Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

1° de Maio: o PSOL tem que agitar o "Fora Bolsonaro e Mourão!" pela vida dos trabalhadores, periferias e pobres

De Eduardo Rodrigues, militante do PSOL


O momento é de agravamento da crise social, a pandemia já causou 500 mortes por covid19 em apenas 24 horas e ultrapassou o número total de vítimas da China. Ainda assim, o governo Bolsonaro-Mourão segue a sua linha de não garantir as testagens em massa, continua com o plano de suspensão total do distanciamento social, continua priorizando os negócios e a entrega de dinheiro público aos capitalistas e sistema financeiro, ao mesmo tempo que dá continuidade aos seus planos de aprovação das medidas draconianas contra os direitos dos trabalhadores brasileiros.

A investida sobre a direção da Polícia Federal demonstra que Bolsonaro quer aumentar seu poder pessoal e autoritário sobre a sociedade brasileira. Em paralelo ao projeto autoritário, debocha e faz pouco caso da dor das famílias que enfrentam a tristeza de ver seus entes queridos morrendo sem a devida atenção dos altos poderes na República da Desigualdade. Os próximos dias serão de maior crise político-institucional e mal-estar com o crescimento da curva de contágios do coronavírus.

De fato, a crise terminal da Nova República se acelera e a questão principal colocada em sentido histórico é que a luta pela dignidade e vida do nosso povo trabalhador passa por derrotar o estado de coisas engendrado pelo sistema capitalista em todas as áreas de necessidade da população e dimensões da vida. Essa decadência sistêmica, escancarada agora pela pandemia deve ser aproveitada para unificar a esquerda socialista  na construção do projeto revolucionário de massas urgente para impor sobre o capital o poder do trabalho. Um projeto frontalmente contrário ao projeto de Bolsonaro, que lidera a "contrarrevolução preventiva" e organiza-se para consolidar uma base fiel e militante de neonazistas.

Para salvar vidas, invertendo totalmente a lógica atual é preciso um novo radicalismo de esquerda, pela igualdade substantiva que o Brasil nunca experimentou e contra todo esse autoritarismo que nossa história sempre viveu. É o principal objetivo nesse momento em que todo o sistema mundial demonstra sua insuficiência para nossa classe e, na realidade, aprenderá uma feroz disposição de nos sacrificar em nome do lucro.

Para que possamos defender a vida dos trabalhadores é inevitável enfrentar toda a política do atual governo, pois sem que se derrote Bolsonaro e Mourão será impossível reverter a sua agenda antipopular e genocida. Por isso, o PSOL - junto à esquerda socialista composta pelos camaradas do PCB e do PSTU - deve fortalecer o movimento pelo Fora Bolsonaro e Fora Mourão, a única linha política que tem a devida independência diante de todo governo burguês ultraliberal que está no poder. Essa política é diferente das linhas que as esquerdas e direitas capitalistas estão aplicando agora, para aclamar Mourão e acalmar os ânimos da indignação popular. Devemos chamar o 1° de Maio classista, popular, dos trabalhadores e do povo pobre, para exigir a queda do governo e dessa agenda de morte contra brasileiras e brasileiros. Sem nenhuma confiança nos governos, uma vez que os nossos maiores inimigos estão poder.

Não bastará a política pelo "Fora Bolsonaro" que tanto a direita como a esquerda estão agora agitando face a profunda crise. Eles estão, na realidade, propondo uma "manobra Temer" para normalizar um regime totalmente inormalizável. É preciso dar um baque forte e impor uma derrota a toda burguesia brasileira e o seu governo agora. Isso se dará pelo convencimento massivo das pessoas, seja com os panelaços, protestos e campanhas de todo tipo contra os planos em curso do governo.

Fora Bolsonaro e Mourão!
A vida tem que estar acima do lucro!

terça-feira, 28 de abril de 2020

1° de Maio: Nem general, nem capitão! FORA BOLSONARO E MOURÃO! No dia do trabalhador não há espaço pra patrão!

De Eduardo Rodrigues, militante do PSOL-PA


A burguesia agora quer capiturar o 1° de Maio dos trabalhadores!

A galera que aprovou Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista, que entregou bilhões ao "Bolsa Banqueiro", toda aquela galera que destruiu o Sistema Único de Saúde (SUS) e que defende a privatização dos serviços públicos quer se abraçar no Dia Mundial da Classe Trabalhadora pra apoiar que o General Mourão assuma o governo agora!

Mas isso, que pode vir a se confirmar nos próximos dias, não passaria de uma espécie de "MANOBRA TEMER" de emergência para salvar o plano guedista de contrarreformas capitalistas! Está correta a queda de Bolsonaro, mas está errada a ascensão de Mourão! Ambos representam o mesmo projeto, que hoje permitiu a Covid19 bater forte sobre os trabalhadores, sem saúde, recursos, ciência, testagem, EPI's, leitos de UTI's, etc! Por isso irão dividir o mesmo palanque o Dória, Lula, FHC, Haddad, etc, ou seja, uma união das direitas e das esquerdas capitalistas CULPADOS PELO CAOS TODO QUE VIVEMOS HOJE! Pra aclamar Mourão, como "solução" que NÃO É E NUNCA VAI SER.

Nós precisamos de um 1° de Maio pra outra coisa: pra luta pela queda de todo o governo! Fazer fortes panelaços por "FORA BOLSONARO E MOURÃO"! Pois são todos agentes do mesmo projeto! Em defesa da Saúde, seus trabalhadores, por um Lock Down real no Brasil, testagem massiva e recursos pra prevenção, pra proteção e para o tratamento das pessoas! Nenhuma ilusão nos políticos da ordem que agora querem fazer "Live" pra dizer que são contra o governo cujo mandato eles defendiam até agorinha! Não podemos confiar que venha nada de bom lá de cima, temos que fazer pressão desde baixo e denunciar todos os governos antipovo! Só assim teremos condições de nos proteger nessa situação de pandemia, com muito protesto!

Todos aqueles realmente vinculados e comprometidos com a classe trabalhadora devem fazer atos com INDEPENDÊNCIA DE CLASSE, SEM BURGUESES, SEM PATRÕES, SEM BUROCRATAS SINDICAIS TRAIDORES E SEM CORRUPTOS! Também não há espaço para os representantes das instituições da ordem burguesa, nem da Câmara e nem do Senado, nem do STF e nem nada assim. Isso quer dizer que os camaradas do PSOL, PSTU, PCB e todos os movimentos e ativistas que lutam por mudanças estruturais no Brasil, pelo poder verdadeiro dos trabalhadores auto organizados, imediatamente devem repudiar os atos policlassistas que farão os burgueses e seus aliados conciliadores. Devemos por nosso 1° de Maio no lugar certo, ao lado exclusivamente da classe trabalhadora e suas necessidades, lutas e protestos contra TODOS OS GOVERNOS! Pelo socialismo e o poder dos trabalhadores!

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Assistimos agora a morte do bolsonarismo e o nascer de uma nova chance de mudanças

De Eduardo Rodrigues, militante do PSOL-PA

Totalmente ridículo, o futuro ex-presidente

O contagioso fenômeno político que levou o nome dos Bolsonaros agora está em decadência aberta. Desmoralizado, derretendo e se decompondo bem diante de nossos olhos, crescentes alas da direita vão assumindo a deposição de seu Messias após a crescente indignação social passar por cima até da esquerda política, que estava tão imóvel até alguns dias atrás. Já são mais de 20 pedidos de impedimento contra Jair Bolsonaro, algumas denúncias no STF por crimes graves e uma imparável turbulência vinda de todos os lados, desde a oposição social com panelaços pelas janelas do país até sua base institucional no Congresso.

Diferentes partidos da direita e da esquerda já se posicionaram pela renuncia, impeachment e/ou derrubada do governo, seja pelo STF ou não. Os conflitos com os governadores e demais líderes partidários se agravou profundamente em face das posições suicidas na crise do coronavírus. A falta de testgem massiva da covid19, maquiando os dados sobre a pandemia, a política de não garantia de um verdadeiro lock down no país e a forma de minimizar tudo como "gripezinha" e "resfriadinho" piorou todos os problemas do governo e levou o Brasil ao "limite da barbárie" como diz o prefeito de Manaus - onde os cadáveres são enterrados em vala comum aberta com escavadeira há uma semana. Seja PSL, FHC, Ciro Gomes ou PT (em conflito com Lula), há crescente convergência pela queda do presidente. Cresce a agitação da consigna do "Fora Bolsonaro e Mourão" de socialistas do PSOL, PSTU e PCB que não querem trocar o ex-capitão burguês por um general burguês que vai dar continuidade ao projeto guedista.

Estamos revendo - só que de uma forma mais dramática, profunda e odienta - aquela crise política vivida pelo petismo no pré-Impeachment de Dilma Rousseff. A perda de base de apoio, os abandonos de aliados e movimentação em rumo à derrubada. Dessa vez é a ala populista da direita capitalista que está vivendo a crise que já viveu os populistas da esquerda capitalista. É muito importante dizer, inclusive, que o bolsonarismo não passa de uma espécie de "doppelganger" do lulismo, só um reflexo odioso que se impôs ao Brasil como desdobramento da frustração e da rejeição. O propulsor "antiPT" foi conquistado por Bolsonaro e agora o propulsor "antiBolsonaro" está em disputa. Na crise petista a falta de uma alternativa capaz de criticar com força os anos do PT e todo o resto, levou Bolsonaro a aparecer como o "novo" e "antissistêmico" que iria "mudar tudo isso daí" e, no final, mudou tudo pra pior. Mas a morte agora do bolsonarismo é uma nova oportunidade, como foi uma oportunidade perdida a crise do lulopetismo. Pois o sistema capitalista é o mesmo ao longo de todos os governos que a burguesia brasileira dirigiu com acordos com Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro e não irá mudar apenas com um novo presidente e sim com a mudança sistêmica.

Há um perigo de outra repetição piorada, a "manobra Temer" da burguesia

Se a direita derrubou o desgastado governo Dilma Rousseff após aplicar vários ajustes antipopulares, botou Michel Temer para acelerar o mesmo projeto. Isso aconteceu porque a esquerda se negou a ir até às últimas consequências do "Fora Temer", o deixou assumir e governar até o fim do mandato. O resultado foi a burguesia avançando de novo e colocando Jair Bolsonaro no comando. Ou seja, sempre a burguesia avança quando vê chances. E agora com a possível queda de Jair Bolsonaro, a possibilidade mais evidente vista pela burguesia é colocar Mourão pra avançar ainda mais no plano burguês no Brasil. Vai prometer estabilidade, satisfazer parte da indignação social e tocar o barco das contrarreformas antipopulares após já ter sacrificado a vida de milhares de trabalhadores. E se a esquerda do capitali (PT, PCdoB, PDT...) só ficar no "Fora Bolsonaro" e deixar Mourão no poder como deixou Michel Temer, estaremos cada vez pior. Ou seja: se correr pro Mourão o bicho pega e se ficar no Bolsonaro o bicho come!

É preciso seguir a linha do "Fora Bolsonaro e Mourão" pra garantir testagem massivo do covid19, garantir o fortalecimento do distanciamento social, dar renda básica aos trabalhadores e necessitados, investir pesado na proteção e saúde do Brasil, pois com eles no poder não poderemos fazer isso! Ainda, agora é a hora de construir uma nova saída política que negue todos esses bichões que até agora só propuseram mais e mais capitalismo ao Brasil. Se o país está sofrendo uma enorme tortura é porque todos esses velhos políticos burgueses passaram 30 anos construindo um país totalmente antidemocrático para a maioria do povo, que não deu a mínima para saúde e educação, ciência, nem saneamento, nada. Todos eles são o partido do sistema capitalista - da direita à esquerda, uns dizem "sim" ao sistema e outros "sim, senhor!" - e nos falta ainda uma alternativa que diga NÃO a essa lógica onde o Mercado é mais importante do que a dignidade e a vida dos trabalhadores, das periferias e dos pobres.

A morte do bolsonarismo agora nos abre de novo a oportunidade de não repetir velhos erros burgueses que prometem "mudar isso daí", sem mudar o sistema econômico e esse regime político, ambos totalmente antidemocráticos contra a população. .

sexta-feira, 24 de abril de 2020

VAI SE DESNUDANDO A BARBÁRIE NA AMAZÔNIA

Figura: Montagem de Eduardo Rodrigues.

Nós amazônidas estamos em situação especialmente complicada. O pano de fundo são sistemas de saúde locais precários e já colapsados desde antes da pandemia, evidentes falhas e atentados contra as orientações de distanciamento social, a nula testagem de covid-19 para ampla população e a estação de chuvas. Nesta quinta-feira (23), o Amazonas contou com um salto de 409 novos casos chegando aos 2.888 e 234 óbitos confirmados, uma situação dramática que chama a atenção pelas valas comuns sendo abertas em Manaus, fotos que circularam por todo país. O Pará, com a 3ª maior taxa de crescimento da curva de contágio já está sem capacidade de atender em várias unidades de saúde de Belém - de modo que no dia 05/04 eram 102 casos e dez dias depois já eram 487, e alcançou 1267 casos e 53 óbitos no dia de ontem, com menos de 200 leitos de UTI e já todos ocupados. Estamos apenas no começo do contágio comunitário, com pessoas morrendo em porta de hospitais ou em casa, com trabalhadores da saúde sem EPI's para se protegerem e o IML sem capacidade de fazer a busca dos corpos - demorando até 12 horas para efetuá-las. Pense nas cidades menores, nos ribeirinhos, indígenas e comunidades periféricas mais empobrecidas que há aos montes em nossa região... O pior está por vir. Tudo culpa de décadas de negligência de todos os governos do capital, que só legaram rombos nas terras e nas contas ao invés de construir infraestrutura social aqui.

Essa realidade de colapso ainda nem se deu nos primeiros estados a ter casos e contágio generalizado por coronavírus no Brasil. O que demonstra cabalmente que as condições de garantia de dignidade aos nossos povos do campo, da cidade e da floresta é um quadro grave, de uma Amazônia negligenciada em direitos apesar de super explorada em seus recursos pela federação brasileira. Uma periferia bárbara e subcolônia de um país já periférico, cuja principal frente de expansão econômica desse capitalismo dependente - "o agro é pop" - não possui sequer a capacidade de produzir respiradores, EPI's e máscaras pra sua população em geral, muito menos para nortistas em especial. Se Norte e Nordeste - regiões mais "empobrecidas" - já somam 38,1% dos casos em todo país, então a aceleração é enorme! Mas a diferença qualitativa é que aqui, amazônidas e nordestinos, viveremos uma versão ainda mais cruel e barbarizada da realidade da pandemia que abate a sociedade em crise profunda que é esse país. E esses são parte dos míseros e benevolentes dados do próprio governo federal ( http://covid.saude.gov.br ) que está se negando em absoluto a realizar a massiva testagem necessária para sairmos do escuro, maquiando dados com a opção da ignorância e sabotando a análise científico-política séria!

O governo Bolsonaro-Mourão, com todos os seus ministros lacaios, está aplicando deliberadamente uma linha do "foda-se!" aos trabalhadores, retirando direitos ao mesmo passo que entrega bilhões e bilhões e bilhões aos bancos, ao sistema financeiro e aos patrões, basta ver o R$ 1,2 trilhão aprovado para resguardá-los. O governo central ainda promete quebrar de vez o distanciamento social que até agora estava servindo minimamente para ganhar tempo e reduzir danos. Especialistas já afirmam que o Brasil já tem uma aceleração pior do que da Itália e deve ser uma tragédia, caso se recue ainda mais no pouco feito. Nós, mais que ninguém no resto do país, precisamos nos revoltar!  #ForaBolsonaroEMourão #GrevesPelaVida #PararONãoEssencial #FicaEmCasa #LockOutDeVerdade #VidaAcimaDoLucro #Amazônia #Amazônidas #Covid19 #Coronavírus

terça-feira, 7 de abril de 2020

O Poço - Aceitar ou não a barbárie como único e "óbvio" caminho?

por Eduardo Rodrigues

Trimagasi e Goreng

O filme “O Poço” (“El Hoyo”, original espanhol; “Platform”, no inglês) tem suscitado várias reflexões na internet, sido muito indicado nas redes sociais e conta com 97% de relevância no ranking da Netflix. Enquanto, de um lado, espectadores se debruçam na busca do significado do filme em perspectivas numerológicas, religiosas, filosóficas e meta-cinematográficas atrás da real intenção do diretor – que, de fato, cortou cenas finais e decidiu por uma “conclusão inconclusiva” – há, por outro lado, aqueles que buscam potencializar aspectos políticos do filme como instrumento de denúncia do sistema capitalista (e até do socialista) em exagerações equivocadas, vendo estes sistemas onde não existem e, ainda, perdendo a oportunidade de discutir outras temáticas mais verificáveis na ficção em si.

O filme inicia afirmando haver “três classes de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”. Sem demora compreendemos que aquela edificação vertical (o tal Poço) é composta de muitos andares, com cada andar abrigando um par de pessoas e uma estranha plataforma que todo dia desce trazendo um banquete servido pela Administração para garantir a alimentação dos “inquilinos”. Acontece que essa comida posta na plataforma passa por todos os andares, parando à disposição de cada par de pessoas por apenas alguns minutos ao dia. De modo que os ocupantes do andar de cima sempre comerão antes e deixarão suas sobras aos ocupantes do andar debaixo, que comerão e deixarão suas sobras ao do andar inferior seguinte, e assim por diante até que uma hora a comida acaba e os pares dos andares mais profundos do Poço devem se virar... Além dessa disfuncional divisão de alimentos, as duplas são trocadas de andar aleatoriamente uma vez ao mês. Ou seja, um par pode estar bem servido de alimentos em um mês no andar 48 ou 6 e, então, no mês seguinte passar uma fome desesperadora que leva à loucura nos andares 171, 222 ou outro dos mais baixos...

Toda essa construção do filme prova - para desgosto dos “apolíticos” - que é impossível despolitizar O Poço, uma vez que estes elementos levam à essência do que significa o próprio debate político: sistemas de sociedades, conflitos de interesses, relações de poder, luta pela sobrevivência, convívio humano em adversidades extremas, egoísmo versus altruísmo, distribuição e escassez de alimentos, adaptação conformista ou rebelião inconformista, entre diversas outras temáticas. Tudo está no filme e tudo isso, óbvio, são temas políticos. Temas gerais e interessantes, passíveis sim de relações e paralelos com a realidade em certas medidas e com os devidos cuidados. Mas, para os objetivos desse texto, quero focar em apenas um ou dois aspectos específicos quanto as figuras do velho Trimagasi e do protagonista Goreng face à situação que vivenciam na película.


TRIMAGASI, A REALIDADE QUE MATA A INGENUIDADE

Goreng é o protagonista do filme e contracena boa parte com o velho Trimagasi. Tudo começa no andar de número 48, quando Goreng, um homem adulto, acorda e conhece esse sério, distante e frio senhor de idade de olhar blasé. Após alguma relutância (pois “falar cansa”), Trimagasi passa a conversar com Goreng e vai mostrando sua curiosa personalidade.

O velho conta que assistia às propagandas na televisão. Que seu consumismo o empurrava a querer adquirir os bens mais modernos, estes que não paravam de ser reinventados e melhorados e, por isso, era sempre obrigado a comprar a nova versão do que já tinha. Até que certo dia, enfurecido de sentir feito de tolo pelos vendedores do canal de compras, jogou a televisão pela janela e acabou matando um “imigrante”. Se defende dizendo que foi um acidente e não foi culpa sua, que o homem “nem deveria estar ali”. Revela que foi mandado ao Poço para cumprir a sua pena em troca de não ser internado em um sanatório e que só ficaria ali mais dois meses. O presente e o próximo, depois sairia.

Notemos que Goreng tem muitas dúvidas, faz várias perguntas e questiona o funcionamento do Poço enquanto que para Trimagasi tudo é muito “óbvio”, simples. Óbvio que os de cima não escutam os debaixo, pois aqueles estão melhores; óbvio que os debaixo são humilhados pelos de cima, pois aqueles estão piores; óbvio que ele também deve humilhar, ser humilhado e não ser escutado, ao mesmo tempo que os xinga de “filhos da puta” por isso; é óbvio também que cada vez haja menos pessoas no Poço, porque elas estão morrendo; é óbvio que as vezes se está lá em cima e as vezes se está lá embaixo; enfim, “óbvio” que é tudo como é.

A dupla passa o mês inteiro no andar número 48, numa relação de coexistência pacífica que evolui para uma relação amigável, onde Goreng lê seu livro do Dom Quixote para Trimagasi quando este não consegue dormir, enquanto o idoso comprador compulsivo conta os dias que faltavam para o mês seguinte fazendo riscos na parede com a Samurai-Plus – sua faca de cozinha mais moderna e que fica mais afiada na medida que mais se faz uso dela.

De modo geral, há um simbolismo nesse velhinho. Ele representa a aceitação e resignação às estruturas do Poço. Como aqueles que chamam de “pragmáticos”: quem joga o jogo, aceita as regras, não as questiona e só pensa nos resultados permitidos ali. Isso é o que fica evidente ao extremo no momento em que a dupla é transferida do andar número 48 direto para o andar número 171, em uma sequência tenebrosa: Goreng acorda completamente amarrado à cama e aí se trava um diálogo diabólico com seu colega de quarto, onde Trimagasi explica que não chegaria comida nenhuma para eles agora que estavam tão fundo no Poço. Que isso os enlouqueceria pouco a pouco, destruiria sua amizade e, portanto, chegaria o ponto da fome e da desconfiança onde se imporia a necessidade de praticar o canibalismo. O velho explica que é mais fraco, por isso, teve de se precaver amarrando o colega logo. Explica que Goreng servirá de alimento até o final do mês, sendo cortado em pequenas fatias de carne pela Samurai-Plus. O velho ainda promete que cuidaria dos ferimentos para que Goreng não morresse logo e, assim, não estragasse sua carne. Aqui a grande questão é que o agora canibal Trimagasi aceita a condição de barbárie do Poço, a entende como parte da luta pela sobrevivência ali, sendo que não seria a primeira vez que comeria carne humana, inclusive. Falando em uma racionalidade calculada que durante vários dias ambos se alimentariam de Goreng, mas que faria aquilo com “respeito” e de maneira “limpa”. Retrucando os gritos do colega que a culpa não era sua, mas sim de todos os andares acima que impediam a comida de chegar até ali. “Óbvio”.

A cereja desse bolo medonho é que Trimagasi passa a chamar Goreng de “caramujo”, dizendo que facilitaria entender o colega agora como um animal, para poder comê-lo. Eis o grau de bestialidade e barbarização que a lógica do status quo valida na cabeça do velho: “comer ou ser comido”, com todo o “respeito”. Enquanto Goreng implora e grita aterrorizado por aqueles planos dia após dia.

Evidentemente que a crise de comida é uma virada inesperada e terrível no filme. Não passou pela cabeça do protagonista o que ocorreria se ambos fossem parar em andares mais profundos do Poço, não lhe ocorreu que não chegaria alimento e nem o que mais poderia acontecer de “óbvio” por lá. Ele não imaginou ser atacado e amarrado para ser mutilado pelo colega de quarto. O desespero toma conta dele nos dias em que o velho ainda tenta fazer jejum para adiar o início da mutilação. Até que chega o dia em que a lâmina corta um bife da sua coxa e Goreng explode de dor e horror. Mais uma reviravolta: acontece o contrário do que queria Trimagasi e, com ajuda da estranha Miharu, é Goreng quem o mata o velho com ódio e quem come da sua carne com toda a culpa ao longo do mês no andar 171. O sobrevivente se alimenta até que o cadáver apodreça. Agora contando com a companhia fantasmagórica de um Trimagasi o assombrando e zombando dentro de sua cabeça, como um profundo trauma de remorso por ter chegado ao ponto extremo que alcançou. Se justifica consigo mesmo que não teve outra escolha, que foi obrigado e que eles não são iguais por isso.


GORENG, UM “MESSIAS” FACE AO STATUS QUO

Antes de buscar a tentativa de mudar a lógica do Poço com Baharat, Goreng ainda experimenta mais um andar de fartura de alimentos no número 33 e depois mais um andar de escassez absoluta no número 202 - onde acaba devorando o corpo de Imoguiri, quem, aparentemente, se enforca ao ver o horrível sistema onde esteve trabalhando por tantos anos antes. Abstraindo a parte das alucinações fantasmagóricas e messiânicas que são vividas por Goreng no andar 202, podemos dizer que ele conseguiu entender desde as altas até as mais baixas perspectivas o dito “sistema vertical de auto gestão”. Essa consciência do fracasso e horror do sistema o revolta e o impele a querer mudá-lo.

Em um dos diálogos com a ex-funcionária Imoguiri, o "herói" afirma que “mudanças não acontecem espontaneamente”.  E a própria Imoguiri sugere que talvez Goreng estivesse ali no Poço justamente para fazer a diferença no sistema e, durante novas alucinações canibalescas, seu fantasma chega a chamá-lo de “Messias” enquanto ele comia sua carne e bebia seu sangue. Num ritual com citações bíblicas do "cordeiro de Deus". O evidente paralelo desse messianismo cristão com a vontade de mudar as coisas soa a um deboche, em parte. E é. Porque ele depois evolui para uma franca repressão assassina contra os que não concordarem.

Chegando ao andar de número 6, surge Baharat que é humilhado pelos de cima e frustrado na sua tentativa de sair do Poço escalando os andares restantes. Não pode contar com a boa vontade dos racistas ocupantes do 5º andar que, literalmente, cagam na sua cara. Goreng é solidário e convence Baharat que seja necessário intervir na lógica do Poço. Goreng quer descer os andares em cima da plataforma de comida, escoltando e distribuindo o alimento para que chegue aos mais famintos lá embaixo enquanto Baharat é convidado a ajudá-lo e a aproveitar o instante do retorno da plataforma para seguir rumo ao andar zero, ao topo do Poço onde está a Administração.

Goreng e Baharat se armam com barras do estrado de suas camas, sobem na plataforma e começam a sua missão. Pedem que os 50 primeiros andares façam um jejum neste dia, para que os famintos dos demais andares possam comer. A reação dos ocupantes varia: uns negam e outros aceitam, alguns pelo convencimento e outros pela coerção, ameaça e violência física que passam a empregar Goreng e Baharat contra aqueles que se negavam a cooperar. Ao passarem do quinquagésimo andar, afinal, começam a distribuir as porções de comida igualmente para os pares de famintos dos andares inferiores. Uma divisão de pães numa versão hardcore de cristianismo coercitivo que chega a ser questionado por um velho dos andares de cima “o messias multiplica os pães, não os toma!”.

Em outro diálogo – com o “homem sábio” – Baharat e Goreng são chamados a criar um símbolo, uma mensagem a ser entregue ao andar zero e à própria Administração do Poço. Há um apelo pelos bons modos pacíficos de “convencer antes de vencer”. Mas logo vemos que nem os bons modos, nem a simbologia e nem a pretensa mensagem tem o tipo de poder necessário para enfrentar os fatos. Pois após uma longa descida beneficente distribuindo comida para quem não comeria, a boa intenção dos mocinhos é solapada pela cruel realidade do Poço outra vez. São muito mais andares do que imaginavam. Calculavam ser uns 250, mas já iam longe disso e vendo cada vez mais andares com pessoas mortas, com mais pessoas enlouquecidas e mais pessoas violentas até encontrarem novamente com Miharu, que estava sendo agredida e que termina esfaqueada por um brutamontes. Goreng e Baharat lutam contra a dupla de assassinos, vencem o combate com dificuldade e saem gravemente feridos, com a sentença de morte já sendo executada em seus corpos.

Seguem descendo até o andar de número 333, onde ambos os companheiros de luta morrem tentando proteger o símbolo, alimentar quem tinha fome e entender qual era sua própria mensagem, tudo ao mesmo tempo. Basicamente, eles morrem na luta por mudar as coisas e por conquistar a liberdade. Uma série de cenas que não se sabe mais se são parte da realidade, se são delírios antes da morte ou um simples tapa-buraco mítico do diretor para que o filme ficasse com um final mais... qualquer-coisa...


UMA (IN)CONCLUSÃO POSSÍVEL E AS REFLEXÕES PRINCIPAIS

O fato é que não se vê uma mudança nas formas opressivas, violentadoras e estruturalmente assassinas do Poço. O que nos leva a considerar a possibilidade de que o próprio final do filme e sua “explicação” não são o mais importante. Que as mensagens mais interessantes de ponderar já foram apresentadas e postas para apreciação ao longo dele, antes da sua conclusão.

Afinal, aquela “mensagem” que Baharat e Goreng queriam entregar ao nível zero e à Administração – fosse ela só um pratinho de comida (que, particularmente, nada diz) ou fosse ela a criança faminta no fundo do paço que não deveria estar lá (e, talvez, nem estivesse mesmo) – termina ela própria sem o seu tradutor, sem o seu mensageiro, tal como diz Trimagasi na escuridão após o andar 333. O filme termina sem uma explicação porque ele é mais um exercício de reflexões e no seu decorrer já colocou os problemas que queria colocar. Seja a barbárie, fome, ganância, egoísmo, altruísmo, coletividade, conflitos, vontade de mudança, coragem, covardia, resignação, etc.  

Pois o final se descola daquela concretude oferecida entre as quatro paredes, entre os vários andares e as diversas relações estabelecidas ali. Se desvanece essa resposta final assim como se desvanece a mente do protagonista, que vai morrendo e só vai deixando os caminhos especulativos e subjetivistas da velha questão sem solução: “o que há após a morte?”. Portanto, sem a densidade imagética e sem a significação verbal real necessárias para explicar e responder com todas as letras o que se dá, então já não importa mais nada desse “depois”.

E apesar de ver muito mais pessimismo nesse filme, entendo que o intrigante nele é o desconforto causado pelo próprio sistema. Que, independente do que resulta da ação contra ele, o importante do filme foram as reações das personagens como alegoria das pessoas do nosso mundo injusto. A dupla rebelde não teve sucesso e isso pode ser lido como um: não dá pra mudar um sistema desgraçado como esse, simplesmente. Ele não vai ser solidário porque não é baseado na solidariedade, ponto final.

O que importa mesmo é que havia um sistema bárbaro e vil destruindo homens e mulheres e diante de cada pessoa ali dentro se colocavam as questões: É preciso mudar isso ou não? Se pode lutar contra as regras ou não? De que maneira se poderia mudar esse sistema? Você se adapta e dança conforme a música ou se rebelará contra isso tudo? Como? Por que? Por quais objetivos faria ou deixaria de fazer? O que importa no filme é como aquelas pessoas responderam à essas perguntas. Enquanto uma grande maioria se submetia e aceitava aquela barbárie, a alimentando e reproduzindo elas próprias, mesmo indignadas, se conformavam e colateralmente já estavam permitindo matar e morrer e suicidarem-se. Havia outras ali que tentavam fazer a diferença em menor ou maior grau de intervenção, com maneiras de inconformismo mais ou menos efetivas, mais individuais ou mais coletivas. Havia ainda aquelas que simplesmente desistiam. Na aceitação das regras, na desistência da vida ou na luta tenaz, vemos as respostas de Trimagasi, de Imoguiri e de Goreng-Baharat.

Essa é uma das reflexões interessantes e que melhor servem para fazer um paralelo com a realidade cruel de crise profunda dos sistemas societários que hoje estamos vivenciando no Brasil, na América Latina e em todo o planeta, seja sob os regimes políticos fracassados ou os sistemas econômicos em frangalhos que forem. A mensagem é que as sociedades verticais, onde não existe distribuição justa e igualitária de recursos e do poder, serão sempre um inferno de brutalização, de conflitos e de barbárie, como cada vez mais são hoje mesmo...

A simples existência daquelas três classes do filme já não é o “fundo do poço”? A terceira classe de pessoas se referia aos suicidas? Foi uma missão suicida a de Goreng e Baharat?

Mesmo após entender o terror do sistema se deve compactuar com ele como fez Trimagasi?

Nós devemos aceitar a barbárie como nosso único e “óbvio” caminho? Essa moralidade doentia tão normalizada de sobrevivência?

Goreng e Baharat deveriam ter tentando mudar as coisas no Poço como fizeram? Aquele era a única maneira?

O medo do fracasso em tentar mudar as coisas é mais heróico que qualquer tentativa corajosa mesmo que ineficaz?

Por que eles não cogitaram o caminho de destruir o Poço com apoio dos demais presos? Não seria o mais adequado estrategicamente?

Na vida real, a maioria das pessoas segue qual desses perfis diante da crueldade do mundo? Conformismo, desistência ou tentativa-erro de mudança?

Você é o Trimagasi, Imoguiri, Baharat ou Goreng?