Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

70 Anos do Triunfo de Stalingrado

Por Mercedes Petit (tradução: Eduardo Rodrigues e Paula Alves)

Em fevereiro de 1943 os nazistas se renderam aos soviéticos

“Stalingrado (logo, Volgogrado) está situada ao sul da antiga União Soviética (URSS), onde começa o Cáucaso. Até então, os nazistas haviam chegado até ali. A Batalha de Stalingrado mudou o curso da Segunda Guerra Mundial e marcou o início do fim do poder de Hitler."

Em 1925, a contrarrevolução política havia se instalado na União Soviética. Começava o “culto à personalidade” do chefe do aparato burocrático, Joseph Stalin. A cidade de Tsaritsin, onde Stalin foi comissário político durante os meses da Guerra Civil, foi rebatizada de Stalingrado. Menos de 20 anos depois era uma importante cidade industrial, com cerca de 600.000 habitantes. Se produziam motores para automóveis e tratores, armas e munições, produtos petrolíferos e químicos. Havia serrarias e silos de grãos, um entroncamento ferroviário que ligava Moscou à região sul, e um movimentado porto fluvial, no rio Volga.

A Operação Barbarossa

Um dos principais objetivos estratégicos do nazismo era esmagar a União Soviética. Leon Trotsky o denunciava desde seu exílio, e também a Quarta Internacional fundada em 1938. O ditador Stalin sustentava o contrário. Em agosto de 1939 assinou um “pacto de não agressão” com Hitler, facilitando a invasão da Polônia e o início da guerra.

Como parte da eliminação e assassinatos contra todo vestígio de oposição ou "trotskismo", Stalin decapitou o alto comando do Exército Vermelho. E sistematicamente rechaçava os relatos de seus espiões que, desde o Japão e Alemanha, vinham informando sobre os preparativos da invasão nazista à União Soviética.

Em 22 de junho de 1941, o previsível aconteceu. Começou a Operação Barbarossa: a implantação colossal de tropas terrestres e aviões cruzou as fronteiras, penetrando na desprevenida União Soviética como faca quente na manteiga. Em dezembro, foram ocupadas a Lituânia, Bielorrússia e Ucrânia. Cerca de 1.500 aviões foram destruídos em terra e milhares de tanques. Mais de dois milhões de soldados foram feitos prisioneiros. No norte, a cidade de Leningrado (que desde 1991 voltou a se chamar São Petersburgo, novamente) sofreu um terrível cerco, que durou até janeiro de 1944, com centenas de milhares de mortos de fome. Os nazistas chegaram aos arredores de Moscou, mas a partir de 1941 foram barrados.

Passada a surpresa inicial, a União Soviética conseguiu pôr em pé o Exército Vermelho e a heróica resistência do povo soviético. Havia começado a “Grande Guerra Patriótica”. Por óbvio, Stalin se autonomeou Chefe de Defesa. Ao mesmo tempo, logo depois do desastre inicial, foram postos à frente do Exército generais soviéticos muito capacitados, como Zukhov (responsável principal pela defesa de Moscou) Rokossovski ou Chuikov, entre outros.

A Batalha de Stalingrado

Em dezembro de 1941, Hitler, descontente com o resultado da primeira ofensiva, tomou pessoalmente o controle do Alto Comando. A URSS era um osso mais duro de roer do que o previsto. Em meados de 1942, o líder nazista colocou em marcha uma nova operaçãoque, buscando manter o que já havia alcançado, permitiria aos nazistas avançar até a estepe de cereais e aos poços de petróleo do Cáucaso. O início, mais uma vez, foi auspicioso para os invasores.

Em fevereiro de 1943, os nazistas se renderam aos soviéticos. Sobre Stalingrado lançaram o 6º Exército do Marechal Von Paulus, o 4º Panzer de Hoth, dois exércitos romenos e um exército italiano. A Luftwaffe (Força Aérea alemã) reduziu a escombros os bairros da cidade situados na margem leste do rio Volga. A rendição parecia iminente. Mas não foi assim. As tropas de Chuikov caíam ou eram feitas prisioneiras, enquanto lutavam obstinadamente entre as ruínas. Ao mesmo tempo, desde o rio Don ao oeste, o general Rokossovski pôde cercar as tropas alemãs. Em 23 de novembro de 1942, os soviéticos conseguiram cercar os invasores, sitiando o 6º Exército de Paulus e um grande contingente dos Panzer. Começou o que alguns chamaram de "a maior carnificina da história". Entre a fome, os refúgios em porões e esgotos, e os franco-atiradores, se enfrentariam quarteirão a quarteirão durante mais de dois meses.

O terror que implementou Stalin na URSS desde a década de 30 se vivia dentro do Exército Vermelho. O historiador Beevor* afirma que durante a batalha foram mais de 13.000 execuções sumárias e judiciais, por tentativas de deserção ou ferimentos auto-inflingidos. Muitas dessas vítimas eram trabalhadores recrutados em grandes centros fabrís, que com frequência eram fusilados diante de dezenas de companheiros de divisão. Os suicídios eram definidos como "atos de covardia"**. Os sofrimentos da população civil foram pavorosos. O filme "Círculo de Fogo" mostra a brutalidade dos oficiais soviéticos, que assassinavam à sangue-frio a quem hesitasse no avanço, mas também o heroísmo de militares e civis que permitiram a vitória.

A Vitória e a "Glória" de Stalin

Em janeiro de 1943, a resistência alemã estava desmoronando. No dia 08, o general Rokossovski convocou a rendição de Paulus, cujos soldados em serviço recebiam uma ração diária de 200 gramas de pão. Mas Hitler continuou a rejeitar a capitulação. Segundo ele, as tropas encurraladas fariam "uma contribuição inevitável à salvação do mundo ocidental".

Até o final do mês, bandeiras brancas começaram a aparecer nas trincheiras alemãs, sem a permissão de seus superiores. Alguns atiravam em si depois de escrever uma carta de amor ao Führer. Em 31 de janeiro, finalmente se rendeu Paulus. Foi feito prisioneiro junto com 90.000 soldados, os que haviam sobrado dos 360.000 do início. Em 02 de fevereiro,  se firmou a capitulação total. A tremenda derrota marcou o início da retirada do sul da União Soviética e, finalmente, de toda da frente oriental.

A vitória soviética em Stalingrado mudou o rumo da guerra. Foi o começo do fim do nazismo. A sofrida população da URSS, em primeiro lugar os soldados alistados no Exército Vermelho, que tinha seguido dia após dia os acontecimentos no Volga, levantou sua moral de maneira indescritível.

O ditador Stalin, por sua parte, pôde reacomodar seu papel após o desastre provocado em 1941 por sua condução contrarrevolucionária e burocrática. Se autoadjudicou a "glória" pelo triunfo e foi nomeado marechal (como Napoleão em sua época). Os autênticos protagonistas, os generais comandantes, a tropa e a população que resistiram com dolorosos sofrimentos, passavam ao segundo plano. Ele reescreveu a história dos desastres de 1939-41:

Faziam parte do "genial plano de Stalin" para esmagar os alemães!

A vitória de Stalingrado devolveu aos povos ocupados a esperança de ser possível derrotar os nazistas. A resistência se fortaleceu em todas as partes. O avassalador avanço do Exército Vermelho não parou até,  finalmente, libertar Berlim em maio de 1944.

Desde a liberação, uma das estações de metrô de Paris se chama Stalingrado. O "paizinho Stalin" teve outra sorte. Em 1956, veio a "desestalinização". Em 1961, seu sucessor Nikita Kruschev (quem havia sido comissário político durante a batalha de Stalingrado) mudou o nome da heróica cidade. Desde então, se chama Volgogrado.

___________

* Stalingrado, Editorial Crítica, Barcelona, 2000. Anthony Beevor é autor de numerosas obras sobre as grandes batalhas da segunda guerra, e também uma da guerra civil espanhola.

** O filme "Enemy At The Gates" ("Enimigo a las puertas", na América Latina, "Círculo de Fogo", no Brasil) mostra a brutalidade dos oficiais soviéticos, que assassinvam a sangue-frio a quem hesitava em avançar, mas tambem o heroísmo de militares e civís que permitiu a vitória.

Fonte: UIT-CI

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Se realizou o congresso de entidades de base da UNE, congresso estudantil no Brasil

por Javier Leonforte, de Izquierda Socialista, Argentina.

Una delegación de la Juventud de Izquierda Socialista participo junto al colectivo “Vamos a Luta!” (Juventud impulsada por la CST del PSOL junto a estudiantes independientes) del Congreso de Entidades de Base de la Unión Nacional de Estudiantes (UNE), que se realizo en Recife y Olinda, en el nordeste de Brasil, del 18 al 21 de enero.

El marco político del masivo evento estudiantil lo dio la huelga general de los profesores y trabajadores no docentes que duró más 4 meses en las 57 universidades federales, desde Mayo a Septiembre del 2012. Allí surgió un nuevo movimiento estudiantil combativo en Brasil que se enfrento al gobierno de Dilma y Lula (Partido de Trabajadores) y a la burocracia de la UNE, comandada por el PCdoB (Stalinistas). Miles de nuevos activistas pusieron en pie un Comando Nacional de Huelga con delegados electos en asambleas de base de cada una de las universidades y paralizaron completamente las clases durante cuatro meses, un hecho inédito en años.

En el Congreso durante cuatro días importantes debates políticos y educativos cruzaron todos los paneles, comisiones, talleres y plenarias, reflejando este nuevo y rico proceso del movimiento estudiantil de Brasil. Políticamente se evidenció el fortalecimiento de la oposición de izquierda (encabezada por la Juventud del PSOL) dentro de la UNE, que logro polarizar todos los debates contra la burocracia estudiantil traidora del PCdoB y del PT y se colocó con fuerza la necesidad de continuar la huelga general en las universidades federales para conquistar el 10% del PBI para el presupuesto educativo.

La intervención del colectivo Vamos a Luta! fue muy destacada por su combatividad dentro de la oposición de izquierda. Reivindicando a los indignados europeos y a la primavera árabe, se coloco en el centro de las intervenciones la denuncia al gobierno de Dilma y Lula por corruptos, ya que está comprobado el pago de coimas (Mensalaõ) para aprobar la privatización de las jubilaciones (Reforma da Previdenza). Y se denuncio los avances de la privatización educativa bajo estos gobiernos de centroizquierda que con el ProUNI (“Programa Universidad para Todos”) llevaron a que más del 80% del estudiantando brasilero estudie en universidades privadas, haciendo retroceder a las universidades públicas.

También se enfrento fuertemente la presencia del ministro de educación Alozio Mercadante, quien en cuatro meses de huelga nacional no se digno a dialogar con los estudiantes. En el mismo panel, donde asistieron más de 3.000 estudiantes, la Juventud de Izquierda Socialista logro denunciar a Carolina Scotto, la Rectora kirchnerista de la Universidad de Córdoba, que hablando del movimiento estudiantil reformista de 1918, quiso negar las fuertes restricciones al ingreso que tiene hoy la Facultad de Medicina de la UNC, y tuvo que rectificarse públicamente. Mostramos que las autoridades educativas son tan antidemocráticas en Argentina, como en Brasil, y que no representan a los estudiantes.

Durante todo el Congreso flameo la bandera revolucionaria de Siria en solidaridad con los rebeldes y para acabar con el gobierno genocida de Al Assad, que ya asesino 60.000 personas. Y en una plenaria internacionalista el colectivo Vamos a Luta! resolvió realizar una campaña financiera especial para enviar una importante delegación estudiantil al 2do Encuentro Nacional de la Juventud de Izquierda Socialista a realizarse en los próximos meses en Buenos Aires, donde estamos invitando a participar a delegaciones juveniles de organizaciones de distintos países para fortalecer nuestra lucha en defensa de la educación pública, gratuita y de calidad, y para unirnos a los jóvenes indignados que en todo el mundo están enfrentando la crisis del capitalismo con nuevas primaveras y nuevas revoluciones.

Al finalizar plenaria internacionalista del colectivo Vamos a Luta!


Fonte: Izquierda Socialista Sur no facebook

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Leon Trotsky: A Comuna de Paris e a Rússia dos Sovietes


“Curto episódio da primeira revolução do proletariado, e que terminou com o triunfo dos seus inimigos. Este episódio (de 18 de março a 28 de maio) durou setenta e dois dias.”


- Leon Trotsky

(A Comuna de Paris de 18 de março de 1871. P. L. Lavrov. Petrogrado, Edição da Livraria “Golos”, 1919 – p. 160.)



Os partidos socialistas da Comuna não estavam preparados

A Comuna de Paris de 1871 foi o primeiro ensaio histórico, tímido ainda, de dominação da classe operária. Comemoramos a Comuna, apesar da sua experiência muito limitada, da falta de preparação de seus militantes, da confusão de seu programa, da ausência de unidade entre seus dirigentes, da indecisão dos seus projetos, da excessiva hesitação nas suas ações e do espantoso desastre que, fatalmente, tinha que resultar disso tudo. Saudamos na Comuna – segundo uma expressão de Lavrov – a aurora, embora pálida, da primeira República proletária. Kautsky não pensa assim. Tendo consagrado a maior parte do seu livro Terrorismo e Comunismo em estabelecer um paralelo, grosseiramente tendencioso, entre a Comuna e o poder soviético, vê as qualidades predominantes daquela justamente onde vemos as suas infelicidades e equívocos.

Kautsky procura demonstrar com grande ardor que a Comuna de paris de 1870-71 não foi “artificialmente” preparada; pelo contrário, surgiu espontaneamente, colhendo de improviso os revolucionários, ao passo que a Revolução russa de outubro-novembro, foi preparada minuciosamente pelo nosso partido. Isto é indiscutível. Assim como não tem a coragem de formular com clareza as suas ideias profundamente reacionárias, Kautsky não nos diz com franqueza se os revolucionários de Paris de 1871 merecem elogios por não terem previsto a insurreição proletária e, por conseguinte, por não estarem preparados para ela, ou se devemos ser condenados por termos previsto o inevitável e por nos termos adiantado conscientemente aos acontecimentos. Toda a exposição de Kautsky foi escrita de tal modo que produz a seguinte impressão no espírito do leitor: Aconteceu uma desgraça aos comunalistas (o filisteu bávaro Volmar não manifestou um dia o seu pesar por terem os comunalistas tomado conta do poder, em vez de irem para a cama?), e por isso merecem toda a nossa indulgência; os bolcheviques, ao contrário, avançaram conscientemente para a desgraça (a conquista do poder), e isto não lhes será perdoado nem neste nem no outro mundo. Colocar a questão desta forma pode parecer um absurdo incrível. Mas nem por isso deixa de ser menos certo que é uma consequência inevitável da posição dos “independentes kautskystas”, que metem a cabeça entre os braços para não ver nada – nem nada prever – e que não podem dar um passo para a frente se não receberem um bom soco nas costas.

“A preocupação essencial [escreve Kautsky] da Assembleia Nacional e do chefe do executivo eleito por ela, Thiers, foi a de humilhar Paris, tirar-lhe a sua primazia de capital, a sua administração autônoma e, finalmente, desarmá-la para dar com segurança o golpe de estado. Desta situação nasceu o conflito que produziu a insurreição parisiense. Vê-se claramente que esta insurreição foi totalmente diversa do golpe de Estado dos bolcheviques, que tiravam a sua força do desejo vivo de paz, que tinham os camponeses atrás de si, que na Assembleia não tinham a enfrentar nenhum monarquista, mas apenas socialistas-revolucionários e mencheviques.

Os bolcheviques conquistaram o poder com um golpe de Estado sabiamente preparado, que os fez senhores de toda a máquina política, utilizando-o de modo mais enérgico e injusto para despojar política e economicamente os seus adversários, inclusive os proletários.

Ao contrário, mais surpreendidos com a sublevação da Comuna foram os próprios revolucionários. E para uma grande parte deles o conflito sobreveio quando menos o desejavam.” (p. 75)
Para que se forme uma ideia perfeitamente clara do sentido real que Kautsky afirma aqui, a propósito dos comunalistas, transcreveremos o seguinte e interessantíssimo testemunho:

“A 1º de março de 1871 [escreve Lavrov no seu livro instrutivo sobre a Comuna], isto é, seis meses depois da queda do Império e alguns dias antes da explosão da Comuna – os dirigentes da Internacional em Paris nem sempre tinham programa definido.” (P. L. Lavrov. A Comuna de Paris de 18 de março de 1871, Petrogrado, Edição da Livraria “Golos”, 1919. pp64-65)

“Depois de 18 de março [escreve esse mesmo autor] Paris se achava nas mãos do proletariado; mas os chefes deste, desconcertados com o seu poder inesperado, não tomaram as medidas de segurança mais elementares.” (idem. P. 71)

“Não estais à altura de vosso papel, e vossa única preocupação é fugir às responsabilidades [declarou um membro do Comitê Central da Guarda Nacional]. Havia nisso muito de verdade [escreve Lissagaray, membro e historiador da Comuna]; mas a falta de organização prévia e de preparação, no momento mesmo da ação, constatam-se geralmente quando os papeis cabem a homens que não têm envergadura suficiente para desempenhá-los.” (Lissagaray. Historie de La Commune de 1871. Bruxelas, 1876. p. 106)

Deduz-se do que precede (mais adiante isto aparecerá com mais evidência ainda) que a carência de um programa de luta direta, entre os socialistas parisienses, para a conquista do poder, se explica pela sua inconsistência teórica e a sua desordem política, mas de modo algum por considerações superiores de tática.

Não haja dúvidas de que a fidelidade do próprio Kautsky às tradições da Comuna se manifestará principalmente pela surpresa profunda com que acolherá a revolução proletária na Alemanha, na qual só vê um conflito “inteiramente indesejável”. Duvidamos, porém, de que as gerações futuras o glorifiquem por isso. A própria essência de sua analogia histórica na passa de uma mescla de confusões, reticências e ziguezagues.

As intenções de Thiers com relações a Paris eram as mesmas de Miliukov, apoiado por Tchernov e Tseretelli, com relação a Petrogrado. Todos, de Kornilov a Potressov, repetiam diariamente que Petrogrado se tinha isolado do país, que não tinha nada em comum com ele, e que, depravado até a medula, queria impor a sua vontade à nação. Desacreditar e rebaixar Petrogrado, tal era a tarefa primordial de Miliukov e seus acólitos. E isto ocorria numa época em que Petrogrado era o verdadeiro foco da revolução, a qual não tinha conseguido consolidar-se em nenhuma outra parte do país. Para dar uma boa lição à capital, Rodzianko não fazia mais do que precisar o que constituía o objetivo de Miliukov, que Kerenski apoiava com toda a sua política.

Miliukov, à maneira de Thiers, queria desarmar o proletariado. Mas o pior era que, por intermédio de Kerenski, Tchernov e Tseretelli, em julho de 1917, quase foi desarmado o proletariado peterburguês. Este recuperou todas as suas armas em agosto, por ocasião da ofensiva de Kornilov contra Petrogrado. Este novo armamento do proletariado foi um fator importante para a preparação da revolução de outubro-novembro. Assim, pois, as particularidades da insurreição de março dos operários parisienses que Kautsky opõe às da nossa revolução de outubro-novembro, coincidem de certa forma.

Mas em que se diferenciam? Antes de tudo, nisto: Thiers realizou os seus propósitos sinistros, Paris foi tomada e foram assassinados milhares de operários, ao passo que Miliukov fracassou lamentavelmente e Petrogrado se ergueu como a cidadela inexpugnável do proletariado, tendo os chefes da burguesia russa que ir à Ucrânia solicitar a ocupação da Rússia pelos exércitos do Kaiser. Isto aconteceu, evidentemente, em grande parte, por nossa culpa, e estamos prontos a arcar com a responsabilidade que o fato acarreta. Há também uma diferença essencial, que se fez sentir mais de uma vez no curso ulterior dos acontecimentos: ao passo que os comunalistas partiam geralmente de considerações patrióticas, nós nos colocamos invariavelmente do ponto de vista da revolução internacional. A derrota da Comuna provocou, no fundo, a destruição da I Internacional. A vitória do poder soviético nos conduziu à fundação da III Internacional.

Mas Marx – nas vésperas da revolução – aconselhava aos comunalistas, não a insurreição, mas a organização! Compreender-se-ia a rigor que Kautsky trouxesse esse testemunho para demonstrar como Marx conhecia a gravidade da situação em Paris. Mas Kautsky, como todos os mandarins da social democracia, vê na organização, principalmente, um meio de deter a ação revolucionária.

Embora nos limitemos ao problema da organização, convém não esquecer que a revolução de novembro foi precedida pelos nove meses de existência do governo de Kerenski, durante os quais o nosso partido se ocupou, não sem êxito, dos trabalhos de agitação e organização. A revolução de novembro estalou depois de termos conseguido uma maioria esmagadora nos sovietes de operários e soldados de Petrogrado, de Moscou e, em geral, de todos os centros industriais do país, e de se terem transformado aqueles em organizações potentes dirigidas por nosso partido. Finalmente, tínhamos atrás de nós a heroica Comuna de Paris, de cujo esmagamento deduzíramos que a missão dos revolucionários é prever os acontecimentos e se preparar para recebê-los. Uma vez ainda, tal foi a nossa força.


A Comuna de Paris e o Terrorismo

Kautsky só faz um amplo paralelo entre a Comuna e o poder soviético para caluniar e diminuir a viva e triunfante ditadura do proletariado em favor de uma tentativa de ditadura que já remonta a um passado remoto.

Kautsky cita com muita satisfação uma declaração do Comitê Central da Guarda Nacional, datada de 19 de março, sobre o assassínio dos generais Lecomte e Clément Thomas, cometido pelos soldados:

“Dizemo-lo indignados. É uma mancha de sangue com que se quer manchar a nossa honra. É uma miserável calúnia. Não ordenamos o crime; a Guarda Nacional não tomou a mínima parte na perpetração do assassínio.”

O Comitê Central, naturalmente, não tinha motivos para arcar com a responsabilidade de um assassinato de que não participara. Mas o tom patético e sentimental da declaração caracteriza perfeitamente a timidez política desses homens perante a opinião pública burguesa. Isto nos deve surpreender? Os representantes da Guarda Nacional eram, em sua maioria, homens de têmpera revolucionária muito modesta.

“Não há um cujo nome seja conhecido [escreve Lissagaray]. São pequenos-burgueses, vendeiros, alheios às organizações, reservados e estranhos à política quase todos” (p. 70).

“Um discreto sentimento, um pouco temeroso, de terrível responsabilidade histórica e o desejo de subtrair-se a ela o mais breve possível – escreve Lavrov a propósito – transparece em todas as proclamações do Comitê Central, em cujas mãos Paris caiu” (p.77).

Depois de citar, para vergonha nossa, aquela declaração sobre a efusão de sangue, Kautsky, como Marx e Engels, critica a indecisão da Comuna:

“Se os parisienses tivessem perseguido Thiers, talvez tivessem conseguido apoderar-se do governo. As tropas que saíam de Paris não teriam oferecido a menor resistência... Mas Thiers pôde escapar sem dificuldade. Foi-lhe permitido que levasse as suas tropas e que reorganizasse em Versalhes, onde as fortaleceu, animando-as de um novo espírito” (pp. 85-86).

Kautsky não pode compreender que foram os mesmos homens, e pelas mesmas causas, os que publicaram a citada declaração de 19 de março e os que permitiram que Thiers se retirasse a salvo e reorganizasse o seu exército. Se os comunalistas pudessem vencer exercendo unicamente uma influência moral, a sua declaração teria uma grande importância. Mas não foi este o caso. No fundo, o seu sentimentalismo humanitário não era mais que o reverso de sua passividade revolucionária. Os homens a quem por um capricho do acaso coube o governo de Paris e que não compreenderam a necessidade de se aproveitarem disso imediata e totalmente para se porem em perseguição de Thiers e esmagá-lo, sem contemplação, para aprisionarem o seu exército e efetuar a limpeza necessária no seu corpo de comando, a fim de dominarem a província; esses homens, digo, não podiam, naturalmente, ter a decisão de castigar com rigor os elementos contrarrevolucionários.
Na revolução, uma energia superior equivale a uma humanidade mais elevada.

“Precisamente os homens que dão grande valor à vida humana, ao sangue humano [escreve Lavrov, muito acertadamente], são os que devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance para obter uma vitória rápida e decisiva e atuar depois com a maior brevidade possível para a submissão enérgica dos inimigos; pois só deste modo se pode ter o mínimo de perdas inevitáveis e de sangue derramado” (p.225).

A declaração de 19 de março pode, no entanto, ser apreciada mais exatamente se for considerada, não uma profissão de fé absoluta, mas a expressão de um estado de ânimo passageiro existente no dia imediato a uma vitória inesperada, obtida sem o menor derramamento de sangue. Inteiramente alheio à compreensão da dinâmica da revolução e ao estado de ânimo dos que dela participam, o qual se modifica rapidamente, em consequência das condições internas, Kautsky raciocina por meio de fórmulas mortas e deforma a perspectiva dos acontecimentos com analogias arbitrárias, Não compreende que essa generosa indecisão é, geralmente, própria das massas na primeira fase da revolução. Os operários só começam a ofensiva sob o império de uma necessidade férrea, como só implantam o terror vermelho diante da ameaça dos assassínios contrarrevolucionários. O que Kautsky descreve como sendo o resultado da moral elevada ao proletariado parisiense de 1871, na realidade só concorre para caracterizar a primeira etapa da guerra civil. Fatos parecidos igualmente se observaram entre nós.

Em Petrogrado, conquistamos o poder em outubro-novembro quase sem derramamento de sangue e até sem prisões. Os ministros do governo de Kerenski foram postos em liberdade imediatamente depois da insurreição. Ainda mais: depois do poder ter passado para as mãos do soviete, o general cossaco Krasnov, que marchara contra Petrogrado de acordo com Kerenski, sendo feito prisioneiro em Gatchina, foi posto em liberdade no dia seguinte, sob palavra de honra. “Magnanimidade” parecida com a que se pode observar nos primeiros dias da Comuna. Mas que nem por isso deixou de ser um erro. O general Krasnov, depois de combater contra nós no sul, perto de um ano, depois de assassinar muitos milhares de comunistas, atacou Petrogrado recentemente, mais uma vez; mas agora nas fileiras do exército de Yudenitch. A revolução proletária se fez mais violenta depois da sublevação dos junkers de Petrogrado e, principalmente, depois da rebelião – tramada pelos cadetes, socialistas-revolucionários e mencheviques – dos tchecoslovacos na região do Volga, onde foram degolados milhares de comunistas, depois do atentado contra Lênin, do assassínio de Uriski etc. etc.

Estas mesmas tendências, embora apenas em sua primeira fase, se observam também na história da Comuna.

Impelida pela lógica da luta, esta adotou no começo o processo das ameaças. A criação do Comitê de Salvação Pública foi imposta por muitos dos seus partidários pela ideia do terror vermelho. Esse Comitê se destinava a “cortar a cabeça dos traidores” (Journal Officiel, nº 124), e a “castigar a traição (o mesmo jornal, nº 124). Entre os decretos de “ameaça” convém assinalar a resolução de 3 de abril sobre o sequestro dos bens de Thiers e seus ministros, a demolição de sua casa, a destruição da coluna Vendôme e, particularmente, o decreto sobre os reféns. Por cada prisioneiro ou partidário da Comuna fuzilado por versalhenses, devia fuzilar-se um número três vezes maior de reféns. As medidas tomadas pela Prefeitura de polícia, dirigida por Raoul Rigault, eram de caráter puramente terrorista, embora nem sempre conformes ao fim visado. O seu realismo era sufocado pelo espírito informe de conciliação dos dirigentes da Comuna, pelo seu desejo de harmonizar com frases vazias a burguesia e o fato consumado, pelas suas oscilações entre a ficção da democracia e o realismo da ditadura. Esta observação foi admiravelmente formulada por Lavrov no seu livro sobre a Comuna.

“A Paris dos ricos e dos proletários indigentes, dos contrastes sociais,, como comunidade política, exigia, em nome dos princípios liberais, uma completa liberdade de palavras, de reunião, de crítica ao governo etc. A Paris que acabava de fazer a revolução no interesse do proletariado e que se comprometera a realocá-la nas instituições, reclamava, como Comuna do operariado emancipado, medidas revolucionárias, ditatoriais contra os inimigos do novo regime” (pp. 143-144)

Se a Comuna de Paris não tivesse fracassado, se tivesse podido sustentar-se numa luta ininterrupta, teria sido obrigada, sem dúvida alguma, a recorrer a medidas cada vez mais rigorosas para esmagar a contrarrevolução. É verdade que, então, Kautsky não poderia opor os humanitários comunalistas aos bolcheviques desumanos. Mas, por outro lado, Thiers também não teria podido fazer a sua monstruosa sangria no proletariado de Paris. A história, de qualquer modo, teria ficado em melhores condições.

O Comitê Central Absoluto e a Comuna Democrática

“A 19 de março [conta Kautsky] na reunião do Comitê Central da Guarda Nacional, uns queriam que se marchasse imediatamente sobre Versalhes; outros, que se convocassem medidas revolucionárias. Como se cada uma destas medidas – segundo nos ensina o nosso autor com uma grande profundidade de pensamento – não fossem necessárias, e como se cada uma delas excluísse as demais” (p.95).

Nas linhas seguintes, que tratam desses desacordos no seio da Comuna, Kautsky nos oferece uma porção de trivialidades sobre as relações recíprocas entre as reformas e a revolução. Na realidade, a questão de colocava assim: para se tomar a ofensiva contra Versalhes, e fazê-lo sem perda de um minuto, era necessário reorganizar imediatamente a Guarda Nacional, e pôr à frente dela os elementos mais combativos do proletariado parisiense, o que teria provocado uma debilitação temporária de Paris em sua posição revolucionária. Mas convocar as eleições em Paris quando se fazia sair de seus muros a elite da classe operária, era coisa sem sentido, do ponto de vista do partido revolucionário. É certo que a marcha sobre Versalhes e as eleições na Comuna não se contradiziam teoricamente em coisa alguma, mas na prática se excluíam: para o êxito das eleições era preciso suspender a marcha sobre Versalhes; para o êxito desta, era preciso suspender as eleições. Em suma, entrando em campanha, o proletariado debilitaria Paris durante um certo tempo, motivo por que seria indispensável prevenir-se contra todas as possibilidades de surpresas contrarrevolucionárias na capital, pois Thiers não se teria detido diante de coisa alguma para atiçar, por trás dos comunalistas, o incêndio da reação. Era necessário estabelecer na capital um regime mais militar, isto é, mais rigoroso. Os comunalistas

“Se viam obrigados a lutar [escreve Lavrov] contra uma multidão de inimigos internos, que abundavam em Paris e que nas vésperas mesmo se tinham sublevado nas imediações da Bolsa e da Praça Vendôme, que tinham representantes na Guarda Nacional, que dispunham de imprensa, que celebravam assembleias, que mantinham quase a descoberto relações com os versalheses e que se faziam mais resolutos e audazes a cada nova imprudência ou fracasso da Comuna” (p. 87)
Era também preciso tomar ao mesmo tempo uma série de medidas de ordem econômica e financeira para atender, principalmente, às necessidades do exército revolucionário. Todas essas medidas – as mais indispensáveis para a ditadura revolucionária – dificilmente se poderiam conciliar com uma grande campanha eleitoral. Mas Kautsky não compreende absolutamente nada do que é de fato uma revolução. Acha que conciliar teoricamente é o mesmo que realizar praticamente.

O Comitê Central fixara as eleições para 22 de março. Mas sem confiança em si próprio, horrorizado com a sua ilegalidade, querendo agir de acordo com uma instituição mais “legal”, entrou em negociações, inúteis e intermináveis, com a assembleia sem autoridade dos maires e deputados de Paris, disposto a partilhar o poder com ela, embora só para chegar a um acordo. Assim se perdeu um tempo precioso.

Marx, em quem Kautsky procura sempre se apoiar, conforme o seu velho hábito, nunca propôs que se elegesse a Comuna e se lançasse simultaneamente os operários numa campanha militar. Em sua carta a Kügelmann de 12 de abril de 1871, Marx escrevia que o Comitê Central da Guarda Nacional abandonara muito cedo os seus poderes para deixr o campo livre à Comuna. Kautsky, segundo as suas próprias palavras, “não compreende” essa opinião de Marx. A coisa, porém, é bem simples. Marx sabia perfeitamente que se devia fazer não era correr atrás da legalidade, mas dar um golpe mortal no inimigo. Se o Comitê Central se tivesse constituído com verdadeiros revolucionários – diz Lavrov com grande acerto -, teria agido de modo muito diferente. Teria sido imperdoável, da sua parte, conceder dez dias aos seus inimigos antes da eleição e da convocação da Comuna para que estes pudessem triunfar de novo no momento em que os dirigentes do proletariado abandonavam a sua missão, não se achando com direito a dirigi-lo. A falta fatal de preparação dos partidos populares dava lugar à criação de um Comitê que considerava obrigatórios esses dez dias de inatividade.

As aspirações do Comitê Central, desejoso de entregar o poder o mais breve possível a um governo “legal”, eram provadas, menos pelas superstições de uma democracia formal, - que aliás, não faltavam, - do que pelo medo das responsabilidades. Sob o protesto de que era só uma instituição provisória, o Comitê Central, embora tendo em suas mãos toda a máquina do poder, se negou a tomar as medidas mais necessárias e urgentes. Mas a Comuna não restituiu todo o poder político ao Comitê Central, que continuou, sem muito embaraço, a se envolver em todos os assuntos. Daí resultou uma dualidade de poderes sumamente perigosa, principalmente no que se referia à situação militar.

A 3 de maio, Comitê enviou à Comuna uma delegação que exigia que lhe fosse entregue de novo a direção do Ministério da Guerra. Como diz Lissagaray, foi de novo colocada a questão:

“Conviria dissolver ou prender o Comitê Central, ou seria antes necessário restituir-lhe a direção do Ministério da Guerra?”

De modo geral, tratava-se, não dos princípios da democracia, mas da ausência de um programa de ação, existindo, tanto na organização revolucionária absoluta, personificada no Comitê Central, como na organização democrática da Comuna, o desejo de que a outra parte arcasse com as responsabilidades, mas sem isto implicar inteiramente na renúncia ao poder. Semelhantes relações políticas não são dignas de imitação.

“Mas o Comitê Central [consola-se Kautsky] nunca procurou discutir o princípio de que o poder supremo deve caber aos eleitos pelo sufrágio universal... Neste ponto, pois, a Comuna de Paris foi o oposto da República dos Sovietes” (pp. 96-97)

Não houve na Comuna unidade governamental, nem tampouco audácia revolucionária, mas sim dualidade de poder; e o resultado foi o seu esmagamento rápido e espantoso. Em compensação – e isso não constitui um consolo? – não se tocou absolutamente no “princípio” da democracia.


A Comuna Democrática e a Ditadura Revolucionária

O camarada Lênin já mostrou a Kautsky [ver Lênin. A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky (N. do T.)] que a pretensão de descrever a Comuna como uma democracia formal não passa de palavrório teórico. A Comuna, tanto pelas tradições como pelos fins dos que a dirigiam – os blanquistas –, era a expressão da ditadura revolucionária de uma cidade sobre o país inteiro. Assim aconteceu na Grande Revolução Francesa; o mesmo teria acontecido na revolução de 1871 se a Comuna não tivesse caído tão depressa. O fato de o poder ter sido eleito, mesmo em Paris, na base do sufrágio universal, não exclui este outro fato, muito mais importante: a ação militar da Comuna, de uma cidade, contra a França camponesa, isto é, contra toda a nação. Para que o grande democrata Kautsky pudesse com razão estar satisfeito, era preciso que os revolucionários da Comuna tivessem consultado antecipadamente, por meio do sufrágio universal, toda a população francesa, para saber se deviam ou não combater os bandos de Thiers.

Enfim, mesmo em Paris, as eleições se efetuaram depois da fuga da burguesia, partidária de Thiers, ou pelo menos dos seus elementos mais ativos, e depois da evacuação dos exércitos da ordem. A burguesia que ficou em Paris, apesar de toda a sua impertinência, não temia menos as batalhas revolucionárias. Sob a impressão desse medo – pressentimento do inevitável terror vermelho do futuro – realizaram-se as eleições. Procurar consolo no fato do Comitê Central da Guarda Nacional – sob cuja ditadura, desgraçadamente branda e informe, se efetuaram as eleições – não ter infringido o princípio do sufrágio universal é, na realidade, dar estocadas na água.

Multiplicando as comparações inúteis, Kautsky se aproveita da falta de informações em que se encontram os seus leitores. Em novembro de 1917 elegemos também em Petrogrado uma Comuna (a Duma municipal) na base do mesmo sufrágio “democrático”, sem restrições para a burguesia. Nessas eleições, apesar do boicote que os partidos burgueses nos declararam, obtivemos uma maioria esmagadora.**

A Duma, eleita democraticamente, submeteu-se voluntariamente ao soviete de Petrogrado, isto é, achou que a ditadura do proletariado estava em plano superior ao “princípio” do sufrágio universal; e algum tempo depois se dissolvia por iniciativa própria, em favor de uma das sessões do soviete peterburguês. Deste modo, o soviete de Petrogrado – verdadeiro pai do poder soviético – tem, por graça divina, uma auréola “formalmente” democrática, que nada fica a dever à da Comuna de Paris.
Nas eleições de 26 de março foram eleitos noventa membros da Comuna, quinze dos quais pertenciam ao partido do governo (Thiers), sendo sociais-burgueses outros seis, os quais, embora inteiramente contrários ao governo, não censuravam menos por isso a insurreição dos operários parisienses.

“Uma República soviética não teria permitido que tais elementos apresentassem a sua candidatura, e muito menos que fossem eleitos. Mas a Comuna, respeitando como respeitava a democracia, não opôs o menos obstáculo à sua eleição” (p. 97)

Já vimos como Kautsky diz disparates em todos os sentidos. Em primeiro lugar, em fase análoga do desenvolvimento da Revolução Russa, realizaram-se eleições democraticamente no município de Petrogrado, durante as quais o poder soviético deixou os partidos em plena liberdade; e se os cadetes, os socialistas-revolucionários e os mencheviques, que tinham a sua imprensa, que convidavam abertamente a população a derrubar o governo dos sovietes, boicotaram essas eleições, foi exclusivamente porque acreditavam então que nos liquidariam pela força das armas. Em segundo lugar, não houve na Comuna de Paris democracia que reunisse todas as classes. Não houve lugar nela para os deputados burgueses – conservadores, liberais e gambettistas.

“Quase todos esses indivíduos [escreve Lavrov] instantaneamente ou não, mas em pouco tempo, em todo o caso, saíram dos conselhos da Comuna; é verdade que teriam podido ser os representantes de Paris – da cidade livre sob a administração da burguesia -, mas foram inteiramente desautorados na Comuna que, por bem ou pela força, completa ou incompletamente, encarnava a revolução do proletariado e a tentativa, embora tímida, de criar as formas de uma sociedade que se harmonizasse com essa revolução.”

Se a burguesia peterburguesa não tivesse boicotado as eleições comunais, os seus representantes teriam entrado na Duma de Petrogrado. Teriam permanecido nela até a primeira insurreição dos socialistas-revolucionários e cadetes, depois da qual com ou sem a permissão de Kautsky – caso se retirassem a tempo, como fizeram em certo momento os membros burgueses da Comuna de Paris, seriam naturalmente presos. O curso dos acontecimentos teria sido o mesmo, com exceção de alguns episódios, que se dariam de outro modo.

Glorificando a democracia da Comuna e censurando-a ao mesmo tempo por não ter tido a audácia na luta contra Versalhes, Kautsky não compreende que as eleições comunais que se realizaram com a participação dos “maires” e deputados “legais”, - participação que tinha segundas intenções – refletiam a esperança da conclusão de um acordo pacífico com Versalhes. Tal é, porém, a significação desses fatos. Os dirigentes queriam uma aliança, não a luta. As massas não tinham esgotado ainda as suas ilusões. Ainda não tinha havido tempo para destituição das autoridades pseudorrevolucionárias. A tudo isso se chamava “democracia”.

“Devemos dominar os nossos inimigos pela força moral... [preconizava Vermorel]. Não há necessidade de se atentar contra a liberdade nem contra a vida do indivíduo...”
Vermorel, que desejava conjurar a “guerra civil”, convidava a burguesia liberal – que antes tanto estigmatizara – a constituir um

“poder regular, reconhecido e respeitado por toda a população parisiense.”

O Journal Officiel, publicado sob a direção do internacionalista Longuet, escrevia:

“O erro lamentável que, nas jornadas de junho de 1848, levantou duas classes sociais uma contra a outra, já não se pode reproduzir. O antagonismo de classes deixou de existir” (30 de março), [E mais tarde]: “De ora em diante já não haverá discórdias, porque nunca existiu tão poucos ódios nem houve tão poucos antagonismos sociais” (3 de abril).

Na sessão da Comuna de 25 de abril, Jourde, não sem razão, se vangloriou pelo fato “da Comuna não ter atacado de forma alguma a propriedade”. Assim acreditavam conquistar a confiança dos meios burgueses e marchar para um acordo.

“Essas garantias [diz Lavrov muito acertadamente] não desarmaram absolutamente os inimigos do proletariado, que conheciam perfeitamente a ameaça implícita na vitória deste último; ao contrário, tiraram ao proletariado toda a energia combativa, cegando-o, como de propósito, em presença de inimigos irredutíveis” (p. 137)

Mas essas garantias emolientes ligavam-se indissoluvelmente à ficção da democracia. A forma de pseudolegalidade fazia crer que a questão se poderia resolver sem luta.

“No que toca às massas da população [escreve um membro da Comuna, Arthur Arnoult], estavam convencidas, não sem razão, de que haveria um acordo tácito com o governo.”

Os conciliadores, impotentes para atrair a burguesia, induziam o proletariado em erro, como sempre.

A forma insensata das eleições complementares à Comuna (16 de abril) mostra do modo mais evidente que nas condições da guerra civil inevitável, que já começava, o parlamentarismo só expressava a impotência conciliadora dos grupos dirigentes. Naquele momento “não se fazia mais do que votar”, escreve Arthur Arnoult. A situação era trágica, a tal extremo que não se tinha nem o tempo nem o sangue frio necessários para que as eleições gerais pudessem dar o resultado esperado.

“Todos os homens fiéis à Comuna estavam nas fortificações, nos fortes, nos postos avançados. O povo não dava nenhuma importância a essas eleições complementares. No fundo, não passava de parlamentarismo. Não era aquele o momento de contar os eleitores, mas de ter soldados; nem de saber se tínhamos ganho ou perdido em consideração para com a opinião de Paris, mas de defender Paris contra os versalheses.”

Essas palavras poderiam fazer compreender a Kautsky porque não é tão fácil combinar na realidade a guerra de classes com uma democracia que reúna todas elas.

“A Comuna não é uma Assembleia Constituinte [escrevia Millére, uma das cabeças mais inteligentes da Comuna], é um conselho de guerra. Só deve ter um fim: a vitória; uma arma: a força; uma lei: a da salvação pública.”

“Nunca puderam compreender [escreve Lissagaray, acusando os líderes] que a Comuna era uma barricada e não uma administração.”
Só começaram a compreendê-lo no fim, quando já era muito tarde. Kautsky ainda não o compreendeu. E nada dá a entender que possa chegar um dia a compreendê-lo.


***

A Comuna foi a negação viva da democracia formal, pois marcou no seu desenvolvimento a ditadura da Paris operária sobre a nação camponesa. Este fato prima sobre todos os demais. Quaisquer que fossem os esforços dos políticos rotineiros no próprio seio da Comuna para se aterem a uma aparência de legalidade democrática, cada ação da Comuna, insuficiente para a vitória, era bastante para convencê-los da ilegalidade da sua natureza.

A Comuna, isto é, o município parisiense, aboliu a conscrição nacional. Deu ao seu órgão oficial o nome de Journal Officiel de La Republique Française. Timidamente embora, pôs as mãos no Banco de França. Proclamou a separação da Igreja e do Estado e suprimiu o orçamento dos cultos. Travou relações com as embaixadas estrangeiras etc., etc. Tudo isso, em nome da ditadura do proletariado. Mas o democrata Clémenceau, que já vivia então e já era homem de energia, não quis reconhecer esse direito.

Na assembleia com o Comitê Central, Clémenceau declarou:
“A insurreição tem uma origem ilegal. O Comitê dentro de pouco tempo parecerá ridículo e os seus decretos serão desprezados. Além disso, Paris não tem o direito de sublevar-se contra a França, e deve aceitar formalmente a autoridade da Assembleia.”

A missão da Comuna era dissolver a Assembleia Nacional. Infelizmente, não pôde consegui-lo. E Kautsky, agora, trata de procurar circunstâncias atenuantes para esses desígnios criminosos.
Afirma que os comunalistas tinham adversários monarquistas na Assembleia Nacional, ao passo que nós, na Assembleia Constituinte, tínhamos como adversários os... socialistas: socialistas-revolucionários e mencheviques. Isto é o que se pode chamar um eclipse total da razão! Kautsky fala dos mencheviques e socialistas-revolucionários, mas se esquece do único inimigo sério: os cadetes. Eles, precisamente, constituíam o nosso partido “versalhês” russo, isto é, o bloco dos proprietários em nome da propriedade, e o professor Miliukov parodiava como melhor podia o minúsculo grande homem [expressão de Marx, alusiva a Thiers (N. do T.)]. Desde muito cedo – muito tempo antes da Revolução de Outubro –, Miliukov começou a procurar um Gallifet, que julgava ter encontrado, um após outro, nas pessoas dos generais Kornilov, Alexeiev, Kaledin, Krasnov; e depois que Koltchak relegou a segundo plano os partidos políticos e dissolveu a Assembleia Constituinte, o partido cadete, único partido burguês sério, não só não lhe negou o seu apoio como, pelo contrário, dispensou-lhe uma simpatia cada vez maior.

Os mencheviques e socialistas-revolucionários não desempenharam na Rússia nenhum papel autônomo, como acontece, por outro lado, com o partido de Kautsky nos sucessos revolucionários da Alemanha. Basearam toda a sua política na coligação com os cadetes, assegurando-lhes assim uma situação preponderante, que mal correspondia à correlação das forças políticas. Os partidos socialista-revolucionário e menchevique não passavam de um aparelho de transmissão, destinado a conquistar a confiança política das massas revolucionárias despertadas, nos comícios e nas eleições, para beneficiar com isso o partido cadete imperialista e contra-revolucionário, independentemente, é claro, do resultado das eleições. A dependência da maioria menchevique e socialista-revolucionária à minoria cadete não passava de uma fraude mal dissimulada as democracia. Mas não é tudo. Em todos os pontos do país em que o regime “democrático” resistia muito, sobrevinha inevitavelmente um golpe de estado contrarrevolucionário que acabava com ele. Assim aconteceu na Ucrânia, onde a Rada democrática, que vendera o poder soviético ao imperialismo alemão, viu-se dissolvida por sua vez pela monarquia de Skoropadski. Assim aconteceu – e é a experiência mais importante de nossa “democracia” – na Sibéria, onde a Assembleia Constituinte, oficialmente dirigida pelos socialistas-revolucionários e mencheviques – devido à ausência dos bolcheviques – é dirigida de fato pelos cadetes, deu lugar à ditadura do almirante czarista Koltchak. Assim aconteceu no Norte, onde os membros da Constituinte, personificada no governo do socialista-revolucionário Tchaikovski, não passavam de medalhões, em presença dos quais agiam os generais contrarrevolucionários russos e ingleses. Em todos os pequenos governos limítrofes aconteceu ou acontece o mesmo: na Finlândia, na Estônia, na Lituânia, na Polônia, na Geórgia, na Armênia, onde, sob o estandarte aparente da democracia, se consolida o regime dos proprietários, dos capitalistas e do militarismo estrangeiro.


O operário parisiense de 1871
O proletário peterburguês de 1917

Um dos paralelos mais ordinários, que nada justifica e que é politicamente uma vergonha, traçado por Kautsky entre a Comuna e a Rússia soviética, é o que se refere ao caráter do operário parisiense de 1871 e do proletário russo de 1917-1919. Kautsky nos descreve o primeiro como um revolucionário entusiasta, capaz da mais elevada abnegação, ao passo que o segundo nos é apresentado como um egoísta, um utilitário e um anarquista desenfreado.

O operário parisiense tem atrás de si um passado perfeitamente definido para precisar de recomendações revolucionárias ou para ter que se defender dos elogios do atual Kautsky. Contudo, o proletariado de Petrogrado não tem nem pode ter motivos para renunciar ao paralelo com seu irmão mais velho. Os três anos de luta ininterrupta dos operários peterburgueses, primeiro pela conquista do poder, em seguida para mantê-lo e consolidá-lo, em meio de sofrimentos nunca vistos, apesar da fome, do frio, dos perigos constantes, constituem um fato excepcional nos anais do heroísmo e da abnegação das massas. Kautsky, como mostraremos, examina, para compará-los com a elite dos comunalistas, os elementos mais obscuros do proletariado russo. Em nada se distingue, neste ponto, dos sicofantas burgueses, para os quais os mortos da Comuna são infinitamente mais simpáticos do que os vivos. O proletariado peterburguês tomou o poder quarenta e cinco anos mais tarde que os operários de Paris. Esse lapso de tempo nos dotou de uma imensa superioridade. O caráter pequeno-burguês e artesão do velho Paris e, em parte, do novo, é inteiramente estranho a Petrogrado, centro da indústria mais concentrada do mundo. Esta circunstância nos facilitou consideravelmente o trabalho de agitação organização e o estabelecimento do regime dos sovietes. O nosso proletariado está muito longe de possuir as ricas tradições do proletariado francês. Mas, em compensação, nos primeiros dias da nossa revolução, a lembrança da grande experiência fracassada de 1905 estava ainda viva na memória da geração atual, que não esquecia o dever de vingança que lhe tinham legado. Os operários russos não passaram, como os franceses, pela larga escola da democracia e do parlamentarismo que, em certas épocas, foi um fator importante para a cultura política do proletariado. Mas, por outro lado, a amargura das decepções e o veneno do ceticismo (que paralisam a vontade revolucionária do proletariado francês, até uma hora que julgamos próxima) não tinham tido tempo de infiltrar-se na alma da classe operária russa.

A Comuna de Paris sofreu uma derrota militar antes de surgirem, em toda a sua magnitude, os problemas econômicos. Apesar das excelentes qualidades combativas dos trabalhadores parisienses, a situação militar da Comuna tornou-se logo desesperada: a indecisão e o espírito de conciliação das esferas superiores provocaram a desagregação das camadas inferiores.

Pagava-se o soldo da Guarda Nacional a 162.000 soldados rasos e 6.500 oficiais; mas o número dos que realmente combatiam, principalmente a existência de um organismo dirigente regular e centralizado. Os comunalistas não tinham sequer a mínima ideia disso.

O departamento de guerra da Comuna ocupava, segundo a expressão de um autor, uma sala sombria, onde todo o mundo se atropelava. O gabinete do ministro vivia cheio de oficiais, de guardas nacionais que ora exigiam material bélico, ora pediam provisões, ou que se queixavam porque não obtinham dispensa. Ali lhe diziam que fossem ver o comandante da praça.

“Alguns batalhões permaneciam nas trincheiras de vinte a trinta dias, ao passo que outros ficavam sempre de reserva. Esta irregularidade destruiu logo toda a disciplina. Os mais valentes só queriam depender de si mesmos; os demais se retiravam. Os oficiais faziam outro tanto, uns abandonavam os seus postos para correr em auxílio do companheiro exposto ao fogo do inimigo; outros iam para a cidade...” (A Comuna de Paris de 1871, P. Lavrov, 1919, p. 100).

Um tal regime não podia continuar impunemente. A Comuna foi afogada em sangue. Mas encontrais em Kautsky um consolo, único no gênero:

“A guerra nunca foi [diz, meneando a cabeça] o forte do proletariado” (p.138).
Esse aforismo, digno de Pangloss, está à altura de outro conceito de Kautsky, a saber: que a Internacional não é uma arma para as épocas de guerra, mas, pela sua própria natureza, “um instrumento de paz”.

Todo o Kautsky de hoje se resume, no fundo, nesses dois aforismos, cujo valor é apenas superior ao zero absoluto. “Nunca foi a guerra, como veem, o forte do proletariado; tanto mais que a Internacional não foi criada para um período de guerra.”

O barco de Kautsky foi construído para navegar nas águas mansas dos açudes, não para enfrentar o alto mar e aguentar os temporais. Se começa a dar água e a soçobrar, o forte, sem contestação, é a tempestade, são os elementos, a imensidade das ondas e toda uma série de circunstâncias imprevistas, para as quais Kautsky não destinava o seu magnífico instrumento.

O proletariado internacional se atribuiu a missão de conquistar o poder. Seja ou não a guerra civil “em geral”, de qualquer modo é indiscutível que o movimento emancipador do proletariado, na Rússia, na Alemanha e em determinados lugares da antiga Áustria-Hungria, revestiu-se da forma de uma guerra civil de morte, e não só nas frentes internas, como nas frentes externas. Se a guerra não é o forte do proletariado, e se a Internacional operária só vale para as épocas pacíficas, é preciso fazer uma cruz sobre a revolução e o socialismo, pois a guerra é um dos fortes do governo capitalista, que, com toda a certeza, não permitirá que o operário conquiste o poder sem guerra. Resta apenas considerar como um parasita da sociedade capitalista e do parlamentarismo burguês o que se chama “democracia socialista”, Istoé, sancionar claramente o que fazem em política os Eberts, os Scheidemanns, os Renaudel e aquele contra quem achamos que Kautsky ainda se levanta.

A guerra não era o forte da Comuna. Por esse motivo foi esmagada. E com que selvageria!

“É preciso remontar – [escrevia no seu tempo o escritor liberal moderado Fiaux] às proscrições de Sila, de Antônio e de Otávio para encontrar assassinatos semelhantes na história das nações civilizadas; as guerras religiosas sob os últimos Valois, a noite de São Bartolomeu, a época do terror não eram, em comparação, mais do que brincadeira de criança. Somente na última semana de maio se registraram em Paris 17.000 cadáveres de federados insurretos... A 15 de junho ainda se continuava a matar...”


“... A guerra, em geral, nunca foi o forte do proletariado...”

Como isto é falso! Os operários russos demonstraram que são capazes de dominar também a “máquina guerreira”. Isso significa um enorme progresso em relação à Comuna. Não é uma abjuração da Comuna – pois a tradição da Comuna não é a sua impotência –, mas a continuação de sua obra. A Comuna era fraca. Para realizar a sua missão nós nos fizemos fortes. A Comuna foi esmagada. Nós vibramos golpes sobre golpes contra os seus verdugos, vingando-a e ajustando as suas contas.

***


Dos 162.000 guardas nacionais que recebiam soldo, 20 ou 30.000 iam para a luta. Esses números constituem matéria interessante para as deduções que se podem tirar a respeito do papel da democracia formal em um período revolucionário. A corte da Comuna não se decidiu nas eleições, mas nos combates contra os exércitos de Thiers.

No fundo, foram esses 20 ou 30 mil homens – a minoria mais abnegada e combatida – que fixaram na luta o destino da Comuna. Essa minoria não era uma coisa à parte, não fazia mais do que expressar com mais valor e abnegação a vontade da maioria. Mas, de qualquer modo, não deixava de ser a minoria. Os demais guardas nacionais, que se ocultaram no momento crítico, não eram adversários da Comuna, não; defendiam-na ativa ou passivamente, mas eram menos conscientes, menos resolutos. Na cena da democracia política, a inferioridade de seu sentido social tornou possível a mistificação dos aventureiros e dos cavalheiros de indústria, dos parlamentares pequeno-burgueses e dos tolos honrados que se enganavam a si mesmos. Mas quando se viu que se tratava de uma franca guerra de classes, acompanharam, mais ou menos, a minoria abnegada. Esse estado de coisas teve a sua expressão na criação da Guarda Nacional. Se a existência da Comuna se tivesse prolongado, as relações recíprocas entre a vanguarda e a massa do proletariado iriam se fortificando cada vez mais. E a organização que se tivesse constituído e consolidado no processo de uma luta declarada, ter-se-ia transformado, como organização das massas trabalhadoras, em órgão da sua ditadura, no soviete dos delegados do proletariado em armas.

Leon Trotsky, 29 de maio de 1920.


Notas:

* TROTSKY, Leon. Terrorismo e Comunismo – o anti Kautsky, Editora Saga, 1969 – tradução de Lívio Xavier.
** Não deixa de ser interessante observar que nas eleições comunais de 1871, em Paris, tomaram parte 230.000 eleitores. Nas eleições municipais de Petrogrado de 9 de novembro de 1917, apesar do boicote que lhes declararam todos os partidos, exceto o nosso e o dos socialistas revolucionários, que quase não tinham nenhuma influência na capital, tomaram parte 400.000 eleitores. Paris em 1871 tinha 2.000.000 de habitantes. Petrogrado tinha o mesmo número de habitantes de Paris em 1871. É preciso ter em vista, além disso, que o nosso sistema eleitoral era incomparavelmente mais democrático, pois o Comitê Central da Guarda Nacional fizera as eleições na base da lei eleitoral do império. (Leon Trotsky)

Lenin: Em memória da Comuna


Fonte: marxists.org
Passaram-se 40 anos desde que se proclamou a Comuna de Paris. Seguindo o costume, o proletariado francês honrou com comícios e manifestações a memória dos homens da revolução de 18 de março de 1871. No final de maio voltará a levar coroas de flores às tumbas dos communards fuzilados durante a terrível “Semana de Maio” e a jurar diante daquelas tumbas que lutará com firmeza até lograr o triunfo completo de suas ideias, até dar por cumprida a obra por eles legada.

Por que, pois, não só o proletariado francês, senão o de todo o mundo rende homenagem aos homens da Comuna como a seus precursores? Qual é a herança da Comuna?
A Comuna surgiu de maneira espontânea, ninguém a preparou de modo consciente e sistemático. A funesta guerra com a Alemanha, os sofrimentos do assédio, o desemprego operário e a ruína da pequena burguesia; a indignação das massas contra as classes superiores e as autoridades que haviam demonstrado uma incapacidade absoluta; a surda efervescência no seio da classe operária, descontente de sua situação e ansiosa por um novo regime social; a composição reacionária da Assembleia Nacional, que fazia temer os destinos da república foram as causas que concorreram com outras muitas para impulsionar a população parisiense para a revolução do 18 de março, que pôs de improviso o poder nas mãos da Guarda Nacional, em mãos da classe operária e da pequena burguesia, que havia aderido aos operários.

Foi um acontecimento histórico sem precedentes. Até então, o poder estivera, em geral, nas mãos dos latifundiários e dos capitalistas, quer dizer, de seus mandatários, que constituíam o chamado governo. Depois da revolução de 18 de março, quando o governo do senhor Thiers fugiu de Paris com suas tropas, sua polícia e seus funcionários, o povo ficou dono da situação e o poder passou para as mãos do proletariado. Porém, na sociedade moderna, o proletariado, avassalado no econômico pelo capital, não pode dominar na política se não rompe as cadeias que o atam ao capital. Daí que o movimento da Comuna deveria adquirir inevitavelmente um matiz socialista, quer dizer, deveria tender ao aniquilamento do domínio da burguesia, da dominação do capital, à destruição das próprias bases do regime social contemporâneo.
Em seu início tratou-se de um movimento heterogêneo e confuso ao extremo.

A ele somaram-se também os patriotas com a esperança de que a Comuna renovasse a guerra contra os alemães e levasse a um desenlace venturoso. Apoiaram-no também os pequenos lojistas, em perigo de arruinamento se não se adiasse o pagamento das letras vencidas e dos aluguéis (adiamento que lhes era negado pelo governo, mas que a Comuna lhes concedeu). Por último, no começo, também simpatizaram em certo grau com ele os republicanos burgueses, temerosos de que a reacionária Assembleia Nacional (a vilanagem, os violentos latifundiários) restabelecesse a monarquia. Porém, o papel fundamental nesse movimento foi desempenhado, naturalmente, pelos operários (sobretudo os artesãos parisienses), entre os quais se havia espalhado, nos últimos anos do Segundo Império da França, uma intensa propaganda socialista, estando muitos deles inclusive filiados à I Internacional (Associação Internacional dos Trabalhadores).

Unicamente os operários guardaram fidelidade à Comuna até o fim. Os republicanos burgueses e a pequena burguesia não tardaram em afastar-se dela: uns assustaram- se com o caráter revolucionário socialista do movimento, com seu caráter proletário; outros se afastaram dela quando viram que estava condenada a uma derrota inevitável. Unicamente os proletários franceses apoiaram a seu governo sem temor nem desmaio, só eles lutaram e morreram por ele, quer dizer, pela emancipação da classe operária, por um futuro melhor para todos os trabalhadores.

Abandonada por seus aliados de ontem e sem contar com nenhum apoio, a Comuna tinha de ser derrotada inevitavelmente. Toda a burguesia francesa, todos os latifundiários, especuladores da bolsa e fabricantes, todos os grandes e pequenos ladrões, todos os exploradores uniram-se contra ela. Com a ajuda de Bismarck (que pôs em liberdade 100 mil soldados franceses, prisioneiros dos alemães, para esmagar a Paris revolucionária), essa coalizão burguesa logrou confrontar com o proletariado parisiense os camponeses atrasados e a pequena burguesia de províncias e cercar meia Paris com um anel de ferro (a outra metade havia sido cercada pelo exército alemão). Em algumas cidades importantes da França (Marselha, Lyon, Saint- Etienne, Dijon e outras), os operários também tentaram tomar o poder, proclamar a Comuna e acudir a Paris, porém tais intentos logo fracassaram. E Paris, que havia sido o primeiro local a desfraldar a bandeira da insurreição proletária, ficou abandonada a suas próprias forças e condenada a uma morte certa.

Para que uma revolução social triunfe são necessárias, pelo menos, duas condições: um alto desenvolvimento das forças produtivas e um proletariado preparado para ela. Contudo, em 1871, não se deu nenhuma dessas condições. O capitalismo francês encontrava-se ainda pouco desenvolvido, a França era, então, fundamentalmente um país de pequena burguesia (artesãos, camponeses, lojistas, etc.). Por outra parte, não existia um partido operário, a classe operária não tinha preparação nem havia passado por um largo treinamento e, em sua massa, sequer havia noção totalmente clara de quais eram seus objetivos nem como se poderia alcançá-los. Não havia uma organização política séria do proletariado nem grandes sindicatos e cooperativas...

Entretanto, o que faltou principalmente à Comuna foi tempo, desafogo para perceber bem como iam as coisas e empreender a realização de seu programa.Apenas ela pôs mão à obra, o governo, entrincheirado em Versalhes e apoiado por toda a burguesia, desencadeou as hostilidades contra Paris. A Comuna teve de pensar, antes de tudo, em sua própria defesa. E até o final mesmo, que ocorreu na semana de 21 a 28 de maio, não houve tempo para pensar seriamente em outra coisa.

Por certo, em que pese a essas condições tão desfavoráveis e à brevidade de sua existência, a Comuna teve tempo de aplicar algumas medidas que caracterizam bastante seus verdadeiros sentido e objetivo. Substituiu o exército permanente, instrumento cego em mãos das classes dominantes, pelo armamento de todo o povo; proclamou a separação da Igreja do Estado; suprimiu a subvenção ao culto (quer dizer, o soldo que o Estado pagava aos padres) e deu um caráter estritamente laico à instrução pública, com o que assestou um rude golpe aos soldados de batina. Pouco foi o tempo para se fazer algo no terreno puramente social, porém esse pouco mostra com suficiente clareza seu caráter de governo popular, de governo operário: foi suprimido o trabalho noturno nas tarefas; foi abolido o sistema das multas, consagrado pela lei, com que se vitimavam os operários; finalmente, foi promulgado o famoso decreto de entrega de todas as fábricas e oficinas abandonadas ou paralisadas por seus donos às cooperativas operárias com o fim de retomar a produção. E para sublinhar, como se disséssemos, seu caráter de governo autenticamente democrático, proletário, a Comuna dispôs que a remuneração de todos os funcionários administrativos e do governo não fosse superior ao salário normal de um operário, nem passasse em nenhum caso dos 6.000 francos anuais (menos de 200 rublos ao mês).

Todas essas medidas mostravam com farta eloquência que a Comuna constituía uma ameaça de morte ao velho mundo, baseado no avassalamento e na exploração. Essa era a causa de a sociedade burguesa não poder dormir tranquila enquanto o Ajuntamento de Paris ostentasse a bandeira vermelha do proletariado. E quando a força organizada do governo pôde, afinal, dominar a força mal organizada da revolução, os generais bonapartistas, esses generais batidos pelos alemães e garbosos frente a seus compatriotas vencidos, os Rennen-kampf e Méller-Zakomelski franceses fizeram uma matança como jamais se havia visto em Paris. Cerca de 30 mil parisienses foram mortos pela soldadesca enfurecida; uns 45 mil foram detidos, executados logo muitos e desterrados ou enviados a trabalhos forçados milhares deles. No total, Paris perdeu 100 mil filhos, entre os quais se encontravam os melhores operários de todos os ofícios. A burguesia estava satisfeita. ?Agora, acabou-se com o socialismo, por muito tempo!?, dizia seu sanguinário chefe, o diminuto Thiers, quando ele e seus generais afogaram em sangue a sublevação do proletariado de Paris. Mas de nada serviram os grunhidos desses corvos burgueses. Não passariam ainda seis anos da derrocada da Comuna, ainda se achavam muitos de seus lutadores em presídio ou no exílio, quando na França iniciou-se um novo movimento operário. A nova geração socialista, enriquecida com a experiência de seus predecessores e em absoluto desencorajada pela derrota que sofreram, recolheu a bandeira caída das mãos dos combatentes da Comuna e levou-a adiante com firmeza e valentia ao grito de Viva a revolução social! Viva a Comuna!?. E três ou quatro anos mais tarde, um novo partido operário e a agitação levantada por este no país obrigaram as classes dominantes a pôr em liberdade os communards que o governo ainda mantinha presos.

Honram a memória dos combatentes da Comuna não só os operários franceses, senão também o proletariado de todo o mundo, pois ela não lutou apenas por um objetivo local ou nacional estreito, mas pela emancipação de toda a humanidade trabalhadora, de todos os humilhados e ofendidos. Como combatente de vanguarda da revolução social, a Comuna granjeou a simpatia onde quer que sofra e lute o proletariado. O quadro de sua vida e de sua morte, o exemplo de um governo operário que conquistou e reteve em suas mãos durante mais de dois meses a capital do mundo e o espetáculo da heroica luta do proletariado e seus padecimentos depois da derrota têm levantado a moral de milhões de operários, têm alentado suas esperanças e têm ganho suas simpatias para o socialismo. O troar dos canhões de Paris despertou de seu profundo sono às camadas mais atrasadas do proletariado e deu em todas as partes um impulso à propaganda socialista revolucionária. Por isso não morreu a causa da Comuna, por isso segue vivendo até hoje em dia em cada um de nós.

A causa da Comuna é a causa da revolução social, é a causa da completa emancipação política e econômica dos trabalhadores, é a causa do proletariado mundial. E neste sentido é imortal.

Fonte: http://www.cstpsol.com/viewnoticia.asp?ID=255

Friedrich Engels: Sobre a Comuna de Paris


Fonte: marxists.org
Introdução de Friedrich Engels à edição de 1891 de "A Guerra Civil em França" (Karl Marx)


Chegou-me inesperadamente a solicitação para editar de novo a Mensagem do Conselho Geral internacional sobre A Guerra Civil em França e para a acompanhar de uma introdução. Por isso só posso tocar aqui, em poucas palavras, os pontos mais essenciais.

Faço preceder o referido trabalho, mais extenso, das duas Mensagens, mais curtas, do Conselho Geral sobre a guerra franco-alemã(1*). Por um lado, porque na Guerra Civil é referida a segunda, ela mesma não inteiramente compreensível sem a primeira. Mas também porque estas duas Mensagens, igualmente redigidas por Marx, são provas eminentes, em nada inferiores à Guerra Civil, do maravilhoso dote do autor, demonstrado pela primeira vez em O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, de apreender claramente o carácter, o alcance e as consequências necessárias de grandes acontecimentos históricos, ao tempo em que estes acontecimentos ainda decorrem diante dos nossos olhos ou apenas acabaram de se consumar. E, finalmente, porque ainda hoje temos de sofrer, na Alemanha, as consequências, anunciadas por Marx, daqueles acontecimentos.

Ou não terá acontecido o que diz a primeira Mensagem, isto é, que se a guerra de defesa da Alemanha contra Louis Bonaparte degenera numa guerra de conquista contra o povo francês, toda a desgraça que se abateu sobre a Alemanha, após as chamadas guerras de libertação[N123], reviverá com renovada violência? Não tivemos nós mais vinte anos de dominação de Bismarck, não tivemos, em vez das perseguições aos demagogos[N124], a lei de excepção[N125] e a caça aos socialistas com a mesma arbitrariedade, com literalmente a mesma revoltante interpretação da lei?
E não ficou literalmente demonstrada a predição de que a anexação da Alsácia-Lorena iria «atirar a França para os braços da Rússia» e que, após esta anexação, ou a Alemanha se tornaria o servo notório da Rússia ou, após breve trégua, teria de se armar para uma nova guerra, ou seja, «para uma guerra de raças, contra as raças coligadas dos Eslavos e Latinos»»?(1*) A anexação das províncias francesas não empurrou a França para os braços da Rússia? Não cortejou Bismarck em vão, vinte anos inteiros, os favores do tsar, não os cortejou com serviços ainda mais rasteiros do que os que a pequena Prússia, antes de se ter tornado a «primeira grande potência da Europa», estava habituada a depor aos pés da Santa Rússia? E não paira ainda dia a dia sobre as nossas cabeças a espada de Dâmocles de uma guerra, no primeiro dia da qual todas as alianças protocolarmente seladas dos príncipes se desfarão como pó de palha de uma guerra em que nada é certo a não ser a absoluta incerteza do seu desfecho; de uma guerra de raças que sujeita toda a Europa à devastação por quinze ou vinte milhões de homens armados e ainda só não está em curso porque mesmo o mais forte dos grandes Estados militares receia a total imprevisibilidade do resultado final?

Tanto maior é, por isso, o dever de tornar de novo acessíveis aos operários alemães estas brilhantes provas, meio esquecidas, da clarividência da política operária internacional de 1870.

O que é válido para estas duas Mensagens também o é para a Guerra Civil em França. A 28 de Maio, os últimos combatentes da Comuna sucumbiam, nas encostas de Belleville, a [uma] força superior, e logo dois dias depois, a 30, Marx lia perante o Conselho Geral o trabalho onde está exposta a significação histórica da Comuna de Paris em traços breves, vigorosos, mas tão penetrantes e sobretudo tão verdadeiros como não voltou a conseguir-se em toda a abundante literatura sobre o assunto.

Graças ao desenvolvimento econômico e político da França desde 1789, Paris está desde há cinquenta anos colocada na situação em que nenhuma revolução pôde ali rebentar que não tomasse um carácter proletário, de tal modo que o proletariado, que pagava com o seu sangue a vitória, surgia, depois da vitória, com reivindicações próprias. Estas reivindicações eram mais ou menos imprecisas e mesmo confusas, consoante, em cada caso, o grau de desenvolvimento dos operários parisienses; mas, em conclusão, todas elas apontaram para a eliminação do antagonismo de classes entre capitalistas e operários. A verdade é que não se sabia como isso havia de acontecer. Mas a própria reivindicação, ainda quando indefinidamente sustentada, continha um perigo para a ordem social estabelecida; os operários que a colocavam estavam ainda armados; para os burgueses que se encontravam ao leme do Estado, o desarmamento dos operários era, por isso, imperativo primeiro. Por isso, depois de cada revolução conquistada pela luta dos operários, nova luta, que termina com a derrota dos operários.

Isso aconteceu pela primeira vez em 1848. Os burgueses liberais da oposição parlamentar realizaram banquetes para a consecução da reforma eleitoral, que havia de assegurar a dominação do seu partido. Cada vez mais forçados, na luta com o governo, a apelar ao povo, tiveram de ceder o passo, pouco a pouco, às camadas radicais e republicanas da burguesia e da pequena burguesia. Mas atrás destas estavam os operários revolucionários, e estes tinham-se apropriado de muito mais autonomia desde 1830[N126] do que suspeitavam os burgueses e mesmo os republicanos. No momento da crise entre governo e oposição, os operários abriram a luta de ruas; Louis-Philippe desapareceu, com ele a reforma eleitoral; no seu lugar ergueu-se a República, e precisamente uma República designada como «social» pelos próprios operários vitoriosos. O que era de entender por esta República social não estava claro para ninguém, nem mesmo para os operários. Mas agora tinham eles armas e eram uma força no Estado. Por isso, assim que os republicanos burgueses que se encontravam ao leme notaram nalguma medida terreno sólido debaixo dos pés, o seu primeiro objectivo foi desarmar os operários. Isto aconteceu quando, pela quebra directa da palavra dada, pela humilhação aberta e pela tentativa de desterrar os desempregados para uma província longínqua, [os operários] foram empurrados para a insurreição de Junho de 1848[N21]. O governo tinha-se precavido com uma esmagadora superioridade de forças. Após uma luta heróica de cinco dias, os operários foram derrotados. E seguiu-se então um banho de sangue dos prisioneiros desarmados como não se tinha visto um igual desde os dias das guerras civis que iniciaram a decadência da República romana[N127]. Era a primeira vez que a burguesia mostrava até que louca crueldade de vingança é levada, logo que o proletariado ousa surgir face a ela como classe à parte, com interesses e reivindicações próprios. E, ainda assim, 1848 foi uma brincadeira de crianças perante a sua raiva de 1871.

O castigo não se fez esperar. Se o proletariado ainda não podia governar a França, a verdade é que a burguesia já não o podia. Pelo menos nesse tempo, em que na maioria ela tinha ainda sentimentos monárquicos e estava dividida em três partidos dinásticos[N128] e num quarto [partido] republicano. As suas querelas intestinas permitiram ao aventureiro Louis Bonaparte tomar todos os postos de poder — exército, polícia, maquinaria administrativa — e, a 2 de Dezembro de 1851[NI29], fazer saltar o último bastião da burguesia, a Assembleia Nacional. O segundo Império iniciou a exploração da França por um bando de aventureiros políticos e financeiros, mas ao mesmo tempo, também, um desenvolvimento industrial como nunca foi possível sob o sistema mesquinho e timorato de Louis-Philippe, com a exclusiva dominação de apenas uma pequena parte da grande burguesia. Louis Bonaparte tomou aos capitalistas o seu poder político, sob o pretexto de os proteger, a eles burgueses, contra os operários e, por sua vez, os operários contra aqueles; mas, para isso, a sua dominação favoreceu a especulação e a actividade industrial, numa palavra, o ascenso e o enriquecimento do conjunto da burguesia numa medida inaudita até aí. Todavia, em maior medida ainda, desenvolveram-se a corrupção e o roubo em massa, os quais se reuniram à volta da corte imperial e sacaram deste enriquecimento as suas fortes percentagens.

Mas o segundo Império era o apelo ao chauvinismo francês, era a reivindicação das fronteiras do primeiro Império perdidas em 1814, no mínimo as da primeira República[N130]. Um império francês nas fronteiras da velha monarquia, até mesmo nas de 1815, mais reduzidas ainda, isso era impossível por muito tempo. Daí a necessidade de guerras e de alargamentos territoriais periódicos. Mas nenhum alargamento de fronteiras deslumbrava tanto a fantasia dos chauvinistas franceses como o da margem esquerda alemã do Reno. Para eles, uma milha quadrada no Reno valia mais do que dez nos Alpes ou noutra parte qualquer. Com o segundo Império, a reivindicação da margem esquerda do Reno, de uma só vez ou por partes, era apenas uma questão de tempo. Este tempo veio com a guerra austro-prussiana de 1866[N102]; ludibriado por Bismarck e pela sua própria política ultramanhosa de vacilação em torno das esperadas «compensações territoriais», mais nada restou a Bonaparte do que a guerra, que rebentou em 1870 e o fez ir à deriva para Sedane daí para Wilhelmshöhe[N109].

A consequência necessária foi a Revolução de Paris de 4 de Setembro de 1870. O Império desmoronou-se como um castelo de cartas, a República foi proclamada de novo. Mas o inimigo estava à porta; os exércitos do Império ou estavam encerrados sem esperança, em Metz, ou aprisionados na Alemanha. Nesta emergência, o povo consentiu aos deputados de Paris do antigo Corpo legislativo que agissem como «Governo de defesa nacional». Isto foi tanto mais permitido quanto, então, para fins de defesa, todos os parisienses aptos a pegar em armas entraram na Guarda Nacional e foram armados, de modo que os operários formavam agora a grande maioria. Mas, em breve, estalou a oposição entre o governo quase só composto por burgueses e o proletariado armado. A 31 de Outubro, batalhões operários assaltaram a Câmara Municipal e aprisionaram uma parte dos membros do governo; traição, quebra directa de palavra do governo e a intervenção de alguns batalhões de pequenos burgueses libertaram-nos de novo; e deixou-se em funções o governo de até então, para não desencadear a guerra civil no interior de uma cidade sitiada por força militar estrangeira.

Finalmente, em 28 de Janeiro de 1871, Paris esfomeada capitulou. Mas com honras até aí inauditas na história da guerra. As fortificações renderam-se, as trincheiras foram desarmadas, as armas da linha e a Guarda Móvel entregues, e mesmo esta considerada como prisioneira de guerra. Mas a Guarda Nacional conservou as suas armas e canhões, e colocou-se apenas em situação de armistício perante os vencedores. E estes mesmos não ousaram fazer em Paris uma entrada triunfal. De Paris, só ousaram ocupar um pequeno canto e, ainda assim [um canto] em parte formado por parques públicos, e até isto só por alguns dias! Durante este tempo, os que tinham mantido Paris cercada ao longo de 131 dias, foram eles próprios cercados pelos operários parisienses em armas, os quais velavam cuidadosamente por que nenhum «prussiano» ultrapassasse os estreitos limites do cantinho abandonado ao invasor estrangeiro. Tal era o respeito que infundiam os operários parisienses ao exército diante do qual tinham deposto as armas todos os exércitos do Império; e os Junker prussianos, que tinham vindo tirar vingança no foco da revolução, tiveram de se deter, respeitosos, e saudar esta mesma revolução armada!

Durante a guerra, os operários parisienses tinham-se limitado a exigir a enérgica continuação da luta. Mas agora, quando chegava a paz[N131] depois da capitulação de Paris, Thiers, o novo chefe do governo, tinha de reconhecer que a dominação das classes possidentes — grandes proprietários rurais e capitalistas — estava em perigo permanente enquanto os operários parisienses conservassem as armas na mão. A sua primeira obra foi a tentativa do desarmamento destes. A 18 de Março enviou tropas de linha com a ordem de roubar a artilharia pertencente à Guarda Nacional, fabricada durante o cerco de Paris e paga por subscrição pública. A tentativa falhou, Paris ergueu-se como um só homem para a defesa, e foi declarada guerra entre Paris e o governo francês sediado em Versalhes. A 26 de Março foi eleita a Comuna, e proclamada a 28. O Comité Central da Guarda Nacional, que até aí dirigira a governação, demitiu-se a favor dela, depois de ter ainda decretado a abolição da escandalosa «polícia de costumes» de Paris. A 30, aComuna aboliu o recrutamento e o exército permanente e proclamou a Guarda Nacional, à qual deviam pertencer todos os cidadãos capazes de pegar em armas, como o único poder armado; isentou todos os pagamentos de rendas de casa de Outubro de 1870 até Abril, pôs em conta para o prazo de pagamento seguinte as quantias de arrendamento já pagas e suspendeu todas as vendas de penhores no montepio municipal. No mesmo dia, os estrangeiros eleitos para a Comuna foram confirmados nas suas funções, porque a «bandeira da Comuna é a da República mundial». — A 1 de Abril foi decidido que o vencimento mais elevado de um empregado da Comuna, portanto dos seus próprios membros também, não poderia exceder 6000 francos (4800 marcos). No dia seguinte foram decretadas a separação da Igreja e do Estado e a abolição de todos os pagamentos do Estado para fins religiosos, assim como a transformação de todos os bens eclesiásticos em propriedade nacional; em consequência disso, foi ordenada a 8 de Abril, e pouco a pouco cumprida, a exclusão, das escolas, de todos os símbolos religiosos, imagens, dogmas, orações, numa palavra, «de tudo o que pertence ao âmbito da consciência de cada um». — A 5, face às execuções diariamente repetidas de combatentes da Comuna presos pelas tropas de Versalhes, foi promulgado um decreto destinado à detenção de reféns, mas nunca aplicado. — A 6, a guilhotina foi trazida pelo 137.° batalhão da Guarda Nacional e queimada publicamente no meio de ruidoso júbilo popular. — A 12, a Comuna decidiu derrubar, como símbolo do chauvinismo e do incitamento ao ódio entre povos, a coluna triunfal da Praça Vendôme, fundida por Napoleão com os canhões conquistados depois da guerra de 1809. Isto foi executado a 16 de Maio. — A 16 de Abril a Comuna ordenou um levantamento estatístico das fábricas paralisadas pelos fabricantes e a elaboração de planos para o funcionamento destas fábricas com operários nelas ocupados até então, a unir em associações cooperativas, assim como para a organização destas associações numa grande federação. — A 20, aboliu o trabalho nocturno dos padeiros assim como os serviços de emprego que desde o segundo Império funcionavam como monopólio de sujeitos nomeados pela polícia, exploradores de primeira linha dos operários; estes serviços foram atribuídos aos municípios dos vinte arrondis-sements(2*) de Paris. — A 30 de Abril ordenou a supressão das casas de penhores, que era uma exploração privada dos operários e estavam em contradição com o direito dos operários aos seus instrumentos de trabalho e ao crédito. — A 5 de Maio decidiu a demolição da capela de penitência construída como expiação pela execução de Luís XVI.

Evidenciou-se, assim, a partir de 18 de Março, o carácter de classe, incisivo e puro, do movimento parisiense, até então relegado para segundo plano pela luta contra a invasão estrangeira. Assim como naComuna quase só tinham assento operários ou representantes reconhecidos dos operários assim também as suas resoluções continham um decidido carácter proletário. Ou decretava reformas que só por cobardia a burguesia republicana deixara de fazer, mas que constituíam para a livre acção da classe operária uma base necessária, como a aplicação do princípio segundo o qual a religião, face ao Estado, é mero assunto privado; ou promulgou resoluções directamente no interesse da classe operária e em parte golpeando profundamente a velha ordem social. Mas tudo isto, numa cidade cercada, podia quando muito receber um começo de realização. E desde o começo de Maio, a luta contra as tropas do governo de Versalhes, reunidas em número cada vez maior, exigia todas as forças.

A 7 de Abril, os versalheses tinham-se apoderado da passagem do Sena, em Neuilly, na frente ocidental de Paris; em contrapartida, a 11 foram repelidos com baixas, na frente sul, por um ataque do generalEudes. Paris foi continuamente bombardeada, precisamente por aquela gente que tinha estigmatizado como um sacrilégio o bombardeamento da mesma cidade pelos prussianos. Esta mesma gente mendigava agora, junto do governo prussiano, a restituição acelerada dos soldados franceses prisioneiros de Sedan e Metz, que para ela deviam reconquistar Paris. A chegada gradual destas tropas deu aos versalhesesuma decidida supremacia desde o começo de Maio. Isto tornou-se evidente quando, a 23 de Abril, Thiers rompeu as negociações propostas pela Comuna para a troca do arcebispo de Paris(3*) e de toda uma série de outros padres retidos como reféns em Paris, só por Blanqui, duas vezes eleito para a Comuna, mas prisioneiro em Clairvaux. E mais ainda na alterada linguagem de Thiers; até aí contido e equívoco, tornou-se bruscamente insolente, ameaçador, brutal. Na frente sul, os versalheses tomaram a 3 de Maio a redoute(4*) de Moulin-Saquet, a 9 o Forte de Issy completamente em destroços, a 14 o de Vanves. Na frente oeste deslocaram-se pouco a pouco até à própria muralha principal, conquistando as numerosas aldeias e edifícios que se estendem até à muralha circular; a 21 conseguiram penetrar na cidade por traição e em consequência de negligência da Guarda Nacional ali colocada. Os prussianos, que ocupavam os fortes a norte e a leste, permitiram aos versalheses avançar no terreno que, pelo armistício, lhes estava interdito a norte da cidade, e atacar assim numa larga frente, que os parisienses deviam supor coberta pelo armistício e que por isso mantinham só pouco guarnecida. Em consequência disto, houve apenas uma fraca resistência na metade ocidental de Paris, na cidade de luxo propriamente dita; ela tornou-se mais violenta e tenaz à medida que as tropas invasoras se aproximavam da metade oriental, da cidade operária propriamente dita. Só depois de uma luta de oito dias, os últimos defensores da Comuna sucumbiram no alto de Belleville e de Ménilmontant; e então o massacre de homens, mulheres e crianças indefesos, que durante toda a semana grassara em medida crescente, atingiu o seu ponto culminante. A espingarda já não matava bastante depressa; às centenas, os vencidos eram abatidos à metralhadora. O «Muro dos Federados» no Cemitério do Père-Lachaise, onde foi consumado o último massacre em massa, está ainda hoje de pé, testemunho mudo e eloquente da raiva de que é capaz a classe dominante logo que o proletariado ousa defender o seu direito. Vieram depois as prisões em massa, quando se revelou impossível a chacina de todos, o fuzilamento de vítimas escolhidas arbitrariamente nas filas dos prisioneiros, a evacuação dos restantes para grandes campos, onde aguardavam comparência perante os conselhos de guerra. As tropas prussianas, que acampavam à volta da metade nordeste de Paris, tinham ordem de não deixar passar qualquer fugitivo, porém, os oficiais fecharam muitas vezes os olhos quando os soldados obedeciam mais ao imperativo de humanidade do que ao do comando supremo. Designadamente, é devida ao corpo expedicionário saxão a glória de se ter conduzido muito humanamente e de ter deixado passar muitos daqueles cuja qualidade de combatentes da Comuna era visível.

Se hoje, vinte anos depois, olharmos para trás, para a actividade e a significação histórica da Comuna de Paris de 1871, acharemos que há ainda alguns aditamentos a fazer à exposição dada em a Guerra Civil em França.

Os membros da Comuna dividiam-se numa maioria, os blanquistas[N132], que também tinham predominado no Comité Central da Guarda Nacional, e numa minoria: os membros da Associação Internacional dos Trabalhadores, predomínantemente seguidores da escola socialista de Proudhon. Os blanquistas, na grande massa, eram então socialistas só por instinto revolucionário, proletário; só uns poucos tinham chegado a uma maior clareza de princípios, através de Vaillant, que conhecia o socialismo científico alemão. Assim se compreende que, no aspecto económico, não tenha sido feito muito daquilo que, segundo a nossa concepção de hoje, a Comuna tinha de ter feito. O mais difícil de compreender é, certamente, o sagrado respeito com que se ficou reverenciosamente parado às portas do Banco de França. Foi também um grave erro político. O Banco nas mãos da Comuna — isso valia mais do que dez mil reféns. Significava a pressão de toda a burguesia francesa sobre o governo de Versalhes, no interesse da paz com a Comuna. Mas foi mais prodigioso ainda o muito de correcto que, apesar de tudo, foi feito pela Comuna, composta que era por blanquistas e proudhonianos. Naturalmente, os proudhonianos são responsáveis em primeira linha pelos decretos económicos da Comuna, pelos seus lados gloriosos como pelos não gloriosos, assim como os blanquistas pelos seus actos e omissões de carácter político. E quis em ambos os casos a ironia da história — como de costume, quando doutrinários chegam ao leme — que uns e outros fizessem o contrário do que lhes prescrevia a sua doutrina de escola.

Proudhon, o socialista do pequeno camponês e do mestre artesão, odiava a associação com positivo ódio. Dizia dela que comportava mais mal do que bem, que era por natureza infrutífera porque uma cadeia posta à liberdade do operário; que era um puro dogma, improdutivo e gravoso, em conflito tanto com a liberdade do operário como com a poupança de trabalho e que as suas desvantagens cresceriam mais depressa do que as suas vantagens; que a concorrência, a divisão do trabalho, a propriedade privada, seriam, frente a ela, forças económicas. Só para os casos excepcionais — como Proudhon lhes chama — da grande indústria e dos grandes corpos de empresas, caminhos-de-ferro, por exemplo, seria indicada a associação dos operários (ver Idée générale de la révolution, 3e étude).

E em 1871, mesmo em Paris, lugar central do artesanato de arte, a grande indústria tinha de tal modo deixado de ser um caso excepcional, que o decreto de longe mais importante da Comuna instituía uma organização da grande indústria e até mesmo da manufactura, que não só devia basear-se na associação dos operários em cada fábrica mas unificar também todas estas associações numa grande federação; em resumo, uma organização que, como diz Marx de maneira inteiramente correcta em a Guerra Civil, tinha de acabar por desembocar no comunismo, por conseguinte, no oposto directo da doutrina de Proudhon. E por isso, também, a Comuna foi o túmulo da escola proudhoniana do socialismo. Hoje esta escola desapareceu dos círculos operários franceses; aqui domina agora de maneira incontroversa a teoria de Marx, entre os possibilistas[N133] não menos do que entre os «marxistas». Só entre a burguesia «radical» há ainda proudhonianos.

Os blanquistas não se saíram melhor. Educados na escola da conspiração, mantidos coesos pela rígida disciplina que àquela corresponde, partiam da opinião que um número relativamente pequeno de homens decididos, bem organizados, seria capaz, num dado momento favorável, não só de tomar o leme do Estado mas também, pelo desdobramento de grande, de implacável energia, de o conservar até se conseguir arrastar a massa do povo para a revolução e agrupá-la em torno do pequeno núcleo dirigente. Para isso era necessária, antes de todas as coisas, a centralização mais estrita, ditatorial, na mão do novo governo revolucionário. E que fez a Comuna, que na maioria era precisamente composta por estes blanquistas? Em todas as suas proclamações aos franceses da província, exortava estes a uma livre federação de todas as comunas francesas com Paris, a uma organização nacional que, pela primeira vez, haveria de ser criada efectivamente por toda a nação. Precisamente o poder repressivo do governo centralizado anterior — exército, polícia política, burocracia — que Napoleão tinha criado em 1798 e que, desde então, cada novo governo tinha retomado como instrumento e utilizado contra os seus adversários, era precisamente esse poder que deveria cair por toda a parte, como já tinha caído em Paris.

A Comuna teve mesmo de reconhecer, desde logo, que a classe operária, uma vez chegada à dominação, não podia continuar a administrar com a velha máquina de Estado; que esta classe operária, para não perder de novo a sua própria dominação, acabada de conquistar, tinha, por um lado, de eliminar a velha maquinaria de opressão até aí utilizada contra si própria, mas, por outro lado, de precaver-se contra os seus próprios deputados e funcionários, ao declarar estes, sem qualquer excepção, revogáveis a todo o momento. Em que consistia a qualidade característica do Estado, até então? A sociedade tinha criado originalmente os seus órgãos próprios, por simples divisão de trabalho, para cuidar dos seus interesses comuns. Mas estes órgãos, cuja cúpula é o poder de Estado, tinham-se transformado com o tempo, ao serviço dos seus próprios interesses particulares, de servidores da sociedade em senhores dela. Como se pode ver, por exemplo, não meramente na monarquia hereditária mas igualmente na república democrática. Em parte alguma os «políticos» formam um destacamento da nação mais separado e mais poderoso do que precisamente na América do Norte. Ali, cada um dos dois grandes partidos aos quais cabe alternadamente a dominação é ele próprio governado por pessoas que fazem da política um negócio, que especulam com lugares nas assembleias legislativas da União e de cada um dos Estados, ou que vivem da agitação para o seu partido e são, após a vitória deste, recompensados com cargos. É sabido que os americanos procuram, desde há trinta anos, sacudir este jugo tornado insuportável e que, apesar de tudo, se atascam sempre mais fundo nesse pântano da corrupção. É precisamente na América que podemos ver melhor como se processa esta autonomização do poder de Estado face à sociedade, quando originalmente estava destinado a ser mero instrumento desta. Não existe ali uma dinastia, uma nobreza, um exército permanente — exceptuados os poucos homens para a vigilância dos índios — nem burocracia com emprego fixo ou direito à reforma. E, não obstante, temos ali dois grandes bandos de especuladores políticos que, revezando-se, tomam conta do poder de Estado e o exploram com os meios mais corruptos para os fins mais corruptos — e a nação é impotente contra estes dois grandes cartéis de políticos pretensamente ao seu serviço, mas que na realidade a dominam e saqueiam.

Contra esta transformação, inevitável em todos os Estados até agora existentes, do Estado e dos órgãos do Estado, de servidores da sociedade em senhores da sociedade, aplicou a Comuna dois meios infalíveis. Em primeiro lugar, ocupou todos os cargos administrativos, judiciais, docentes, por meio de eleição por sufrágio universal dos interessados, e mais, com revogação a todo o momento por estes mesmos interessados. E, em segundo lugar, ela pagou por todos os serviços, grandes e pequenos, apenas o salário que outros operários recebiam. O ordenado mais elevado que ela pagava era de 6000 francos. Assim se fechou a porta, eficazmente, à caça aos cargos e à ganância da promoção, mesmo sem os mandatos imperativos que, além do mais, no caso dos delegados para corpos representativos ainda foram acrescentados.

Esta destruição do poder de Estado até aqui existente e a sua substituição por um novo, na verdade democrático, está descrita em pormenor no terceiro capítulo da Guerra Civil. Mas era necessário entrar resumidamente aqui, mais uma vez, nalguns traços daquele porque, precisamente na Alemanha, a superstição do Estado transpôs-se da filosofia para a consciência geral da burguesia e mesmo de muitos operários. Segundo a representação filosófica, o Estado é a «realização da Ideia», ou o reino de Deus na terra traduzido para o filosófico, domínio onde se realizam ou devem realizar-se a verdade e a justiça eternas. E daí resulta, pois, uma veneração supersticiosa do Estado e de tudo o que com o Estado se relaciona, a qual aparece tanto mais facilmente quanto se está habituado, desde criança, a imaginar que os assuntos e interesses comuns a toda a sociedade não poderiam ser tratados de outra maneira do que como têm sido até aqui, ou seja, pelo Estado e pelas suas autoridades bem providas. E crê-se ter já dado um passo imensamente audaz quando alguém se liberta da crença na monarquia hereditária e jura pela república democrática. Mas, na realidade, o Estado não é outra coisa senão uma máquina para a opressão de uma classe por uma outra e, de facto, na república democrática não menos do que na monarquia; no melhor dos casos, um mal que é legado ao proletariado vitorioso na luta pela dominação de classe e cujos piores aspectos ele não poderá deixar de cortar imediatamente o mais possível, tal como no caso da Comuna, até que uma geração crescida em novas, livres condições sociais, se torne capaz de se desfazer de todo o lixo do Estado.

O filisteu social-democrata caiu recentemente, outra vez, em salutar terror, à palavra: ditadura do proletariado. Ora bem, senhores, quereis saber que rosto tem esta ditadura? Olhai para a Comuna de Paris. Era a ditadura do proletariado.

Londres, no vigésimo aniversário da Comuna de Paris, 18 de Março de 1891. F. Engels
Publicado na revista Die Neue Zeit. Bd. 2, n." 28, 1890-1891, e no livro: Karl Marx, Der Burgerkrieg in Frankreich, Berlin, 1891. Publicado segundo o texto do livro, Traduzido do alemão.


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Notas de rodapé:

(1*) Ver o presente tomo, p. 216. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(2*) Em francês no texto: termo que designa, em França, uma divisão territorial e administrativa. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(3*) Darboy. (retornar ao texto)
(4*) Em francês no texto: fortificação geralmente rodeada por um fosso. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
Notas de fim de tomo:
[N21] Insurreição de Junho: insurreição heróica dos operários de Paris em 23-26 de Junho de 1848, reprimida com excepcional crueldade pela burguesia francesa. A insurreição foi a primeira grande guerra civil da história entre o proletariado e a burguesia. (retornar ao texto)
[N102] Depois de derrotadas na guerra austro-prussiana de 1866, e quando se intensificava a crise do Estado austríaco multinacional, as classes dirigentes da Áustria estabeleceram conversações com os latifundiários da Hungria e em 1867 subscreveram um acordo sobre a formação da monarquia dualista da Áustria-Hungria. (retornar ao texto)
[N109] A 2 de Setembro o exército francês foi derrotado em Sedan e feito prisioneiro, juntamente com o imperador. Entre 5 de Setembro de 1870 e 19 de Março de 1871 Napoleão III e os comandantes do exército estiveram presos em Wilhelmshöle (perto de Kassel), num castelo do rei da Prússia. A catástrofe de Sedan acelerou a derrocada do Segundo Império e levou à proclamação da república em França a 4 de Setembro de 1870. Foi formado um novo governo, o chamado «governo da defesa nacional». (retornar ao texto)
[N122] A presente introdução foi escrita para a terceira edição alemã do trabalho de Marx A Guerra Civil em França, publicada em 1891 para comemorar o vigésimo aniversário da Comuna de Paris. Depois de apontar o significado histórico da experiência daComuna de Paris e da sua generalização teórica por Marx em A Guerra Civil em França, Engels, na sua introdução, acrescentou um certo número de dados referentes à história da Comuna de Paris, em particular sobre a actividade dos blanquistas e dos proudhonistas participantes na Comuna. Nesta edição Engels incluiu a primeira e a segunda mensagens, escritas por Marx, do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores sobre a guerra franco-prussiana, que nas edições posteriores nas diferentes línguas foram também publicadas juntamente com A Guerra Civil em França. (retornar ao texto)
[N123] Trata-se da guerra de libertação nacional do povo alemão contra o domínio napoleónico em 1813-1814. (retornar ao texto)
[N124] Demagogos era o termo com que, na Alemanha dos anos 20 do século XIX, eram designados os participantes no movimento de oposição entre a intelectualidade alemã, que actuavam contra o regime reaccionário nos Estados alemães e exigiam a unificação da Alemanha. Os «demagogos» foram cruelmente perseguidos pelas autoridades alemãs. (retornar ao texto)
[N125] A lei de excepção contra os socialistas foi adoptada na Alemanha em 21 de Outubro de 1878. De acordo com a lei foram proibidas todas as organizações do Partido Social-Democrata, as organizações operárias de massas e a imprensa operária, a literatura socialista foi confiscada e os sociais-democratas foram perseguidos. Sob a pressão do movimento operário de massas a lei foi revogada a 1 de Outubro de 1890. (retornar ao texto)
[N126] Trata-se da revolução burguesa de Julho de 1830 em França. (retornar ao texto)
[N127] Trata-se da guerra civil que se prolongou de 44 a 27 a.n.e, e que terminou com a instauração do Império Romano. (retornar ao texto)
[N128] Trata-se dos legitimistas, dos orleanistas e dos bonapartistas.
Legitimistas: partidários da dinastia dos Bourbons, derrubada em França em 1792, que representava os interesses da grande aristocracia rural e do alto clero; formou-se como partido em 1830, depois do segundo derrubamento desta dinastia. Em 1871 os legitimistas participaram na campanha geral das forças contra-revolucionárias contra a Comuna de Paris.
Orleanistas: partidários dos duques de Orleães, ramo da dinastia dos Bourbons que subiu ao poder durante a Revolução de Julho de 1830 e que foi derrubado com a revolução de 1848; representavam os interesses da aristocracia financeira e da grande burguesia. (retornar ao texto)
[N129] Trata-se do golpe de Estado realizado por Louis Bonaparte em 2 de Dezembro de 1851 e que marcou o início do regime bonapartista do Segundo Império. (retornar ao texto)
[N130] A primeira república foi proclamada em 1792 durante a grande revolução burguesa francesa do século XVIII e substituída em 1799 pelo Consulado e depois pelo Primeiro Império, de Napoleão I Bonaparte (1804-1814). Neste período a França travou numerosas guerras, em resultado das quais se alargaram consideravelmente as fronteiras do Estado. (retornar ao texto)
[N131] Trata-se do tratado de paz preliminar entre a França e a Alemanha, subscrito em Versalhes em 26 de Fevereiro de 1871 por Thiers e J. Favre, por um lado, e por Bismarck, por outro lado. De acordo com as condições deste tratado, a França cedia à Alemanha a Alsácia e a Lorena Oriental e pagava uma indemnização de cinco mil milhões de francos. O tratado de paz definitivo foi assinado em Frankfurt am Main a 10 de Maio de 1871. (retornar ao texto)
[N132] Blanquistas: partidários da corrente do movimento socialista francês chefiada por Louis Auguste Blanqui, destacado revolucionário, representante do comunismo utópico francês. O lado fraco dos blanquistas era a sua convicção de que a revolução poderia ser realizada por um pequeno grupo de conspiradores, a sua incompreensão da necessidade de atrair as massas operárias para o movimento revolucionário. (retornar ao texto)
[N133] Possibilistas: corrente oportunista do movimento socialista francês, chefiada por Brousse, Malon e outros que em 1882 provocaram uma cisão no Partido Operário Francês. Os dirigentes desta corrente proclamavam o princípio reformista de procurar alcançar apenas o «possível»; daí o seu nome.

Fonte: http://www.cstpsol.com/viewnoticia.asp?ID=347