidade, já que apossar-se de certo caminho implica abrir mão de outro naturalmente - desconsiderando as exceções, claro, quando o indivíduo é privilegiado, quando tudo está ao alcance da mão do indivíduo, quando é tudo simples de conseguir, sua carteira cheia da grana, morando em algum condomínio, bairro bacana e a vida é tranquila, posto que pra maioria é muito complicado ter sequer o básico. E essa realidade é angustiante. Você, na corda-bamba, equilibrando-se pra alcançar a estabilidade e com medo de cair na miséria... Mas, sendo essa a realidade propriamente dita, precisa posicionar-se, usando o que tem. Dinheiro é necessário, decisivo no nosso modo de vida. É preciso emprego, emprego demanda capacitação técnica, capacitação necessita estudo, estudo demanda instituições estudantis, que demandam recursos pra prática de sua finalidade, que demanda a correta distribuição destes recursos pelos seus mantenedores, numa cadeia sócio-política-econômicamente gerida pelas circunstâncias das normas, do governo, do sistema ao qual se submete, das condições regionais, das condições nacionais e etc. Eis a gaiola de ferro posta, invisível, mas sensível e aprisionadora. No entanto, ninguém deve ser bobo de ninguém, viver em servidão e submeter-se ao que não é necessário, daí a importância de cidadãos ativos politicamente, reivindicando seus direitos instituídos e instituindo seus direitos reivindicados.

Além desse nível amplo de obrigação labiríntica para com a nossa própria sobrevivência, existe ainda outro labirinto menor, mais pessoal, mais íntimo, relacionado ao nosso bem-estar de espírito, que, fluidicamente, abrange tudo e mais um pouco, se comunicando com a esfera pessoal de outros indivíduos de espíritos tão angustiados quanto a gente, maltratados e machucados, com sua humanidade cheia de marcas, desilusões que, por vezes, promovem na pessoa uma revolta e uma consequente inversão de valores, fazendo com que ela passe a considerar justas as injustiças e correto o que é errôneo, corrompendo seu senso de justiça. Em dados casos, que não são poucos, drogas, bebidas, orgias, entretenimentos, alienações, um gosto pela ignorância, pelas bizarrices espetaculosas e demais vaidades viciosas visam conduzir à um estado de felicidade e preencher o anseio advindo de vazio depressivo sem esperanças, quando isso nada mais é que pura usurpação do lugar que a felicidade deveria ocupar sem necessidade de fetiches para ser alcançada; Tem a fé em absolutismos e tiranias transcendentes, que faz um corte epistemológico em torno de um único âmbito de entendimento e negligencia todos os demais, tornando o todo submisso a um fragmento de si próprio, colocando o todo submisso à uma parte (parte talvez dissimulada, enganosa, equivocada) da interpretação do mundo, gerando segregações por conta do prender-se em particularidades de uma dogmática axiomática filosófica, ao invés de generalidades fáticas constatáveis, numa postura presunçosa, auto-suficiente e egocêntrica sem diálogos com o resto do mundo, baseado num fantasiosismo supersticioso crônico histórico mantido por conta de interesses de determinados grupos.

A humanidade se viu aturdida e desiludida, por consequência de um trauma histórico pós-guerra, bem como teve seu temperamento resfriado por conta da conquista de uma série de demandas universais. Existiu um enfraquecimento das grandes idéias, do hábito dos grandes feitos, das vanguardas. No entanto, essa espécie de pausa é passageira, e a reconstrução da consciência humana de insatisfação com as problemáticas do mundo se dá, naturalmente, pela própria convivência com o que é sensivelmente inaceitável e a consciência histórica e o poder de auto-controle do homem, exercido pelos grupos de indivíduos que tomam a responsabilidade pra si no caminho da evolução da humanidade rumo ao seu bem-estar, na transformação social. A humanidade é responsável pela educação da humanidade, sendo cada membro da espécie humana responsável pela educação de seus irmãos de espécie [assim deveria ser, pelo menos]. As pessoas deveriam ser mais responsáveis...

Resumindo, tudo está acontecendo ao mesmo tempo o tempo todo, e o tempo passa, e nenhum acontecimento é eterno, portanto, gerando natural e absoluta singularidade de cada momento, posta sua transitoriedade constante. E lá está você, atirado ao mundo elétrico. Girando em velocidade inimaginável pelo mistério sideral, enquanto as sociedades, com a predominante finalidade egoística que possuem (com a exploração do homem pelo próprio homem que o Capitalismo trata como direito), se degladiam em nome de sua hegemonia infundada sobre o planeta, enquanto o eco das canções de luta dos povos pela igualdade e justiça real ressoa bradando que a luta continua, em nome de uma humanidade digna e fraterna de fato.

Claro que eu, nas minhas condições específicas, só consigo fazer essas análises aéreas atualmente. Sou um jovem estudante apenas, na ignorância do princípio, eternamente aprendiz, mas que não vai se privar de declarar seu pensamento por ainda não saber de tudo.

Afinal, quem sabe?

Só sei que o tempo vai passando, passando e passando, e as decisões são constantes, que a história é continuada e que tudo o que se vive atualmente é fruto de situações passadas que, portanto, devem ser sempre levadas em consideração, tendo em vista a lenta transfomação do mundo em contraste com a curta duração de nossas vidas. E eu não gosto dos pessimismos filosóficos fatalistas, derrotistas e fragilizados (esse negócio de sermos incompletos, fracos, descartáveis, criados pra fazer a vontade do criador, feito um utensílio doméstico num processo culinário - sou contra essa coisificação do homem), tanto quanto intimistas e pessonalíssimos que são, que, por vezes, não passam de um tremendo lamento erudito inútil posto numa didática hermética.

Hermético feito essa droga de texto,
onde eu não sei falar de modo sucinto e claro e acessível.
*decepção*

[...]

Obs: Pra um blog que não tem nenhum objetivo, eu acho que esse post foi bem diferente dos demais. Tirando a parte mais subjetivista toda, eu ainda coloquei links pra outras páginas, cara. Mas eu ainda faço umas bagunças metodológicas muito, muito básicas... ¬¬' *fica refletindo sobre a coisa*

domingo, 10 de janeiro de 2010

Início de Ano.

Vamos lá. Sem afobações nas palavras,
sem precipitações nas conceituações.

Deixemos o tom dos acontecimentos harmonizarem
nas retratações da cabeça, do entendimento, das interpretações,
diariamente criando boas imagens e canções.

O ano só começou,
a vida ainda é jovem e o coração continua no rítmo da descoberta:
pulsando um pouco de dor, pulsando um pouco de prazer
e alimentando a realidade da nossa breve permanência.

Atiçando nossa pretensão de compreensão
do que seja amar,
do que seja sentir e ser...
Este é um momento de se reconhecer.

[...]

A todo instante é posto ao nosso alcance - por forças indiscutíveis - essa imensurável responsabilidade/capacidade de renascer, de nos reestruturarmos, de evoluirmos... Não é preciso um símbolo de Novo Ano, de Nova Década ou de Nova Vida, pra que possamos, pura e simplesmente, dizermos a nós mesmos:

_ Agora serei diferente do que andei sendo.

Mas uma autoanálise e um reinício são sempre bem-vindos,
pois mudar faz bem quando se muda pra algo bom, pra algo melhor.
(E, mais do que se imagina, o óbvio, por vezes, é o mais difícil de enxergar... Então ressalto: mudar pra algo bom, é realmente bom.)

Rum'à mudança!

Obs: Esse pedaço do fim eu digitei e não postei antes.
Agora posto por efeito de um comentário amigo. xD ~

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ciciar

Conceituação, palavra, título, comunicação, o significado...
...É por isso que tanto adoro a música instrumental:
Palavra é algo, assim, tão carregado e complicado...
...As vezes, quero existir quieto de abstração, feito um animal.

domingo, 29 de novembro de 2009

Antes de Descansar

Queria muito aprender algo novo, num ambiente novo, com pessoas novas, pra sentir novas sensações e, assim, poder aproveitar nuances da vida, me aprimorar, me aplicar no mundo, entender mais, enxergar mais claramente, exercer mais minha capacidade de existência - Que, pra mim, existir não é só ocupar espaço.

Eu queria e, por incrível que pareça, eu quebrei paradígmas e Consegui. E por mais que por um instante eu pare e pense que "nossa, isso não é nada demais", numa medida autoprotetora de manifestação pública de pensamento até, sei que isso não é verdade.

Só nós mesmos sentimos o quão valioso algo pode ser, só nós mesmos sentimos o peso de nossas próprias proposições. Eu já cheguei na idade de acreditar em minhas próprias conjunturas, já alcancei um alto patamar de segurança, de confiança, de vontade, de consciência... Pra dizer o que acredito e o que não acredito. Pra dizer o que concordo e o que discordo. Pra lutar pelo que julgo merecer. A intimidação não funciona mais comigo, a vergonha se foi, a quase totalidade do medo se foi, então só ficou em mim a fé que deposito na minha própria fé.

O meu ideal de justiça, de dignidade, de respeito, de valor, de importância, a minha constante tarefa de autoanálise, autocrítica e autocorreção, minha diligência no exercício de mim, evitando ao máximo os egoísmos e as violências neles baseadas. E "esse ridículo desejo de ser útil". Esse querer semear, regar e ver vingar. E, conjuntamente, essa dor que dá quando não há como ajudar.

As pessoas são tudo.
São o mais importante.
São vida, são essência.

Me sinto culpado de ser tão frio e cruel nas minhas análises sobre as pessoas, as vezes. Sabe, tenho tanto apreço pelo ser humano... Ele não merece sofrer. Um bicho tão confuso e só. Que nasce indefeso e manhoso, vira uma criança sapeca, depois um adulto tão ápto (feliz ou triste) e que, mais tarde, envelhece e enfraquece, até ser reabsorvido por esse mistério infinito que é o mundo, num fenômeno inevitável que chamamos de morte.

Me pego pensando na razão de se viver. Me pego tentando mensurar o valor da nossa vida e das coisas todas nas quais nós a dedicamos. Será razoável? Será pertinente? Será vaidade? Porque, as vezes, um sonho me parece tão real. E o real, as vezes, me parece tão sonho.

A introspecção me deglute. Depois me cospe de volta ao mundo, num perceber súbito, num insight, embebido em consciência, em percepção: _ Sou um corpo vivo.

E vida não se desperdiça. Vida não se deveria desperdiçar.

Por que a humanidade teria se perpetuado tantos séculos no mundo, evoluindo e evoluindo, aprendendo e construindo, conhecendo e dividindo tanto? Nesse exato instante, eu sou um dos mais atualizados exemplares da espécie humana, chegando ao ápice da minha capacidade física e mental, com toda essa potência desbravadora da juventude, quando tudo posso. Possuo uma infinidade de ferramentas gerando uma infinidade de possibilidades. Tudo aqui é potência, tudo aqui é poder!

E o que eu sou? E o que eu faço?

E o que eu significo para a História da Existência? Qual a minha relevância? Qual a minha intenção? Qual a minha finalidade? E o que eu significo para as pessoas...? Na minha própria visão, elas não são tudo? Qual a parte que me cabe...?

[...]

Qual quem pede a um deus, deito e rezo:"Ai... faz-me enxergar, Essência do Universo."

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Podemos inventar nomes pra tudo.

Mas as coisas não deixam de ser o que são por causa disso.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Questão constante

Costumava questionar-me com grande frequencia, e ainda me questiono bastante, sobre o modo como se deve fazer uso da vida. O que seria suficientemente importante e válido pra gastar uma vida toda praticando, construindo ou procurando? Que espécie de uso dar a corpo e mente sãos? A resposta desse tipo de questionamento está alicerçada única e exclusivamente dentro de padrões sócio-culturais desse âmago existencial do indivíduo, filtrado e condicionado por inúmeros fatores objetivos e subjetivos... Ok, ok, ok. A maior parte das declarações sobre o sentido da vida trata-se meramente de uma construção conceitual furada e intimista pra explicar algo incerto.

Mas o que me ocorre na maior parte das vezes é que: Ou você escolhe o que fazer ou deixa que alguém o escolha por você. Tratando-se de uma questão, primeiramente, de consciência e depois de vontade prática, que determinará a autonomia individual.

Quantas pessoas não adotam uma prática social completamente corriqueira que julgam ser fruto de sua própria vontade, mas que, na verdade, não passa de mera reprodução de alguma conduta predominante no seio da sociedade? Quantas pessoas não são entupidas de proposições pré-fabricadas advindas dos grandes veículos de comunicação? Quantas pessoas se preocupam com profundidade com o tipo de vida que andam exercendo em seu tempo?

Estudar, me empregar, casar, ter filhos e curtir uma aposentadoria tranquila em casa? Acumular bens, ter exímio histórico profissional, investir tudo nas minhas habilidades, viajar até não poder mais? Abdicar do irracionalismo do mundo e mergulhar em outra ideologia, praticar contra-cultura, ser marginalizado, marginalizar, fazer história, virar uma? Pagar uma miséria vergonhosa pra uma penca de assalariados e encher o peito pra dizer que é um empresário, um indivíduo de sucesso? Virar artista, sentir na pele, falar sozinho? Embriagar-me de otimismo, embriagar-me de pessimismo, ser um sóbrio calado e ranzinza?

A reflexão é importante. A auto-crítica, o auto-domínio, o auto-controle, essa capacidade de tornar-se o que se quer, transformar-se de acordo com a vontade consciente, ser dono de si. Se não passar da reflexão, no plano imaterial das idéias, não é real, portanto, é inválido.

Isso anda martelando na minha cabeça... Como sempre.

Pra valer tem que ser real, tem que ser profundo, tem que ter sentimento. A sinceridade sempre me atrai. A naturalidade sempre me atrai. A cortesia sempre me atrairá...

Opa, olha a hora. Vou me arrumar para o trabalho. Abraço.

"É só saber querer
Pra poder chegar."

(Canta Maria, de Geraldo Vandré)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ora, ora...

A vida não é pra se jogar fora.
Um dia, por si só, ela vai embora.
Antecipar o invitável pra quê se ainda é possível viver algo agora?

[...]

O agora é cheio de vida, dispensa as horas,
Não mata necessáriamente os focos futuros e nem a diligência, o humor ou a seriedade.
A consciência das nossas capacidades vai nos realizar
Quando nós mesmos realizarmos nelas tudo o que de possível nos agradar.
Ninguém precisa de um impossível pra martelar-lhe o âmago...
Basta isso aqui. Tudo aqui. Nós aqui. O real, o palpável, o possível.

[...]

O ser humano é completo individualmente, mas é parte do mundo; O ser humano não nasce, não vive e não se multiplica sozinho, portanto é um ser social - precisa aprender a lidar com sua realidade tal.

[...]

Eu não acredito e nem vou acreditar, justamente porque não encontro provas cabais, que a humanidade possui uma natureza vil. O altruísmo, a consciência e a benevolência são sempre apregoadas como metas no decorrer de toda nossa história, nunca deixaram de ser apregoadas... Foram até duramente atacadas [sejam perseguições, torturas, assassinatos], mas nunca sumiram - até se fortalecem, na verdade. E cada vez mais vemos a necessidade de uma mudança de comportamentos e as provas de que a mudança (pra melhor, claro) é pedido de todos, pois todos querem viver bem.

Por que alguém acha que ser errôneo, egoísta e malvado constitúi a eterna história da humanidade...? Que tipinho enojante de pensar é este?

De uma coisa eu sei:
Ser egoísta, malvado e errante é muito fácil. O difícil mesmo é manter uma postura digna sempre, num esforço constante... de 24 horas mesmo. Uma pessoa com consciência crítica sabe que o ser humano são é dono de si e das suas decisões todas e que isso se chama Auto-Controle, coisa que todo mundo é capaz de exercer, bastando o Entendimento e a Vontade.

Trata-se de um processo de consciência. Uma evolução.

[...]

Sim, sim:
Amor vai por aí.
E sim, ele existe sim.

.

domingo, 19 de julho de 2009

A vida é valiosa.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Mundo misterioso, mundo funesto

O mundo é misterioso. A vida, a composição das coisas, as coisas compostas, o funcionamento das coisas, desde cada incompreensível detalhe mínimo de mundo à todo o gigantescamente inalcansável mecanismo superior que rege a Existência. É tudo mistério.

Não acredito na compreensão disso tudo. Considero além dos limites humanos e, então, não faço mais tanta, tanta questão de me esforçar em compreender, sejam as origens e fins da vida, seja o que viria depois, seja o que gera tudo ou o que mais for relacionado a essas transcendências todas... Prefiro ficar dentro do âmbito do possível pois, esse sim, está ao alcance.

Procurar conhecer, claro, é ótimo. Mas querer conhecer o que é possível não soa sempre mais proveitoso, razoável e natural? O que vem depois de tudo, ora, só vem depois de tudo... Crer, por simplesmente crer, não é saber. Só saberemos à respeito da morte quando, afinal, morrermos (e isso se for pra saber alguma coisa realmente); espíritos, deuses, fantasmas, outras vidas, tudo que diz respeito ao além, fica por lá mesmo. Não há certeza sobre essas coisas aqui: não existem garantias cabais sobre julgamentos finais, sobre salvadores fatais, sobre eternidades de paz, nada disso.

Onde estão as provas?

Conhecer não é fantasiar, não é supor.
Conhecer é verificar, isso é o fato posto!

O mundo do palpável, do sensível, do verificável, do concreto, dos fatos, do aqui, do dia-a-dia, do agora, o mundo que se vive, sem as fantasias, sem ilusões, sem ingenuidades, sem romantizações, sem fuga, é alcansável, é possível, é entendível, compreensível e é tudo o que realmente está à nossa disposição, afinal. O nosso mundo. Nós, os seres humanos e nossas relações, nossa postura diante das coisas e pessoas, o vice-versa da dialética.

Essas relações humanas são cotidianas, são verificáveis, são reais, portanto, podem ser compreendidas. Seja na minúscula relação entre duas pessoas, seja na gigantesca máquina social em escala mundial.

O mundo do suor pingando,
O mundo da dor e do cansaço,
O mundo da fome e do trabalho,
O mundo do músculo tensionado,
O mundo do estritamente necessário...
O mundo do que se tem em mãos.
O mundo do que não se tem também.

Esforçar-se para fazer uso do possível é a chave dessa vida confusa. Claro que trata-se do possível sob as rédeas do Porquê. E para que tenhamos noção do valor do que se faz, devemos analisar: Os por quês + os meios + os fins. Para que depois venhamos a dizer se presta ou não presta o que andamos fazendo, baseado no juízo (cultura, conhecimentos, personalidade e etc) que temos em relação aos outros indivíduos.

O mundo real é tudo que temos, na verdade. O real sob a nossa ótica subjetiva natural... Mas nunca um real transformado definitivamente por nosso subjetivo. Há uma eterno conjugar, uma contínua conjunção...
Só o real muda o real, o imaterial não.

Eu sempre odiei e sempre vou odiar (na atitude humana) o que não tem sentido, o que não tem razão, o que não tem motivo ou que é vago e descompromissado, que é perdido, que perambula acidentando-se no acaso irracional, no ébrio, no esvair-se. Descartável, desnecessário, fútil, tolo... Mais ódio só sinto pelo egoísmo, o decorrente descaso, e pela agressão. Juntando-se tudo isso: Egoísmos fazendo uso de agressividades sem sentido,

Me faz querer a morte.
Esse mundo me faz querer a morte...
[real ou simbólica, mas, inevitavelmente, a morte. Um fim.]

domingo, 21 de dezembro de 2008

O Que Tenho

Certo. Então é isso.
Estou de férias de novo.

E todo aquele tempo que nunca perdi e que há tanto queria reclamar está de volta à minha disposição, justamente como sempre esteve. Foi-se o esquecimento cotidiano da minha autonomia, fruto das minhas assumidas obrigações e decorrentes preocupações. Tenho meu tempo integralmente meu novamente. Tenho-me integralmente meu novamente. E posso fazer de mim o que bem entender dentro dos limites do que eu puder. Sem remorsos por esta liberdade momentânea, sem inconvenientes horários pra cumprir comendo meu dia, sem pulga atrás da minha orelha de cachorro vadio. Vadio como todo e qualquer animal não adestrado, desencumbido, livre. Bela e naturalmente vadio. [não simpatizo com os cães-de-guarda, os cães-de-caça... prefiro os humildes vira-latas que vagueam em paz.]

O que se faz com essa consciência clara de momento atual?

Dar-me conta da potencialidade do agora sempre gera um susto, uma inquietude súbita. Quando não há ninguém por perto dando um palpite, mesmo que subentendida e condicionadamente, sobre o rumo que tudo deve tomar. Pois, sabe, a vida é toda nossa, por uma questão natural irrefutável e incontrariável, e, mesmo assim, acaba não sendo, de certa forma. Por motivos de influência, de pressão, de reflexo, de assimilação, de reprodução, de vício, de submissão, de ignorância, de ilusão e tantas, tantas, tantas outras significações e abstrações que as palavras podem e não podem abarcar em suas balisas... Perceber o poder inerente à condição de ser humano atento, mesmo que minimamente, é chocante. E idiota. Tanto quanto é sábio... E inútil. Porque, afinal, tudo que nós sabemos não passa de uma bagunça tendenciosa e pretenciosa. O que me leva a dizer uma coisa dessas? Bem, por acreditar que: na verdade, ninguém sabe nada.

A certeza é pretensão de quem diz possuí-la. E, se for o caso de mencionar agora [por lembrar daquela tal palavra, a "onisciência"], quanto a deus: ninguém o sabe também. Fé não é saber.

Sabe a única coisa que real e simplesmente fazemos? Só concordamos ou discordamos. Aceitamos ou rejeitamos. Porque nada do que há disposto aqui é cabalmente verificável e/ou compreensível. Somos recipientes, depósitos, repertórios de conceituações... O mundo são as informações que nós recebemos, recebemos e recebemos, sem parar de receber. Pois raramente produzimos, desenvolvemos, criamos informações. Pois raramente produzimos o mundo. [geralmente produzimos uns envólucros, umas cascas ocas de mundo. Um punhado de vazio. Ausências de sentimento. Mercadoria em série, repetitiva, cópia de cópia de cópia...]

Predominantemente passivos como ovelhas no pasto...
[Pior: As ovelhinhas que vão pro matadouro levadas por algum pastor.]

Tudo o que podemos afirmar, quando nós alcançamos algum nível de dicernimento coerente, é: "Sou um ignorante." Porque todos os juízos são projeções da presunção de alguém... Inclusive este aqui que ofereço, tolo que é... Nós só podemos falar por nós, pois somos a única coisa que realmente entendemos de algum modo. Nos entendemos como consciência, tudo o que somos, apenas somando-se algumas capacidades físicas e só. Ponto final. Não podemos sair falando da composição, das origens, das finalidades das coisas, pois não as sabemos. Não podemos ficar falando de espíritos, almas, maldições, folclores, misticismos, mundos mágicos inalcansáveis, personalidades fantásticas, paraíso ou deus, se não somos nada disso. O máximo que podemos é: dar nomes e meramente PROCURAR os modos sistematizados de apreender, compreender e explicar o mundo. E muitas vezes remoemos as concepções alheias de mundo, informações que recebemos.

Tudo é pura assimilação. Tudo é o fruto da relação pessoa-mundo. Tudo é personalíssimo. O personalíssimo é o mundo... Toda pessoa é tão ignorante quanto qualquer outra. Mas existem as humildes o suficiente pra admitir e as iludidas demais pra compreender.

Fora as divagações inúteis, aqui estou eu novamente. Acordado. Ligado no meu tempo, no meu espaço. Fazendo um pouco do meu nada, que é o tudo que tenho:

eu.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Um Instante de Desgosto Juvenil...?

Já ao anoitecer,

no quintal de seus pais, pensava sobre atinências da liberdade
e quais seriam as consequências de largar de mão todas as suas obrigações.
Tão jovem, sem onde cair morto e humildemente arrogando-se imaturidade.

As situações constrangedoras aflorando da imaginação
e a consciência de que a dor imaginável é incomparável a dor vivenciada.
A vergonha advinda da idéia do julgamento alheio ainda possuir peso em sua vida
e, muito mais controlador que isso, o medo de perder o pouco que possui, ou melhor:
o pouco a que tem algum acesso, por tabela, dado o histórico familiar.

Cada situação gera determinada concepção
Ser homem, ser parte de uma família, ser filho do meio, ser jovem, ser estudante,
ser sustentado, ser da classe que se é, ser da vizinhança que se é,
ser física e mentalmente como se é, viver o cotidiano que se vive e etc...
Tudo que vivemos molda o que somos e gera o modo particular de entender as coisas.

Ele é assim. Ou pode-se dizer que está.
Portanto, vê tudo como vê...

Nada é plenamente nítido
exatamente como se dá o mundo para todos nós,
os um tanto ignorantes um tanto esclarecidos.
Por detrás dos óculos maltratadíssimos,
os olhos falhos fitaram a exterioridade das coisas
sob a vontade de, de algum modo, captar-lhes a essência.

No ar, trememovia-se um pequeno ponto preto.
Se fosse um inseto, o rapaz, talvez fosse lamentavelmente surpreendido
com a aderência dos fios primorosamente tecidos por tal ponto.
Por não aperceber-se da rede logo de longe envolveria-se até a imobilidade.
Provavelmente, lhe restaria apenas o presumível fim como alimento de aranha.

Que a morte vem sabemos todos - Pensou.
O evitável mesmo seria unicamente o modo?

Seguindo o devaneio veio a associação com a memória e, ali, enquanto admirava,
o mundo que percebera naquela tarde casou-se à imagem e a contida inquietude:
Vivemos num perigo similar ao que esta rede gera aos insetos miúdos,
pois corremos risco de sermos presos nas decorrências do socialmente colocado...

Um jovem estudante pode chegar a que grandes conclusões quando,
em troca de um simplório passeio literário,
mata um dia de aula dentro do ônibus que o levaria à faculdade?

De leitura em mãos, de espírito propício,
dá-se o entusiasmo íntimo dentro do coletivo
e, partindo da relação entre leitor e leitura, surgem percepções.

A beleza do entardecer daquele dia,
o vermelho-alaranjado misturado com manchas róseas
no decorrer das nuvens espumosamente dispersas pelo horizonte
e os celestiais feixes de luz que denunciavam a posição do sol por detrás destas;
os espelhos de vários andares que refletiam o céu e as cores do mundo todas arranjadas
no gentil arco-íris que a chuva rápida mencionou sobre toda a cidade
tão precária, cinzenta, suja e repleta de descaso consigo mesma.

Sim, surgiram estas percepções:
Muito mais sobre a carne em meio ao ferro e o concreto citadinos,
acentuando interiormente, pensou na pobreza à margem, em meio e em si dali.
Pelas ruas só via pessoas sedentas...

A ternura impaciente de aflição ao lidar com as necessidades alheias,
A vontade de vazar os próprios olhos decorrente da sensação de impotência
diante de uma verdade tão verdadeira, tão presente, tão amarga e sofrida:

O mercado beirando o rio;
igualitariamente, homens e vira-latas fuçando,
empapados do chorume dos sacos de lixo,
as moscas todas chupando-lhes as feridas e as inflamações,
enquanto continuavam ferindo-se nos cacos e nas latas meio a degradação
- pois quem não faz por si está condenado neste mundo -
e ferindo o coração de qualquer ser humano que vê.

Lembrou da vez que viu a moça cobradora,
o barrigão de grávida lá com seus seis ou sete meses de espera,
de pé à porta do transporte alternativo
propagandeando os rumos que a tão necessária importância
de um real e cinquenta centavos poderia levar o cidadão.
E eram mais de onze horas da noite, no instante referido.

Veio também à memória um velhinho enrugado e franzino
que, também naquela ocasião, trabalhava por ali.
Vendendo flores de papel. E Como pode algo assim?
Quem vende flores de papel às onze da noite?

A garganta engoliu em seco e no peito doeu mais forte a visão,
pois lembrou também que as pessoas não são poucas.

A condolência, a indignação, a falta de palavras e atos
e, como efeito, nada mais que a simples continuidade disso tudo.
O seguir das obrigações cotidianas como o continuar do funcionamento do ônibus,
do motor roncando, seguindo adiante e adiante e adiante, sem parar,
completamente indiferente aos pensamentos do rapaz...

Lacrimejante.

Então:
"O mundo é este. Não o devia ser" - Conclui,
sentindo como nunca a profundidade desta conclusão.

O que representa seu aprimoramente técnico-acadêmico diante do mundo?
O que representa sua sensação de tolhimento diante das dores todas do mundo?
E, como diria seu professor de Teoria Geral do Estado,
quanto ao "absurdo transcendental" teórico que sustenta esse modo de existir?
A Constituição, a Globalização, qual a finalidade de todo o organismo social?
E o valor atribuído às coisas, aos objetos, ao meros utensílios materiais em
relação ao desvalor dado às pessoas, aos sentimentos, à humanidade?

Muitas pessoas simplesmente não têm consciência das implicações de seus próprios atos.

A exploração no trabalho duro e diário.
São tantas questões, tantos pontos importantes,
ninguém parece dar o mínima de atenção pra nada disso,
todos ocupados demais com sua própria vida,
suas próprias vontadas...?

Há tanta indignidade no mundo!
Tudo tão ligado, correlacionado, interdependente!

Como o açoite estalando no burro de carga,
a ração econômica distribuída no criadouro,
a carroagem que o mundo todo puxa lentamente
e a mão de ferro dos passageiros nela acomodados.

Sim, tudo se dá do jeito que se dá:
O mecanismo do emburrecimento,
a pregação fervorosa do comodismo,
a implantação dos complexos de culpa,
o culto diário ao deus dinheiro,
o condicionamento da vida aos fins materiais,
a cultura do consumismo e das vaidades,
os processos de geração de ingenuidade,
a alimentação dos entretenimentos,
a arte socialmete descompromissada,
os canais de televisão vazios de pensamento crítico
e que transbordam exibicionismo, ostentação e propaganda,
o Ensino nos fundamentos da concepção mercadológica da educação,
a zombaria com as incorporações ativas da indignação nas pessoas,
a mal utilização do termo "utopia",
toda a decorrente descrença de dias melhores,
a transformação da vida humana em dados estatísticos,
a imensa inconsciência dos grilhões da realidade, a cadeia das horas e dos horários,
a injustificada omissão dos que vêem e entendem, a quase inexistência de quem entenda,
a ilusão dos que só vêem,
a supericialidade dos jovens de hoje,
o diário fomentar do egoísmo,
a degradação da formação familiar,
a desilusão com os fracassos e quase-sucessos do passado,
as sem-sentidolices adotadas para preencher o vazio,
o fatalismo das personalidades,
o desamor,
o desagrado,
o fácil acesso à drogas e álcool,
o trabalho exaustivo,
o assassinamento dos sonhos,
o assassinato dos sonhadores de alguma iniciativa,
o perpetuar da tradição de pura reprodução, a invés da criação,
a militância ignorante e descerebrada, bêbada e carnavalesca!
O equívoco da democracia representativa,
a mania de submissão do povo à idolatria,
a incompreensão que resulta do pré-conceito,
E cada outra ingrenagem integrante do mundo porcaria no qual vivemos são:

Produto do próprio homem,
sujeito a modificações efetivadas pelo próprio homem
e de exclusiva responsabilidade do próprio homem.

A prisão social consiste no esteriótipo de zé-alguém implicitado pelo do zé-ninguém exposto às crianças desde cedo...