Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Em memória de Lenin


 “Lenin já não existe, mas temos o leninismo. O que havia de imortal em Lenin – os seus ensinamentos, o seu trabalho, os seus métodos, o seu exemplo." (Leon Trotski, 22 de Janeiro de 1924)

Escreve Diego Vitello – CST/PSOL - RS

Em 21 de janeiro de 1924, morria aos 53 anos Vladimir Ilitch Ulianov, que entrou para história conhecido como Lenin. O primeiro Estado Operário da história da humanidade perdia seu principal dirigente. A primeira revolução operária vitoriosa, que iniciou em todo mundo uma nova época, perdia seu principal arquiteto.

Vladimir Ilitch nos deixou uma obra imensa, que mostra claramente um marxismo para ação revolucionária. A teoria marxista é, para Lenin, um guia para a ação. Toda sua obra é escrita a partir das necessidades das estratégias e táticas da revolução proletária em seu tempo. Lenin escreveu obras geniais de economia como O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia e Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, de filosofia como Materialismo e Empiriocriticismo, além é claro de milhares de páginas sobre tática e estratégia política. Sempre buscando de forma obcecada construir o partido revolucionário do proletariado e fortalecer a consciência de classe dos trabalhadores para que estes pudessem derrubar a burguesia, governar e construir o socialismo, uma sociedade dirigida e organizada democraticamente por trabalhadores.

Os escritos de Lenin praticamente não são ensinados em nossas universidades. Este homem de ação, que dirigiu a primeira revolução operária da história, que influenciou e moveu a vida de milhões de homens durante todo século XX, que formulou a teoria de um partido político que foi reivindicada por milhões de militantes operários ao longo dos últimos 110 anos, é conscientemente “esquecido” pela academia.


Lenin e o partido político operário revolucionário

Uma das maiores contribuições de Lenin à luta da classe operária, foi a elaboração da concepção de partido. Em 1902, já como um dos principais dirigente do POSDR(Partido Operário Social-Democrata Russo), Lenin escreve sua obra Que Fazer? onde formula a concepção de um partido centralizado democraticamente e para a ação. Um partido da classe operária, que levasse a consciência de classe para as lutas que surgiam espontaneamente nas fábricas. Um partido que deveria construir-se inserindo os seus militantes nos locais de trabalho para fortalecer, aprender e dirigir as lutas dos trabalhadores. Esse instrumento político deveria refletir em seu programa as tarefas históricas da classe operária e em sua atuação cotidiana ter o eixo onde esta classe estivesse concentrada. Apesar de a Rússia ser um país que continha 80% de sua população formada por camponeses, o partido dirigido por Lenin quis conscientemente ser um partido de base social operária concentrado sobretudo nas grandes fábricas de Petrogrado e Moscou, refletindo um método profundamente marxista que tinha na classe operária o eixo da luta pelo socialismo.
Em sua concepção de partido Lenin elaborou a categoria do revolucionário profissional, militante cujo eixo de vida seria a dedicação à atividade revolucionária. A organização revolucionária deveria ter como sua “coluna vertebral” companheiros e companheiras que fossem revolucionários profissionais. Para Lenin, estes militantes precisavam de uma dedicação exclusiva, combinando estudo da realidade com a ação revolucionária de forma permanente.

Em Que Fazer? Lenin polemiza com os “economicistas” que queriam limitar a classe operária às lutas econômicas e sindicais. Esta limitação, que também era e é até hoje difundida pelos anarquistas e reformistas de toda espécie, significa subordinar a classe trabalhadora à burguesia. Segundo Lenin, os trabalhadores não podem apenas lutar para atenuar sua exploração e vender de forma mais vantajosa sua força de trabalho, é preciso lutar pelo poder político para derrotar a burguesia e acabar de vez com a exploração. A partir do partido revolucionário, Lenin propunha que os trabalhadores participassem ativamente da luta política na Rússia e no mundo, tendo em vista que a solução final de seus problemas só poderia vir com a tomada do poder e a derrubada da burguesia.

Para Lenin, a luta entre os partidos mostrava um alto grau de desenvolvimento da luta de classes. Os partidos, ele classificava como representações superestruturais dos interesses de cada classe social. Criticando o “revolucionarismo sem partido” ele coloca: “Numa sociedade baseada em classes, a luta entre as classes hostis converte-se de maneira infalível, numa determinada fase de seu desenvolvimento, em luta política. A luta entre os partidos é a expressão mais perfeita, completa e acabada da luta política entre as classes.” (O Partido Socialista e o revolucionarismo sem cunho partidário, 1905).

Em meio a uma nova “onda” que existe dos “anti-partido”, que negam na prática a necessidade da classe trabalhadora se organizar politicamente, o estudo da obra de Lenin e de sua concepção de partido se faz fundamental. A burguesia, consciente do quanto são “perigosas” as organizações políticas dos trabalhadores que lutem pela sua derrubada, ajuda a reproduzir e difundir ideologicamente a ideia do “anti-partidarismo” até os dias de hoje. Não à toa, durante grande parte da história do século XX, os partidos da classe trabalhadora foram proibidos, censurados e tiveram seus militantes perseguidos e assassinados pelos mais distintos tipos de regimes burgueses.


O primeiro governo de Frente-Popular na história e o combate de Lenin

Os governos de Frente-Popular ou de conciliação de classes, sempre geraram inúmeras polêmicas entre as organizações operárias e de esquerda. No movimento operário russo não foi diferente. Ao longo do século XX e nos inícios do nosso século, o fato de partidos de origem operária formarem governos em comum com a burguesia, sempre levou a governos burgueses para administrar as crises do capitalismo, beneficiando a classe capitalista e não a classe operária.

Lenin enfrentou o primeiro governo deste tipo em seu país. Em fevereiro de 1917, uma revolução derruba o czarismo e leva ao poder um governo de coalizão formada fundamentalmente pelo partido socialista revolucionário, pelos mencheviques (setor reformista do partido operário socialdemocrata russo) e o partido Cadete, liberal-burguês. A prática desastrosa dos mencheviques no governo, se chocando permanentemente com as reivindicações dos trabalhadores, mostrou que governar com a burguesia é sinônimo de governar para ela. Neste contexto, Lenin volta do exílio e elabora as famosas Teses de Abril, onde propõe que o proletariado russo lute para derrubar o governo de coalização de classes e implemente um governo seu, sem participação de nenhum setor burguês. Ao mesmo tempo, Lenin ainda sustenta uma dura batalha no seio do próprio partido bolchevique, quando Stalin e Kamenev, que estavam à frente do trabalho partidário na Rússia, defendiam o “apoio crítico” ao governo.

Em meio a novos governos de frente-popular e a rendição da ampla maioria da esquerda a eles, os ensinamentos do velho dirigente bolchevique seguem atuais. Os que apoiam governos de conciliação de classes na Venezuela, Bolívia, Equador e agora também no Uruguai, onde setores burgueses governam ao lado de organizações de origem na classe trabalhadora, nada mais fazem do que reproduzir a velha teoria menchevique de governar em conjunto com a burguesia que Lenin derrotou há quase um século. Assim como Stalin fez após a morte de Lenin, muitos hoje tergiversam a obra de Lenin para apoiar este tipo de governo. Estes setores da esquerda nada mais fazem do que entrar em um beco sem saída, pois não conseguem explicar porque Lenin não apoiou o governo de conciliação de classes em seu país. O maior empreendimento histórico de Lenin em vida foi justamente o de dirigir a derrubada do governo de frente-popular varrendo também do poder os partidos operários que tinham optado pelo “caminho mais fácil” para chegar ao poder. O partido bolchevique de Lenin, mesmo quando ainda as massas trabalhadoras da Rússia apoiavam o governo de coalização de classes e o partido menchevique dirigia politicamente a maior parte dos operários, soube nadar contra a corrente. Defendeu intransigentemente a independência de classe dos trabalhadores e “explicou pacientemente” a necessidade dos trabalhadores não se subordinarem politicamente a nenhum setor burguês, mesmo que ele tente aparecer como mais “progressivo” que outro como tentavam parecer os burgueses que apoiaram a queda do czarismo na Rússia. Lenin dizia que era preciso esperar e ajudar os trabalhadores a tirar conclusões sobre o caráter do governo a partir das suas lutas e experiências práticas. Nos meses que antecedem a Revolução de Outubro, se tornou célebre sua frase: “Não temos medo de ser minoria, a hora do bolchevismo chegará”. E de fato chegou.


O combate ao lado de Trotski contra a burocratização da URSS

Muitos intelectuais e militantes de esquerda, influenciados pela propaganda ideológica da burguesia contra Lenin, chegaram a uma conclusão completamente equivocada, de que as monstruosidades cometidas por Stalin à frente da burocracia soviética seriam apenas uma continuidade irreversível do leninismo. Este erro amplamente difundido, não leva em conta a última batalha de Lenin.
O último grande combate de sua vida foi contra o início da burocratização do primeiro estado operário. Porém, para falarmos do avanço da burocracia na URSS, é preciso contextualizar historicamente. Os bolcheviques, na sua tomada do poder em outubro, apostavam que a Revolução na Rússia seria um forte impulso a novas tomadas de poder nos países mais desenvolvidos da Europa, sobretudo a Alemanha. De fato, a simpatia e empolgação nos meios operários com as notícias que vinham da Rússia ocorreram no mundo todo. Porém, apesar de algumas tentativas, como na Alemanha em 1919 e 1923, o proletariado não logrou derrotar a burguesia em mais nenhum país. Combinado com este isolamento, o operariado russo ainda teve de enfrentar uma guerra civil onde cerca de 20 países capitalistas montaram um exército contra-revolucionário, conhecido como Exército Branco, para derrotar o governo dos bolcheviques na Rússia. Apesar da vitória na guerra, o governo soviético sofreu com um declínio brutal das forças produtivas e também com o desaparecimento de grande parte dos melhores e mais ativos operários que infelizmente tombaram em combate.

Neste período de tantas baixas, a burocracia do estado e do partido, começa a adquirir um poder muito grande. Encontra como seu chefe um antigo dirigente bolchevique, cuja obra poucos conhecem até então, Josef Stalin. Lenin, ao ver com clareza a burocratização em curso, propõe a Trotski uma batalha em conjunto contra a burocratização e contra Stalin. No seu testamento, Lenin deixa escrito que é preciso retirar Stalin do posto de Secretário-Geral: “proponho aos camaradas que pensem a forma de passar Stalin a outro posto e nomear a este cargo outro homem que se diferencie do camarada Stalin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem, a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas...”
A morte de Lenin coloca Trotski em uma condição muito mais difícil para seguir a batalha contra a burocratização. Uma das grandes batalhas da vida de Trotski após a morte de Lenin, foi seguir esta luta que iniciaram juntos, elaborando uma obra de imenso valor acerca do tema com livros brilhantes como A Revolução Traída. A burocracia chefiada por Stalin foi feroz contra Trotski, o expulsou do partido, da URSS, e depois de pouco mais de uma década de perseguição, o assassinou. Além de Trotski, a burocracia stalinista ainda comandou o assassinato dos principais dirigente bolcheviques da Revolução de Outubro como Zinoviev, Kamenev, Bukharin, Preobrajenski, Antonov-Ovseenko, Smilga, Smirnov, entre outros milhões de deportados e assassinados..

Não temos dúvidas de que a obra de Lenin tem um imenso valor para nós, militantes socialistas que vivemos neste conturbado início do século XXI, onde a classe trabalhadora e a juventude voltam a promover, nos diversos continentes, do mundo árabe à Europa, da Turquia ao Brasil, imensas mobilizações, insurreições e revoluções e também onde milhares de ativistas surgem nas lutas sociais por todo o mundo buscando uma nova sociedade sem exploração nem opressão.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O acordo Irã-Estados Unidos: se fecha o cerco contra a Revolução Síria

Por Layla Nassar, Josep Lluis del Alcazar

Na publicação "Lucha Internacionalista", do Estado Espanhol. Em 10/12/13.


No dia 24 de novembro Estados Unidos e Irã firmaram em Genebra um tratado provisório segundo o qual Teerã congelará durante sei meses seu programa nuclear em troca de um abrandamento das sanções. Nesse período se poderá negociar um acordo definitivo. O pacto tem o aval da alta representante da política exterior europeia, Catherine Ashton, e dos ministros de exteriores da Rússia, França, Alemanha, Reino Unido e China.

Israel, lança altos brados. Como sempre, fomenta o discurso do medo, ainda mais quando a luta dos povos da região abala seu quadro de estabilidade. Mas por trás de toda a conversa, Obama está fazendo seu trabalho: sem armas nucleares no Irã (e sem armas químicas na Síria) nada poderá ofuscar o maior exército do mundo. Mas no fundo fica uma pergunta que não tem nenhuma resposta justificável: Por que Israel pode ter armamento nuclear fora de todo o controle internacional (...) e o Irã tem que ceder senão quer ser afogado por sanções? Todo o aparato imperialista está trabalhando para conseguir que Israel - um dos quatro países do mundo que não ratificou o tratado de não proliferação nuclear - continue sendo a única potência nuclear no Oriente Médio, uma zona estratégica do planeta.

Por que Irã aceita as condições do imperialismo? A resposta chave é interna. As mobilizações e o mal estar entre a população, derivadas do impacto econômico da crise capitalista, agravado pelas sanções e a falta de liberdades (depois do esmagamento da revolta de 2008), tudo isto, poderia fazer chegar ao Irã a onda revolucionária que sacode, todavia, o Norte da África e o Oriente Médio.

O desemprego, que agora chega a 11,2% (3,5 milhões) ameaça disparar.

A taxa anual de inflação é de 39%. O rial, a moeda local, perdeu 75% de seu valor em dezoito meses. As exportações de petróleo passaram de 2,5 milhões de barrís diários em 2011 (por valor de 95.000 milhões de dólares) para menos de um milhão (69.000 em 2012). O valor de 2013 será ainda menor. Com o acordo se aliviam as sanções contra Teerã e a possibilidade de começar a exportar bruto.

Mas a colaboração entre o regime dos aiatolás e o imperialismo na região leva anos. De fato, Irã tem sido determinante para manter o governo da ocupação americana no Iraque de Nuri Al Maliki, que viveu o exílio entre Damasco e Teerã. No último 1º de novembro o primeiro ministro iraquiano visitava Washington com o tema das relações com Irã na agenda e se oferecia a facilitar a reta final das negociações.

O acordo sela a unidade contra a Revolução Síria


Os primeiros a felicitarem-se pelo acordo foram o ditador sírio Bashar Al-Assad e os islâmicos do Hezbollah, a milícia libanesa aliada de Teerã que combate na Síria junto ao regime. Também desde o Iraque, Maliki o saudou como um "grande passo para a segurança e estabilidade" na região. A negociação do acordo se cruzou com a ameaça de ataque imperialista na Síria. O teatro dos enfrentamentos entre os interesses do Irã e os do imperialismo quanto ao regime sírio desaparece e se evidencia o acordo de fundo entre o imperialismo e os Aiatolás: afogar a luta da juventude e dos trabalhadores.

Se fecha o cerco e o imperialismo pactua com os principais aliados do regime sírio: primeiro com Rússia a entrega do arsenal químico sírio para evitar um ataque direto; e agora com Irã que renuncie a disputar com Israel a hegemonia militar na região. Parece que as discrepâncias se acabam e se certifica a frente de "todos" contra o povo da Síria. Al-Assad pode estar tranquilo: ninguém de fora irá se interpor em seu caminho. Tampouco é casual que a outra contraofensiva da contrarrevolução, o golpe de estado do Egito que conta com o apoio dos norteamericanos e de Israel, também contara com o apoio do regime de Bashar Al Assad.

Com o acordo entre os Estados Unidos e Irã, o regime de Al Assad tem carta branca para interromper a Revolução, agora ainda mais isolada. Nos dias em que se firmavam os acordos, o regime lançava uma nova ofensiva na região de Qalamun contra as posições rebeldes com o apoio de Hezbollah e das milícias xiitas iraquianas.

Faz falta a solidariedade internacional com a luta do povo sírio

A Revolução Síria se enfrenta com um governo ao qual não falta armamento, que chega da base russa e do Irã, enquanto se aplica o embargo dos Estados Unidos e da União Europeia contra as forças revolucionárias. A entrada de armamento procedente de Qatar e Arábia Saudita, e consentida pela Turquia a conta-gotas, tem sido dirigida a setores islâmicos (Al Nusra e o Exército Islâmico do Iraque e Síria), que lutam por objetivos totalmente alheios ao da Revolução e tem imposto um conflito sectário que trouxe confrontos com os comitês locais, o exército livre e os curdos.

Mas, apesar desse brutal isolamento, a resistência do povo sírio contra o regime não pára. Possivelmente porque os 150.000 mortos e as dezenas de milhares de detidos, desaparecidos e torturados são muitas razões para continuar a luta. Mas a esquerda internacional, a que deveria se colocar ao lado deste povo contra o tirano, o imperialismo e o bloqueio das grandes potencias que querem estabilidade a qualquer preço, abandonou este povo.

Aqueles que se identificam com o chavismo o fazem abertamente, apoiando o regime assassino. Os PCs assinando teorias conspiratórias, negam mesmo a existência da revolução. E outro setor diz: "que não se molha" porque tudo é "muito complicado", que exige uma revolução "pura" para terminar impondo ao povo sírio uma série de condições que não se aplica à esquerda em sua prática cotidiana. E com esta política de uns e outros, a esquerda síria está cada dia mais isolada, sem armamento e sem apoio político nem material, enquanto o islamismo vai se impondo sobre o terreno, com a força que chega de fora. Basta de silêncio cúmplice, faz falta de uma vez por todas colocar em marcha a solidariedade internacional com o povo da Síria.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A morte de Nelson Mandela

Escrito por Miguel Lamas, jornal "O Socialista" 12/12/13, de Izquierda Socialista, seção Argentina da Unidade Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional.

As duas faces da trajetória de Mandela. A da luta revolucionária contra o regime racista e a posterior, de suporte do capitalismo na África do Sul.

Quase não houve líder da política mundial imperialista e até do empresariado mundial, que não tenha expressado uma grande admiração pelo recém falecido líder sulafricano Nelson Mandela. Na época do Apartheid, muitos deles estavam apoiando o seu encarceramento. Que agora rendam homenagens também mostra as duas caras da trajetória de Mandela. A da luta revolucionária contra o regime racista e, mais tarde, a de sustentáculo do capitalismo na África do Sul.

Todos o elogiam porque, dizem eles, soube "reconciliar" os brancos e negros na África do Sul.

Mas nem todos o lamentaram pela mesma razão. A maioria negra (80% de 50 milhões de habitantes) venera Mandela como um libertador, um herói nacional que liderou a luta contra o sinistro regime racista do apartheid.

O apartheid


O regime do apartheid (separação) foi imposto pela minoria branca colonialista descendente de ingleses e holandeses que haviam colonizado o país desde o século XVII. Os negros não tinham direito ao voto, não podiam entrar em bairros brancos, nem em hotéis, escolas, hospitais ou transportes "para brancos". Em 300 anos de colonialismo haviam sido despojados de quase tudo: as melhores terras e a propriedade das minas e fábricas estava (e ainda está) nas mãos dos brancos. Aos negros se reservou o papel de mão de obra barata.

Por ter liderado a luta revolucionária nacionalista negra, liderando o Congresso Nacional Africano (CNA), Mandela foi preso durante 27 anos, desde 1963 à 1990, entre os 44 e os 72 anos de idade. A rebelião dos negros, liderada pelo CNA e a central operária COSATU, que incluiu a resistência armada, foi sangrentamente reprimida, milhares de ativistas negros foram presos, torturados e assassinados. Mesmo assim a rebelião não se deteve e conseguiu apoio mundial, dos povos africanos e dos afro-norteamericanos, que realizaram um boicote planetário contra o regime racista. Mandela, encabeçando o CNA, foi o grande líder da revolução para destruir a ditadura do apartheid. Por esse fato Mandela foi amado por seu povo. Contudo, e com a influência do Partido Comunista Sul-Africano e o castrismo, já dizia que seu objetivo não era uma revolução socialista.

Queda do apartheid

Em 1990, o regime do apartheid foi isolado internacionalmente, diante de uma rebelião negra imparável. Em 1990, Mandela, ainda preso, pediu para se encontrar com Frederick Le Klerk, chefe do governo racista, e propôs um acordo para que o libertassem da prisão: suprimir o regime do apartheid e convocar eleições com base em "um homem, um voto", a consigna democrática negra. Em troca, Mandela se comprometeu a garantir as propriedades dos brancos e deixar impune o genocídio contra os negros. Mandela explicou a Le Klerk que essa era a única maneira de "reconciliar" brancos e negros, e que, caso não aceitasse esse acordo, a revolução negra seria imparável e os capitalistas racistas brancos perderiam tudo. Le Klerk aceitou o acordo.

A queda do apartheid não foi uma concessão generosa de Le Klerk, mas um triunfo revolucionário das massas negras. Mas, com o acordo com Mandela, conseguiram impedir o desenvolvimento da revolução até seu cume, o que significava a expropriação de terras e minas que os colonizadores brancos tinham roubado do povo negro. Impediram a vitória de uma revolução socialista. O acordo foi uma traição a essa luta. Assim, Mandela e o CNA no governo, desempenharam o mesmo papel que na Nicarágua cumpriu o sandinismo quando derrubou Somoza em 1979, ou Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, o PT de Lula no Brasil. Ao serem direções partidárias da conciliação de classes, para manutenção do capitalismo, por serem "parceiros das transnacionas" (como disse Evo Morales), traíram os objetivos sociais da revolução, pactuando com os capitalistas. No caso da África do Sul, com os capitalistas brancos.

O CNA ganha as eleições

Foi assim que, em 1994, o CNA venceu as eleições levando Nelson Mandela à presidência, que incluiu em seu governo o antigo chefe racista Frederico Le Klerk.

Uma minoria de capitalistas negros, a maioria deles novos ricos líderes do CNA, puderam acessar a lugares anteriormente proibidos. Mas praticamente não houve nenhuma mudança em relação ao poder econômico monopolizado pelos brancos que seguem sendo donos das terras, minas, fábricas e grandes cadeias comerciais. Chegando à África do Sul de hoje, um país com igualdade jurídica, mas com a maior desigualdade social do mundo, com 50% de pobres (quase todos negros) e 12% do povo com AIDS.

O próprio governo de Mandela começa a aplicar um duro plano neoliberal. Os negros que antes não tinham acesso a hospitais ou escolas para brancos, agora tampouco podem fazê-lo. Porque foram privatizados e seu preço é proibitivo. Em 1999, termina o mandato de Mandela, que se retira. Os presidentes que o sucedem, também do CNA, Thabo Mbeki e logo o atual Jacob Zuma, aprofundaram o modelo capitalista neoliberal.

A "reconciliação" fracassou

No funeral de Mandela o atual presidente negro Jacob Zuma, do partido de Mandela, foi vaiado. O desastre social produzido pelo capitalismo, ainda dominado por brancos, trouxe de novo a maioria negra à uma nova revolução. Assim é demonstrado pelas grandes greves dos últimos dois anos. Uma greve emblemática foi a da mina de platina Marikana, no ano passado, onde 34 mineiros foram assassinados por negros comandados por brancos. As imagens abalaram o país porque pareciam ter saído dos tempos do apartheid. O forte movimento operário negro está se reorganizando e em muitos sindicatos se abriu uma dura luta contra a burocracia sindical que responde ao CNA.

Este ano, durante dois meses, havia centenas de milhares de trabalhadores em greve, na construção civil, metalurgia, mineração e funcionários públicos. O NUMSA, sindicato metalúrgico com 400.000 trabalhadores, liderou uma das greves mais duras e ameaçou retirar o apoio ao governo nas próximas eleições. Este fato por si só abre a discussão sobre a necessidade de uma alternativa política dos trabalhadores para conduzir uma nova revolução socialista que liquide o poder capitalista na África do Sul.