Meus pais
são católicos. Outros tantos parentes próximos também. Cresci até
bem familiarizado com algum punhado de elementos religiosos como: terços rezados
junto ao rádio, novenas em casa de vizinhos, missas de domingo, catequese, leitura
bíblica... Minha rua era cheia de meninos e meninas envolvidos com a igreja.
Coroinhas, catequistas, aspirantes à freiras e padres que conviviam nas
redondezas de minha comunidade, nas outras ruas onde faziam amizades. Se
visitavam, se buscavam para ir à igreja, comemoravam aniversários, etc. A
igreja esteve bem próxima quando da primeira vez que presenciei a morte de um
ente querido e, sempre em alguns dias especiais do ano, ela fazia seus discursos.
Apesar dessa
proximidade, nunca participei tanto quanto meus irmãos mais velhos, meus
parentes em geral e os demais conhecidos. Talvez pelas circunstâncias próprias da minha infância em particular... Verdade seja dita: sempre fui um marginal. Não por opção, mas simplesmente
por condições objetivas casuais. Sempre estive à margem da participação com a
galera da minha rua, à margem do futebol, à margem das brincadeiras e jogos, à
margem dos grupos da igreja, etc... Porque fui concebido entre grupos etários diferentes.
Tinha a galera mais velha que eu e tinha a galera mais nova que eu – sempre tento
fugir dessa constatação, mas, por mais repetitivo que isso soe dentro da minha
cabeça, enquanto alguma espécie de mágoa, de rancor, é desinraizável de uma
análise séria a respeito do que hoje sou. Então,
dada essa condição de filho do meio que não anda com os amigos dos irmãos mais
velhos e tampouco se sente à vontade em estar com seu irmão caçula e seus
amigos mais novos, fiquei só. Não para sempre, mas por um bom tempo.
Hoje vejo que, sem saber naquela época, o meu sentimento era mais de que a igreja consistia em mais um espaço de participação social, de interação – não
tinha nada a ver com buscar respostas, nem salvação, nem nada. Era outro espaço de participação e, pior!, espaço no qual eu não podia participar. Por razões óbvias. Então, depois de algumas
tentativas frustradas e até bastante humilhantes, desisti de insistir em participar. Aceitei minha
condição de solitário. Ficava em casa desenhando, pensando, me distraindo sozinho.
Mas, voltando a igreja, ainda cheguei a
fazer 3 anos de catequese. Acho que eu tinha uns 12 ou 13 anos de idade. Não lembro mais se era aos sábados ou domingos as aulas... Só
lembro que a catequese durava apenas 1 ano. Pena que depois ela passou a durar
2, quando "reprovei", hahaha! Frequentei missas, li a bíblia em casa, me confessei, coisas assim. Mas nunca houve
aquela “comunhão”, acho. Na igreja nunca me senti
em casa porque, de fato, nunca me pareceu um ambiente familiar... Claro que quando criança
eu tive alguns pesadelos com o inferno, com o fim do mundo, com condenações
divinas, esses amedrontamentos e sensações de culpa que a igreja gosta de martelar na nossa cabeça pra manter uma espécie de controle coercitivo, uma aproximação à base de ameaças.
No entanto, terminada
a catequese parei de freqüentar tudo.
Claro que ano após
ano as datas retornam. Círio, Natal e Páscoa, dentre outros momentos marcados no calendário, alguma coisa dos católicos é cobrada... Algumas vezes
fui à missa com a família, algumas vezes participei de alguma novena, algumas outras vi a
Santa passar na multidão, tiveram vezes que escutei o Papa falar na virada do ano, assim como fiz uma ou outra passeata cristã, algumas
vezes n’algum momento de perplexidade orei, rezei, pedi por alguma solução, angustiado atrás de um ombro amigo. Mas
tudo isso, toda essa “conexão” foi amiudando, esmorecendo, fragilizando,
perdendo o sentido, até que chegou o tempo em que eu nem sequer refletia mais sobre o assunto...
Também
existiu um período que, por influência de um primo, me aproximei de alguma
doutrina evangélica que nem sei mais direito qual era. Era ele quem sabia. Não cheguei a
participar de culto nem nada assim, mas me contagiei um pouco com os entusiasmos dele, as histórias e o até pelo proselitismo que ele praticou sobre mim durante
um tempo. Parecia uma coisa mais atenciosa, parecia mais acolhedor o método
todo. Mas ao final me vi só outra vez. Parecia que aquele pessoal gostava mais de calcular "almas convertidas", mas não sabia
muito bem fazer um acompanhamento que "mantivesse" as almas. Claro que a minha falta de aproximação assim como meu germes de ceticismo me ajudaram a rapidamente
largar.
Deixei tudo pra
lá novamente.
E não
demorou muito para que eu percebesse que nem sequer ligava tanto pra nada
disso. Eu não cria fervorosamente num ser superior, numa vontade sobrenatural
personificada em alguma entidade invisível que tivera arquitetado o mundo, nem sentia
uma necessidade de uma plena salvação, nada disso. Eu não me senti impuro, não me sentia o pedaço de pecado que precisava ser corrigido. Eu era um bom menino e sabia disso, haha. Não tinha a carência de um deus... Digo, claro que eu queria companhia, de fato. O meu histórico exigia que eu quisesse companhias, que eu me encontrasse, me ajustasse em algum grupo, sempre precisei de amigos. Mas não de amigos imaginários! Eu queria pessoas de verdade comigo. Queria poder conversar, compartilhar, viver em grupo, ser aceito, confidenciar as minhas preocupações, participar do mundo, etc...
Então, agora um
pouco mais velho – mas ainda muito muito jovem. Depois de passada a época de
necessidade de ter amigos urgentemente, depois de já ter conseguido firmar
alguma parte da minha personalidade, de ter amadurecido mais a minha visão de mundo,
esclarecido mais meus métodos de relacionamento com os outros, dado mais forma ao meu caráter, etc, etc... Eu
vejo a religião com outros olhos. Não mais com os olhos intimistas de quem
procura um lugar para se alocar e pronto. De alguma forma essa relação com os outros sempre foi o sentido da vida pra mim, daí concordo muito com o que andei assistindo do Ferreira Gullar nesse sentido. Foi o que me angustiou durante bastante tempo, enquanto que a religião foi um detalhe até hoje... Por maior que seja o detalhe.
Atualmente não procuro uma asa divina sob a qual possa me
aconchegar das dores do mundo, das dores da não-partilha que vivi, da exclusão do Outro... Hoje, pr'além da relação personalíssima entre Instituição da Fé e o ser humano, enxergo os interesses escusos da religião, dos líderes religiosos que são construídos. Eu vejo as contradições, eu vejo o palco que o altar consegue ser, eu vejo as ganas
políticas nas entrelinhas, eu sei que as igrejas não pagam impostos para o Estado e que arrecadam MUITO dinheiro, eu estudei as histórias horríveis da
hegemonia da religião na Idade Média e até hoje vejo brutalidades maquiadas de divindade, eu vejo o controle exercido, eu vejo o medo incutido, eu
vejo o abuso diante da ignorância das pessoas mais humildes, eu vejo o saquear
de bolsos de trabalhadores, a manipulação ideológica em torno de mesquinhez, a falta de argumentos de verdade para suas idéias, o atentado à lógica e a inteligência, o desinteresse em tomar medidas que realmente ajudem a melhorar o pedacinho de mundo no qual encontram-se, eu vejo a segregação, a disputa de espaço
entre as instituições, a hierarquia, a truculência, a discriminação, os
machismos, as chacinas realizadas em nome do deus de amor e, simplesmente, eu vejo o quão irracional a
religião consegue fazer com que seus fiéis sejam. E a promessa do inferno é a prova cabal do terrorismo e da tortura a que se pode prestar um deus, castigando por toda a eternidade.
Mas o negócio é que não
existem palavras pra descrever a sensação de impotência e de dor que eu sinto toda vez que
vejo aquelas casinhas de isopor erguidas sobre as cabeças, as pessoas velhinhas caminhando, todos aqueles clamores por uma vida melhor, pedidos de atendimento médico, de empregos, lágrimas de milhares e milhares de pessoas, na maior manifestação de fé do mundo... E, em resposta, só haver o silêncio. O silêncio dos abastados da cidade, o silêncio do Governo e o silêncio de deus. Calados admiram.
Não me sinto
à vontade de dizer que sou um ateu. Eu nem sei bem no que implica isso. Mas sinto que, mais do que nunca, não consigo mais aceitar um deus omisso diante
da dor do mundo. Como poderia um ser do bem, todo-poderoso e todo-sabedoria, permitir TANTO sofrimento? Qual a graça disso tudo!? Daí
desejo do fundo do meu coração que ele não exista. Pois se existir... Por que?
Starless
"Sundown dazzling day
Gold through my eyes
But my eyes turned within
Only see
Starless and bible black
Old friend charity
Cruel twisted smile
And the smile signals emptiness
For me
Starless and bible black
Ice blue silver sky
Fades int grey
To a grey hope that oh years to be
Starless and bible black"
(King Crimson)

3 comentários:
Me sinto comovido por tuas palavras. Talvez eu tivesse um destino semelhante ao teu se não tivesse conhecido a Teologia da Libertação e uma ala progressista das religiões que me faz sentir mais vivo. Sou um religioso muito cético, mas compreendi que na dimensão mística da vida humana, há muito mais do que retrocesso, e sim avanço. A coisa começa a ficar opressora quando a fé se institucionalisa, e a partir daí pessoas passam a usar a fé das pessoas contra elas, para manter um determinado status quo, etc.
Enfim, acho que precisamos mesmo sentar num bar pra conversar melhor sobre isso. Quanto ao Círio, eu não consigo ser devoto de nenhum santo, mesmo sendo católico. Não consigo me ver fazendo promessa, muito menos pagando, mas tem uma coisa no Círio que é fantástico: a maior parte da tradição do Círio é uma herança genuinamente popular. O sacrifício, a corda, o pagamento de promessas, tudo isso é uma escolha livre de cada pessoa, e apesar de que até hoje jamais tenha me sentido motivado a ir em corda ou carregar qualquer coisa na minha cabeça que não fosse o meu boné durante o Círio, respeito quem o faz.
Abraço!
religião, futebol e política não se discute, diz a maxima.
Por isso torcedores são fanáticos e e religiosos partidários. Todos donos da verdade!
E na verdade, a verdade verdadeira é que não há verdade alguma.
Por isso, sigo a vida.
"quem não se encarar com amor, vai terminar ovelha no bolso de um pastor", diz uma canção.
O amor, essa a minha religião.
Futebol eu realmente não discuto. Mas justamente porque não entendo naaaada de futebol, hehe. No entanto, sempre achei que política e religião são sim temas discutíveis. Mas só quando os envolvidos na discussão estiverem dispostos, sem inflamações passionais, a discutir cientificamente, razoavelmente, com bom senso. Ou seja, tem de haver um real posicionamento crítico...
Acho que isso é o que falta geralmente. As pessoas também tem de falar dentro do que elas conhecem, dando fontes, dados, demonstrando embasamento. Porque "achismos" não são argumentos, né.
Nunca fui muito de falar sobre religião. Mas ultimamente tenho achado bom botar os fantasmas pra correr do recinto, haha.
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