Aqui, onde há tanta infelicidade e fatalidade distribuídas sobre a vida humana e tanta, tanta pressa nos tomando tempo. Em meio a descobertas fantásticas, avanço tecnológico exponencial, construções magníficas, constatações científicas mirabolantes, velocidade, cores, sabores e lascívia coordenada. O mínimo não é satisfeito, mas evitado ao máximo.
Em meio a todo o êxtase sintético das drogas visuais, sonoras, líquidas, ingeríveis, aplicáveis e inaláveis pelas esquinas apinhadas de zumbis, em ruas apinhadas de fantasmas, conglomerado de corpos sem cérebro, em tráfegos sintilantes, em fluxos metalizados, cantos de pneu e veneno motociclístico, impulsividade desvairada e alienação alquímica… A histeria é a língua-mãe, a lógica é caótica.
Nesse mundo onde existem gigantes invisíveis brincando conosco… Nos submetendo a normas invisíveis, axiomática robótica, dogmática psico-emocional, o Poder legisla dores e executa horrores em julgamentos torpes. Linearidade em rumo ao fim, como uma locomotiva rumo ao abismo.
Nesse mundo onde o níquel manda, barra, espele ou suga o fluxo de corpos-mercadoria que perambulam vãos, com medo, sozinhos, secretos, doentes, suicidas, fugindo nas sombras e nas luzes, na quietude, nas festas e futilidades o tempo todo, fugindo daquele imenso e crescente monstro neles alojado, que os devora todos os dias, todas as noitas, em cada sonho aturdido surgindo nefasto, o monstro do vazio, o monstro que dorme debaixo da cama daquele adulto, daquele diligente e profissional “ser humano”, derramando lágrimas silenciosas, molhando travesseiros mudos que não consolarão, embasando vícios, o buraco-negro cresce…
O eco eterno das mazelas humanas dentro das linhas demarcadoras de cada país, em cada esquina recolhida sob papelões e agasalhos, em bastidores de lojas, fábricas, cozinhas de família e linhas de ônibus, mãos humanas estendidas. Eco das crianças, crianças… Da fome, fome… E miséria, miséria… A pobreza, pobreza… E morte, morte… E o ciclo dos filhos destas crianças "sem sorte" que passarão fome também, revivendo a sina de seus pais amaldiçoados - não pelo acaso, mas pelo descaso!
Nesse mundo onde pessoas compram pão toda manhã, enquanto outros mal comem, ou comem lixo; onde crianças saem de casa e pegam o ônibus para ir a escola, enquanto outras ainda sem comer, na rua, sem casa, sobem ao mesmo ônibus para pedir e descem para cheirar; onde, nesse exato instante no qual digito, alguém definha, enquanto não sei colher palavras suficientes para demonstrar o meu compadecimento, nem notas ou acordes, nem linhas e cores para expressar minha raiva, nem lágrimas e auto-açoitamento para aliviar meu pesar… Mundo onde odeio a idéia de um Deus, com todas as minhas forças, por este não fazer nada diante do sofrimento de seus ditos filhos amados, largando-os para os bichos sujos e morte indigna, produto de uma vida indigna…
Nesse mundo, no qual existe muita riqueza disponível para poucos e migalhas miúdas para todo o resto de nós… Num mundo cruel como este, a sensibilidade sempre chora dentro de nós. Pingando na poesia, na música, no teatro, na literatura, no cinema, no seu quarto, nas ruas, nas praças, na voz, nas mãos, nos passos daqueles que, ainda assim, vão adiante em busca de um sonho, mesmo que distante, porque sentem… Sentem muito.
Que quem não sente, não é gente.
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