Muitas pessoas virão a se perguntar as motivações de uma reunião deste gênero e a resposta, logicamente, irá variar na medida da diversidade de pontos de vista dos interessados e envolvidos no evento (ateus, agnósticos, não religisosos e curisosos - dentre os quais até religiosos - provenientes de realidades diversas). E pode ser que esta questão também venha a ser levantada já com alguma expectativa negativa por parte de alguns que viriam a inferir que uma reunião de ateus só poderia resultar em alguma seita de ataque e contra-propaganda sobre religião, ou algo do gênero, quando, de longe, a questão do ateísmo e da comunidade ateísta é bem mais rica do que o puro e simples exercício de exaustivos questionamentos em torno da teologia e das religiões, posto que o conjunto destes indivíduos tem em comum ainda uma série de outros aspectos respeitantes a seu posicionamento no seio social, as suas relações cotidianas num mundo predominantemente religioso e, por conta disso, fazendo-se necessária a desmistificação de ideias preconceituosas a seu respeito, a afirmação de sua identidade, a criação de espaços de diálogo e manifestação onde possam projetar sua voz e espaço na sociedade sem constrangimentos injustos, com o intuito de garantir sua cidadania, o respeito à sua dignidade e a sua participação. Enfim, pessoas que compartilham algo em comum sabem das suas perculiaridades e necessidades, portanto, é importante que possam encontrar-se para dividir conhecimentos e aprimorar suas relações com o mundo.
O encontro, organizado através da internet como dito anteriormente, teve um mínimo de metodologia para garantir que fossem discutidos alguns pontos de interesse. Uma pauta foi disposta no grupo do facebook, para ser analisada e melhorada pelos participantes - que, na minha opinião, foram bastante tímidos na contribuição (e isso se aplica a mim também). Questões como a relação entre ateísmo e a variedade de religiões existentes, a moral, a laicidade do Estado, a ciência, a necessidade de organização, dentre outros temas, foram apresentados por voluntários e depois discutidos pelos presentes num clima agradável de curiosidade e tranquilidade, fazendo uso do sistema de inscrições onde cada fala era cronometrada para possibilitar a troca de idéias sem delongas e dispersão.
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| Início, quando os participantes se apresentavam. |
Depois das apresentações, a chuva começou a dar sinais e decidimos nos deslocar pro coreto, onde dividimos o espaço, pelo que foi relatado, com jogadores de RPG e Pokémon, rs. E ali ficamos desde o início das exposições até a conclusão do encontro. É visível que no decorrer da conversação o gelo inicial foi sendo quebrado e as pessoas foram se soltando gradativamente, contando impressões, colocando posições, fazendo ressalvas, discordando e contribuindo pro debate. Tenho alguma crítica quanto ao tempo das falas estipulado, mas é até compreensível tendo em vista o número de pessoas e o horário de início (16h). Foi possível desenvolver até bem alguns pontos, mas acho que o que fica realmente claro é que há muitas coisas à serem discutidas, de modo que é realmente absurdo querer exaurir qualquer debate em algumas horas. E isso é ótimo, uma vez que as pessoas podem perceber que elas não estão aparte da sociedade, elas podem expor, tem muito a dizer e discutir, e existe espaço e pessoas com quem fazer isso sem medo de repreensões e tolhimentos inconvenientes.
Senti muita falta de ser pautado algo como "Ateístas, religiosos e a Política", por exemplo, porque é uma questão de grande importância onde cabe discutir desde o conteúdo que passa na televisão e o excesso ou falta de espaço para esses públicos, quanto à Educação e a questão do Ensino Religioso nas escolas onde deveria ser facultativo e não obrigatório, quanto ao tratamento do Governo com os interesses desses grupos sociais quando da votação de projetos, o peso político que cada um exerce, etc, perpassando pela questão do dinheiro público e o investimento em obras de caráter religioso (como no caso presente em Belém onde o Prefeito Duciomar Costa está querendo usar dinheiro público - ou seja, de religiosos e não religiosos - para um monumento religioso, afim de agradar aos cristãos e angariar um certo capital eleitoral que o ajude a eleger seu candidato, quando todos sabemos que nossa cidade carece de Saneamento, Educação, Saúde, Moradia e tantas outras coisas mais importantes do que quaisquer apadrinhamentos à alguma religião, quando o nosso dito Estado Laico é veementemente contra esse tipo de prática), discussões espinhosas como a questão do direito da mulher ao aborto que é amordaçada pela pressão religiosa e suas concepções, a não utilização da camisinha que igrejas pregam na contra-mão da educação preventiva contra DSTs e como parte do planejamento familiar, questões de cunho científico como as que gravitam em torno das células-tronco para a criação de novos tratamentos médicos, questões como a homossexualidade, que é completamente censurada e recriminada também pela grande maioria das igrejas, novamente amordaçando debates importantes e dificultando a construção de uma sociedade mais justa e evoluída quanto às diversas diferenças...
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| Os últimos dos moicanos, já à noite, ao fim da reunião. |
Enfim, as discussões são muitas. Um panorama geral é até meio difícil de fazer de cabeça. Mas depois da reunião é interessante como surgem ideias e a gente consegue compartilhar determinados pontos de vista importantes. É fundamental até pensar em outras formas de atividades práticas onde pudessemos difundir mais uma visão humanista do mundo e contribuir de fato com a realidade, pr'além de meros debates, para ajudarmos a retirar determinadas vendas que o pensamento acrítico distribui para ocultar o mundo real, ferindo de morte a liberdade, o conhecimento e pensamento racional, afim de usurpar nossa autodeterminação e exercer um controle mental baseado em silêncio de temor e ameaça de torturas eternas...
Pr'além disso, também senti falta de alguns encaminhamentos (como ocorrido em outros estados) a exemplo de uma data para uma próxima reunião decidida pelo coletivo, assim como um fechamento mais orgânico da nossa reunião. Mas, pelo simples fato de se ter conseguido realizar o encontro, já foi um motivador e comprovador de que há espaço para eventos desse gênero aqui. Indicativo de que as discussões possam ter rendimento e proveito maior nas próximas ocasiões. De resto, foi ótimo bater um papo cabeça com pessoas que eu nunca tinha encontrado e mesmo assim ver tanta receptividade e tranquilidade na conversação.
Desejo tudo de bom aos participantes e espero que hajam outras oportunidades de nos encontrarmos por aí, nesse mundão de ateus.
P.S: Este texto expressa um posicionamento pessoal, não é nem de longe uma nota oficial do encontro. Aproveito e esclareço que a reunião foi toda baseada no respeito ao direito de liberdade religiosa, assim como em defesa da liberdade não-religiosa, como é da natureza de um Estado Laico, que não elege religião favorita, nem oficial, mas que a todas permite, etc...)



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