Certo. Então é isso.
Estou de férias de novo.
E todo aquele tempo que nunca perdi e que há tanto queria reclamar está de volta à minha disposição, justamente como sempre esteve. Foi-se o esquecimento cotidiano da minha autonomia, fruto das minhas assumidas obrigações e decorrentes preocupações. Tenho meu tempo integralmente meu novamente. Tenho-me integralmente meu novamente. E posso fazer de mim o que bem entender dentro dos limites do que eu puder. Sem remorsos por esta liberdade momentânea, sem inconvenientes horários pra cumprir comendo meu dia, sem pulga atrás da minha orelha de cachorro vadio. Vadio como todo e qualquer animal não adestrado, desencumbido, livre. Bela e naturalmente vadio. [não simpatizo com os cães-de-guarda, os cães-de-caça... prefiro os humildes vira-latas que vagueam em paz.]
O que se faz com essa consciência clara de momento atual?
Dar-me conta da potencialidade do agora sempre gera um susto, uma inquietude súbita. Quando não há ninguém por perto dando um palpite, mesmo que subentendida e condicionadamente, sobre o rumo que tudo deve tomar. Pois, sabe, a vida é toda nossa, por uma questão natural irrefutável e incontrariável, e, mesmo assim, acaba não sendo, de certa forma. Por motivos de influência, de pressão, de reflexo, de assimilação, de reprodução, de vício, de submissão, de ignorância, de ilusão e tantas, tantas, tantas outras significações e abstrações que as palavras podem e não podem abarcar em suas balisas... Perceber o poder inerente à condição de ser humano atento, mesmo que minimamente, é chocante. E idiota. Tanto quanto é sábio... E inútil. Porque, afinal, tudo que nós sabemos não passa de uma bagunça tendenciosa e pretenciosa. O que me leva a dizer uma coisa dessas? Bem, por acreditar que: na verdade, ninguém sabe nada.
A certeza é pretensão de quem diz possuí-la. E, se for o caso de mencionar agora [por lembrar daquela tal palavra, a "onisciência"], quanto a deus: ninguém o sabe também. Fé não é saber.
Sabe a única coisa que real e simplesmente fazemos? Só concordamos ou discordamos. Aceitamos ou rejeitamos. Porque nada do que há disposto aqui é cabalmente verificável e/ou compreensível. Somos recipientes, depósitos, repertórios de conceituações... O mundo são as informações que nós recebemos, recebemos e recebemos, sem parar de receber. Pois raramente produzimos, desenvolvemos, criamos informações. Pois raramente produzimos o mundo. [geralmente produzimos uns envólucros, umas cascas ocas de mundo. Um punhado de vazio. Ausências de sentimento. Mercadoria em série, repetitiva, cópia de cópia de cópia...]
Predominantemente passivos como ovelhas no pasto...
[Pior: As ovelhinhas que vão pro matadouro levadas por algum pastor.]
Tudo o que podemos afirmar, quando nós alcançamos algum nível de dicernimento coerente, é: "Sou um ignorante." Porque todos os juízos são projeções da presunção de alguém... Inclusive este aqui que ofereço, tolo que é... Nós só podemos falar por nós, pois somos a única coisa que realmente entendemos de algum modo. Nos entendemos como consciência, tudo o que somos, apenas somando-se algumas capacidades físicas e só. Ponto final. Não podemos sair falando da composição, das origens, das finalidades das coisas, pois não as sabemos. Não podemos ficar falando de espíritos, almas, maldições, folclores, misticismos, mundos mágicos inalcansáveis, personalidades fantásticas, paraíso ou deus, se não somos nada disso. O máximo que podemos é: dar nomes e meramente PROCURAR os modos sistematizados de apreender, compreender e explicar o mundo. E muitas vezes remoemos as concepções alheias de mundo, informações que recebemos.
Tudo é pura assimilação. Tudo é o fruto da relação pessoa-mundo. Tudo é personalíssimo. O personalíssimo é o mundo... Toda pessoa é tão ignorante quanto qualquer outra. Mas existem as humildes o suficiente pra admitir e as iludidas demais pra compreender.
Fora as divagações inúteis, aqui estou eu novamente. Acordado. Ligado no meu tempo, no meu espaço. Fazendo um pouco do meu nada, que é o tudo que tenho:
eu.
Sobre este blog:
Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
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