Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
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terça-feira, 28 de abril de 2020

1° de Maio: Nem general, nem capitão! FORA BOLSONARO E MOURÃO! No dia do trabalhador não há espaço pra patrão!

De Eduardo Rodrigues, militante do PSOL-PA


A burguesia agora quer capiturar o 1° de Maio dos trabalhadores!

A galera que aprovou Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista, que entregou bilhões ao "Bolsa Banqueiro", toda aquela galera que destruiu o Sistema Único de Saúde (SUS) e que defende a privatização dos serviços públicos quer se abraçar no Dia Mundial da Classe Trabalhadora pra apoiar que o General Mourão assuma o governo agora!

Mas isso, que pode vir a se confirmar nos próximos dias, não passaria de uma espécie de "MANOBRA TEMER" de emergência para salvar o plano guedista de contrarreformas capitalistas! Está correta a queda de Bolsonaro, mas está errada a ascensão de Mourão! Ambos representam o mesmo projeto, que hoje permitiu a Covid19 bater forte sobre os trabalhadores, sem saúde, recursos, ciência, testagem, EPI's, leitos de UTI's, etc! Por isso irão dividir o mesmo palanque o Dória, Lula, FHC, Haddad, etc, ou seja, uma união das direitas e das esquerdas capitalistas CULPADOS PELO CAOS TODO QUE VIVEMOS HOJE! Pra aclamar Mourão, como "solução" que NÃO É E NUNCA VAI SER.

Nós precisamos de um 1° de Maio pra outra coisa: pra luta pela queda de todo o governo! Fazer fortes panelaços por "FORA BOLSONARO E MOURÃO"! Pois são todos agentes do mesmo projeto! Em defesa da Saúde, seus trabalhadores, por um Lock Down real no Brasil, testagem massiva e recursos pra prevenção, pra proteção e para o tratamento das pessoas! Nenhuma ilusão nos políticos da ordem que agora querem fazer "Live" pra dizer que são contra o governo cujo mandato eles defendiam até agorinha! Não podemos confiar que venha nada de bom lá de cima, temos que fazer pressão desde baixo e denunciar todos os governos antipovo! Só assim teremos condições de nos proteger nessa situação de pandemia, com muito protesto!

Todos aqueles realmente vinculados e comprometidos com a classe trabalhadora devem fazer atos com INDEPENDÊNCIA DE CLASSE, SEM BURGUESES, SEM PATRÕES, SEM BUROCRATAS SINDICAIS TRAIDORES E SEM CORRUPTOS! Também não há espaço para os representantes das instituições da ordem burguesa, nem da Câmara e nem do Senado, nem do STF e nem nada assim. Isso quer dizer que os camaradas do PSOL, PSTU, PCB e todos os movimentos e ativistas que lutam por mudanças estruturais no Brasil, pelo poder verdadeiro dos trabalhadores auto organizados, imediatamente devem repudiar os atos policlassistas que farão os burgueses e seus aliados conciliadores. Devemos por nosso 1° de Maio no lugar certo, ao lado exclusivamente da classe trabalhadora e suas necessidades, lutas e protestos contra TODOS OS GOVERNOS! Pelo socialismo e o poder dos trabalhadores!

terça-feira, 7 de abril de 2020

O Poço - Aceitar ou não a barbárie como único e "óbvio" caminho?

por Eduardo Rodrigues

Trimagasi e Goreng

O filme “O Poço” (“El Hoyo”, original espanhol; “Platform”, no inglês) tem suscitado várias reflexões na internet, sido muito indicado nas redes sociais e conta com 97% de relevância no ranking da Netflix. Enquanto, de um lado, espectadores se debruçam na busca do significado do filme em perspectivas numerológicas, religiosas, filosóficas e meta-cinematográficas atrás da real intenção do diretor – que, de fato, cortou cenas finais e decidiu por uma “conclusão inconclusiva” – há, por outro lado, aqueles que buscam potencializar aspectos políticos do filme como instrumento de denúncia do sistema capitalista (e até do socialista) em exagerações equivocadas, vendo estes sistemas onde não existem e, ainda, perdendo a oportunidade de discutir outras temáticas mais verificáveis na ficção em si.

O filme inicia afirmando haver “três classes de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”. Sem demora compreendemos que aquela edificação vertical (o tal Poço) é composta de muitos andares, com cada andar abrigando um par de pessoas e uma estranha plataforma que todo dia desce trazendo um banquete servido pela Administração para garantir a alimentação dos “inquilinos”. Acontece que essa comida posta na plataforma passa por todos os andares, parando à disposição de cada par de pessoas por apenas alguns minutos ao dia. De modo que os ocupantes do andar de cima sempre comerão antes e deixarão suas sobras aos ocupantes do andar debaixo, que comerão e deixarão suas sobras ao do andar inferior seguinte, e assim por diante até que uma hora a comida acaba e os pares dos andares mais profundos do Poço devem se virar... Além dessa disfuncional divisão de alimentos, as duplas são trocadas de andar aleatoriamente uma vez ao mês. Ou seja, um par pode estar bem servido de alimentos em um mês no andar 48 ou 6 e, então, no mês seguinte passar uma fome desesperadora que leva à loucura nos andares 171, 222 ou outro dos mais baixos...

Toda essa construção do filme prova - para desgosto dos “apolíticos” - que é impossível despolitizar O Poço, uma vez que estes elementos levam à essência do que significa o próprio debate político: sistemas de sociedades, conflitos de interesses, relações de poder, luta pela sobrevivência, convívio humano em adversidades extremas, egoísmo versus altruísmo, distribuição e escassez de alimentos, adaptação conformista ou rebelião inconformista, entre diversas outras temáticas. Tudo está no filme e tudo isso, óbvio, são temas políticos. Temas gerais e interessantes, passíveis sim de relações e paralelos com a realidade em certas medidas e com os devidos cuidados. Mas, para os objetivos desse texto, quero focar em apenas um ou dois aspectos específicos quanto as figuras do velho Trimagasi e do protagonista Goreng face à situação que vivenciam na película.


TRIMAGASI, A REALIDADE QUE MATA A INGENUIDADE

Goreng é o protagonista do filme e contracena boa parte com o velho Trimagasi. Tudo começa no andar de número 48, quando Goreng, um homem adulto, acorda e conhece esse sério, distante e frio senhor de idade de olhar blasé. Após alguma relutância (pois “falar cansa”), Trimagasi passa a conversar com Goreng e vai mostrando sua curiosa personalidade.

O velho conta que assistia às propagandas na televisão. Que seu consumismo o empurrava a querer adquirir os bens mais modernos, estes que não paravam de ser reinventados e melhorados e, por isso, era sempre obrigado a comprar a nova versão do que já tinha. Até que certo dia, enfurecido de sentir feito de tolo pelos vendedores do canal de compras, jogou a televisão pela janela e acabou matando um “imigrante”. Se defende dizendo que foi um acidente e não foi culpa sua, que o homem “nem deveria estar ali”. Revela que foi mandado ao Poço para cumprir a sua pena em troca de não ser internado em um sanatório e que só ficaria ali mais dois meses. O presente e o próximo, depois sairia.

Notemos que Goreng tem muitas dúvidas, faz várias perguntas e questiona o funcionamento do Poço enquanto que para Trimagasi tudo é muito “óbvio”, simples. Óbvio que os de cima não escutam os debaixo, pois aqueles estão melhores; óbvio que os debaixo são humilhados pelos de cima, pois aqueles estão piores; óbvio que ele também deve humilhar, ser humilhado e não ser escutado, ao mesmo tempo que os xinga de “filhos da puta” por isso; é óbvio também que cada vez haja menos pessoas no Poço, porque elas estão morrendo; é óbvio que as vezes se está lá em cima e as vezes se está lá embaixo; enfim, “óbvio” que é tudo como é.

A dupla passa o mês inteiro no andar número 48, numa relação de coexistência pacífica que evolui para uma relação amigável, onde Goreng lê seu livro do Dom Quixote para Trimagasi quando este não consegue dormir, enquanto o idoso comprador compulsivo conta os dias que faltavam para o mês seguinte fazendo riscos na parede com a Samurai-Plus – sua faca de cozinha mais moderna e que fica mais afiada na medida que mais se faz uso dela.

De modo geral, há um simbolismo nesse velhinho. Ele representa a aceitação e resignação às estruturas do Poço. Como aqueles que chamam de “pragmáticos”: quem joga o jogo, aceita as regras, não as questiona e só pensa nos resultados permitidos ali. Isso é o que fica evidente ao extremo no momento em que a dupla é transferida do andar número 48 direto para o andar número 171, em uma sequência tenebrosa: Goreng acorda completamente amarrado à cama e aí se trava um diálogo diabólico com seu colega de quarto, onde Trimagasi explica que não chegaria comida nenhuma para eles agora que estavam tão fundo no Poço. Que isso os enlouqueceria pouco a pouco, destruiria sua amizade e, portanto, chegaria o ponto da fome e da desconfiança onde se imporia a necessidade de praticar o canibalismo. O velho explica que é mais fraco, por isso, teve de se precaver amarrando o colega logo. Explica que Goreng servirá de alimento até o final do mês, sendo cortado em pequenas fatias de carne pela Samurai-Plus. O velho ainda promete que cuidaria dos ferimentos para que Goreng não morresse logo e, assim, não estragasse sua carne. Aqui a grande questão é que o agora canibal Trimagasi aceita a condição de barbárie do Poço, a entende como parte da luta pela sobrevivência ali, sendo que não seria a primeira vez que comeria carne humana, inclusive. Falando em uma racionalidade calculada que durante vários dias ambos se alimentariam de Goreng, mas que faria aquilo com “respeito” e de maneira “limpa”. Retrucando os gritos do colega que a culpa não era sua, mas sim de todos os andares acima que impediam a comida de chegar até ali. “Óbvio”.

A cereja desse bolo medonho é que Trimagasi passa a chamar Goreng de “caramujo”, dizendo que facilitaria entender o colega agora como um animal, para poder comê-lo. Eis o grau de bestialidade e barbarização que a lógica do status quo valida na cabeça do velho: “comer ou ser comido”, com todo o “respeito”. Enquanto Goreng implora e grita aterrorizado por aqueles planos dia após dia.

Evidentemente que a crise de comida é uma virada inesperada e terrível no filme. Não passou pela cabeça do protagonista o que ocorreria se ambos fossem parar em andares mais profundos do Poço, não lhe ocorreu que não chegaria alimento e nem o que mais poderia acontecer de “óbvio” por lá. Ele não imaginou ser atacado e amarrado para ser mutilado pelo colega de quarto. O desespero toma conta dele nos dias em que o velho ainda tenta fazer jejum para adiar o início da mutilação. Até que chega o dia em que a lâmina corta um bife da sua coxa e Goreng explode de dor e horror. Mais uma reviravolta: acontece o contrário do que queria Trimagasi e, com ajuda da estranha Miharu, é Goreng quem o mata o velho com ódio e quem come da sua carne com toda a culpa ao longo do mês no andar 171. O sobrevivente se alimenta até que o cadáver apodreça. Agora contando com a companhia fantasmagórica de um Trimagasi o assombrando e zombando dentro de sua cabeça, como um profundo trauma de remorso por ter chegado ao ponto extremo que alcançou. Se justifica consigo mesmo que não teve outra escolha, que foi obrigado e que eles não são iguais por isso.


GORENG, UM “MESSIAS” FACE AO STATUS QUO

Antes de buscar a tentativa de mudar a lógica do Poço com Baharat, Goreng ainda experimenta mais um andar de fartura de alimentos no número 33 e depois mais um andar de escassez absoluta no número 202 - onde acaba devorando o corpo de Imoguiri, quem, aparentemente, se enforca ao ver o horrível sistema onde esteve trabalhando por tantos anos antes. Abstraindo a parte das alucinações fantasmagóricas e messiânicas que são vividas por Goreng no andar 202, podemos dizer que ele conseguiu entender desde as altas até as mais baixas perspectivas o dito “sistema vertical de auto gestão”. Essa consciência do fracasso e horror do sistema o revolta e o impele a querer mudá-lo.

Em um dos diálogos com a ex-funcionária Imoguiri, o "herói" afirma que “mudanças não acontecem espontaneamente”.  E a própria Imoguiri sugere que talvez Goreng estivesse ali no Poço justamente para fazer a diferença no sistema e, durante novas alucinações canibalescas, seu fantasma chega a chamá-lo de “Messias” enquanto ele comia sua carne e bebia seu sangue. Num ritual com citações bíblicas do "cordeiro de Deus". O evidente paralelo desse messianismo cristão com a vontade de mudar as coisas soa a um deboche, em parte. E é. Porque ele depois evolui para uma franca repressão assassina contra os que não concordarem.

Chegando ao andar de número 6, surge Baharat que é humilhado pelos de cima e frustrado na sua tentativa de sair do Poço escalando os andares restantes. Não pode contar com a boa vontade dos racistas ocupantes do 5º andar que, literalmente, cagam na sua cara. Goreng é solidário e convence Baharat que seja necessário intervir na lógica do Poço. Goreng quer descer os andares em cima da plataforma de comida, escoltando e distribuindo o alimento para que chegue aos mais famintos lá embaixo enquanto Baharat é convidado a ajudá-lo e a aproveitar o instante do retorno da plataforma para seguir rumo ao andar zero, ao topo do Poço onde está a Administração.

Goreng e Baharat se armam com barras do estrado de suas camas, sobem na plataforma e começam a sua missão. Pedem que os 50 primeiros andares façam um jejum neste dia, para que os famintos dos demais andares possam comer. A reação dos ocupantes varia: uns negam e outros aceitam, alguns pelo convencimento e outros pela coerção, ameaça e violência física que passam a empregar Goreng e Baharat contra aqueles que se negavam a cooperar. Ao passarem do quinquagésimo andar, afinal, começam a distribuir as porções de comida igualmente para os pares de famintos dos andares inferiores. Uma divisão de pães numa versão hardcore de cristianismo coercitivo que chega a ser questionado por um velho dos andares de cima “o messias multiplica os pães, não os toma!”.

Em outro diálogo – com o “homem sábio” – Baharat e Goreng são chamados a criar um símbolo, uma mensagem a ser entregue ao andar zero e à própria Administração do Poço. Há um apelo pelos bons modos pacíficos de “convencer antes de vencer”. Mas logo vemos que nem os bons modos, nem a simbologia e nem a pretensa mensagem tem o tipo de poder necessário para enfrentar os fatos. Pois após uma longa descida beneficente distribuindo comida para quem não comeria, a boa intenção dos mocinhos é solapada pela cruel realidade do Poço outra vez. São muito mais andares do que imaginavam. Calculavam ser uns 250, mas já iam longe disso e vendo cada vez mais andares com pessoas mortas, com mais pessoas enlouquecidas e mais pessoas violentas até encontrarem novamente com Miharu, que estava sendo agredida e que termina esfaqueada por um brutamontes. Goreng e Baharat lutam contra a dupla de assassinos, vencem o combate com dificuldade e saem gravemente feridos, com a sentença de morte já sendo executada em seus corpos.

Seguem descendo até o andar de número 333, onde ambos os companheiros de luta morrem tentando proteger o símbolo, alimentar quem tinha fome e entender qual era sua própria mensagem, tudo ao mesmo tempo. Basicamente, eles morrem na luta por mudar as coisas e por conquistar a liberdade. Uma série de cenas que não se sabe mais se são parte da realidade, se são delírios antes da morte ou um simples tapa-buraco mítico do diretor para que o filme ficasse com um final mais... qualquer-coisa...


UMA (IN)CONCLUSÃO POSSÍVEL E AS REFLEXÕES PRINCIPAIS

O fato é que não se vê uma mudança nas formas opressivas, violentadoras e estruturalmente assassinas do Poço. O que nos leva a considerar a possibilidade de que o próprio final do filme e sua “explicação” não são o mais importante. Que as mensagens mais interessantes de ponderar já foram apresentadas e postas para apreciação ao longo dele, antes da sua conclusão.

Afinal, aquela “mensagem” que Baharat e Goreng queriam entregar ao nível zero e à Administração – fosse ela só um pratinho de comida (que, particularmente, nada diz) ou fosse ela a criança faminta no fundo do paço que não deveria estar lá (e, talvez, nem estivesse mesmo) – termina ela própria sem o seu tradutor, sem o seu mensageiro, tal como diz Trimagasi na escuridão após o andar 333. O filme termina sem uma explicação porque ele é mais um exercício de reflexões e no seu decorrer já colocou os problemas que queria colocar. Seja a barbárie, fome, ganância, egoísmo, altruísmo, coletividade, conflitos, vontade de mudança, coragem, covardia, resignação, etc.  

Pois o final se descola daquela concretude oferecida entre as quatro paredes, entre os vários andares e as diversas relações estabelecidas ali. Se desvanece essa resposta final assim como se desvanece a mente do protagonista, que vai morrendo e só vai deixando os caminhos especulativos e subjetivistas da velha questão sem solução: “o que há após a morte?”. Portanto, sem a densidade imagética e sem a significação verbal real necessárias para explicar e responder com todas as letras o que se dá, então já não importa mais nada desse “depois”.

E apesar de ver muito mais pessimismo nesse filme, entendo que o intrigante nele é o desconforto causado pelo próprio sistema. Que, independente do que resulta da ação contra ele, o importante do filme foram as reações das personagens como alegoria das pessoas do nosso mundo injusto. A dupla rebelde não teve sucesso e isso pode ser lido como um: não dá pra mudar um sistema desgraçado como esse, simplesmente. Ele não vai ser solidário porque não é baseado na solidariedade, ponto final.

O que importa mesmo é que havia um sistema bárbaro e vil destruindo homens e mulheres e diante de cada pessoa ali dentro se colocavam as questões: É preciso mudar isso ou não? Se pode lutar contra as regras ou não? De que maneira se poderia mudar esse sistema? Você se adapta e dança conforme a música ou se rebelará contra isso tudo? Como? Por que? Por quais objetivos faria ou deixaria de fazer? O que importa no filme é como aquelas pessoas responderam à essas perguntas. Enquanto uma grande maioria se submetia e aceitava aquela barbárie, a alimentando e reproduzindo elas próprias, mesmo indignadas, se conformavam e colateralmente já estavam permitindo matar e morrer e suicidarem-se. Havia outras ali que tentavam fazer a diferença em menor ou maior grau de intervenção, com maneiras de inconformismo mais ou menos efetivas, mais individuais ou mais coletivas. Havia ainda aquelas que simplesmente desistiam. Na aceitação das regras, na desistência da vida ou na luta tenaz, vemos as respostas de Trimagasi, de Imoguiri e de Goreng-Baharat.

Essa é uma das reflexões interessantes e que melhor servem para fazer um paralelo com a realidade cruel de crise profunda dos sistemas societários que hoje estamos vivenciando no Brasil, na América Latina e em todo o planeta, seja sob os regimes políticos fracassados ou os sistemas econômicos em frangalhos que forem. A mensagem é que as sociedades verticais, onde não existe distribuição justa e igualitária de recursos e do poder, serão sempre um inferno de brutalização, de conflitos e de barbárie, como cada vez mais são hoje mesmo...

A simples existência daquelas três classes do filme já não é o “fundo do poço”? A terceira classe de pessoas se referia aos suicidas? Foi uma missão suicida a de Goreng e Baharat?

Mesmo após entender o terror do sistema se deve compactuar com ele como fez Trimagasi?

Nós devemos aceitar a barbárie como nosso único e “óbvio” caminho? Essa moralidade doentia tão normalizada de sobrevivência?

Goreng e Baharat deveriam ter tentando mudar as coisas no Poço como fizeram? Aquele era a única maneira?

O medo do fracasso em tentar mudar as coisas é mais heróico que qualquer tentativa corajosa mesmo que ineficaz?

Por que eles não cogitaram o caminho de destruir o Poço com apoio dos demais presos? Não seria o mais adequado estrategicamente?

Na vida real, a maioria das pessoas segue qual desses perfis diante da crueldade do mundo? Conformismo, desistência ou tentativa-erro de mudança?

Você é o Trimagasi, Imoguiri, Baharat ou Goreng?

sábado, 12 de outubro de 2019

Devaneio sobre Coringa: entre revolta e loucura

(tem um monte de spoilers)


Dentre as várias possibilidades de interpretação, uma das mais evidentes é que o filme Coringa - em diversas camadas - é a de ligação entre protestos populares por dignidade, empregos, salários e direitos sociais à ideias beirando a insanidade coletiva, rebeliões vingativas, vontade de assassinatos e até terrorismo revanchista. Por mais que não se afirme isso, por mais que haja uma nublada relação de nexos de causalidade entre as ações das massas revoltas em Gotham com os atos pessoais do protagonista em contínua decadência mental, essa talvez seja a impressão que mais fique no imaginário dos espectadores: há uma lógica de "liderança popular" anti-herói. Todo o martírio de Artur até tornar-se Coringa produz revolta anticapitalista, afinal é dos desdobramentos desse sistema em crise e apodrecido que compõem parte importante de seus sofrimentos, bem como dos sofrimentos dos demais trabalhadores da cidade. No entanto, o caminho que trilha o personagem é o de um ressentimento individual violentamente vingativo... Nessa perspectiva, é terrível e reacionário como o filme mescla a lógica e legitimidade da luta popular, a consciência de classe, o ímpeto de rebelar-se contra a injustiça de governos cruéis e tão frios às nossas necessidades, como se tudo isso fosse uma marcha ao abismo geral do caos puro e simples, sem objetivos, sem organização, sem nenhum projeto de libertação estruturado e facilmente aderente ao mais anárquico dos extremismos - como no imaginário do que seria o estopim de um atual "neofascismo" ordeiro como resposta a uma rebelião "anarcoterrorista" por parte dos pobres. O contexto que vivemos hoje é de uma época de crise política, econômica e social que tanto detona vários protestos nos Estados Unidos, coração do capitalismo, quanto também na China, no Brasil, na Venezuela, na Argentina e agora recentemente no Peru e Equador - não é curioso pensar que ao mesmo tempo que o filme passa nos cinemas, há governos caindo por aqui? O contexto, definitivamente, é este. As castas governantes sejam de "direita" ou "esquerda", sejam estatistas ou ultra liberais das corporações transnacionais estão incomodadas por todo lado pela marcha caótica que trilham. Coringa está nessa vibe de: "turbulências narrativas". É o espírito do nosso tempo esse conflito. O filme - fodasticamente construído em todos os sentidos - atira para todos os lados, tendo como eixo o desconserto e a perplexidade, ambiguidades e contradições inúmeras em um enredo que confunde real e irreal numa mente doente e um mundo conturbado, apela ao conflito emocional da plateia submetendo Artur a sofrimentos contínuos na intenção de desatar compaixão e empatia pelo desgraçado comediante do proletariado. Sofreu na mão da família, talvez seja abandonado pelo pai, desempregado, sendo espancado nas ruas, sofrendo de transtornos que não pode tratar pois foi destruída a assistência social que lhe garantia remédios, até seu ato desesperado de auto defesa - comove e revolta, como a realidade da nossa classe. Há uma questão aqui também: o suicídio. Artur planejava se suicidar ao vivo, na TV aberta, durante sua entrevista de estréia como se fosse a piada fatal que ele contaria. Mas a pressão da oportunidade e da revolta de Artur, transformando-o no Coringa encaminhou outra decisão. Entre explodir seus miolos diante da plateia, ele explodiu sua fúria junto aos miolos do âncora do talkshow, que ali representou o também frio e cruel deboche da TV contemporânea aos problemas populares. Da auto-defesa do primeiro assassinato ao extremo do terror individual que mata, há um salto. Enquanto "palhaços" vão às ruas e terminam lá elegendo como líder-símbolo um "palhaço louco" inspirandor de um movimento pautado por assassinatos (kill the rich) e que termina revirando a cidade toda do avesso, qual será o lado da plateia? Conflito. Essa miríade de conflitos e contradições é a engrenagem do filme. Inclusive, há uma coisa em comum entre HQs de super heróis e filmes de hollywoodianos: primeiro, o povo é sempre uma massa de gado que precisa de heróis para sempre serem salvos; segundo, a ideia de rebeliões e revoluções sociais nunca chega a uma conclusão positiva ou mudança fundamental, essas ideias sempre tem que ser massacradas, amaldiçoadas e esvaziadas de racionalidade sã e objetivos claros. O filme, evidentemente, é sobre o Coringa. Mas a mensagem é à nossa classe: "não pirem!". A mensagem é aos governos: "olhe, como eles estão pirando, hein!". E, podemos ainda esticar a corda até interpretar outro recado, como um convite e uma ameaça, talvez? "Parece incurável. Precisamos de Batman". Talvez seja por isso que Coringa ao final do filme ri e responde à sua psiquiátra que ela não entenderia a piada. A piada de que a loucura coletiva é que cria os "super heróis" - entra aqui a cena de Bruce Wayne com seus pais abatidos no chão pelos palhaços mascarados da multidão que roubavam o colar de pérolas de sua mãe. Há tantas vítimas e vilões-colaterais na narrativa, mas os "verdadeiros vilões" que constroem todo o sistema em crise de Gotham nem sequer tem máscaras, nem nomes e nem aparecem... Ou é impressão minha? Coringa é como um fenômeno-resultado da degeneração social de Gotham, que afunda na depressão e produz as condições para uma rebelião. Mas a loucura sistemática antipopular que massacra tanto Artur como o restante dos "clowns" da cidade é a raiz do problema central que o filme não esgota: a loucura capitalista contemporânea.

"A vida é assim..."?

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

"VOTO ÚTIL"? CIRO ESTÁ COM OS PARTIDOS DO AJUSTE E DA CORRUPÇÃO!


Crítica pela esquerda de Eduardo Rodrigues, militante do PSOL no Pará. Por uma luta e por votos antifascistas e anticapitalistas!


Temos visto uma importante e necessária vontade social de derrotar Bolsonaro, que está politizando ainda mais a polarização social. Por outro lado, temos visto crescer também uma enorme ilusão em torno do projeto de Ciro Gomes - um candidato que não teve o apoio nem do "Centrão" e nem do "Lulismo" na chapa nacional com Kátia Abreu. Uma vez que parte dos seus almejados aliados está com Alckmin e Haddad, ou com candidaturas próprias. No entanto, o PDT de Ciro está coligado a TODOS os velhos partidos que aplicam a retirada de direitos e inúmeros casos de corrupção no Brasil. É fundamental travar um bom debate sobre a derrota de Bolsonaro, com certeza, mas sem cair cegos nas demais armadilhas criadas pela burguesia e suas castas políticas de mãos sujas.

Ciro Gomes no Pará está com o DEM - um partido filhote da Ditadura Militar - e o PSDB de Jatene e Zenaldo, dois inimigos do povo paraense e de Belém, apoiando que caia sobre nós o militar Márcio Miranda. Quando dizemos isso, os adeptos da candidatura Ciro-Kátia ficam chateados pelas denúncias. Mas precisamos dizer as coisas como elas são, sem medo e sem mascarar a verdade: Ciro também está com o DEM no Mato Grosso, ao lado do MDB do Michel Temer e do fundamentalista PSC. Está ainda com o PP - o partido mais corrupto do Brasil - e o PRTB que é outro partido igrejeiro fundamentalista, com Suely Campos em Roraima! Ao mesmo tempo lá no Ceará, apoia o Camilo Santana do PT junto ao DEM e o PP! Veja que lambança é o tal "projeto nacional" do Ciro e da Kátia Motosserra. O ruralismo, o latifúndio e o agronegócio não são problemas para eles? Concordam também com a política de Belo Monte em Altamira do lulismo e das isenções milionárias a Hydro Alunorte em Barcarena que os tucanos fazem.

Não basta discursos e firulas, a prática política do PDT é tão fisiológica, tão fisiológica e tão velha que Osmar Dias (PDT) desistiu da candidatura ao governo no Paraná porque teria que subir no palanque de duas candidaturas adversárias, dado o grau de coligações cruzadas de cima a baixo. Isso é de uma inviabilidade tão gritante que caiu fora pra não passar mais vergonha! O Renato Casagrande (PSB) no Espírito Santo está com PSDB, DEM, PP, PCdoB e o PSC, veja só. E na Bahia, o Rui Costa (PT) também está tendo apoio do DEM, do PSD da Bancada da Bala - que aqui no Pará é responsável por Éder Mauro e Coronel Neil - também o PCdoB e o PP, apoiados pelo Cirão da Massa. Só se for a argamassa da corrupção! O Fernando Pimentel (PT), que o PDT apoia em Minas Gerais, está com o PR além do PCdoB, DC e PSB. Foi esse mesmo Pimentel quem reprimiu duramente a greve de educadores em MG e foi denunciado pelas organizações populares... Todas essas informações de coligacões estão no site da Gazeta do Povo no Especial das Eleições e com todas as informações publicadas pela Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Eu não estou nem falando dos inúmeros processos e escândalos nos quais todos esses partidos batem recordes, seja no Mensalão, no Propinoduto ou na Operação Lava Jato! Será tão difícil entender que o Bolsonaro deve ser derrotado sim, mas que o Ciro representa tudo que o povo odeia e que tem levado a mais completa desilusão política nas massas trabalhadoras e pessoas comuns? É a DEMAGOGIA do Ciro o que irrita, mas ela está velada sob o manto do medo que as pessoas tem da política fascistizante do PSL. O Bolsonaro se fortalece se briga com o Ciro, porque o Ciro tá com toda a turma podre do país - igual o próprio Bolsonaro sempre esteve. Foram tantos os partidos que ambos passaram, inclusive, para mostrar suas inconsistências ideologicas! Ciro simplesmente não conseguiu o apoio na chapa nacional, mas babou o ovo tanto do "Centrão" (a direita tradicional) quanto do Lulopetismo (a exquerda que a direita gosta, pra brincar de polarização).

Substancialmente podemos afirmar que não vai mudar nada se Ciro ganhar e, pior, a ultradireita ainda vai ter um tempão pra dizer "Viu? Deu no mesmo! A saída era e continua sendo nós, os 'honeeeestos'". Que autoridade vai ter o eleitor de "esquerda" que votou na direita toda que vai formar o novo governo e que não seria negada por Ciro?!? Não se combate o fascismo fortalecendo a direita e seu projeto fisiológico de poder! Precisamos ser sérios e responsáveis, defender o central: um programa político que faça uma revolução política e social no Brasil guiada por garantir os direitos dos trabalhadores e não de tirá-los com estas reformas terríveis. Nem as privatizações que enfraquecem o trabalho em favor do capital. Se não for isso, se esse projeto de igualdade não vingar urgente, haverá um projeto de uma verdadeira contrarrevolução social que será um retrocesso absoluto em médio prazo. Essa é a polarização real: capital x trabalho. Apostar na mobilização das mulheres e de todo o povo é o caminho pra reverter isso, indicando uma saída real. Não esse "projeto nacional" da burguesia com Ciro e Kátia! O PSOL tem autoridade política e programática, é sempre premiado pelo CONGRESSO EM FOCO com os melhores parlamentares do Brasil, não está em nenhum dos inúmeros escândalos de corrupção que nutre o Congresso Nacional, e ainda propõe mais poder ao povo e caminhar para findar oa privilégios da casta política!

Vote sim no que você acredita, numa atuação política pautada pelos interesses do povo e não do PSDB, PT, MDB, PP, seus financiadores de campanha e marketeiros, é toda essa corja que está com Ciro pelo país todo e com o Alckmin também. Bolsonaro, Alckmin, Ciro, Marina, Haddad, Álvaro Dias, Meirelles, nenhum dos candidatos da "direita" e da "esquerda" desse podre regime político nos serve. A rejeição de Bolsonaro está em cerca de 41% de acordo com as últimas pesquisas do Ibope e DataFolha, ainda as mulheres são barreira importante contra o seu neofascismo e agora que os indecisos podem começar a se posicionar, embalados pela vontade de protesto. Não tem sentido definir-se por um "voto útil" com tanta água pra rola de debaixo da ponte ainda com quase um mês de campanha e fatos políticos possíveis. A grave facada em Bolsonaro no dia 6, o atual pedido de seu vice General Mourão de assumir o seu lugar e a criação do Mulheres Contra Bolsonaro com já mais de 1 milhão e 500 mil membros são exemplos. Com o teu reforço nessa reta final de campanha o PSOL pode e deve passar a crescer como um Projeto de Brasil aplicável! Contra o desemprego e por infraestrutura que dê os direitos a quem mais precisa e promova a dignidade de todos os setores hoje oprimidos e marginalizados por essa falsa democracia. Proteste nas ruas! E também nas urnas! Vote 50 e se organize pra derrotar esse sistema podre que promete um terremoto em 2019 com o novo plano de ajuste fiscal que todos esses partidos irão aplicar contra nós!

Fortaleça uma saída verdadeira, o PSOL fica mais forte com VOCÊ!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Albert Einstein: Porquê o Socialismo?


por Albert Einstein

Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos económicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do socialismo? Eu penso que sim, por uma série de razões.

Consideremos antes de mais a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Poderá parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas em ambos os campos tentam descobrir leis de aceitação geral para um grupo circunscrito de fenómenos de forma a tornar a interligação destes fenómenos tão claramente compreensível quanto possível. Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no campo da economia torna-se difícil pela circunstância de que os fenómenos económicos observados são frequentemente afectados por muitos factores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente económicas por natureza. Por exemplo, a maior parte dos principais estados da história ficou a dever a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram as terras e nomearam um clero de entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores segundo o qual as pessoas se têm guiado desde então, até grande medida de forma inconsciente, no seu comportamento social.

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, coisa do passado; em lado nenhum ultrapassámos de facto o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis pertencem a essa fase e mesmo as leis que podemos deduzir a partir deles não são aplicáveis a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objectivo do socialismo é precisamente ultrapassar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu actual estado não consegue dar grandes esclarecimentos sobre a sociedade socialista do futuro.

Segundo, o socialismo é dirigido para um fim sócio-ético. A ciência, contudo, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não nascerem já votados ao insucesso, mas forem vitais e vigorosos – adoptados e transportados por aqueles muitos seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da sociedade.

Por estas razões, devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre questões que afectam a organização da sociedade.

Inúmeras vozes afirmam desde há algum tempo que a sociedade humana está a passar por uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu pensamento, permitam-me que exponha aqui uma experiência pessoal. Falei recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e comentei que só uma organização supra-nacional ofereceria protecção contra esse perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me: “Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Tenho a certeza de que há tão pouco tempo como um século atrás ninguém teria feito uma afirmação deste tipo de forma tão leve. É a afirmação de um homem que tentou em vão atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de ser bem sucedido. É a expressão de uma solidão e isolamento dolorosos de que sofre tanta gente hoje em dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?

É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com um certo grau de segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente do facto de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

O homem é, simultaneamente, um ser solitário e um ser social. Enquanto ser solitário, tenta proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são próximos, satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas. Enquanto ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus semelhantess, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Apenas a existência destes esforços diversos e frequentemente conflituosos respondem pelo carácter especial de um ser humano, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode atingir um equilíbrio interior e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente possível que a força relativa destes dois impulsos seja, no essencial, fixada por herança. Mas a personalidae que finalmente emerge é largamente formada pelo ambinte em que um indivíduo acaba por se descobrir a si próprio durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade, e pelo apreço por determinados tipos de comportamento. O conceito abstracto de “sociedade” significa para o ser humano individual o conjunto das suas relações directas e indirectas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. O indíviduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que lhe fornece comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível através do trabalho e da concretização dos muitos milhões passados e presentes que estão todos escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido – tal como no caso das formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e abelhas é reduzido ao mais pequeno pormenor por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as interrelações dos seres humanos são muito variáveis e susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta, e como neste processo o pensamento e a vontade conscientes podem desempenhar um papel.

O homem adquire à nascença, através da hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, com a passagem do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos, através da investigação comparativa das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode divergir grandemente, dependendo dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que aqueles que lutam por melhorar a sorte do homem podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, devido à sua constituição biológica, a exterminarem-se uns aos outros ou a ficarem à mercê de um destino cruel e auto-infligido.

Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar permanentemente conscientes do facto de que há determinadas condições que não podemos alterar. Como mencionado anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os objectivos práticos, não está sujeita à mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações com fixação relativamente densa e com bens indispensáveis à sua existência continuada, é absolutamente necessário haver uma extrema divisão do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um pequeno exagero dizer-se que a humanidade constitui, mesmo actualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egotismo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo naïve, simples e não sofisticado da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, apenas dedicando-se à sociedade.

A anarquia económica da sociedade capitalista como existe actualmente é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos perante nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros lutam incessantemente para despojar os outros dos frutos do seu trabalho colectivo – não pela força, mas, em geral, em conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo bem como bens de equipamento adicionais – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.

Para simplificar, no debate que se segue, chamo “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda exactamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está em posição de comprar a mão-de-obra. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. A questão essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que recebe, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas para a mão-de-obra em relação ao número de trabalhadores que concorrem aos empregos. É importante compreender que, mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses das secções sub-privilegidas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar a conclusões objectivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos.

Assim, a situação predominante numa economia baseada na propriedade privada do capital caracteriza-se por dois principais princípios: primeiro, os meios de produção (capital) são privados e os detentores utilizam-nos como acham adequado; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro que não há tal coisa como uma sociedade capitalista pura neste sentido. É de notar, em particular, que os trabalhadores, através de longas e duras lutas políticas, conseguiram garantir uma forma algo melhorada do “contrato de trabalho livre” para determinadas categorias de trabalhadores. Mas tomada no seu conjunto, a economia actual não difere muito do capitalismo “puro”.

A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e queiram trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe quase sempre um “exército de desempregados. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.

Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de aquisição como preparação para a sua futura carreira.

Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeque a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.

No entanto, é necessário lembrar que uma economia planeada não é ainda o socialismo. Uma tal economia planeada pode ser acompanhada pela completa opressão do indivíduo. A concretização do socialismo exige a solução de problemas socio-políticos extremamente difíceis; como é possível, perante a centralização de longo alcance do poder económico e político, evitar a burocracia de se tornar toda-poderosa e vangloriosa? Como podem ser protegidos os direitos do indivíduo e com isso assegurar-se um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza sobre os objectivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Visto que, nas actuais circunstâncias, a discussão livre e sem entraves destes problemas surge sob um tabu poderoso, considero a fundação desta revista como um serviço público importante.

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Einstein escreveu este trabalho especialmente para o lançamento da Monthly Review , cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1949. Tradução de Anabela Magalhães.


Texto original em: http://www.monthlyreview.org/598einst.htm.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Leon Trotsky: A Comuna de Paris e a Rússia dos Sovietes


“Curto episódio da primeira revolução do proletariado, e que terminou com o triunfo dos seus inimigos. Este episódio (de 18 de março a 28 de maio) durou setenta e dois dias.”


- Leon Trotsky

(A Comuna de Paris de 18 de março de 1871. P. L. Lavrov. Petrogrado, Edição da Livraria “Golos”, 1919 – p. 160.)



Os partidos socialistas da Comuna não estavam preparados

A Comuna de Paris de 1871 foi o primeiro ensaio histórico, tímido ainda, de dominação da classe operária. Comemoramos a Comuna, apesar da sua experiência muito limitada, da falta de preparação de seus militantes, da confusão de seu programa, da ausência de unidade entre seus dirigentes, da indecisão dos seus projetos, da excessiva hesitação nas suas ações e do espantoso desastre que, fatalmente, tinha que resultar disso tudo. Saudamos na Comuna – segundo uma expressão de Lavrov – a aurora, embora pálida, da primeira República proletária. Kautsky não pensa assim. Tendo consagrado a maior parte do seu livro Terrorismo e Comunismo em estabelecer um paralelo, grosseiramente tendencioso, entre a Comuna e o poder soviético, vê as qualidades predominantes daquela justamente onde vemos as suas infelicidades e equívocos.

Kautsky procura demonstrar com grande ardor que a Comuna de paris de 1870-71 não foi “artificialmente” preparada; pelo contrário, surgiu espontaneamente, colhendo de improviso os revolucionários, ao passo que a Revolução russa de outubro-novembro, foi preparada minuciosamente pelo nosso partido. Isto é indiscutível. Assim como não tem a coragem de formular com clareza as suas ideias profundamente reacionárias, Kautsky não nos diz com franqueza se os revolucionários de Paris de 1871 merecem elogios por não terem previsto a insurreição proletária e, por conseguinte, por não estarem preparados para ela, ou se devemos ser condenados por termos previsto o inevitável e por nos termos adiantado conscientemente aos acontecimentos. Toda a exposição de Kautsky foi escrita de tal modo que produz a seguinte impressão no espírito do leitor: Aconteceu uma desgraça aos comunalistas (o filisteu bávaro Volmar não manifestou um dia o seu pesar por terem os comunalistas tomado conta do poder, em vez de irem para a cama?), e por isso merecem toda a nossa indulgência; os bolcheviques, ao contrário, avançaram conscientemente para a desgraça (a conquista do poder), e isto não lhes será perdoado nem neste nem no outro mundo. Colocar a questão desta forma pode parecer um absurdo incrível. Mas nem por isso deixa de ser menos certo que é uma consequência inevitável da posição dos “independentes kautskystas”, que metem a cabeça entre os braços para não ver nada – nem nada prever – e que não podem dar um passo para a frente se não receberem um bom soco nas costas.

“A preocupação essencial [escreve Kautsky] da Assembleia Nacional e do chefe do executivo eleito por ela, Thiers, foi a de humilhar Paris, tirar-lhe a sua primazia de capital, a sua administração autônoma e, finalmente, desarmá-la para dar com segurança o golpe de estado. Desta situação nasceu o conflito que produziu a insurreição parisiense. Vê-se claramente que esta insurreição foi totalmente diversa do golpe de Estado dos bolcheviques, que tiravam a sua força do desejo vivo de paz, que tinham os camponeses atrás de si, que na Assembleia não tinham a enfrentar nenhum monarquista, mas apenas socialistas-revolucionários e mencheviques.

Os bolcheviques conquistaram o poder com um golpe de Estado sabiamente preparado, que os fez senhores de toda a máquina política, utilizando-o de modo mais enérgico e injusto para despojar política e economicamente os seus adversários, inclusive os proletários.

Ao contrário, mais surpreendidos com a sublevação da Comuna foram os próprios revolucionários. E para uma grande parte deles o conflito sobreveio quando menos o desejavam.” (p. 75)
Para que se forme uma ideia perfeitamente clara do sentido real que Kautsky afirma aqui, a propósito dos comunalistas, transcreveremos o seguinte e interessantíssimo testemunho:

“A 1º de março de 1871 [escreve Lavrov no seu livro instrutivo sobre a Comuna], isto é, seis meses depois da queda do Império e alguns dias antes da explosão da Comuna – os dirigentes da Internacional em Paris nem sempre tinham programa definido.” (P. L. Lavrov. A Comuna de Paris de 18 de março de 1871, Petrogrado, Edição da Livraria “Golos”, 1919. pp64-65)

“Depois de 18 de março [escreve esse mesmo autor] Paris se achava nas mãos do proletariado; mas os chefes deste, desconcertados com o seu poder inesperado, não tomaram as medidas de segurança mais elementares.” (idem. P. 71)

“Não estais à altura de vosso papel, e vossa única preocupação é fugir às responsabilidades [declarou um membro do Comitê Central da Guarda Nacional]. Havia nisso muito de verdade [escreve Lissagaray, membro e historiador da Comuna]; mas a falta de organização prévia e de preparação, no momento mesmo da ação, constatam-se geralmente quando os papeis cabem a homens que não têm envergadura suficiente para desempenhá-los.” (Lissagaray. Historie de La Commune de 1871. Bruxelas, 1876. p. 106)

Deduz-se do que precede (mais adiante isto aparecerá com mais evidência ainda) que a carência de um programa de luta direta, entre os socialistas parisienses, para a conquista do poder, se explica pela sua inconsistência teórica e a sua desordem política, mas de modo algum por considerações superiores de tática.

Não haja dúvidas de que a fidelidade do próprio Kautsky às tradições da Comuna se manifestará principalmente pela surpresa profunda com que acolherá a revolução proletária na Alemanha, na qual só vê um conflito “inteiramente indesejável”. Duvidamos, porém, de que as gerações futuras o glorifiquem por isso. A própria essência de sua analogia histórica na passa de uma mescla de confusões, reticências e ziguezagues.

As intenções de Thiers com relações a Paris eram as mesmas de Miliukov, apoiado por Tchernov e Tseretelli, com relação a Petrogrado. Todos, de Kornilov a Potressov, repetiam diariamente que Petrogrado se tinha isolado do país, que não tinha nada em comum com ele, e que, depravado até a medula, queria impor a sua vontade à nação. Desacreditar e rebaixar Petrogrado, tal era a tarefa primordial de Miliukov e seus acólitos. E isto ocorria numa época em que Petrogrado era o verdadeiro foco da revolução, a qual não tinha conseguido consolidar-se em nenhuma outra parte do país. Para dar uma boa lição à capital, Rodzianko não fazia mais do que precisar o que constituía o objetivo de Miliukov, que Kerenski apoiava com toda a sua política.

Miliukov, à maneira de Thiers, queria desarmar o proletariado. Mas o pior era que, por intermédio de Kerenski, Tchernov e Tseretelli, em julho de 1917, quase foi desarmado o proletariado peterburguês. Este recuperou todas as suas armas em agosto, por ocasião da ofensiva de Kornilov contra Petrogrado. Este novo armamento do proletariado foi um fator importante para a preparação da revolução de outubro-novembro. Assim, pois, as particularidades da insurreição de março dos operários parisienses que Kautsky opõe às da nossa revolução de outubro-novembro, coincidem de certa forma.

Mas em que se diferenciam? Antes de tudo, nisto: Thiers realizou os seus propósitos sinistros, Paris foi tomada e foram assassinados milhares de operários, ao passo que Miliukov fracassou lamentavelmente e Petrogrado se ergueu como a cidadela inexpugnável do proletariado, tendo os chefes da burguesia russa que ir à Ucrânia solicitar a ocupação da Rússia pelos exércitos do Kaiser. Isto aconteceu, evidentemente, em grande parte, por nossa culpa, e estamos prontos a arcar com a responsabilidade que o fato acarreta. Há também uma diferença essencial, que se fez sentir mais de uma vez no curso ulterior dos acontecimentos: ao passo que os comunalistas partiam geralmente de considerações patrióticas, nós nos colocamos invariavelmente do ponto de vista da revolução internacional. A derrota da Comuna provocou, no fundo, a destruição da I Internacional. A vitória do poder soviético nos conduziu à fundação da III Internacional.

Mas Marx – nas vésperas da revolução – aconselhava aos comunalistas, não a insurreição, mas a organização! Compreender-se-ia a rigor que Kautsky trouxesse esse testemunho para demonstrar como Marx conhecia a gravidade da situação em Paris. Mas Kautsky, como todos os mandarins da social democracia, vê na organização, principalmente, um meio de deter a ação revolucionária.

Embora nos limitemos ao problema da organização, convém não esquecer que a revolução de novembro foi precedida pelos nove meses de existência do governo de Kerenski, durante os quais o nosso partido se ocupou, não sem êxito, dos trabalhos de agitação e organização. A revolução de novembro estalou depois de termos conseguido uma maioria esmagadora nos sovietes de operários e soldados de Petrogrado, de Moscou e, em geral, de todos os centros industriais do país, e de se terem transformado aqueles em organizações potentes dirigidas por nosso partido. Finalmente, tínhamos atrás de nós a heroica Comuna de Paris, de cujo esmagamento deduzíramos que a missão dos revolucionários é prever os acontecimentos e se preparar para recebê-los. Uma vez ainda, tal foi a nossa força.


A Comuna de Paris e o Terrorismo

Kautsky só faz um amplo paralelo entre a Comuna e o poder soviético para caluniar e diminuir a viva e triunfante ditadura do proletariado em favor de uma tentativa de ditadura que já remonta a um passado remoto.

Kautsky cita com muita satisfação uma declaração do Comitê Central da Guarda Nacional, datada de 19 de março, sobre o assassínio dos generais Lecomte e Clément Thomas, cometido pelos soldados:

“Dizemo-lo indignados. É uma mancha de sangue com que se quer manchar a nossa honra. É uma miserável calúnia. Não ordenamos o crime; a Guarda Nacional não tomou a mínima parte na perpetração do assassínio.”

O Comitê Central, naturalmente, não tinha motivos para arcar com a responsabilidade de um assassinato de que não participara. Mas o tom patético e sentimental da declaração caracteriza perfeitamente a timidez política desses homens perante a opinião pública burguesa. Isto nos deve surpreender? Os representantes da Guarda Nacional eram, em sua maioria, homens de têmpera revolucionária muito modesta.

“Não há um cujo nome seja conhecido [escreve Lissagaray]. São pequenos-burgueses, vendeiros, alheios às organizações, reservados e estranhos à política quase todos” (p. 70).

“Um discreto sentimento, um pouco temeroso, de terrível responsabilidade histórica e o desejo de subtrair-se a ela o mais breve possível – escreve Lavrov a propósito – transparece em todas as proclamações do Comitê Central, em cujas mãos Paris caiu” (p.77).

Depois de citar, para vergonha nossa, aquela declaração sobre a efusão de sangue, Kautsky, como Marx e Engels, critica a indecisão da Comuna:

“Se os parisienses tivessem perseguido Thiers, talvez tivessem conseguido apoderar-se do governo. As tropas que saíam de Paris não teriam oferecido a menor resistência... Mas Thiers pôde escapar sem dificuldade. Foi-lhe permitido que levasse as suas tropas e que reorganizasse em Versalhes, onde as fortaleceu, animando-as de um novo espírito” (pp. 85-86).

Kautsky não pode compreender que foram os mesmos homens, e pelas mesmas causas, os que publicaram a citada declaração de 19 de março e os que permitiram que Thiers se retirasse a salvo e reorganizasse o seu exército. Se os comunalistas pudessem vencer exercendo unicamente uma influência moral, a sua declaração teria uma grande importância. Mas não foi este o caso. No fundo, o seu sentimentalismo humanitário não era mais que o reverso de sua passividade revolucionária. Os homens a quem por um capricho do acaso coube o governo de Paris e que não compreenderam a necessidade de se aproveitarem disso imediata e totalmente para se porem em perseguição de Thiers e esmagá-lo, sem contemplação, para aprisionarem o seu exército e efetuar a limpeza necessária no seu corpo de comando, a fim de dominarem a província; esses homens, digo, não podiam, naturalmente, ter a decisão de castigar com rigor os elementos contrarrevolucionários.
Na revolução, uma energia superior equivale a uma humanidade mais elevada.

“Precisamente os homens que dão grande valor à vida humana, ao sangue humano [escreve Lavrov, muito acertadamente], são os que devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance para obter uma vitória rápida e decisiva e atuar depois com a maior brevidade possível para a submissão enérgica dos inimigos; pois só deste modo se pode ter o mínimo de perdas inevitáveis e de sangue derramado” (p.225).

A declaração de 19 de março pode, no entanto, ser apreciada mais exatamente se for considerada, não uma profissão de fé absoluta, mas a expressão de um estado de ânimo passageiro existente no dia imediato a uma vitória inesperada, obtida sem o menor derramamento de sangue. Inteiramente alheio à compreensão da dinâmica da revolução e ao estado de ânimo dos que dela participam, o qual se modifica rapidamente, em consequência das condições internas, Kautsky raciocina por meio de fórmulas mortas e deforma a perspectiva dos acontecimentos com analogias arbitrárias, Não compreende que essa generosa indecisão é, geralmente, própria das massas na primeira fase da revolução. Os operários só começam a ofensiva sob o império de uma necessidade férrea, como só implantam o terror vermelho diante da ameaça dos assassínios contrarrevolucionários. O que Kautsky descreve como sendo o resultado da moral elevada ao proletariado parisiense de 1871, na realidade só concorre para caracterizar a primeira etapa da guerra civil. Fatos parecidos igualmente se observaram entre nós.

Em Petrogrado, conquistamos o poder em outubro-novembro quase sem derramamento de sangue e até sem prisões. Os ministros do governo de Kerenski foram postos em liberdade imediatamente depois da insurreição. Ainda mais: depois do poder ter passado para as mãos do soviete, o general cossaco Krasnov, que marchara contra Petrogrado de acordo com Kerenski, sendo feito prisioneiro em Gatchina, foi posto em liberdade no dia seguinte, sob palavra de honra. “Magnanimidade” parecida com a que se pode observar nos primeiros dias da Comuna. Mas que nem por isso deixou de ser um erro. O general Krasnov, depois de combater contra nós no sul, perto de um ano, depois de assassinar muitos milhares de comunistas, atacou Petrogrado recentemente, mais uma vez; mas agora nas fileiras do exército de Yudenitch. A revolução proletária se fez mais violenta depois da sublevação dos junkers de Petrogrado e, principalmente, depois da rebelião – tramada pelos cadetes, socialistas-revolucionários e mencheviques – dos tchecoslovacos na região do Volga, onde foram degolados milhares de comunistas, depois do atentado contra Lênin, do assassínio de Uriski etc. etc.

Estas mesmas tendências, embora apenas em sua primeira fase, se observam também na história da Comuna.

Impelida pela lógica da luta, esta adotou no começo o processo das ameaças. A criação do Comitê de Salvação Pública foi imposta por muitos dos seus partidários pela ideia do terror vermelho. Esse Comitê se destinava a “cortar a cabeça dos traidores” (Journal Officiel, nº 124), e a “castigar a traição (o mesmo jornal, nº 124). Entre os decretos de “ameaça” convém assinalar a resolução de 3 de abril sobre o sequestro dos bens de Thiers e seus ministros, a demolição de sua casa, a destruição da coluna Vendôme e, particularmente, o decreto sobre os reféns. Por cada prisioneiro ou partidário da Comuna fuzilado por versalhenses, devia fuzilar-se um número três vezes maior de reféns. As medidas tomadas pela Prefeitura de polícia, dirigida por Raoul Rigault, eram de caráter puramente terrorista, embora nem sempre conformes ao fim visado. O seu realismo era sufocado pelo espírito informe de conciliação dos dirigentes da Comuna, pelo seu desejo de harmonizar com frases vazias a burguesia e o fato consumado, pelas suas oscilações entre a ficção da democracia e o realismo da ditadura. Esta observação foi admiravelmente formulada por Lavrov no seu livro sobre a Comuna.

“A Paris dos ricos e dos proletários indigentes, dos contrastes sociais,, como comunidade política, exigia, em nome dos princípios liberais, uma completa liberdade de palavras, de reunião, de crítica ao governo etc. A Paris que acabava de fazer a revolução no interesse do proletariado e que se comprometera a realocá-la nas instituições, reclamava, como Comuna do operariado emancipado, medidas revolucionárias, ditatoriais contra os inimigos do novo regime” (pp. 143-144)

Se a Comuna de Paris não tivesse fracassado, se tivesse podido sustentar-se numa luta ininterrupta, teria sido obrigada, sem dúvida alguma, a recorrer a medidas cada vez mais rigorosas para esmagar a contrarrevolução. É verdade que, então, Kautsky não poderia opor os humanitários comunalistas aos bolcheviques desumanos. Mas, por outro lado, Thiers também não teria podido fazer a sua monstruosa sangria no proletariado de Paris. A história, de qualquer modo, teria ficado em melhores condições.

O Comitê Central Absoluto e a Comuna Democrática

“A 19 de março [conta Kautsky] na reunião do Comitê Central da Guarda Nacional, uns queriam que se marchasse imediatamente sobre Versalhes; outros, que se convocassem medidas revolucionárias. Como se cada uma destas medidas – segundo nos ensina o nosso autor com uma grande profundidade de pensamento – não fossem necessárias, e como se cada uma delas excluísse as demais” (p.95).

Nas linhas seguintes, que tratam desses desacordos no seio da Comuna, Kautsky nos oferece uma porção de trivialidades sobre as relações recíprocas entre as reformas e a revolução. Na realidade, a questão de colocava assim: para se tomar a ofensiva contra Versalhes, e fazê-lo sem perda de um minuto, era necessário reorganizar imediatamente a Guarda Nacional, e pôr à frente dela os elementos mais combativos do proletariado parisiense, o que teria provocado uma debilitação temporária de Paris em sua posição revolucionária. Mas convocar as eleições em Paris quando se fazia sair de seus muros a elite da classe operária, era coisa sem sentido, do ponto de vista do partido revolucionário. É certo que a marcha sobre Versalhes e as eleições na Comuna não se contradiziam teoricamente em coisa alguma, mas na prática se excluíam: para o êxito das eleições era preciso suspender a marcha sobre Versalhes; para o êxito desta, era preciso suspender as eleições. Em suma, entrando em campanha, o proletariado debilitaria Paris durante um certo tempo, motivo por que seria indispensável prevenir-se contra todas as possibilidades de surpresas contrarrevolucionárias na capital, pois Thiers não se teria detido diante de coisa alguma para atiçar, por trás dos comunalistas, o incêndio da reação. Era necessário estabelecer na capital um regime mais militar, isto é, mais rigoroso. Os comunalistas

“Se viam obrigados a lutar [escreve Lavrov] contra uma multidão de inimigos internos, que abundavam em Paris e que nas vésperas mesmo se tinham sublevado nas imediações da Bolsa e da Praça Vendôme, que tinham representantes na Guarda Nacional, que dispunham de imprensa, que celebravam assembleias, que mantinham quase a descoberto relações com os versalheses e que se faziam mais resolutos e audazes a cada nova imprudência ou fracasso da Comuna” (p. 87)
Era também preciso tomar ao mesmo tempo uma série de medidas de ordem econômica e financeira para atender, principalmente, às necessidades do exército revolucionário. Todas essas medidas – as mais indispensáveis para a ditadura revolucionária – dificilmente se poderiam conciliar com uma grande campanha eleitoral. Mas Kautsky não compreende absolutamente nada do que é de fato uma revolução. Acha que conciliar teoricamente é o mesmo que realizar praticamente.

O Comitê Central fixara as eleições para 22 de março. Mas sem confiança em si próprio, horrorizado com a sua ilegalidade, querendo agir de acordo com uma instituição mais “legal”, entrou em negociações, inúteis e intermináveis, com a assembleia sem autoridade dos maires e deputados de Paris, disposto a partilhar o poder com ela, embora só para chegar a um acordo. Assim se perdeu um tempo precioso.

Marx, em quem Kautsky procura sempre se apoiar, conforme o seu velho hábito, nunca propôs que se elegesse a Comuna e se lançasse simultaneamente os operários numa campanha militar. Em sua carta a Kügelmann de 12 de abril de 1871, Marx escrevia que o Comitê Central da Guarda Nacional abandonara muito cedo os seus poderes para deixr o campo livre à Comuna. Kautsky, segundo as suas próprias palavras, “não compreende” essa opinião de Marx. A coisa, porém, é bem simples. Marx sabia perfeitamente que se devia fazer não era correr atrás da legalidade, mas dar um golpe mortal no inimigo. Se o Comitê Central se tivesse constituído com verdadeiros revolucionários – diz Lavrov com grande acerto -, teria agido de modo muito diferente. Teria sido imperdoável, da sua parte, conceder dez dias aos seus inimigos antes da eleição e da convocação da Comuna para que estes pudessem triunfar de novo no momento em que os dirigentes do proletariado abandonavam a sua missão, não se achando com direito a dirigi-lo. A falta fatal de preparação dos partidos populares dava lugar à criação de um Comitê que considerava obrigatórios esses dez dias de inatividade.

As aspirações do Comitê Central, desejoso de entregar o poder o mais breve possível a um governo “legal”, eram provadas, menos pelas superstições de uma democracia formal, - que aliás, não faltavam, - do que pelo medo das responsabilidades. Sob o protesto de que era só uma instituição provisória, o Comitê Central, embora tendo em suas mãos toda a máquina do poder, se negou a tomar as medidas mais necessárias e urgentes. Mas a Comuna não restituiu todo o poder político ao Comitê Central, que continuou, sem muito embaraço, a se envolver em todos os assuntos. Daí resultou uma dualidade de poderes sumamente perigosa, principalmente no que se referia à situação militar.

A 3 de maio, Comitê enviou à Comuna uma delegação que exigia que lhe fosse entregue de novo a direção do Ministério da Guerra. Como diz Lissagaray, foi de novo colocada a questão:

“Conviria dissolver ou prender o Comitê Central, ou seria antes necessário restituir-lhe a direção do Ministério da Guerra?”

De modo geral, tratava-se, não dos princípios da democracia, mas da ausência de um programa de ação, existindo, tanto na organização revolucionária absoluta, personificada no Comitê Central, como na organização democrática da Comuna, o desejo de que a outra parte arcasse com as responsabilidades, mas sem isto implicar inteiramente na renúncia ao poder. Semelhantes relações políticas não são dignas de imitação.

“Mas o Comitê Central [consola-se Kautsky] nunca procurou discutir o princípio de que o poder supremo deve caber aos eleitos pelo sufrágio universal... Neste ponto, pois, a Comuna de Paris foi o oposto da República dos Sovietes” (pp. 96-97)

Não houve na Comuna unidade governamental, nem tampouco audácia revolucionária, mas sim dualidade de poder; e o resultado foi o seu esmagamento rápido e espantoso. Em compensação – e isso não constitui um consolo? – não se tocou absolutamente no “princípio” da democracia.


A Comuna Democrática e a Ditadura Revolucionária

O camarada Lênin já mostrou a Kautsky [ver Lênin. A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky (N. do T.)] que a pretensão de descrever a Comuna como uma democracia formal não passa de palavrório teórico. A Comuna, tanto pelas tradições como pelos fins dos que a dirigiam – os blanquistas –, era a expressão da ditadura revolucionária de uma cidade sobre o país inteiro. Assim aconteceu na Grande Revolução Francesa; o mesmo teria acontecido na revolução de 1871 se a Comuna não tivesse caído tão depressa. O fato de o poder ter sido eleito, mesmo em Paris, na base do sufrágio universal, não exclui este outro fato, muito mais importante: a ação militar da Comuna, de uma cidade, contra a França camponesa, isto é, contra toda a nação. Para que o grande democrata Kautsky pudesse com razão estar satisfeito, era preciso que os revolucionários da Comuna tivessem consultado antecipadamente, por meio do sufrágio universal, toda a população francesa, para saber se deviam ou não combater os bandos de Thiers.

Enfim, mesmo em Paris, as eleições se efetuaram depois da fuga da burguesia, partidária de Thiers, ou pelo menos dos seus elementos mais ativos, e depois da evacuação dos exércitos da ordem. A burguesia que ficou em Paris, apesar de toda a sua impertinência, não temia menos as batalhas revolucionárias. Sob a impressão desse medo – pressentimento do inevitável terror vermelho do futuro – realizaram-se as eleições. Procurar consolo no fato do Comitê Central da Guarda Nacional – sob cuja ditadura, desgraçadamente branda e informe, se efetuaram as eleições – não ter infringido o princípio do sufrágio universal é, na realidade, dar estocadas na água.

Multiplicando as comparações inúteis, Kautsky se aproveita da falta de informações em que se encontram os seus leitores. Em novembro de 1917 elegemos também em Petrogrado uma Comuna (a Duma municipal) na base do mesmo sufrágio “democrático”, sem restrições para a burguesia. Nessas eleições, apesar do boicote que os partidos burgueses nos declararam, obtivemos uma maioria esmagadora.**

A Duma, eleita democraticamente, submeteu-se voluntariamente ao soviete de Petrogrado, isto é, achou que a ditadura do proletariado estava em plano superior ao “princípio” do sufrágio universal; e algum tempo depois se dissolvia por iniciativa própria, em favor de uma das sessões do soviete peterburguês. Deste modo, o soviete de Petrogrado – verdadeiro pai do poder soviético – tem, por graça divina, uma auréola “formalmente” democrática, que nada fica a dever à da Comuna de Paris.
Nas eleições de 26 de março foram eleitos noventa membros da Comuna, quinze dos quais pertenciam ao partido do governo (Thiers), sendo sociais-burgueses outros seis, os quais, embora inteiramente contrários ao governo, não censuravam menos por isso a insurreição dos operários parisienses.

“Uma República soviética não teria permitido que tais elementos apresentassem a sua candidatura, e muito menos que fossem eleitos. Mas a Comuna, respeitando como respeitava a democracia, não opôs o menos obstáculo à sua eleição” (p. 97)

Já vimos como Kautsky diz disparates em todos os sentidos. Em primeiro lugar, em fase análoga do desenvolvimento da Revolução Russa, realizaram-se eleições democraticamente no município de Petrogrado, durante as quais o poder soviético deixou os partidos em plena liberdade; e se os cadetes, os socialistas-revolucionários e os mencheviques, que tinham a sua imprensa, que convidavam abertamente a população a derrubar o governo dos sovietes, boicotaram essas eleições, foi exclusivamente porque acreditavam então que nos liquidariam pela força das armas. Em segundo lugar, não houve na Comuna de Paris democracia que reunisse todas as classes. Não houve lugar nela para os deputados burgueses – conservadores, liberais e gambettistas.

“Quase todos esses indivíduos [escreve Lavrov] instantaneamente ou não, mas em pouco tempo, em todo o caso, saíram dos conselhos da Comuna; é verdade que teriam podido ser os representantes de Paris – da cidade livre sob a administração da burguesia -, mas foram inteiramente desautorados na Comuna que, por bem ou pela força, completa ou incompletamente, encarnava a revolução do proletariado e a tentativa, embora tímida, de criar as formas de uma sociedade que se harmonizasse com essa revolução.”

Se a burguesia peterburguesa não tivesse boicotado as eleições comunais, os seus representantes teriam entrado na Duma de Petrogrado. Teriam permanecido nela até a primeira insurreição dos socialistas-revolucionários e cadetes, depois da qual com ou sem a permissão de Kautsky – caso se retirassem a tempo, como fizeram em certo momento os membros burgueses da Comuna de Paris, seriam naturalmente presos. O curso dos acontecimentos teria sido o mesmo, com exceção de alguns episódios, que se dariam de outro modo.

Glorificando a democracia da Comuna e censurando-a ao mesmo tempo por não ter tido a audácia na luta contra Versalhes, Kautsky não compreende que as eleições comunais que se realizaram com a participação dos “maires” e deputados “legais”, - participação que tinha segundas intenções – refletiam a esperança da conclusão de um acordo pacífico com Versalhes. Tal é, porém, a significação desses fatos. Os dirigentes queriam uma aliança, não a luta. As massas não tinham esgotado ainda as suas ilusões. Ainda não tinha havido tempo para destituição das autoridades pseudorrevolucionárias. A tudo isso se chamava “democracia”.

“Devemos dominar os nossos inimigos pela força moral... [preconizava Vermorel]. Não há necessidade de se atentar contra a liberdade nem contra a vida do indivíduo...”
Vermorel, que desejava conjurar a “guerra civil”, convidava a burguesia liberal – que antes tanto estigmatizara – a constituir um

“poder regular, reconhecido e respeitado por toda a população parisiense.”

O Journal Officiel, publicado sob a direção do internacionalista Longuet, escrevia:

“O erro lamentável que, nas jornadas de junho de 1848, levantou duas classes sociais uma contra a outra, já não se pode reproduzir. O antagonismo de classes deixou de existir” (30 de março), [E mais tarde]: “De ora em diante já não haverá discórdias, porque nunca existiu tão poucos ódios nem houve tão poucos antagonismos sociais” (3 de abril).

Na sessão da Comuna de 25 de abril, Jourde, não sem razão, se vangloriou pelo fato “da Comuna não ter atacado de forma alguma a propriedade”. Assim acreditavam conquistar a confiança dos meios burgueses e marchar para um acordo.

“Essas garantias [diz Lavrov muito acertadamente] não desarmaram absolutamente os inimigos do proletariado, que conheciam perfeitamente a ameaça implícita na vitória deste último; ao contrário, tiraram ao proletariado toda a energia combativa, cegando-o, como de propósito, em presença de inimigos irredutíveis” (p. 137)

Mas essas garantias emolientes ligavam-se indissoluvelmente à ficção da democracia. A forma de pseudolegalidade fazia crer que a questão se poderia resolver sem luta.

“No que toca às massas da população [escreve um membro da Comuna, Arthur Arnoult], estavam convencidas, não sem razão, de que haveria um acordo tácito com o governo.”

Os conciliadores, impotentes para atrair a burguesia, induziam o proletariado em erro, como sempre.

A forma insensata das eleições complementares à Comuna (16 de abril) mostra do modo mais evidente que nas condições da guerra civil inevitável, que já começava, o parlamentarismo só expressava a impotência conciliadora dos grupos dirigentes. Naquele momento “não se fazia mais do que votar”, escreve Arthur Arnoult. A situação era trágica, a tal extremo que não se tinha nem o tempo nem o sangue frio necessários para que as eleições gerais pudessem dar o resultado esperado.

“Todos os homens fiéis à Comuna estavam nas fortificações, nos fortes, nos postos avançados. O povo não dava nenhuma importância a essas eleições complementares. No fundo, não passava de parlamentarismo. Não era aquele o momento de contar os eleitores, mas de ter soldados; nem de saber se tínhamos ganho ou perdido em consideração para com a opinião de Paris, mas de defender Paris contra os versalheses.”

Essas palavras poderiam fazer compreender a Kautsky porque não é tão fácil combinar na realidade a guerra de classes com uma democracia que reúna todas elas.

“A Comuna não é uma Assembleia Constituinte [escrevia Millére, uma das cabeças mais inteligentes da Comuna], é um conselho de guerra. Só deve ter um fim: a vitória; uma arma: a força; uma lei: a da salvação pública.”

“Nunca puderam compreender [escreve Lissagaray, acusando os líderes] que a Comuna era uma barricada e não uma administração.”
Só começaram a compreendê-lo no fim, quando já era muito tarde. Kautsky ainda não o compreendeu. E nada dá a entender que possa chegar um dia a compreendê-lo.


***

A Comuna foi a negação viva da democracia formal, pois marcou no seu desenvolvimento a ditadura da Paris operária sobre a nação camponesa. Este fato prima sobre todos os demais. Quaisquer que fossem os esforços dos políticos rotineiros no próprio seio da Comuna para se aterem a uma aparência de legalidade democrática, cada ação da Comuna, insuficiente para a vitória, era bastante para convencê-los da ilegalidade da sua natureza.

A Comuna, isto é, o município parisiense, aboliu a conscrição nacional. Deu ao seu órgão oficial o nome de Journal Officiel de La Republique Française. Timidamente embora, pôs as mãos no Banco de França. Proclamou a separação da Igreja e do Estado e suprimiu o orçamento dos cultos. Travou relações com as embaixadas estrangeiras etc., etc. Tudo isso, em nome da ditadura do proletariado. Mas o democrata Clémenceau, que já vivia então e já era homem de energia, não quis reconhecer esse direito.

Na assembleia com o Comitê Central, Clémenceau declarou:
“A insurreição tem uma origem ilegal. O Comitê dentro de pouco tempo parecerá ridículo e os seus decretos serão desprezados. Além disso, Paris não tem o direito de sublevar-se contra a França, e deve aceitar formalmente a autoridade da Assembleia.”

A missão da Comuna era dissolver a Assembleia Nacional. Infelizmente, não pôde consegui-lo. E Kautsky, agora, trata de procurar circunstâncias atenuantes para esses desígnios criminosos.
Afirma que os comunalistas tinham adversários monarquistas na Assembleia Nacional, ao passo que nós, na Assembleia Constituinte, tínhamos como adversários os... socialistas: socialistas-revolucionários e mencheviques. Isto é o que se pode chamar um eclipse total da razão! Kautsky fala dos mencheviques e socialistas-revolucionários, mas se esquece do único inimigo sério: os cadetes. Eles, precisamente, constituíam o nosso partido “versalhês” russo, isto é, o bloco dos proprietários em nome da propriedade, e o professor Miliukov parodiava como melhor podia o minúsculo grande homem [expressão de Marx, alusiva a Thiers (N. do T.)]. Desde muito cedo – muito tempo antes da Revolução de Outubro –, Miliukov começou a procurar um Gallifet, que julgava ter encontrado, um após outro, nas pessoas dos generais Kornilov, Alexeiev, Kaledin, Krasnov; e depois que Koltchak relegou a segundo plano os partidos políticos e dissolveu a Assembleia Constituinte, o partido cadete, único partido burguês sério, não só não lhe negou o seu apoio como, pelo contrário, dispensou-lhe uma simpatia cada vez maior.

Os mencheviques e socialistas-revolucionários não desempenharam na Rússia nenhum papel autônomo, como acontece, por outro lado, com o partido de Kautsky nos sucessos revolucionários da Alemanha. Basearam toda a sua política na coligação com os cadetes, assegurando-lhes assim uma situação preponderante, que mal correspondia à correlação das forças políticas. Os partidos socialista-revolucionário e menchevique não passavam de um aparelho de transmissão, destinado a conquistar a confiança política das massas revolucionárias despertadas, nos comícios e nas eleições, para beneficiar com isso o partido cadete imperialista e contra-revolucionário, independentemente, é claro, do resultado das eleições. A dependência da maioria menchevique e socialista-revolucionária à minoria cadete não passava de uma fraude mal dissimulada as democracia. Mas não é tudo. Em todos os pontos do país em que o regime “democrático” resistia muito, sobrevinha inevitavelmente um golpe de estado contrarrevolucionário que acabava com ele. Assim aconteceu na Ucrânia, onde a Rada democrática, que vendera o poder soviético ao imperialismo alemão, viu-se dissolvida por sua vez pela monarquia de Skoropadski. Assim aconteceu – e é a experiência mais importante de nossa “democracia” – na Sibéria, onde a Assembleia Constituinte, oficialmente dirigida pelos socialistas-revolucionários e mencheviques – devido à ausência dos bolcheviques – é dirigida de fato pelos cadetes, deu lugar à ditadura do almirante czarista Koltchak. Assim aconteceu no Norte, onde os membros da Constituinte, personificada no governo do socialista-revolucionário Tchaikovski, não passavam de medalhões, em presença dos quais agiam os generais contrarrevolucionários russos e ingleses. Em todos os pequenos governos limítrofes aconteceu ou acontece o mesmo: na Finlândia, na Estônia, na Lituânia, na Polônia, na Geórgia, na Armênia, onde, sob o estandarte aparente da democracia, se consolida o regime dos proprietários, dos capitalistas e do militarismo estrangeiro.


O operário parisiense de 1871
O proletário peterburguês de 1917

Um dos paralelos mais ordinários, que nada justifica e que é politicamente uma vergonha, traçado por Kautsky entre a Comuna e a Rússia soviética, é o que se refere ao caráter do operário parisiense de 1871 e do proletário russo de 1917-1919. Kautsky nos descreve o primeiro como um revolucionário entusiasta, capaz da mais elevada abnegação, ao passo que o segundo nos é apresentado como um egoísta, um utilitário e um anarquista desenfreado.

O operário parisiense tem atrás de si um passado perfeitamente definido para precisar de recomendações revolucionárias ou para ter que se defender dos elogios do atual Kautsky. Contudo, o proletariado de Petrogrado não tem nem pode ter motivos para renunciar ao paralelo com seu irmão mais velho. Os três anos de luta ininterrupta dos operários peterburgueses, primeiro pela conquista do poder, em seguida para mantê-lo e consolidá-lo, em meio de sofrimentos nunca vistos, apesar da fome, do frio, dos perigos constantes, constituem um fato excepcional nos anais do heroísmo e da abnegação das massas. Kautsky, como mostraremos, examina, para compará-los com a elite dos comunalistas, os elementos mais obscuros do proletariado russo. Em nada se distingue, neste ponto, dos sicofantas burgueses, para os quais os mortos da Comuna são infinitamente mais simpáticos do que os vivos. O proletariado peterburguês tomou o poder quarenta e cinco anos mais tarde que os operários de Paris. Esse lapso de tempo nos dotou de uma imensa superioridade. O caráter pequeno-burguês e artesão do velho Paris e, em parte, do novo, é inteiramente estranho a Petrogrado, centro da indústria mais concentrada do mundo. Esta circunstância nos facilitou consideravelmente o trabalho de agitação organização e o estabelecimento do regime dos sovietes. O nosso proletariado está muito longe de possuir as ricas tradições do proletariado francês. Mas, em compensação, nos primeiros dias da nossa revolução, a lembrança da grande experiência fracassada de 1905 estava ainda viva na memória da geração atual, que não esquecia o dever de vingança que lhe tinham legado. Os operários russos não passaram, como os franceses, pela larga escola da democracia e do parlamentarismo que, em certas épocas, foi um fator importante para a cultura política do proletariado. Mas, por outro lado, a amargura das decepções e o veneno do ceticismo (que paralisam a vontade revolucionária do proletariado francês, até uma hora que julgamos próxima) não tinham tido tempo de infiltrar-se na alma da classe operária russa.

A Comuna de Paris sofreu uma derrota militar antes de surgirem, em toda a sua magnitude, os problemas econômicos. Apesar das excelentes qualidades combativas dos trabalhadores parisienses, a situação militar da Comuna tornou-se logo desesperada: a indecisão e o espírito de conciliação das esferas superiores provocaram a desagregação das camadas inferiores.

Pagava-se o soldo da Guarda Nacional a 162.000 soldados rasos e 6.500 oficiais; mas o número dos que realmente combatiam, principalmente a existência de um organismo dirigente regular e centralizado. Os comunalistas não tinham sequer a mínima ideia disso.

O departamento de guerra da Comuna ocupava, segundo a expressão de um autor, uma sala sombria, onde todo o mundo se atropelava. O gabinete do ministro vivia cheio de oficiais, de guardas nacionais que ora exigiam material bélico, ora pediam provisões, ou que se queixavam porque não obtinham dispensa. Ali lhe diziam que fossem ver o comandante da praça.

“Alguns batalhões permaneciam nas trincheiras de vinte a trinta dias, ao passo que outros ficavam sempre de reserva. Esta irregularidade destruiu logo toda a disciplina. Os mais valentes só queriam depender de si mesmos; os demais se retiravam. Os oficiais faziam outro tanto, uns abandonavam os seus postos para correr em auxílio do companheiro exposto ao fogo do inimigo; outros iam para a cidade...” (A Comuna de Paris de 1871, P. Lavrov, 1919, p. 100).

Um tal regime não podia continuar impunemente. A Comuna foi afogada em sangue. Mas encontrais em Kautsky um consolo, único no gênero:

“A guerra nunca foi [diz, meneando a cabeça] o forte do proletariado” (p.138).
Esse aforismo, digno de Pangloss, está à altura de outro conceito de Kautsky, a saber: que a Internacional não é uma arma para as épocas de guerra, mas, pela sua própria natureza, “um instrumento de paz”.

Todo o Kautsky de hoje se resume, no fundo, nesses dois aforismos, cujo valor é apenas superior ao zero absoluto. “Nunca foi a guerra, como veem, o forte do proletariado; tanto mais que a Internacional não foi criada para um período de guerra.”

O barco de Kautsky foi construído para navegar nas águas mansas dos açudes, não para enfrentar o alto mar e aguentar os temporais. Se começa a dar água e a soçobrar, o forte, sem contestação, é a tempestade, são os elementos, a imensidade das ondas e toda uma série de circunstâncias imprevistas, para as quais Kautsky não destinava o seu magnífico instrumento.

O proletariado internacional se atribuiu a missão de conquistar o poder. Seja ou não a guerra civil “em geral”, de qualquer modo é indiscutível que o movimento emancipador do proletariado, na Rússia, na Alemanha e em determinados lugares da antiga Áustria-Hungria, revestiu-se da forma de uma guerra civil de morte, e não só nas frentes internas, como nas frentes externas. Se a guerra não é o forte do proletariado, e se a Internacional operária só vale para as épocas pacíficas, é preciso fazer uma cruz sobre a revolução e o socialismo, pois a guerra é um dos fortes do governo capitalista, que, com toda a certeza, não permitirá que o operário conquiste o poder sem guerra. Resta apenas considerar como um parasita da sociedade capitalista e do parlamentarismo burguês o que se chama “democracia socialista”, Istoé, sancionar claramente o que fazem em política os Eberts, os Scheidemanns, os Renaudel e aquele contra quem achamos que Kautsky ainda se levanta.

A guerra não era o forte da Comuna. Por esse motivo foi esmagada. E com que selvageria!

“É preciso remontar – [escrevia no seu tempo o escritor liberal moderado Fiaux] às proscrições de Sila, de Antônio e de Otávio para encontrar assassinatos semelhantes na história das nações civilizadas; as guerras religiosas sob os últimos Valois, a noite de São Bartolomeu, a época do terror não eram, em comparação, mais do que brincadeira de criança. Somente na última semana de maio se registraram em Paris 17.000 cadáveres de federados insurretos... A 15 de junho ainda se continuava a matar...”


“... A guerra, em geral, nunca foi o forte do proletariado...”

Como isto é falso! Os operários russos demonstraram que são capazes de dominar também a “máquina guerreira”. Isso significa um enorme progresso em relação à Comuna. Não é uma abjuração da Comuna – pois a tradição da Comuna não é a sua impotência –, mas a continuação de sua obra. A Comuna era fraca. Para realizar a sua missão nós nos fizemos fortes. A Comuna foi esmagada. Nós vibramos golpes sobre golpes contra os seus verdugos, vingando-a e ajustando as suas contas.

***


Dos 162.000 guardas nacionais que recebiam soldo, 20 ou 30.000 iam para a luta. Esses números constituem matéria interessante para as deduções que se podem tirar a respeito do papel da democracia formal em um período revolucionário. A corte da Comuna não se decidiu nas eleições, mas nos combates contra os exércitos de Thiers.

No fundo, foram esses 20 ou 30 mil homens – a minoria mais abnegada e combatida – que fixaram na luta o destino da Comuna. Essa minoria não era uma coisa à parte, não fazia mais do que expressar com mais valor e abnegação a vontade da maioria. Mas, de qualquer modo, não deixava de ser a minoria. Os demais guardas nacionais, que se ocultaram no momento crítico, não eram adversários da Comuna, não; defendiam-na ativa ou passivamente, mas eram menos conscientes, menos resolutos. Na cena da democracia política, a inferioridade de seu sentido social tornou possível a mistificação dos aventureiros e dos cavalheiros de indústria, dos parlamentares pequeno-burgueses e dos tolos honrados que se enganavam a si mesmos. Mas quando se viu que se tratava de uma franca guerra de classes, acompanharam, mais ou menos, a minoria abnegada. Esse estado de coisas teve a sua expressão na criação da Guarda Nacional. Se a existência da Comuna se tivesse prolongado, as relações recíprocas entre a vanguarda e a massa do proletariado iriam se fortificando cada vez mais. E a organização que se tivesse constituído e consolidado no processo de uma luta declarada, ter-se-ia transformado, como organização das massas trabalhadoras, em órgão da sua ditadura, no soviete dos delegados do proletariado em armas.

Leon Trotsky, 29 de maio de 1920.


Notas:

* TROTSKY, Leon. Terrorismo e Comunismo – o anti Kautsky, Editora Saga, 1969 – tradução de Lívio Xavier.
** Não deixa de ser interessante observar que nas eleições comunais de 1871, em Paris, tomaram parte 230.000 eleitores. Nas eleições municipais de Petrogrado de 9 de novembro de 1917, apesar do boicote que lhes declararam todos os partidos, exceto o nosso e o dos socialistas revolucionários, que quase não tinham nenhuma influência na capital, tomaram parte 400.000 eleitores. Paris em 1871 tinha 2.000.000 de habitantes. Petrogrado tinha o mesmo número de habitantes de Paris em 1871. É preciso ter em vista, além disso, que o nosso sistema eleitoral era incomparavelmente mais democrático, pois o Comitê Central da Guarda Nacional fizera as eleições na base da lei eleitoral do império. (Leon Trotsky)