FONTE: Izquierda Socialista (Seção da UIT-QI na Argentina) - Outubro de 2012.
A greve de "gendarmaria" e "prefectos" (categorias policiais) na Argentina por reivindicações salariais e o apoio aos mesmos, como ao direito de formar sindicatos formulada por Izquierda Socialista, entre outras organizações, tem gerado uma nova polêmica na esquerda.
Apoiar as reivindicações salariais da polícia não significa reivindicar a instituição repressora patronal
Este debate não é novo na esquerda internacional, já que há correntes como a que encarna o PTS - Fração trotskista, que vem se opondo a toda e qualquer greve policial ou de outras forças em qualquer país do mundo em que ocorram. Assim como seus pequenos grupos de afinidade do Brasil e da Bolívia, que, com argumentos semelhantes, se opuseram à greve dos bombeiros no Rio de Janeiro ( Brasil) e a greve da polícia de baixa patente da Bolívia. Ambas as greves foram reprimidas pelos governos de centro-esquerda de Dilma Russef e Evo Morales.
É um debate muito importante pois faz parte da estratégia revolucionária e as questões sobre as quais o marxismo sempre debateu e adotou posições. O marco é fornecido pelas resoluções da III Internacional e as experiências revolucionárias do século XX.
Consideramos que a negação de intervir com uma política de classe nas greves das polícias vai contra a tradição do marxismo revolucionário.
1) A citação de Trotsky, usada pelo PTS através do seu dirigente Christian Castillo e pelo Professor Rolando Astarita sobre a Alemanha na década de 30 contra a polícia, não corresponde a um caso de greve da polícia ou de bombeiros, ou rebeliões salariais ou por reivindicações da base e dos quadros médios militares. Sua utilização é a negação do método marxista. Com citações mal utilizadas se pode fingir que se prova qualquer coisa. Trotsky, quando refere-se corretamente ao papel repressivo e burguês da polícia alemã: "o trabalhador, convertido em policial a serviço do Estado capitalista, é um policial burguês e não um trabalhador", está discutindo uma polêmica com a social-democracia alemã, quando esta se recusava (1932) a mobilizar a classe trabalhadora contra o avanço político das gangues fascistas de Hitler e do partido nazista. A social-democracia, que apoiava o regime burguês do momento, argumentava que só iria parar com a polícia nos marcos da Constituição e da justiça burguesa do governo e do regime. Argumentava em seu favor, dizendo que a maioria dos policiais eram de origem "operária" e filiados à social-democracia. (Ver em "A luta contra o fascismo na Alemanha", Capítulo "A social-democracia", Editora Pluma, 1973, p. 93 e seguintes). Polemiza e denuncia uma política traidora e reformista que considerava a instituição policial como "progressista", enquanto desmobilizava a classe trabalhadora alemã. Seu slogan era "Estado, intervenha". É o oposto da nossa postura, a dos verdadeiros marxistas. Em nenhum momento reivindicamos a "polícia" nem a instituição burguesa repressora "Gendarmería" ou "Prefectura". Apoiamos as reivindicações salariais da base e quadros médios contra os comandos superiores e o governo burguês de turno.
2) O PTS e o professor Astarita vão contra toda a tradição do marxismo e de nossos mestres Lênin e Trotsky. O PTS - que alega ser um partido revolucionário - não cumpriria com as 21 condições da III Internacional, que no seu ponto 4 assinala: "O dever de difundir as idéias comunistas implica a necessidade absoluta de desenvolver uma propaganda e uma agitação sistemática e perseverante entre as tropas. Onde a propaganda ostensiva seja difícil por causa das leis de exceção, deve se desenvolver ilegalmente; recusar-se a fazê-lo seria uma traição às exigências do dever revolucionário e, por consequência, incompatível com a filiação na Terceira Internacional". O ponto é uma condição clara e excludente para ser da internacional, porque se considera traição. Esta resolução é do Segundo Congresso, liderado por Lênin e Trotsky.
3) O argumento de que não se pode apoiar porque "eles não são trabalhadores" é desmentido pela resolução da Terceira Internacional. É evidente que a Terceira não considerava e nem argumentava que a agitação tinha que se fazer porque eles seriam trabalhadores, partia de que eram as forças repressivas do Estado burguês. Por que, então, recomendou essa agitação sistemática? Porque considerava que era parte da estratégia revolucionária ter uma política para tentar dividí-las ou paralisá-las para quando chegasse o momento de uma insurreição operária e popular. Eles se baseavam na experiência revolucionária.
4) O argumento de que só em situações de insurreição proletária ou de massas se pode ter uma agitação e política para agir sobre as forças repressivas é falso. O ponto 4 da Terceira Internacional não coloca essa condição.
5) Lenin levantava, nos acontecimentos revolucionários de 1905, que tinham que apoiar as reivindicações salariais e melhorias nos serviços exigidos pelos soldados e pelos marinheiros das forças armadas czaristas. "Os soldados de São Petersburgo querem melhores vestuários, alojamentos e cobram aumentos salariais" [...] "não é possível permanecer à margem da luta de todo o povo pela liberdade. Quem mostrar indiferença para com esta luta, de fato apoia os desmandos do governo da polícia" (ver "Duas táticas da social-democracia na revolução democrática", julho de 1905)
6) O argumento de que apoiar melhores salários é igual a apoiar o reforço do aparelho repressivo, é tão ridículo quanto dizer que Lenin, ao apoiar as reivindicações salariais dos soldados e marinheiros do regime czarista, era um traidor que ajudava a que o aparelho criminoso czarista ficasse mais forte para continuar assassinando ao proletariado e aos camponeses russos.
7) Também observou Trotsky - em polêmica com os pacifistas e os reformistas que viam a impossibilidade de enfrentar o poder burguês pelas suas forças repressivas e seu poderoso armamento -, "por trás de cada máquina há homens, ligados por relações não apenas técnicas, mas também sociais e políticas" ("Para onde vai a França?", Editora Pluma, 1974, página 37). Em outras palavras, disse que com uma política correta se poderia ganhar ou paralisar setores dessas forças repressivas.
8) O PTS, há tempos dá cursos sobre Clausewitz, um dos maiores teóricos da arte militar. Mas esquece de um de seus ensinamentos mais importantes, que gostava de citar Trotsky neste trabalho e outros. Que a guerra civil é a continuação da política por outros meios. É evidente que quando se chega à beira de uma guerra civil ou de uma insurreição, que enfrenta a repressão das forças repressivas, é vital ter uma política mais radical na base destas forças (incluindo a auto-defesa de trabalhadores), dividi-las ou paralisa-las, incluindo apoiar suas reivindicações salariais ou outras reivindicações. Mas, por que essa política não é válida quando não há guerra ou insurreição, se, segundo Clausewitz, esta é a continuação "da política por outros meios"? Em tempos de "paz" é necessário que exista essa política preparatória, como aconselhava a Terceira Internacional, e não esperar por uma insurreição ou o início de uma guerra civil. Parte dessa preparação é a agitação política e propagandística e parte dela é buscar aprofundar, com as políticas corretas, as divisões conjunturais ou muito excepcionais que se provocam nas forças repressivas do regime burguês, como são as greves salariais que, objetivamente, vão contra as normas burguesas básicas, que são o não reinvindicar, o obedecer às ordens, não usar os métodos do movimento operário como as greves ou tentativas de formar sindicatos. Neste contexto, apoiar as greves da polícia, de bombeiros ou outras forças militares é correto com a condição de que não se reivindique à instituição burguesa repressiva e de uní-la às lutas da classe trabalhadora.
9) As greves policiais ou de forças semelhantes se dão precisamente em tempos de grande tensão social de um país. As rimeiro que se conheceram foram na Inglaterra de 1918-1919, onde surgiram os primeiros sindicatos, varridos pelo Império Britânico. O professor Astarita dá como prova de que não é lógico propor sindicatos policiais e nem apoiar as suas greves, porque depois dessa greve histórica e de ter um sindicato, a polícia britânica não mudou e permaneceu reprimindo. O detalhe que está faltando a este pseudo erudito do marxismo, é que o governo imperialista britânico demitiu e deu baixa a mais de mil policiais daquela greve heróica. As greves policiais de 1918-1919 eram parte da onda operária revolucionária pós revolução russa. Que haja greves da polícia e surjam sindicatos (como existem na França e em outros países europeus) não muda o caráter das forças repressivas de um Estado burguês, isso só pode ocorrer quando triunfe uma revolução socialista e surja um Estado operário que as dissolva. Hoje as greves policiais são comuns na Grã-Bretanha, na Europa e no mundo, em meio ao aprofundamento da crise social capitalista. Não se conhece um caso de que tenham sido rejeitados pelos trabalhadores quando eles se juntaram a luta. Por sua vez, esses mesmos policiais são repudiados e enfrentados quando reprimem aos trabalhadores e a juventude. É a realidade, com todas as suas contradições. Querer substituí-la por esquemas e citações mal utilizadas não serve para nada mais que afastar os trabalhadores de uma verdadeira política de classe e revolucionária. E favorecer objetivamente, por sua infantilidade, ao governo e ao regime capitalista de turno, como o governo peronista de Cristina Kirchner, que também questiona as greves da polícia e dos gendarmes. Por outro lado, ao não apoiar e repudiar essas reivindicações, abandona-se a luta estratégica de buscar dividir ou neutralizar a setores das forças repressivas, uma das tarefas chave da classe trabalhadora e dos socialistas revolucionários.
Outro esclarecimento para PTS
Em uma nota polêmica com um artigo dessa página, o dirigente do PTS Jonatan Ros escreve: "Clausewitz escreveu a famosa frase "A guerra é a continuação da política por outros meios". No entanto, Sorans diz, tentando citá-lo que "a Guerra Civil (sic) é a continuação da política por outros meios". Sem fingir que Miguel Sorans (ou IS) estude sistematicamente a Clausewitz, como fazemos no PTS, seria bom, pelo menos, que lessem a Lênin e Trotsky que citam inúmeras vezes a conhecidíssima "fórmula" do teórico militar prussiano, que como todo mundo sabe não fala de "guerra civil" ( La Verdad Obrera, 18/10/12).
Neste sentido, gostaríamos de esclarecer ao autor e aos leitores de La Verdad Obrera que Sorans não citou a Clausewitz, mas, simplesmente, repetiu a Leon Trotsky. Para seu conhecimento reproduzimos a citação: "A Guerra Civil, temos dito após Clausewitz, é a continuação da política, mas por outros meios" ("Aonde vai a França?", Leon Trotsky, página 40, Editora Pluma, Buenos Aires, 1974).
Sobre este blog:
Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
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domingo, 25 de maio de 2014
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
A morte de Nelson Mandela
Escrito por Miguel Lamas, jornal "O Socialista" 12/12/13, de Izquierda Socialista, seção Argentina da Unidade Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional.
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| As duas faces da trajetória de Mandela. A da luta revolucionária contra o regime racista e a posterior, de suporte do capitalismo na África do Sul. |
Todos o elogiam porque, dizem eles, soube "reconciliar" os brancos e negros na África do Sul.
Mas nem todos o lamentaram pela mesma razão. A maioria negra (80% de 50 milhões de habitantes) venera Mandela como um libertador, um herói nacional que liderou a luta contra o sinistro regime racista do apartheid.
O apartheid
O regime do apartheid (separação) foi imposto pela minoria branca colonialista descendente de ingleses e holandeses que haviam colonizado o país desde o século XVII. Os negros não tinham direito ao voto, não podiam entrar em bairros brancos, nem em hotéis, escolas, hospitais ou transportes "para brancos". Em 300 anos de colonialismo haviam sido despojados de quase tudo: as melhores terras e a propriedade das minas e fábricas estava (e ainda está) nas mãos dos brancos. Aos negros se reservou o papel de mão de obra barata.
Por ter liderado a luta revolucionária nacionalista negra, liderando o Congresso Nacional Africano (CNA), Mandela foi preso durante 27 anos, desde 1963 à 1990, entre os 44 e os 72 anos de idade. A rebelião dos negros, liderada pelo CNA e a central operária COSATU, que incluiu a resistência armada, foi sangrentamente reprimida, milhares de ativistas negros foram presos, torturados e assassinados. Mesmo assim a rebelião não se deteve e conseguiu apoio mundial, dos povos africanos e dos afro-norteamericanos, que realizaram um boicote planetário contra o regime racista. Mandela, encabeçando o CNA, foi o grande líder da revolução para destruir a ditadura do apartheid. Por esse fato Mandela foi amado por seu povo. Contudo, e com a influência do Partido Comunista Sul-Africano e o castrismo, já dizia que seu objetivo não era uma revolução socialista.
Queda do apartheid
Em 1990, o regime do apartheid foi isolado internacionalmente, diante de uma rebelião negra imparável. Em 1990, Mandela, ainda preso, pediu para se encontrar com Frederick Le Klerk, chefe do governo racista, e propôs um acordo para que o libertassem da prisão: suprimir o regime do apartheid e convocar eleições com base em "um homem, um voto", a consigna democrática negra. Em troca, Mandela se comprometeu a garantir as propriedades dos brancos e deixar impune o genocídio contra os negros. Mandela explicou a Le Klerk que essa era a única maneira de "reconciliar" brancos e negros, e que, caso não aceitasse esse acordo, a revolução negra seria imparável e os capitalistas racistas brancos perderiam tudo. Le Klerk aceitou o acordo.
A queda do apartheid não foi uma concessão generosa de Le Klerk, mas um triunfo revolucionário das massas negras. Mas, com o acordo com Mandela, conseguiram impedir o desenvolvimento da revolução até seu cume, o que significava a expropriação de terras e minas que os colonizadores brancos tinham roubado do povo negro. Impediram a vitória de uma revolução socialista. O acordo foi uma traição a essa luta. Assim, Mandela e o CNA no governo, desempenharam o mesmo papel que na Nicarágua cumpriu o sandinismo quando derrubou Somoza em 1979, ou Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, o PT de Lula no Brasil. Ao serem direções partidárias da conciliação de classes, para manutenção do capitalismo, por serem "parceiros das transnacionas" (como disse Evo Morales), traíram os objetivos sociais da revolução, pactuando com os capitalistas. No caso da África do Sul, com os capitalistas brancos.
O CNA ganha as eleições
Foi assim que, em 1994, o CNA venceu as eleições levando Nelson Mandela à presidência, que incluiu em seu governo o antigo chefe racista Frederico Le Klerk.
Uma minoria de capitalistas negros, a maioria deles novos ricos líderes do CNA, puderam acessar a lugares anteriormente proibidos. Mas praticamente não houve nenhuma mudança em relação ao poder econômico monopolizado pelos brancos que seguem sendo donos das terras, minas, fábricas e grandes cadeias comerciais. Chegando à África do Sul de hoje, um país com igualdade jurídica, mas com a maior desigualdade social do mundo, com 50% de pobres (quase todos negros) e 12% do povo com AIDS.
O próprio governo de Mandela começa a aplicar um duro plano neoliberal. Os negros que antes não tinham acesso a hospitais ou escolas para brancos, agora tampouco podem fazê-lo. Porque foram privatizados e seu preço é proibitivo. Em 1999, termina o mandato de Mandela, que se retira. Os presidentes que o sucedem, também do CNA, Thabo Mbeki e logo o atual Jacob Zuma, aprofundaram o modelo capitalista neoliberal.
A "reconciliação" fracassou
No funeral de Mandela o atual presidente negro Jacob Zuma, do partido de Mandela, foi vaiado. O desastre social produzido pelo capitalismo, ainda dominado por brancos, trouxe de novo a maioria negra à uma nova revolução. Assim é demonstrado pelas grandes greves dos últimos dois anos. Uma greve emblemática foi a da mina de platina Marikana, no ano passado, onde 34 mineiros foram assassinados por negros comandados por brancos. As imagens abalaram o país porque pareciam ter saído dos tempos do apartheid. O forte movimento operário negro está se reorganizando e em muitos sindicatos se abriu uma dura luta contra a burocracia sindical que responde ao CNA.
Este ano, durante dois meses, havia centenas de milhares de trabalhadores em greve, na construção civil, metalurgia, mineração e funcionários públicos. O NUMSA, sindicato metalúrgico com 400.000 trabalhadores, liderou uma das greves mais duras e ameaçou retirar o apoio ao governo nas próximas eleições. Este fato por si só abre a discussão sobre a necessidade de uma alternativa política dos trabalhadores para conduzir uma nova revolução socialista que liquide o poder capitalista na África do Sul.
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