Capítulo I: A teoria dos campos burgueses progressivos
Capítulo II: O revisionismo nos partidos revolucionários
Capítulo III: A frente única antiimperialista como expressão da teoria dos campos burgueses progressivos
Capítulo IV: A realidade francesa através da teoria dos campos
Capítulo V: A política da OCI(u)
Capítulo VI: Se houvesse uma guerra civil na França?
Capítulo VII: A política frente os partidos operários contra-revolucionários
Capítulo VIII: A OCI abandona o Programa de Transição em benefício de um programa mínimo
Capítulo IX: Um programa oportunista frente as necessidades mínimas das massas
Capítulo X: Um programa mínimo frente ao estado e a igreja
Capítulo XI: Lambert e Pablo apóiam o governo
Apêndice: Em resposta a algumas críticas
Bibliografia
Capítulo II: O revisionismo nos partidos revolucionários
Capítulo III: A frente única antiimperialista como expressão da teoria dos campos burgueses progressivos
Capítulo IV: A realidade francesa através da teoria dos campos
Capítulo V: A política da OCI(u)
Capítulo VI: Se houvesse uma guerra civil na França?
Capítulo VII: A política frente os partidos operários contra-revolucionários
Capítulo VIII: A OCI abandona o Programa de Transição em benefício de um programa mínimo
Capítulo IX: Um programa oportunista frente as necessidades mínimas das massas
Capítulo X: Um programa mínimo frente ao estado e a igreja
Capítulo XI: Lambert e Pablo apóiam o governo
Apêndice: Em resposta a algumas críticas
Bibliografia
CAPÍTULO I
A
TEORIA DOS CAMPOS
BURGUESES PROGRESSIVOS
A direção da OCI, como toda
direção revisionista que se reivindica trotskista, esconde suas verdadeiras
posições atrás de um amontoado de frases trotskistas. Em vez de dizer que apoia
o governo e a coalisão frente populista liderada por Mitterrand, como faria um
stalinista ou um social democrata, afirma que “nossa tática está dirigida
contra a burguesia, e nesse combate contra a burguesia, /não temos/ a menor
responsabilidade pelo governo Mitterrand” (Projeto de Informe Político,
p. 3).
No entanto, basta separar as
frases necessárias para disfarçar-se de trotskista para que apareça a verdadeira política da OCI:
“Nesse combate contra a
burguesia, sem assumir a menor responsabilidade pelo governo Mitterrand, estamos
no campo de Mitterrand em suas ações de resistência à burguesia”. (op. cit.
p. 3) (1)
Como o documento não menciona
nenhuma outra tática ou combinação de táticas, devemos concluir que esta é a
orientação central da OCI para todo o próximo período: estar no “campo” burguês
frente populista. É preciso reconhecer o poder de síntese do autor do documento
(Pierre Lambert); essa fórmula é, textualmente, a que utilizaram todos os
revisionistas do leninismo e do trotskismo.
Lambert nos diz, com total
clareza, que a OCI formou parte do campo integrado dos partidos operário
traidores gaullistas e radicais de esquerda liderados pela máxima instituição
do estado burguês e da V República: a presidência exercida por Mitterrand.
O trotskismo afirma, endossado
por toda sua experiência histórica, que o campo da frente popular é burguês e
portanto contra revolucionário; e que este caráter se acentua ao máximo quando
a frente popular chega ao governo porque se converte em líder do campo
capitalista através do exercício do poder do estado capitalista. O atual
revisionismo da OCI não tem levado a que seja modificada essa concepção
clássica. Lambert é consciente de que passou para o campo burguês contra
revolucionário, por isso esconde sua máscara revisionista afirmando que “sua
tática está dirigida contra a burguesia”.
Se desenvolvermos este
raciocínio, chegamos a uma conclusão duvidosa para dizer o mínimo, que
Mitterand é um campo burguês bastante raro uma vez que realiza “ações de
resistência a burguesia” e a táticas principal ou única da OCI é formar parte
política do mesmo.
Se trata evidentemente de uma
contradição. Consciente disso, Lambert trata de fundamentar sua tática com o
seguinte argumento: Lenin e Trotsky fizeram parte do mesmo campo que Kerenski
contra Kornilov; Trotsky tomou parte do campo de Chiang Kai-Shek contra a
invasão japonesa da China e do campo da República espanhola contra Franco.
Nós respondemos que, efetivamente,
Trotsky tomou parte nesses campos burgueses contra seus respectivos adversários
e denominou os que se opuseram a esta tática de traidores. Porém existem duas
diferenças fundamentais entre Trotsky e Lambert, Trotsky nunca disse que se
devia tomar parte política, senão apenas militar no campo de Kerenski e
Negrín, e que além disso toda sua tática estava dirigida a destruir o
campo burguês. Este era seu objetivo ao entrar no campo burguês e assim o
proclamava. Sua política poderia ser
sintetizada na frase, “estamos no campo militar de Kerenski para derrotá-lo
como única forma de derrotar a Kornilov e todos os Kornilovs que virão.
Quando Lambert diz que tem que
estar “no campo de Kerenski ou Negrín nas suas ações de resistência a
burguesia”, está afirmando não só que luta contra o golpe de Kornilov e a
insurreição fascista de Franco, como apoia as ações políticas de Kerenski e
Negrín.
Os três exemplos que dá Lambert
se referem a situações históricas em que as circunstâncias objetivas obrigaram
os revolucionários (os bolcheviques na Rússia e os trotskistas na China e
Espanha) a fazer parte de um campo comum com um governo burguês contra a reação
fascista ou bonapartista ou a invasão imperialista de um país semicolonial. Mas
denunciaram constantemente Kerenski como agente de Kornilov, Chiang como agente
dos japoneses e Negrín como agente de Franco, e combateram suas ações por serem
anti-operárias.
Se
trata de uma situação igual a que nos leva a aplicar a tática de entrismo em
algum partido operário burguês de massa. Suponhamos que um grande partido
social democrata “o de Blum por exemplo” surjam correntes de esquerda que
comecem a desenvolver posições iguais as do trotskismo. Segundo Lambert,
teríamos que aplicar um entrismo dizendo que “estamos com Blum em suas ações
contra a burguesia”. Os trotskistas sustentariam o contrário. Ao entrar,
denunciariam mais do que nunca a política contra revolucionária de Blum e
trataríamos de desenvolver essas correntes trotskistas para destruir o partido
de Blum por dentro e captar essas correntes para a seção nacional da IV
Internacional. Essa é a política principista tradicional do trotskismo quando a
situação objetiva nos obriga a permanecer em uma frente com um partido que não
é da classe operária em luta com a burguesia.
Então, voltando à política atual
de Lambert, ele está em um campo burguês “progressista” contra o outro campo
burguês que considera mais reacionário. Esta é a característica mais notória do
revisionismo neste século. Este revisionismo tem se expressado historicamente
sob duas formas: a dos mencheviques e a dos stalinistas. A essência do
menchevismo com sua “frente anti-czarista” e a do stalinismo com a sua “frente
popular” (que desenvolveremos em detalhes um pouco mais adiante) consistia no
seguinte: o eixo da estratégia permanente deste partidos é formar frentes com a
burguesia “liberal” (os mencheviques) ou “democráticos” (os stalinistas), mesmo
quando os mesmos não existam na realidade.
Existe um terceiro tipo de
revisionismo que se diferencia do anterior por causa de sua conformação de
frentes policlassistas desta natureza não é sua estratégia permanente senão uma
reação frente a realidade objetiva.
Explicamos. Quando duas frentes
burguesas se enfrentam em choque físico ( guerra colonial, guerra civil entre republicanos
e fascistas, etc.) aparecem os partidos revolucionários correntes oportunistas
que capitulam politicamente a direção burguesa do “campo progressista”, com o
argumento de “derrotar primeiro o fascismo” (ou ao imperialismo) . Este é o
caso de Kamenev e Stalin em 1917, Molinier-Schachtmam em 1936, Pablo em 1951,
Mandel a respeito da Nicarágua em 1979 e
agora a OCI na França.
Os dois primeiros revisionistas
são um claro projeto político que se perseguem constantemente: a conformação de
umcampo com um setor “progressivo” da burguesia. A direção do mesmo pode estar
formalmente nas mãos de um partido operário burguês, como acontece com o atual
campo miterrandista. Porém sua essência pró capitalista, contra revolucionária
não muda, por mais que o mesmo seja liderado por partidos operários contra
revolucionários e participe em tal momento somente a “sombra” da burguesia. Por
isso a política dos campos burgueses progressistas são revisionistas.
O terceiro revisionismo é a
resposta empírica a um processo da realidade, ao surgimento de campos burgueses
que se enfrentam fisicamente. Não responde a concepção geral senão que
constituem uma capitulação oportunista. Em alguns casos (como o de Molinier,
que depois veremos) a capitulação não é diretamente à frente “progressiva”
senão a sua ala a “esquerda”, alguma ala do partido operário burguês que faça
parte do campo porém mantendo uma posição crítica frente a sua direção. Esta
política é tão revisionista quanto a anterior,
visto que não trata de romper o campo apenas empurrá-lo para a
esquerda.
Neste capítulo nos deteremos nos
revisionistas conseqüentes e num próximo estudaremos as transformações dos
partidos revolucionários.
1. Dos
possibilistas a Bernstein
Quando dizemos que a teoria dos “campos
burgueses progressistas” constitui a base do revisionismo neste século, nos
referimos ao revisionismo pós- bernsteiniano, ou seja, posteriormente às
revoluções russas de 1905 e fundamentalmente de 1917. Sem dúvida nos parece
útil rever rapidamente os revisionistas anteriores e suas diferenças com o
menchevismo.
O revisionismo de Bernstein
corresponde a época do capitalismo em ascenso e o começo do imperialismo,
quando as lutas do movimento operário conquistavam reformas que não contestavam
a propriedade privada capitalista e nem o Estado burguês. Comecemos pela
situação francesa na década de 1880, para ver como o revisionismo bernsteiniano
é um produto típico desta época.
Em 1881, a organização proletária
francesa, chamada Federação dos Trabalhadores Socialistas, sofre um forte revés
eleitoral. Como conseqüência dele se produz uma forte discussão interna que dá
lugar a formação de duas correntes, as quais se enfrentam no congresso
Sant Etienne. A minoritária, dirigida
por Jules Guesde, se reivindicava marxista. A majoritária passou para a
história com o nome de “possibilistas”, apelido que lhes puseram os guesdistas.
Esta, que se proclamava inimiga do marxismo, teria todas as concepções que
caracterizaram posteriormente ao bersteinianismo, a primeira corrente
revisionista dentro do marxismo.
Eles proclamaram em seu órgão,
Le Proletaire, a famosa fórmula de reivindicar, de algum modo, no imediato,
algumas de nossas reivindicações para fazê-las finalmente possíveis (daí vem o
apelido de possibilistas). Esta frase significa com efeito o abandono da luta
pelo socialismo, e coloca-se por lutar unicamente por migalhas que o
capitalismo possa conceder.
Vinte anos mais tarde, Bernstein
retoma esta concepção. Ela se baseia num feito certo: que o movimento operário,
em suas grandes lutas arrancava do capitalismo uma conquista atrás da outra
(legalização dos sindicatos, legalização dos partidos socialistas, etc.) por isso Bernstein considera que não está
desistindo da luta pelo socialismo mediante a conquista do poder. Para ele, o
programa cotidiano do movimento operário e da social democracia consiste em
conquistar reformas, não em implantar tarefas revolucionárias que questionem a
propriedade privada capitalista e o Estado burguês. Se chegaria a sociedade
socialista mediante o acúmulo de reformas, e a mesma conquista do poder seria
produto de uma evolução gradual. Para Bernstein a estrutura estatal
parlamentarista está acima das classes, e o proletariado pode chegar ao poder
dentro do seu marco. Em síntese, o socialismo seria produto das conquistas
sociais do proletariado e dos avanços eleitorais da social democracia (hoje
temos 10 deputados, amanhã teremos 100 e depois de amanhã maioria do
parlamento).
Essa concepção, baseada na
célebre máxima “o movimento é tudo, o fim, nada”, explica o fato de que
Bernstein não formulará uma estratégia para a conquista do poder senão apenas
táticas.
A
partir desta concepção, baseada
na realidade da luta de classes e da prática do movimento operário de sua
época, Bernstein chega a conclusão geral teórica de que o processo histórico
sempre se desenvolveria com esta dinâmica e perspectiva. Sustenta em que a
etapa que o capitalismo imperialista poderá conceder reformas se ampliará
constantemente, e somente chegará ao seu fim com o socialismo.
Este processo histórico deu um
profundo matiz a essa concepção e a política reformista derivada dela. A
primeira guerra imperialista demonstrou que o regime capitalista mundial e os
países imperialistas não poderiam seguir ampliando as liberdades democráticas e
as conquistas mínimas da classe trabalhadora: que pelo contrário a vivência
deste sistema obrigava o capitalismo a retirar dos trabalhadores as conquistas
econômicas e políticas já conseguidas.
Rosa Luxemburgo e em princípio
Kautsky se opuseram à teoria bernsteniana. Assinalaram que o problema central
da política social democrata era a conquista do poder pelo proletariado, não a
obtenção de pequenas reformas. Quem mais desenvolveu esta teoria foi Lenin e os
bolcheviques, não é casual: na Rússia estava colocado a queda do czarismo pelos
revolucionários como primeiro passo para obter as conquistas mínimas e
democráticas já conseguidas pelo movimento operário da Europa Ocidental.
2. O
revisionismo menchevique:
a
teoria dos campos burgueses progressivos
Se considera os mencheviques
russos, com justa razão, como pólo de fundamental importância do
desenvolvimento do marxismo neste século. Hoje em dia se conhece muito melhor
que a Bernstein, a quem muitos consideram uma superada teoria que só deve ser
objeto de estudo por parte dos historiadores. Ao contrário, o menchevismo como
corrente política antagônica aos bolchevismo, é ponto de referência
obrigatório. Sem dúvida, não se tem refletido suficiente sobre esta corrente
como ponto de partida do revisionismo característico do presente século.
O revisionismo menchevique é a
resposta oportunista a uma etapa histórica diferente da de Bernstein: não é a
etapa das conquistas mínimas do proletariado dos países ricos, senão a de
revoluções e contra revoluções.
Na Rússia, a luta entre
bernsteinistas e marxistas ortodoxos (revolucionários), se manifestou como
combate encarniçado entre o economicismo e o iskrismo: entre os que diziam que
a classe operária deveria lutar por conquistas econômicas e os que davam a luta
um eixo político e a derrubada do czar para restaurar a democracia.
A luta entre mencheviques
(revisionistas) e bolcheviques (marxistas) teve um eixo inteiramente diferente.
Ambos coincidiam plenamente na luta contra Bernstein e seus discípulos russos,
os economiscistas, em que o eixo da luta operária na Rússia deveria ser a
derrubada do czar.
Os mencheviques jamais negaram a
necessidade de lutar para a derrubada do czar como tarefa imediata do movimento
operário. A diferença com os bolcheviques residia em como fazê-lo e que tipo de
regime deveria sucedê-lo.
A grande “contribuição” dos
mencheviques ao revisionismo é a teoria dos campos ou frentes burguesas
progressistas. De acordo com essa teoria para derrubar o czarismo autocrático e
instaurar um novo regime, o movimento operário e seuspartidos deveriam formar
um campo ou frente anti-czarista, cuja direção estaria nas mãos da burguesia
liberal e seu partido, o cadete. Para dizer em palavras de Axelrod, um de seus
teóricos mais importantes:
“O proletariado luta para
conseguir as condições que permitam um desenvolvimento burguês. As condições
históricas objetivas determinam que seja o destino de nosso proletariado
colaborar inevitavelmente com a burguesia na luta contra o inimigo comum”.
(citado por Trotsky, Escritos, T.XI, vol. 1, p.78).
Durante a revolução russa, o
ex-marxista Plejanov convertido no porta voz da extrema direita social patriota
dizia “devemos nos alegrar pelo apoio dos partidos não proletários e não
afastá-los de nós com ações pouco táticas.” (op.cit., p.82).
Daí à teoria da revolução por
etapas foi um só passo. Os mencheviques sustentavam que a derrubada do
czarismo, longe de por fim a frente
“anti-czarista” policlassista, abririam uma etapa na qual o governo da
burguesia liberal da atrasada Rússia se converteria em um país capitalista
rico. Nesta etapa o proletariado adquiriria experiência e consciência, através
da luta por conquistas mínimas. Logo se abriria a segunda etapa, a da
conquistas do poder pelo proletariado.
A essência da política
menchevique foi sintetizada anos depois por Trotsky, ao afirmar que a “linha de
demarcação entre o bolchevismo e menchevismo” consistia em que este buscava
formar “uma frente comum de colaboração política com o inimigo de classe.” (The Crisis of
the French Section, pp. 56 e 57).
3. A resposta bolchevique e trotskista
Frente à teoria dos campos do
menchevismo, Lenin e Trotsky defenderam uma teoria oposta. Eles adotaram, cada
um no seu lugar, esta segunda teoria, é o que explica sua profunda unidade em
1917 e o fato de dirigir conjuntamente a Revolução de Outubro, superando suas
divergências anteriores.
Para eles, a divisão fundamental
da sociedade russa é, como sustenta o marxismo ortodoxo, em classes: burguesia
e proletariado. O eixo de sua política é o desenvolvimento da luta de classes
até a conquista do poder pelo proletariado. Daí vem uma teoria dos campos
diametralmente opostos a dos mencheviques, baseada no fato de que, por fora
das duas classes fundamentais, existem outros setores explorados e
exploradores na sociedade. Um desses campos é o contra-revolucionário,
integrado pelo czarismo, os latifundiários e toda a burguesia, incluídos
os setores liberais “antizaristas”. O outro, revolucionário, é integrado
pela classe operária, os camponeses e todos os explorados. Esta é, como se vê,
uma teoria “campista” baseada na concepção marxista tradicional da luta de
classes.
A diferença entre Lenin e Trotsky
antes de 1917 foi que este desenvolveu esta teoria até suas últimas
conseqüências. Ao compreender, como Lenin, a verdadeira natureza dos campos
enfrentados, Trotsky chegou a conclusão de que o campo revolucionário
necessitava de uma direção, e esta não poderia ser outra que não o
proletariado. Assim negava, ao mesmo tempo, a teoria menchevique da revolução
por etapas.
Dado que o campo revolucionário,
anticapitalista, é encabeçado pelo proletariado, a revolução contra os
exploradores é diretamente socialista por sua dinâmica de classe , por suas
tarefas, e pelo tipo de governo que
imporá ao chegar ao poder. Uma ditadura da classe operária apoiada no
campesinato e no conjunto dos explorados. Esta é a teoria da revolução
permanente tal como a desenvolveu
Trotsky em seu início, ao tirar as lições de 1905.
Esta teoria de Trotsky tem uma
debilidade fundamental: não inclui a concepção de um partido centralizado que
encabece a classe operária (a qual encabeça por sua vez o campo revolucionário)
na luta contra o czarismo. Nessa etapa entre 1905 e 1917, Trotsky compreende a organização
proletária como um partido do tipo da social democracia ocidental, apto para as
eleições e a luta parlamentar, quer dizer, para a ação reformista, não
revolucionária.
Em Lenin se dá a contradição
oposta. Compartilha da compreensão de Trotsky
quanto ao caráter dos campos, porém não coloca que classe deverá dirigir
a aliança revolucionária das classes exploradas; neste ponto coincide com os
mencheviques na idéia das duas etapas para a revolução. Em contrapartida, sua
concepção da organização revolucionária é a de um partido centralizado, apto
para a luta pela tomada do poder. Sua concepção geral é “mais revolucionária”
que a de Trotsky, porque a prática da construção de tal partido o levaria as mesmas conclusões que aquele.
Lenin chegará finalmente a essas conclusões, não por assimilação da teoria da
revolução permanente, senão como culminação do desenvolvimento de sua própria
teoria dos campos e do partido.
A contradição no pensamento de
Trotsky se resolve em 1917, por um processo análogo ao de Lenin. O
desenvolvimento de sua teoria o convence, depois de anos combatendo a concepção
leninista de partido, da necessidade de construir uma organização centralizada
como a dos bolcheviques para fazer a
revolução. O partido de Lenin era, pois, o adequado para a teoria de
Trotsky.
A síntese do leninismo e
trotskismo que se produz em 1917 obedece a lógica de classe da teoria
“campista” compartilhada por ambos.
4.
Stalin e a frente popular
A concepção dos “campos” e da
luta entre eles que supera a luta de classes aparece, pois, com os
mencheviques. Porém, quem eleva esta concepção ao nível de uma teoria geral, de
aplicação permanente pelos partidos operários em todos os países e
circunstâncias, foi Stalin com sua frente popular.
Em 1935 se realiza o sétimo
congresso mundial da Internacional Comunista,
já totalmente dominada pelo
stalinismo. Aí se promulga esta estratégia, que passou a ser a característica
do stalinismo desde então.
O problema em discussão era o
avanço do fascismo na Europa: o triunfo de Mussolini uns quinze anos antes, se unia agora ao de
Hitler na Alemanha, mesmo que a III República francesa havia adquirido fortes
traços bonapartistas a partir da ação reacionária. Disse Trotsky:
“A conclusão que /os dirigentes
stalinistas/ tiraram de tudo isso é que se necessita a mais sólida unidade
de todas as forças ‘democráticas’ e progressistas, de todos os “amigos da
paz” para a defesa da União Soviética por um lado e da democracia ocidental por
outro(...). O eixo de toda essa discussão no congresso foi a última experiência
na França, sob a forma de chamado “Frente Popular”, que era um bloco de três
partidos: Comunista, Socialista e Radical. (“El congreso de liquidación de la
Comintern”, em Escritos, t. VII, vol. 1, pp. 133 e 135-6).
Como vemos, esta é a teoria dos
campos, agora a nível internacional: onde os mencheviques diziam “czarismo", Stalin diz “fascismo”, e no lugar da burguesia “liberal antizarista” temos a
“democracia antifascista”. O campo reacionário internacional, liderado pela
Alemanha nazi, está integrado pela Itália fascista, o governo japonês e outras
forças como Lavat na França e Franco na Espanha. O campo democrático está
integrado pelo estado operário soviético e as forças chamadas “democráticas” e
“amigas da paz”: o governo frentepopulista de Blum, seu homônimo espanhol de
Largo Caballero e Negrín e os imperialismos francês, britânico e
norte-americano.
A política dos partidos
comunistas em todos os países deve orientar-se em torno ao fortalecimento do
campo democrático “antifascista” a nível nacional e mundial. É necessário fazer
todos os esforços por manter a burguesia ‘Democrática” no campo antifascista, o
qual é precisamente o que propõem os mencheviques com respeito a burguesia
“liberal”.
A nível nacional, esta política
teve sua expressão mais clara na Espanha, aonde o PC entrou para formar o
governo frente populista de Largo Caballero antes da guerra civil, e o de
Negrín durante a mesma.
A teoria das frentes populares já
teve diversas variantes: por exemplo, nos países semicoloniais, os stalinistas
buscavam conformar “frentes antiimperialistas” com a chamada “burguesia nacional” ou
“antimonopolista”.
Porém, a essência é sempre a
mesma: a conformação do campo burguês
progressivo.
5. Mao
e a teoria das contradições
Como vimos, os mencheviques foram
os primeiros a aplicar a política dos campos burgueses progressivos, embora
Stalin a elevou ao nível de uma estratégia permanente. Faltava dar um passo:
elaborar um princípio teórico-filosófico que lhe desse fundamento. Este é o
papel que cumpriu Mao Tse-Tung, com a teoria
das contradições.
Em sua conhecida obra “Sobre a
contradição” disse, elevando a um nível filosófico o que era sua política
frente a invasão japonesa na China.
“Quando o imperialismo faz uma guerra de agressão contra um país
/semicolonial/, as diferentes classes deste, excetuando um pequeno número de
traidores, podem unir-se em uma guerra nacional contra o imperialismo. Então, a
contradição entre o imperialismo e o país em questão passa a ser a contradição
principal, enquanto que todas as contradições entre as diferentes classes no
país ficam relegadas temporariamente a uma posição secundária e subordinada”.
(Mao, Obras Escolhidas, T.I, p.354).)
E conclui: “Deste modo, se num
processo se tem várias contradições, necessariamente uma delas é a principal, a
que desempenha o papel dirigente e decisivo, assim, as demais ocupam uma
posição secundária e subordinada. Por
outro lado, ao estudar qualquer processo complexo em que exista duas ou
mais contradições, devemos esforçarmo-nos ao máximo para descobrir a
contradição principal”. (op.cit., p.355)
Invertendo a ordem dos
argumentos, perceberemos que para Mao existem
na sociedade contradições principais e secundarias, porém o caráter do principal e o secundário não é permanente,
senão que muda de acordo com as circunstâncias. O mesmo disse que “na
sociedade capitalista, as duas forças contraditórias, o proletariado e a
burguesia, constituem a contradição principal”. Porém, acontece que quando
ocorre uma invasão imperialista, essa contradição passa a ser temporariamente
secundária e subordinada, e a contradição entre a nação semicolonial em seu
conjunto e o agressor imperialista passa a ocupar o lugar principal. Como
conseqüência disso, toda a nação, ou seja, suas distintas classes, com
exceção de “um pequeno número de
traidores” devem unir-se contra o imperialismo.
Aqui temos a teoria dos campos
burgueses progressivos, expressa em termos filosóficos, ou pseudofilosóficos.
Contra o campo conformado pelo imperialismo e o “pequeno número de
traidores”que o apoia, se forma o campo progressivo da “nação”, dirigido pela
burguesia.
6.
Revisionistas e marxistas:
síntese das diferenças
Como conclusão, vemos um fio
condutor perfeitamente claro desde a “frente antizarista” dos mencheviques até
as “contradições” de Mao: é a teoria dos campos burgueses progressivos.
Esta teoria se justifica com a
generalização abusiva de um fato real: as diferenças entre os distintos setores
burgueses. Segundo Trotsky, na classe burguesa sempre existem antagonismo muito
maiores que no seio do proletariado. É um fato fácil de explicar: para o
trabalhador dá no mesmo ser explorado por um patrão ou por outro, seja este
“nacional” ou “imperialista”, embora que entre os distintos setores burgueses
existe uma luta constante e feroz para repartir a mais valia nacional e
mundial. No plano político esta luta se traduz no choque dos partidos,
sindicatos burgueses, etc., que com freqüência chegam ao enfrentamento físico:
golpes de estado, guerras civis, invasões imperialistas e guerras
imperialistas.
Às vezes, como no caso de
Mitterrand, o setor mais “esquerdista” da burguesia é o próprio governo. Em
outros casos, o setor mais “direitista” instaura um governo fascista ou
bonapartista e pode segurar o resto da burguesia contra este. Deste fato real,
o revisionismo deduz que o partidos do proletariado devem formar parte do campo
“progressivo” ou “democrático” ou o “antiimperialista” no caso dos países
semicoloniais. Para esta teoria e política, tanto faz que o campo
“progressista” esteja no poder ou na oposição.
Contra esta teoria da colaboração
de classe o marxismo levanta sua concepção clássica, da sociedade dividida em
classes e da necessidade de desenvolver
a luta entre os mesmos até a conquista do poder pelo proletariado. Isto não
significa que o marxismo ignore a existência de rivalidades entre os distintos
setores da burguesia e se estas rivalidades chegam ao choque físico, o partido
deve formular uma política de acordo com as circunstâncias. Porém isso
significa que se deve aproveitar estes choques, jamais apoiar politicamente a
uma frente de colaboração de classe que pode surgir dos mesmos. Qualquer que
seja a situação da luta de classes, o objetivo imediato dos marxistas
revolucionários não muda: é a revolução proletária e a conquista do poder.
Esta última é a diferença
fundamental entre revisionistas e marxistas, a que sintetiza a todas. Stalin
ocultou sua política de colaboração de classes durante a guerra civil
espanhola, por traz do seguinte argumento: “primeiro derrotar Franco, depois
lutaremos pelo socialismo”. O mesmo fez
para justificar a aliança com o imperialismo anglo-norte-americano durante a
guerra mundial: “a primeira tarefa é derrotar Hitler”. Mao expressou em termos
filosóficos: primeiro liquidar a contradição principal - China frente ao Japão
- e logo a contradição entre as classes voltará a ser a principal. Em outras
palavras, a revolução deve passar por duas etapas. Na primeira, o campo
progressivo deve derrotar ao reacionário; nesta etapa se aplica a política da
contradição de classes. Na segunda etapa, relegada a um futuro indeterminado,
estará colocada a luta pelo socialismo.
O que defendem os marxistas?
Suponhamos o caso aparentemente mais favorável para a posição dos revisionistas:
que dois campos burgueses estejam se enfrentando na guerra, como aconteceu
entre a República e o franquismo na Espanha. Diante desta situação os
revisionistas partem da base de que existem dois campos se enfrentando e que um
é mais “progressivo” que o outro, embora não neguem o caráter burguês de
ambos.
O ponto de partida dos marxistas
é: os dois são campos burgueses, logo contra-revolucionários. Essa é a
essência do problema. A aparência do problema é que existe um enfrentamento,
o qual de nenhuma maneira significa que esse enfrentamento não seja real. Significa que o enfrentamento
responde a que existem diferenças em relação à maneira de derrotar um grande
ascenso operário e impor o triunfo da contra-revolução. A direção da
República sustenta que isso deve colocar-se abolindo a monarquia, instituição
especialmente prejudicial para as massas, e canalizando as lutas para o
parlamentarismo burguês. Os fascistas sustentam, o contrário, que é necessário
massacrar fisicamente aos trabalhadores, liquidar suas organizações sindicais e
políticas, seguindo o modelo hitleriano.
Na Espanha esta diferença de
desfez pelas armas, porém não sempre acontece assim. Na França, em 1934,
aconteceu uma ação fascista que buscava a derrota do presidente. No entanto, os
fascistas não conseguiram arrastar um setor importante da burguesia, porque os
dois campos preferiram um acordo: manter o parlamento para manter as formas
democráticas, porém incrementar os poderes do presidente para que cumprisse um papel bonapartista. Foi por isso
que Trotsky qualificou a III República, a partir de fevereiro de 1934, de “bonapartismo
semiparlamentar”, ou seja, uma república bonapartista com alguns traços de
parlamentarismo.
A partir da analise de classes
dos campos que se enfrentarão na guerra, os marxistas sustentam que seu
objetivo imediato, a conquista do poder pelo proletariado, não muda. Pelo
contrário, se o proletariado não toma o poder não pode haver solução para nada:
nem ao fascismo, nem a miséria do proletariado nem a nenhum dos problemas das
massas, todos produto da existência do regime capitalista.
Mas no exemplo que estamos
trabalhando existe uma situação objetiva: o fascismo se levantou para massacrar
fisicamente aos trabalhadores e liquidar todas as suas conquistas; isto se
combina com o fato de que os marxistas revolucionários (os trotskistas) são uma
pequena minoria, embora as massas sigam os partidos operários contra
revolucionários que formam parte do “campo burguês progressivo”.
As massas vêem corretamente, em Franco
o inimigo imediato para derrotar; os marxistas queremos ganhá-las para nossa concepção de que o inimigo a
derrotar de forma imediata é a burguesia em seu conjunto, mediante a conquista
do poder e a instauração de um estado operário. Por qual desses dois objetivos
imediatos lutamos nós marxistas? Por ambos: sabemos que se não estamos na
primeira fila da luta contra Franco, não teremos condições de ganhar as massas
para a luta contra a burguesia em seu conjunto. Por isso Trotsky disse:
“Participamos na luta contra Franco como os melhores soldados, e ao mesmo
tempo, com interesse da vitória sobre o fascismo, agitamos a revolução social e
preparamos a derrota do governo derrotista de Negrín. Só uma atitude assim pode
nos aproximar das massas. (A revolução espanhola, T.2, p.166).
Em outras palavras, a guerra
entre a república e o franquismo pode terminar com o triunfo de um ou outro
lado. Porém o triunfo da república jamais significa a derrota histórica
do fascismo. Este perigo seguirá existindo, embora exista o regime capitalista.
Também existirá a miséria crescente não como perigo, senão como realidade,
nenhum problema pode ser resolvido senão pela conquista do poder.
CAPÍTULO II
O
REVISIONISMO NOS
PARTIDOS REVOLUCIONÁRIOS
A política dos mencheviques,
estendida e generalizada logo por Stalin com a frente popular e Mao com as
“contradições”, corresponde a uma teoria clara, a dos campos. Insistimos na
palavra teoria: não se trata de uma resposta empírica ante determinado giro da
realidade, senão de uma concepção que leva a essas correntes revisionistas e
oportunistas a aplicar essa orientação para que as frentes apareçam na
realidade.
Nem os mencheviques, nem Stalin e
nem Mao podiam sempre realizar as frentes. Ao contrario, a burguesia liberal
russa tinha como estratégia buscar acordos com o czarismo. Assim mesmo, apesar
dos esforços de Mao para conformar uma frente sólida com Chiang Kai-shek contra
a invasão japonesa, esta se rompeu em várias ocasiões. E se bem que a frente
popular é uma política permanente dos partidos stalinistas desde o VII
congresso do Comintern, na maioria dos casos ou países não conseguiram
conformar a frente, apesar de seus esforços.
Porém, em momentos excepcionais
do processo histórico surgem de fato duas frentes antagônicas que podem desfazer suas diferenças políticas através de
uma guerra civil. Isto é característico das situações geradas por grandes
triunfos do movimento operário: a revolução de fevereiro na Rússia, a revolução
de 1952 na Bolívia e as revoluções em andamento na Nicarágua e Irã, ou então os
triunfos eleitorais das frentes populares francesa e espanhola de 1936.
Nestes momentos, a realidade
parece dar razão aos teóricos dos “campos”, posto que os mesmos surgem na
realidade e tem, sobre tudo este último, um caráter policlassista.
O surgimento destas “frentes
progressivas” exercem uma forte pressão sobre os partidos revolucionários que
não vivem em um vaso de cristal, senão que, embora sendo muito minoritários,
estão inseridos na sociedade e no proletariado. Sob estas pressões, surge no
seio dos partidos revolucionários correntes que adotam a teoria
menchevique-stalinista-maoísta dos campos.
Este fenômeno se observa
principalmente quando o triunfo operário se vê ameaçado gravemente pela contra
revolução: por exemplo, quando esta se lança em armas para derrotar um governo
frente populista e derrotar o movimento operário, como aconteceu na guerra
civil espanhola, ou quando o imperialismo resolve que chegou o momento de
colonizar um país semicolonial e derrotar o governo burguês local. Justamente,
o stalinismo encontrou no surgimento destes graves perigos contra
revolucionários uma magnífica oportunidade para colocar em prática a sua teoria
dos campos. Isto por sua vez multiplica enormemente as pressões sobre os partidos
revolucionários, levando alguns setores dos mesmos, a integrar, como dissemos,
o “campo burguês progressivo”.
Digamos então para
sintetizar, que a política permanente
dos mencheviques e seus discípulos, os stalinistas e os maoístas, se fundamenta
na teoria dos campos. Daí que todos seus esforços se orientam para a
conformação de “frentes populares”, “frentes antifascistas”, “frentes antiimperialistas”,
ou mil e uma variantes do mesmo, com setores da burguesia “democrática”,
“antimonopolista”, etc. Esta política não depende de que ditas frentes existam
na realidade. Se não existem, como acontece na maioria das vezes, então se
trata de criá-las , mesmo quando isso nos obriga nadar contra a corrente.
Em contrapartida, os partidos
revolucionários ou centristas de esquerda que violam todos os princípios
bolcheviques, tem apoiado politicamente estas frentes populares de aliança de
classe, não fizeram por adotar conscientemente a teoria dos campos, senão
porque se dobraram perante as tremendas pressões que se exerceu sobre os
partidos inseridos no movimento operário
quando estas frentes surgem na realidade.
No entanto, o fato de ceder a
estas pressões gera uma lógica infernal. O partido revolucionário que viola
seus princípios para apoiar uma frente policlassista, ai finalmente na
degeneração teórica e política e termina adotando a teoria dos campos como base
permanente de sua política. É o que aconteceu com o stalinismo, que surgiu como
a ala de um partido revolucionário, e em nossas fileiras com o pablismo.
O partido revolucionário (ou
setor do mesmo) que abandona a política de independência de classe quando
surgem os dois campos na realidade, cai em uma política oportunista cujas
características principais são as seguintes.
Abandona a denúncia sistemática
do governo em sua agitação quotidiana e em sua imprensa e concentra todos seus
ataques nos adversários reacionários do mesmo, deixa de atacar aos partidos
operários contra revolucionários que participam de um governo frente populista
para buscar acordos com eles, não denuncia o caráter imperialista do governo nem chama o movimento
operário para a solidariedade ativa com seus irmãos de classe do país colonial;
não leva adiante uma luta intransigente contra as forças armadas do regime;
abandona a tarefa de “explicar pacientemente” às massas que o objetivo
fundamental na etapa aberta pelo triunfo proletário é realizar a insurreição
operária para derrotar o governo burguês e implantar o poder operário
revolucionário; não levanta consignas de governo; não tem uma política
permanente para desenvolver e fortalecer o partido revolucionário, condição
indispensável para o triunfo da revolução.
É justamente a política oposta a
de um verdadeiro partido trotskista. Sem deixar de atacar a burguesia, o
imperialismo e os adversários reacionários do governo, este leva um ataque
constante e implacável contra o governo frente populista e o “campo burguês
progressivo” e os partidos operários contra revolucionários que o apoiam ou
integram como servidores dos inimigos declarados das massas. O partido
trotskista denuncia constantemente o
governo e repudia, em sua agitação quotidiana, todas as suas medidas, por mais “progressivas” que pareçam. Coloca na
cabeça das massas a mais absoluta desconfiança e ódio de classe para com o
governo e coloca constantemente as
consignas de poder que indicam que classe de governo é necessário construir.
Não abandona por um só dia a luta contra o imperialismo de seu país, contra o
governo frente populista que o serve e
contra as forças armadas do regime.
Existem certas seitas e grupos
ultra-esquerdistas ou anarquistas que podem coincidir com essa política geral.
Porém há um fato que os separa do partido leninista. O eixo da política desse é
dirigir a classe operária e as massas a seus objetivos, a insurreição para chegar ao governo e implantar a república
socialista. Para isto considera, e proclama constantemente, que é condição
indispensável desenvolver e fortalecer a seu partido. O partido revolucionário
que esconde seu objetivo e essa
condição, cai no oportunismo. O partido revolucionário que não se propõe a
conquistar o poder na etapa do governo frente populista, que não prepara a
derrota revolucionária deste governo, cai no oportunismo, porque é
justamente na etapa do governo frente populista que esta colocada a
possibilidade de que a classe operária conquiste o poder dirigida pelo partido
trotskista.
Agora veremos como, através de
toda a história da luta de classes do presente século, sempre existiram
partidos revolucionários ou correntes centristas de esquerda que adotaram a
política revisionista dos campos.
1.
Kamenev-Stalin contra Lenin e Trotsky
O exemplo clássico do que
dissemos se deu na revolução russa entre fevereiro e outubro, durante o governo
provisório. De um lado existiu um bloco revolucionário integrado por uma ala do
partido marxista (Lenin - Trotsky), alguns grupos anarquistas e os social
revolucionários de esquerda.
No outro polo surgiu um bloco
oportunista integrado por anarquistas como Kropotkin, revisionistas do marxismo
como Plejanov, os mencheviques internacionalistas liderados por Martov e um
setor do partido marxista revolucionário: a ala Kamenev-Stalin do Partido
Bolchevique.
Desde a revolução de fevereiro
até março de 1917 o partido bolchevique foi dirigido por uma corrente jovem
cujo principal orador era Molotov, diretor do Pravda. O eixo de sua
orientação era a denuncia sistemática ao governo burguês surgido da revolução
de fevereiro e o repúdio a todas suas medidas. Kamenev e Stalin, desde sua
chegada a Petrogrado em março, excluem este grupo da direção e dão uma nova orientação, totalmente
oportunista, ao partido e seu órgão. Vejamos o que diziam, por exemplo, com
respeito a questão crucial da guerra:
“Quando um exército combate
contra outro exército não tem política mais absurda que a de propor que um dos
dois abandone as armas e vá para casa. Essa política não seria uma política de
paz, senão de escravidão, uma política
que um povo livre deve refugar com desprezo. Não. O povo
permanecerá valentemente em seu posto,
respondendo as balas com balas e a obuses com obuses. Isto não admite
discussão. Não devemos permitir a menor desorganização nas forças armadas da
revolução” (Pravda nº 9, 15 de março de 1917, editorial “Nada de
diplomacia secreta”).
Sendo assim, como se propõe
colocar fim a guerra? O mesmo artigo responde: “Nossa consigna não é a palavra
de ordem oca “Abaixo a guerra”, que significa a desorganização do exército
revolucionário (...) Nossa consigna é pressionar o governo provisório para
obrigá-lo a tentar abertamente, sem indecisões, aos olhos da democracia
mundial, induzir a todos os países beligerantes para que iniciem negociações
imediatas para por fim a guerra mundial. Por hora, que todos permaneçam em seus
postos!”
E se esses países beligerantes
não querem fazer a paz, o que acontece? “Se as forças democráticas da Alemanha
e Áustria não escutam nossa voz, defenderemos a pátria até a última gota de
sangue.” (resolução do Soviet de Petrogrado, citado com aprovação no mesmo
artigo).
O Pravda de 16 de março
insiste: “A saída consiste em pressionar o governo provisório para que
se proclame disposto a iniciar negociações imediatas pela paz”. (1)
Clarifiquemos estas posições. Em
primeiro lugar, aqui não tem classes que lutam, senão um “povo livre”
que “permanece em seu posto”. Esse “Povo livre” é, evidentemente, o que
triunfou na revolução de fevereiro, porém não só os operários e camponeses
que fizeram a revolução, senão também a burguesia liberal que chegou ao
poder graças a ela, e implantou o governo provisório.
Aqui já esta formado o campo,
chamado “povo” e governo provisório burguês, a burguesia liberal com seu
partido, o cadete, o soviet dirigido pelos partidos operário contra
revolucionários, e os operários e camponeses que lutam no exército burguês,
chamado aqui “forças armadas da revolução”. Frente a ele, se lança o outro
campo, o reacionário, integrado pelos demais “países beligerantes” (novamente,
não se fala de classes mas de países).
Nosso dever como revolucionários
é lutar lealmente no campo do “povo”, “que todos permaneçam em seus postos”, “defendamos a pátria até a
última gota de sangue”. Porém ao mesmo tempo, é necessário por fim a guerra,
coisa que está nas mãos do “chefe” do nosso campo, o governo provisório. Para
ele, devemos pressionar para que declare estar “disposto a iniciar negociações
pela paz”.
E agora, o que o Pravda
“esquece” muito convenientemente de mencionar: que o líder do nosso “campo” é
um governo burguês e imperialista; que a guerra é uma guerra
antiimperialista de rapina, iniciada
pelo lado da Rússia pelo
czarismo; que o exército é o mesmo exército czarista, com sua casta de oficiais
e sua mesma estrutura, que envia os soldados( ou seja, operários e camponeses)
para morrer nas trincheiras a serviço da burguesia imperialista russa e seus
aliados da aliança Entente.
Nada disso importa a Kamenev e
Stalin: o importante é a unidade do “povo”, ou seja, do campo do governo
burguês e as massas.
Como sabemos, foi Lenin quem
colocou uma reorientação radical a política do Partido Bolchevique,
reorientação expressa em suas “Teses de Abril: nenhum apoio ao governo
provisório, combate implacável contra ele, orientação até a conquista do poder
pelos soviets liderados pelo partido revolucionário. Porém não colocou essa
idéia sem dificuldades: ao contrário, teve que fazer mediante uma batalha
política árdua e prolongada contra essa
ala do comitê central Bolchevique.
A política de Kamenev e Stalin é
o exemplo clássico de como uma ala do partido revolucionário aplica a política
de apoiar ao “campo burguês progressivo”, cedendo a pressão gerada pelo
surgimento do mesmo na vida real. Stalin elevou sua política ao nível de uma
teoria alguns anos depois.
3.
Stalin e o socialismo em um só país
O coroamento da teoria stalinista
é, desde o início, o “socialismo em um só país”, formulada por seu autor em
1924 e consagrada como base de orientação aos partidos comunistas no VI
Congresso da Comintern.
A teoria do socialismo em um só
país nasceu como reação a um fato real, a derrota da Revolução Alemã, e se
consolidou diante de outro fato semelhante, a derrota da Revolução Chinesa em
1925-27. Essas derrotas derrubaram momentaneamente por terra as esperanças de
Lenin e Trotsky, de que a expansão da Revolução proletária de um país adiantado
como a Alemanha colocaria fim ao
isolamento da URSS e daria um poderoso impulso ao desenvolvimento das forças
produtivas sob o regime da ditadura do proletariado.
Junto com isso, a paralisia total
das forças produtivas na URSS devido a Guerra civil e ao isolamento do Estado
Operário, havia obrigado a direção
bolchevique, desde 1921, a implementar a Nova Política Econômica (NEP). A
essência dessa política consistia na restauração do mercado interno capitalista
(não do comércio exterior, cujo monopólio seguiu nas mãos do Estado Operário),
para facilitar o intercâmbio entre a agricultura, privada em sua maior parte, e
a indústria, majoritariamente estatal.
A aplicação dessa política teve
um duplo efeito: por um lado, deu um impulso as forças produtivas, por outro
lado permitiu o ressurgimento de uma pequena classe capitalista, exploradora,
na URSS: os homens da NEP nas cidades e os kulaks, ou camponeses ricos, no
campo.
A burocracia governante,
encabeçada por Stálin e Bujarin, lançou a consigna de “enriquecei-vos” aos camponeses,
sustentando que com ela se ganharia os camponeses para o socialismo. Mas, na
realidade, como mostra Trotsky, isso só significou o enriquecimento de uma
pequena minoria de camponeses às custas da maioria. Ao mesmo tempo, surge o
chamado “homem da NEP”, o comerciante privado entre a agricultura e a
indústria.
Contra essa situação a oposição
de esquerda propôs seu plano de industrialização, cujos fundos deviam vir dos
impostos arrecadados da nova classe de kulaks. Como é do conhecimento, a
oposição foi acusada de “super industrialização” e de “inimiga do camponês” .
A política da NEP, tal como foi
aplicada pela burocracia, foi a origem do “socialismo em um só país”. Escutemos
Trotsky:
“A vacilação perante as empresas camponesas individuais,
a desconfiança perante os planos, a defesa do ritmo mínimo de industrialização,
o descuido com problemas internacionais, tudo isso junto, constituí a essência da teoria do “socialismo em um só
país”, apresentada pela primeira vez por Stálin em 1924, após a derrota do
proletariado na Alemanha. Não apressar a industrialização, não lutar contra os
camponeses, não acreditar na Revolução Mundial, e, sobretudo, proteger o poder
da burocracia partidária das críticas”. (The Revolution Betrayed,
Pathfinder, 1972, p. 32).
Ou seja, que a teoria do
socialismo em um só país, é também, uma aplicação particular da teoria dos
campos. Neste caso, o campo inimigo é o da burguesia dos países capitalistas,
que querem derrotar a Revolução Proletária. O campo progressivo é o da NEP,
como o Estado Operário e a burguesia que começa a reaparecer (kulaks e os
Nepman ). Este campo deve ser preservado a todo custo: por isso, é necessário
construir o socialismo “a passo de tartaruga”, segundo a conhecida frase de
Bujarin, não acelerar a industrialização, nem aplicar políticas que impeçam o
enriquecimento dos aliados no campo. Ao mesmo tempo, se nega e oculta a luta de
classes dos kulaks e Nepman, contra os explorados e o estado operário.
Evidentemente, o processo de
enriquecimento de uma classe exploradora traz uma dinâmica fatal para o Estado
Operário. Os kulaks e os homens da NEP sabem que seu enriquecimento tem um
limite, imposto pela existência da indústria nacionalizada e do monopólio
estatal do comércio exterior. Ao começar a questionar estes limites para seu
desenvolvimento, colocam em perigo a existência do Estado Operário, fonte de
poder e privilégios da burocracia. Então, esta realiza um giro de 180 graus: a
consigna “enriquecei-vos” foi trocada pela de “destruição dos kulaks como
classe”; e o “passo de tartaruga” da industrialização se converte em um “galope furioso”. O campo se rompe,
porém, não por culpa da burocracia, que favorece dentro de todas as
possibilidades o enriquecimento dos “aliados de campo”, senão por estes últimos,
que vêem corretamente na existência do estado operário um empecilho para seu
maior enriquecimento e desenvolvimento como classe capitalista.
O socialismo em um só país é
também a teoria dos campos a nível internacional. O campo progressivo, neste
caso, é o da URSS e os estados burgueses e imperialistas que “coexistem
pacificamente” com ela, mantém boas relações comercias, etc.
Para não exagerar em exemplos,
recordemos que no afã de manter o campo “anti-fascista” com as burguesias
democráticas se adotou a política das frentes populares, que conduziram a
derrota da Revolução na Espanha e França.
Na atualidade, é considerado um
“aliado de campo” qualquer Estado burguês que mantenha boas relações
diplomáticas e comerciais com a URSS. É em base a essa consideração que a
burocracia soviética é uma inimiga feroz da ditadura de Pinochet, no Chile,
mesmo que ela e o PC Argentino se encontrem entre os melhores aliados da
ditadura de Viola. A única diferença entre as duas ditaduras, é que esta
última, mantém excelentes relações comerciais com a URSS.
4.
Marceau Pivert e a frente popular de combate
No ascenso revolucionário do
proletariado francês de 1936, que possibilitou a instauração do governo frente
populista de Blum, uma tendência
socialista centrista de esquerda, a esquerda revolucionária dirigida por
Marceau Pivert, foi pressionada para apoiar o governo burguês frente populista
de Leon Blum.
Queremos expressar que a ala
bolchevique do movimento operário era bastante débil. Estava integrada
unicamente pelos trotskistas do partido operário internacionalista, em uma
frente única revolucionária com a Federação do Sena da Juventude Socialista,
dirigida por Fred Zeller. Esta frente pode se conformar graças ao audaz
trabalho de entrismo dos trotskistas na
SFIO.
Quanto à corrente de Pivert, não se pode negar
que tinha uma postura crítica frente ao governo e de impulsionar as lutas
operárias. Tanto é assim que segundo relata Daniel Guerin (Front populaire,
revolution manquée, Paris, Maspero, 1976), no Congresso de Huyghens da SFIO
a IR apresentou uma moção de solidariedade total com os grevistas.
No entanto, sua política a
respeito do governo não avançou além da
crítica: jamais rompeu com Blum, e ele mesmo, Pivert, fez parte do seu governo.
Sua política, chamada de “frente
popular de combate”, consistia em conformar uma frente com as bases dos
partidos operários, para pressionar seus dirigentes traidores para uma política
“revolucionária”. Segundo Guerin: “No que diz respeito à frente popular número
dois, /a de combate/, fomos pressionados a participar lealmente, demasiado
lealmente, na Frente Popular número um, /a de Blum/. Esse compromisso tinha uma
justificativa aparente. Devíamos estar dentro da número 1 para impulsionar e
levar a confundir-se com o número 2. Queríamos encontrar uma solução para as nossas dificuldades de
vocabulário, fazendo-nos campeões de uma
Frente Popular de combate (...). Porém acabou sendo uma denominação bastarda.
Apesar das duas palavras agregadas, não nos diferenciamos o suficiente da
Frente Popular número 1; assim, ajudamos de certa forma a divulgar propaganda
enganosa”. (Guérin, op.cit. p.103).
Tem razão Guerin ao dizer que a
Frente Popular “de Combate” não se diferencia da de Blum, apesar da fraseologia
revolucionária, o apoio as lutas operárias e as críticas ao governo: “toda a
eloquência fraternal de Pivert não podia desfazer o trato inicial: ele
pertencia a equipe do governo, aparecia perante os grevistas como um personagem
consular que trazia uma saudação desde a cúpula”. (op.cit., p. 123).
Isto, como reconhece o próprio
Guerin, se deve a que “não podíamos repudiar a Frente Popular sem mais
trânsito, porque nos isolaríamos deste formidável movimento, surgido do mais
profundo das massas ...”. (op.cit., p.103).
Este argumento de “não isolar-se
das massas” é também uma variante da teoria dos “campos”. As massas estão no
campo da Frente Popular, então, devemos
estar aí. É o argumento típico usado pelos centristas e inclusive os revolucionários que capitulam na
Frente Popular. Diante da necessidade de não isolar-se do campo onde se
encontram as massas, não chamamos para que estas rompam aliança com a burguesia
e o governo frente populista. A Revolução Francesa de 1936 foi derrotada
porque, como disse Trotsky, “os operários forma incapazes de reconhecer ao
inimigo, porque o haviam disfarçado de amigo”. (citado por Guerin, op.cit.,
p.136).
5.
Molinier e Schachtman: a primeira
aparição
da
teoria dos campos em nossas fileiras
As fileiras do trotskismo não
ficaram imunes ao fenômeno pelo qual o setor do partido revolucionário passa a
formar parte da frente oportunista. Isto ocorreu na França, em 1936. Ali não se
tratou de uma capitulação direta a Frente Popular de Blum, senão que
indireta, por via da adaptação à “Frente Popular de combate” de Pivert. Seus
protagonistas foram Raymond Molinier e Pierre Frank.
A ele se dirigiu a carta de
Trotsky, citada no capítulo anterior, para alertar a sessão francesa sobre a
existência de “sintomas perigosos em nossas fileiras”.
Estes
sintomas se concretizaram pouco depois,
quando Molinier e Frank romperam com o partido trotskista para formar seu
próprio grupo, ao redor do jornal La Comuna. E o primeiro ato político
deste grupo foi o de chamar a corrente centrista de Pivert a formarem uma frente
comum.
Em uma carta ao seu colaborador
Jan Frankel (11/12/35), Trotsky disse: “você já está informado da traição de
Molinier. Estes rapazes não querem
permanecer “isolados”, por isso,
capitulam perante a tendência de Pivert, que por sua vez, capitula
perante Blum. Se dizemos que estão participando na preparação da união
sagrada, logicamente se indignarão. Porém essa é a pura verdade. Esta é a
primeira e desgraçada capitulação diante da poderosa pressão chauvinista que a
opinião pública burguesa exerce sobre a classe operária com a ajuda
indispensável da burocracia stalinista.” (Trotsky, The Crisis of the
French Section, p. 13).
Novamente, temos o argumento de
Pivert, com uma ligeira variante. Segundo ele, se trata de estar na frente de
Blum para não isolar-se das massas. Para Molinier-Frank, se trata de estar com
Pivert com o mesmo fim, a política é sempre a mesma: estar com as massas
significa estar no “campo progressivo” burguês no qual eles confiam.
Schachtman aplicou outra variante
da teoria dos campos na Espanha, ao perguntar a Trotsky se os revolucionários
deviam apoiar nas Cortes o pressuposto militar solicitado por Negrin. Sua
surpresa “segundo ele mesmo esclarece”, foi enorme, ao receber a seguinte
resposta de Trotsky: “se tivéssemos deputados nas Cortes teríamos votado contra
o orçamento de Negrin (...), votar o orçamento militar de Negrin significa
outorgar-lhe apoio político.” (A Revolução Espanhola, vol. 2,
p.164; sublinhado no original).
Aqui a política dos campos, tal
como aplica Schachtman, tem uma aparente fundamentação na realidade, já que os
campos realmente existem e estão enfrentados na guerra civil. O orçamento que
solicita Negrin é para combater o fascismo, por isso, disse Schachtman
deveríamos aprová-lo.
A resposta de Trotsky, de evitar
qualquer ato de solidariedade política com o governo burguês, é decorrente da política bolchevique e das
lições da Revolução Russa. Assim como se
derrotou ao levante de Kornilov e a contra revolução denunciando a Kerenski e
conquistando o poder, na única garantia para a vitória definitiva e histórica
contra o fascismo é a política de independência de classe, usada até a
derrubada do governo burguês frente populista de Negrin e a conquista do poder
pelo proletariado.
6. A
teoria dos campos, versão pablista
Em 1951, em seu célebre documento
“A onde vamos?”, Pablo apresenta uma nova versão da teoria dos campos.
Vejamos o que disse:
“Para nosso movimento, a
realidade social objetiva consiste essencialmente no regime capitalista e
no mundo stalinista (...), dito
esquematicamente, a relação de forças a nível mundial é a relação de forças
entre estes dois blocos.” (SWP, Education for socialiste bulletin, março 1974,
p.5).
Como vimos, também aqui tem dois
“campos” a nível internacional: o “progressivo” da URSS e o reacionário do
regime capitalista. Em que consiste a novidade ?
Para o marxismo, o regime
capitalista é uma totalidade integrada pela burguesia e o proletariado.
Significa, então, que Pablo integra em
seu campo reacionário ao proletariado dos países capitalistas e
principalmente dos Estados Unidos, país líder do campo. Embora que, para os
revisionistas anteriores, o proletariado sempre era parte do “campo
progressivo”.
Por outro lado, o “campo
progressivo” pablista estava integrado pela URSS em seu conjunto, ou seja, pela
burocracia.
É possível notar que a teoria revisionista de Pablo, como
todas as que estamos vendo neste capítulo, também respondia a um fato real: a
“Guerra Fria” entre a burocracia soviética e o imperialismo americano.
A posição de Pablo foi
magnificamente refutada por Favre-Bleibtreu da sessão francesa em “para onde
vai o camarada Pablo?” Nós acreditávamos que a realidade social consistia
na contradição entre as duas classes fundamentais, o proletariado e a
burguesia. Evidentemente estávamos equivocados: de agora em diante, o regime
capitalista, que inclui essas duas classes, se convertem em uma totalidade
contraditória... ao mundo stalinista”. Favre-Bleibtreu analisava que, ao
abandonar o critério marxista, de classe em favor das idéias revisionistas dos
campos, Pablo se veria obrigado a alinhar-se com o “Bloco anticapitalista” (o
stalinismo) e terminaria capitulando diante dele.
Os trotskistas ortodoxos
latino-americanos, como nos chamava-mos nesta época os que combatiam Pablo,
sustentávamos que a definição de Favre-Bleibtreu era completa, porém, limitada:
Pablo capitularia não só ao stalinismo, mas que a todos os aparatos
burocráticos ou burgueses que tivessem apoio de massa.
7.
Bolívia e Nicarágua: duas aplicações
do revisionismo pablista
Os fatos não tardaram em nos dar
razão, a Favre-Bleibtreu e a nós. A Revolução Proletária Boliviana de 1952
destruiu as forças armadas da burguesia e levou ao poder o partido nacionalista
burguês de Paz Estenssoro que formou seu governo com alguns burocratas
sindicais como Lechin.
Fiel à sua teoria revisionista,
Pablo sustentou que se formaram duas frentes: a reacionária, integrada pela
oligarquia Boliviana, os grandes patrões de estanho, os fazendeiros e o imperialismo expropriado. O progressivo
estava integrado pelo governo nacionalista e a direção da Central Operária.
O partido trotskista POR, nessa época
muito poderoso, defendia, orientado por Pablo, Mandel e Posadas, que devia
defender este governo dos ataques do imperialismo e da oligarquia, e apoiar
suas medidas “progressivas”. Em outras palavras, devia formar parte deste
campo.
Os resultados dessa política são
conhecidos: a burguesia boliviana pôde reconstruir seu exército e derrotar a
revolução. Por seu lado, o trotskismo
Boliviano, que estava em condições de tomar o poder, não pôde até o
momento (30 anos depois) recuperar-se dessa derrota.
Nas
três décadas transcorridas as massas Bolivianas se levantaram numa ou outra
vez, porém o trotskismo, se reduziu a uma pequena seita, não cumpriu nenhum
papel nestes ascensos.
Outro
caso muito mais recente e conhecido por nosso movimento: o caso da Nicarágua em
1979. Ali uma organização guerrilheira de caráter pequeno burguês e influência
de massas, a Frente Sandinista dirigiu a luta que tirou do poder a ditadura de
Somoza, para instaurar um governo burguês.
O Socialist Workers Party dos
Estados Unidos caracterizou a GRM diretamente como operária e camponesa.
Em contrapartida Mandel, fiel discípulo
de Pablo, o caracterizou corretamente como burguês, porém defendeu que era
necessário apoiar. Levou essa política até o ponto de apoiar o governo em seus
atos de repressão aos combatentes internacionalistas da brigada Simon
Bolívar, criada por iniciativa da fração bolchevique, e entre os quais,
existiam muitos camaradas trotskistas.
Nisso, Mandel foi conseqüente com
sua política de anos, de apoiar os grupos guerrilheiros latino-americanas e por
meio deles o castrismo.
Com sua política na Nicarágua,
Mandel aplicou a teoria dos campos: apoiou o “campo progressivo” do governo
burguês contra-revolucionário formado pela FSLN, inclusive contra os
revolucionários trotskistas.
8. As
razões de uma capitulação
Vimos como em todas as etapas
abertas por grandes triunfos do movimento operário, num setor do marxismo
revolucionário, formando um bloco com correntes oportunistas, capitula a Frente Popular apoiando-se na teoria dos
“campos”. A vítima mais recente deste fenômeno é a direção da OCI, os mesmos
camaradas que defenderam a nossa internacional do liquidacionismo pablista.
Que camaradas com semelhante
trajetória tenham capitulado ao frentepopulismo, como já ocorreu com outros
revolucionários da história, requer uma explicação marxista, ou seja, de classe.
Ao chegar ao poder, um governo
frente populista, aparece entre as massas, principalmente seus setores mais
atrasados, ilusões de que tal governo pode resolver seus problemas (desemprego,
miséria, etc.). Essa falta esperança exerce uma tremenda pressão sobre os
partidos que militam no movimento operário. É assim, nas fábricas, oficinas,
universidades, exército, etc., os militantes estão rodeados por companheiros que
confiam no governo. Esses militantes começam a perguntar-se: “Depois de tudo,
não será verdade? O governo frente populista, não será melhor do que
acreditávamos, ou do que nos ensinou Trotsky?
Em todo caso, damos um prazo ao governo para ver o que faz”.
Sobre a direção do partido
revolucionário se coloca outra pressão, porém mais forte e perigosa. Mais
forte, porque não vem das massa atrasadas que perderiam as ilusões rapidamente
perante as inevitáveis traições do governo burguês, senão que os quadros dos
partidos operários contra-revolucionários, os mais interessados em manter o
governo frente populista no poder, já que são parte do mesmo.
Nossos quadros e dirigentes tem
estreitas relações (que podem ser conflitivas, porém nem por isso menos
estreitas) com os quadros e dirigentes dos partidos oportunistas, porque estão
nas mesmas organizações e sindicatos operários. Quando chega um governo frente
populista ao poder os dirigentes traidores se tornam funcionários estatais e
adquirem grande influência no aparato estatal. Aproveitam essa situação para
“oferecer seus bons serviços” a nossos dirigentes, fazer-lhes acreditar que,
com uma política paciente e esperta, se pode satisfazer gradualmente todas as
reivindicações com o novo governo. Sobre este dizem é compreensivo até com a
esquerda revolucionária, é quase amigo dela. Se a esquerda revolucionária não
acredita nisso, que peçam uma entrevista com o ministro tal, com o secretário
do Estado tal ou com o próprio presidente, e vão perceber como o recebem e atendem
os seus pedidos.
Por isso, o verdadeiro inimigo
não é o governo senão os burgueses e sobretudo os grandes monopólios.
Nenhum verdadeiro partido
revolucionário é imune a essas pressões. Um partido trotskista que num período
de governo frente populista não sofre grandes lutas internas, não é um partido
senão, no melhor dos casos uma seita cristalizada, separadas das massas e suas
organizações. Se é um partido inserido no movimento de massas - mesmo que seja minoritário - um setor de
sua direção cederá perante as suas pressões de seus “amigos reformistas”, com
argumentos do tipo, “não devemos nos isolar das massas” ou “é necessário
combater as ilusões no terreno da ilusões” e terminará capitulando ao
frentepopulismo.
Isto é, praticamente o mesmo que
dizia Trotsky, em sua carta já citada, para explicar as razões da capitulação
de Molinier e Frank. A OCI está sofrendo agora as mesma pressões, e está
percorrendo o mesmo caminho que os fundadores da La Commune.
CAPÍTULO III
A FRENTE ÚNICA ANTIIMPERIALISTA
COMO EXPRESSÃO DA TEORIA DOS CAMPOS BURGUESES PROGRESSIVOS
Uma das expressões específicas
mais importantes da teoria dos campos burgueses progressivos foi formulada pela
própria Internacional Comunista: é a frente única antiimperialista.
Posteriormente, esta teoria foi desenvolvida de maneira oportunista por Stalin
e Mao pelas correntes revisionistas do marxismo e o trotskismo, até chegar a Lambert e Favre.
O conteúdo principal desta teoria
pode ser sintetizado assim: o eixo estratégico do partido revolucionário nos
países atrasados é a conformação de uma frente única antiimperialista com a
burguesia nacional.
Dada a enorme importância que
possui nos países atrasados na luta de classes mundial, pelo fato de envolver a
imensa maioria da humanidade, este aspecto particularmente odioso da teoria
revisionista dos campos merece que dediquemos um capítulo para isso. No
presente capítulo veremos em primeiro lugar a teoria de Lambert-Favre e seus
mestres, Stalin e Mao, por conseqüência
também as concepções da III Internacional, Lenin e também Trotsky até 1917, concepções que em
nossa opinião se orientam num sentido muito parecido ao que tinham os Bolcheviques antes da
revolução de 17, ou seja, a revolução por etapas e a ditadura revolucionária
operária e camponesa para desenvolver a revolução democrática burguesa, e
finalmente o posterior desenvolvimento ideológico de Trotsky até chegar a sua
concepção da revolução permanente nos países atrasados.
1. A
teoria Lambert-Favre da
frente
única antiimperialista
Em nossas fileiras, esta variante
da teoria dos “campos burgueses progressivos” foi explicada por Luís Favre em
uma intervenção no Conselho Geral da CI (QI), diretamente inspirada em seu
conteúdo por Pierre Lambert.
Ao início de sua intervenção,
Favre sustentou categoricamente: “Creio
que, em linhas gerais, o eixo da luta pela frente única nos países
coloniais e semicoloniais passa pela luta pela frente única antiimperialista
e a auto-organização da classe operária. (“Sobre a frente única
antiimperialista”).
Aqui se expressam dois conceitos.
Um, implícito, é que a frente única é uma estratégia permanente. Não nos
deteremos sobre este falso conceito aqui, já que será tema de um capítulo
posterior. O outro, este sim explícito, é que nos países colônias e semicoloniais
a frente única se concretiza na frente única antiimperialista e que esse é o
eixo da estratégia revolucionária e ditos países.
Estabelecido este eixo, Favre
passa a definir a frente: “O partido do proletariado deve lutar em um bloco
unido com os partidos da burguesia e a pequena burguesia”.
Isto é assim, segundo
Favre-Lambert, porque “existe uma diferença qualitativa entre a
burguesia imperialista e a dos países coloniais e semicoloniais”. (idem).
A conclusão é: “Não se trata de
fazer a frente única antiimperialista somente quando existe conflitos com o
imperialismo: a luta contra a dominação imperialista do país é permanente
(...). Pois bem, estamos dispostos a levar esta luta com quem queira. A
fazer um bloco com qualquer um em base a essa linha. Inclusive com o PSR
/peruano/, que se proclama nacionalista burguês”.
Resumindo os argumentos de
Lambert-Favre, teremos: nos países semicoloniais e coloniais existem dois
campos, o antiimperialista com o proletariado, as massas e o setor da burguesia
chamada “nacionalista” e o imperialista com o imperialismo e os setores da
burguesia ligados a ele.
O dever do partido do
proletariado, o eixo de sua política, é conformar um “bloco unido”com os
partidos da burguesia e a pequena burguesia , contra o campo imperialista.
O eixo da política de Lambert-Favre não é
buscar a independência de classe do proletariado e neste marco , estudar a
conveniência tática de fazer tal ou qual acordo limitado e circunstancial com algum setor da burguesia, senão que fazem
exatamente o contrário. O permanente, o
estratégico é o acordo com a burguesia, a “auto-organização da classe operária”
(supondo, com uma grande dose de boa vontade, que isso é sinônimo de
independência de classe) , fica em um plano secundário.
Neste terreno, Lambert e Favre
não coincidem com Molinier e Schachtman, que capitularam à política dos campos
quando estes apareceram na realidade. Sua coincidência é com os mencheviques,
os stalinistas e Pablo, que levaram essa política ao nível de uma teoria e uma orientação
permanente. Lambert e Favre sustentam
que, quando o bloco com a burguesia não existe (como é na absoluta maioria dos
casos), o partido revolucionário deve criá-lo.
2.
Stálin, Mao e a luta contra o “militarismo”
e o “
imperialismo” na China
Na realidade, Lambert e Favre não
“descobriram a pólvora”. Sua concepção
é igual a que formulou Stalin e Mao para
a Revolução Chinesa de 1925-27.
O célebre, de forma lamentavel,
programa do Comintern escrito por
Bujarin, sob a inspiração de Stálin sustentava , tal como sustenta Lambert e
Favre hoje em dia, que a burguesia colonial pode desempenhar um papel
anti-imperialista e que portanto, “os acordos com a burguesia nacional dos
países nacionais são legítimos na medida em que a burguesia não destrua a organização
revolucionária dos operários e camponeses e leve uma autêntica luta contra o imperialismo”.
(citado por Trotsky, The Third International After Lenin, pp.167-168).
Se existe alguma diferença entre Stálin-Bujarin e
Lambert-Favre, é que aqueles são um pouco mais cautelosos empregam o termo
condicional em suas afirmações (“na medida que”). Segundo eles, é possível que a burguesia
lute contra o imperialismo, e neste caso os acordos com ela são “legítimos”. Já,
para Lambert-Favre, o que se busca não é um acordo, senão um “bloco unido” com
a burguesia “anti- imperialista”, e essa política mais que legítima, é um
“dever” e o “eixo” da atividade do partido revolucionário.
Voltando ao Stalinismo, o
principal impulsionador dessa política no Partido Comunista Chinês foi o jovem
Mao Tse-tung, recentemente eleito ao comitê central do partido. Mao expôs sua posições no jornal do partido,
no artigo “O golpe de Estado de Pequim e os comerciantes”; os comerciantes aqui
são a burguesia.
“Devido à necessidade histórica
e a situação conjuntural, a obra pela qual os comerciantes deveriam assumir
responsabilidade na Revolução Nacional é mais importante que a obra que deve
assumir o povo. Sabemos que os
militares e as potências estrangeiras se uniram para impor uma dupla opressão
sobre o país. Logicamente, o povo de todo o país sofre profundamente debaixo
de uma dupla opressão desse tipo. No
entanto, quem sente estes sofrimentos de maneira mais aguda são os
comerciantes”. (citado por Peng,
op.cit., p.41; sublinhado do original).
Conseqüente com essa análise, Mao
chega a seguinte conclusão: “quanto mais ampla seja a organização dos comerciantes,
quanto maior seja a sua influência, maior será a sua capacidade para dirigir
o povo de todo país e mais rápido será o êxito da revolução”.(op.cit.,
p.42,; sublinhado do original).
Outro novo membro do CC, Chu
Chiu-pai, avançou um pouco mais; “Os comerciantes, camponeses, operários,
estudantes e mestres, todo o povo deve unir-se a Kuomintang”. (op.cit.,
p.43; sublinhado do original).
A concepção aqui expressa é que
as tarefas da revolução anti-imperialista (“nacional”) deve ser cumprida
principalmente pelos comerciantes, ou seja, a burguesia, é quem deve encabeçar
o campo do “povo” contra o campo dos “militares e potências estrangeiras”. Com um adendo, o de Chu, de que o campo
progressivo deve integrar-se em um partido único, o Kuomintang.
Como disse Peng, muito
acertadamente, “é evidente que estamos diante de duas manifestações do
pensamento menchevique”. São três expressões,
acrescentaríamos nós, se juntar-mos a de Lambert-Favre, idêntica a de
Stálin-Mao, menos o aspecto do partido único.
3. Mao
e a invasão japonesa da China
A concepção clássica de frente única
anti-imperialista como variante da teoria dos campos burgueses progressivos foi
elaborada por Mao, durante as invasão Japonesa na China logo antes da Segunda
Guerra Mundial.
Em um informe programático,
apresentado a Conferência Nacional do PCCh (maio de 1937) com o título “A
tarefa do PC da China no período da resistência ao Japão”, disse:
“Devido que a contradição entre
China e Japão passou a ser a principal, e que as contradições
internas da China ficaram relegadas a um plano secundário e subordinado,
nas relações da China com o exterior e nas relações de classe dentro do país,
sofreram mudanças que iniciam uma nova etapa de desenvolvimento da situação
atual”. (Obras escolhidas de Mao Tse Tung, T.I, p.283).
Quais são essas “contradições
internas” que passaram a um “plano secundário e subordinado”? O próprio Mao
responde: “Faz muito tempo que a China vive duas contradições agudas e
fundamentais: a contradição entre a China e o imperialismo e a contradição
entre o feudalismo e a grandes massas populares (...). Com seu
desenvolvimento, a contradição nacional entre a China e o Japão superou com
peso político relativo a das contradições entre as classes...”.(op.cit.,
pp. 283 e 285).
Quer dizer que, para Mao, as
contradições jamais são entre as classes, senão que, entre o povo e o
feudalismo por um lado, e entre a nação chinesa e o agressor japonês por
outro. Em ambos os casos são
contradições entre campos burgueses, com a classe operária e as massas formando
parte do mais “progressivo” destes. No momento em que Mao escreve seu
documento, a contradição China-Japão relegou a contradição povo-feudalismo a um
plano secundário, devido a realidade da invasão. Prossegue Mao:
“Isto coloca ao PC da China e ao povo Chinês a
tarefa de formar uma frente única nacional antijaponesa. Nossa frente única
incluirá a burguesia e todos aqueles que estejam a favor da defesa da
Pátria, e simbolizará a unidade nacional contra o inimigo estrangeiro”.
Porém, tem mais: “A China não só
deve unir-se com a URSS que sempre foi amiga fiel do povo Chinês, senão também,
na medida do possível, estabelecer relações de luta conjunta contra o
imperialismo Japonês com aqueles países imperialistas que no momento
estejam dispostos a manter a paz e se oponham a novas guerras de agressão”.
(op.cit., p. 284).
Daqui se desprende um programa
cujos pontos principais são os seguintes:
“No interesse da paz interna,
a democracia e a guerra de resistência, e com vistas a estabelecer a frente
única nacional antijaponesa, o PC da China, em seu telegrama à III Seção
plenária do Comitê Executivo Central do Kuomintang, contraiu os seguintes
quatro compromissos:
“1) Mudar o nome do governo (...)
quem dirige o PC da China (...) e o do Exército Vermelho fazem jus formar parte
do Exército Revolucionário Nacional, de modo que tal governo e tal exército
fiquem dentro da jurisprudência do governo central de Nankín e de seu conselho
militar, (ou seja, sob o comando político-militar de Chiang Kai-shek);
2) Aplicar um sistema
democrático;
3) Suspender a política de
derrubar o Kuomintang pelas forças das armas e;
4) Suspender o confisco das
terras dos latifundiários”. (op. cit., pp.289-290).
Então, a invasão japonesa a
chinesa propiciou o surgimento de dois campos: o imperialista, integrado pelo
Japão e seus aliados, e o progressivo, o antiimperialista (antijaponês),
encabeçado pelo governo burguês de Chiang Kai-shek e integrado pela burguesia
nacional e as potências imperialistas que tenham diferenças com o Japão. O
partido do proletariado deve integrar-se nesse campo progressivo
anti-imperialista, para isso “suspende” a luta por derrotar o governo e as
expropriações revolucionárias dos latifundiários pelos camponeses. Mais ainda,
dissolve os governos revolucionários das zonas controladas por ele e seu
exército, para integrar o governo e exército burguês sob o comando do fascista
Chiang Kai-shek.
Conclui Mao: “Nossos inimigos -
os imperialistas japoneses, os colaboracionistas chineses, os elementos pró
japoneses e os trotskistas - vem fazendo tudo quanto podem para torpedear
cada passo que se dá a favor da paz e da unidade...”. (op.cit., p. 289).
Tem razão ao dizer que os
trotskistas são inimigos da unidade com a burguesia que ele defende, já que se
trata de unidade política, de subordinação do proletariado a burguesia.
Justamente para a mesma época, Trotsky escrevia, na carta encerrada no dia
23/9/37.
“Não negamos a necessidade de um bloco
militar entre o PC e o Kuomintang. No entanto, pedimos que o PC mantenha
sua independência política e organizativa total, que tanto na guerra
civil contra os agente interno do imperialismo como na guerra nacional
contra o imperialismo estrangeiro, a classe operária, embora permanece na
primeira linha da luta militar, prepare a derrota política da burguesia”. (On
China, p. 570).
Isto é exatamente o oposto do que
defenderam os teóricos dos campos. A guerra nacional de defesa frente ao
imperialismo de nenhuma maneira relega a luta de classes a um plano secundário.
Pelo contrário, o proletariado e seu partido lutam na primeira fila contra
o invasor estrangeiro, porém, mantém sua
total independência política e organizativa e prepara a derrota revolucionária
da direção burguesa.
Os trotskistas lutam contra o
imperialismo japonês na primeira fileira, porém:
1) Não se subordina a “jurisprudência
do governo central e seu conselho
militar”, senão que “criam organizações militares sobre bases classistas
(...) em tempo de guerra a vanguarda proletária permanece na oposição
irreconciliável com a burguesia”;
2) Não suspende a política de
derrubar o Kuomintang, senão que prepara o autêntico governo operário e
camponês, ou seja, a ditadura do proletariado;
3) Não “suspende os confiscos de
terra” senão que compreende que “se abrem grandes oportunidades para as lutas
econômicas dos trabalhadores”.
Os partidos que seguem a
orientação de Lambert-Favre nos países coloniais e semi-coloniais, se são
conseqüentes até o fim, deverão aplicar a política de Mao e não a de
Trotsky.
4. A
política da III Internacional
para os países coloniais e semi-coloniais
Se
Lambert, Favre e os atuais defensores dessa teoria revisionista que estamos
comentando querem encontrar um ponto de apoio, muito relativo e muito difícil
por outro lado, nos textos clássicos do marxismo, desde logo os pouparemos
deste trabalho de busca: poderão encontrar nos documentos e resoluções da
Terceira Internacional e em certos textos de Lênin e Trotsky daquela época,
referindo-se aos países atrasados.
Na
continuação analisaremos alguns destes textos, que em nossa opinião - e o
dizemos com toda franqueza - em relação a revolução permanente são centristas,
como era a posição de Lênin antes de 17, ao concordar com os mencheviques sobre
o caráter burguês da revolução e o etapismo, divergindo com eles sobre a
dinâmica de classes. São textos que expressam a concepção não somente da
revolução por etapas, mas também do apoio e defesa do “campo burguês
progressivo” nos países coloniais e semi-coloniais, principalmente nos mais
atrasados.
Se
trata porém, de um menchevismo “sui generis”, que tem um aspecto
revolucionário, já que integra essa revolução por etapas dentro da revolução
socialista mundial, e principal mente
porque se insiste na independência política da classe operária européia.
Entremos no assunto.
O
IV Congresso da Comintern aprovou umas “teses gerais sobre a questão do
Oriente”, que inclui uma tese sobre a “Frente anti-imperialista única”. Ali se
diz:
“Nos países ocidentais em que se
atravessa um período transitório caracterizado por uma acumulação organizada
das forças, se lançou a consigna de frente única proletária. Nas colônias
orientais é indispensável, na atualidade, lançar a consigna de frente única
anti-imperialista. No momento essa consigna está condicionada pela perspectiva
de uma luta a longo prazo contra o imperialismo mundial, luta que exige a
mobilização de todas as forças revolucionárias (...) Assim como a consigna
de frente única proletária contribuiu e contribui no Ocidente para desmascarar
a traição cometida pelos sociais democratas contra os interesses do
proletariado, assim também a consigna da frente única anti-imperialista
contribuirá para desmascarar as vacilações
dos diversos grupos do nacionalismo burguês. Por outro lado, essa
consigna ajudará ao desenvolvimento da vontade revolucionária e ao
esclarecimento da consciência de classe dos trabalhadores, incitando-os à
lutar nas primeiras fileiras, não só contra o imperialismo, mas também
contra todo o tipo de resquício feudal.
“O movimento operário dos países coloniais e
semi-coloniais, deve antes de tudo, conquistar uma posição de verdadeiros
revolucionários autônomos na frente anti-imperialista comum. Só assim, se faz
reconhecer com importância autônoma e conserva a sua plena independência política,
os acordos temporários com a democracia burguesa são admissíveis e até
indispensáveis.(...) A frente antiimperialista única está indissoluvelmente
vinculada com a orientação da Rússia dos Soviets.
Explicar as multidões de
trabalhadores a necessidade de sua aliança com o proletariado internacional e
com a República Soviética é um dos principais pontos da tática de Frente Única
anti-imperialista. A Revolução colonial só pode triunfar com a revolução
proletária nos países ocidentais”. (Los cuatro primeros congresos...,
Tomo 2, pp. 231-232).
Depois sintetiza o programa para
os países atrasados, em relação a frente única antiimperialista:
“A reivindicação de uma aliança estreita com a
República dos soviets é a bandeira da frente única antiimperialista. Desde
quando se prepara, é preciso levar à cabo uma luta decidida pela máxima
democratização do regime político a fim de privar de toda sorte aos elementos
social e politicamente mais reacionários e assegurar aos trabalhadores a
liberdade de organização, permitindo-lhes lutar pelos interesses de classe (reivindicação
de uma república democrática, reforma agrária, reforma tributária, organização
de um self-government (autogoverno), legislação operária, proteção do
trabalho, proteção da maternidade, da infância, etc.)”. (op.cit., pp.
232-233).
Como vimos, aqui não se coloca a
perspectiva da revolução operária e a ditadura do proletariado para os países
atrasados. Pelo contrário, só se coloca a luta contra o “imperialismo” e,
dentro do país contra os restos feudais”, com o objetivo de chegar a uma
república democrática na qual a classe operária conquiste reivindicações parecidas com as do proletariado ocidental.
A quinta tese esclarece o papel
do partido do proletariado na revolução democrática e na república democrática:
“Duas tarefas se fundem em uma só cabe aos
partidos comunistas colônias e semicoloniais: por um lado, luta por uma
solução radical dos problemas da revolução democrática burguesa cujo objetivo é
a conquista da independência política, por outro lado, organização das
massas operárias e camponesas para permitir lutar pelos interesses
particulares de sua classe, utilizando par isso todas as contradições do
regime nacionalista democrático burguês”. (op. cit., p. 230).
Novamente, se trata de conseguir
a revolução democrática burguesa e conseguir um lugar específico, independente,
para a classe operária dentro da mesma. A tarefa do Partido Comunista, o
Partido Revolucionário do proletariado não é a conquista do poder, mas ganhar
um lugar próprio dentro do campo burguês que realiza a revolução democrática
burguesa.
Temos um bom exemplo da aplicação
dessa política, na “Carta aberta ao Quarto Congresso da Comintern aos comunistas e ao povo
trabalhador da Turquia:
“O Partido Comunista da Turquia sempre
apoiou ao governo nacionalista burguês na luta das massas trabalhadoras
contra o imperialismo. O Partido Comunista inclusive se mostrou disposto,
frente ao inimigo comum, a fazer sacrifícios temporários quanto ao seu
programa e ideais”. (The Communist International, vol. 1, p. 380).
Alguns delegados falaram contra a
posição das teses, por exemplo, o hindu Roy defendeu: “Os movimentos
revolucionários nacionais nos países aonde milhões e milhões querem a
libertação nacional, e que não podem progredir sem libertar-se econômica e
politicamente do imperialismo, não triunfarão sob a direção da burguesia”.
Agregou que a burguesia seguramente desertaria da revolução nacional e a
trairia, e neste caso a direção deveria ser assumida pelos PCs.(op.
cit., p. 382).
No entanto, como mostrou Radek em
sua resposta, também as teses do Segundo Congresso da Comintern chamavam pelo
apoio aos movimentos nacionalistas do Oriente sem referir-se a luta de classes,
advertiu Radek que Marx em seu tempo, propôs uma política de apoio à burguesia,
embora fosse revolucionário. Essa é a política que se impôs no Quarto
Congresso.
5. O
contexto teórico das
posições da III Internacional
O chave da resolução da Terceira
Internacional que estamos analisando reside numa concepção teórica imposta
por Lênin e Trotsky em relação aos países atrasados.
A teoria da revolução permanente,
tal como havia formulado Trotsky até esse momento estava se referindo a
Revolução Russa e Européia, não aos países atrasados, ao que ele não prestou
uma maior atenção até depois da Revolução de Outubro. Trotsky considerava que a
Revolução Permanente, como combinação das revoluções democrático burguesas e
socialistas, e como a necessidade da conquista do poder pelo proletariado para
resolver as tarefas da revolução democrática, era uma teoria para a revolução
no império czarista combinada com a Revolução Européia. Ou seja, era uma teoria
para os países adiantados e para um país como a Rússia, europeu e atrasado,
porém com elementos de forte desenvolvimento capitalista (segundo disse em sua
conhecida exposição da Lei do desenvolvimento desigual e combinado e no
prefácio da História da Revolução Russa).
Depois de 1917, ao estudar a
situação dos países da Ásia e África e comprovar a tremenda debilidade de seu
desenvolvimento capitalista, chega a uma conclusão semelhante a de Lênin e dos
mencheviques, e oposta a da revolução permanente. Considera que a revolução
nos países atrasados do Oriente e da África passarão por duas etapas,
claramente diferentes: primeiro a revolução nacional e democrática, até que se
consolide o proletariado como classe,
logo depois, a etapa da revolução socialista.
No entanto, como dissemos no
começo, essa concepção inclui um aspecto adicional: que a primeira etapa dos
países atrasados se combinaria com a revolução proletária nos países adiantados
da Europa Ocidental. Em outras palavras, ele vê a revolução mundial (conceito
este que está totalmente ausente da teoria menchevique) como um processo em que
se combinam “revoluções desiguais”: socialistas nos países adiantados e
democrático burgueses nos atrasados.
E vejamos com suas próprias
palavras. O Manifesto do Primeiro Congresso escrito por ele diz, em relação as
“insurreições e o fermento revolucionário que se produziu nas colônias”.
“Escravos coloniais da África e Ásia, a hora da ditadura proletária na Europa
será para vocês a hora de vossa emancipação !” (The First Five Years...
vol. 1, pp. 24 e 25).
E insiste: “Nos países onde o
processo histórico brindou essa oportunidade, a classe operária utilizou o
regime da democracia política para organizar-se contra o capitalismo. O mesmo
ocorrerá também no futuro, nos países aonde as condições para a
revolução proletária ainda não amadureceram. (op.cit., p.2)
Ou seja, existem países maduros e
“todavia não maduros” para a revolução proletária. Nestes está colocada a
tarefa da libertação nacional e a democracia, e a luta pela mesma se combinará
com a revolução proletária na Europa.
Algo parecido dirá Trotsky no
Segundo Congresso: “A luta simultânea
contra os opressores estrangeiros e seus aliados locais - senhores feudais,
padres e agiotas - estão transformando o crescente exército da insurreição
colonial em uma grande força histórica, em uma poderosa reserva do proletariado
mundial”. (op.cit., p.125)
Como vimos, aqui Trotsky fala de
um “exército da insurreição colonial”, sem diferenciação de classe e dos
inimigos deste exército: os opressores estrangeiros, os senhores feudais,
padres e agiotas, não a burguesia.
Entre o Segundo e o Terceiro
Congressos volta a insistir dando ênfase aos dois aspectos de sua concepção,
tanto do caráter da revolução nacional no Oriente como de sua íntima ligação
com a revolução proletária no Ocidente imperialista. Em resposta a ultra esquerdista Gorter, que
defendia que a classe operária inglesa estava isolada da pequena burguesia, ao
contrário da Rússia que teve o apoio dos camponeses, disse:
“Os proletários ingleses não
podem conseguir a vitória final, até que não se levantem os povos da Índia e
até que o proletariado inglês não proporcione o dito levante um objetivo e um
programa, não se pode falar de vitória na Índia sem a ajuda e direção do
proletariado britânico. Aí você tem a colaboração revolucionária do
proletariado e dos camponeses nos conflitos do Império britânico” .
Aí temos a vinculação entre as
revoluções britânicas e hindu, qual é o “objetivo e programa” que o
proletariado britânico proporcionará aos camponeses hindus? Trotsky responde:
“Gorter enfoca a questão desde o ponto de
vista inglês, esquece da Ásia e África, passa por alto a conexão entre a
revolução proletária do ocidente e as revoluções agrárias nacionais no oriente.”
Ou seja, na Índia não está
colocada a revolução proletária, mas, a revolução nacional e agrária, e não
isoladamente, mas em íntima relação com a revolução, está sim proletária, na
metrópole.
Recém tinha acontecido o IV
Congresso, a posição de Trotsky começa a modificar-se num sentido: o da
dinâmica interna de classe da revolução mas todavia não quanto aos
objetivos de classe da mesma: “O desenvolvimento do proletariado nativo
paralisa as tendências nacional-revolucionárias da burguesia nacional. Porém ao
mesmo tempo as multitudinárias massas camponesas obtém uma direção encarnada na
vanguarda comunista consciente. A combinação da opressão nacional militar
exercida pelo imperialismo estrangeiro e nativo, com as subserviência da
servidão feudal, está criando condições favoráveis nas quais o jovem
proletariado colonial se desenvolva rapidamente e ocupará seu lugar a cabeça do
vasto movimento revolucionário das massas camponesas”. (op. cit., vol. 1,
p. 250).
Sintetizando, Trotsky enquanto
viveu Lênin, chega até o plano da combinação das lutas camponesas e os
movimentos nacionalistas dos países atrasados com a revolução socialista nos países
adiantados. Como análise das perspectivas revolucionárias dos países coloniais
e semicoloniais o máximo que chegou em sua análise é sua afirmação que a
revolução camponesa ou antiimperialista pode ter como ponto de apoio a direção
do proletariado se este fica independente politicamente. Porém, igual Lênin
antes de 1917, que considerava que a revolução antizarista seria acaudilhada
pelo proletariado e as massas exploradas porém seus objetivos seriam puramente
nacionais e democráticos, Trotsky jamais colocava para os países atrasados,
como dinâmica de classe da revolução, a conquista do poder pelo proletariado, a
instauração de sua ditadura e o começo da realização da revolução socialista.
6. A
Revolução Chinesa e a
evolução
teórica de Trotsky
No início, Trotsky enfocará a
Revolução Chinesa dentro da concepção teórica que acabamos de estudar, ou seja,
que será uma revolução em duas etapas, e que o processo chinês se encontra em
sua primeira etapa, de caráter nacionalista e democrático burguês. Nesta etapa,
a política do PC Chinês deve ser de aliança com a burguesia nacional e
inclusive com o seu governo, contra o imperialismo japonês. É nada menos que a
política dos “campo burguês progressivo”, e neste caso “anti-imperialista”.
Assim, em uma nota datada de 22
de março de 1927, coloca claramente:
“É evidente que os comunistas
não podem abandonar o apoio ao exército nacionalista e ao governo nacionalista,
nem, aparentemente, podem negar-se a fazer parte do governo nacionalista.
Porém o problema da independência organizativa total do PC, ou seja, se retirar
do Kuomintang, não pode ser adiado (...)
Os comunistas podem conformar um governo unificado com o Kuomintang sob
a condição de total independência dos partidos que conformam o bloco
político”. (On China, p.126)
Trotsky estava colocando aqui que
o PC deve colocar fim a política que vinha praticando, de entrismo no partido
nacionalista burguês, porém, não só não deve romper sua aliança política com
ele, mas que deve apoiar seu governo e inclusive participar neste governo
burguês.
Mais ou menos na mesma época,
insiste:
“Ao atrasar a demarcação
organizativa (do PCCh com o Kuomintang), coisa que deriva inevitavelmente da
diferenciação de classe não exclui, mas pelo contrário, sob as condições
políticas existentes, pressupõe o bloco político com o Kuomintang em seu
conjunto e com elementos do mesmo, em toda a República ou em certas províncias
de acordo com as circunstâncias. Porém em primeiro lugar, o PCCh deve
garantir sua própria independência organizativa total e a clareza no programa
político e a tática na luta para ganhar influência nas massas proletárias que
acabam de despertar. Só com esse enfoque se permite falar seriamente de ganhar
as amplas massas do campesinato chinês para a luta”.
A contradição desta posição é
evidente. Trotsky está propondo que o PC deve ganhar sua independência
organizativa, como partido, em base a diferença de classes, para ganhar
influência sobre o proletariado e que este dirija o campesinato. Em outras palavras deve conformar um bloco
das classes exploradas contra a burguesia. Porém ao mesmo tempo, deve manter
sua aliança política com a burguesia, seu bloco com o Kuomintang. Isto, com o
objetivo, “não de tirar a classe operária do marco da luta nacional-
revolucionária, mas para garantir o papel de lutador mais decidido na
mesma...”
Em síntese, é a proposta de lutar
em bloco contra a burguesia e ao mesmo tempo fazer um bloco com a burguesia
para realizar a revolução nacional e democrática.
Trotsky começa a superar essa
contradição um pouco depois. Em uma carta a um camarada da oposição de esquerda
(em 29/3/27 ), coloca:
“O problema da luta por um
governo operário e camponês de nenhuma
maneira pode identificar-se com problema de umavia de desenvolvimento não
capitalista para a China. Esta só pode colocar-se de maneira provisória e só
dentro da perspectiva da revolução mundial. Só um ignorante de tipo socialista
reacionário poderia pensar que a China atual, com suas atuais bases
tecnológicas e por seus próprios esforços poderia saltar para a fase
capitalista. (...) Mesmo o problema
de que a Revolução Chinesa se converta em uma revolução socialista é só uma
hipótese a longo prazo o problema da luta por um governo operário e
camponês tem uma importância imediata tanto para o curso da Revolução Chinesa
como para a educação revolucionária do proletariado e seu partido”.
Trotsky aqui segue defendendo que a revolução
é democrático burguesa e que a revolução socialista deve ser adiada para uma
segunda etapa (“Não se pode faltar a fase capitalista”, “A revolução socialista
é uma hipótese a longo prazo”). No entanto, aqui já se mostra a concepção de
governo operário e camponês para impulsionar a revolução democrática. O que
defende aqui é a concepção leninista (não a sua própria) do que devia
ser a Revolução Russa: uma revolução burguesa democrática e nacional por seus
objetivos, operária e camponesa por sua dinâmica interna de classes. É a
política que Lênin sintetizou na consigna de “ditadura democrática
revolucionária dos operários e camponeses”.
Esta carta de Trotsky tem uma
importância fundamental por outro aspecto: aqui se nega com varias décadas de
antecedência a teoria Lambertista dos campos - progressivo e reacionário - que
se enfrenta. Vejamos:
“Você comete um erro quando expressa com toda
a clareza (...) que na China surgiram dois campos notadamente hostis: num estão
militaristas, os imperialistas e certa parte da burguesia chinesa; no outro, os
operários, artesãos, pequenos burgueses, estudantes, intelectuais e certos
setores da média burguesia que possuem uma orientação internacionalista. Na
realidade, existem três campos na China, os reacionários, a burguesia
liberal e o proletariado, e os três lutam por conquistar a hegemonia sobre
os grupos inferiores da pequena burguesia e o campesinato (...) O
Kuomintang sob sua forma atual acreditava na ilusão de que existem dois campos,
com o qual mantém a máscara nacional revolucionária da burguesia e com isso,
facilita sua traição.
Os três campos que colocava
Trotsky são os campos de classe e cada um deles luta para ganhar o campesinato
e a pequena burguesia, não são os mesmos campos de Lambert e que aqui aparecem
com os mesmos nomes.
Qual deve ser a política do PC
nesta situação? “O que devemos fazer no curso da revolução é, principalmente, o
partido independente do proletariado que avalie constantemente a revolução
desde o ponto de vista dos três campos e seja capaz de lutar pela
hegemonia do terceiro campo e, por
conseqüência, da revolução em seu conjunto”.
O “terceiro campo” é, claro, a
aliança dos operários e camponeses contra a burguesia. Isto, combinado com a
colocação da necessidade de um governo operário e camponês, mostra uma decidida
superação das posições de Trotsky. No entanto, subsiste a contradição de que
para ele, a revolução é democrática burguesa:
“Não podemos esquecer o pequeno detalhe de que
o que está ocorrendo na China não é uma revolução socialista senão que uma
revolução nacional burguesa”.
Que não se diga que é abusiva
nossa interpretação da política de Trotsky em toda esta etapa: como acabamos de
ver, ele exclui explicitamente que a Revolução Chinesa pode assumir tarefas
anti-capitalistas, socialistas, para ele, suas tarefas são exclusivamente
democráticas e burguesas.
Vamos citar, por último, sua carta
ao Burô Político do Partido Russo de 31 de março de 1927:
“Um sistema de soviets na China
não seria, no próximo período, um instrumento da ditadura proletária, mas da
libertação nacional revolucionária e de unificação democrática do país
(..) Na China, o que está ocorrendo é
uma revolução nacional democrática e não socialista”. (op. cit., p. 135)
Ou seja, novamente está
expressada a contradição entre o caráter da revolução, democrático burguesa, e
sua dinâmica de classe: a dirige o proletariado organizado em soviets.
A superação definitiva vem logo
em setembro de 1927, em suas teses “as novas oportunidades para a Revolução
Chinesa, novas tarefas e novos erros”, contra o programa de Stálin e Bujarin:
“Dado que existe um estado de
guerra civil entre as tropas revolucionárias e o Kuomintang, o movimento
revolucionário só pode triunfar sob a direção do PC, e só sob a forma de
soviets de deputados operários, soldados e camponeses(...) Isto exige um programa para o período de
luta pelo poder, a conquista do poder e a implantação do novo regime (...)
Em outras palavras, do que se trata agora é da ditadura do proletariado”.
E inclui: “A Revolução Chinesa em
sua nova etapa triunfará com ditadura do proletariado ou não triunfará”.
Esta é a concepção que Trotsky
desenvolverá daqui em diante, sintetizada nas teses da Revolução Permanente.
CAPÍTULO 4
A
REALIDADE FRANCESA ATRAVÉS
DA TEORIA DOS CAMPOS
Para a OCI - acreditamos ter
estabelecido isto com toda clareza- o triunfo eleitoral das massas francesas ao
derrotar a Giscard e eleger a Mitterrand, deu surgimento a duas frentes ou
“campos”. O campo “reacionário”está integrado pela patronal agrupada na central
sindical CNPF ( a que em várias ocasiões se qualifica de “verdadeiro estado
maior político da burguesia”), os partidos burgueses UBF , RPR e as
instituições da V República. O campo “progressivo” está integrado por Mitterrand,
o PC, os radicais e os gaulistas de esquerda (que tem ministros no governo). O
outro integrante deste campo é a OCI, posto que está “no campo de Mitterrand em
suas ações de resistência a burguesia”.
E quanto ao campo mitterrandista,
cabe fazer um esclarecimento. Existe no governo de Mitterrand dois ministros
burgueses, Jobert e Crépeau. Os documentos da OCI assinalam a necessidade de
fazer “um governo PS - PCF sem ministros burgueses”, por conseqüência,
pareceria que existe uma luta entre “campos” no seio do próprio governo, no
qual Jobert e Crépeau seriam elementos do campo inimigo. No entanto, não é
assim, posto que a OCI se nega a levantar a tradicional consigna
Leninista - Trotskista de “fora os ministros burgueses da Frente Popular”. Mais
adiante veremos dessa negativa, os argumentos com que a OCI a sustenta e como
isso é coerente com toda a sua trajetória revisionista. Aqui só queremos
mostrar o fato de que, para a OCI, os ministros Jobert e Crépeau e seus
partidos, o radical e o gaulista de esquerda formam parte do campo progressivo,
mitterrandista.
Dado que existem esses dois campos,
para a OCI a realidade atual e futura da França, para os próximos ano, se
caracteriza por um enfrentamento agudo, cada vez mais violento, entre os
mesmos, ou seja, exatamente o mesmo que defendia Pablo para a realidade mundial
nos anos 50.
Já para os marxistas o ascenso do
governo frente populista não altera a realidade fundamental, permanente, das
lutas sociais sob o capitalismo: que a luta, agora e sempre, se estabelece
entre as classes. Se existe dois
campos, estes são o da revolução integrado pelos explorados e dirigidos
pelos explorados, e o da contra-revolução integrado pelos exploradores e
encabeçado pelo atual governo burguês, seja frente populista, fascista ou de
qualquer outro tipo.
Vejamos agora se é correta nossa
afirmação de que para a OCI a realidade francesa atual e futura não se
caracteriza pela luta de classes, mas pela luta entre dois campos
burgueses.
1. Os
campos incompatíveis
De acordo com o Projeto de
Informe Político, o governo de Mitterrand é um governo burguês: “o governo
Mitterrand - Mauroy é um governo burguês de colaboração de classe de tipo,
frentepopulista. Uma vez determinado seu caráter de classe, os revolucionários
não podem considerá-lo como um governo operário e camponês. Este não é nosso
governo”.
Estas frases aparecem com
insistência em todo o extenso documento, e aparentemente não deixa lugar a
dúvidas. Porém só aparentemente, pois se trata tão somente da repetição
ritual de alguns conceitos, como demonstrar que, depois de tudo, a OCI é um
partido trotskista. A verdadeira caracterização do governo Mitterrand, palavras
a parte, aparece um pouco mais adiante, e é coerente com a teoria dos campos:
“existe uma contradição (antagonismo) insuperável entre o governo burguês de
Mitterrand e a burguesia”. (op. cit., p. 4).
E mais adiante: “... o governo
Mitterrand-Mauroy entra forçosamente a cada passo em conflito com o aparato
do Estado burguês, com a burguesia, cujos interesses, que no entanto defende. (idem)
E esta caracterização se completa
com a seguinte caracterização: “... a mera existência da eleição de
Mitterrand a presidência da República e de uma maioria PS-PCF ( assembléia
nacional) é incompatível com as instituições anti democráticas e
reacionárias da V República”. (Informations Ouvrieres, Nº 1019, editorial).
Tudo se une a cita afirmação em
que o governo de Mitterrand realiza “ações de resistência a burguesia”.
Resumindo, teremos um governo que
é “burguês”, ainda que possue algumas características bastante especiais, para
dizer o mínimo:
- 1. realiza “ações”contra a
burguesia;
- 2. sua mera eleição é
“incompátivel”com as instituições reacionárias da V República:
- 3. entra “forçosamente” em conflito com a
burguesia e seu aparato estatal;
- 4. entre o governo e a
burguesia existe uma “contradição insuperável”.
Sendo assim, é chegada a hora de
mudar a posição tradicional do trotskismo a respeito dos governo de frente
popular. Já não são governos burgueses contra revolucionários e, no caso da
França, imperialista, senão governo burgueses “sui generis” (para impregnar a
terminologia pablista) que tem um antagonismo insuperável com a burguesia.
De nossa parte, seguimos
defendendo a velha caracterização marxista e trotskista. Opinamos que não
exista outra “incompatibilidade” e “contradição insuperável” na sociedade capitalista
que existe entre exploradores e explorados,ou seja, entre o “campo” que integra
os operários, camponeses, e demais setores explorados liderado pelo
proletariado, e o “campo” dos burgueses liderados pelo governo burguês de
plantão. Esses são os dois campos que se enfrentam agora e seguirão se
enfrentando até que exista a sociedade capitalista.
Um governo burguês pode em
determinado momento aplicar uma política e tomar alguma medida que desfavoreça
algum setor do seu campo (no sentido marxista de classe).
O que nenhum governo
burguês pode fazer é governar contra toda a burguesia, nem contra todo o
aparato do Estado burguês. Em outras palavras, nenhum governo burguês pode
governar contra a sua própria classe.
Levada pela teoria dos campos, a
OCI é obrigada a inventar uma nova categoria, a do “governo burguês anti
burguês”, merecedor do apoio do Partido Operário Revolucionário.
2. Uma
guerra civil em gestação
No afã de justificar sua política
de estar “no campo de Mitterrand”, o autor do Projeto de Informe Político
(o camarada Lambert), se vê obrigado a avançar muito mais adiante da “incompatibilidade”
dos campos. Num lapso de realismo mágico - escola que nos deixou obras de
ficção novelística, porém cuja introdução na política tem resultados absolutamente
catastróficos - chegou a sustentar que os campos estão enfrentados de fato em
uma guerra civil latente, que pode deflagrar em qualquer momento.
O projeto de informe político
repete umas mil vezes que “a burguesia não pode reconhecer ao governo Mitterrand
como seu governo”, até chegar a seguinte afirmação: “Mitterrand se enfrenta
com as necessidades reais da sociedade burguesa porque elas são antagônicas a
das massas, tal como estas as colocaram quando tocaram a Giscard. Sempre em
todo lugar uma situação assim leva a formação de uma guerra civil, e a
burguesia não pode fazer mais nada do que prepará-la. Evidentemente, essa é a
linha geral do desenvolvimento geral da luta de classe ... “.
Novamente, temos a concepção do
“antagonismo insuperável” entre o governo burguês e a burguesia. A necessidade
das massas são antagônicas as da burguesia (efetivamente, dizemos nós), porém
que expressa as necessidades das massas é ... o governo burguês. E pelo fato de
expressar as necessidades das massas, o governo burguês está enfrentando a sua
própria classe em uma guerra civil em gestação.
Se diz que o início da guerra
civil corresponde a “linha geral do desenvolvimento da luta de classes”.
Podíamos estar de acordo com essa colocação, já que nossa época de decadência
total do sistema capitalista se caracteriza justamente pelas guerras e
revoluções, como produto de que a burguesia não pode satisfazer sequer
minimamente as necessidades das massas. Ou seja, existe uma guerra civil de
fato, entre o proletariado e a burguesia. Porém o que defende a OCI ( u) é que
existe uma guerra civil entre a burguesia e o governo de Mitterrand, e que
está a ponto de iniciar, amanhã ou no próximo mês: “O grande capital está
preparando ataques de guerra civil e mesmo que Mitterrand queira opor-se
a eles, está criando ele mesmo as condições (como a operação contra o SAC, a
mudança feita entre os funcionários públicos)“.
Em outras palavras, Mitterrand
não quer a guerra civil, porém, com as medidas que está tomando (aqui cita-se
duas contra o aparelho estatal), o grande capital já está preparando a guerra
civil contra ele.
E para confirmar que essa é
verdadeiramente a análise que faz a OCI da atual situação francesa, o projeto
quer justificar sua política com três exemplos: a política bolchevique do
levante de Kornilov contra Kerenski, a política trotskista quando da invasão
japonesa a China e novamente a política trotskista na guerra civil espanhola.
Quando se faz uma comparação histórica não é para buscar as diferenças (já que
não existem duas situações históricas idênticas), mas os pontos
comuns. O que existe de comum entre as
três situações históricas citadas é a existência do enfrentamento militar,
não só político, entre os grupos: levante contra revolucionário, invasão
imperialista e guerra civil.
Portanto, para a OCI, a guerra
civil não só corresponde a “linha geral do desenvolvimento da luta de classes”,
mas que é iminente, pode começar em qualquer momento.
3. Um
novo acordo entre Pablo e Lambert
Isso de basear toda uma política
(equivocada e revisionista) em uma guerra iminente, tem um antecessor não muito
honroso em nossas fileiras. No documento “Aonde vamos ?”, Pablo dizia:
“Nada sobra ao capitalismo senão tomar o
caminho dos maiores preparativos militares, econômicos e políticos para
uma nova guerra (...) O capitalismo avança rapidamente para a guerra
(...) por conseqüência a discussão entre os marxistas revolucionários não pode
ser se a guerra é inevitável ou não, mas que se limita ao problema de saber
quando começará a guerra e qual será a sua natureza e conseqüências”.
Pablo justifica sua política de
capitulação ao stalinismo e ao nacionalismo burguês com a perspectiva imediata
e inevitável de uma “Terceira Guerra Mundial” entre o “campo stalinista” e o
“campo imperialista”. Lambert justifica a sua capitulação diante de Mitterrand
com a perspectiva da guerra civil (em germe), que em seu caso significa
imediata, entre o “campo mitterrandista”e o “campo burguês”.
Insistimos no que diz o Projeto
de Informe Político da OCI, de que a guerra civil corresponde “a linha
geral de desenvolvimento da luta de classe” seria justo se adendássemos que
essa guerra civil é entra as classes, não entre campos burgueses. Porém existe outro problema, Lambert e Pablo
caem no erro metodológico de abstrair uma tendência da realidade e
fundamentar toda a sua política nela. Neste procedimento, ao contrário dos
marxistas, que buscam em todo o momento precisar a dinâmica e as perspectivas
da situação, traçam uma política que responda a situação atual, não futura, da
luta de classes.
Por outro lado, a diferença de
que fala Lambert, é que o início da guerra civil não dependerá das medidas de
Mitterrand contra o aparato estatal (suponhamos que verdadeiramente existissem
tais medidas) nem qualquer outra medida do governo burguês. Dependerá do
desenvolvimento da luta de classes, e fundamentalmente, do assenso das massas.
Até agora, o movimento operário e popular freiado por suas direções traidoras,
tem realizado algumas lutas isoladas, várias delas importantes pelo caráter da
empresa envolvida, como a Renault.
Porém não observamos todavia, uma tendência de que essas lutas se
ampliem e sejam centralizadas. No momento, a perspectiva da guerra civil na
França deve medir-se por anos (quem sabe, poucos, 2, 3 ou 5), não por
meses ou semanas.
4. Uma
confusão deliberada
Diz o Projeto de Informe
Político: “Nós nos pronunciamos contra o governo de Chiang Kai-shek, porém
estávamos em seu campo durante a guerra contra o imperialismo japonês. Os bolcheviques se pronunciaram contra o
governo de Kerenski, porém estiveram na primeira fileira do campo de Kerenski
contra Kornilov. Nós condenamos o governo frente populista espanhol, e no
entanto, estávamos no campo deste governo contra Franco”. (op. cit., p. 7).
Esta é a única comparação
histórica que aparece no documento; por conseqüência devemos concluir que
Lambert considera que esta é a situação
atual da luta de classes na França: uma situação de choque físico, de
enfrentamento militar direto entre os “campos”.
Nós acreditamos que está tendo
visões ao confundir os choques entre distintos setores burgueses, com suas
expressões fortes, hostis, com uma guerra em germe. Realmente deve estar mal de
vista política para confundir os editoriais de “Les Echos o Le Figaro”
e as declarações de Ceyrac ( o Presidente da CNPF) com a invasão japonesa a
China, o levante de Kornilov ou a Guerra civil espanhola.
No entanto, não é casual que o Projeto
de Informe não dê algum exemplo mais próximo da verdadeira situação
francesa: por exemplo, o da Alemanha sob o governo Ebert - Scheidemann ou da
França sob Blum. Estas analogias são relativas, já que não existe na França
atual um ascenso de massas atual, um assenso de massas remotamente comparado
aquelas situações. O que as três situações tem em comum, são a existência de
profundas diferenças entre distintos setores da burguesia, diferenças que davam
lugar a fortes divergências entre alguns setores e o governo. Por isso é
qualitativamente diferente dos três exemplos do Projeto, nos quais as
diferenças alcançaram um grau tal que se traduziram em lutas físicas, na
guerra.
Como tudo em política, a
descabida comparação do Projeto tem um objetivo. É certo, Trotsky
assinalou que os Bolcheviques lutaram na primeira fileira contra Kornilov, e
os comunistas chineses deviam combater na primeira fileira contra a invasão
japonesa e os partidos da IV Internacional na Espanha deviam lutar na primeira
fileira contra Franco. Na Espanha chamou aos que se negaram a aplicar esta
política “traidores” e “agentes do fascismo”.
Porém, nestes três casos existia
uma luta militar. Jamais Lenin e Trotsky defenderam que deveriam estar no
“campo de Kerensky” antes do levante de Kornilov, ou no caso de Ebert e
Scheidemann, Trotsky jamais chamou seu partido a combater “campo de Largo
Cabalero”, ou seja, no campo do governo republicano anterior o levante
franquista nem a apoiar suas ações contra a burguesia.
Com sua comparação absurda, o Projeto
nos diz de forma subliminar que a política trotskista na França hoje
consiste em lutar na primeira fileira do campo de Mitterrand contra o campo
burguês.
Porém, o Projeto sustenta
que nesta luta devemos apoiar politicamente o governo, com isso rompe
completamente com o Trotskismo, que jamais se confunde politicamente com uma
direção burguesa, exista ou não exista guerra civil.
Mais adiante veremos o que
significa exatamente para os bolcheviques e trotskistas lutar “com Kerenski
contra Kornilov” ou “com Negrín contra Franco”. Agora tomamos um exemplo da
luta de classes cotidiano. Suponhamos que a patronal envie um grupo fascista
para destruir um sindicato. Logicamente, a burocracia sindical vai defender o
organismo que é fonte de seus privilégios, nós trotskistas defenderemos a
organização operária dos agentes do capital. Isso nos coloca no mesmo “campo”
com a burocracia, do ponto de vista militar, e deveremos aceitar esta condução
em tanto seja mais forte que nossa organização. Porém, jamais apoiaremos
politicamente a burocracia, nem sequer no meio da luta. Sempre diferenciamos o
plano político do plano militar.
Concluindo, devemos dizer que a
analogia histórica, que se faz no Projeto é inútil sob este ponto de vista. Na
França não há perspectiva imediata de guerra civil, porém se houvesse, a
política da OCI será igualmente revisionista.
5. A
verdadeira realidade francesa
Se a OCI considera que
existe “incompatibilidade” e “antagonismo absoluto” entre o campo do
governo frente populista e dos capitalistas e banqueiros, até o ponto de uma
guerra civil “em germe” entre eles, não pode dizer que os mesmos capitalistas e
banqueiros pensam o mesmo de si.
Vejamos, por exemplo, uma das
declarações mais “violentas” do diário Les
Echos, porta voz autorizado do CNPF:
“Se por causalidade o Presidente
da República e o Primeiro Ministro lerem estas linhas, talvez compreendam
porque os chefes de empresa, aos quais apelam todos os dias, tem desconfiança
neles; não se pode chamar ao apoio e por sua vez permitir que os ministros se
comportem como vulgares militantes para semear a desordem nas empresas”
(8/10/81).
Isso de nenhuma maneira pode ser
considerado como um chamado para derrotar o governo. Pelo contrário, o mesmo
diário, inimigo ferrenho de Mitterrand, chama os patrões a terem paciência:
“Governada pela esquerda a direita e o centro, a França jamais cede aos
extremos por muito tempo. Que não chegue o dia em que a França deva reprovar a
quem detém o poder econômico e financeiro, aos chefes de empresa a terem se
desesperado muito cedo! (Les Echos, 30/9/81)
Exagerando um pouco nos termos
empregados pelo Les Echos, a patronal está dizendo: “Não temos visto
pior lixo que o governo de esquerda de Mitterrand, porém basta ter um pouco de paciência e a França o
rechazará”.
Então, o que existe entre a
patronal e o seu governo são algumas discussões fortes. Porém, essas discussões
não saíram, nem no momento mostra sintomas de sair, dos marcos comuns de um
regime bonapartista com elementos de democracia burguesa: o parlamento e as
colunas editoriais dos jornais que representam as distintas correntes.
6. A
verdadeira incompatibilidade
Para os marxistas, nenhum governo
burguês, mesmo que seja frente populista, é “incompatível com o regime e o
estado burguês nem pode haver um “antagonismo absoluto” entre a patronal e um
governo burguês. O único incompatível com o regime burguês é a mobilização
das massas e o surgimento de uma situação de duplo poder. Isso é o
que a burguesia não pode tolerar por um só instante.
O governo frentepopulista de Blum
foi perfeitamente compatível com a Terceira República, a qual Trotsky
caracterizou como “Bonapartismo semi parlamentar” a partir das jornadas de
fevereiro de 1934. O governo de Blum caiu quando se mostrou incapaz de conter o
assenso das massas, porém a terceira república sobreviveu até a invasão da
França pelos nazistas e a implantação do regime de Vichy. E o mesmo Blum foi
chamado a governar novamente depois da guerra, sob o regime da quarta
república.
Mitterrand é perfeitamente
compatível com a quinta república, desde que seja capaz de enfrentar o
movimento de massas. Quando a luta dos trabalhadores franceses se amplia e
centraliza, quando começa a aparecer organismos de duplo poder, sequer
embrionários então a situação se tornará incompatível com a manutenção
do regime burguês. Neste caso, é provável que a burguesia tenha necessidade de
desfazer-se do governo frente populista, por métodos legais, ou mediante o
golpe de estado, segundo o que a situação exigir.
Quando esta situação está
colocada, e nem um minuto antes, nós trotskistas, lutaremos militarmente
no campo de Mitterrand.
7.
Quem previu a atual situação francesa ?
Para o partido revolucionário é
indispensável prever corretamente a dinâmica da situação, pois ao contrário, é
impossível elaborar uma linha, ou seja, o conjunto das consignas e tarefas que
o partido coloca para as massas. Nesse sentido, vejamos quais foram as
previsões feitas pelas duas correntes em que se dividiu a Quarta Internacional.
O camarada Miguel Capa, dirigente
de nossa corrente, fez um prognóstico muito claro em seu artigo, “o Governo Mitterrand,
suas perspectivas e nossas tarefas”. Nos permitimos citá-lo por extenso:
“Mitterrand sobe ao governo em meio a uma
séria crise da economia francesa e sem que tenha ocorrido uma primeira onda de
grandes greves que o obriguem a fazer concessões. Esses dois fatos empurraram o seu governo a impor
os duros planos de fome e desemprego da burguesia, continuando a orientação de
Giscard - Barre. Tratará de convencer os trabalhadores de que aceitem, se
não, apelará à todos os meios (...)
Para o movimento operário e
demais setores populares a vida é mais dura, tanto a inflação como o desemprego
aumentaram durante os quatro meses do governo frente populista (...)
Tudo indica que a frente popular trará
rapidamente mais miséria e desemprego para os trabalhadores, senão estoura a
primeira onda grevista e revolucionária que, por um tempo o impedirá”. (Correspondência
Internacional, 13).
O artigo de François Forgue, em
resposta a Capa, publicado na mesma edição da revista não responde a estes
conceitos tão claros, nem formula uma alternativa própria. Nenhum outro
material da OCI (u) o faz.
O mais parecido a uma posição
própria aparece no Projeto de informe político:
“As contradições entre o governo
Mitterrand - Mauroy e a burguesia são tantos que Mitterrand pode sentir-se
obrigado a comprometer-se muito mais do que ele havia previsto em um conflito
com a burguesia...”.
Isto está colocado em forma de
hipótese, no entanto, na falta de qualquer afirmação devemos considerar que
este é o veredicto que faz a OCI (u) sobre a política de Mitterrand. Sua
política se baseia nessa hipótese, já que apoia o governo em suas “ações de
resistência a burguesia”.
Quem teve razão. Capa ou Lambert?
É certo que Mitterrand se comprometeu mais que o previsto num conflito com a
burguesia e que, por conseqüência as massas vivem cada vez pior? Ou pelo
contrário, teve razão Capa, ao afirmar que Mitterrand aplicaria os planos de
fome e desemprego da burguesia e que seu governo traria mais miséria as massas
?
Não é necessário ir muito longe
para encontrar as respostas: A situação do proletariado francês, que a própria
OCI(u) se vê obrigada a denunciar:
“Os salários estão congelados, os
preços continuam aumentando, os aluguéis aumentam cada vez mais e se tornam uma
carga tão pesada que cada vez mais desempregados não podem pagá-los, e já
começaram os despejos; as condições de trabalho em vez de melhorarem se tornam
intoleráveis(...) isto, para não falar do aumento do ritmo de trabalho, que já
provocou uma greve de várias semanas dos metalúrgicos da Renault - Sandouville.
Sem falar do aumento do percentual do seguro social”.
E a lista segue: “... os
operários sem especialização, continuam sem especialização, o trabalho segue
sendo trabalho explorado, continua a falta de estudos, as salas de aula muito
numerosas e sem professores, as demissões continuam e aumentam”.
Todo esse quadro se resume em
poucas palavras: superex ploração
dos trabalhadores, garantida pelo governo a serviço dos patrões.
Tudo isso confirma o prognóstico
de Capa e nega categoricamente o de Lambert.
CAPÍTULO 5
A POLÍTICA DA OCI (u)
Todo partido trotskista, toda
corrente revolucionária do movimento operário que não seja ultra esquerdista,
nem sectária, tem como política, quando existe um enfrentamento político-econômico
bastante grave entre os distintos setores da burguesia (levante fascista,
invasão imperialista, enfrentamento nas ruas, sabotagem burguesa e guerra
civil) alinhar-se ao campo que considera mais progressivo. Se trata de um
levante fascista ou bonapartista contra um governo de Frente Popular,
democrático ou bonapartista parlamentar, nos alinhamos ao “campo” deste último,
inclusive, muito excepcionalmente, podemos chegar a acordos práticos,
estritamente delimitados, para a luta.
Pareceria que isso nos leva a
confundir com a OCI(u). No entanto, não é assim. Para os trotskistas este
alinhamento é puramente físico, militar. Jamais nos subordinamos à direção política
da burguesia e nem dos partidos operários contra revolucionários. Além do mais,
consideramos que este alinhamento, que nos obriga a estar subordinado ao
comando militar do campo progressivo, é um fato tático que depende da
relação de forças: o fazemos mesmo que a direção burguesa - stalinista - social
democrata seja mais forte que nosso partido, porém nosso eixo político é sempre
o de romper a aliança de classes, ou seja, o “campo progressivo” frente
populista ou bonapartista parlamentar. Concretizamos este eixo colocando para
as massas que, se os operários não tiram o governo frente populista e tomam o
poder, não pode haver uma verdadeira luta de fundo contra a ofensiva
reacionária. Como disse claramente Trotsky, tivemos que derrotar a kerenskiada
para derrotar definitivamente a korniloviada. Esta tarefa se completa com
outra: o enfrentamento físico com os kornilovistas, quando está acontecendo.
A OCI(u) tem uma política
contrária. Em primeiro lugar, o choque físico entre os dois campos burgueses na
França de hoje, só existe na imaginação febril do autor do Projeto de
informe político, que busca com isso, justificar seu alinhamento político
com o campo mitterrandista.
Em segundo lugar, a política da
OCI(u) busca espalhar confiança no campo do governo burguês e em sua direção
Mitterrand; é uma política de apoio explícito ao governo, de aconselhamento e
servir-lhe de assessor fraternal para impulsioná-lo à romper com a burguesia e
tomar o rumo anti capitalista. No presente capítulo veremos como se expressa
essa política e sua aplicação prática.
1. A
teoria Lambert - Forgue
do
“campo mitterrandista”
Vimos a política dos “campos”,
alternativa Lambert - Favre, com respeito as colônias e semi colônias do
imperialismo. Porém, o que acontece com
os países imperialistas? Que acontece
concretamente com a França? Não poderia aplicar-se aí essa política?
A resposta da OCI e de Lambert é
um enfático sim, também na França se aplica a teoria e a política dos
“campos”. Já vimos que o Projeto de
informe político sustenta a necessidade de estar no “campo de Mitterrand em
sua ações de resistência a burguesia”.
Por sua vez, Francois Forgue em
sua resposta à Capa afirma:
“A crítica ao frente populismo,
se refere ao governo de Mitterrand, não é um fim em si mesmo, senão somente um
meio para que a classe operária se mobilize contra a burguesia”. (Correspondência
Internacional, 13)
Ou seja, se trata de mobilizar as
massas somente contra a burguesia, não contra o governo (como se este não fosse
justamente o estado maior da burguesia e da contra revolução); se chama um
governo de colaboração de classes, imperialista até a medula como o de
Mitterrand, a governar contra a burguesia; não se denuncia este governo, mas se
critica fraternalmente seus erros.
O argumento sobre os fins e os
meios, que coloca Forgue, é muito velho para impactar. Ele o usou muito mal.
Cada fim requer um meio, os meios
adequados. Os meios são as ferramentas que usa o partido para alcançar seus
fins. Qualquer operário sabe que, para
tirar um parafuso, se deve usar uma ferramenta adequada: uma chave de fenda. É
necessário a crítica sistemática ao governo burguês de plantão, dizer
incansavelmente que os operários devem derrubar o governo burguês e eles
tomarem o poder, como único meio, como única ferramenta para derrotar a
burguesia e arrancar esse parafuso social que nos destrói e esmaga.
Forgue nos diz que o meio que
utilizamos para cumprir uma tarefa é uma questão secundária. Nós dizemos que
existe uma profunda unidade entre meios e fins, que afirmar que “o principal
são os fins” é tão falso como “os principais são os meios”.
Como exemplo de sua orientação
Forgue disse: “O governo frente populista respeita a burocracia do estado, nós
a atacamos”.
Um marxista diria: o governo
frente populista respeita a burocracia do estado, nós atacamos essa burocracia
e denunciamos o governo por respeitá-la”.
2. O
outro integrante do “campo progressivo”
Devemos assinalar que em nossa
relação dos integrantes do “campo progressivo” que encabeça Mitterrand,
esquecemos de um, e não muito honrado. Se trata de Pablo, o grande teórico da
concepção dos campos, que levou o trotskismo a cometer a grande traição de sua
história na Bolívia.
O primeiro número de seu jornal,
chamado Pour l’autogestion, Pablo publica um editorial referindo-se a
sua política para o governo de Mitterrand, onde diz: “Apoiaremos todas as
medidas que tomem, que satisfaça todas as reivindicações dos trabalhadores e o
movimento de emancipação geral do capitalismo e da burocracia a nível
internacional”.
Evidentemente, Pablo, vê maiores
virtudes no governo de Mitterrand, que as que vê Lambert, já que a ação
“progressiva” de tal governo se expande para o plano internacional. Porém,
Pablo e Lambert dizem o mesmo.
Pablo: Este governo toma medidas que satisfazem as
reivindicações dos trabalhadores.
Lambert: Este governo realiza ações contra a burguesia e por
isso, estamos no seu campo, apoiando seus passos progressivos.
Diferenças terminológicas à
parte, a coincidências são totais. Tanto Lambert como Pablo estão no
“campo”político de Mitterrand e apoiam suas medidas. Se é correto o antigo
ditado que diz, “Me dizes com andas e te direis quem és”, os camaradas da OCI
devem refletir. Depois de décadas de um combate feroz contra o stalinismo e
contra Pablo, seu agente em nossas fileiras, agora se encontram no mesmo campo
que ambos.
3.
Impulsionar ao governo burguês
para
posições anticapitalistas
Em um documento escrito por
Stéphne Just e aprovado pelo burô político da OCI como “preparatório para o
XXVI Congresso da OCI(u)” (e que portanto, tem a mesma importância que o Projeto
de informe político), se diz com uma clareza e franqueza, digna das
melhores causas:
“Estamos dispostos a apoiar
toda resistência do governo à pressão e sabotagem dos capitalistas, todo o ato
que questione a V República e suas instituições (o estado RDR - UDF), as
reformas reacionárias da V República que satisfaça as reivindicações das
massas que atente contra os capitalistas. Sem ilusões, e sem semear ilusões, tratamos
de que o governo Mitterrand - Mauroy avance o máximo possível por esta via, /de
satisfazer as reivindicações das massas e atentar contra os capitalistas/”.
(La Letre d’I.O. Nº11, p.4).
Isto completa a informação do Projeto
de informe político, de que a OCI está “no campo de Mitterrand em sua ações
de resistências à burguesia”. Aqui diz-se que o governo efetivamente vai
resistir a “pressão e a sabotagem dos capitalistas” e “questionar a V
República”, não para trocá-la por algum outro regime burguês, mas para
“satisfazer as reivindicações das massas”e “atentar contra os capitalistas”. Ou
seja, que o governo frente populista, contra revolucionário, burguês,
imperialista de Mitterrand - Mauroy pode orientar-se para uma posição anti
capitalista. A tarefa da OCI é impulsionar para que ele “avance o mais possível
por esta via”. Se criticasse ao governo “coisa que a OCI faz às vezes, num tom
muito fraternal, como dirigindo-se à um camarada “desorientado”, é sempre com
um mesmo fim: nossa crítica ao governo Mitterrand - Mauroy é sempre abordada
desde o ponto de vista do combate contra as burguesia e o capital”. (op.cit.
p.4)
Se isso fosse realmente assim, se
desde o ponto de vista do marxismo um governo burguês putrefato, contra
revolucionário e imperialista poderia ser orientado contra a burguesia, então o
stalinismo teria razão. Existiriam governos populares, não classistas, que
poderiam governar contra uma ou outra classe de acordo com a pressão exercida
sobre eles.
Ao adotar a teoria dos campos, a
OCI(u) abandonou o método marxista, que define aos governos por seu caráter de
classe. Frente a essas afirmações de Just, e outras semelhantes caem as mil e
umas declarações formais do Projeto de informe político, de que o
governo Mitterrand é “burguês” e “não é nosso Governo”.
Um jovem camarada poderia
perguntar-se: Por acaso o trotskismo não exige que se adote uma política de
pressionar os partidos operários para que rompam com a burguesia, tomem em suas
mãos o poder e apliquem um programa revolucionário de reivindicações
transitórias?
Efetivamente, respondemos e
acrescentamos que essa análise tática do trotskismo confirma o método e a
política classista do marxismo.
Do ponto de vista de seu caráter
de classe, existe um abismo entre os partidos operários, mesmo que traidores, e
os governos burgueses de qualquer tipo. Um partido operário traidor, segue
sendo operário, e portanto, altamente contraditório dentro da nossa
classe. Em determinadas ocasiões, sob a direção das massa, sua direção
pró-burguesa pode ver-se obrigada a avançar mais do que desejaria no caminho da
ruptura com a burguesia, nós trotskistas devemos ter uma política para
impulsionar este processo. Porém os momentos em que aplicamos essa política são
excepcionais e os momentos em que esse processo ocorre na realidade são ultra
excepcionais.
Além disso, essa política se
aplica para os partidos operários, jamais para governos burgueses,
sobre tudo quando inclui partidos burgueses, nem mesmo
operário-burgueses.
Por razões de classe um partido
trotskista não pode jamais aplicar a política da OCI (u), de chamar ao governo
burguês de Mitterrand à avançar pela via de ruptura com a burguesia. Esta
política é absolutamente irreal ( e portanto, reacionária), tão irreal como
pedir a Reagan que avance o máximo possível pelo caminho de deixar de ser
imperialista. Ou essa é uma política acertada, e neste caso o stalinismo tinha
razão: existe governos que não são burgueses nem proletários, e sob esses
governos tem que abandonar a luta de classes, porque a pressão exercida sobre
eles pode orientá-los para um sentido antiburguês.
Voltando à Stéphane Just, sabemos
que ele jamais entendeu coisa alguma do marxismo, porém devemos reconhecer o
mérito de sua clareza. Acreditamos que Lambert, sendo tão revisionista como
Just, ou quem sabe até mais, jamais disse que o eixo de nossa política é
impulsionar o governo burguês, imperialista, que inclui aos
ministros gaulistas e radicais até a ruptura com a burguesia. E,
para culminar, “sem ilusões e sem semear ilusões”. Seria o mesmo que dizer que
o eixo de nossa política para a igreja Católica: “Sem ilusões e sem semear
ilusões façamos que o Papa João Paulo II avance o máximo possível até fazer
cantar o hino da Internacional na missa”.
4.
Semear ilusões é diferente
de depositar confiança?
Segundo a teoria de Lambert -
Just, a política da OCI não deve “semear ilusões”. No entanto, já vimos que
para eles o governo burguês pode converter-se em um governo anti burguês
(“satisfazer as necessidades das massas e atentar contra os capitalistas”).
Isto já por si só já é bastante estranho, porém tem outro aspecto. Para nós,
“semear ilusões sobre o governo” e “depositar confiança no governo” são duas
formas de designar a mesma política. Parece que a OCI não vê assim, porque “sem
semear ilusões” toda sua política está orientada a levar as massas a confiar
no governo.
Vamos ver alguns casos disso, mas
não qualquer caso: vamos ver os que o Projeto de informe político menciona,
como exemplo do que deve ser a política da OCI aplicada na militância cotidiana
de seus membros.
Primeiro
exemplo: A Caixa do seguro médico
Segundo o Projeto (no
capítulo “Um governo de crise”), o ministro Barrot do governo Giscard decretou
o fechamento da Caixa Central de Seguro para a aposentadoria na região de Paris
(CPC). Agora a ministra da Solidariedade Social Nicole Questiaux, do governo
Mitterrand, decretou que o fechamento deve concretizar-se antes do fim deste
ano. A CPC está sob o controle do CNPF desde 1967.
A célula da OCI na CPC publicou
um panfleto dizendo: “Não se votou em Mitterrand para que seu ministro
Questiaux leve adiante essa política. (a de Giscard; op.cit.,p.4).
E o autor do Projeto comenta furioso:
“Esta linha está completamente errada”. (idem)
Por que está errada? O Projeto
esclarece: “A conclusão desta linha errada deveria ser a seguinte: É preciso
impulsionar o combate contra o desmantelamento da CPC organizado pelo
governo de Mitterrand - Mauroy e seu ministro e que foi ditado pela CNPF,
tudo isso na linha de: É preciso derrubar esse governo burguês”. (idem)
A linha está errada porque é
dirigida contra o governo. Qual é a
linha correta?
“No caso do decreto de desmantelamento da CPC, a linha correta é a
seguinte: (...) Pela defesa real dos nossos direitos e garantias, pela defesa
dos segurados sociais, queremos o atendimento de nossas reivindicações,
queremos a derrubada do decreto Barrot. Nessa linha (...) a OCI
unificada deve tirar um panfleto, chamando a constituição de comitês e de uma
delegação para uma audiência com a ministra Questiaux”. (idem)
Em outras palavras a “linha
errada” consiste em organizar os trabalhadores da CPC contra o governo
Mitterrand. Alinha correta consiste em
demonstra que os verdadeiros responsáveis do desmantelamento são o governo de
Giscard e a CNPF, e portanto, os trabalhadores da CPC devem organizar uma delegação
para visitar a ministra de Mitterrand, para que está resolva o problema. A
OCI(u) não chamou a mobilização, mas, somente a fazer uma visita a ministra,
como única alternativacontra a política ultra reacionária de Mitterrand de
liquidar o seguro social.
Para Lambert - Just isso
significa “não semear ilusões no governo”. Para nós, significa depositar uma
confiança quase absoluta no governo, e que este resolverá os problemas dos
trabalhadores, bastando para isso, fazer uma visita à ministra.
Segundo
exemplo: a greve no aeroporto
Em julho começou uma greve no
aeroporto Roissy - Charles de Gaulle, porque o governo estava efetuando uma
“reestruturação” que significava o fechamento de 6 postos de trabalho. Diante da greve, o governo faz uma série de
concessões, porém mantém as 6 demissões. Qual é a política da OCI?
“Teria que ter falado na
assembléia geral: (...) ‘por acaso não houve uma mudança política depois da
vitória das massas que derrotou a Giscard? Porque, então, vendo que a direção
geral giscardiana do aeroporto teve que recuar diante da greve
estaríamos obrigados a aceitar seu plano de reestruturação, contra o qual,
justamente iniciamos a greve? Proponho que a delegação regresse ao ministério
para pedir-lhe os seis lugares, ou seja, a garantia formal da derrota do plano
giscardiano de reestruturação’ ”. (op.cit., p.5)
O plano de restruturação que o
elaborou e aplicou o governo de Mitterrand. No entanto, a “linha correta” da
OCI consiste em denunciar os funcionários giscardianos e enviar delegações
ao ministério (neste caso o de transportes) para que o ministro mitterrandista
resolva o problema.
Mais adiante veremos sobre os
dois exemplos, porque constituem uma síntese da política da OCI em todos os
sentidos. Aqui queremos destacar que em um dos conflitos em que o partido
participou, e no qual o patrão era o governo de Mitterrand, a linha da OCI foi
não só impedir que os trabalhadores lutassem contra o patrão, fosse quem
fosse, sem leva-los a confiar no patrão Mitterrand.
5.
Lambert, conselheiro de Mitterrand
A linha de Lambert-Just de
impulsionar o governo para que avance pela via “anti - capitalista” produziu
algumas expressões curiosas, por dizer o mínimo, em Informations Ouvrieres,
o órgão da OCI. Porque acontece que o governo, tal como era óbvio, não esta
avançando pela via anticapitalista, está se comportando como um governo burguês
normal na época de crise capitalista: está tomando medidas francamente anti
operárias, que incluem um plano de austeridade.
Frente a isto, a OCI não está atuando
como um partido revolucionário “normal”, que aproveitaria esta situação para
desmascarar o verdadeiro caráter do governo frente populista diante das massas.
O que a OCI está fazendo, em sua linha de empurrar o governo para a esquerda
(sem semear ilusões, entende!), é aconselhar o governo, pior, implorar
que tome o bom caminho. Vejamos:
Em IO 1021 aparece uma
“Declaração do Burô Político da OCI (u)”, primeira declaração do partido
perante a promulgação do plano de austeridade: ali se disse: “nós militantes da
OCI(u) que temos lutado incondicionalmente contra a divisão e a favor da
unidade pela maioria do PS-PCF e um governo de unidade PS-PCF sem
representantes das organizações e partidos burgueses, dizemos que tomar medidas
que se escreve e põe em prática no plano de austeridade é um erro muito
grave, desastroso.”
Um pouco mais abaixo: “As medidas
essenciais tomadas pelo governo golpearam direta e duramente as massas
trabalhadoras ao deixar as mãos livres para os capitalistas e os banqueiros.”
Ou seja, o governo toma uma série
de medidas, escritas no plano de austeridade em que deixa as mãos livres para
os capitalistas e banqueiros e golpeiam as massas trabalhadoras. Revela com ele
sua essência burguesa? Segundo a OCI, não: está cometendo “um erro muito grave,
desastroso”, que consiste no seguinte:
“Todo mundo constata: em lugar de apoiar a
mobilização das massas trabalhadoras e a juventude /o governo/ trata de
apaziguar os capitalistas e banqueiros.
O que devemos fazer diante deste
“erro desastroso” do governo, de querer “apaziguar”a burguesia no lugar de
apoiar as mobilizações da massa? Mostra-lhe que existe a “declaração” do BP
chama “a outra via”:
“A outra via é a de quebrar a resistência dos
altos funcionários que, por exemplo na educação, sabotam cinicamente as
medidas tomadas pelo ministro.. A outra via, compreendendo que o seguro
social representa um salário direto, consiste em não permitir que o déficit
desta seja pago pelos assalariados (...) senão, mediante impostos as fortunas e
capitais dos capitalistas e banqueiros.”
E depois de uma série de
conselhos adicionais sobre o que significa “a outra via”:
“O dilema está claramente
colocado: colaboração de classes com o capital ou luta de classes com o
capital. Assim se coloca a questão diante dos graves problemas econômicos e
financeiros. Só as medidas anticapitalistas poderão salvar as massas
trabalhadoras e a juventude”.
Há que reconhecer em Lambert,
Just, Forge e Favre sua conseqüência stalinista. O dilema do governo frente
populista é o “campo progressivo” e, “colaboração de classes” ou “luta de
classes”. Ou seja, que ao assumir o governo a frente popular pode produzir o
milagre de praticar a “luta de classes”. Depois de tudo, este dilema, como
qualquer outro, pode se resolver em um ou outro sentido.
Com isso vêm abaixo o leninismo e
o trotskismo e novamente tem razão os stalinistas: a frente popular e seu
governo pode romper com a colaboração de classes e praticar a luta de classes,
porque é “progressivo”, popular, supra classista.
Voltando ao anterior, acontece
que o governo quer pacificar a burguesia com medidas anti operárias, por isso o
erro “desastroso” porque as massas vivem cada vez pior e a burguesia não se
deixa pacificar. Aconselhamos este governo que comece a tomar a “outra via”: que
se incline pela “luta de classes” e tome medidas anticapitalistas.
Em 23 de outubro a OCI realizou
um ato na sala de La Porte de Pantin. O discurso principal esteve a cargo de
Lambert, que disse: “todas as dificuldades, os dois milhões de desempregados e
as centenas de milhares de despidos já programados, o aumento de preços, a
inflação, as medidas de intimidação contra o governo: todas as
dificuldades podem ser eliminadas: o governo tem os meios para isso”. (IO 1023)
Aqui temos a razão pela qual o
governo esta cometendo seu erro “desastroso”: a burguesia o está intimidando,
por isso o dilema estaria se resolvendo, no “apaziguamento dos capitalistas e
banqueiros”. Porém, nem tudo está perdido, mas o dilema pode se resolver em
outro sentido já que, o “governo tem os meios para isso”.
E ainda que mais adiante trate de
salvar a roupa dizendo que no futuro “governo PS-PCF sem representantes da
burguesia teria os meios para isso”. (ainda que não levante a consigna “fora os
ministros burgueses”, nem neste discurso e nem uma outra parte), sua política
para o governo atual, que “tem os meios” para praticar a “luta de classes”.
A OCI, partido que se considera
trotskista e pelo tanto quer conduzir as massas para a derrota da burguesia e
do imperialismo, a conquista do poder e a destruição do regime burguês,
considera que sua missão sob o governo frente populista burguês de Mitterrand,
como membro de se “campo progressivo” consiste em impulsioná-lo pela via da
“luta de classes” e as medidas “anti capitalistas”, já que conta com todos os
meios para fazê-lo. Se o governo se desvia do bom caminho, então deve ser
mostrado como voltar a ela.
Resumindo: sob o governo frente
populista, a OCI deixa de ser um partido de combate contra a burguesia e seu
governo, para converter-se em um abjecto assessor do mesmo.
6. Uma
estranha ruptura com a burguesia
Em diferentes ocasiões, tanto nos
documentos como no jornal I.O., se defende que a OCI tem como política
central a “ruptura com a burguesia”: “Esta é a situação concreta que devemos
levar em conta para formular a linha fundamental de nossa política: ruptura
da aliança com a burguesia”. (Projeto de informe político, p.4).
Pois bem, a aliança com a burguesia existe dentro do governo, já
que, como assinala corretamente o Projeto:
“... o governo Mitterrand -
Mauroy inclui ministros gaulistas e do partido radical. Sua presença tem um
significado político preciso: fortalecimento dos laços com a burguesia, e mais
precisamente, a intenção do governo de não questionar a V República e suas
instituições, ao estado burguês modelado pelo bonapartismo bastardo”.
Frente a essa situação, mostrada
como uma correção que nos isenta de comentários, o Leninismo e o trotskismo tem
uma linha tática tradicional, expressada na consigna “Fora os ministros
burgueses do governo”. Essa consigna expressa de forma acessível para as massas
a tática trotskista de exigir a ruptura dos partidos operários com a burguesia.
Mas, para a OCI(u) a linha de ruptura com a burguesia não passa por essa
consigna:
“A pouca importância de suas funções
ministeriais - se refere aos ministros gaulistas e radicais - e da força
política que agrupa atrás de si, limita consideravelmente a eficácia da
denúncia de sua participação do governo, diante das massas. Na realidade, a
reivindicação da ruptura com a burguesia não pode ser eficaz dentro dessa única
forma(...) Mesmo que em nossa
agitação tenhamos que colocar o que significa a presença de Crépeau - Jobert no
governo, já que a CNPF aparece para todos como o estado maior diretamente
político da burguesia, se deve enfatizar o seguinte: por acaso se pode
satisfazer as reivindicações das massas e aplicar ao mesmo tempo os planos da
CNPF? Esse é o conteúdo principal da linha de ruptura com a linha da
burguesia”.
Num outro lugar se insiste: “A linha fundamental de nossa
política é a ruptura da aliança com a burguesia, cuja materialização consiste em
enfatizar a mobilização contra o CNPF”.
Significa dizer que a linha de
ruptura com a burguesia não significa romper com o governo frente populista
tocando os ministros burgueses, mas a ruptura do governo frente populista em
seu conjunto, com ministros burgueses e tudo, com o CNPF.
Esta política obriga a OCI a
fazer estranhos malabarismos quando se produzem conflitos nas empresas
estatais, que possuem enorme peso, na economia francesa. Ali os operários não
se chocam com o CNPF, mas contra o próprio governo de Mitterrand. Por
conseqüência, na greve em uma empresa estatal, (a Renault, digamos, ou então, o
aeroporto de Paris) “ruptura com a burguesia” significa ruptura com o governo: exijamos do
governo Mitterrand que incorpore os militantes demitidos, ou aumente nossos
salários, ou seja o que for.
Como a OCI resolve essa situação,
como faz para que os operários não rompam com o governo? Voltemos aos exemplos
anteriores, que estão no Projeto.
No caso da CPC desmantelada pelo
decreto do governo: “O CNPF manteve seu plano de desmantelamento da CPC
(..) Pela defesa real de nossos direitos
e garantias, pela defesa dos assegurados sociais, podemos aceitar que o CNPF
siga ditando suas leis ? O CNPF foi derrotado, junto com Gicard - Barrot”.
(op.cit., p.4)
No caso do aeroporto, que entrou
em greve pela demissão de seis militantes a mando do governo: “o que devíamos
fazer? Lutar pela vitória da greve, formulando uma tática que em seu
desenvolvimento colocasse a ruptura com a burguesia, e neste caso
concretamente, a revogação dos altos funcionários colocados por Giscard...”.
(op.cit. p.5)
E um terceiro exemplo, o da
gigantesca empresa estatal Renoult, cujos trabalhadores estiveram em greve
contra o aumento do ritmo de trabalho na cadeia de produção, desde os meados de
setembro até final de outubro. Fazendo um balanço da greve, I.O. 1024
disse em seu editorial : “Os homens nomeados por Giscard para dirigir a
Renault, os Vernier - Palliez e os Hanon, enfrentam as mobilizações dos
trabalhadores e aplicam os planos dos seus mandantes, os capitalistas e
banqueiros”.
É preciso reconhecer o engenho
revisionista de Lambert e do editorialista de I.O. Para esta situação sem saída, que leva os
operários à romper inevitavelmente com o governo, inventam o cuco do CNPF( CPC)
e dos altos funcionários giscardianos (aeroporto e Renault). Estes são os
cínicos sabotadores das boas intenções pró-operárias de Mitterrand e seus
ministros.
Esta linha é permanente, se
repete em cada número d e I.O., por exemplo o editorial do número 1019,
com o título: “Em que situação se encontra Mitterrand ?” se diz:
“Em sua coletiva a imprensa, Mitterrand
enumerou uma série de medidas tomadas pelo governo sob sua responsabilidade. Os
professores tem pleno direito de perguntar: Para que serve as medidas tomadas
pelo ministro da educação nacional, se sua aplicação é sabotada
sistematicamente ao nível da alta administração e os reitores”.
Quer dizer que, se fosse por
Mitterrand, os bons professores da França estariam em uma ótima situação. O
problema é que os reitores e os funcionários sabotam sistematicamente estas
medidas.
Todos estes argumentos da OCI não
são mais do que recursos para adequar sua linha central: manter intacto o campo
do governo frente populista e orientar este campo em seu conjunto contra
a burguesia.
Isto é exatamente o contrário do
que defende o trotskismo. Por exemplo:
“De fevereiro a outubro, os mencheviques e os social revolucionários, que
constituem uma boa comparação com os comunistas e sociais democratas /e com os
“trotskistas” lambertistas, adendamos nós/ se encontram em estreita aliança e
coligação permanente com o partido burguês dos “Kadetes” com os quais formaram
vários governos de coalizão. Sob o nome de Frente Popular se encontrava a
massa do povo, inclusive os soviets dos operários, camponeses e soldados. Desde logo os bolcheviques participaram nos
soviets. Porém, não faziam a menor concessão a Frente Popular. Exigiam a ruptura
dessa Frente Popular, a destruição da aliança com os kadetes, A criação de um
verdadeiro governo operário e camponês”. (Trotsky, Oeuvres, T.10, pp.
248-249; sublinhado no original)
A linha que Trotsky nos ensinou é
diretamente oposta a da OCI: O eixo de nossa política é de lutar pela
independência política do proletariado, para romper a colaboração de classes do
proletariado com a burguesia a nível governamental; denunciar o governo frente populista
diante das massas como um governo contra revolucionário de colaboração de
classe; mostrar que, contra a ilusão dos trabalhadores; esse governo jamais
poderá fazer a luta de classes contra a burguesia por razões de classe;
que por essas mesmas razões de classe, é parte da luta da classe burguesa e o
imperialismo contra os trabalhadores franceses e os povos das colônias e semi
colônias.
7.
Mentir para as massas
para
proteger o governo
Voltamos novamente aos dois
exemplos que sintetizam a política da OCI: a greve no aeroporto e a mobilização
contra a destruição da CPC.
Diz o projeto de informe
político: “Nós não dizemos: ‘O ministro do transporte Fiterman é o
responsável, mas dizemos: a culpa é da direção geral do aeroporto’ ”.
E comentando essa mesma greve IO
diz: “Os trabalhadores bateram contra um muro, o dos altos funcionários
giscardianos, decididas a aplicar no aeroporto de Paris a política geral
dos capitalistas contra os trabalhadores, e colocar o novo governo diante do
fato consumado (...) Os trabalhadores souberam criar as melhores condições para
obrigar a direção giscardiana a retroceder”.
E mais adiante em uma afirmação
que sintetiza tudo: “Esgotadas as possibilidades de negociar, os trabalhadores
começaram a greve contra o patrão: os altos funcionários da direção”. (IO
1009)
É um fato mais que elementar que
quem decide as demissões em uma empresa é o patrão ou a gerência, tratando-se
de uma empresa estatal o patrão é governo e o gerente geral é o ministro.
Porém, acontece que, o patrão é nada menos que o chefe do campo da OCI: Deus
nos livre de atacá-lo ! Devemos atacar é a “direção giscardiana” ou seja, o
campo inimigo. Esta é nossa política, custe o que custar, e mesmo que tenhamos
que mentir deliberadamente às massas.
Assim, no documento que coloca a
política da OCI para todo o próximo período, dá instruções para mentir às
massas sobre quem é o patrão, para impedir que seu justo ódio se dirija até o
governo de Mitterrand e seus ministros, e o jornal como vimos, é o fiel
interprete desta linha.
O segundo exemplo é igualmente
ilustrativo. Recordemos que a célula da OCI da CPC havia distribuído um
panfleto que dizia : “Não se votou em Mitterrand para que sua ministra leve
adiante essa política de destruição da CPC”. Essa linha de acordo com o
Projeto, “é completamente errada”. Por que? Por acaso, não é certo que a
ministra estava aplicando a política de um ministro de Giscard? E não é
igualmente certo, e claro como cristal que os operários franceses, não elegeram
Mitterrand para que aplique a política de Giscard? Sim, é certo, porém no afã
de proteger o chefe do campo, Lambert diz a seus camaradas que devem mentir
às massas:
“Qual é, partindo das necessidades das massas,
a linha correta? Devemos dizer: Derrotamos Giscard, e ao votar em Mitterrand, votamos
contra o CNPF”.
A verdade, é que os trabalhadores
franceses votaram não só contra o CNPF, mas também, contra todos
os partidos e organizações burguesas. Seu voto majoritário pelo PS e o PCF
reflete a vontade de eleger um governo operário antiburguês, que avance o mais
rápido possível para uma república socialista.
Mitterrand traiu essa confiança,
e todos os votos de confiança que deram a ele. Não tomou uma só medida contra o
CNPF e a burguesia. No entanto, a OCI não só se limita a não denunciar o
governo e a concentrar seus ataques no CNPF.
Vai ainda mais longe e mente para as massas. No aeroporto, onde o
patrão era Mitterrand - Fiterman, disse que o patrão era a administração
giscardiana. Na CPC, onde o patrão era Mitterrand - Questiaux, disse que era o
CNPF. Nas eleições, disse que o voto operário e popular só foi contra o CNPF.
Qualquer método, inclusive o pior e mais canalha de todos, mentir para as
massas, consideram lícito para manter o campo de Mitterrand contra o CNPF.
8.
Proteger o governo ou combatê-lo
Os exemplos anteriores (e
centenas de outros que poderíamos citar de IO), demonstram claramente
que a política central da OCI é evitar cuidadosamente que as lutas operárias se
voltem contra governo. A função da OCI é de proteger o governo e desviar o ódio
dos trabalhadores para outros lados. Para isso, está disposta a recorrer a
qualquer método, inclusive o mais baixo, que é o de mentir para as massas.
Trotsky tem a política oposta, e
já respondeu a quem aplicou a orientação da OCI.
Em julho de 1936, o jornal Revolução,
da Juventude Socialista Revolucionária, cujos dirigentes eram membros da seção
francesa, expressou a linha atual da OCI, nos seguintes termos: “Sob a proteção
vigilante dos trabalhadores franceses, o governo da Frente Popular poderá
realizar o seu programa”.
Trotsky respondeu imediatamente
“em uma carta de 19 de julho” dizendo o mesmo que nós dizemos ao longo desse
documento: que nenhum governo burguês, mesmo que seja frente populista, como o
de Blum, pode aplicar uma política anti burguesa. E concluiu:
“Nossa tarefa não é de nenhum modo a de
proteger o governo de coalizão entre o proletariado e a burguesia (...) Nós e a Frente Popular temos inimigos comuns.
Por eles estamos dispostos a combater juntos com os grupos regulares da Frente
Popular, sem tomar a menor responsabilidade por esse governo nem nos
levantarmos como protetores de Leon Blum.
Consideramos que esse governo é um mal menor comparado com o de La
Rocque. Porém, ao combater ao mal maior nos protegemos do mal menor”.
(Trotsky, Oeuvres, T.10, p. 271).
Se a OCI quer elevar sua política
ao plano teórico, terá que dizer exatamente o contrário: “Nós e o governo
frente populista de Mitterrand temos inimigos comuns: o CNPF e os funcionários
giscardianos. Os combatemos juntos e assumimos uma pesadíssima
responsabilidade: proteger o governo de Mitterrand dos ataques da classe
operária por todos os meios, buscando que os operários não o odeiem, mas que
confiem nele, que jamais vejam sua verdadeira face de governo burguês e
imperialista, agente do CNPF. Por isso, abandonamos a política de Lênin e
Trotsky, que consiste em mostrar aos trabalhadores de maneira sistemática que o
primeiro passo para derrotar o CNPF e os funcionários giscardianos consiste em
tocar esse governo e implantar o governo dos operários e camponeses”.
9. O
tipo lambertista
da
frente popular de combate
Durante todo o Projeto de
informe político se nega a política de “Frente Popular de combate”: “Ajudar
aos aparatos contra a luta de classes é o desvio da Frente Popular de combate”;
“os doutrinários ignorantes(...) não demorariam em criticarmos na linha tão
revolucionária de frente popular de combate”; “também os militantes da OCI
unificada sofrem a pressão da Frente Popular de combate”. E assim
sucessivamente: A OCI rechaça esta política com horror e asco.
Recordemos brevemente que, para
Marceau Pievert, existe duas frente populares de combate: uma está conformada
pelas direções dos partidos revolucionários, esta é reformista e agente da
burguesia. A outra está integrada pela base dos partidos operários e por todos
os que querem combater a burguesia e o regime, está é a Frente Popular de
combate, cujo objetivo consiste em impulsionar a Frente Popular reformista para
posições antiburguesas. Os revolucionários devem fazer parte dessa frente
popular.
Pois bem, segundo o Projeto
da OCI toda a Frente Popular de Mitterrand realiza “ações de resistência à
burguesia”, portanto, todo o campo desta Frente Popular é anti burguês. E o Projeto diz claramente: “estamos
no campo de Mitterrand”.
Por outro lado, Stéphane Just nos
disse que a política da OCI trata de impulsionar o governo frente populista
para que “avance o máximo possível para a via de ruptura com o governo”. É
exatamente o que dizia Pivert, mesmo com acréscimo cínico: que a OCI não deve
“semear ilusões “.
Isso não é mais que um tipo da
“Frente Popular de combate, que a OCI rechaça com tanto desprezo... nas palavras. Onde Pivert via duas frentes populares,
Lambert vê somente uma, que inclui a todos, desde Mitterrand até os operários
debase, passando pelos ministros burgueses e os dirigentes do PS e o PCF. E já
que realiza “ações de resistência a burguesia”, toda essa Frente é uma grande
“Frente Popular de combate”, na qual os trotskistas devem participar com
orientação central de impulsioná-la para que avance cada vez mais no caminho de
ruptura com a burguesia.
Lambert e Just rechaçam a tática
de Frente Popular de combate com horror, sem compreender o que significa. O
crime de Pivert é ter acreditado que a Frente Popular em qualquer de seus tipos
podia praticar a “luta de classes” contra a burguesia. Lambert e Just cometem
exatamente o mesmo crime, porém em relação ao governo de Mitterrand. Esta é a
razão pela qual o trotskismo combate a Pivert e a Lambert - Just.
10. A
OCI aplica uma política stalinista
Havíamos dito anteriormente que
as profundas diferenças existentes no seio da burguesia dão lugar ao surgimento
de distintos setores. Estes espalham suas diferenças em distintos terrenos, que
vão das eleições ao parlamento, choque físico a guerra civil quando a situação
exige.
Diante dessa realidade, a
política permanente do stalinismo é levar ao movimento operário a aliança com a
burguesia “de esquerda”, tanto quando está na oposição (como ocorreu sob Giscard)
como quando se encontra no poder, como ocorre agora no governo de Mitterrand.
Neste último caso, o stalinismo busca inclusive, formar parte do governo burguês.
Esta aliança já teve distintos
nomes e formas, mesmo que a essência da colaboração de classes seja sempre a
mesma, assim se conforma duas frentes anti fascistas com a burguesia
democrática, as frentes anti imperialistas com a burguesia, anti monopolista ou
anti imperialista dos países semi coloniais, etc. A todas as conhecemos genericamente como
frentes populares, já que respondem a política stalinista do campo progressivo
com a burguesia.
Esta é a política que está
aplicando a OCI na França. Nos momentos em que não existe guerra civil nem
perspectivas imediatas de um choque físico entra distintos setores da
burguesia, nem ameaça de golpe fascista, a OCI é um integrante político do
campo burguês mitterrandista.
Sendo assim, a OCI teria que ser
conseqüente: toda vez que aparece um setor da burguesia a esquerda do governo
reacionário do momento (por exemplo, se Chirac acaba eleito nas próximas
eleições e Mitterrand volta a oposição junto com os radicais e gaulistas de
esquerda) deverá formar parte desse “campo burguês progressivo” e se é
conseqüente com suas posições, deverá aplicar referente a mesma situação
exatamente a mesma política que está aplicando referente ao governo de
Mitterrand.
Se a OCI (u) tivesse aplicado
essa política quando da união de La Gauche, teria sido repudiada por todo
movimento trotskista. Isto é o que ocorrerá a curto prazo, por trair os
princípios mais elementares do marxismo revolucionário.
11.
Uma tradição traída
Se a OCI é consequente com sua
política atual, deve auto criticar-se. Considera que um governo frente
populista como o de Mitterrand é antagônico com o aparato estatal da V
República e o regime burguês, realiza permanentemente, “ações contra a
burguesia”. Sua eleição provoca uma grande crise no sistema de dominação burguês,
até o ponto de se tornar incompatível com ele, deu o surgimento a dois campos
não antagônicos, que existe uma guerra civil “em germe” entre eles.
Sua políticas frente a esse campo “progressivo”, é impulsionar a luta
contra o CNPF e os funcionários giscardianos.
Mais ainda, trata de que “vá o mais longe possível nessa vida” da luta
anti capitalista. Por isso, jamais ataca o governo, nem mesmo o critica: se
limita a assessorá-lo fraternalmente e humildemente, e mostrar seus erros, ou
seja, na realidade suas medidas anti operárias.
Se essa política é correta quando
a Frente Popular está no poder, por que não é quando está na oposição? Porque
ao se formar a união de Gauche, com suas listas eleitorais encabeçadas por
Mitterrand, não defendeu a mesma coisa que agora: “Estamos no campo da UG em
suas ações de resistência ao governo de Giscard”; orientamos as lutas dos
trabalhadores contra o CNPF e Giscard, jamais contra os integrantes dessas
listas frente populistas”; “sem ilusões, sem semear ilusões tratamos de que a
Frente Popular avance o mais possível no caminho da luta contra o governo de
Giscard?”
Aqui não pode haver nenhum
problema moral. Se pensamos que a eleição de um governo frente populista
provoca semelhante desajuste ao regime, e que a Frente Popular no governo pode
levar adiante a luta contra o capital, então, nossa política referente a Frente
Popular na oposição, deve ser a de chamar as massas não só em votar nela, mas,
também em confiar.
Se somos consequentes até ao fim,
deveremos reconhecer com toda a franqueza que o trotskismo sempre teve uma
polítca errada, sectária referente ao frente populismo. O trotskismo sempre
repudiou o bloco eleitoral frente populista e tem qualificado os partidos
operários que participam nele, de traidores e contra revolucionários. Tem
utilizado esta qualificação não só para a social democracia e o stalinismo, mas
também, para o POUM espanhol e a Gauche Révolutionnaire francesa (o partido de
Pivert), cujos dirigentes entraram nas frentes populares de seus respectivos
países.
Essa foi a política da OCI até 10
de março passado. Denunciou a Frente Popular e sua política eleitoral e atacou
brutalmente os partidos operários que a praticaram. Porém abandonou essa
política quando a Frente Popular chegou ao governo, entrou no seu campo e
deixou de atacar ao PS e ao PCF.
A OCI deve repensar seriamente
sobre esse problema e tomar uma resolução. Não pode defender sua política atual
e ao mesmo tempo sua trajetória anterior, que é a do trotskismo. Ou faz auto crítica de sua trajetória e
denuncia o sectarismo dos trotskistas, ou realiza uma virada brusca para romper
com sua política atual.
12. A
revolução por etapas, versão Lambert
Diz o Projeto de informe
político: “O importante é compreender que as massas, inclusive as que querem
que suas reivindicações sejam satisfeitas, se dirijam ao governo, aos
ministros, considerando-os mais como aliados pedindo-lhes para que as apoiem,
para que elas sejam aprovadas. É preciso, pela nossa prática política, abrir o
caminho a esse processo político em que as massas querem entrar numa espécie de
diálogo com “seu governo e seus ministros”. Igualmente necessitamos, mesmo que
seja de maneira embrionária, desenvolver os primeiros elementos de
auto-organização das massas. É assim, como preparamos os momentos seguintes,
nos que as massas exigirão de seus governos e seus ministros que satisfaçam
suas reivindicações”. (op.cit. p.8)
Isto significa o seguinte: na
atualidade, as massas querem que suas reivindicações sejam atendidas, porém,
consideram que o governo e seus ministros são seus aliados, e buscarão diálogo
com eles. Esta é a etapa final, que segundo se entende em todo o documento,
corresponde a luta exclusiva contra o CNPF e os funcionários giscardianos.
Depois virá a segunda etapa, na
qual as massas estabelecerão outro tipo de diálogo com o governo: lhe farão exigências. Quando isso ocorre, segundo se diz um pouco
mais abaixo, “... se abrirá a crise revolucionária. Certamente, as massas
tentarão colocar suas exigências no meio de uma greve geral”. (op.cit. p.8)
Existe pois, duas etapas
claramente definidas: a primeira é a do diálogo com o governo, e durará até que
as massas se decepcionem com ele, logo virá a segunda etapa, na que as massas
passarão do diálogo à exigência. Para Lambert, a derrubada do governo pelas
massas e a instauração da ditadura do proletariado fica colocada para uma
terceira etapa, num futuro indeterminado, porém, tão distante que nem mesmo se
fala. As duas próximas etapas tem como eixo o governo burguês de Mitterrand: a
primeira será de negociação e a segunda de exigência.
Como todo revisionista, Lambert
confunde uma realidade, além do mais hipotética, com a política que deve ter o
partido trotskista. Efetivamente, existe uma possibilidade de que o movimento
operário negocie com o governo em uma etapa e exija na seguinte. Insistimos que
é só uma possibilidade: para nós parece mais provável que as negociações
se combinem com as lutas e enfrentamentos (como efetivamente está ocorrendo, no
caso da Renault.).
Porém, suponhamos que a hipótese
da Lambert fosse correta, nós não transformamos a realidade objetiva em nossa
política: se as massas acreditam em um governo burguês e se limitam a negociar
com ele, nós não fazemos o mesmo, não fazemos seguidismo as massas atrasadas.
Aceitamos essa realidade objetiva e adequamos nossa política através de uma
tática, o que é completamente diferente. Por isso, repudiamos todas as teorias
etapistas, seja a do stalinismo ou a de Lambert.
Nós consideramos que tem razão
Trotsky contra Lambert e Stálin. Nossa política, e assim defendemos diante do
movimento operário e as massas, é que existe uma única possibilidade,
derrotar o mais rápido possível o governo burguês e implantar o governo
operário.
A tarefa de combater o CNPF e o governo
de Mitterrand não estão separadas no tempo, mas, intimamente combinadas.
Taticamente pode ser necessário centrar nossa luta contra um golpe fascista ou
uma ofensiva do CNPF. Porém, no meio da luta contra esse golpe e essa ofensiva,
mantemos nossa política de enfrentar e derrotar o governo, não esperamos a
derrota prévia do CNPF, porque essa derrota é impossível sem a derrubada
revolucionária do governo. Por isso, em nossa agitação, mostramos o governo
frente populista como o agente da burguesia que impede nossa luta contra a
reação.
Dissemos que a teoria de Lambert
é etapista como a de Stálin. Devemos retificar, pois existe uma diferença entre
ambas teorias. O stalinismo prometia lutar contra Franco e logo, derrotando
este contra Negrin. Ou seja, que a segunda etapa era de luta contra o governo
frente populista e pelo socialismo.
Lambert coloca que a primeira
etapa será de negociação com o governo e de luta contra o CNPF em aliança com o
governo. Porém, a segunda não será de luta contra o governo, mas de
exigir que este lute contra a burguesia. Isso é revisionismo dentro do
revisionismo já que, para Lambert, jamais chegará o momento de lutar
contra o governo burguês da Frente Popular e pela ditadura do proletariado.
13. A
OCI não tem consigna de governo
Evidentemente com a concepção
etapista da Oci(u), seria absurdo pensar que a organização levanta alguma
consigna de poder para a etapa atual na França. No entanto, para não esquecer o
ritual trotskista o Projeto de Informe Político coloca o problema partindo do seguinte
prognóstico apocalíptico previsto para um plano muito próximo.
“A natureza do governo
Mitterrand-Mauroy (governo burguês de colaboração de classe, governo burguês de
tipo frente popular), asegura que qualquer que seja os conflitos, que podem
impor a burguesia o aparato do estado burguês na V República formou, em última
instância, só pode capitular diante dele. Afinal de contas as massas se
levantarão contra este tipo de governo. Concretamente, exigiram a ruptura com a
burguesia, um governo sem representantes da burguesia. Então, se abrirá uma
crise revolucionária. Certamente, as massas tentarão impor suas exigências a
nível governamental, em meio a greve geral. E também seguramente, surgirão
os conselhos, os soviets, sob uma ou outra forma. (Projeto de informe
político, p.8).
Ou seja que, como vimos
anteriormente, a luta não será das massas contra o governo e sim das massas
exigindo do governo que rompa com a
burguesia. Para essa tarefa empregaram métodos políticos e organizativos revolucionários
(mesmo que aqui não se coloque a insurreição): a greve geral e os soviets .
É uma situação mais que absurda:
as massas, organizadas em soviets realizam uma greve geral, porém o partido
trotskista não as chama a derrotar o governo burguês mas sim exigir-lhe que
rompa com a burguesia. Agora veremos como se coloca a questão do governo:
“Em cada período, em cada etapa, em cada
momento da luta de classes, nossa política está determinada em função das
condições atuais e da atual consciência das amplas camadas operárias, pela
forma que devemos colocar e responder a questão do poder”.
Avançando um pouco mais nos
encontramos com a seguinte consigna: “abaixo o governo”, porém para negá-la, na
continuação, se diz que seria absurdo colocar para os trabalhadores que o
objetivo é derrubar o governo. Ou seja, para a OCI(u) o absurdo não é levantar
a consigna abaixo o governo no momento em que as massas confiam nele e sim o objetivo
de derrotá-lo, que é uma coisa muito distinta.
Poucas linhas mais abaixo nos
encontramos com: “Fora os ministros burgueses”. Porém, como já vimos, a OCI
está a favor desta tarefa porém contra
agitar esta consigna em função da pouca importância que lhe dão as massas a
tais ministros. Discordamos com este argumento reformista: se as massas não
compreendem a importância dos ministros gaulistas e radicais no governo, nosso
dever, como trotskistas, é fazer que compreendam. Por isso agitamos
constantemente esta consigna de governo.
Porém, suponhamos que “Fora os
ministros burgueses” não é a consigna de
governo adequada para o momento. Então qual é? Para a OCI(u) a resposta é..
NENHUMA. Se fala de consignas de governo para explicar porque não teria que
levantar e logo não se dá outra para colocar ao governo burguês.
A OCI(u) considera que existe uma
situação “pré revolucionária” com uma “guerra civil em germe”, que a luta de
classes se encaminha até o surgimento de soviets e a greve geral. Se falta uma
consigna de governo é um crime em qualquer etapa da luta de classes. Que dizer
da ausência em uma etapa como a que pinta a OCI ? E que dizer do partido
operário, supostamente revolucionário, que se nega como a OCI, a
levantar esta consigna ? Francamente o dicionário se mostra insuficiente para
encontrar adjetivos.
De toda maneira, a ausência de uma
consigna de governo, é uma parte coerente desta totalidade revisionista, que é
a política da OCI(u). Se a tarefa de derrotar o governo frentepopulista e
instaurar a ditadura do proletariado não está colocada nesta etapa nem na
seguinte, então, para que colocar uma consigna de governo? Ao contrário:
segundo a OCI(u) seria um erro total colocar esta consigna e tarefa. Por isso
só coloca consignas do governo para refutá-las.
14.
Uma previsão clara
Segundo o Projeto de Informe
Político, “as relações políticas que existem a partir de 10 de maio e 14 e
21 de julho indicam que o governo Mitterrand-Marcoy é só a primeira forma de
governo de frente popular. Provavelmente, no decorrer das próximas etapas virão
outros governos de frente popular com outras características.
Está previsão é clara: depois do
atual governo virão outros governos de frente popular, por anos e anos. Já que
cada governo francês dura 7 anos, com 4 governos frente populistas (contando
o atual) teremos por 28 anos frente populismo na França. A longo do documento
se insiste que o atual governo é inaceitável para a burguesia. Que esta não
pode aceitá-lo e que está fazendo todo o possível para derrotá-lo(até o ponto
de que já existe uma guerra civil em germe). Como se resolve esta contradição?
Nós vemos duas respostas possíveis:
Uma, é que se reconhece
implicitamente que tudo o que disse o Projeto
anteriormente é falso, em que temos razão nós: que o governo frente
populista é perfeitamente compatível com o regime burguês, que a burguesia o tolera
perfeitamente e, mais que isso, necessita dele para impedir que o
ascenso operário ultrapasse os marcos do regime, até o ponto de estar preparada
a aceitar uma sucessão de governo frente populista.
Porém, o governo frente populista
significa para as massas mais miséria, aumento do desemprego, aumento dos
preços, diminuição dos salários, mais horas de trabalho, etc. Esta não é uma
especulação nem uma previsão: é o que está acontecendo agora na França, como
reconhece o próprio I.O., conforme temos citado em outros momentos.
Se o que se espera para o futuro
imediato é uma sucessão de governos frente populistas, isso significa que a
miséria continuará crescendo. E aqui estamos falando somente dos operários da
metrópole imperialista: imaginemos o significará para os trabalhadores de
Guadalupe, Nova Caledônia e os das semi colônias africanas.
Sendo assim, porque é absurdo o
objetivo de derrotar o governo? Ao contrário, não só não é absurda senão uma
tarefa imediata de vida ou morte para o proletariado. Se a OCI(u) disse que é
absurda, então deve admitir que toda sua política é reformista ao negar-se a
levantar a consigna de governo.
Esta é uma interpretação possível
de previsão da OCI(u), porém nós vimos outra que é parte coerente de sua
política revisionista. Se se prevê uma sucessão durante anos e anos de governos
frente populistas, a ausência de uma política de governo termina por adquirir
seu pleno significado. Para a OCI, o governo frente populista, com seus
ministros burgueses (caso contrário não seria frente populista), não é um
governo de classe, ou seja burguês, senão, um híbrido supra
classista, capaz de orientar-se em tal ou qual direção de acordo com as
pressões sobre ele. Por isso é
desnecessário, mais ainda, um erro, agitar a consigna “fora os ministros
burgueses” ou qualquer outra consigna de governo. A política correta é “sem
ilusões, sem semear ilusões” , pressionar o governo para que alcance pela “via
correta” da luta de classes, “satisfaça as reivindicações dos trabalhadores” ,
governe contra a burguesia apoiando-se nas massas que expulsaram Giscard e na
maioria PS-PCF, etc.
Ou seja, se trata de pressionar o
governo burguês imperialista para que realize as tarefas que, segundo o
trotskismo, só podem, ser realizadas pela ditadura do proletariado. Isto
é o que sintetiza toda a política revisionista da OCI(u).
CAPÍTULO VI
SE HOUVESSE UMA GUERRA CIVIL
NA FRANÇA?
ncias e briga, em toda sua
política. Acreditamos haver demonstrado amplamente que esta análise não
corresponde em nada a verdadeira situação francesa. Porém, suponhamos por
instante que a OCI tivesse razão: por exemplo, que o “campo reacionário”,
liderado pela CNPF estivesse preparando um golpe de estado apoiada na força
armada dos oficiais reacionários do estado maior francês. Em todo caso,
poderíamos dizer que a política da OCI é correta e trotskista?
Desde já respondemos que não: sua
política segue sendo igualmente revisionista, oportunista, enfim, perfeitamente
de acordo com a teoria dos “campos”. Isto é o que demonstraremos no presente
capítulo, porém, antes de continuar,
impõem-se a seguinte constatação. Recordemos que nas analogias históricas
citadas pelo Projeto de informe político afirma-se que os bolcheviques pronunciaram-se
contra o governo de Kerenski enquanto lutavam em seu campo contra Kornilov.
Isto é correto, mas teria sido mais correto dizer que os bolcheviques combateram
implacavelmente Kerenski, ao invés de “pronunciarem-se contra” ele.
Como demonstraremos no presente
capítulo, a OCI se lembra de “lutar no campo” de Mitterrand, mas esquece
completamente de “pronunciar-se contra” o mesmo.
1.
Guerra civil entre os “campos”
A OCI sustenta, como vimos, que
existe uma guerra civil “em gestação” entre o “campo burguês progressivo” de
Mitterrand e o campo reacionário da CNPF e compara esta situação com a que
existiu na Rússia em agosto de 1917, com a sublevação de Kornilov e outras
similares.
Em outras palavras, a guerra
civil será levada a cabo entre o campo do governo e das massas e o campo da
burguesia e a coluna vertebral do aparelho estatal (que inclui — acreditamos,
porque o Projeto jamais fala a respeito — o estado maior das forças
armadas).
Mas é muito provável que ao
estourar a guerra civil, as massas continuem confiando no governo. Ou que
ocorra como na guerra civil espanhola, quando as direções traidoras stalinista,
social-democrata e anarquista frearam todas as lutas contra o governo e
chamaram constantemente as massas a confiar nele.
Qual é a política da OCI? “As
massas, inclusive as que querem que suas reivindicações sejam satisfeitas,
dirigir-se-ão ao governo, aos ministros, considerando-os como seus aliados,
pedindo-lhes que as apoiem para que elas obtenham satisfação. É preciso,
através de nossa prática política limpar o caminho a este processo político
no qual as massas querem embarcar em uma espécie de diálogo com ‘seu governo’,
‘seus ministros’ ” (op. Cit., p. 8)
Então, parte-se de um fato possivelmente
real, que as massas continuarão confiando no governo e pensando que bastará o
“diálogo” com Mitterrand e seus ministros para satisfazer suas reivindicações e
romper com a burguesia. Mas esse fato, que é somente uma probabilidade, é dado
como certo pela OCI porque é o que melhor se encaixa na teoria dos
“campos”. Sequer lhe ocorre colocar, sequer como hipótese, que as massas percam
a confiança no governo e nos partidos operários traidores, frente ao aumento do
desemprego e da diminuição dos salários reais, etc.
Mas suponhamos que ocorra o que
afirma a OCI: as massas continuarão confiando no governo burguês apesar de
tudo. Um partido trotskista deve traçar uma política para combater a
atitude conciliadora das massas, para demonstrar-lhes que somente devem confiar
em sua própria mobilização e que o caminho da confiança no governo burguês
conduz, unicamente, à catástrofe (Espanha, Chile, etc.)
Não pensa dessa maneira a OCI.
Levada pela teoria dos campos e da consequente necessidade de manter a unidade
do campo progressivo a qualquer preço, inclusive de consolidá-la, sua “prática
política” será a de fomentar a atitude conciliadora das massas, facilitando o
“diálogo” destas com “seu governo, seus ministros”.
Como isso chega-se ao cúmulo do
reformismo pró-burguês. A OCI não coloca, sequer a necessidade de mobilizar as
massas contra a reação, sem mobilizá-las contra o governo frentepopulista,
política que poderia fundamentar-se em argumentos táticos falsos, mas de verto
peso em uma guerra civil. Aqui se defende uma política oposta a qualquer
mobilização: a de dialogar com o governo, quer dizer com o chefe do campo.
2.
Guerra civil sem armamento do proletariado
Diz o Projeto de informe
político:
“Sem dúvida a marcha dos
acontecimentos exigirá que seja lançada a palavra-de-ordem de milícias
operárias, para responder aos ‘ataques da guerra civil’ que prepara o grande
capital. (...) Mas decidir hoje, em agosto de 1981, lançar a palavra de ordem
de armamento dos operários, palavra de ordem que devemos e estamos nos
preparando para lançar na campanha que estamos fazendo em IO (...) seria
pecar por um espírito ‘doutrinário’ dos mais desconcertantes” (op. cit. p.,
5)
Vejamos. Acontece que “hoje, em
agosto de 1981”, o grande capital já está preparando seus ataques de guerra
civil”. Mas ao mesmo tempo, “hoje, em agosto de 1981”, lançar a
palavra-de-ordem de armamento dos
operários seria... pecar por um desconcertante espírito doutrinário!
Em todos os casos na história nos
quais se tem “preparado uma guerra civil”, os reformistas e os oportunistas se
opuseram ao armamento do proletariado. Para isso utilizam argumentos como “não
provocar a reação”; “não assustar as classes médias”; “não romper a aliança com
a burguesia liberal”; ou argumento aparentemente de outro tipo, como “onde
vamos conseguir as armas?”, etc. A OCI, que se reivindica trotskista,
limita-se a afirmar que chamar o armamento do proletariado seria hoje “pecar
de espírito doutrinário”, por conseguinte, não levanta essa palavra de ordem.
E isso é tudo. Em todo o extenso Projeto
de informe político não encontramos absolutamente nenhuma outra menção do
problemas das milícias operárias e do armamento do proletariado, ainda que
sejam, muitas as referências à guerra civil.
Não entendemos por que propor
estas palavras de ordem significa demonstrar um espírito “doutrinário”. Ao
contrário: o inimigo possui um poderoso exército, bem treinado e perito em
combater as massas tanto da metrópole como da semicolônias. Se a guerra civil
já está sendo preparada, o mínimo que se pode falar é que o armamento do
proletariado não é somente uma bandeira de atualidade candente, problema de
vida ou morte para os trabalhadores, como deveria ter sido levantada há tempos,
assim que começaram a ser observados os primeiros sintomas de guerra civil.
Segundo o Projeto, “nós
caracterizamos que atualmente na França existe uma situação pré-revolucionária...”
(op. cit. p., 8). Tal vez seja por isso que chamar o armamento do proletariado
é pecar de espírito doutrinário: haveria que aguardar que a situação se torne
revolucionária para levantar essa palavra-de-ordem. O único significado desse
argumento é que os operários devem deixar serem massacrados até que a situação
se torne revolucionária. Os operários não devem responder a cada golpe do
capital, despertar a todas as massas exploradas com seu exemplo e passar por
usa vez ao ataque; não, deve deixar serem golpeadas com impunidade. Nos
permitimos recordar à OCI uma verdade elementar da luta de classes: as
situações pré-revolucionárias podem converter-se em revolucionárias, mas também
em contra-revolucionárias. Com esta política da OCI, de negar-se
explicitamente a chamar o armamento do proletariado, ocorrerá justamente a
última.
Na citação que transcrevemos
inicialmente, se diz que “(...) a palavra-de-ordem de armamento dos operários,
palavra de ordem que devemos e estamos nos preparando para lançar na campanha
que estamos fazendo em IO (...)”.
Em primeiro lugar, o tempo que
está levando a OCI para “preparar-se” é extraordinariamente longo. O Projeto
apareceu em agosto. Estamos escrevendo este documento em dezembro, ou seja, já
se passaram cinco meses. Para o pensamento formal, cinco meses são
sempre cinco meses. Para a dialética, cinco meses em uma situação de “guerra
civil em gestação” são exatamente o oposto do mesmo lapso de tempo em períodos
de “paz social”. Se a situação é a que desenha Lambert, então é um crime deixar
passar um dia, melhor, uma hora, sem levantar a palavra de ordem de
armamento dos operários, porque durante esse tempo o inimigo está se armando.
Em segundo lugar, “a campanha que
estamos fazendo em IO...”: de que campanha falam? Se tomamos os IO
a partir de “hoje, agosto de 1981” até hoje (números 1011 e 1032), não
encontramos absolutamente nenhuma campanha de preparação dos trabalhadores e a
vanguarda proletária para a guerra civil.
No máximo aparecem algumas
denúncias: por exemplo, em IO 1029 é denunciado um ataque fascista contra a
editora Etudes et documentation internationales (EDI), dedicada à
difusão de obras marxistas. Estas denúncias ocupam algumas linhas na seção
“Notícias breves da semana”. Onde está a campanha pelo esclarecimento destes
crimes e, principalmente, pela formação, ao menos, de piquetes de defesa
operária (nem falemos de milícias)? Respondemos: em nenhuma parte, a não
ser que se considere que estas breves denúncias constituem uma campanha. Além
do mais, são denúncias contra os fascistas, não pelo armamento do
proletariado e a destruição do corpo de oficiais.
Resta perguntar, por que um
partido que se reivindica trotskista se nega a levantar as palavras de ordem
pelo armamento e a formação de milícias operárias quando considera que existe
uma situação pre-revolucionária e uma guerra civil em gestação. A teoria dos
campos nos proporciona a resposta. A guerra civil que está sendo preparada é
entre os “campos” conhecidos, então é preciso evitar a todo custo que se
transforme em uma guerra civil do proletariado contra a burguesia, como
ocorreria inevitavelmente se os operários se armassem e formassem sus milícias.
Mas alertamos: armem-se ou não os
operários, a guerra civil será sempre entre as classes, porque a burguesia se
arma para defender seus interesses de classe contra o proletariado. Se
este não se arma, a guerra civil não será evitada, nem a derrota das classes
exploradas em seu conjunto.
Esclarecemos, para concluir este
ponto, que nós não acreditamos que o armamento do proletariado seja uma tarefa
de urgência imediata, na medida em que discordamos de Lambert, que afirma que a
França está já às portas de uma guerra civil e que nossa política deve ser agora
a que teve Trotsky para Espanha. O que denunciamos é a inconsequência de
Lambert, a serviço de sua política de apoio ao “campo burguês progressivo”. Nós
devemos levantar essas palavras-de-ordem, mas para explicá-las aos
trabalhadores, não para a ação imediata.
3.
Guerra civil sem destruição do exército burguês
É uma lei da luta de classes que
o proletariado não pode ser vitorioso em uma guerra civil contra a burguesia
sem destruir previamente o exército burguês. Destrui-lo significa ganhar para a
causa proletária a maior parte desses exército e desmoralizar ou neutralizar
completamente o restante. Em outras palavras, que o estado maior se converta em
um grupo de “generais sem exército”, que as tropas (os operários e camponeses
que fazem o serviço militar), além de um setor importante do corpo de
sub-oficiais e de oficiais de baixa patente, se revoltem contra o alto comando
burguês e passem ao outro lado da barricada.
A luta pela destruição do
exército burguês deve ser uma campanha permanente do partido revolucionário.
Mas esta luta passa do nível propagandístico e pedagógico ao nível da agitação
e da ação quando existe uma situação como a que pinta a OCI, de guerra civil em
gestação.
O Projeto de informe político da
OCI não contém nem sinal de tal campanha, Em todo o texto jamais é
mencionado o alto comando ou o estado maior das forças armadas
contra-revolucionárias, nem é traçada uma política para destrui-las. O único
corpo armado que é mencionado é o Serviço de Ação Cívica, corpo paramilitar
criado por De Gaulle e que a OCI considera uma instituição fundamental da V
República.
“Mitterrand está criando ele
mesmo as condições [para a guerra civil] como a operação contra o SAC
(...) O grande capital prepara-se para a guerra civil partindo do próprio
coração das instituições da V República — o SAC é uma delas, ligado às demais —
e do aparelho de estado burguês” (op. cit.).
E o exército, não é parte do
estado burguês? Não é a peça fundamental do dispositivo da burguesia na guerra
civil? E si é assim, por que nunca é mencionado?
A citação anterior nos dá a
chave. O SAC é parte do campo inimigo, junto com outras instituições do
estado burguês. Por isso é mencionado tantas vezes ao longo do documento e
praticamente não há edição de IO que não tenha um artigo a respeito. Porque
o próprio Mitterrand é quem está à frente da luta contra o SAC.
Que tipo de campanha faz a OCI
contra o exército? Nós vimos somente duas: uma delas é pela redução do
serviço militar a seis meses. Esta campanha tem início em IO 1022, de 17
de outubro de 1981; sublinhamos esta data porque em nossa carta ao comitê
central do POSI, datada de 13 de outubro denunciávamos a OCI por não
realizar esta campanha, que consiste em exigir do governo que cumpre suas
próprias promessas eleitorais. Significa que a OCI assumiu esta campanha em
resposta a nossas críticas.
A outra campanha é contra o
aumento do orçamento militar. IO 1025 denuncia que o atual orçamento militar é
17% maior que o do ano passado (144 bilhões de francos contra 123) e que é mais
alto que o orçamento para a educação (137 bilhões de francos).
A OCI coloca que o orçamento
militar deve ser usado para resolver o problema do desemprego e também para
aumentar o orçamento destinado à educação pública, aceitando, assim, nossas
críticas. Mas estas são as duas únicas campanhas em IO que têm relação com o
exército.
Em IO 1026 é denunciado esse
aumento do orçamento militar depois de sua aprovação pela Assembléia Nacional e
afirma-se: “Ao ir contra as aspirações dos jovens operários e camponeses
uniformizados, ao satisfazer os desejos do corpo de oficiais, não fortalece
o governo o lugar e o papel político deste? Colocado acima da mudança, quer
dizer, da vontade popular, pelo próprio governo, como não será levado o
exército, com sua vontade política arbitrária, a atuar contra a mudança por
conta da reação?”
Apesar do estilo queixoso desta
passagem, que combina muito mal com um partido revolucionário (e que digamos de
passagem, é o que prevalece em todo o IO), aqui se coloca corretamente o corpo
de oficiais no campo da reação. Mas na medida em que o governo não está no
campo da reação e lidera o campo progressivo, toda essa denúncia se reduz a um
chamado fraternal ao chefe do campo para que não cometa o erro de dar aos
oficiais o orçamento que pedem. Não existe, aqui, um chamado à mobilização
das massas contra o orçamento militar.
No que se refere à redução do
serviço militar a seus meses, não tem sido feito, até agora, outro chamado à
mobilização senão a constituição de uma delegação para apresentar-se no
Ministério da Defesa com um abaixo assinado, promovido pela OJR, a organização
juvenil orientada politicamente pela OCI, e uma marcha à Assembléia Nacional no
dia em que deveria ser aprovado o orçamento militar.
As palavras-de-ordem de redução
do serviço militar e utilização do orçamento militar são corretas, mas de
maneira nenhuma podem ser consideradas como uma campanha pela destruição do
exército burguês, muito menos se há uma situação de guerra civil em gestação.
Em lugar nenhum aparecem artigos agitativos chamando os soldados e suboficiais
a rebelar-se contra o comando reacionário e a negar-se a atuar contra os
trabalhadores. Também não são chamados a retirar as armas dos quartéis e
entregá-las às organizações operárias.
E por que deveria ser assim?
Basta dirigir respeitosos chamados à chefia de campo, o governo burguês de
Mitterrand, para que ele saiba de nossas aspirações e denunciar as maquinações
malignas do corpo de oficiais; eles se encarregarão de solucionar o problema.
Mas nada de nos mobilizarmos pela destruição desses oficiais pelos
trabalhadores nem propor que os comitês de soldados constituam um novo corpo de
oficiais, porque isso poderia romper o campo.
4. As
virtudes especiais do frentepopulismo
Diz o Projeto de informe
político: “Nós condenamos o governo frentepopulista espanhol e entretanto
estávamos no ‘campo’ desse governo contra franco. Entretanto, quando ocorreu o
golpe de estado dos generais de Argel, em 1961, contra de Gaulle, nós nos
negamos a entrar no ‘campo’ de De Gaulle. Da mesma forma, é necessário,
ainda que o estado burguês seja sempre o estado burguês, saber discutir a forma
e as particularidades de cada estado burguês” (op.cit. p., 7).
Aqui somente é citado o exemplo
de De Gaulle, mas a OCI também se negou em outra oportunidade a integrar-se ao
‘campo’ do rei Juan Carlos da Espanha.
Pois bem, a realidade é que o
proletariado espanhol sob o regime de Juan Carlos conseguiu conquistas muito
maiores que o francês sob Mitterrand e relação à situação existente antes de
ambos assumirem o comando. Desde a morte de Franco e a ascensão de Juan Carlos
conquistou-se a eliminação total da censura à imprensa; a realização de
eleições democráticas burguesas, com a participação dos partidos que Franco
havia ilegalizado., como o PC, o PSOE e inclusive partidos revolucionários
trotskistas; o direito de greve; a liberdade sindical;. Nada comparável
conseguiu o proletariado francês sob Mitterrand, quer dizer, não conquistou
quase nenhum direito ou reivindicação que não tivesse sob o governo de Giscard.
Então, por que a OCI se negaria a defender essas conquistas contra um golpe dos
franquistas? Ou por que se nega a defender a democracia francesa, tal qual
existiu sob De Gaulle contra o golpe dos generais fascistas da OAS?
Para os marxistas, -pelo
contrário, sempre é necessário combater militarmente no “campo” de um governo
burguês quando este é ameaçado por um golpe ou sublevação da reação. Bom
exemplo disso é o que dava Trotsky sobe a política dos revolucionários no caso
da Inglaterra “democrática” invadir o Brasil governado pelo semifascista
Vargas.
“No Brasil reina atualmente um
regime semi-fascista, que deve ser odiado por qualquer revolucionário.
Suponhamos, entretanto, que amanhã Inglaterra entre em um conflito militar com
Brasil. De que lado se colocaria a classe operária nesse conflito? Nesse caso,
eu, pessoalmente, estaria junto a Brasil ‘fascista’ contra a ‘democrática’ Grã
Bretanha. Por que? Porque não se trataria de um conflito entre a democracia e o
fascismo. Se Inglaterra ganhasse, colocaria outro fascista no Rio de Janeiro e
amarraria Brasil com correntes duplas. Se, pelo contrário, vencesse Brasil, a
consciência nacional e democrática desse país ganharia um poderoso impulso que
levaria à derrubada da ditadura de Vargas. Ao mesmo tempo, a derrota da Inglaterra
acertaria um bom golpe no imperialismo britânico e daria um impulso no
movimento revolucionário do proletariado inglês” (Escritos, t. X, p. 44)
Quer dizer que para Trotsky, o
caráter “semifascista” do governo Vargas não é empecilho para colocar-se em seu
lado militar frente a uma eventual invasão imperialista, que colocaria
um governo ainda mais reacionário.
O mesmo defendeu, como veremos em
outro lado, com relação à Alemanha em 1933: a necessidade de lutar militarmente
junto ao bonapartista reacionário Bruening e Hinderburg se é atacado por Hitler
e seus nazistas.
Nós, na Espanha, teríamos lutado
com Juan Carlos-Calvo Sotelo contra Tejero se houvesse ocorrido uma guerra
civil entre ambos.
Verdadeiramente, o governo
frentepopulista de Mitterrand deve possuir virtudes muito especiais para
merecer que os trotskistas lutem em seu campo contra a reação, os mesmos
trotskistas que não lutariam no campo de De Gaulle.
Com essa posição, a OCI está
demonstrando que oportunismo e ultraesquerdismo no fundo são duas caras da
mesma moeda revisionista. É oportunista com relação a Mitterrand. Em cujo
governo burguês vê tantas virtudes que luta em seu campo subordinando-se
politicamente a essa direção. É ultraesquerdista com relação a De Gaulle, já
que se nega a combater militarmente em seu campo contra a reação fascista. Em
ambos casos tem uma política diretamente oposta à de Trotsky, que afirmou, como
vimos, que sempre lutamos militarmente no campo do governo burguês se este é
ameaçado pelo fascismo ou o imperialismo.
Nós, que combatemos a todos os
governos burgueses e não apoiamos nenhum, combatemos com qualquer
deles se entra em guerra civil contra um adversário reacionário.
5. Os
três exemplos de Lambert
Vimos que o Projeto de informe
político traz três exemplos históricos nos quais se produziram
enfrentamentos físicos entre o governo e a burguesia do campo reacionário: a
sublevação de Kornilov, a invasão japonesa da China e a guerra civil espanhola.
Justamente esses três exemplos nos servirão para demonstrar que a política da
OCI para a França (supondo que realmente existe uma guerra civil em gestação),
é oposta da que aplicaram Lenin e Trotsky.
Lutar
com Kerenski contra Kornilov
Aproximadamente uma semana antes
da sublevação de Kornilov (agosto de 1917) já corriam rumores por toda Rússia
de um levante contra-revolucionário contra o governo de Kerenski. Imediatamete
se formou um bloco “defensista” (defesa do governo) com os mencheviques, os
eseristas e aparentemente um setor do Partido Bolchevique. Esta foi a reação de
Lenin: “Qualquer bolchevique que tenha chegado a um acordo com os defensistas
(...) para expressar de forma indireta confiança ao governo provisório (que é
defendido, segundo se afirma, dos cossacos) seria, evidentemente, imediata e
sumariamente expulso do partido (...) Nossos operários e nossos soldados vão
combater as tropas contra-revolucionárias se elas iniciam uma ofensiva contra o
governo provisório; o farão não para defender a esse governo que chamou
Kaledin e Cia. no dia 3 de julho, mas para defender independentemente a
revolução na busca de seus próprios fins: os fins de garantir a vitória dos
operários, dos pobres, a causa da paz, e não a vitória dos imperialistas
Kerenski, Auxentiev, Tseretelli, Skobeliev e Cia.” (Obras completas, t.
XXVI, pp. 329-330).
E quando os cossacos de Kornilov
avançavam sobre Petrogrado: “Não devemos apoiar o governo de Kerenski sequer
agora. É uma falta de princípios (...). Lutamos contra Kornilov exatamente como
fazem as tropas de Kerenski, mas nós não apoiamos Kerenski. Pelo contrário,
desmascaramos sua debilidade” (op.cit. p. 373).
Como vemos, a política de Lenin
consiste em lutar contra Kornilov junto com as tropas de Kerenski, mas sem
prestar-lhe o menor apoio; pelo contrário, o ataca constante e implacavelmente.
A finalidade de sua luta não é a defesa do governo burguês, mas sim garantir a
vitória do proletariado. A política de Lambert, em troca, consiste em lutar
contra a CNPF mas em defesa do governo e facilitando o diálogo das massas com
ele. Tememos muito que com essa política, Lambert tivesse sido “expulso
imediata e sumariamente” do partido bolchevique.
A
invasão japonesa da China
Em julho de 1937, inicia-se a
invasão japonesa da China. Nesse momento, Trotsky envia um comunicado à
imprensa burguesa, onde diz:
“Se existe no mundo uma guerra
justa, é a guerra do povo chinês contra seus opressores. Todas as organizações
operárias, todas as forças progressistas da China, sem abandonar seus
programas e sua independência política, cumprirão até o fim com seu dever
na guerra de liberação, independente de sua atitude frente o governo de Chiang
Kai-shek” (On China, p. 547).
Esta posição de Trotsky despertou
algumas dúvidas nas fileiras do movimento trotskista internacional, na medida
em que se tratava de lutar com o exército de Chaing Kai-shek, o mesmo que havia
massacrado os operários de Shanghai. Por isso Trotsky pouco depois esclareceu
sua posição em uma série de artigos e cartas:
“Ao participar da guerra nacional
legítima e progressiva contra a invasão japonesa, as organzações operárias
devem manter sua total independência política frente ao governo de
Chiang Kai-shek” (op.cit.p., 573; grifos no original).
“Sabemos muito bem que Chiang
Kai-shek é o carrasco dos operários. Mas o próprio Chiang Kai-shek é obrigado a
conduzir uma guerra que é nossa guerra. Em tal guerra nossos camaradas
devem ser os melhores combatentes. Politicamente devem criticar Chiang Kai-shek
por fazer a guerra de maneira ineficaz, por não impor pesados impostos à classe
burguesa, por não armar os operários e camponeses, etc. O operário chinês deve
dizer: ‘Os ladrões japoneses impuseram esta guerra a meu povo. É minha guerra.
Mas, infelizmente, a condução da guerra está em mãos erradas. Devemos vigiar
severamente essa direção e nos preparar para substitui-la” (op.cit., pp.
574 e 575).
Quer dizer, inclusive em uma
polêmica com setores ultra-esquerdistas que se negam a combater o imperialismo,
Trotsky não se cansa de insistir na independência política das
organizações operárias e na necessidade de denunciar o governo.
A
guerra civil espanhola
Finalmente, a política de Trotsky
na guerra civil espanhola também é oposta à preconizada pelo Projeto de
informe. Em um artigo publicado em Lutte Ouvriere no dia 21 de maio
de 1937, disse: “É necessário mobilizar aberta e audaciosamenteas massas contra
o governo de Frente Popular” (A revolução espanhola, t. II, p. 104).
E pouco depois: “Acusamos este
governo de proteger os ricos e atacar os pobres. Enquanto não sejamos o
suficientemente fortes como para derrubá-lo, combateremos sob sua bandeira. Mas
em todas as ocasiões manifestaremos nossa desconfiança nele: esta é a única
possibilidade de mobilizar politicamente as massas contra esse governo,
preparando sua derrubada. Qualquer outra política seria traição à
revolução” (op. cit., p. 167).
“A renúncia à agitação
independente e à organização de cara à derrubada revolucionária do governo
burguês não podem, no melhor dos casos, senão prolongar a agonia da
democracia burguesa e facilitar o triunfo do fascismo” (op.cit., p.157).
E esto também está muito claro.
Para Trotsky, é um dever lutar nas fileiras republicanas contra Franco. Mas
aceitamos a direção militar de Negrín, não sua direção política. Pelo
contrário, chamamos constantemente as massas a desconfiar do governo frente
populista, a mobilizar-se contra ele e a preparar sua derrubada revolucionária.
6. A
verdadeira política bolchevique e trotskista
Destas afirmações tão claras de
Lenin e Trotsky despreende-se a verdadeira política dos revolucionários ao
produzir-se um choque físico entre dois “campos”. Resumamos suas
características principais.
Lutamos
militarmente no campo frente populista
Quando ocorre um choque físico
entre dois setores da burguesia, não podemos permanecer neutros, estamos
obrigados a alinhar-nos. Mas o fazemos respondendo a uma realidade objetiva,
alheia a nós, que nos obriga a lutar em um terreno que não é o nosso. Nosso
terreno é o da luta de classes, do proletariado contra a burguesia.
É nosso dever de combater o
fascismo ou uma invasão imperialista, e se o governo burguês também faz isso
nos encontramos no mesmo campo. Mas esse campo é unicamente militar:
jamais, em momento algum, nos subordinamos a sua direção política. Nossa
“oposição irredutível” ao governo, nossa independência política com relação a
ele, é o eixo principista de toda nossa política; o único que muda é a forma
de combater o governo, quer dizer, a tática. Por exemplo, denunciamos suas
vacilações e debilidades frente o inimigo fascista ou imperialista. Exigimos
que arme os trabalhadores e camponeses e garanta um treinamento militar de
primeira, pago pela patronal. Exigimos também que obtenha os fundos para a
guerra mediante os impostos sobre os lucros da burguesia. Justamente, a guerra
nos proporciona uma magnífica oportunidade de demonstrar na prática que o
governo frentepopulista é quem mais favorece a vitória do fascismo e o
esmagamento das massas
O
alinhamento militar é um episódio tático
Mas a subordinação militar ao
comando da frente antifascista o governo frentepopulista não é uma política
permanente. É somente uma tática que responde a determinada relação de forças:
quando os partidos operários traidores e o governo da frente popular contam com
a confiança das massas e possuem maior força que o partido bolchevique. Por
isso, Trotsky afirma que combatemos sob as bandeiras de Negrín enquanto não
tenhamos força suficiente para derrubá-lo.
Transformar
a luta entre campos em luta de classes
O partido revolucionário tem um
objetivo permanente, que não é abandonado durante a guerra civil: é a
independência política do proletariado.
Durante as guerras civis ou
invasões imperialistas ocorre que os campos surgem na realidade, como
demonstram os três exemplos históricos citados pelo Projeto da OCI. Como
temos afirmado, os revolucionários lutam militarmente no campo mais
“progressivo”, mas não para capitular frente a sua direção política burguesa como
faz a OCI. Exatamente o contrário, durante essa luta militar combatemos
politicamente a direção burguesa, inculcamos nas massas a mais absoluta
desconfiança nele e buscamos transformar essa desconfiança em ódio de classe.
Nossa propaganda e agitação desmascara passo a passo as vacilações e
debilidades da direção do campo e a monstra como a melhor aliada em nossas
fileiras do campo inimigo.
Derrubar
o governo burguês e conquistar o poder
Nossa política de independência
de classe e ruptura do bloco proletário com a burguesia, aponta para nosso
objetivo supremo de derrocar o governo burguês e conquistar o poder. Sem a
derrubada revolucionária do governo burguês não pode haver vitória contra o
fascismo ou somente pode haver uma vitória momentânea. O perigo fascista
continuará existindo. A miséria das massas subsistirá não como perigo e sim
como realidade.
A atual política da OCI, de
manter a classe operária amarrada à carroça do governo frentepopulista, faz o
jogo do “campo reacionário” e constitui a melhor maneira de conduzir o
proletariado francês à catástrofe.
CAPÍTULO VII
A
POLÍTICA FRENTE OS PARTIDOS
OPERÁRIOS CONTRA-REVOLUCIONÁRIOS
O ascensão dos partidos operários
contra-revolucionários ao governo seja para exercê-lo de forma direta com a
“sombra da burguesia” (ocaso atual da França) ou para participar em um gabinete
com maioria de partidos burgueses (o primeiro governo francês do pós-guerra, no
qual Thorez foi ministro do trabalho) é um fato realmente inusual na maioria
dos países capitalistas, ainda que mais freqüente nos adiantados. Quando
ocorre, provoca diferentes tipos de reações no movimento marxista. Justamente
essa reação é um excelente termômetro para saber se o partido em questão é
revisionista ou consequentemente marxista. Adiantando o que seria o
desenvolvimento do presente capítulo, sintetizemos brevemente as diferenças.
Para os revisionistas, o ascenso
dos partidos operários contra-revolucionários ao governo significa uma mudança
favorável nas características dos mesmos. O fato de que as massas confiem
neles lhes outorga certas virtudes, que os converem de contra-revolucionários e
agentes da burguesia, em reformistas que estão contra a burguesia mas tem um
método equivocado: a colaboração de classes.
Daí se conclui que deve ser abandonada
a denúncia violenta e constante dos mesmos e de suas direções, em troca de uma
política de apoio combinado com a crítica fraternal para que modifiquem sua
orientação equivocada.
Os marxistas revolucionários
pensam exatamente o contrário. Quando tais partidos fazem parte do governo
burgu6es, seu caráter contra-revolucionário é
acentuado ao máximo, porque a sua função habitual de agentes da
burguesia no movimento operário acrescenta-se a função de governantes, gerentes
políticos do estado capitalista contra os trabalhadores. Esta é a análise de
princípios que fazem os marxistas revolucionários: que se converteram de
agentes da burguesia no movimento operário em agentes da burguesia e avalistas
da ordem burguesa em nível a sociedade em seu conjunto. Podemos dizer
que passaram de partidos operários burgueses a partidos burgueses operários:
sua característica de classe não muda pelo fato de entrar ao governo
burguês mas a partir de então sua função é aplicar a política da burguesia ao
nível de toda a sociedade não só do movimento operário.
A política que se depreende desta
apreciação é que nossa denúncia dos partidos traidores, se foi violenta antes
de sua ascensão ao governo é, agora, um milhão de vezes mais violenta e
conseqüente. Para não estendermo-nos digamos simplesmente que, quando os
mencheviques entraram no governo provisório, Lenin falou que a política dos
bolcheviques para eles deveria ser igual a que possuíam com relação aos kadetes
antes de fevereiro. E quando Blum chegou ao governo em 1936, Trotsky o
qualificou de irmão gêmeo do partido radical burguês.
Estas são, em traços gerais, as
diferenças entre os revisionistas e marxistas frente aos partidos operários
contra-revolucionários no governo. Como é a política da OCI(u)? Revisionista
até a medula, como veremos a seguir.
1. A
OCI não combate os partidos
operários
contra-revolucionários
A OCI(u), partido que se
reivindica trotskista, mudou completamente a caracterização marxista
tradicional dos partidos operários contra-revolucionários e da política
revolucionária com relação aos mesmos desde que o PS e o PCF subiram ao governo com Mitterrand.
Se prestamos atenção os IO
que apareceram nos oito meses que transcorreram desde as eleições, encontramos
o seguinte panorama. Não há nenhum artigo contra o Partido Socialista.
Exatamente o oposto: IO
número 1004 expressa sua alegria porque nas eleições o PS ganhou 46 cadeiras do
PC e afirma: “A derrota aplastante dos partidos burgueses é acompanhada de um
retrocesso considerável do PC”. IO número 1024 publica um artigo ao qual
já nos referimos em outra parte, sobre o congresso do PS, com um violento
ataque frontal à ala Rocard, suposta representante do “campo reacionário” nas
fileiras do partido do governo.
Com respeito ao partido
stalinista, encontramos artigos nos seguintes números de I.O.
(ressaltamos a palavra artigos porque não nos referimos a tal ou qual frase
solta): 1007, 1014, 1022, 1023, 1027, 1030 e 1032. Dois deles (1014 e 1032) não
se referem à França e sim à Polônia e criticam a direção do PCF por apoiar a
burocracia polonesa e soviética em sua guerra contra os operários poloneses.
Temos então que, em trinta e tr6es edições do jornal aparecem somente sete
artigos contra o partido stalinista e dois deles não se referem a sua política
na França.
Pois bem, o Projeto de informe
político afirma: “Sua presença [no governo] significa que o PCF, o aparelho
stalinista da CGT, mão somente acobertam o conjunto da política do governo como
tomam sob sua responsabilidade freio e o retrocesso das massas, a defesa da
burguesa, do estado, da V República e de suas instituições, avalizando as
exigências econômicas e políticas da burguesia” (p.7).
Excelente afirmação não fosse por
dois pequenos defeitos. Em primeiro lugar, porque não inclui ai o PS? Justamente
este é o máximo responsável de provocar o “freio e retrocesso das massas” e o
que está encarregado da “defesa da burguesia, do estado, da V República e de
suas instituições” por ter sob sua responsabilidade a máxima instituição do
estado francês, a presidência da república.
Em segundo lugar, é lícito
acreditar que semelhante afirmação no documento que fixa os traços gerais da
política do partido para o próximo período deveria concretizar-se em uma campanha
de denúncia implacável pelo menos contra o PC. Nada disso: só cinco artigos em
oito meses, sem contar os dedicados à questão polonesa.
Antes de 10 de maio passado, o PC
era objeto de ataques constantes e brutais em IO por sua política
contra-revolucionária a serviço da burguesia.; o PS também era atacado, ainda
que em menor medida. Edição após edição do jornal, era atacado por sua política
divisionista que colocava em perigo a derrota eleitoral de Giscard.
Eleito o novo governo tudo isso
mudou. Os escassos ataques ao PS desapareceram completamente e a campanha
constante contra o PC transformou-se em um ou outro artigo de denúncia.
2. Ao
invés de denúncia, crítica fraternal
A falta de denúncia dos crimes
contra revolucionários do PC e de principalmente do PS, na atual etapa tem em
contrapartida o que o OCI diz sobre eles. Essa política pela positiva tem
dois aspectos que veremos separados, ainda que ambos respondam a mesma
concepção global, típica do revisionismo: que o PS e o PC perderam seu
caráter contra revolucionário. O primeiro aspecto é o da crítica fraternal
ao PS e ao PC; o segundo, que veremos mais adiante, consiste em chamar-lhes
para a frente única.
A declaração do CC da OCI, outro
dos documentos que serão discutidos no XXVI Congresso da organização faz
referencia a política do governo e a dos partidos operários dentro do mesmo:
“É um fato: contra as aspirações das massas
trabalhadoras, o governo não toma medidas anti capitalistas que se imponham
para tirar o país da crise. O governo e a maioria do Ps-PCF tem obtido, junto
com essa maioria, a confiança da classe trabalhadora, das massas trabalhadoras
e da juventude. O governo e a maioria do PS-PCF não deixam de ceder aos
capitalistas e aos banqueiros. É um fato: desde a sua constituição, o
governo e a maioria PS-PCF somente fazem concessões e mais concessões aos
capitalistas e banqueiros”.
Se diria que a conclusão, visto
que se trata de um documento supostamente trotskista, é óbvio: “não é casual
que o governo, com sua maioria PS-PCF atue exclusivamente em benefício dos
patrões e contra o interesse dos trabalhadores que temos escolhido contra
Giscard. Esse governo não pode atuar de outra maneira porque é um governo
burguês, patronal. O PS-PCF não podem atual de outra maneira pois são partidos
traidores, a serviço da patronal a muitos anos. Isso confirma o que nós
trotskistas desde muito tempo que o movimento operário e as massas
trabalhadoras não podem confiar em um governo patronal. Ainda que formado
majoritariamente pelo PS-PCF”.
Isto dizemos nós, trotskistas,
porém, não é o que diz a OCI:
“A verdadeira saída consiste em responder aos
pedidos dos trabalhadores e romper com a burguesia. O que pedem os
trabalhadores é que o país seja governado contra os capitalistas”.
A quem está dirigido este chamado
choroso ? Ao governo e aos partidos operários traidores:
“Existe a possibilidade de fazer
uma política diferente. A existência de uma maioria PS-PCF na assembléia
indica claramente (...) a exigência do momento, que vem de muito tempo, é
clara: tem que se governar com os capitalistas, apoiando-se na maioria. Tem-se
que apoiar na maioria que rechaçou a Giscard, a maioria que elogiou a uma
maioria PS-PCF para terminar com a sabotagem dos capitalistas e banqueiros:”.
Ou seja, que no lugar de se
aproveitar da situação para terminar as ilusões equivocadas dos trabalhadores,
mostra-lhes na prática o verdadeiro caráter do governo, e o PS e o PCF, diz que
este mesmo governo e estes partidos podem tomar um outro caminho, o de governar
contra os capitalistas. De passagem afirma-se que se deve seguir confiando
neles porque podem fazê-lo.
Agora que a situação objetiva
permite a nós trotskistas passar das denúncias propagandistas contra os
partidos traidores, denuncias que fazemos desde muito tempo, a ação e a
mobilização das massas contra os mesmos, o OCI chama os trabalhadores a confiar
neles. Toda a sua ação se limita a criticar fraternalmente por governar a favor
dos patrões e a chama-los para que endureçam e rompam. Pode haver crime maior
contra o trotskismo e a revolução proletária ?
3. A
OCI chama o PS e o PCF
a
formar uma frente única
A outra cara desta política desta
política de confiar nos partidos traidores se expressa da seguinte maneira:
“contra o aumento dos preços, contra o achatamento dos salários, organizado
deliberadamente pelos patrões, só existe uma possibilidade de lutar: formar
a frente única das organizações operárias para reclamar precisamente para
os patrões que tanto se alegram: aumento geral de salários, congelamento dos
preços”. (IO, 1007)
Aqui existe uma mentira flagrante
a serviço de proteger ao governo: o aumento dos preços e o achatamento dos
salários é exigido pelos patrões, porém, que os decreta é o governo Mitterrand,
e assim tem que ser dito.
Porém, esta mentira tem um
objetivo imediato: ocultar que são o PS e o PCF quem aplicam esta política
porque aqui são chamados a formar a frente única para lutar contra a mesma. É
dizer, que o OCI chega ao extremo da idiotice para chamar ao PS e ao PCF a formar
uma frente única com outra política... que eles mesmo aplicam no seu governo! O
OCI é consciente do absurdo desta política facilmente desmascarada; por isso
mente para ocultar os verdadeiros autores da política de fome.
Poderiam opor-se que um simples editorial
não reflete a política geral e permanente do partido. Sem dúvida, existem duas
afirmações categóricas que demonstram que a frente única é um dos eixos da
política atual do OCI.
Na carta ao CC do POSI dizíamos:
“Quando aparece um governo de frente
popular, terminou a tática de frente única “. O fraudulento “conselho geral”
convocado pela OCI respondeu: “A luta pela frente única operária é uma
constante” (Bulletin...p.27)
A “Declaração do CC” diz, citando
um manifesto do OCI(U) editado no dia seguinte às eleições: “Nós, a OCI(U),
dizemos aos trabalhadores aos jovens: Vocês conseguiram impor a unidade contra
a divisão. Giscard foi vencido. É preciso fazer todo o possível para manter e
estabelecer o bloco unido dos trabalhadores, de seus partidos e organizações
políticas, que acabam de infligir uma primeira derrota ao capital”.
Um pouco mais abaixo: “Assim, a
posição da OCI(U) é clara e se caracteriza por uma continuidade política
que, em todas as circunstâncias, opõe a unidade da frente proletária à burguesia...”
Aqui está dito com uma clareza
que não admite dúvidas que, para a OCI(U), a entrada do PS e do PCF ao governo
não significa o abandono da frente única, porque é a política a aplicar “em
todas as circunstâncias”. Na realidade, houve uma mudança: antes, o chamado à
frente única ia acompanhado da denúncia desses partidos; agora, essa denúncia foi atenuada no caso do
PC e abandonada completamente no caso do PS.
Os trotskistas acreditam no
contrário: que é condição indispensável – ainda que não única – para aplicar a
tática da frente única, que os partidos operários estejam na oposição, não no
governo. Quando o PS e o PC se encontram no governo, existe uma aliança
política entre ele se a burguesia, ou setores importantes da mesma. Isto não
elimina que exista uma posição política ao governo, mas dentro dos marcos do
regime institucional que abarca tanto aos partidos burgueses como aos partidos
operários contra–revolucionários.
Existem momentos excepcionais nos
quais a maior parte da burguesia rompe com o governo frente–populista e procura
derrubá–lo mediante um golpe de estado, ou sublevação contra–revolucionária.
Nestes momentos, quando se rompe o acordo entre o PS–PC e a burguesia pode
estar colocada a tática de frente única com eles. Mas estes momentos são,
insistimos, excepcionais. A regra geral é o acordo político desses partidos com
a burguesia. E nesta situação, não pode haver chamado à frente única operária
com os gerentes políticos do regime burguês.
A razão é muito simples: a frente
única é uma tática que consiste em convidar os partidos operários majoritários
e as suas bases para lutar contra a burguesia e seu governo ao redor de pontos
comuns, que são as reivindicações mais sentidas pelas massas. É o chamado a uma
luta imediata, já, agora.
Quais são os pontos em comum que
tem os trotskistas com o PS e o PC atualmente na França? As reivindicações mais
sentidas pelas massas francesas hoje são terminar com o desemprego,
congelamento dos preços dos artigos de primeira necessidade de aumento de salários.
Como podemos chamar o PS e o PC a lutar por essas reivindicações se são eles
mesmos os que aplicam a política de austeridade do governo, de desemprego,
preços altos e salários miseráveis? Uma frente com o PS e o PC contra o
desemprego significa lutar pela aplicação do plano Mauroy que promete trabalho
para 10% dos desempregados atuais para o final de 1984 e para todos lá por
1988. Este sim seria um ponto em comum para fazer uma frente única, mas um
ponto em comum dos traidores, da canalha contra–revolucionária da qual forma
parte hoje a OCI(U).
4– Uma
confusão teórica
a
serviço da traição
A resposta do suposto “conselho
geral” a nossa carta ao CC do POSI diz: “Toda a política de Lenin e
Trotsky em relação aos partidos
operários ou que representam as massas, tem como eixo a linha da frente única,
com a reivindicação: rompam com a burguesia! Na França a reivindicação
de um governo PS–PCF sem ministros burgueses é uma das expressões mais elevadas
da luta pela frente única operária”. (Bulletin... número 1, pg.26;
sublinhado no original).
Em primeiro lugar, é falso que a
linha da frente única seja o eixo da política de Lenin e Trotsky em relação aos
partidos operários burgueses; nos deteremos sobre isso um pouco mais adiante.
Aqui está se fazendo uma confusão entre duas táticas distintas: a frente única
e o governo operário e camponês.
O chamado ao PS e ao PC para
romperem com a burguesia é, efetivamente, “uma das expressões mais elevadas da
luta pela frente única operária”, quando esses partidos estão na oposição;
aqui estão se referindo ao PS e ao PCF no governo, em aliança com a burguesia.O
chamado a romper a burguesia como expressão da tática da frente única é, como todas
as expressões dessa tática, um convite à luta ao redor dos pontos comuns,
sentidos pelas massas até o ponto em que estejam dispostas a se mobilizar de
maneira imediata.
O chamado a “romper com a
burguesia” quando o PS e o PC estão no governo não é um convite à luta conjunta
com eles, mas uma exigência, destinada a impulsioná–los a constituir um
governo sem burgueses, um governo contra a burguesia; no caso em que um grande
ascenso de massas os obrigue a fazê–lo, o governo resultante não seria ainda a
verdadeira ditadura do proletariado mas um passo extremamente importante para a
mesma. Mas se eles não rompem com a burguesia, o que é o mais provável,
então sua essência contra–revolucionária ficaria clara perante às massas.
Digamos logo: esta é a tática do governo operário e camponês.
Esta confusão, de nenhuma forma é
casual, mas obedece a uma lógica profunda, coerente com toda a política da
OCI(U). Porque, como continuação do trecho do Bulletin citado mais acima, está
escrito: “É necessário recordar mais uma vez o Programa de Transição e
este trecho tão importante sobre o governo operário e camponês?”
(op.cit.pg.26).
Digamos que sim e recordemos:
“Exigimos a todos os partidos e organizações que se apoiam nos operários e
camponeses e falam em seu nome, para que rompam politicamente com a burguesia e
entrem no caminho da luta pelo governo dos operários e dos camponeses. Neste
caminho, lhes prometemos pleno apoio contra a reação capitalista. Ao mesmo
tempo, desenvolveremos uma infatigável agitação ao redor das reivindicações de
transição que deveriam formar, em nossa opinião, o programa do “governo
operário e camponês”. (P.de T., pg.34).
Aqui está dito que é uma
exigência aos partidos operários, não um convite a luta conjunta com eles. Mas
o mais importante aqui é que “desenvolveremos uma infatigável agitação ao redor
das reivindicações de transição que deveriam formar, em nossa opinião, o
programa do governo operário e camponês”.
Qual é a única agitação que faz a
OCI? O apoio às “medidas” ou “passos progressivos” do governo Mitterrand
contra a burguesia e a CNPF (Confederação do Patronato Francês); o apoio aos
princípios que surgem no plano Mauroy para liquidar o desemprego em sete anos;
o chamado ao governo a não cometer o erro de conciliar com a burguesia.
Alguns exemplos:
- A grande greve da Ranault foi
ignorada pela OCI durante um mês e, finalmente, deu uma linha aventureira
destinada a paralisar a luta.
- Em Logabax, contra as
demissões, colocou–se que havia que “dar tempo ao governo, o tempo que
necessite” para resolver os problemas e não propôs a nacionalização da empresa.
- No movimento estudantil, a
UNEF, dirigida pela OCI e pelo PS, limita–se a “felicitar” o governo frente a
cada medida que toma.
- Finalmente, no conflito de
Orly, contra as demissões, a OCI constituiu uma frente única com a burocracia
sindical ligada ao PS e ao PC para aprovar uma resolução onde adotou–se, como
única medida para impedir as demissões, uma reunião com o Ministro do Trabalho.
Esta é a lógica profunda da
confusão teórica entre a frente única e governo operário e camponês: a
OCI(U) constituiu uma sólida frente única com o governo frente-populista,
burguês, imperialista de Mitterrand e com todos os partidos que o integram
(incluídos os burgueses). O objetivo de suas referências fraudulentas a
Lenin e Trotsky é disfarçar sua traição ao proletariado e à revolução sob um
disfarce trotskista.
5. Uma
frente única dentro da frente única
Dizemos,
então, que a OCI(u) é parte de uma grande frente única encabeçada pelo governo
de Mitterrand, da qual participam os partidos burgueses e operários do mesmo.
No entanto, é necessário matizar essa afirmação, porque dentro dessa grande
frente, a OCI(u) impulsiona outra, mais reduzida, que obedece à lógica dos
“campos progressivos”. Vejamos:
“O
conflito se desenvolverá tanto no interior do governo como no interior do PS.
E nesse caso, tampouco a OCI(u) permanecerá neutra”( Projeto de informe
político, p.7).
Ou
seja, a teoria dos campos se estende aqui ao PS, o principal partido do
governo.
IO 1024 (31/10/81)
dedica um importante artigo ao congresso do PS, realizado em outubro. Ali se
diz:
“Frente
ao furor reacionário (da patronal e da imprensa), inúmeros delegados ao
congresso foram muito aplaudidos ao pedir ao governo que utilize os meios de
que dispõe para fazer cessar os golpes lançados pelos banqueiros e a
escandalosa sabotagem da alta administração. Mas essa vontade de reagir e de
nomear claramente o inimigo foi atacada no segundo dia por vários membros do
governo, principalmente por dirigentes de correntes minoritárias do PS:
Rocard / ministro do Plano/, Chevenement, Mauroy /primeiro-ministro/.
Não é este o objetivo da nova corrida da imprensa, dirigida desta vez
contra o congresso de Valence: apoiar-se nos chamados à ‘moderação’
provenientes do interior do PS para redobrar a ofensiva contra os trabalhadores
e o governo?”
Mais
claro, impossível. O governo (ou seja, Mitterrand) está sendo atacado dentro do
próprio PS por ministros como Mauroy e Rocard. Estes são os agentes dos
“capitalistas e banqueiros” que sabotam a ação do governo.
Outro
artigo, intitulado “Por que eles preferem Rocard” diz que este ministro está
contra “provocar uma confusão no aparato produtivo”; em outras palavras, está contra as
nacionalizações. Devido a essas declarações e outras do gênero, o jornal La
Croix, que expressa as opiniões da hierarquia católica, disse que Rocard
“se destaca no grupo dos razoáveis (...) por preconizar a moderação nos
aumentos salariais...”(IO 1024).
IO
contrasta essas declaraçòes de Rocard com as do ministro do interior Gaston
Defferre: “Quanto aos banqueiros, é eles ou nós’, ou seja, o governo é o
inimigo mortal dos banqueiros..
Aqui
se revela o aspecto sectário da orientação geral oportunista da OCI(u): se
exclui Mauroy e Rocard do “campo burguês progressivo”. O governo
frentepopulista é progressivo, e por isso a OCI(u) faz frente única com ele.
Mas dentro dessa frente única há uma ala “infiltrada”, digamos assim, que
responde ao campo inimigo, reacionário, o da CNPF. Esse setor é o que impede
que o governo avance pelo “bom caminho” de satisfazer as reivindicações das
massas, e o faz ceder às exigências dos capitalistas e banqueiros. Por isso a
OCI(u) conforma uma frente única – dentro da frente única maior – com
Mitterrand e seus incondicionais, como Defferre, contra Rocard e os seus.
Com
isso, o PS – e nos referimos ao PS em seu conjunto, com Mitterrand à
cabeça – deixou de ser um partido operário traidor, um partido operário burguês
que se passou definitivamente ao bando da contra-revolução há quase 70 anos.
Agora é um partido que integra os dois campos, o burguês e o antiburguês; a OCI
faz frente única com este último, ou seja, nada menos que com Mitterrand.
–
verdadeira política
de
Lenin e Trotsky
A roupagem leninista e trotskista
com a qual a OCI(U) procura disfarçar sua traição realmente não resiste à
crítica: basta ver o que disseram Lenin e Trotsky sobre o tema de que nos
ocupamos.
Em primeiro lugar, a entrada dos
partidos operários traidores ao governo exige uma mudança radical na
caracterização dos mesmos e, consequentemente, uma mudança na política do partido
revolucionário. Escutemos primeiro Lenin referindo–se aos mencheviques quando
começaram a fazer parte do governo provisório:
“A mínima confiança nos
mencheviques eqüivale a uma traição à revolução, como teria sido confiar nos
kadetes entre 1905 e 1917”.
Agregando: “A principal
garantia de seu êxito está agora na clara compreensão das massas sobre a
traição dos mencheviques e os esseristas, no total rompimento com eles, num
boicote do proletariado revolucionário de tal forma incondicional, como foi o
boicote aos kadetes depois da experiência de 1905.” (obras completas, T. XXVI, p. 330).
Lenin afirmava e insistia que, a
partir de sua entrada no governo burguês, os mencheviques mereciam, da parte do
proletariado, o mesmo tratamento que o partido burguês dos kadetes recebe:
nenhuma confiança, ruptura total, boicote incondicional. Evidentemente, esta
caracterização excluía toda política de acordo ou frente com eles. Lenin o
dizia explicitamente: “Os mencheviques passaram definitivamente para o campo
dos inimigos do proletariado. Com pessoas que passaram definitivamente para o
campo dos inimigos não se negocia; com elas não conformamos blocos. A tarefa
primordial dos social–democratas revolucionários é isolá–los por completo, de
todos os elementos mais ou menos revolucionários da classe operária”. (Obras
completas, T.XXVI, pg. 329–330).
Trotsky não era menos categórico.
Quando chegou Blum ao governo, disse. “O partido de Blum é um partido
burguês, o irmão menor do radicalismo decadente” (On France, pg.
178).
Voltou a insistir neste conceito,
em plena guerra civil espanhola: “É preciso desencadear uma batalha implacável
contra a aliança com a burguesia e pelo programa socialista. É preciso
denunciar a direção stalinista, socialista e anarquista, precisamente por sua
aliança com a burguesia. Não se trata de redigir artigos que permanecerão mais
ou menos confinados nas colunas de La Batalha /o órgão do POUM/. Do que se
trata é de dirigir às massas contra seus dirigentes que estão a ponto de
conduzir a revolução ao desastre” (A revolução espanhola, vol.2, pg
77).
Ou seja, no meio da guerra contra
o fascismo, Trotsky chama a combater o frente–populismo e as direções traidoras
o PS, o PCE e os anarquistas: o oposto da frente única.
Para concluir, “toda a política
de Lenin e Trotsky em relação aos partidos operários ou que representam as
massas tem como eixo” justamente o contrário do que afirma a OCI: nenhum
acordo, ruptura total, isolamento, dirigir às massas contra eles, quando formam
parte de um governo burguês.
7– Uma
tática excepcional
para
uma circunstância excepcional
Dizíamos que existe uma
circunstância excepcional na qual está colocada a tática da frente única com os
partidos operários traidores quando estão no governo. Essa circunstância deu–se
em agosto de 1917 e durou exatamente quinze dias. Nesse período, Lenin e
Trotsky levantaram a frente única com os mencheviques e social–revolucionários,
ainda que sem deixar de atacá–los. Assim o explicou Trotsky anos depois, na
polêmica contra os stalinistas do terceiro período, que se negavam a combater
Hitler com os social–democratas: “Os bolcheviques tinham o direito de dizer:
para derrotar à Korniloviada devemos derrotar primeiro à kerenskiada. Disseram
isso mais de uma vez, porque era correto e necessário para toda a propaganda
posterior. Mas isso resultava totalmente insuficiente para oferecer
resistência à Kornilov no dia 26 de agosto e nos dias subsequentes, e para
impedir que ele massacrasse o proletariado de Petrogrado. Por isso, os
bolcheviques não se limitaram a fazer um chamado geral aos operários e soldados
a romper com os conciliadores e apoiar a frente única vermelha dos
bolcheviques. Não os bolcheviques propuseram à luta em frente única, aos
mencheviques e social–recolucionários e criaram organizações de luta
conjuntas”. (The Struggle Against Fascism in Germany, pág.136).
Frente à sublevação
contra–revolucionária de Kornilov, os bolcheviques deixaram de ter como centro
de sua agitação o chamado a “romper com os conciliadores” e, como exceção,
propuseram aos mencheviques e SRs uma luta conjunta por um objetivo imediato:
derrotar Kornilov. Dito de outra forma, até a sublevação de Kornilov adotaram
uma tática completamente oposta à da frente única com os mencheviques e SRs. No
lugar disso chamavam a romper com os conciliadores e constituir a frente única revolucionária
(“vermelha”).
Em que circunstâncias se propôs
esse acordo? Novamente, falava Trotsky: “A burguesia de conjunto apoiava
Kornilov. A aliança dos bolcheviques com os social-revolucionários só
foi possível porque os conciliadores romperam temporariamente com a burguesia:
o medo a kornilov os obrigou a isso. Os representantes destes partidos sabiam
que, se Kornilov triunfasse, a burguesia já não os necessitaria e Kornilov os
estrangularia. (op. citada pág. 187; sublinha do original).
Lenin e Trotsky, levantaram a
frente única quando a burguesia de conjunto rompeu a aliança com os
mencheviques e SRs e se passou para o lado de Kornilov.
O caso da Espanha foi diferente:
só um setor da burguesia rompeu com a República e se uniu a Franco. O outro
setor manteve a aliança com o PS, o PC e os anarquistas, e por isso Trotsky
jamais levantou a tática de frente única na guerra civil espanhola.
8– A origem da tática da
frente única
A frente única, tática de
aplicação circunstancial, quando o momento a exige, é uma das melhores que
elaborou o leninismo. Em mãos dos revisionistas da OCI(u) tornou–se um
princípio de aplicação universal e permanente: “A luta pela frente única
operária é uma constante”.
Para nossos mestres, a frente
única era uma tática formidável que se aplica em determinados momentos, de
acordo com a situação da luta de classes e do grau de força (ou debilidade) da
organização marxista revolucionária. A III Internacional levantou, pela
primeira vez, depois de 1921, nas circunstâncias que explicava Trotsky:
“Os acontecimentos
contra–revolucionários de fevereiro de 1921, demonstraram que era absolutamente
impossível seguir postergando a adequação dos métodos econômicos de construção socialista
às necessidades do campesinato. Os acontecimentos revolucionários de março de
1921 na Alemanha demonstraram que era absolutamente impossível continuar
postergando uma retirada tática, no sentido de preparar a luta para ganhar a
maioria da classe operária. Como vimos, ambas retiradas coincidem no tempo e
estão intimamente ligadas entre si. São retiradas em sentido relativo, porque
demonstram graficamente a necessidade, tanto na Alemanha como na Rússia, de
passar por um certo período preparatório: um novo rumo econômico na Rússia; a
luta por palavras-de-ordem transicionais e pela frente única no ocidente”
(The First Five Years of the Comunist Internacional, vol. 2, pág. 267).
Ou seja a tática surgiu em 1921,
quando se estabilizou o capitalismo e fracassou o plano da Internacional
Comunista de afastar a social–democracia do movimento operário mediante o
triunfo da revolução em algum país da Europa Ocidental. A derrota de revolução
alemã significou a estabilização do capitalismo e uma grande ofensiva contra o
nível de vida das massas, e ao mesmo tempo, a consolidação da social–democracia
do movimento operário. Com isso os partidos comunistas, que em alguns países
europeus adquiriram muita força, continuaram sendo minoritários em relação à
social–democracia. A tática de frente única se formula a partir dessa nova
situação objetiva e subjetiva, que obriga os partidos comunistas a passar por
um “período de preparação” no qual deverão ganhar a maioria da classe.
Como se colocava essa tática?
Novamente dizia Trotsky: “Hoje, o
setor organizado da classe operária está dividida em três formações. Uma delas,
comunista, luta pela revolução social e, precisamente por isso, apoia toda
mobilização, dos trabalhadores contra os exploradores e o estado burguês, por mais
parcial que seja.
Outra formação, a reformista,
busca a conciliação com a burguesia. Mas para não perder a influência sobre
os trabalhadores, os reformistas vêem–se obrigados, contra os desejos mais
ardentes de seus próprios dirigentes, a apoiar as mobilizações parciais contra
os exploradores.
Por último, o terceiro grupo,
centrista, vacila constantemente entre os outros dois e carece completamente de
importância como setor independente.
“Por conseguinte, devido a estas
circunstâncias, é perfeitamente possível realizar ações conjuntas entre os
operários agrupados nestas três organizações e as massas desorganizadas que
aderem às mesmas, em torno a toda uma série de problemas vitais” (op.cit., pág
94).
No mesmo documento que estamos
citando, se diz que: “Nos casos em que o partido comunista é uma organização
de uma minoria numericamente insignificante, o problema da sua conduta na
frente da luta de classes não tem uma importância prática e organizativa
decisiva. Em tais condições, as ações de massas continuam sendo dirigidas
pelas velhas organizações que, devido a existência de poderosas tradições,
seguem desempenhando um papel decisivo. O problema da frente única também não
se coloca nos países onde o PC é a organização dirigente das massas
trabalhadoras. Mas, onde o PC já constitui uma força política grande, bem
organizada, mas não decisiva; onde o partido abarca organizativamente a quarta
ou terceira parte, ou a um setor maior da vanguarda proletária organizada, o
problema da frente única se coloca de forma muito aguda” (op. cit., pág.92).
De tudo isso se derivam uma série
de caracterizações da tática da frente única, que podemos sintetizar assim:
– Se
levanta quando existe uma determinada relação de forças entre o partido
revolucionário e o reformista, sendo aquele mais débil que este, mas sem
constituir uma minoria insignificante do movimento operário.
– Se
coloca quando o movimento operário está lutando para defender–se de uma
ofensiva capitalista.
– Está
dirigida aos partidos oportunistas com influência majoritária no movimento
operário – na época de Lenin e Trostky eram os social–democratas – quando estes
se vêem obrigados a apoiar as mobilizações parciais dos trabalhadores.
– É
um convite – não uma exigência – à luta conjunta e imediata ao redor dos problemas
que sofrem os trabalhadores.
– Desprendem–se
daqui uma característica adicional, sobre a qual é necessário dar ênfase, mesmo
correndo o risco de ser repetitivos: já que se aplica somente em determinadas
circunstâncias, trata–se de uma tática, de forma alguma de uma política
de aplicação permanente. Caso contrário, a III Internacional a teria definido
como uma estratégia, que iria requerer táticas acessórias ou subordinadas para
conseguir a frente única, em cada etapa da luta de classes.
O OCI, com sua concepção de que
“a luta pela frente única é uma constante”, afirma exatamente o contrário. Em
tal caso, deve ser conseqüente e afirmar que a III Internacional cometeu um
erro político ao defini–la como uma tática que se aplica somente em
circunstâncias especiais e conjunturais, como as descritas acima. Se a OCI
fosse conseqüente até o final, deveria afirmar que Lenin e Trotsky se enganaram
em 1917 na Rússia porque não aplicaram essa tática (durante todo o ano
repudiaram os acordos com os mencheviques e SRs) e que se equivocaram novamente
nos dois primeiros congressos da Internacional Comunista, quando propuseram todo tipo de táticas, menos
o acordo com a social–democracia.
Além disso os dirigentes da OCI
deveriam por–se de acordo entre eles. Em sua intervenção no Brasil, Luis Favre
levantou, como vimos, que as únicas palavras que devem ser agitadas são
as palavras–de–ordem para a ação imediata, razão pela qual a OCI não levanta
agora uma palavra–de–ordem de governo. Suponhamos por um instante que Favre tem
razão. Mas a frente única é justamente para a ação imediata: porque, então, é
uma “constante”, quer dizer, que se levanta até quando não existem
possibilidades para realizá–la?
9– Uma
tática contraditória
Essa tática, na sua aplicação, se
enfrentava freqüentemente à realidade de que a direção social–democrata se
negava, rotundamente, à luta conjunta. Dessa realidade surgiu uma discussão, já
no IV Congresso. A ala direita, encabeçada por Radek e Thalheimer levantava que
a frente única passava essencialmente pelo acordo com as direções
social–democratas, enquanto que a esquerda, liderada por Zinoviev, afirmava que
deveria buscar–se a unidade com as bases operárias, de qualquer tendência que
fosse. Esta é a discussão entre os partidários da frente única “por cima” e os
da frente única “por baixo” (desconhecendo a direção social–democrata).
Em base a estas contradições, o
stalinismo caiu depois, em dois desvios diametralmente opostos. O primeiro foi
o do Comitê de Unidade Sindical Anglo–russo, frente única da burocracia
soviética com a burocracia sindical britânica em 1925. Graças a essa frente
única, os burocratas britânicos puderam trair e provocar a derrota da
formidável greve geral britânica de 1925, aproveitando–se do prestígio de sua
aliança com a direção da Revolução Russa. O outro desvio deu–se na Alemanha,
quando os stalinistas, no seu “terceiro período” ultra–esquerdista, levantavam
a frente única “pela base” e o desconhecimento da direção “social–fascista”.
Com isso, sabotaram a unidade do proletariado alemão e permitiram o ascenso de
Hitler ao poder.
Desvios a parte, a tática de
frente única é contraditória devido a um fato real. Trata–se de
conseguir uma mobilização unitária e imediata dos trabalhadores, e a luta não é
precisamente no terreno que as direções reformistas sentem–se mais cômodas. Seu
teatro de ação é a tribuna parlamentar, a redação do jornal, o escritório do
sindicato ou do partido. Não a fábrica ou a barricada na rua. O eixo da sua
atividade é a negociação não a mobilização.
Para nós, diz Trotsky, “nos
interessa arrastar os reformistas dos seus santuários e colocá–los junto a nós
na frente dos olhos das massas que lutam” (The first five years..., pág....).
Em certas ocasiões, quando a
pressão das massas é muito forte e, sobretudo, quando uma ofensiva do
capitalismo põe em perigo seus privilégios, podemos “arrastar os reformistas de
seus santuários” e obrigá–los a lutar. Esta situação nos beneficia como
revolucionários, já que só através da mobilização é que se fortifica nosso
partido e se torna clara a verdadeira face contra–revolucionária dessas
direções.
Mas em, muitas ocasiões, talvez
na maioria delas, se torna impossível obrigar a burocracia reformista a se
mobilizar. Em tais casos, sempre e quando o partido revolucionário possua a
força suficiente (recordemos que essa é uma das condições para aplicar a frente
única), se há de fato uma frente única pela base. Se se produz uma luta, então
este tipo de frente pode nos favorecer já que desmascara a direção traidora.
Seja como for, a frente única é
uma tática para mobilizar as massas, e somente assim deve ser colocada. Jamais
para frear uma mobilização como a levantou o stalinismo em suas duas versões
contraditórias, “por cima” (na Inglaterra), e “pela base” (na Alemanha).
10– A
frente única nas nossas fileiras
A tática de frente única,
aplicada pelos trotskistas na vida de Trotsky, passou por etapas claramente
definidas.
A primeira, correspondeu à etapa
do Comitê Anglo–russo e de outra grande frente única dessa época: a do Partido
Comunista Chinês com o Kuomintang. E dentro da URSS se deu de fato a frente
única da burguesia com o campesinato rico, nos marcos da NEP, como vimos num
capítulo precedente.
O eixo da política de Trotsky,
nessa etapa, foi a ruptura dessas três frentes únicas contra–revolucionárias.
Na Inglaterra e na China suas previsões se viram confirmadas pela derrota da
greve geral na primeira e a derrota da revolução de 1925–27 na segunda. Dentro
da URSS, a burocracia, obrigada por circunstâncias que colocavam em perigo sua
dominação, teve que dar um sangrento fim a sua frente com os Kulaks e tomar as
palavras–de–ordem da Oposição de Esquerda pela aplicação de um plano qüinqüenal
e a industrialização do país, de forma ultimatista e totalitária.
A segunda etapa se produziu entre
1928 e 1933. Com o avanço do nazi–facismo na Alemanha, a frente única se
transformou em tática principal do trotskismo. Esta tinha todas as
características clássicas da frente única, tal como foram definidas pela III
Internacional.
Em primeiro lugar, deve se ter em
conta que o trotskismo, ultraminoritário, não se considerava uma organização
independente, mas sim uma fração leal do Comintern e de seus partidos
nacionais. Por conseguinte, lutava para que o PC alemão, organização com grande
influência de massas, mas minoritário em relação à social–democracia,
chamasse–a a constituir a frente única. Em segundo lugar, se tratava de uma
tática defensiva para mobilizar unitariamente as massas contra o perigo
fascista.
A segunda etapa chega ao seu fim em 1933, com o triunfo do
fascismo na Alemanha. A partir de então, os trotskistas rompem com o Comintern,
se constituem enquanto grupos independentes, e praticamente abandonam a tática
da frente única. Quer dizer, não totalmente: continuam levantando–a à nível
local, ao redor de lutas reivindicatórias dos trabalhadores, mas à nível
nacional só a levantam propagandisticamente, no sentido de “isto é o que
deveriam fazer os partidos operários de massa”, abandonando–a como tática para
a ação imediata do próprio partido. A própria menção da frente única desaparece
da literatura trotskista a partir do ascenso das frentes populares na Espanha e
França.
O abandono da frente única
obedece uma razão muito sólida: “é uma tática para a ação imediata. O trotskismo,
corrente muito débil e ultra–minoritária no movimento operário, não encontrava
condições de colocá–la. Daí decorre o fato notável de que os documentos
programáticos mais importantes da fundação da Quarta Internacional – o
Programa de Transição e o manifesto A guerra imperialista e a revolução
proletária mundial (chamado “Manifesto de Emergência”) –, nem sequer
mencionam a tática da frente única. Isto demonstra, por outro lado, que é só
uma tática subordinada à grande tarefa estratégica da construção do partido
revolucionário do proletariado.
Pode haver uma circunstância em
que a frente única continue colocada: é a nível local, de uma categoria ou de
uma nacionalidade oprimida. Por exemplo, frente a uma greve numa fábrica, ou de
uma mobilização de trabalhadores imigrantes, pode estar colocada a frente única
com a burocracia sindical, ou com a direção local do partido socialista ou
stalinista, para conseguir o triunfo da mobilização. Mas isso é inteiramente
diferente da frente única a nível nacional, como foi colocada
originalmente pela III Internacional.
Quando os partidos operários
traidores estão no governo, só é levantada sob uma circunstância absolutamente
excepcional como a sublevação de Kornilov.
11– A
tática do entrismo
A partir de 1934–35, Trotsky
começa a levantar uma nova tática: a do entrismo nos partidos socialistas.
A nova tática responde aos
seguintes fatos: como conseqüência da traição stalinista na Alemanha e o avanço
do fascismo na Europa, um grande setor da juventude é atraído à
social–democracia e ingressa em suas fileiras. Com isso se produz um duplo
fenômeno: os partidos social–democratas se fortalecem, mas ao mesmo tempo
aparecem em seu seio uma série de tendências centristas de esquerda que
enfrentam às direções regionais.
Nos países onde isto sucede –
principalmente na França, na Espanha e nos Estados Unidos – Trotsky propunha a
linha do entrismo.
Para analisar esta tática, o
exemplo mais claro, ainda que pareça estranho, é um caso que aparentemente
estava colocado a frente única; a França de 1934. Vejamos o que dizia Trotsky:
“Já dissemos que a frente única dos partidos Socialista e Comunista encerra
possibilidades imensas. Se o quiser seriamente, amanhã será o amo da França.
Mas deve possuir a vontade de fazê–lo (...) A chave da situação está na frente
única. Se o proletariado não utiliza esta chave, a frente única jogará o
lamentável papel que teria jogado a frente única dos mencheviques e os
social–revolucionários na Rússia em 1917 se ... se os bolcheviques o tivessem
permitido” (On France, pág. 58).
Isto é um chamado de Trotsky a
constituir a frente única? Não: é reconhecer que essa frente entre os dois
partidos operários existe na realidade e arma–se de uma política para isso.
Essa política foi a do entrismo no partido socialista e foi levantada
precisamente quando se formou a frente única PS–PC.
“A frente única inicia a marcha
no caminho das massas. Queremos participar ativamente. A única
possibilidade que nossa organização tem de participar na frente única de
massas, nas circunstâncias dadas, consiste em ingressar no PS” (Escritos,
T. VI, vol.1, pág....).
Quer dizer, se colocava como
tática para que o pequeno partido trotskista não ficasse marginal do movimento
de massas. Com que objetivo?
“Vários camaradas – eu entre eles
– acusamos à direção da Liga (francesa) e de La Verité de que sua luta
contra a direção social–democrata era insuficiente. À primeira vista poderia
parecer que há uma contradição irreconciliável entre esta crítica (que mantenho
em todos os seus aspectos) e a proposta de ingressar ao partido
social–democrata. Na realidade não há tal coisa (...) A entrada de forma aberta
naquele partido com a finalidade de desenvolver uma luta inexorável contra a
direção reformista, implica levar a cabo um ato revolucionário. O exame
crítico da política de Blum e Cia. deve ser o mesmo em ambos os casos”
(op.cit., pág. 65–66).
Trotsky então critica a direção
da seção francesa pela insuficiência de sua luta contra a direção
social–democrata e propõe que, para que esta luta seja mais efetiva
(“inexorável”) a Liga entre no partido social–democrata. É o oposto da
frente única, que é o acordo entre duas organizações ao redor de pontos comuns
para a luta. O entrismo é uma tática para que o pequeno grupo revolucionário se
insira na corrente das massas e leve adiante sua “luta inexorável contra a
direção reformista”. Demos o exemplo da França, mas insistimos que a tática
entrista se aplicou, não pela existência da frente do PC–PS, mas para ganhar as
correntes de esquerda do PS, quer dizer, pelas mesmas razões que nos Estados
Unidos, Holanda, etc., onde essa frente única jamais surgiu.
12– O
governo operário e camponês
Ao desaparecer a frente única
entre as táticas do trotskismo, surge outra, que rapidamente adquire status
como uma das táticas mais importantes do nosso movimento: o governo operário e
camponês.
Não é casual que Trotsky não
levantou essas duas táticas ao mesmo tempo, e que surgisse uma na medida que
desapareceria a outra. Como dissemos, a frente única é um chamado, feito por um
partido revolucionário com influência de massas, a um partido reformista
majoritário à luta conjunta, em base a pontos comuns.
O governo operário e camponês
como tática frente aos partidos operários corresponde a outra etapa, quando os
partidos stalinistas e social–democratas deixaram de ser reformistas para
converter–se em contra–revolucionários, já que se passaram definitivamente à
ordem burguesa. A frente única parte da na base de que existem atritos entre a
burguesia e os partidos operários. A tática de governo operário e camponês se
levanta quando existe uma profunda unidade contra–revolucionária entre eles, o
que é característico na atual etapa histórica.
A frente é o chamado à
mobilização das massas com suas direções reformistas. O governo operário e
camponês não é um chamado, mas sim uma exigência; não para lutar conjuntamente,
mas sim, para que essas direções rompam
sua colaboração e sua aliança com a burguesia e tomem o poder com um programa
revolucionário. É em síntese, o chamado
às massas a romper com suas direções traidoras ou obrigar a estas a romper com
a burguesia.
Por tudo isso, a frente única e o
governo operário e camponês são táticas opostas, que correspondem a etapas
totalmente diferentes da luta de classes.
Digamos, para concluir, que só
nos referimos ao governo operário e camponês como tática para varrer as
direções traidoras do movimento operário, e não no outro sentido que é descrita
pelas Teses (da IV–CI), quer dizer como tipo específico de governo.
13– A frente operária
revolucionária
A etapa em que os partidos
operários se converteram definitivamente em contra–revolucionários, produziu
outro fenômeno: o de correntes centristas, que, em muitos casos surgem no seio
destes partidos, que evoluem em direção a posições revolucionárias
trostskistas. Chamamos estas correntes de “trotskizantes”, porque adotam muitos
de nossos postulados programáticos: a necessidade da revolução operária e a
destruição do estado burguês, a denúncia dos partidos operários
contra–revolucionários, a necessidade de apoiar–se na mobilização
revolucionária das massas, o tipo de estado que se deve construir depois da
tomada do poder, etc.
É necessário armar–se de uma
política frente a estas correntes, para ganhá–las para o programa marxista,
para a revolução proletária, e para a construção do partido trotskista. Essa
política é a da frente única revolucionária, já colocada em 1917 como “frente
única vermelha”. O trotskismo a levantou na Espanha e França, países onde a situação
revolucionária ou pré–revolucionária havia dado surgimento a ditas correntes
nos partido operários de massa, frente as traições de suas direções. Vejamos
como levantava na Espanha:
“A tarefa imediata do
proletariado é criar, no próprio curso da luta, uma direção capaz, que não pode
ser outra que um verdadeiro partido revolucionário marxista, que não esteja
carregado dos velho erros e dos velhos crimes, que esteja livre de todo
oportunismo e de todo desejo de conciliação (...). Os elementos desse novo
partido já existem, Se encontram nos restos do POUM, onde se havia formado
uma ala esquerda que criticava muito vivamente a pusilanimidade do Comitê
Executivo; entre os anarquistas, sobretudo entre os “amigos de Durruty”; nas
juventudes socialistas, onde os camaradas se sublevaram contra o curso
contra–revolucionário dos stalinistas.
“A todos os revolucionários que
se sentem próximos a nós, dirigimos este chamado: venham reforçar nossas
fileiras. Deixemos claro os pontos divergentes em base a uma discussão
amigável. Unidos na luta, derrotaremos, nosso inimigo comum”. (A revolução
espanhola, Vol.2 pág. 482 e 485).
Uma política similar foi aplicada
na França, com o chamado à constituição da frente proletária revolucionária.
O jornal La Lutte Ouvriere, na sua edição de 10 de outubro de 1936,
publicou uma carta aberta do Birô político do POI dirigida à Esquerda
Revolucionária (o grupo de Pivert), ao Grupo Que Fazer? (uma pequena
organização centrista), à União Anarquista e à Aliança das Juventudes
Socialistas do Sena, corrente dirigida por Fred Zeller, que havia rompido com a
juventude do partido de Blum e estava se aproximando dos trotskistas.
Depois de uma breve análise da
situação na Espanha e França, a carta diz:
“Numa situação semelhante, só a
luta resoluta pelo programa revolucionário da expropriação da burguesia
pode tirar a iniciativa dos fascistas e preparar os trabalhadores para a luta
decisiva. Propomos que a luta se organize em torno as seguintes
palavras–de–ordem:
“Controle operário e camponês da
produção, da indústria e dos bancos, supressão do segredo comercial;
“Constituição de comitês de Ação
de massas eleitos e Congressos de delegados de Empresa;
“Viva a ocupação das fábricas!”.
O chamado conclui assim:
“A crise da frente popular é a
expressão da crise do capitalismo liberal na França. A burguesia radical ameaça
os operários que ocupam as fábricas. Para vencer, a classe operária deve romper
a frente da traição, essa associação monstruosa da água e do fogo.
“As classes médias e o
campesinato escutarão a frente proletária revolucionária e a ajudarão,
se expressa a luta das classes exploradas e não é o fruto da domesticação dos
trabalhadores pela burguesia. Neste momento, em que a situação nos exige
redobrar e estender a luta, propomos a ação conjunta sobre as bases aqui
expressas.” (sublinhado no original).
“As bases aqui expressas” são
justamente as palavras–de–ordem que constituirão o Programa de Transição: o
controle operário e a criação dos soviets (“Comitês de Ação”). Um chamado sobre
essas bases não pode estar dirigido às direções traidoras do movimento
operário, mas sim, a grupos ou correntes com posições revolucionárias ou que
evoluem a ditas posições: aqui está se propondo nada menos que a expropriação
da burguesia com um programa revolucionário.
Este chamado foi objeto de uma
verdadeira campanha no Lutte Ouvrier: na sua edição de 24 de outubro
lançou as palavras–de–ordem:
“Frente única proletária contra a
burguesia, o fascismo e a guerra imperialista;
“Temos que expulsar os ministros
radicais do governo;
“Agrupemos aos explorados no
terreno da luta de classes contra o capitalismo”.
O chamado a lutar por estas
palavras–de–ordem repete–se em quase todas as edições do L.O., que não
citamos para não continuarmos nos estendemos.
Devemos assinalar que o entrismo
e a frente revolucionária se colocaram em duas etapas totalmente diferentes da
luta de classes. O primeiro correspondeu a um momento em que as massas haviam
sofrido uma derrota, com o ascenso de Flandim ao governo e a transformação da III
República francesa em um estado bonapartista. No partido social–democrata de
Blum existiam correntes de esquerda que questionavam à direção traidora.
A frente única revolucionária foi
colocada quando as massas haviam retomado a ofensiva, enquanto que a frente
única PS–PC havia se convertido numa frente popular com o Partido
Radical burguês. Esta etapa exige uma tática para ganhar as correntes que
definimos como “centristas trotskizantes” (centristas com uma dinâmica
positiva, em direção à revolução) para a construção do partido revolucionário.
Por isso, o chamado à luta conjunta com essa correntes, se faz sobre a base do
programa trotskista.
14– A
única estratégia do trotskismo
De tudo que foi anteriormente
colocado, se desprende que, para o trostskismo, a frente única com os partidos
reformistas, o governo operário e camponês (do ponto de vista que o tratamos
aqui) e a frente única revolucionária são somente táticas cada uma
corresponde a uma determinada circunstância da luta de classes, e é adotada ou
desenhada por conveniência circunstancial.
O trotskismo conhece somente uma
estratégia no terreno político organizativo: a construção do partido
revolucionário para superar a crise de direção revolucionária do proletáriado. Subordinada
a esta estratégia, aplica as diferentes táticas que acabamos de descrever, com
o fim de destruir, varrer do movimento de massas as direções
contra–revolucionárias stalinistas e social–democratas. O fato que se aplique
uma ou outra dessas táticas, depende da situação objetiva (ascenso ou
retrocesso do movimento de massas, fortalecimento ou debilidade da classe
dominante, etc.) e subjetiva (a relação de forças entre o grupo revolucionário
e as direções contra–revolucionárias, a existência ou inexistência das
correntes trotskizantes).
A direção revolucionária que
transforma qualquer uma dessas táticas em uma estratégia universal de aplicação
permanente, abandona de fato a construção do partido revolucionário e, com
isso, a luta pela conquista do poder. Este é, precisamente o caso da OCI, para
a qual a “a luta pela frente única é uma constante”.
O único constante para nós e a
construção do partido trotskista mediantes distintas e múltiplas táticas.
Esta mania da OCI(u) por
transformar a frente única numa estratégia supra–histórica é uma manobra para
afastar o trotskismo da direção da luta da classe operária e das massas
exploradas, conformando–se com o chamado às direções traidoras para que
encabecem essas lutas.
Capítulo VIII:
A
OCI abandona o programa de transição
em troca de um programa mínimo
Como vimos, a OCI tem uma
política de centrar seus ataques exclusivamente no CNPF e nos altos
funcionários giscardianos. Não só não ataca o governo, como também forma parte
do seu “campo”. Isto a leva a afirmar que o movimento de massas atravessará
duas etapas em sua atitude frente ao governo. Na primeira as massas verão o
governo como seu “aliado” contra o CNPF, e tentarão “dialogar” com ele. A
tarefa da OCI nesta etapa é “facilitar” esse diálogo. Na segunda, que se
iniciará uma vez produzida a derrota do CNPF, as massas tomarão distância, não
para derrubar o governo, mas para obrigá–lo a romper com a burguesia. Supomos
(porque jamais é dito explicitamente) que a palavra–de–ordem “Fora os ministros
burgueses do governo” fica relegada para essa segunda etapa, ou seja, para um
futuro indeterminado. A síntese desta política é que OCI não tem, nem tenta
ter, uma palavra–de–ordem de governo.
Isto não significa o abandono
total do programa de transição, tanto na letra, como no método. Porque o eixo
do programa de transição é justamente o problema de governo: um programa
trotskista é justamente um conjunto de palavras–de–ordem e tarefas, que tem
como objetivo, a mobilização revolucionária das massas para a derrubada da
burguesia – ou seja, do governo burguês de turno – e a conquista do
poder pelo proletariado.
Vejamos, com OCI acontece algo
bastante cômico. Toda a sua política é revisionista, mas como tenta ocultar
este fato, cita a cada passo, a Trotsky e ao programa; o Projeto de informe
político tem um capítulo intitulado “Aplicar o método do programa de
transição” e, ao longo do documento, são abundantes as citações de Trotsky
(além de algumas de Lenin e da III Internacional). Isso é típico do
revisionismo envergonhado: citar ritualmente aos mestres, jurar por eles,
aplicar uma política diretamente contrária a seus ensinamentos.
1– A
OCI reconhece que não tem programa
No Projeto de informe
político, afirma–se que a OCI não tem na atualidade um programa de
transição “... as outras palavras–de–ordem que conformarão a coluna vertebral
do programa de ação que teremos que redigir”.
Quer dizer, as palavras–de–ordem
transicionais e o programa de ação ainda não foram redigidos.
Deixemos claro que na
terminologia trotskista “programa de ação” é o mesmo que “programa de
transição”: em 1934 Trotsky redigiu um “programa de ação para a França”; no
programa de transição ele retoma as mesmas palavras–de–ordem e, acima de tudo,
mantém o mesmo caráter e método que aquele. Continuemos.
O Projeto pergunta:
“Estamos frente a uma tarefa que devemos cumprir: saber elaborar, sobre a base
do Programa de Transição da IV Internacional, um programa de ação que responda
à nova situação política entre as classes no nosso país. Podemos fazê–lo de
imediato?
A resposta é não: “É
indispensável que a OCI elabore nas próximas semanas e nos próximos meses, um
programa de ação. No entanto, não se trata de ser ultimatista, nem de ser
abstrato”.
Nisto, a OCI procede exatamente
ao contrário do trotskismo. Um trotskista diz: “Feita a caracterização de uma
nova etapa da luta de classes, não podemos avançar nem mais um passo sem a
elaboração de um programa adequado à mesma”. A OCI, em troca, coloca tudo de
pernas pro ar ao afirmar que o programa é necessário, que deve elaborá–lo, mas
que pode deixar esta tarefa mais para a frente, para as próximas semanas ou
meses.
2–
Trotsky versus Frank–Molinier–Lambert
A negativa consciente em formular
um programa não é um fato casual. Também não é novo: já aconteceu antes em
nossas fileiras com a fração Frank–Molinier do partido francês. Vejamos como
foi, e a polêmica que fez Trotsky naquela ocasião, porque a história está se
repetindo.
Em 1935, uma ala do partido
trotskista francês, encabeçada por Frank e Molinier, resolve publicar um “órgão
de massas” para responder à nova situação criada pela Frente Popular de Blum e
o crescente ascenso das massas. Este jornal, chamado La Commune, formulou
cinco palavras–de–ordem: criação de comitês operário e comunas, formação de
milícias populares e armamento do proletariado, derrotismo revolucionário,
governo operário e camponês, reconstrução do partido operário e camponês,
reconstrução do partido revolucionário.
Excetuando–se o das “comunas”,
estas palavras–de–ordem parecem extraídas de Aonde vai a França? ou
algum outro escrito de Trotsky da época. No entanto, Trotsky qualificou o
manifesto do La Comunne de “capitulação frente à onda social–patriota”.
Quem não compreende assim, não é um marxista. (The crisis of the French
Section. New York: Pathfinder Press, 1977; pág. 102). Porque? Porque La
Comunne – como a OCI hoje em dia – não tinha um programa:
“Para nós, o importante é um
programa que corresponda à situação objetiva (...) no pensamento e na carta
de P. Frank – e no conhecido manifesto de La Comunne – não se menciona
um programa, e não é uma casualidade: o programa é um obstáculo importante para
a confraternização com a pequena–burguesia, os intelectuais, pessimistas,
céticos e aventureiros; nós, ao contrário, estamos convencidos de que o
programa determina tudo”.
Aqui Trotsky nos dá a chave:
Frank e Molinier não levantavam um programa, para poder capitular frente a ala
à esquerda da Frente Popular: Marcel Pivert e companhia. Lambert se nega em
levantar um programa para capitular, não frente aos intelectuais como Pivert,
mas pior, frente ao governo burguês de Miterrand e o mais podre da direita
burocrática contra–revolucionária do aparato sindical, Bergeron e seus
comparsas.
Lambert diz que não levanta um
programa porque “não é questão de ser ultimatista”. Frank dizia exatamente o
mesmo. “Nada de ultimatismo organizativo”. Trotsky responde:
“Que distorção repugnante da
formulação leninista! Nada de ultimatismo em relação as massas, aos sindicatos,
ao movimento operário; o ultimatismo ao que nos referimos se chama programa
marxista”.
Um pouco depois, quando Frank e
Molinter propuseram a reunificação, Trotsky insistiu: “Antes de mais nada o
programa! jornal de massas? Ação revolucionária? Reunificação? Comunas por
todas as partes? Muito bem, muito bem. Mas, antes de mais nada, o
programa!”.
Como vemos a história se repete.
Mas, como dizia Marx, o que ontem foi tragédia, hoje se repete como farsa.
Frank–Molinier levantavam cinco palavras–de–ordem e chamavam isso de programa.
Trotsky respondeu: “Milícia operária e derrotismo revolucionário não constituem
um programa. Todo o mundo as aceita com tais ou quais reservas”.
Em troca, Lambert se nega
explicitamente a levantar um programa.
Frank–Molinier repeliam o
“ultimatismo” para capitular frente a uma corrente centrista de esquerda, que
por sua vez capitulava à frente popular. Lambert capitula diretamente ao
governo burguês de frente popular e à burocracia sindical.
3– As
tarefas e palavras–de–ordem de Pablo e Lambert
A negativa de elaborar e levantar
um programa de ação (quer dizer, transição) não significa que a OCI não coloque
tarefas e palavras–de–ordem frente à política do governo. Ao contrário, as
coloca da forma mais clara e categórica no Projeto de informe político.
O ponto de partida para elaborar
as tarefas é a seguinte constatação, imediatamente após afirmar que não se pode
ser ultimatista nem abstrato:
“O governo Mitterrand–Mauroy é
forçado, a cada momento, a entrar em conflito com o aparato do estado burguês,
com a burguesia cujos interesses, no entanto defendem”. Além da frase ritual de
que o governo defende os interesses da burguesia, estas apreciações dá a tônica
das tarefas que se impõe a OCI:
1) Sobre a necessidade de quebrar
o aparato de estado da V República: “A OCI(u) apoiará todo o passo que o
governo Mitterrand–Mauroy possa dar nesse sentido”;
2) Sobre a política econômica e
as nacionalizações com indenização que projeta o governo: “A OCI(u) apoiará
todo o passo que o governo Mitterrand–Mauroy dê nesse sentido. Consideramos que
as medidas tomadas pelo governo para que os trabalhadores de
Boussac–Saint–Fréres .... conservem seus empregos até setembro, constituem um
primeiro passo”.
3) Sobre a anulação das leis
anti–laicas e a supressão dos fundos oficiais para o ensino privado: “Uma vez
mais, a OCI apoia todo avanço nesse sentido”.
4) Sobre o problema do emprego, o
aumento de preços, o ensino, a formação profissional: “Será sempre do mesmo
ângulo que deveremos abordá–los”, ou seja, se trata de apoiar os passos
progressivos do governo.
Em síntese, a OCI tem um programa
claríssimo e concreto frente ao desemprego, a inflação, as leis anti–laicas, o
ensino, as condições de trabalho e a formação profissional, nada menos que a
totalidade dos problemas mais angustiantes do proletariado francês. Não tem um
programa transicional, dirigido contra o governo burguês e a propriedade
capitalista: é o apoio às medidas reformistas do governo. Como
diz o próprio Projeto, este é o eixo da política da OCI: “será sempre do
mesmo ângulo que deveremos abordá–los”. Mais claro, impossível: é preciso que
reconheçamos essa virtude.
Por seu lado, Pablo tem
exatamente o mesmo programa. Na resolução política do Congresso constitutivo da
Tendence Marxiste Révolutionnaire Internationale se diz: “Apoiaremos cada medida
favorável aos trabalhadores”. (Suplemento de Pour l’Autogestion, Nº 2).
E em outra parte:
“Nós defenderemos
incondicionalmente ao governo Mitterrand contra os ataques da direita, e
apoiaremos todas as medidas sociais e políticas que tome, que satisfaçam
as reivindicações dos trabalhadores”. (Pour l’Autogestion, Nº 1).
E em síntese: “trata–se de
combinar habilmente a unidade de ação, o apoio a toda medida progressiva, com
a propaganda do programa transitório”.(Sous le drapeau du socialisme, 10
de maio).
Quer dizer, do mesmo modo que
Lambert, Pablo faz o apoio às medidas progressivas do governo, o eixo de sua
política e programa; e, para completar as coincidências aparecem as mesmas
frases rituais de rigor entre os revisionistas: “a propaganda do programa
transitório”.
Então, a coincidência entre Pablo
e Lambert sobre o problema chave do programa é total. A única diferença entre
elas é a terminologia, porque onde Pablo fala em apoiar “medidas”, Lambert fala
em apoiar “passos”. Nisto, vemos uma aproximação entre Lambert e ... Stálin.
Como vimos, Stálin se caracterizava por apoiar os “passos progressivos” do
governo provisório a partir das páginas do Pravda, na época em que tal
jornal tinha uma política totalmente oportunista, segundo Trotsky.
4– Uma
política a partir das ilusões das massas
No afã de justificar sua
capitulação frente ao campo frente populista, a OCI montou uma estrutura
explicativa que parte da seguinte consideração: “O governo Mitterrand–Mauroy,
burguês, de colaboração de classes, de tipo frente populista, é produto da
derrota que as massas trabalhadoras e a juventude, infligiram à burguesia: o
reconhecem e o reconhecerão, durante toda uma etapa como seu governo. A partir
desta constatação, feita sobre a base de fatos objetivos rigorosamente
estabelecidos (...) é que devemos guiarmos hoje, para determinar nossas
tarefas”. (Projeto de informe político, p. 3; sublinhado no original).
Na realidade, aqui se mencionam
dois fatos, mas os dois não são “objetivos”. Que o governo Mitterrand–Mauroy é
“Burguês”, de colaboração de classes do tipo frente–populista, é sim um fato
objetivo. Mas o fato de que as massas “o reconhecem e o reconhecerão durante
toda uma etapa como seu governo” é claramente subjetivo. É o que
pensam as massas – de forma equivocada, por outro lado – sobre o caráter do
governo.
O fato que a OCI leva em conta
para determinar suas tarefas é unicamente o subjetivo, já que durante todo o
documento se repetem frases, tais como: “combater as ilusões, no terrenodas
ilusões” tomando em conta que “os trabalhadores não fizeram a experiência com a
política de colaboração de classes do governo Mitterrand–Mauroy”. E a própria
estrutura do documento confirma o que dizemos: o primeiro capítulo fala “Sobre
o problema das ilusões”, vale dizer, sobre o problema subjetivo.
Fica claramente estabelecido,
então, que o ponto de partida da OCI para elaborar sua política é o fator
subjetivo, as ilusões das massas. Agora vejamos o que significa isso na
prática.
A empresa de computadores Logabax
havia começado a instrumentar um plano de reestruturação, que implicava na
demissão de várias centenas de operários. Qual foi a política da OCI frente
esse problema desesperador? “Nós não propusemos, imediatamente, a
nacionalização da Logabax, porque levamos em conta que os trabalhadores, que
acabavam de tirar Giscard, acreditaram que o novo governo Mitterrand–Mauroy
necessitava tempo para preparar as nacionalizações”.
Não poderia ser mais claro.
Contra a política trotskista – “para que não haja mais demissões, ocupemos a
fábrica e exijamos sua expropriação” – a OCI resolve, junto com os
trabalhadores, dar a Mitterrand o tempo que pede.
5– A
política trotskista parte do fator objetivo
Nós afirmamos, junto com Trotsky,
que a concepção da OCI de tomar como o ponto de partida da sua política, o
fator subjetivo – o que as massas acreditam – é uma concepção absolutamente
revisionista, de fazer seguidismo ao atraso das massas para justificar o apoio
a Mitterrand. Expliquemo–nos: No nosso artigo publicado em Correspondência
Internacional n.º 13,
assinalávamos que o ultra–esquerdismo e o oportunismo, compartilham o defeito
metodológico de só levar em conta um elemento da realidade. Para os
oportunistas da OCI, esse elemento é o subjetivo, as ilusões das massas. Mas
são tão oportunistas, que levam em conta o outro fator subjetivo: As massas,
além de ilusões, têm aspirações. As aspirações das massas francesas, hoje em
dia se concretizem em liquidar com o desemprego, tal como prometeu Mitterrand;
se concretizam em melhores salários, etc. E se sintetizam numa França
socialista: por isso elegeram a Mitterrand. Este, traiu absolutamente a todas
as aspirações das massas, mas a OCI não toma, absolutamente em conta isso, ao
formular sua política.
Os marxistas revolucionários
elaboram sua política e palavras–de–ordem com base em todos os elementos –
objetivos e subjetivos – que nos dá a realidade, em sua relação orgânica e sua
dinâmica. Mas o ponto de partida para elaborar nossa política sempre é o fator objetivo,
concretamente, as necessidades das massas: baixos salários, desemprego,
etc. Por isso, não é casual que o Programa de Transição parta das
premissas objetivas da revolução socialista”. Nosso programa não parte
da colocação de que as massas acreditam em Stalin, Blum ou Jouhaux, mas do
seguinte: “As forças produtivas da humanidade deixaram de crescer. As novas
invenções e progresso técnicos não conduzem a um acréscimo da riqueza material.
As crises de conjuntura, nas condições da crise social de todo o sistema social
de todo o sistema capitalista, impõem às massas privações e sofrimentos sempre
maiores” (Programa de Transição, Bogotá, Editora Pluma, 1977, pág. 7).
Por outro lado, Trotsky assinala
muito claramente que, quando surge uma nova situação na luta de classes,
devemos em primeiro lugar, dar uma visão honesta e clara da situação objetiva,
das tarefas históricas que emanam desta situação independentemente de que os
trabalhadores estejam maduros ou não para isso. Nossa tarefa não depende da
mentalidade dos operários (...) nós devemos dizer a verdade aos
trabalhadores e então ganharemos os melhores elementos”. (“Discussões sobre
o Programa de Transição”).
Quer dizer, nossa política não
depende da mentalidade (das ilusões) dos trabalhadores, mas sim de suas
necessidades.
Isto significa que não levamos em
conta as ilusões? De forma alguma. Este é justamente o erro dos
ultra–esquerdistas. Nós as levamos em conta para elaborar nossa tática, quer
dizer, a forma em que “dizemos a verdade aos trabalhadores” de tal forma que
eles nos compreendam e se mobilizem.
Para explicar melhor, voltemos ao
exemplo da Logabax. Ali havia um fato objetivo – centenas de operários correndo
o perigo de perder seu emprego – e um objetivo, esses trabalhadores acreditavam
que Mitterrand solucionaria o problema.
Um oportunista diz, com a OCI:
“já que os trabalhadores acreditam em Mitterrand, devemos dar–lhe o tempo que
pede e não exigir a expropriação da fábrica”.
Um ultraesquerdista diz: “As
demissões da Logabax demonstram que este governo burguês não solucionará nada,
é igual ao de Giscard. Abaixo o governo de Mitterrand”.
Nós trotskistas dizemos: “Contra
as demissões, devemos ocupar a fábrica e exigir sua expropriação imediata, sem
indenização e sob nosso controle. Vocês confiam em Mitterrand, nós não.
Propomos um acordo: lutemos junto contra as demissões, ao mesmo tempo que
negociamos com o governo no qual acreditam”.
Qualquer trabalhador pode aceitar
esta simples colocação, mobilizar–se, lutar e ao mesmo tempo negociar com o
governo. Assim, através da ação e da mobilização, compreenderá o erro de
confiar no governo.
Isto nos leva a outro problema.
Segundo a OCI, há que “combater as ilusões no campo das ilusões”. Falso:
colocar–se no terreno das ilusões é fazer seguidismo às mesmas, como a OCI. As
ilusões só podem ser combatidas mediante a mobilização, e as massas só
se mobilizam a partir de suas necessidades objetivas.
6– Uma
“confusão” no caráter das palavras de ordem
As palavras de ordem e tarefas
que formula a OCI são todas mínimas: nenhuma vai contra a propriedade privada
capitalista, que é sine qua non para que uma palavra de ordem seja
transicional. Um pouco mais adiante nos aprofundaremos no aspecto, do caráter
das palavras de ordem. O que assinalamos aqui é que a falta de palavras de
ordem transicionais entre as que levanta a OCI (nos referimos às que levanta de
forma sistemática, não às que aparecem um ou outro artigo de jornal de forma
ritual) não é casual: atentar contra a propriedade privada capitalista
significa dirigir–se contra o governo burguês, e isso é o que a OCI quer evitar
a todo custo.
Uma das razões que colocam para
não levantar palavras de ordem transicionais e de governo nesta etapa, a do
camarada Luis Favre na sua intervenção frente a uma plenária conjunta da
Convergência Socialista e da Organização Socialista Internacionalista do
Brasil. Diz Favre:
“Um camarada disse que para
propor uma política é necessário uma palavra de ordem de governo. Agora
vejamos, esta palavra de ordem de governo tem um caráter de agitação ou de
propaganda? Se o problema de derrubar o governo está na ordem do dia, o caráter
desta palavra de ordem é agitativo, é um chamado imediato à ação das massas
para derrubá–lo. Se do que se trata é de uma perspectiva, a OCI afirmou em
vários editoriais que se pronuncia por um governo PC–PS sem ministros
burgueses”. (transcrito da gravação efetuada na reunião).
Começando pela última afirmação
de Favre, é verdade que em vários editoriais de IO assim como no projeto
de informe político a OCI pronuncia–se por um governo PS–PC sem
ministros burgueses. Mas o faz de forma abstrata, ritual: ao negar–se a
levantar “fora os ministros burgueses”, a palavra–de–ordem por um governo PS–PC
converte–se numa bandeira para agitar nos dias de festa, e num lema que em nada
inquieta o governo burguês.
Segundo Favre, as únicas
palavras–de–ordem que devem ser agitadas são aquelas que servem para mobilizar
as massas de forma imediata. Isto é um erro: agitação e ação imediata não são
sinônimos. As palavras-de-ordem agitativas são as três ou quatro idéias
fundamentais que apresentamos ao movimento de massas de forma constante,
independentemente de que este se mobilize por elas imediatamente.
A OCI nos deu o melhor exemplo
disso. Em 1974 lançou sua palavra-de-ordem “Derrubar Giscard”; as massas derrubaram
eleitoralmente Giscard em 1981. Quer dizer, passaram-se 7 anos; mas durante
estes sete anos, a OCI jamais deixou de agitar essa grande reivindicação,
concretizada em palavras-de-ordem, tais como, “unidade PS–PC para expulsar
Giscard”, “votar em Mitterrand”, etc.
Vejamos outros exemplos. Os
camaradas venezuelanos levantavam a seguinte palavra-de-ordem: “por uma
conferência das organizações operárias para combater o desemprego”.
Possivelmente vários anos se passarão antes que essa tarefa possa ser levada a
cabo, no entanto, os camaradas venezuelanos não deixarão de agitar essa
palavra-de-ordem, e entendemos que é um grande acerto que façam isto.
O PST argentino agita as
palavra-de-ordem “abaixo a ditadura militar” e “por uma assembléia
constituinte”. Ninguém afirma que as massas se levantarão para derrubar o
governo de forma insurrecional. Mas ao mesmo tempo, ninguém critica o PST(a)
por fazer da palavra-de-ordem “abaixo a ditadura militar” o centro de sua
agitação. Ao contrário, todo o nosso movimento mundial considera que é um
grande acerto político.
Este ‘erro’ da OCI, como todos os outros, não é
casual. É parte coerente da sua política de proteger a unidade do ‘campo’
liderado por Mitterrand e seu governo burguês.
7. O
caráter do nosso programa de transição
O programa de Transição,
esse programa que a OCI se nega explicitamente a formular, tem uma série de
características essenciais como veremos, sinteticamente, a seguir.
O trotskismo não tem dois
programas, tem somente um. A social–democracia, como a OCI hoje, tinha dois
problemas. Um chamado ‘mínimo’, estava composto por reivindicações reformistas,
quer dizer, aquelas que o regime capitalista podia conceder mais sem por em
perigo sua dominação. O outro programa, ‘máximo’, incluía as palavras-de-ordem
que eram contra a propriedade privada capitalista e colocava diretamente o
problema do poder. A agitação da social-democracia se baseava no programa
mínimo; as palavras-de-ordem contra a propriedade capitalista e pela conquista
do poder ficavam relegadas aos ‘dias de festa’, os discursos no primeiro de
maio, etc.
O trotskismo tem um só programa,
porque as palavras-de-ordem contra a propriedade privada capitalista não são
guardadas para os dias de festa, ao contrário, são suas palavras-de-ordem
fundamentais. Considera que os objetivos que a social-democracia relegava ao
programa máximo – a conquista do poder, a expropriação da burguesia, a
instauração da ditadura do proletariado, são tarefas urgentes, imediatas. A
crise do sistema capitalista, significa, não somente que a burguesia não pode
dar novas concessões, mas que, nem sequer pode manter as existentes, muitas das
quais foram conquistadas à década pelo movimento operário.
Devido a isso, já não existem
palavras–de–ordem máximas e mínimas. Qualquer reivindicação operária, por mais
elementar que seja, é revolucionária porque questiona a propriedade capitalista
e, como conseqüência, o poder político da burguesia. Muitas tarefas que o
movimento operário tinha colocadas para realizadas dentro do sistema capitalista,
devem ser resolvidas pelo socialismo. Por exemplo, o problema do emprego e do
nível de vida: o capitalismo não pode garantir trabalho e uma vida digna para a
imensa maioria da humanidade. Por isso, estas reivindicações requerem a
implantação da escala móvel de horas de trabalho (distribuição do trabalho
existente entre toda a mão-de-obra
disponível) e a escala móvel dos salários (aumento automático dos salários de
acordo com o aumento do custo de vida). Estas tarefas não são reformistas, mas
sim, transicionais, porque só o governo do proletariado pode realizá-las, a
partir da planificação socialista da economia.
Isto não significa que o partido
trotskista não lute por tarefas reformistas: um pequeno aumento de salários, a
expulsão de um capataz abusivo de uma fábrica, etc. Ao contrário, agita continuamente uma
infinidade de palavras-de-ordem como essas, que não vão contra a propriedade
privada capitalista. Mas o método do programa exige que tais palavras-de-ordem
jamais sejam colocadas de forma isolada: expulsão do capataz e ponto. Pelo
contrário, essas palavras-de-ordem são muito úteis para iniciar uma
mobilização, mas buscando que a referida mobilização não se detenha. Por isso,
combinamos a palavra de ordem “reformista” com outras cada vez mais audazes
para que a mobilização não se detenha: da expulsão do capataz à expulsão de
todos os capatazes, logo, do dono da fábrica, à expropriação da mesma, à
imposição do controle operário.
Em síntese, o trotskismo jamais
coloca suas palavras-de-ordem de forma isolada, nem anárquica. Cada
palavra-de-ordem é parte de um sistema, que pode partir de uma tarefa sentida
pelas massas, mas levando sempre ao questionamento de todo o regime.
Voltemos ao exemplo anterior da
Logabax: há demissões, mas os trabalhadores confiam no governo. A OCI coloca,
baseando-se neste último, que a única tarefa é negociar com o governo, nós os trotskistas não estamos contra
negociar; mais ainda, já que os trabalhadores confiam no governo, negar-se a
negociar seria uma política ultra-esquerdista estéril. Mas de forma alguma nos
limitamos a negociar. Nossa política é: “Negociemos com o governo, enquanto
isso, ocupemos a fábrica e imponhamos o controle do Comitê de Empresa e a
distribuição do trabalho disponível entre todos. Aqui há mil operários
trabalhando oito horas diárias. A patronal quer demitir quinhentos. Proponhamos
que continuem trabalhando os mil, quatro horas sem redução de salário”.
Esta é a essência do programa
transicional: o encadeamento dinâmico das palavras-de-ordem, desde as mais
elementares, até as anti-capitalistas, para originar a mobilização permanente
dos trabalhadores contra o sistema e o regime.
8– Os
eixos do Programa de Transição
As características mencionadas
conformam, de conjunto, um aspecto do Programa, mas não o esgotam. Este método
se apoia em três pilares distintos, mas intimamente ligados entre si: o
problema do governo, o das instituições do estado e a superação da crise de
direção revolucionária do proletariado.
Já que o objetivo presente,
imediato do trotskismo é a conquista do poder, nenhum programa pode
considerar–se transicional, se não inclui uma palavra-de-ordem de governo. Nos
referimos a uma palavra-de-ordem concreta, quer dizer, qual é a
superestrutura operária que deve entrar no lugar da superestrutura burguesa e
os passos para conseguir isso. Isto significa levantar palavras-de-ordem tais
como, “o governo do PS e do PC”, que deve ir acompanhada, no caso da França,
com “fora os ministros burgueses”. Na Argentina, para dar outro exemplo,
colocamos “fora o governo militar, convocar imediatamente uma Assembléia
Constituinte com liberdade para os partidos operários”. Na Espanha ou na
Inglaterra diríamos “abaixo a monarquia”, acompanhada da palavra-de-ordem da
assembléia constituinte ou outra adequada.
Diferentemente do problema do
governo, que se baseia nos partidos políticos, o problema do Estado
burguês, se baseia nas instituições: presidência, ministérios, parlamento e a
mais importante de todas são as forças armadas. Frente a esta estrutura de
estado, o trotskismo sempre coloca umaestrutura do tipo soviética, baseada nas
organizações operárias de base.
O terceiro pilar, que constitui o
eixo central do programa, é a superação da crise de direção revolucionária do
proletariado. Isto implica na crítica constante e brutal dos partidos operários
contra–revolucionários, agentes do capital no movimento operário, e às
burocracias sindicais. Simultaneamente à luta por esmagar, varrer, massacrar às
direções traidoras, construímos o partido revolucionário, que só pode ser um
partido trotskista.
Toda a atividade do partido
trotskista se baseia no método e nos eixos mencionados. Em outras palavras,
nunca levantamos uma palavra-de-ordem isoladamente ou um conjunto anárquico de
palavras-de-ordem, mas sim um sistema de palavras-de-ordem que leve à classe
operária as seguintes conclusões: que a solução de todos os problemas, por
mínimos que sejam, exige a insurreição contra o governo burguês e a conquista
do poder pelo proletariado; que isso exige a construção de uma direção
revolucionária, derrotando os partidos operários traidores.
9– O reformismo da OCI
Por tudo isso dizemos que a
política da OCI é absolutamente reformista, ao serviço do campo de Mitterrand.
Em primeiro lugar, todas as palavras–de–ordem
e as tarefas que coloca são as mesmas do governo burguês, com a inclusão de
alguns lemas extraídos do Programa de Transição, que aparecem na sua
imprensa colocados de forma abstrata e por motivos puramente rituais.
Em segundo lugar, ao não estar
ligadas às reivindicações transicionais e ao problema do poder, não constituem
um programa, mas sim uma soma de palavras-de-ordem anárquicas, sem
hierarquização nem vinculação entre si. Ou seja, são todas palavras-de-ordem mínimas,
que não questionam a propriedade privada capitalista, nem o poder burguês, por
mais que algumas delas tenham sido extraídas textualmente do Programa de
Transição.
Finalmente, como é demostrando no
exemplo da Logabax (e muitos outros exemplos que não citamos para não nos estendermos
muito), o método da OCI não é a mobilização, mas sim a negociação. Insistimos
que os trotskistas não se opõem à negociação. Mas para nós o fundamental é a
mobilização das massas, e nesse marco negociamos com a patronal ou o governo do
momento e nos termos que a correlação de forças nos obriga a isso. Para a OCI e
todos os reformistas, em troca, o fundamental é a negociação, e nesse marco às
ilusões das massas pode obrigá-los a chamar uma que outra vez à mobilização.
Como síntese de toda a sua política
oportunista-revisionista, a OCI não tem uma política de superar a crise de
direção revolucionária do proletariado francês. Junto ao Projeto de informe
político aparece uma “Resolução sobre os partidos dos 10.000”. Nela não
aparece nenhuma menção do PS nem do PCF e da necessidade de combatê-los. Por
outro lado, se antes das eleições tinha na sua imprensa uma campanha
sistematica contra o PCF e outra, não tão brutal, contra o PS, agora os ataques
contra os stalinistas se suavizaram e os ataques aos social-democratas
desapareceram completamente.
Por isso, a construção do
“partido dos 10.000” é uma frase ritual a mais. Toda a política da OCI conspira
diretamente contra a construção do partido trotskista revolucionário.
Capítulo IX
UM
PROGRAMA OPORTUNISTA FRENTE
AS
NECESSIDADES MÍNIMAS DAS MASSAS
Dizíamos em nossa Carta ao CC do
POSI que uma das características fundamentais do bolchevismo e do trotskismo e,
ao mesmo tempo um aspecto fundamental do método do Programa de Transição,
é a agitação constante de palavras de ordem que mobilizem o proletariado a
partir de suas necessidades mais sentidas. Ainda que possamos parecer
repetitivos, convém nos deter nessa questão, insuficientemente desenvolvida na
Carta.
O Programa de Transição coloca
que nossa “tarefa consiste na mobilização sistemática das massas para a
revolução proletária”. (p.12)
O conceito de mobilização
sistemática se repete em cada uma das tarefas enumeradas pelo programa:
“O desemprego e a carestia de
vida exigem bandeiras e métodos de luta generalizados... “.(idem).
“Contra a carestia de vida só é
possível lutar com uma bandeira: a escala móvel de salários”(idem).
“A luta contra o
desemprego é inconcebível sem o chamado a uma ampla e audaciosa organização de
obras públicas” (op. cit.,p.18).
E, em síntese: “A ‘possibilidade’
ou ‘impossibilidade’ de realizar as reivindicações é, no presente caso, uma
questão de relação de forças que só pode ser resolvida pela luta”. (op.
cit., p.13).
Pois bem, a OCI se opõe a este
conceito de mobilização com um argumento bastante sofisticado, no qual convém
deter-se. Vejamos a forma como está colocada no Projeto de Informe Político,
por meio de um exemplo.
Entre as empresas que o governo
pensa nacionalizar está a Thomson-Brandt, grande multinacional da indústria
elétrica e eletrônica, que produz desde eletrodomésticos até aparatos de radar
e computadores. Na empresa explode um conflito quando o governo anuncia que só
nacionalizará a casa central, não suas inúmeras filiais e subsidiárias. Isto
implica uma reestruturação da empresa, com um grande número de demissões.
A célula local da OCI publica um
panfleto dizendo: “não às demissões, anulação do novo plano de reestruturação
do grupo Thomson-Brandt, pagamento integral dos dias não-trabalhados, emprego
para os temporários, indexação dos salários conforme a alta do custo de vida”
(citado pelo Projeto... p.6).
Lambert comenta: “A linha
política desse panfleto é diretamente oposta à linha deste informe
(op.cit.,p.6). Por que?
“Todas as palavras de ordem (as enumeradas
mais acima) (...) estão totalmente separadas ‘ao estilo stalinista’, como
bandeiras ‘econômicas’, da bandeira política de nacionalização sem indenização
nem direito de reaquisição, ausente dessa enumeração. Em outras palavras, nosso
camarada convida os trabalhadores a lançar-se à ‘luta, a luta’ por
reivindicações ‘econômicas’ que, ao estar ausente a bandeira de nacionalização,
implicam que esvaziamos o conteúdo transitório – político – dessas
reivindicações que, por outro lado, aparecem desordenadas ao trabalhador;
devido ao caráter de algumas dessas reivindicações, essa desordem implica que
de fato se propõe aos trabalhadores a luta... pela greve geral ‘reivindicativa’
” (op. cit., p.6).
Vamos desarmar essa armadilha
para inocentes. Aqui se está dizendo que é incorreto colocar a bandeira “contra
as demissões” sem uni-la à de nacionalização sem pagamento, (isto, diga-se de
passagem, é o oposto ao que se propõe em Logabax, onde a OCI não coloca
a nacionalização porque os operários confiam no governo; por acaso os operários
da Thomson-Brandt não confiam no governo?). Mas aqui se diz algo mais.
Já que os trabalhadores levantam bandeiras “econômicas”, puramente
‘reivindicativas’ e não levantam a bandeira transicional de nacionalização sem
pagamento... não se deve chamá-los à luta!
Esta é uma tergiversação
repugnante do Programa de Transição e seu método. Os trotskistas
impulsionam todas as lutas dos trabalhadores, por mais “reivindicativas” que
sejam, e no curso das mesmas buscamos dar-lhe um conteúdo transicional, através
da mobilização permanente. Concretamente, no caso da Thomson, a OCI diz: “É um
erro impulsionar esta luta porque os trabalhadores não estão se mobilizando
pela nacionalização sem pagamento da empresa”.
Nós, trotskistas, dizemos: “Vamos
à greve contra as demissões e a reestruturação. Para que haja demissões,
nacionalização sem pagamento da Thomson, com controle operário para impor nossa
reestruturação, de acordo com nossos interesses e não os da
patronal”.
A diferença entre a OCI e os trotskistas
é a diferença entre não mobilizar baseando-se em um argumento
ultra-revolucionário (na realidade, profundamente reformista por sua
conseqüências), e elevar uma luta “econômica” ao nível político, colocando
bandeiras transicionais na própria mobilização.
Toda luta operária parte dessas
reivindicações que o Projeto chama com tanto desprezo “econômicas”.
Elevá-la ao nível “político” mediante bandeiras trancionais é a tarefa nossa,
dos trotskistas. Abandonar a luta pelas reivindicações econômicas, que é a
política da OCI, é abandonar toda luta. Isto a OCI o sabe muito bem, sua
atitude de desprezar ‘a luta, a luta” esconde, atrás de um argumento
ultra-esquerdista, a abjeta política reformista de não mobilizar as massas.
Ao longo deste capítulo, veremos
como o desprezo pela “a luta, a luta” se traduz na militância prática da
OCI.
1. A
situação do proletariado francês
Comecemos por conhecer um pouco a
situação do proletariado e das massas trabalhadoras franceses sob o atual
governo. No início do mandato de Mitterrand tivemos o seguinte quadro: aumento
da tarifa de gás em 22% e da luz em 15%; aumento do preço da gasolina em seis
cêntimos o litro; aumento dos aluguéis das moradias entre 10 e 13%; aumento das
tarifas de transporte público de passageiros em 14%. Por outro lado, o aumento
do salário mínimo é de 10%, e existem 1.800.000 desempregados, além de uma
cifra indeterminada de subempregados, trabalhadores que só encontram trabalhos
temporários. (Todos os dados são de Le Monde, 1,2,7,10 e 18 de julho de
1981).
Seis meses depois, a situação é
muito pior. Segundo Informations Ouvrieres nº 1025, “passou a margem dos
dois milhões de desempregados (...), cifra oficial à qual se devem acrescentar
as centenas e centenas de jovens em busca de seu primeiro emprego, que não são
computados como desempregados”. Além do mais, “o desemprego continua
aumentando”.
Uma “Declaração aprovada pelo
Comitê Central da OCI”, publicada em IO 1030, sintetiza tudo:
“Os salários estão congelados, os
preços continuam subindo, os aluguéis se tornam uma carga cada vez mais pesada
– tão pesada que cresce o número de desempregados que não podem pagá-los -; as
condições de trabalho, longe de melhorar, se tornam tão intoleráveis que, em
uma agência dos correios, os trabalhadores protestaram contra o ‘local giscardiano’
em que são obrigados a trabalhar, ou seja, contra o fato de sofrer as mesmas
condições de trabalho que sob Giscard. Sem falar do aumento do ritmo de
trabalho (...) Sem falar da negativa obstinada de reclassificar os operários
semi-especializados da Renault (...) Sem falar do aumento nas cotizações ao
seguro social. Sem falar das incríveis manobras mediante as quais se busca
fazer pagar a redução da jornada de trabalho mediante o trabalho sabatino (aos
sábados) e inclusive a redução de salários. Sem esquecer a cifra oficial de
dois milhões de desempregados e as sombrias previsões para 1982”.
Temos, então, um panorama
extraordinariamente sombrio, que já gerou várias lutas de importância dos
trabalhadores franceses, como na Renault e outras empresas, como veremos mais
adiante.
2. A
OCI não luta contra a miséria do proletariado francês
O Programa de Transição,
como vimos, coloca a necessidade de lutar contra estas pragas do capitalismo. E
propõe uma série de medidas de luta concretas:
Contra o aumento de preços e a
queda do salário real: “... a escala móvel de salários. Isto significa que os
contratos coletivos de trabalho devem assegurar o aumento automático dos
salários correlativamente com a elevação do preços dos artigos de
consumo”(p.12).
Contra o desemprego: “... chegou
o momento de lançar, junto com a exigência de obras públicas, a bandeira de
escala móvel de trabalho”(p.13).
Estas palavra de ordem devem
fazer parte de “um plano geral, traçado para um período de vários anos (...) do
ponto de vista dos interesses dos trabalhadores, e não dos exploradores’
(p.18).
Aqui temos, pode-se dizer, o
método do Programa, em todo o seu esplendor: desde as reivindicações
mais elementares, contra o desemprego e a queda do salário real, até a
elaboração de um plano econômico operário.
A OCI não tem um plano para lutar
contra a miséria do proletariado: se limita a denunciá-la. Quando
dizemos plano, nos referimos a uma campanha de agitação sistemática, com
“bandeiras e métodos de luta generalizados” como diz o Programa de Transição
(p.12). Aqui e ali aparecem bandeiras: aumento de salários e pensões em relação
ao custo de vida em IO 1005; congelamento de preços em IO 1014; escala móvel de
horas de trabalho no nº 1020. A citada “Declaração do CC” (IO nº 1030) traz uma
lista de palavras de ordem, que citamos a seguir, intercalando alguns
comentários: “Por um verdadeiro controle de preços (aplicado por quem? Não se
diz); por um aumento geral de salários em relação ao aumento de preços; pela
redução do horário de trabalho sem contrapartida e respeitando a legislação de
1936; pela medida de urgência de dar trabalho obrigatoriamente aos
desempregados (e por que não se levanta a bandeira de ‘plano de obras
públicas’? Respondemos: porque seria uma exigência a formular ao governo, coisa
que a OCI evita por todos os meios); pela satisfação das reivindicações dos
trabalhadores imigrantes (quais são essas reivindicações? Quem deve
satisfazê-las e como o obrigamos que as satisfaça?); pela nacionalização sem
indenização nem direito a reaquisição dos grandes grupos capitalistas (e o
controle operário? Sem isto, ‘nacionalização’ significa para os trabalhadores
uma mera mudança de patrão); por um plano de produção que não responda às necessidades
da lei do lucro nem as exigências dos capitalistas, mas sim às necessidades dos
trabalhadores”(IO 1030).
Se esta última palavra de ordem é
o “plano geral traçado para um período de vários anos” mencionado pelo Programa
de Transição, onde estão os “métodos de luta” para impô-lo? Respondemos:
não estão em IO, nem no Projeto de informe político, nem na
“Declaração do CC”. E acrescentamos: não
é por acaso, porque toda mobilização, em última instância, se dirigirá contra
o governo de Mitterrand, chefe do campo “progressivo”.
Isto Stephane Just não explica
com clareza no documento do Burô Político que também será discutido no XXVI
Congresso da OCI:
“Neste momento, devemos expressar
o que as massas esperam do governo, o que não significa que todas as
reivindicações devem ser dirigidas ao governo: a regra geral é que devemos
dirigi-las à patronal, e não obrigatoriamente em termos de ação imediata”
(La Lettre d’Informations Ouvrieres, nº 11).
Aqui está a justificativa teórica
da negativa da OCI em mobilizar: as aspirações das massas estão depositadas no
governo, e a conclusão implícita disso é que se mobilização contra o governo
quando essas aspirações forem traídas. A tarefa (ou “regra geral”) da OCI é
desviar as reivindicações em direção à patronal; quando se dirigem contra o
governo, a OCI as formulará (como na “Declaração do CC”) mas não em “termos de
ação imediata”, daí a ausência de métodos de luta em tal declaração e em toda a
literatura da OCI.
Quando se diz que nem todas as
reivindicações devem ser formuladas em termos de ação imediata, poderíamos
estar de acordo com Just, mas com duas condições. A primeira é que se
especifiquem as bandeiras que não são para a ação imediata: por exemplo,
“quando tenhamos a força suficiente derrubaremos o governo burguês de
Mitterrad”, ou inclusive “fora os ministros burgueses”. As massas não se
mobilização por essas tarefas enquanto confiem no governo. Mas em uma situação
como a que vive o proletariado francês, “aumento de salários” ou as bandeiras
para pôr fim ao desemprego sim são “para a ação imediata”, porque se trata de
problemas de vida ou morte.
A segunda condição é que se
esclareça que “agitação” e “ação imediata” não são sinônimos. Se a classe
operária confia no governo, as bandeiras que se referem ao caráter burguês do mesmo e a necessidade de derrubá-lo
evidentemente não são para a ação imediata. Mas isto não significa que não as
agitemos. Pelo contrário: aplicamos a famosa frase de Lenin de “explicar
pacientemente”, que para nós significa de maneira constante e pedagógica.
Para Just, no entanto, se
determinada bandeira não é “para a ação imediata”, então não deve ser
levantada, nem agitada, e só colocada de vez enquanto, nos dias de festa,
de forma abstrata.
As bandeiras enumeradas na
“Declaração do CC” são todas para a ação imediata, vista a situação em
que se encontram as massas da França. No entanto, a OCI não menciona nenhuma
medida de luta, porque todas essas reivindicações se dirigem contra o governo,
e isso vai contra a “regra geral” de Just. Por isso reafirmamos o que foi dito
acima: a OCI denuncia os problemas das massas francesas mas não os
combate.
Vejamos alguns desses problemas
mais de perto.
3. O
desemprego
Quando o primeiro-ministro Mauroy
pronunciou seu discurso programático diante da Assembléia Nacional, no dia 8 de
julho, havia na França um milhão e oitocentos mil desempregados; essa cifra já
superou os dois milhões. Mauroy apresentou o seguinte plano, batizado “guerra
contra o desemprego” (guerre au chômage):
“O governo vai propor em dezembro
a aprovação de um plano de dois anos (...) que organizará a luta implacável
contra o desemprego. Permitirá iniciar uma transformação profunda em nossa
sociedade em 1984. Então, será apresentado um plano qüinqüenal mais ambicioso”(Le
Monde, 10/7/81). E em outra momento do discurso, diz que o objetivo do
primeiro plano é a criação de 200.000 postos de trabalho para final de 1984.
A OCI não só não propõe nenhuma
medida de luta concreta contra o desemprego, como, no comentário sobre o
discurso de Mauroy diz: “Nenhum trabalhador pode deixar de apoiar o
princípios desses planos”.
O que é isso senão uma
brincadeira de mau gosto? O trabalhador desempregado sabe que, segundo o plano
de Mauroy, para 1984 haverá trabalho para 10% dos desempregados atuais (quem
sabe quantos serão na época), e que depois haverá um plano de cinco anos.
Portanto, terá que esperar sete anos para ser se os planos burgueses podem
eliminar o problema do desemprego. E a OCI diz que há que apoiar esse plano! E
vai além, como demonstra o exemplo de Logabax, dever ser paciente e dar ao
governo o tempo que necessita para implementar o plano.
O problema se agrava com a
existência dos “intérimaires”, trabalhadores que conseguem empregos temporários
por meio de agências de emprego. Este é um dos setores mais explorados da
classe trabalhadora, já que a instabilidade no trabalho o torna particularmente
vulnerável aos ataques patronais.
A OCI atribui – corretamente –
grande importância a esta questão. Mas quando se trata de passar das denúncias
às propostas para a ação, o único que propõe é a realização de um congresso de
trabalhadores temporários para eleger uma delegação que entregue um abaixo
assinado ao ministério do trabalho.
Pois bem, a delegação foi formada
e foi ao ministério. O resultado da entrevista, publicado em IO nº 1029
é uma ode à impotência: o funcionário que recebeu a delegação fez algumas
promessas vagas, mas quando perguntaram a ele por que não se aplica a promessa
eleitoral do PS, de obrigar as agências a pagar o trabalhador temporário um
salário no intervalo entre um emprego e outro, na perspectiva de abolir o
trabalho temporário, respondeu: “Não resolvemos isso, porque provocaria o
desaparecimento imediato das empressas de trabalho temporário. Não queremos
isso. Sem dúvida, chegaremos a esse resultado, mas não imediatamente”.
Acrescentou que o governo formularia um
plano de três anos para pôs fim ao trabalho temporário.
A delegação se retirou chorando:
“Sendo assim, o governo se orienta de fato para uma lei que manterá o trabalho
temporário durante três anos, pelo menos... Como isso se concilia com os
interesses da democracia e com o dos mais afetados, os superexplorados
trabalhadores temporários?”
Ponto, fim do artigo. O que
esperavam? Achavam que uma delegação ao ministério do trabalho, sem estar
acompanhada de nenhuma medida de luta, resolveria o problema?
Aplicando o método do Programa
de Transição, o problema do desemprego (incluindo os temporários), teríamos
um programa como este:
“Companheiros trabalhadores, há
em nosso país mais de dois milhões de desempregados, cifra que aumenta
constantemente e não inclui os temporários nem os jovens que buscam seu
primeiro emprego. O governo nos pede um tempo de sete anos para resolver o
problema. O plano do governo contempla somente os interesses dos patrões, é uma
burla a nossas aspirações e às razões pelas quais o elegemos. Vamos repudiá-lo!
“Que os comitês de empresa
convoquem um congresso de delegados para elaborar um plano econômico que
contemple o trabalho para todos e aprove as medidas de luta necessárias para
impô-lo. Nesse congresso, a OCI proporá as seguintes medidas de emergência:
- Aumento
imediato dos impostos sobre os lucros do patrões.
- Anulação
do orçamento de defesa.
- Que
se utilize esse dinheiro para um plano de obras públicas que garanta trabalho
para todos os desempregados, com salários fixos pelos sindicatos.
- Reintegração
dos despedidos a seus antigos postos de trabalho.
- Que
se ponha à disposição do congresso de delegados os livros de contabilidade das
empresas em processo de demitir trabalhadores ou de fechar as portas. Uma
comissão nomeada pelo congresso estudará esses livros e, em base a seuinforme,
o congresso decidirá: as empresas que possam reintegrar os demitidos serão
obrigadas a fazê-lo; as que não possam serão expropriadas imediatamente, sem
indenização e sob controle dos trabalhadores das mesmas.
- As
agências de emprego temporário serão fechadas e postas fora da lei.
- A
OCI alerta: a patronal e o governo não podem aceitar este plano, porque o mesmo
se baseia em nossas necessidades, não nos lucros dos patrões; é um plano oposto
ao de Mauroy. Isto exige que o congresso adote as medidas de luta necessárias.
Estamos convencidos de que só venceremos a patronal e o governo mediante uma
greve geral com ocupação de fábrica, e propomos que comecemos desde já a
prepará-la, com a criação de comitês de greve por fábrica e um comitê de greve
nacional”.
Este programa é só um exemplo,
que deve ser melhor adequado à situação concreta. Só queremos assinalar que a
OCI não levanta nenhum programa transicional desse gênero. Se contenta com a
medida ultramínima de exigir ao governo que cumpra com seu miserável plano
burguês e suas promessas eleitorais, e a chorar quando o governo diz que não
pode fazê-lo. Em síntese, a OCI renunciou a lutar contra o desemprego, porque
renunciou a lutar contra a burguesia e o governo de Mitterrand.
4. O
apoio às nacionalizações do governo
Dizíamos em nossa carta ao CC do
POSI que a OCI(u) apoia o plano de Mauroy, de nacionalizar uma série de
empresas em crise.
A OCI respondeu parcialmente a
nossa crítica, dizendo que distorcemos o editorial de IO ao não citar,
entre outras, as seguintes frases:
“Este exemplo é significativo em
outro sentido. É correto ‘reembolsar’ ou ‘indenizar’ a Agache-Willot? Quantos
milhões de francos beneficiaram os grandes grupos da siderurgia e as indústrias
elétrica, eletrônica e química? (Bulletin nº 1, p. 31).
Com
isto querem demonstrar que nós distorcemos a linha do editorial: “Nesse
editorial se ressalta claramente, em oposição ao plano de nacionalizações do
governo, a reivindicação de ‘nada de indenizações’, a requisição de toda
empresa que demite etc”. (op.cit., p.31).
Então,
vamos citar nossa Carta ao CC do POSI, e ver que distorce:
“Ao
invés de fazer invocações à supressão e à coletivização da propriedade privada,
e portanto ‘estar a favor... das nacionalizações’ que o governo Mitterrand vai
fazer, no Programa de Transição se diz que é preciso ‘prevenir as massas contra
os charlatães da Frente Popular’, já que são ‘agentes do capital’, e só confiar
na ‘força revolucionária’, ou seja, não confiar no governo dos charlatães.
Trotsky teria dito que Mauroy é um charlatão a serviço do capitalismo, que não
se pode confiar nele e só na força revolucionária das massas, que é preciso
expropriar sem pagamento e lutar já pela “tomada do poder pelos operários e
camponeses”.
“O programa da OCI(u) se transforma em um programa mínimo, que
‘está a favor de uma medida ultraburguesa, que não soluciona absolutamente
nenhum problema e que não ataca em absoluto a burguesia. E paralelamente, há
uma ou outra diferença no jornal, muito, muito excepcional, através de
perguntas algumas vezes e outras em forma implícita, à conveniência de não
pagar aos burgueses que sejam expropriados. Mas a linha positiva, editorial,
foi o apoio a priori, o plano de nacionalização do governo’.
Cremos que nossa crítica foi
perfeitamente clara e não distorce em nada o editorial e a linha da OCI. Nós
dizemos que sua política é a de apoiar o plano de Mauroy, porque se diz
que todo avanço nesse sentido (da aplicação do plano de nacionalizações) “só
pode ser positivo”, e que se deve estar “a favor, a priori, da nacionalização”.
E ritualmente, de quando em
quando, se diz que o ideal seria que não se indenizasse os capitalistas
expropriados. Justamente o mesmo que dizem Pablo, o PC e todos os reformistas
que existem no mundo! Que as nacionalizações do governo burguês são
progressivas, que devemos apoiá-las. E aproveitamos para dizer ao governo que
seria melhor não indenizar os capitalistas.
Se Lambert e Just dizem que os
distorcemos, então que nos digam onde está dito em IO ou em qualquer dos
materiais da OCI(u): “O plano Mauroy é um plano burguês que consiste em
nacionalizar empresas em crise e indenizar seus donos com o dinheiro que obtêm
explorando os trabalhadores. Com esse plano, Mauroy e Mitterrand se mostram
como o que são, servos abjetos dos capitalistas. A nacionalização que nós
queremos é a expropriação sem pagamento e sob controle operário de todas as
empresas capitalistas e a imposição do controle operário das já nacionalizadas.
Essa é a única ‘nacionalização’ a favor dos trabalhadores, e que só pode ser
alcançada por um governo dos operários e dos camponeses. Por isso, recusamos
o plano Mauroy.
Que Lambert e Just nos mostrem
onde se faz uma campanha sistemática e brutal com a bandeira “Abaixo o
plano burguês de Mauroy; pela nacionalização sem pagamento”.
Nós não a encontramos. O único
que encontramos foi, como dissemos, a aprovação do plano Mauroy “por princípio”
e “a priori”, e a sugestão tímida de não indenizar. Por isso dizemos que
Lambert e Just são charlatães a serviço de Mauroy, que por sua vez é um
charlatão a serviço do capital.
5. A
Educação
O problema do ensino público
adquiriu grande importância ultimamente, devido ao fechamento, sob Giscard, de
milhares de escolas públicas. Isto obriga a muitas famílias trabalhadoras a
enviar seus filhos à escola católica paga. O problema então está no que
significa o ensino católico como difusão de uma ideologia super-reacionária,
além da redução dos ingressos do trabalhador.
Esta situação exige do partido
trotskista uma política pela reabertura imediata das escolas fechadas, e frente
à resposta inevitável do governo, de que “não há fundos para isso”, a
reivindicação de que se aumente o orçamento para o ensino às custas, por
exemplo, o orçamento militar.
Esse é um aspecto do problema. O
outro é que o ensino é um fato social e que todo o sistema educativo deve estar
em mãos da sociedade, não nas mãos caprichosas de qualquer grupo capaz de
autofinanciar-se, como a Igreja.
A campanha da OCI, que se
expressa permanentemente em todas as edições do jornal, do nº 1000 ao 1020,
está sintetizada na bandeira “fundos públicos para a escola pública, fundos
privados para a escola privada”. A partir do número 1021, e como se fosse uma
resposta a esta nossa crítica feita na carta ao Comitê Central do POSI, esta
reivindicação aparece ligeiramente modificada: “só uma escola deve ser
financiada pelos contribuintes: a escola pública aberta a todas as crianças”.
(IO 1025).
Isto não altera nada: a OCI faz
campanha em torno da velha reivindicação dos maçons, os liberais e os
socialistas burgueses: que o Estado deve dar fundos unicamente para a escola
pública, mas a escola privada e confessional tem direito a coexistir com ela
sempre que possa autofinanciar-se. Mais adiante nos referiremos a este aspecto
do problema e suas implicações profundamente reacionárias. Agora vamos ver o
que se diz em IO sobre a reforma do ensino:
“Quem melhor que os professores,
pais de alunos e jovens para definir em que sentido se deve reformar a escola,
expressar as necessidades e propor medidas? Para quebrar a resistência dos
capitalistas, não haveria que apoiar-se nos professores, pais e jovens e
mobilizá-los?” (IO 1018). Esta é uma posição liberal burguesa, que esquece o
fato de que os “pais e jovens” se dividem em burgueses, pequeno-burgueses e
proletários. A posição trotskista, de classe, é a expropriação das escolas privadas
e a estatização de todo o sistema educativo, sob controle do movimento
operário, e com um programa de estudos único, elaborado pelos profissionais de
ensino e sujeito à aprovação também pelas organizações operárias. Junto com
isso, exigimos uma série de garantias para os estudantes: um salário que os
livre de toda obrigação que não seja a de estudar; direito à educação superior
para todos os jovens; direito ao trabalho ao concluir os estudos.
Pois bem, nós já havíamos
formulado esta crítica em nossa Carta ao CC do POSI, e a OCI nos respondeu. Em
IO 1028 critica o “curioso método de discussão de Moreno, já que no citado
artigo de IO 1018, a continuação das frases citadas por nós (e que são as
mesmas que aparecem um pouco mais acima), se diz:
“Não haveria que convocar uma
conferência nacional de delegados de professores e pais, com as organizações
operárias, preparada em todos os municípios da França, para discutir como se
organiza a nacionalização laica do ensino e as medidas a tomar para garantir o
direito real aos estudos e à formação profissional para todos?”
Em nossa Carta ao CC do POSI
dizíamos: “Estamos nos referindo não à simples menção, em dois ou três frases
perdidas em alguns jornais, das tarefas mais elementares, mas à campanha e
agitação permanente e sistemática, em todos os jornais, das
bandeiras...”
Este é justamente o caso: só
encontramos o chamado a uma conferência nacional de pais e professores com as
organizações operárias em duas edições do jornal, um suplemento especial sobre
o ensino no nº 1017 e a citação do nº 1018. Portanto, nossa crítica é válida;
tratasse efetivamente de “duas ou três frases perdidas em alguns jornais”, de
forma alguma uma campanha tal como a entendemos os trotskistas. Trata-se
da repetição ritual de algumas frases do léxico trotskista, nada mais.
Em torno do problema do ensino, a
OCI realiza duas campanhas sistemáticas. Uma é a de “fundos públicos para a
escola pública”; a outra, sobre a universidade, se refere à anulação de certas
leis giscardianas. A ambas nos referiremos mais adiante, quando vejamos o que a
OCI faz, não o que deixa de fazer.
De qualquer maneira, discordamos
com o chamado à conferência nacional feito nesses termos. As organizações
operárias aparecem ali como um participante a mais, junto com os pais (sem
diferenciação de classe) e os professores. Nós achamos, como dissemos mais
acima, que as organizações operárias são as que devem controlar e dirigir a tal
conferência e ter o voto definitivo sobre qualquer plano ou programa que ali se
elabore.
Segundo, a “nacionalização laica
do ensino” se contrapõe por completo à bandeira sobre o destino dos fundos
públicos e privados, que reconhece o direito à existência da escola
confessional. A bandeira que se agita sistematicamente é esta última.
Terceiro, a conferência deveria
resolver sobre as “medidas a tomar para garantir” etc, etc. Por que a OCI
oculta as medidas que, a seu ver, deveriam ser tomadas? Um partido trotskista
diria: “A conferência deverá discutir as medidas a tomar. Nós proporemos as
seguintes, para que o movimento operário e os trabalhadores da educação comecem
a discuti-las...
“Finalmente, as críticas da OCI a
nossa Carta ao CC do POSI começaram a aparecer meses antes que a versão
francesa de tal carta. Por isso, os leitores franceses não sabiam que nós
criticamos a falta de uma campanha conseqüente, não tal ou qual frase
isolada. “Curioso método de discussão” é o seu, senhores da OCI!
6. Os
trabalhadores imigrantes
Dedicamos um capítulo aparte aos
imigrantes porque são aproximadamente a quarta parte dos trabalhadores manuais
na França, e seu setor mais explorado. Os problemas que afetam a todos os
trabalhadores – salários, custo de vida, desemprego, moradia etc – estão
exacerbados ao máximo no caso dos imigrantes por causa da discriminação racial.
Além do mais, eles são proibidos de organizar-se sindicalmente e participar na
vida política do país. Os que se encontram em pior situação são os
indocumentados (“sans-papiers”): são aproximadamente 300.000, de acordo com
cifras recentes, e estão sujeitos à expulsão imediata do país.
Em 26 de maio, pouco depois de
assumir o novo governo, o ministro do interior suspendeu as expulsões de
imigrantes, à espera das novas leis que regulamentem sua situação. A OCI
aplaudiu a medida: em IO nº 1002 se diz que a suspensão “é um importante
primeiro passo na satisfação das reivindicações dos trabalhadores
imigrantes depois da saída de Giscard-Bonnet-Soléru. Em segundo lugar, indica
o caminho a seguir para desmantelar o aparato repressivo aperfeiçoado por
Giscard-Poniatowsky-Peyrefitte (...) A medida de suspensão provisória, à
espera do debate na Assembléia nacional, parou essa máquina que perturbava suas
vidas em nome das leis giscardianas”.
Segundo a OCI, então, os
trabalhadores imigrantes não devem desconfiar do governo burguês,
social-chovinista, nem organizar-se para lutar por seus direitos. Para que, se
o governo satisfaz suas reivindicações? Mas vejamos como foi o “debate na
Assembléia Nacional” e as “novas leis”.
Segundo IO 1020, as leis
apresentadas para regularizar a situação dos imigrantes “estão longe de
responder as necessidades de igualdade e justiça reclamadas por eles”. De fato,
os que desejem beneficiar-se com as novas leis devem ter 20 anos de residência
no país e “apresentar provas irrefutáveis disso”. Aprovou-se, ademais, um
projeto apresentado pelo senador socialista M. Roujas, que suprime o direito
das organizações de imigrantes com mais de cinco anos de existência a “lutar
contra a discriminação” e a exercer “diante da justiça os direitos reservados à
parte civil”.
IO nº 1025 se refere novamente a
este problema, quando informa que trabalhadores imigrantes de nove empresas da
região parisiense se declararam em greve e ocuparam as fábricas devido a um
novo decreto: os indocumentados têm prazo até fim deste ano para apresentar
diante das autoridades um contrato ou pelo menos uma promessa de trabalho; quem
não pode apresentar será expulso. Os ocupantes das fábricas foram expulsos
“brutalmente pela força conjunta de uma milícia patronal e a polícia”. O mesmo
IO denuncia que se trata de “um verdadeiro engano, porque a regularização de
sua situação de ‘indocumentados’ depende unicamente da boa vontade dos
patrões”.
Que se propõe para remediar a
situação: “Os militantes da OCI unificada submetem à discussão (dos imigrantes
afetados) a proposta de formar uma delegação das empresas afetadas que vá ao
ministério exigir a retirada das forças policiais, a expulsão das milícias
patronais, a regularização imediata e incondicional da situação dos
indocumentados e a intervenção do governo para obrigar os patrões a dar a cada
trabalhador empregado um contrato de trabalho conforme a lei”.
Em resumo, o governo deu “um
importante primeiro passo” para a satisfação das reivindicações, e por isso a
OCI chamou os imigrantes a confiar nele. Depois esse “primeiro passo” se
converteu em uma patada nos direitos dos imigrantes, e a OCI continua chamando-os
a confiar: a única medidaque propõe é que se forme uma delegação para ir ao
ministério. E em IO nº 1030 declara seu apoio a uma manifestação convocada para
o dia 12 de dezembro pela Maison des travailleurs inmigrés.
Nós não estamos contra a
delegação ao ministério. Mas essa não pode ser a única medida, sobre todos os
trabalhadores que estão em luta. As formas de negociar são importantes, mas o
fundamental são as medidas de luta. Se os trabalhadores imigrantes de
nove empresas estão em greve dirigidos por uma “coordenadora de
indocumentados”, há certas tarefas que se colocam de maneira quase automática,
para estender a luta e garantir sua vitória: que a “coordenadora” estenda seu
raio de ação até abarcar a todos os imigrantes, indocumentados e
documentados. Assim, o que nasceu como um pequeno organismo ad hoc,
pode converter-se em uma poderosa organização única de todos os imigrantes da
França, e com uma direção independente da burocracia sindical, odiada pelos
imigrantes com justa razão por seu racismo.
Esta organização poderia dirigir
a luta por todos os direitos dos imigrantes (direitos que até agora a OCI não
se dignou sequer a mencionar). Por exemplo, na campanha eleitoral o PS lhes
havia prometido o direito de voto. Quando chegou ao governo, anunciou que só
poderiam votar a nível municipal. E terminou negando-lhes esse miserável
direito. Poderia lutar por seus direitos a obter os mesmos salários que os
operários franceses. Poderia lutar por seus direitos nacionais: ter escolas
bilingües e conservar seus idiomas, costumes e cultura.
Tudo isso poderia fazer, se
existisse um partido revolucionário que o propusesse. A OCI não é esse partido.
Seus escassos artigos sobre os trabalhadores imigrantes se limitam a apoiar
suas lutas sem oferecer-lhes nenhuma perspectiva revolucionária. Pelo
contrário, o único que propõe é uma delegação ao ministério, ou seja, em última
instância, a que confiem em que o governo que decretou a expulsão resolverá
seus problemas.
7. O
problema de classe nesta discussão
Estas deficiências da OCI(u) e de
Lambert com respeito aos trabalhadores imigrantes ( que, por outro lado, não
são sequer mencionados no Projeto de informe político) não obedecem a um
esquecimento casual. Detrás do revisionismo de Lambert e de sua adaptação à
social-democracia há um problema de classe.
A OCI (u) é uma organização
formada por setores da aristocracia operária e trabalhadores de “colarinho
branco”. É um partido de 5.000 militantes, dos quais entre 500 e 1.000 são
professores e profissionais. No entanto, em uma fábrica como a Renault tem uma
célula de somente dois militantes (até pouco tempo eram três, mas um foi
expulso por apoiar nossas críticas neste debate). Por isso, não é casual sua
frente única com Bergeron e Force Ouvriere, que é justamente a organização
sindical dos trabalhadores de colarinho branco.
No terreno organizativo, a OCI
(u) também se adapta à social-democracia e os estratos assalariados
privilegiados. Dirigida por Lambet, a OCI abandonou a organização do partido
por empresa, categoria ou sindicato em favor da organização de bairro, como o
PS.
Tanto por sua política como por
sua organização, a OCI(u) se afasta cada vez mais do setor social ao qual
deveria dirigir-se como base de sua militância e direção: o proletariado
industrial e seu setor mais explorado, os trabalhadores imigrantes. O escasso
trabalho que realiza nesse meio, pelo que IO reflete, não tem como centro as
fábricas, mas os foyers, ou seja, os lugares de residência.
Não é trotskista o partido
francês que não se oriente para os operários industriais e os trabalhadores
negros, árabes, antilhanos, mediterrâneos e as mulheres trabalhadoras. Só esse
setores, os mais explorados, podem ser trotskistas conseqüentes porque são
anticapitalistas e anti-imperialistas. Os setores aos quais a OCI(u) se dirige
são “anticapitalistas” em um sentido estreito, já que jamais denunciam nem se
mobilizam contra o imperialismo francês, a máxima expressão do capitalismo.
Por isso, não há direção
trotskista na França se não for uma organização cheia de camaradas negros,
árabes e mulheres trabalhadoras.
Fora da direção da OCI(u) os
burocratas corrompidos da UNEF e da CGT (Force Ouvriere), pagos direta ou
indiretamente por Bergeron! Por uma orientação em direção aos trabalhadores
imigrantes, industriais e mulheres!
Encher a OCI(u) com os operários
mais explorados, afastando a aristocracia operária e os burocratas da UNEF e da
Force Ouvriere!
Capítulo X
UM
PROGRAMA MÍNIMO
FRENTE
AO ESTADO E A IGREJA
Um problema vital para o partido
revolucionário é o de dotar-se de um programa para a destruição das
instituições mediante as quais a burguesia exerce sua dominação. Nos referimos
a todo esse dispositivo de ministério, secretarias de Estado, hierarquias de
funcionários, forças armadas, que comumente chamamos “aparato estatal”, coroado
no caso da França ela presidência da República.
Quando um novo governo chega ao
poder, é muito comum que faça algumas mudanças superficiais, desde a
substituição de altos funcionários do governo anterior por gente de confiança,
até a reforma constitucional. O governo de Mitterrand não é uma exceção: acabou
com a pena de morte; promulgou uma lei de anistia (muito limitada, aliás); está
estudando uma chamada “lei de descentralização”, que limita os poderes dos
governadores dos estados enquanto aumenta os dos conselhos municipais.
Para os marxistas, o objetivo
dessas “reformas” não é nenhum segredo: trata-se de abolir algumas instituições
ou leis particularmente irritantes para as massas, sem alterar em nada o
essencial. Ou seja, “mudar alguma coisa para que tudo fique igual”.
Nós consideramos que em cada
etapa da luta de classes, o partido trotskista deve ter um programa para a
destruição do Estado burguês e suas instituições, propondo ao mesmo tempo o
tipo de instituições que devem entrar em seus lugar: soviets, eleição popular dos
funcionários públicos com revogabilidade imediata etc. E tratando-se de um
Estado bonapartista como éa Vª República francesa, uma de nossas bandeiras
permanentes deve ser “abolição da presidência”.
Em nossa carta ao CC do POSI
criticávamos a OCI por carecer de um programa para a destruição da V República.
No presente documento, vimos que isso se deve a que a OCI transferiu sua teoria
dos “campos” para o seio do aparato estatal e considera que a eleição de
Mitterrand é ‘incompatível’ com a existência da V República.
A OCI respondeu a nossa crítica
dizendo que sim, tem um programa para a destruição do Estado burguês da V
República. Programa que se expressa, segundo eles, na seguinte passagem do Projeto
de informe político.
“É impossível respeitar a vontade
expressa pelas massas em 10 de maio e em 14 e 21 de junho, enquanto se respeitam
a V República, a Constituição e suas instituições antidemocráticas. O aparato
de Estado (que é um aparato de Estado burguês) da V República é um aparato de
Estado bonapartista. É preciso quebrá-lo. A OCI unificada apoiará todo passo
que o governo Mitterrand-Mauroy possa dar por esse caminho, sem levar em conta
sua política” (citado em “Sobre o problema da frente popular e a política
da OCI unificada”, Bulletin intérieur d’information et de discussion
international nº 1, 30/11/81).
Isto não é mais do que ratificar
nossa crítica: o único programa que a OCI tem para a destruição do Estado
burguês é o apoio a “todo passo” que o governo burguês de Mitterrand possa dar
nesse sentido. Não se diz o que se deve fazer no caso de que o governo não dê
nenhum passo nesse sentido (que é, desde já, o que está ocorrendo) nem se
contrapõem instituições operárias às dos Estado burguês.
E como para reafirmar ainda mais
o que dizemos, na “Declaração do CC” publicada em IO 1030 aparece uma
lista de palavras de ordem, algumas das quais têm a ver com o problema do
Estado. São elas:
“Pela abolição de todas as leis
antilaicas, a supressão dos créditos públicos para a escola livre e
confessional e a entrega íntegra dos mesmos à escola pública;
“Pela revogação imediata dos
altos funcionários impostos por Giscard e que continuam em seus postos, e que
organizam a sabotagem; (...)
“Pela redução imediata do serviço
militar para seis meses”.
Vamos ver o que significa este
“programa”, tanto pelo que diz como pelo que omite.
1.
Primeira omissão: a V República
Podemos dizer que até 10 de maio
passado, a OCI teve uma política que é uma aula de trotskismo no que se refere
a princípios. Denunciou constantemente seu caráter bonapartista, que outorga
poderes quase ilimitados à presidência, enquanto anula os do parlamento.
Remarcou sempre o caráter antidemocrático do aparato estatal, como retrocesso
frente às conquistas da própria democracia burguesa. Esta política da OCI se
expressava na agitação da reivindicação “abaixo a V República”, concretizada em
bandeiras para a ação tais como: “tirar Giscard para derrubar a V República”,
“frente única dos partidos operários contra os partidos e instituições da V
República” etc. O ataque ao aparato estatal bonapartista era o eixo das
campanhas políticas da OCI, centradas nos governos que exerciam as funções
estatais. Daí a luta feroz contra os governos sucessivos de De Gaulle, Pompidou
e Giscard.
Desde que Mitterrand subiu ao
governo, a reivindicação “abaixo a V República” desapareceu por completo da
agitação e da propaganda da OCI, como demonstra a lista de bandeiras que
reproduzimos mais acima.
Evidentemente, não se pode agitar
no momento a bandeira “tirar Mitterrand para destruir a V República”. Esta
seria uma política ultra-esquerdista estéril, já que as massas ainda confiam no
novo governo. Mas isto não significa que a bandeira “abaixo a V República” deve
desaparecer da agitação do partido revolucionário, mesmo momentaneamente. Pelo
contrário: agora que se inicia um ascenso do movimento de massas, é necessário
agitá-la mais que nunca, não só porque se pode dirigir a mobilização operária e
popular para a destruição do Estado burguês, como também porque nesse processo
se pode desmascarar o governo de Mitterrand como acérrimo defensor da V
República. O único que muda com respeito à etapa anterior é a formulação tática
das palavras de ordem. Por exemplo:
“Para que se respeite a vitória
das massas é preciso desmantelar o Estado RPR-UDF, terminar com a V República,
suas instituições e sua constituição. Elegemos Mitterrand contra a V República,
mas ele diz que as instituições estão bem feitas (ver sua entrevista em Le
Monde, 2 de julho), até agora não mudou nada nem pensa fazê-lo no futuro.
“Por isso devemos confiar somente
em nossas forças. Só nossa mobilização independente pode liquidar a V
República! Convocatória a uma assembléia nacional que assuma plenos poderes
executivos e legislativos até dotar a França de uma nova constituição! Que seus
membros sejam eleitos em assembléias locais e possam ser revogados quando, a
critério dos eleitores, traem seus mandatos!
“Nessa assembléia, os trotskistas
propõem uma nova estrutura estatal, baseada em conselhos operários locais que
elejam delegados a um conselho operário central, que concentraria todos os
poderes de Estado e principalmente a força armada”.
2.
Segunda omissão: a presidência da República
A instituição que coroa todo o
dispositivo estatal bonapartista é a presidência da República. Na França, este
fenômeno é especialmente pronunciado: a constituição gaullista outorga ao
presidente poderes quase ilimitados; por exemplo, é ele quem determina a ordem
do dia que deve ser discutida pelo parlamento. Esta instituição, que cumpre um papel
quase decorativo, não tem poderes para se opor ao presidente. A presidência
inclusive pode emitir decretos (ordenances) com força de lei, que não
estão sujeitos à aprovação pelo poder legislativo.
Por tudo isso, as bandeiras pela abolição
da presidência e sua substituição por um organismo operário deve fazer
parte da agitação constante do partido revolucionário contra a V República. Mas
como no caso anterior, a OCI se “esqueceu” disto desde o 10 de maio. Ainda que
jamais explique o porque dessa ausência, nós achamos que o motivo se deduz
facilmente de toda a sua política. A OCI considera que a simples eleição de
Mitterrand é incompatível com a existência da V República, daí que todo seu
programa nesse terreno se reduza a impulsionar os “passos” que ele dê nesse
sentido. Mas para dar “passos” se deve contar com os poderes necessários, e não
há instituição na França que os possua em maior grau que a presidência.
Nossa conclusão não se baseia em
uma afirmação explícita da OCI, mas é a conseqüência lógica de toda a sua
política. A OCI está contra levantar as bandeiras pela abolição da presidência
porque considera que essa instituição, em mãos do “burguês anti-burguês
Mitterrand, é a ferramenta para destruir a V República por dentro.
É errônea esta afirmação? Em todo
caso, ninguém pode tachá-la de aventureira nem especulativa, já que se baseia
nos fatos rigorosamente comprovados que expomos mais acima. A OCI só poderá nos
convencer de que estamos equivocados se nos mostra, jornal por jornal, as
bandeiras que levantou contra a presidência a partir de 10 de maio.
3.
Terceira omissão: as forças armadas burguesas
Uma das bandeiras do “programa”
da “Declaração do CC” é “pela redução imediata do serviço militar para seis
meses”.
Foi talvez pensando nela que
François Forgue disse, em seu artigo de resposta a Capa em Correspondência
Internacional nº 13: “Pode haver alguém que tenha verdadeiramente a audácia
de pretender (...) que a OCI apoia as forças armadas de seu imperialismo?”
Pois sim, nós afirmamos isso, e
não com audácia (no sentido de ser especulativos ou de inventar fatos), mas
estritamente em base à realidade. Imediatamente antes da frase citada, Forgue
diz que não se deve “confundir momentos diferentes da situação”, e aclara:
“A forma concreta da luta das massas
contra o Estado burguês, o ponto que neste momento as massas podem tomar para
mobilizar-se contra o mesmo são os setores do aparato de Estado como a polícia,
as polícias paralelas ‘institucionalizadas’, a alta administração que possui
todos os instrumentos de mando do Estado” (op.cit.). E em base a isto afirma
que não se deve acusar a OCI de apoiar as forças armadas imperialistas.
Expresso em termos de documento,
temos: Visto que as massas neste momento não prestam atenção ao problema das
forças armadas e considerando que somente se devem agitar as bandeiras que
sirvam para a mobilização imediata, a OCI resolve... abandonar a luta contra as
forças armadas! E somente um “audaz” pode pensar que isto é uma forma de apoio
às forças armadas do imperialismo francês.
Nós, com a audácia que nos brinda
nosso firme apoio sobre o método marxista, afirmamos que a OCI sim está
apoiando as forças armadas do imperialismo francês, mas de forma vergonhosa,
negativa, ao negar-se explicitamente a combatê-las. Consideramos que se existe
um bom momento para passar da propaganda à agitação pela destruição das forças
armadas, esse momento é o presente, quando as massas estão em ascenso e
aspiram a liquidar esse inimigo eterno que é o exército burguês. Se suas
ilusões as fazem acreditar que Mitterrand o fará, então devemos combater essas
ilusões no terreno da denúncia do governo e a mobilização.
A bandeira “pela redução do
serviço militar a seis meses” merece um
parágrafo a parte. Que significa esta bandeira isoladamente, como a OCI(u) a
expressa? Esclarecemos que taticamente podemos coincidir com ela, já que se
trata de uma promessa eleitoral não cumprida pelo governo, e uma reivindicação
pela qual a juventude está se mobilizando multitudinariamente. Mas, em
primeiro lugar, a OCI não centra seus ataques no governo por não cumprir com
suas promessas, mas sim no PC por aceitar publicamente a duração atual do
serviço militar (um ano).
Em segundo lugar, a redução do
serviço militar é uma bandeira mínima, reformista, que não atenta contra as
forças armadas burguesas se não está unida a um programa de palavras de ordem
transicionais relacionadas. Vejamos o que dizia Trotsky:
“Não podemos nos opor ao
treinamento militar obrigatório por parte do Estado burguês, assim como tampouco
podemos nos opor à educação obrigatória por parte desse mesmo Estado. O
treinamento militar aparece diante de nossos olhos como parte da
educação”(“Sobre o serviço militar”, 9/7/40; Escritos, tomo XI, vol.2,
p.435). E aclara:
“Estamos absolutamente a favor do
treinamento militar obrigatório, assim como do serviço militar. Serviço
militar? Sim. Pelo Estado burguês? Não. Não podemos confiar essa tarefa, nem
qualquer outra, ao Estado dos exploradores.
“Em nossa propaganda e agitação
devemos diferenciar claramente estas duas questões. Ou seja, não lutar contra a
necessidade dos trabalhadores de serem bons soldados e de construir um exército
baseado na disciplina, ciência, corpos fortes etc, incluindo o serviço
militar, mas sim contra o Estado capitalista que abusa do exército em favor da
classe exploradora” (op.cit., pp.434-435). E pouco depois:
“Nossos camaradas deveriam ser os
melhores soldados e oficiais e, ao mesmo tempo, os melhores militantes de
classe. Deveriam provocar nos trabalhadores desconfiança em relação à velha
tradição, os planos militares da classe burguesa e seus oficiais, e insistir na
necessidade de educar a oficiais operários, que serão absolutamente leais ao
proletariado”(op.cit., p.453).
Desses conceitos de Trotsky se
desprende todo um programa transicional:
- Controle
do serviço militar pelas organizações operárias;
- Emprego
das forças armadas unicamente para repelir a agressão externa; não para atacar
outros países; desmantelamento imediato de todas as bases estrangeiras e retirada
das tropas ali estacionadas;
- Proibição
de utilizar as forças armadas para reprimir o movimento operário;
- Salário
mínimo industrial para os soldados, pago por seus patronos;
- Legalidade
para os comitês de soldados; que estes se filiem aos sindicatos centrais;
- Que
esses comitês elejam os oficiais e suboficiais, sob controle das organizações
operárias; que garantam um bom treinamento no uso das armas mais modernas para
todos os soldados; não queremos ser bucha de canhão! Até chegar ao objetivo colocado
pelo Programa de Transição: “Substituição do exército permanente por uma
milícia popular em união indissolúvel com as fábricas, as minas, as granjas
etc”. (p.30).
A OCI, com sua bandeira única (a
qual, insistimos, só serviria taticamente para denunciar o governo) tem o
“programa” contrário: que os operários devem ser piores soldados que antes e
permanecer sempre sob o mando de seus oficiais burgueses, a serviço dos
exploradores.
4. Se
abandona a luta contra a Igreja
Uma das críticas formuladas em nossa
carta ao CC do POSI se referia ao emprego por parte da OCI da bandeira “fundos
públicos para a escola pública, fundos privados para a escola privada”, porque
a mesma significa respeitar o direito da igreja católica a manter suas escolas
e difundir sua ideologia putrefata, com tanto que se autofinancie.
Nossa crítica não provocou a
menor resposta por parte da OCI. Pois bem, IO (por exemplo, nos números
1019 e 1020) dedicou muito espaço a explicar como as escolas católicas difundem
sua ideologia ao serviço da exploração. Como denúncia está muito bem, mas o
curioso (melhor dito, o repugnante) é que a OCI continua defendendo o
direito da escola católica a existir e a contaminar as mentes infantis: sua
única reivindicação continua sendo a de não outorgar créditos públicos à escola
privada, ou seja, o velho lema da maçonaria, os liberais e o socialismo
burguês.
Se consideramos que a igreja
católica, além de um colossal aparato a serviço da contra-revolução, é uma
potência econômica ( o Papa é hoje o primeiro acionista da Bolsa de Nova York),
o corte dos fundos públicos seria um golpe duro para ela, mas de nenhuma
maneira a faria desaparecer de cena. Por isso, para os revolucionários é um
dever supremo empregar os métodos da luta de classes mais implacável para tirar
da Igreja os meios com que conta para sua ação contra-revolucionária. Isto
significa, em outras palavras, expropriar suas escolas, clubes, hospitais e
todos os seus meios de autofinanciamento: fábricas, campos etc. Significa
obrigar os padres a trabalhar, e a exercer os rituais fora das horas de
trabalho, assim como o trabalhadora vai à missa só em suas horas livres.
Significa, enfim, levantar um programa de transição contra a Igreja:
- Fora
os padres e as freiras da escola, sindicatos, hospitais, associações esportivas
e culturais, de toda atividade que não seja estritamente a do culto!
- Expropriação
imediata e sem pagamento de todos os bens da Igreja!
- Que
os padres ganhem a vida trabalhando, não difundindo sua ideologia podre a
serviço da exploração!
- Fundos
públicos para a escola pública, fundos privados... também!
5. A
teoria dos campos no aparato governamental
A OCI não só considera que
surgiram dois campos antagônicos na sociedade, como transferiu essa teoria para
o seio do próprio governo e do aparato estatal. Segundo o Projeto de informe
político, não existe somente um aparato governamental a serviço da burguesia,
mas os dois campos citados. O campo antiburguês compreende o presidente
Mitterrand, os altos funcionários nomeados por ele e a maioria dos ministros.
O outro, por hora muito mais poderoso, é o campo burguês dos funcionários
giscardianos e também alguns ministros.
Vejamos alguns exemplos de
aplicação dessa política. Em julho, ocorre uma greve no aeroporto
Roissy-Charles de Gaulle pela readmissão de seis sindicalistas demitidos. Esse
aeroporto é, desde já, uma empresa estatal; por isso, o patrão contra o qual se
dá a greve é o Estado, e concretamente o governo de Mitterrrand. Mas a OCI não
entende assim:
“Que devíamos ter feito? Lutar
pela vitória da greve, formulando uma tática que no seu desenrolar colocasse a
ruptura com a burguesia, e nesse caso, a revogação dos altos funcionários
impostos por Giscard, que se mantêm em seus postos...” (Projeto de informe
político, p.5).
Ocorre então que o patrão não é o
governo, mas sim os altos funcionários, e não qualquer funcionário, mas os que
vêm da administração anterior, que por alguma razão (talvez por falta de tempo) o governo não removeu.
Umas linhas acima, se diz: “Nós
não dissemos: ‘O ministro Fiterman é o responsável (pelas demissões), mas
dissemos: a culpada é a direção geral (do aeroporto)”(op.cit., p.4).
Portanto, os trabalhadores dessa
empresa estatal estão lutando unicamente contra a administração do aeroporto,
que vem da época de Giscard; não contra o ministro de transportes Fiterman (que
pertence ao PC e que ficamos sabendo que faz parte ao campo mitterrandista),
nem contra o patrão supremo das empresas estatais, o presidente da República.
Em outras palavras, segundo a OCI, quando o patrão é o governo, os trabalhadores
não devem lutar contra ele, mas contra os representantes do campo inimigo que
se encontram em seu seio.
Exemplo como este há muitíssimos,
e os veremos quando nos aprofundemos na política da OCI para a atual etapa; nos
referimos ao problema de Roissy para mostrar como responde a uma concepção
geral, a dos “campos”, transferida para o seio do aparato estatal. O Projeto
de informe político eleva a linha aplicada em Roissy ao nível de uma
política geral para o período:
“Devemos explicar às massas
trabalhadoras que (...) para respeitar a democracia que derrubou Giscard, é
preciso tirar esses altos funcionários (giscardianos); exonerá-los”(op.cit.,
p.3).
Dizíamos que alguns ministros do
atual governo pertencem ao campo inimigo. O Projeto de informe político
menciona concretamente quatro ministros: o gaullista de esquerda Jobert, o
radical Crépeau e os socialistas Delors e Rocard. “Apesar dos radicais e
gaullistas de ‘esquerda’ estarem totalmente marginalizados, sua presença no
governo é altamente significativa. Mas o fato de maior importância está em que,
frente à derrota de sua representação política, a burguesia teve que tomar
diretamente a seu cargo o combate político contra o governo de
Mitterrand”(op.cit., p.4).
Jobert e Crépeau são, então,
membros do campo inimigo no governo; no entanto, sua debilidade, fruto da
derrota de seus partidos nas eleições, os torna insuficientes. O Projeto de
informe continua: “Por agora, o CNPF assumiu esse combate político contra
esse governo burguês, que não pode considerar como seu (...) O CNPF teve que
assumir tanto a reorganização da representação política da burguesia como o
fato de fazer explodir o PS, apoiando-se em primeiro lugar em Delors e
Rocard”.
Portanto, os ministros Delors e
Rocard, apesar de socialistas, são também membros do campo inimigo, e têm maior
importância que Jobert e Crépeau: por algo a patronal se apoia neles.
Isso de transferir os campos para
o seio do governo tem um objetivo claro, sobre o qual nos estenderemos ao
tratar da política da OCI. Esse objetivo é preservar o campo, não fazer
nem dizer nada que possa molestar nossos aliados do campo e fundamentalmente o
chefe do mesmo, o presidente Mitterrand.
6.
Como desmantelar o aparato
estatal,
segundo a OCI
Vimos neste documento que, em
vários conflitos operários, sobretudo em empresas públicas, a OCI coloca que a
mobilização deve dirigir-se contra os “altos funcionários giscardianos que se
mantêm em seus postos”. Nesses casos, esta bandeira cumpre o papel de desimcumbir
o governo dos problemas dos trabalhadores e impedir que estes se mobilizem
contra ele.
Mas esta palavra de ordem, a
nível programático, cumpre outro papel, ainda mais nefasto. A lista de palavras
de ordem na “Declaração do CC” inclui a de “Revogação dos altos funcionários”;
o Projeto de informe político nos esclarece seu significado:
“Devemos explicar às massas
trabalhadoras que (...) para respeitar a democracia que tirou Giscard é preciso
varrer esses altos funcionários; exonerá-los. Por acaso não é esta uma
política de princípios a nível da tarefa principal que as massas trabalhadoras
devem resolver: destruir o estado burguês desmantelando as instituições
reacionárias da V República?” (Projeto..., p.3).
Temos, então, que a “tarefa
principal’que as massas devem resolver é a “destruição do Estado burguês”, e
para isso devem “desmantelar as instituições reacionárias da V República”. E a
maneira “principista” de fazê-lo consiste em revogar os altos funcionários
giscardianos, ou seja, substituí-los por funcionários socialistas.
Digamos, para começar, que esta
política não tem nada de novo. Sob o governo provisório russo, os mencheviques
e esseristas levantavam a bandeira de “por um ministério dos partidos
majoritários nos soviets”. Ao que Lenin respondeu:
“Um ministério dos partidos
majoritários nos soviets’ significa uma mudança de pessoas no ministério,
conservando todo o velho aparato governamental, aparato integralmente
burocrático, integralmente não-democrático, incapaz de fazer reformas sérias
que constam até mesmo nos programas esseristas e mencheviques (...) Mesmo
naqueles ministérios que estavam em mãos dos ministros socialistas, manteve-se
inalterado todo o velho aparato administrativo, e deteve toda a atividade.
“Compreende-se – conclui Lenin.
Toda a história dos países parlamentares burgueses demonstra que uma mudança
ministerial significa muito pouco, pois a atividade administrativa real está
nas mãos de um enorme exército de funcionários (...) Este exército está atado
pela sujeição à hierarquia, por determinados privilégios do serviço ‘oficial’;
os quadros superiores desse exército estão totalmente subordinados, por meio
das ações e dos bancos, ao capital financeiro e são, em certa medida, seu
agente e o veículo de seus interesses e influência”(Obras Completas, T. XXVI,
p.451).
Ou seja, para Lenin, substituir
os funcionários burgueses pelos dos partidos soviéticos (ou os giscardianos
pelos socialistas mitterrandistas) significa deixar intacto o aparato estatal.
E mais ainda: significa enganar as massas ao fazê-las crer que as velhas
instituições, em mãos de funcionários socialistas, podem satisfazer suas
necessidades.
O movimento operário
revolucionário tem uma tradição, que se remonta à Comuna de Paris, contra a
burocracia dos funcionários públicos. Esta se resume nas palavras de ordem:
- Que
as organizações operárias assumam as funções estatais;
- Eleição
dos funcionários pelo movimento operário;
- Que
estes permaneçam nos cargos por períodos limitados, possam ser revogados em qualquer
momento por seus eleitores e recebam o mesmo salário que ganha um operário
médio.
Com esta questão dos funcionários
públicos se arredonda a política oportunista da OCI em relação às instituições
estatais. Se abandona as exigências de “abaixo a V República” e “abolição da
presidência”; se abandona a luta pela
destruição das forças armadas burguesas e sua substituição pela milícia
operária, em favor da exigência mínima de “redução do serviço militar”; se coloca o respeito por uma instituição
arqui-reacionária como a Igreja, com a única exigência de que se autofinancie;
e, como chave de ouro, se propõe desmantelar o aparato estatal burguês mediante
a simples substituição dos funcionários giscardianos por funcionários
social-democratas.
Capítulo XI
LAMBERT
E PABLO
APOIAM O GOVERNO
Vimos anteriormente que, fora uma
ou outra frase ritual, como “por um governo PS-PCF”, a OCI não tem uma bandeira
concreta de governo. Justifica essa posição com uma série de razões, todas elas
falsas; já vimos quais são, mas convém recordá-las sinteticamente.
A exigência “fora os ministros
burgueses” é tradicional no bolchevismo e no movimento trotskista: a levantamos
quando está no poder um governo frentepopulista ou operário-burguês. Lenin a
levantou sob o governo de Kerenski, e Trotsky sob os governos de Blum e Negrín.
A
OCI invoca a tradição oposta, a do reformismo: não levanta essa bandeira devido
a “escassa importância das funções ministeriais e das forças burguesas que
respaldam” os ministros burgueses. Ou seja, o mesmo argumento que os mencheviques
e seus discípulos, os stalinistas, usaram. Os bolcheviques-trotskistas
dizemos: se o PS e o PCF, com sua maioria eleitoral e parlamentar, incluem em
seu governo a sombra da burguesia, então devemos denunciá-los implacavelmente
por isso, chamando as massas a expulsar os ministros burgueses do governo.
Outra
razão para não levantar este nem nenhuma outra bandeira de governo nos da Luís
Favre: que as únicas bandeiras que devemos agitar são aquelas que mobilizem as
massas de forma imediata. Com isso, confunde agitação com ação imediata, mas
além disso, contradiz toda a política anterior da OCI, que durante os sete anos
de Giscard levantou a bandeira “Fora o governo de Giscard, por um governo do PS
e do PCF”, sem que existisse, pelo menos até muito pouco tempo, possibilidade
alguma de levá-la a cabo.
Outra
razão, que se repete inúmeras vezes no documento, é que “as massas consideram
que o governo Mitterrand-Mauroy é seu governo”, ou seja, confiam nele.
A
razões anteriores, todas de índole tática, poderiam nos fazer pensar que ao
mudar as circunstâncias (por exemplo, que as massas deixem de confiar no
governo) a OCI começará a levantar bandeiras de governo. Mas o Projeto de
informe político [esgrime uma razão adicional, de tipo teórico,
onde nos diz de fato que jamais levantará uma bandeira de governo enquanto a
frente popular continue ali]:
“Seria
absurdo apontar para os trabalhadores o objetivo de derrubar o governo. A linha
que devemos desenvolver é a de ruptura com a burguesia”(op.cit., p.7).
Em
primeiro lugar, não entendemos como se pode romper com a burguesia sem romper
com o governo burguês. Mas o mais grave é que aqui se abandona por completo o
eixo do Programa de Transição:
“É
preciso ajudar as massas, no processo de luta cotidiana, a encontrar a ponte
entre suas atuais reivindicações e o programa da revolução socialista. Esta
ponte deve consistir em um sistema de reivindicações transitórias, que partindo
das condições atuais e da atual consciência das amplas camadas operárias,
conduzam a uma só e mesma conclusão: a conquista do poder pelo proletariado”
(p.10).
Trotsky
insiste nisso ao longo do documento: “O velho ‘programa mínimo’ é
constantemente superado pelo programa de transição, cuja tarefa consiste na
mobilização sistemática das massas para a revolução proletária”(op.cit.,
pp. 11-12).
“Sobre
a base desta luta [por salários e contra o desemprego] (...) os operários
compreenderão melhor a necessidade de liquidar a escravidão capitalista”(op.cit.,
p.13).
“A
estatização dos bancos só dará resultados favoráveis se o próprio poder
estatal passar das mãos dos exploradores para as mãos dos trabalhadores”(
op.cit., p.21).
E
em síntese: “Cada uma das exigências transitórias deve conduzir, portanto, a
uma única conclusão política: os trabalhadores necessitam romper com
todos os partidos tradicionais da burguesia para estabelecer, junto com os
camponeses, seu próprio poder”(op.cit., p.35).
Então,
o objetivo de derrubar o governo burguês não só não é ‘absurdo”, como deve ser
a “única conclusão política” de cada bandeira que levantamos.
Este
é o programa mais geral do trotskismo, mas o que acontece sob o governo de
frente popular? Em julho de 1936, a Preconferência Internacional da Quarta
Internacional aprovou o documento “O novo ascenso revolucionário e as tarefas
da IV Internacional”, referido à situação da Bélgica, França e Espanha,
países estes últimos onde governavam frentes populares.
A
tese 9 afirma: “Só pode haver uma união séria, profunda e duradoura do
proletariado com as massas pequeno-burguesas, em oposição aos acordos
parlamentares com os exploradores radicais da pequena-burguesia, sobre a base
de um programa revolucionário, ou seja, a conquista do poder pelo
proletariado e uma revolução nas relações de propriedade em prol dos
interesses de todos os trabalhadores. A ‘Frente Popular’ como coalizão com a
burguesia é um freio para a revolução e uma válvula de segurança para o
imperialismo”.
E
a tese 10 insiste: “O primeiro passo para uma aliança com a pequena-burguesia é
a ruptura do bloco com os radicais burgueses na França e na Espanha, o bloco
com os católicos e liberais na Bélgica etc. É necessário explicar esta verdade,
sobre a base da experiência, a todo operário socialista e comunista. Esta é
a tarefa central do momento. Na etapa atual, a luta contra o reformismo e o
stalinismo é principalmente umaluta contra o bloco com a burguesia. Pela
unidade honesta dos trabalhadores, contra a unidade desonesta com os
exploradores! Fora a burguesia da Frente Popular! Abaixo os ministros
capitalistas!” ( Documents of the Fourth International, p.87).
Tanto
na França como na Espanha, onde existiam governos de Frente Popular, a “tarefa
central do momento” para Trotsky era a revolução proletária e a conquista do
poder. Isto é lógico, se levamos em conta que a etapa do governo
frentepopulista corresponde a um debilitamento do poder burguês e ao mesmo
tempo a um momento em que o proletariado tem aspirações anticapitalistas e
socialistas. É a etapa em que a crise revolucionária está na ordem do dia, e
por isso é necessário desenvolver as aspirações e necessidades do proletariado
e das massas em direção a um objetivo único: a derrubada do governo e a
conquista do poder.
Quando
a OCI afirma que o objetivo de derrubar o governo frentepopulista é
“absurdo” nos dá, em meio ao emaranhado de razões falsas, a verdadeira razão
para não levantar bandeiras de governo: a OCI apoia o governo burguês. E nisto
coincidem plenamente Lambert e Pablo.
1.
Como se expressa o apoio ao governo
Deixamos claro em primeiro lugar
que não estamos comparando as respectivas trajetórias de Lambert e Pablo, que
são antinômicas. Afirmamos que, neste ponto preciso de apoio ao governo burguês
de Mitterrand, existe uma identidade essencial entre eles.
Já
citamos as passagens essenciais dos documentos de um e outros, onde expressam
seu apoio às medidas (ou passos) progressivos do governo. A OCI afirma que
“apoiará todo passo que o governo dê nesse sentido” (se refere às nacionalizações
anunciadas por Mauroy) e agrega que “será sempre do mesmo ângulo que deveremos
abordar” praticamente todos os problemas mais sentidos do proletariado e da
juventude (Projeto..., p. 7). Enquanto que o órgão pablista diz: “apoiaremos
todas as medidas sociais e políticas que [o governo] tome, que satisfaçam as
reivindicações dos trabalhadores...“ (Pour l’autogestion nº 1).
Pois
bem, tanto Pablo como Lambert dizem que não apoiam o governo:
- “Nós
não apoiaremos o governo como apoiaríamos um verdadeiro governo dos
trabalhadores”(Pour l’autogestion nº1).
- “Portanto,
não devemos apoiar o governo burguês de Mitterrand-Mauroy. Isso seria abandonar
os princípios” (Projeto..., p.3).
A pergunta é: é possível apoiar os passos ou medidas progressivas de um
governo burguês e não apoiar tal governo? Nós achamos, com Trotsky, que não:
que apoiar os “passos/medidas” de um governo burguês é solidarizar-se
politicamente com ele. É algo qualitativamente diferente de lutar no “campo
militar” ou “físico” do governo frentepopulista quando é atacado pelo setor
mais reacionário (Kornilov contra Kerenski etc). Sempre os reformistas
esconderam seu apoio ao governo burguês frentepopulista atrás da máscara de
apoio às “medidas/passos progressivos”.
2.
Alguns governos burgueses são
mais
progressivos que outros?
A OCI e seus discípulos do POSI
espanhol têm uma política com a qual concordamos plenamente quanto aos princípios
(ainda que discordemos quanto à sua aplicação tática). É a política de repudiar
todas as medidas do governo Juan Carlos-Suárez, por mais “progressivas” que
pareçam. As medidas desse governo foram vinte vezes mais “progressivas” que as
de Mitterrand-Mauroy. Basta mencionar uma: o direito de voto para todos os
espanhóis e a legalidade para os partidos e sindicatos operários. A OCI jamais
declarou seu apoio a tais medidas/passos e com justa razão, porque significava
apoiar a política de conjunto da monarquia para salvar o essencial do aparato
estatal franquista modificando alguns aspectos secundários. Em outras palavras,
para a OCI e o POSI, apoiar uma medida/passo do governo Juan Carlos-Suárez
eqüivale a brindar-lhe meios para fortalecer sua política de conjunto. Nós
consideramos que essa política corretíssima é a que os partidos revolucionários
devem aplicar frente a todos os governos burgueses, independente do seu
tipo.
A
OCI não pensa o mesmo. Assim como repudia as medidas de Juan Carlos, considera
seu dever apoiar os “passos progressivos” de Mitterrand, infinitamente mais
mesquinhos que os daquele, e com isso proporcionar os meios ao governo
frentepopulista francês para que engane os trabalhadores.
A
OCI não tem uma política de princípios com relação aos governos burgueses:
aprova os passos de um e repudia os de outro. Não vê a ambos como os veria um trotskista: como inimigos de classe,
ambos merecedores de nosso repúdio.
Para
nós, só existe uma explicação para a política da OCI: que considera que o de
Mitterrand é um governo burguês sui generis, anti-burguês, cujos “passos
progressivos” devemos apoiar. E isto se deve a que Mitterrand goza do apoio das
massas, estas o consideram seu governo, como se repete enfadonhamente ao longo
do Projeto.
Existe,
então, dois tipos de governos burgueses: os progressivos e os reacionários, e a
diferença entre ambos está no apoio ou falta de apoio que lhe brindem as
massas. Em base a isso, o partido revolucionário deve apoiar ou repudiar seus
“passos/medidas progressivos”.
Isso
se reflete na já citada afirmação do Projeto de informe político:
“Quando se deu o golpe de estado dos generais de Argel em 1961 contra De
Gaulle, nós nos negamos a nos incorporar ao ‘campo’ de De Gaulle. É preciso
discernir em cada caso de que governo se trata em particular” (op.cit.,
p.7). Ou seja, o governo de De Gaulle é qualitativamente diferente do de
Mitterrand, e qualitativamente diferente significa, para os marxistas, que a
diferença é de classe.
A política oportunista
até a medula de apoiar o governo de Mitterrand se fundamenta no caráter burguês
“antiburguês” desse governo.
Essa
política tem sua contracara sectária e ultraesquerdista” já que o governo
gaullista não tem as “virtudes antiburguesas” do mitterrandista, a OCI não
está em seu “campo” contra o golpe dos coronéis fascistas de Argel. É
justamente o contrário do que afirma Trotsky, que quando se dá uma luta física
entre um governo burguês e um golpe fascista, intervimos militarmente no campo
do governo, sem deixar nem por um instante de combatê-lo.
Esta
política sectária se estende a outro terreno, como se vê claramente no caso da
Espanha. Ali, o governo de Juan Carlos-Suárez concedeu eleições e legalidade
para todos os partidos. A obrigação dos revolucionários era denunciar o
conteúdo contra-revolucionários dessas medidas, coisa que o POSI sim, fez. Mas
ao mesmo tempo, tinha a obrigação revolucionária de utilizar essas medidas, e
não o fez. Até pouco tempo não havia lutado por obter sua legalidade e
participar nas eleições às Cortes.
3. A
posição dos trotskistas
Trotsky e nós, seus discípulos,
temos uma política oposta à da OCI em todos esses terrenos. Nós partimos de um
fato, que constitui uma verdade elementar da luta de classes: que todos os
governos burgueses têm a mesma essência contra-revolucionária. Não pomos um
sinal de igual entre todos os governos: só um idiota poderia dizer que é o
mesmo o governo de Mitterrand que o do marechal Pétain. Mas ambos têm em comum
seu caráter burguês, contra-revolucionário; ambos buscam por distintas vias
manter o regime burguês. Por isso, não existe uma diferença qualitativa entre
eles.
O
marxismo é uma ciência que define os governos por seu caráter de classe, e a
partir daí, busca as diferenças que possam existir entre eles. A OCI, no
entanto, aplica um critério acientífico, de definir os governo em base às
ilusões das massas, mais especificamente, de seus setores mais atrasados. Se é
conseqüente até o fim, o dia em que as massas percam suas ilusões dirá que o de
Mitterrand se converteu em um governo burguês “normal”.
Nós,
trotskistas, não fazemos esse tipo de diferenciação, não consideramos que há
que apoiar os passos/medidas dos governos burgueses “progressivos” para
impusioná-los a romper com a burguesia. Pelo contrário: nossa atitude em
relação aos passos/medidas de Mitterrand é a mesma que em relação aos de Juan
Carlos-Suárez: denunciamos o caráter contra-revolucionário de ambos os governos
e de todas as suas medidas.
O
fato de não ver nenhuma “virtude anticapitalista” especial em nenhum governo
burguês, ainda que seja frentepopulista, significa que somos conseqüentes
também em outro terreno: nossa política quando o governo burguês é atacado por
um setor mais reacionário, que busca impor um regime bonapartista ou fascista.
Vejamos em primeiro lugar o que diz Trotsky:
“Eu
comparo a luta de Bruening contra Hitler com a luta de Kerenski contra
Kornilov; eu comparo a luta dos bolcheviques contra Kornilov com a luta do
Partido Comunista Alemão contra Hitler” (The Struggle Against Fascism in
Germany. New York: Pathfinder Press; 1971, p. 186).
Ou
seja, para Trotsky não existe uma diferença qualitativa entre o frentepopulista
kerenkista e o bonapartista reacionário Bruening; e quando se apresenta a
ameaça de Kornilov-Hitler, sua política é a mesma: lutar militarmente no campo
de Kerenski-Bruening.
Em
outra parte, esclarece: “A guerra civil entre Negrín e Franco não tem o mesmo
significado que a concorrência eleitoral entre Hindenburg e Hitler. Se
Hindenburg tivesse começado uma luta militar contra Hitler, então, isto teria
sido o ‘mal menor’. Mas Hindenburg não era o ‘mal menor’, não levou uma luta
aberta contra Hitler” (A revolução espanhola, vol. 2, pp. 163-164).
Ou
seja, o qualitativo para Trotsky é que exista ou não uma “luta militar”. Por
isso, é correto alinhar-se no campo militar da República contra Franco, não no
de Hindenburg contra Hitler, porque essa “luta militar” não se deu.
Quanto
aos “passos/medidas”, jamais os apoiaremos, mas sim temos a obrigação de
utilizá-los, qualquer que seja o caráter do governo burguês que os
outorgue. Isto deu lugar a uma grande discussão entre o PST argentino e Mandel.
Quando a ditadura militar de Lanusse convocou eleições e outorgou legalidade a
todos os partidos, inclusive os operário, o PST(A) não apoiou essa medida, mas
proclamou constantemente e aos quatro ventos que se tratava de uma conquista
arrancada da ditadura pelas lutas operárias a partir do Cordobazo. Dizia que o
governo tentava desviar o ascenso de massas para os canais
democrático-burgueses parlamentares. Mas contra a ultra-esquerda e contra
Mandel, que nos atacavam por reformistas, dizíamos que era nossa obrigação
utilizar essas conquistas do movimento operário. Por isso realizamos uma árdua
campanha por nossa legalização e participamos depois nas eleições. Graças a
isso, o PST se converteu, nas palavras de Pierre Lambert, em um grande
partido nacional.
Para
sintetizar, nossas diferenças com a OCI nesse terreno são:
- Julgamos
um governo pelo que é (ou seja, por seu caráter de classe), e não pelo que as
massas pensam dele.
- Não
encontramos diferenças qualitativas entre os governos burgueses: todos são
absolutamente contra-revolucionários.
- Não
apoiamos absolutamente nenhuma de suas medidas ou passos progressivos, mas sim
as aproveitamos para nossos fins.
- Quando
um governo burguês é atacado por um setor mais regressivo, combatemos no campo
militar daquele, sem deixar de atacá-lo politicamente. Isto, sempre que se dê
uma luta militar.
4. Uma
distorção grosseira de nossa posição
Em sua já citada intervenção em
Angola, Luís Favre afirmou, em resposta a um camarada que havia defendido a
necessidade de denunciar todas as medidas do governo Mitterrand: “Por exemplo,
se o governo decide pagar o salário de setembro a todos os operários demitidos
de Boussac-Saint Freres, nós dizemos, ‘está bem, mas não é suficiente porque
não há uma garantia de emprego’. Os camaradas /se refere a nós/ diriam outra
coisa: ‘Está mal, não se deve receber, isso é incorreto’. Agora, qual operário
entenderia isso?” (Atas gravadas. Onde diz “receber” (“cobrar”, em espanhol,
N.T.)”, Favre diz “pagar” na gravação original, mas supomos que se trata de um
erro involuntário).
Isto
é o inverso exato de nossa verdadeira posição, expressa no artigo de Miguel
Capa em Correspondência Internacional nº 13.: “As medidas ‘progressivas’
de um governo burguês, seja frentepopulista ou não, nós as utilizamos; nunca
as apoiamos. E as defendemos quando são atacadas”.
Aplicando
esta posição ao caso de Boussac-Saint Freres, temos uma posição que não é a
oportunista-revisionista de Favre, nem a ultra-esquerdista que ele nos atribui,
mas a seguinte:
“O
governo nos dá este salário para que não lutemos pela garantia de emprego
permanente; sob este governo, o número de desempregados aumenta constantemente.
Por isso, vamos receber esse salário para poder continuar a luta, única
garantia de que o governo não nos deixe sem emprego como já fez com centenas de
milhares de companheiros em todo o país”. Cremos que qualquer operário
entenderia esta – a nossa verdadeira posição – perfeitamente bem.
A
posição de Favre, de apoiar este “primeiro passo” do governo, é totalmente
oportunista, porque fomenta a confiança da classe operária no governo,
conspirando com ele contra a única maneira de conquistar o emprego permanente:
a mobilização dos operários. A diferença entre o oportunismo e o trotskismo é
exatamente a que expressa Favre. Os oportunistas da OCI dizem que o que o
governo faz “está bem”. Com isso, desmobilizam a classe, levando-a a pensar que
o governo atua em seu favor.
Os
trotskistas queremos inculcar na classe operária que o governo é seu máximo
inimigo político, e que se faz alguma concessão é com o objetivo de enganar e
desmobilizar. Por isso, repudiamos ou denunciamos a medida da seguinte maneira:
“O governo nos oferece o salário para setembro e a fome para depois. Se não é
assim que nos demonstre: que não nos despida a nós, trabalhadores, mas os
patrões; q eu nos deixe o controle da fábrica para garantir que não haverá uma
única demissão. Mas desde já alertamos: não haverá nada disso, porque é um
governo de acordo entre um setor da burguesia e os partidos operários
traidores. Por isso, devemos receber esse salário e logo em seguida ocupar a
fábrica e apelar para a solidariedade do movimento operário. Caso contrário,
nos pagarão setembro e talvez outubro, mas depois ficaremos desempregados e na
miséria”.
Em outra parte de sua
intervenção, Favre diz: “Os setores auxiliares /do ensino/ lutaram sempre pela
titulação; este ano, como em todos os outros, pediram que o governo lhes
garantisse emprego. O governo fez uma declaração dizendo que garantiria o
emprego. A nós nos pareceu que era um primeiro passo para a satisfação das
reivindicações. Agora o governo declarou que não tem emprego para todos, e
disse que os que não vão trabalhar vão receber de qualquer maneira um salário.
E nós, não contentes com isso – imagine como estavam osprofessores auxiliares,
iriam receber salário sem trabalhar -, reivindicamos que se dividissem as
classes com até 25 alunos, e que todos pudessem assim trabalhar. Lançamos todo
um combate para impor as reivindicações. O camarada /novamente, o que concorda
com nossas posições/ teria que dizer: “Temos que denunciar o governo por esta
medida, de decidir pagar os salários aos professores auxiliares apesar de não
trabalharem’. “(Ata gravada).
De
fato, cremos que haveria que denunciar o governo, por não cumprir com suas
promessas. Segundo Favre, “O governo fez uma declaração dizendo que garantiria
o emprego(...) Agora o governo declarou que não tem emprego para todos, e disse
que os que não vão trabalhar vão receber de qualquer maneira um salário.”
Então, segundo ele, os professores estão contentíssimos e a OCI lhes diz que
essa alegria está muito bem, que se deu “um primeiro passo”, e que temos tempo
para negociar a distribuição de 25 alunos por classe para que haja trabalho
para todos.
Nós,
trotskistas, dizemos: “O governo nos prometeu trabalho, e claro, não cumpriu,
porque é um governo burguês, do qual participam o PS e o PC, os partidos que
nos traíram. Agora, para nos contentar, nos oferece um salário gratuito. Mas
nós não queremos esmolas: não queremos ser desempregados com salário, mas
trabalhadores com salário. O que o governo quer é nos desmoralizar e nos
dividir; assim, quando resolva suspender nosso salário gratuito, não teremos
forma de lutar. Por isso, devemos receber esse salário mas sem suspender por um
instante a nossa luta pelo pleno emprego.
E,
em seguida, proporíamos medidas concretas e bandeiras transicionais que dêem a
essa luta uma perspectiva revolucionária. Por exemplo:
“Sob
o governo de Giscard foram fechadas milhares de escolas públicas. Nós devemos
reabri-las, ocupá-las e realizar um congresso de professores para distribuir o
trabalho disponível. Ao mesmo tempo, devemos exigir que o orçamento escolar
seja administrado pelos professores e pelo movimento operário. Assim, haverá
trabalho para todos os professores, incluindo os novos, na medida que concluam
seus ‘estudos’. Esse é um programa de transição para mobilizar os professores
contra seu patrão, o governo.
O
programa de Favre, no entanto, é cúmplice da manobra do governo; destinada a
ganhar a confiança dos professores, demobilizá-los, lumpenizá-los e finalmente
tirar a esmola quando já não estejam em condições de lutar.
Nossa
posição, de forma alguma implica que os professores não devam receber o
salário, mas pelo contrário: devem receber e, além disso, exigir que se dê
tratamento igual a todo professor, inclusive o professor recém formado,
enquanto segue a luta pelo emprego.
5. Uma
discussão chave
Toda nossa discussão com a OCI
gira em torno de dois pontos chaves: um é o dos campos, de saber se os
revolucionários devem fazer parte política do “campo progressivo” burguês de
Mitterrand ou não; e o outro, como vimos no presente capítulo, é o de apoiar ou
não as medidas supostamente “progressivas” do governo. A OCI defende que sim,
nós que não. Mas antes de avançar devemos definir o que se entende (ou o que
nós entendemos) por “medida progressiva”.
Na
época imperialista, em que a burguesia e todos os governos burgueses são
absolutamente contra-revolucionários, “progressivo” é todo passo ou medida que
acelere o curso da revolução socialista, ou seja, todo passo anticapitalista.
As medidas dos governos burgueses, suas concessões ao movimento de massas, são
contra-revolucionárias porque respondem a três objetivos: freiar a luta de
classes e o ascenso revolucionário; aumentar o prestígio do governo e dos
partidos, tanto burgueses como operário-burgueses, diante das massas;
consolidar ou salvar o regime capitalista.
Como
marxistas revolucionários, não podemos julgar cada medida de um governo
separadamente: “esta é boa, a apoio; esta é má, a recuso”, mas no marco de sua
política de conjunto. Se um governo é burguês, sua política de conjunto é
contra-revolucionária, e portanto, também o são todas as suas medidas, por mais
“progressivas” que pareçam.
Em
síntese, julgamos cada medida de um governo no marco de sua política geral e em
relação à luta de classes, jamais isoladamente.
Em
base a esse métodos marxista de apreciar os fenômenos em seu conjunto e em sua
dinâmica, afirmamos: nesta etapa da luta de classes não há no planeta Terra um
só governo burguês capaz de tomar uma “medida” ou dar um “passo” progressivo,
ou seja, que tenda à destruição do regime burguês, a instauração do socialismo
e a abolição da exploração.
Nada
disso significa que não lutaremos por medidas reformistas, mas entendendo
sempre que estas são um subproduto da mobilização revolucionária da classe
operária. Vejamos um exemplo.
Suponhamos
que um governo burguês concede um aumento de salários devido a uma greve geral.
Nossa política frente a essa “medida” dependerá do momento da luta de classes.
Se o governo decretou o aumento porque não quer que a greve se prolongue, mas
os trabalhadores não estão em condições de continuar lutando, diremos: “tomemos
o que conquistamos e voltemos ao trabalho”, porque vemos que não há
possibilidade por enquanto de levar a greve até o final, até derrotar o governo
burguês e instaurar um governo dos operários e camponeses. O que não faremos
jamais será dizer, com a OCI: “está bem que o governo tenha concedido o
aumento; apoiamos essa medida”, porque
nesse caso estamos apoiando o governo, colaborando com sua política de ganhar
prestígio frente as massas e deter a luta. Se atuamos assim, o operário que nos
escutar dirá: “Minhas ilusões neste governo estão justificadas, porque adota
medidas progressivas, anticapitalistas. Já deu um primeiro passo, agora
devemos ter paciência e virão os outros”.
Aclaramos
que o exemplo anterior se refere a uma greve geral contra o governo, mas aplicaríamos
a mesma política se se tratasse de uma greve parcial contra um patrão
individual ou contra a patronal de um setor da indústria. Continuemos.
Se
o aumento de salários é fruto de uma greve, esse fato tem de servir para que
denunciemos o governo, demonstrando que tomou essa medida contra sua vontade e
da patronal, forçado por nossa luta. Concretamente, diríamos:
“Nossa
luta acaba de obter uma vitória, ao forçar o governo a nos dar um aumento de
salários. Novos avanços exigirão novas lutas. Mas devemos dizer que Mitterrand
nos traiu. O elegemos contra Giscard para que nos garanta trabalho e bons
salários para todos, e olhem o que aconteceu: para manter nosso nível de vida
(nem mesmo para melhorá-lo) somos obrigados a lutar, enfrentar a polícia, passar
fome e correr o risco de ficarmos sem trabalho, como ocorria antes. Achávamos
que isso tinha acabado, mas é evidente que não podemos confiar no governo nem
no PS nem no PC: nada ganharemos se não lutarmos”.
A
OCI, com sua política revisionista, faz exatamente o contrário: não só apoia as
medidas, o que constitui um ato de solidariedade política com o governo, como
levada pela lógica de sua posição, apoia a este de forma direta. Assim, se nega
a exigir a nacionalização da Logobax para dar a Mitterrand o tempo que
necessita.
Apêndice
EM
RESPOSTA A ALGUMAS CRÍTICAS
respondência Internacional nº 13 e na Carta ao Comitê
Central do POSI, de 13 de outubro passado, foram respondidas de maneira parcial
e às vezes indireta em certos documentos da OCI: o artigo de François Forgue em
CI nº 13, os documentos publicados no Bulletin interieur d’information et de
discussion internationales nº 1, a intervenção de Luís Favre em um plenário
conjunto dos dois partidos angolanos e, fundamentalmente, em uma “Declaração do
CC da OCI”, submetida à discussão no XXVI Congresso e publicado em IO
1030.
Neste último documento, e como
resposta indireta à nossa afirmação de que a OCI não tem um “programa de ação”,
ou seja, transicional, para a França, aparece a seguinte lista de palavras de
ordem:
“Por um verdadeiro controle de
preços;
“Por um aumento geral de salários
em relação ao aumento de preços;
“Pela redução do horário de
trabalho sem contrapartida, respeitando a legislação de 1936;
“Pela adoção da medida de
urgência de dar trabalho obrigatoriamente aos desempregados;
“Pela satisfação das
reivindicações dos trabalhadores imigrantes;
“Pela nacionalização sem
indenização nem direito a reaquisição (rachat) dos grandes grupos capitalistas;
“Por um plano de produção que não
responda às necessidades da Lei do lucro e às exigências dos capitalistas, mas
sim às necessidades das massas populares;
“Pela revogação das leis
antilaicas, a supressão dos créditos públicos à escola livre e confessional e o
outorgamento de tais créditos integralmente para a escola pública;
“Pela revogação imediata dos
altos funcionários postos por Giscard e que continuam em funções e organizam a
sabotagem;
“Pelo respeito ao estatuto do
funcionário público;
“Pela redução imediata do serviço
militar para seis meses;
“Pela revogação das restrições
aos estudos e da lei Faure na Universidade.
Este “programa”, ou melhor, esta
soma de palavras de ordem, reafirma milimetricamente o eixo de nossas críticas.
Não há aqui nenhuma bandeira de governo, nada que indique que só um governo dos
trabalhadores pode realizar estas reivindicações, nem como chegar a tal governo
(colocando, por exemplo, “para realizar este programa é necessário em primeiro
lugar varrer os ministros burgueses, Jobert e Crépeau, do governo”). Portanto,
devemos concluir que, mais que bandeiras (apesar da forma) são pedidos
dirigidos ao governo de Mitterrand, o que é coerente com toda a orientação da
OCI. De fato, quem vai elaborar e aplicar um “plano de produção baseado nas
necessidades das massas populares, não dos capitalistas”? Quais são as
reivindicações dos trabalhadores imigrantes”, quem e como se há de
satisfazê-las? Quem deve controlar os preços e determinar a taxa do aumento dos
mesmos para fixar o aumento dos salários? A resposta é: o governo de
Mitterrand; a tarefa da OCI é pressioná-lo para que não ceda às “exigências dos
capitalistas”.
Por esta “resposta” indireta a
nossas objeções e outras que analisamos nas páginas seguintes, afirmamos que
nossas críticas continuam em pé e se reafirmaram e ampliaram.
1. A
OCI(u) NA RETAGUARDA DA PRIMEIRA ONDA
Em junho de 1936 ocorre na França
a grande onda de greves com ocupação de fábricas que culmina na greve geral.
Este é o processo a que Trotsky chamou a “primeira onda” e que resultou em uma
série de conquistas do proletariado francês, como a “Lei das quarenta horas”,
que estabelece uma semana de trabalho máxima de quarenta horas, e as horas
trabalhadoras além dessas devem ser pagas como horas extras.
Este grandioso movimento do
proletariado francês foi precedido por uma série de conflitos locais e de
fábrica, “greves econômicas” ou “corporativas”, como as chamavam os dirigentes
stalinistas e social-democratas daquela época, e pela vitória eleitoral de Blum.
Nós consideramos que a França
está vivendo atualmente os primeiros indícios de uma situação similar; o
ascenso das massas ainda não alcançou o mesmo grau dos meses prévios a
maio-junho de 1936, mas aponta nessa direção. Em todo o país ocorrem lutas
operárias: contra as demissões, por aumentos de salários etc. Isso significa
que as massas, ainda que confiem em Mitterrand e seu governo frentepopulista,
não se limitam a esperar passivamente que este resolva seus problemas, mas
lutam por eles.
A política da OCI(u), tal como a
temos visto, consiste em evitar cuidadosamente que as massas lutem contra o
governo. Daí seus constantes esforços por orientar as lutas contra os
“banqueiros e capitalistas” no caso das empresas privadas, e contra os “altos
funcionários giscardianos” quando o conflito afeta uma empresa pública ou
nacionalizada, ou se trata de uma luta estudantil.
O fato de desviar ou freiar o
enfrentamento das massas com o governo não só constitui uma violação dos mais
sagrados princípios do trotskismo, como tem outra conseqüência: a OCI não tem
uma política para se colocar à cabeça das lutas do movimento operário e de
massas.
Em nossa carta ao CC do POSI
dissemos que a OCI(u) não tem uma política de solidariedade com as lutas do
movimento operário, de propagandizá-las, defendê-las, muito menos de
estendê-las e colocar-se à frente para dar-lhes uma perspectiva revolucionária,
mediante consignas transicionais adequadas. Agora reafirmamos essa acusação:
nada se diz, por exemplo, da greve ferroviária de Paris-Saint Lazare, iniciada
em 10 de dezembro, e que paralisou a circulação de um grande setor da banlieué
parisiense. Nós ficamos sabendo da existência dessa luta por meio de Le
Monde (11/12/81), e não por meio de Informations Ouvrieres. Por
outro lado, o “programa” da “Declaração do CC” já citada, nada diz sobre a
solidariedade com as lutas operárias em curso.
Tampouco disse nada sobre as
lutas dos camponeses. Na última carta ao CC do POSI acusamos a OCI(u) de falta
de solidariedade para com as lutas camponesas e de uma política para uni-las às
lutas do movimento operário. Esta situação não mudou: nas respostas (ainda
parciais) a nossa carta não se diz nada a respeito e, pior ainda, se nos
guiamos pela “Declaração do CC”, na França não existem camponeses.
A esta altura, não podemos prever
se estas lutas preliminares do movimento de massas desembocarão em uma
“primeira onda”, como a de 1936, ou se o governo conseguirá abortar o processo.
A dinâmica objetiva aponta para o primeiro, já que a situação material do povo
trabalhador piora dia a dia. Afirmamos que o partido trotskista tem o dever de
aplicar uma política para estender, unificar e fortalecer as lutas parciais e
colocar-se à cabeça da primeira onda quando esta ocorra. A OCI(u), pelo
contrário, tem uma política para freiá-la. Por isso, quando se dê, romperá
sobre a cabeça da OCI(u) e a varrerá de seu caminho junto com os demais
obstáculos.
1. A
Plataforma de Orly:
capitulação
diante da burocracia
É preciso reconhecer que a OCI(u)
sim formulou uma política para alguns (muito poucos) conflitos operários. Já
vimos dois: Logabax, onde se negou a levantar a bandeira de “nacionalização
para que não haja demissões”, porque o governo “precisa de tempo para resolver
os problemas”; e Boussac-Saint Freres, onde defendeu que a medida do governo de
garantir o emprego de várias centenas de trabalhadores demitidos durante
três meses foi “um passo adiante”. Agora vejamos outros dois casos.
Segundo informa IO 1026, em 12 de
novembro realizou-se a conferência dos trabalhadores do aeroporto de Orly, para
resolver sobre as medidas a tomar diante da ameaça de demissão de vários
trabalhadores. Diz-se que foi “uma autêntica assembléia operária para organizar
a luta contra as demissões, contra o desemprego”, e que “Esta conferência é um
êxito”.
Vale a pena deter-se em primeiro
lugar na intervenção de um delegado da central operária Force Ouvriere, que o
artigo de IO cita extensamente e sem a menor crítica: “Para FO, os
únicos responsáveis antes do 10 de maio são a camarilha de Horffel e companhia,
que organizaram premeditadamente o desmantelamento da plataforma de Orly.
Portanto, não é o novo governo. Mas o novo governo deve responder às aspirações
dos trabalhadores: significa que não deve aceitar esses planos. Giscard não foi
varrido para que seus planos sejam aplicados”.
Claro, por que iria criticar esta
intervenção de um burocrata sindical, se coincide milimetricamente com a posição da OCI(u): a
culpa de tudo é do governo anterior, só se trata de advertir Mitterrand que não
deve aplicar esses planos.
Mas o pior (ou melhor, segundo a
ótica lambertista) veio depois, quando se aprovou “por unanimidade menos quatro
abstenções” uma declaração elaborada pela organizações sindicais presentes,
onde se estabelecem as medidas a tomar contra as possíveis demissões:
“A conferência delega ao comitê
coordenador aqui constituído o objetivo de reunir-se com o Sr.
Fiterman [o ministro do setor] para discutir esses problemas (...) e
resolve que se as gestões com o ministro de transportes fracassam, fará
idênticas gestões diante do primeiro ministro e depois diante do Presidente da
República” (citado em IO 1026).
Valentes medidas! Reunir-se com o
ministro dos transportes, depois com o primeiro-ministro, depois com o
presidente e depois... nada, porque aí termina a declaração. E se ocorrem
demissões, a culpa é de Giscard.
Suponhamos que as quatro abstenções
(não votos contra a traição, mas abstenções) não são da OCI(u), porque IO
não critica a declaração: se limita a transcrevê-la e diz que “a conferência é
uma êxito”, porque aprovou uma medida de “luta contra as demissões”.
Nós não estamos contra fazer
gestões junto aos ministros, e Mitterrand e a avózinha de Mitterrand. Mas essa
não é uma medida de luta, e sim de negociação, e de negociação impotente, além
do mais. Nos parece elementar para um partido que se diz trotskista propor, por
exemplo: “Sim, façamos gestões junto a Fiterman, Mauroy e Mitterrand, mas
enquanto isso paralisemos o trabalho e ocupemos a plataforma. Assim
evitaremos as demissões”. Se a relação
de forças nos é desfavorável, proporemos medidas de luta menos radicais. Mas se
se toma uma decisão como a de Orly, teremos que dizer: “Acataremos
disciplinadamente a decisão tomada. Mas a conferência foi um fracasso total
porque se impôs a política traidora da burocracia sindical, de confiar no
governo e fazer reuniões com os ministros. Saibamos desde já que é uma decisão
nefasta porque nos leva inevitavelmente à derrota, a que se dêem novas
demissões”.
Nada
disso: a OCI(u) capitulou por completo diante da burocracia sindical traidora.
2.
Renault, a segunda traição
No início de setembro ocorre uma
greve na Renault, a fábrica mais importante das nacionalizadas. A empresa tem
40.000 operários e tem plantas em todo o país.
O conflito começa nas plantas
Sandouville (Seine-Maritime) e Boulogne-Billacourt (região parisiense). As
principais reivindicações são: redução do ritmo de trabalho na linha de
produção e revogação de um decreto da administração que estabelece o chomage
technique, a suspensão do trabalho durante cinco dias “para adaptar a
produção ao mercado” (informes recolhidos em Le Monde, 25/9/9\81).
Qual foi a política da OCI(u)?
Primeiro, o silêncio total. Le
Monde diz que o conflito começou “nos primeiros dias de setembro”. A
primeira notícia que aparece em IO é no número 1021, de 10 de outubro, ou seja,
um mês depois, e se trata de uma nota de um terço de página.
O nº 1022 (17 de outubro) dedica
o editorial ao assunto, com o título: “Renault: primeiro enfrentamento entre as
classes depois do 10 de maio”. Ali se diz: “Os trabalhadores se perguntam o que
faz o governo? Onde se localiza frente as provocações patronais?” Aqui já está
a primeira confusão, porque em uma fábrica nacionalizada, o patrão, autor
desses “provocações” é o governo de Mitterrand.
O editorial responde à pergunta
feita pelos trabalhadores: “A tarefa da
OCI(u) é explicar a contradição entre a manutenção, na direção da Renault, de
Hanon e outros altos funcionários dedicados a defender os interesses de
capitalistas e banqueiros, e a realização da vontade das massas trabalhadoras,
expressa no voto massivo ao Pose ao PCF”.
Como formulação tática, poderia
estar bem, se em seguida se dissesse que o governo Mitterrand está traindo as
aspirações dos trabalhadores da Renault ao aplicar a mesma política de Giscard.
Mas não é isso que IO diz, já que em um artigo da mesma edição (1022) afirma:
“Os trabalhadores sabem que o governo não pode “decidir tudo em todas as
partes’. Então, deveria decidir, para respeitar a vontade das massas
trabalhadoras, revogar toda essa direção da Renault, todos os altos
funcionários que, como todos sabem, representam os capitalistas e banqueiros.
Então, existe uma “contradição”
entre o patrão (o governo de Mitterrand) e a gerência, nomeada por Giscard. Mas
já que o patrão “não pode fazer tudo em todas as partes”, lhe sugerimos que
revogue a gerência e nomeie uma nova: com isso se solucionam todos os problemas.
Temos um conflito operário em uma
grande fábrica nacionalizada, onde o patrão é o governo. Com a mobilização, os
operários estão adquirindo consciência, por um lado, de que seu maior inimigo é
o governo burguês, no qual confiam erroneamente; por outro, do verdadeiro
significado da “nacionalização” burguesa, que só inclui uma mudança de patrão.
A OCI considera que seu dever é
impedir essa aquisição de consciência. Desvia a luta contra o governo,
canalizando-a para a “gerência giscardiana”. Por outro lado, jamais levanta a
bandeira pelo controle operário da Renault, que se concretiza de maneira muito
simples: desconhecer a gerência burguesa, eleição de uma nova gerência pela
Assembléia Geral dos trabalhadores e responsável perante ela.
Pois bem, a OCI(u), como pata
esquerda “trotskista” do campo mitterrandista, tem que dar uma colaboração
“vermelha” à sua política de impedir a mobilização. O consegue mediante a
agitação da bandeira “Greve total unitária de todas as fábricas”.
Vejamos que significa “greve
total” como método de luta. A Renault é um colosso multinacional, que tem na
França mais de 10 plantas fabris e 40.000 trabalhadores. Portanto, a “greve
total” exige métodos e bandeiras de luta que poderíamos chamar “acessórios” a
serviço da greve: piquetes de greve; assembléias gerais por planta para eleger
comitês de greve locais e que estes elejam um comitê de greve central para
dirigir a luta a nível nacional; formação de comissões para organizar ações de
solidariedade; convocatória regular a assembléias gerais de planta para
informar sobre o andamento do conflito e submeter à discussão e votação as
medidas a serem tomadas etc.
No marco da orientação geral da
OCI(u), o simples chamado a uma “greve total” não é um erro, mas uma política
consciente: lançar uma bandeira aventureirista e estéril para paralisar a luta.
O segundo aspecto se refere à
perspectiva que se dá à luta. A OCI(u) se limita a levantar as reivindicações
dos trabalhadores: pela redução do rimo de trabalho e contra os fechamento
temporários. Um partido trotskista não pode deter-se aí, mas deve propor:
“Para satisfazer nossas
reivindicações de forma permanente, devemos impor o controle operário da
Renault, o que significa:
- Derrubar
a atual gerência burguesa;
- Eleição
de uma gerência operária pela assembléia geral dos trabalhadores; não se aceita
nenhum gerente enviado pelo governo;
- A
nova gerência elaborará os planos de produção, ritmo de trabalho, salários etc,
e os submeterá à aprovação da assembléia geral;
- A
gerência prestará contas periodicamente diante da assembléia geral;
- Os
gerentes terão as seguintes características: são eleitos pela assembléia geral
e podem ser revogados por esta em qualquer momento;
- Seu
mandato dura dois anos no máximo, sem possibilidade de reeleição;
- Ao
finalizar seu mandato, voltam ao posto de trabalho;
- Ganham
o mesmo salário que um operário qualificado.
Este é um programa transicional
para a Renault, porque parte das
reivindicações pelas quais os trabalhadores já estão lutando (ritmo de
trabalho e fechamentos temporários) e orienta essa luta em uma perspectiva
anticapitalista, revolucionária, ao mesmo tempo que põe a descoberto os
verdadeiro caráter do governo de Mitterrand diante dos trabalhadores.
3.
Aguardar o amadurecimento político das massas
O documento de Stéphane Just
publicado em La Lettre d’IO nº 11 nos dá a chave teórica para
compreender porque a OCI(u) não impulsiona as lutas operárias:
“A preparação das grandes lutas
que virão, talvez da greve geral, depende essencialmente do amadurecimento
político e, portanto, da resposta que damos aos problemas políticos” (p.5).
Esta afirmação é falsa por várias
razões. Em primeiro lugar, não pode haver “amadurecimento político” das massas
se não é através da luta. Justamente, o amadurecimento político necessário para
as grande lutas e greve que se preparam está se forjando na atual onde de
conflitos locais.
Mas a luta não basta, se não
existe um partido trotskista que apresente uma perspectiva revolucionária. Isto
significa que o partido deve intervir em todas as lutas parciais do
proletariado e das massas, ligando as reivindicações das mesmas a bandeiras de
transição e ao problema do poder.
Se falta o partido com o programa
revolucionário, as lutas parciais das massas e inclusive as grandes explosões,
como o maio francês, se dissipam, e a vontade de luta das massas cede diante da
confusão e da apatia.
Por outro lado, o partido que não
intervém nas lutas operárias e se senta, aguardando que se dê o amadurecimento
político, abandona toda possibilidade de se colocar à cabeça do proletariado.
Por tudo isso, a orientação da
OCI(u) freia objetivamente o amadurecimento político das massas e o
desenvolvimento da única expressão verdadeira desse amadurecimento, o partido
revolucionário, trotskista.
2. A
OCI(u) VIOLA OS PRINCÍPIOS
ELEMENTARES
DO MOVIMENTO OPERÁRIO
Nossa carta ao CC do POSI
formulava contra a OCI(u) uma série de acusações muito graves no terreno de
certos princípios ao movimento operário. A fundamental acusação que fazíamos
era que, frente ao plano de conjunto de Mitterrand e Calvo Sotelo para reprimir
os militantes da ETA refugiados na França, a OCI(u) não fazia campanha pela
liberdade desse militantes quando eram presos pela polícia francesa. Recordemos
que Mitterrand tem uma política bastante sutil, destinada a salvar seu
prestígio ante as massas e manter ao mesmo tempo suas boas relações com a
monarquia espanhola: não fazer acordo para extradição dos militantes bascos,
mas por sua vez mantê-los presos na França. Hoje os mantém presos na
ilha-prisão de Yeu.
Segundo Le Monde de 22 de
setembro, vários militantes da ETA presos na ilha estão fazendo uma greve de
fome em protesto contra sua prisão, já que não cometeram qualquer violação das
leis francesas. Fiel à sua linha, a OCI(u) não disse uma palavra a respeito,
nem para solidarizar-se com essa greve de fome, nem para exigir a liberdade
desses militantes.
Devemos assinalar que, pelo
contrário, IO faz uma campanha permanente de solidariedade com os grevistas de
fome do IRA irlandês. O fato se explica facilmente: os presos do IRA questionam
o regime de Thatcher, não o de Mitterrand.
Tampouco apareceu em IO uma
campanha em solidariedade com os combatentes bretães, bascos e corsos, nem
pelos das colônias francesas. A “Declaração do CC” em IO 1030 não inclui
bandeiras dirigidas a esses setores, nem sequer os menciona.
1. As
vergonhosas explicações de Luís Favre
Sim houve, por parte da OCI(u)
uma resposta parcial a estas acusações. Em sua já citada intervenção no
plenário dos partidos angolanos, Luís Favre explicou a posição da OCI(u) com
relação aos presos da ETA e do IRA. Vejamos seus argumentos em base às atas
gravadas da reunião.
Favre: - “Nós lançamos uma
campanha contra a extradição, é preciso dizer, quando a questão estava
colocada”.
Primeiro problema: A questão já
não está colocada? Não há presos da ETA na Ile de Yeu?
Segundo problema: Favre está
mentindo: não há nenhuma campanha em IO pelos presos da ETA. Há um único
artigo, o já mencionado de IO 1010, mas seu objetivo é a defesa do ministro
Defferre, como dissemos na carta ao POSI. Poderia responder-se que a
campanha se realizou por meio de panfletos e folhetos, não através do jornal.
Não aceitamos essa explicação. O partido pode publicar todos os panfletos que
queira, mas só consideramos que são campanhas partidárias as que se realizam
por meio do órgão oficial, a cara do partido diante das massas.
Favre: - “O governo cedeu frente
a quê? A essa campanha contra a extradição”.
Supondo que houve campanha, que
significa que o governo “cedeu”? Ceder é prender os bascos na Ile de Yeu ao
invés de extraditá-los? Sinceramente, a OCI(u) se contenta com muito pouco...
Favre: - “Quem é o advogado que
defende os bascos? Ives Deschafer, membro do Comitê Internacional contra a
repressão”.
Bom, felicitamos o senhor
Deschafer e a seu comitê. Mas continuamos sem saber onde está a campanha da
OCI(u). Por acaso é membro do Comitê? Não sabíamos, porque IO jamais o
menciona.
Favre: - “A ETA pediu para fazer
uma campanha contra a extradição porque pensou que a situação de seus presos na
França não seria a mesma que na Espanha. Uma coisa que não tem nada a ver com o
marxismo, só com o sentido comum: é preferível estar preso que com uma bala
na cabeça; é preferível inclusive estar condenado – ao que eu me oponho – que
ser liberado para ser assassinado”.
Veja o leitor o que acontece
quando se substitui o marxismo pelo “sentido comum”, o mais vulgar do
pensamento vulgar. Ocorre que quando os combatentes da ETA são perseguidos
pelas polícias dos dois países, Favre diz: “Por favor, prendam os flics
franceses para que não sejam mortos pela Guarda Civil espanhola”.
Favre diz que “a ETA pediu para
fazer uma campanha contra a extradição”. Deixando de lado que a OCI(u) não fez
essa campanha nem nenhuma outra, devemos recordar que nós não somos a ETA,
partido nacionalista burguês ou pequeno-burguês. Nós somos os trotskistas, o
partido do proletariado para a revolução socialista. Não calamos nossas
bandeiras ainda que a ETA não as levante. Se se conforma uma frente de unidade
de ação exclusivamente contra a extradição, participaremos nela, mas observando
nossa regra de ouro: conservamos nossa independência política e agitamos nossas
bandeiras.
A ETA pode ter razões válidas
para negociar “prisão” em troca de “não extradição”, se a relação de forças lhe
é desfavorável. Mas isso não significa que os trotskistas franceses devam sair
à rua gritando “Sim, sim, que os prendam”, como propõe nosso campeão do
“sentido comum”. Pelo contrário, devem
redobrar sua campanha por:
- Liberdade
total aos combatentes da ETA;
- Que
lhes seja dado asilo, trabalho e plena liberdade de ação política;
- Que
tenham permissão para cruzar a fronteira, em ambos os sentido, quantas vezes
desejarem.
Favre: - “Os camaradas falam em
sua resolução sobre os presos do IRA na França. Vocês conhecem algum nome de
preso do IRA na França? Ocorre que não há nenhum.
Pois sim, nós conhecemos os nomes
de dois: Denis Donaldson e Billy Kelly. Segundo Le Monde de 29 de
agosto, p.3, título “Dois membros do IRA presos em Orly”, Donaldson e Kelly
foram presos no aeroporto por utilizar passaportes falsos. A edição do dia
seguinte esclarece que na verdade são membros do Sinn Fein, braço político do
movimento republicano irlandês e que serão julgados pelo tribunal de Créteil.
Nós, na América Latina, sabíamos
disso, a OCI(u) na França não? Impossível: Favre está mentindo, está fingindo
que desconhece a existência dos presos republicanos irlandeses na França para
ganhar uma discussão; tal é o método tipicamente pequeno-burguês que emprega em
uma discussão de vital importância para o futuro do trotskismo mundial.
A OCI(u) faz campanha pelos
presos da Irlanda, mas se nega a fazê-la pelos presos na França para evitar
atritos com o governo de Mitterrand. Que o levem em conta os heróicos
combatentes pela independência da Irlanda: a OCI(u) os defende contra o
imperialismo britânico, não contra seu grande aliado, o imperialismo francês.
Com isso, demonstra que toda sua campanha de solidariedade com os grevistas de
fome não passa de fraseologia vazia.
2.
MITTERRAND É PARTE DO DISPOSITIVO
CONTRA-REVOLUCIONÁRIO
MUNDIAL
Cremos desnecessário voltar a
insistir no papel do governo de Mitterrand como fiel servidor dos interesses da
burguesia imperialista francesa, e como parte integrante do dispositivo
contra-revolucionário mundial liderado pelo imperialismo ianque. Papel que lhe
foi reconhecido por Reagan quando declarou ao New York Times (23/7/81)
depois da conferência de cúpula das sete potências imperialistas em Ottawa:
“Mitterrand rompeu o gelo em
Ottawa. Enquanto almoçávamos, afirmou que a França respeitará absolutamente
todos os seus compromissos com a Aliança Atlântica. Suas declarações frente
à ameaça soviética poderiam ter sido pronunciadas por mim ou por qualquer de
nós”.
Nossa carta ao CC do POSI
denunciou os fatos que levaram Reagan a fazer tal declaração e a convidar
Mitterrand para uma visita de Estado pouco antes da Conferência Norte-Sul de
Cancún.
Denunciamos também a OCI(u) por
não fazer uma campanha contra o governo de Mitterrand: por seu papel em Ottawa,
por seus planos armamentistas e, por outro lado, por manter tropas francesas na
África. Agora somos obrigados a reafirmar estas acusações.
1. A
OCI(u) não ataca o imperialismo francês
Nossa carta ao CC do POSI estava
baseada principalmente na leitura de IO, já que até o momento não havíamos tido
tempo de fazer um estudo exaustivo do Projeto de informe político e outros
materiais. Agora, feito esse estudo, devemos afirmar: em todo o documento que
fixará a política geral da OCI(u) até seu próximo congresso jamais aparece o
termo imperialismo francês; portanto, a OCI(u) não se dá uma política
para combatê-lo.
Só aparece uma menção isolada na
“Declaração do CC” em IO 1030: “O PCI [nome que adotará a OCI(u) depois do próximo
congresso] lutará pelo direito dos povos oprimidos de dispor de si mesmo, em
particular o dos que são oprimidos pelo imperialismo francês”.
É uma menção bastante mesquinha,
para dizer o mínimo. Além do mais, não vai acompanhada de nenhuma bandeira,
para falar de um programa, frente a questões concretas tais como a presença de
tropas francesas na África: a lista de bandeiras não traz uma só a respeito.
Uma pessoa que desconhecesse por
completo os fatos e quisesse conhecê-los através de IO não saberia que a
burguesia e o governo franceses são imperialistas, salvo que tivesse a boa
sorte de tropeçar com as três linhas acima citadas, ou com um artigo em IO 1029
sobre a recente visita de Mitterrand a Argélia. Lendo isto ficaria sabendo, por
exemplo, que “os vínculos entre o imperialismo francês e a Argélia são muito
antigos”, mas não em que consistem esses vínculos, nem como Mitterrand busca
fortalecê-los, nem o que devem fazer os revolucionários para rompê-los.
Tampouco saberia que a
multinacional francesa Pechiney-Ugine-Kuhlman é dona das minas de bauxita de
Camarões e de chumbo, estanho, cobalto e manganês do Zaire e Gabão. Nem que o
governo de Mitterrand mantém ali corpos especiais do exército (os chamados paras)
para “proteger nossos cidadãos se são ameaçados ou molestados”( como disse o
ministro da defesa em uma entrevista), ou seja, para defender as instalações da
P.U.K. se o povo de Camarões, Zaire ou Gabão resolve recuperar suas riquezas
naturais.
Na carta ao CC do POSI citávamos
um comunicado do Grupo de Liberação Armado de Guadalupe que diz: “O atual
governo francês (...) adota com relação a suas próprias colônias atitudes
retrógradas pelas quais deverá prestar contas perante a história”.
Nós agregamos que a OCI(u) deverá
fazer o mesmo, como cúmplice.
2. A
OCI(u) mente sobre sua política
Entre nossas acusações à OCI(u)
estava o fato de não denunciar o papel de Mitterrand como firme aliado de
Reagan e peça chave do dispositivo contra-revolucionário; não se denunciava,
por exemplo, seu papel na conferência de cúpula de Ottawa.
Esta nossa afirmação mereceu a
seguinte resposta indignada de François Forgue em seu artigo de Correspondência
Internacional 13:
“Sem falar sobre o “não se diz
nada’ sobre o que o governo faz em Ottawa: quem siga, por pouco que seja, a
política da OCI(u) sabe que não somente IO consagrou um editorial internacional
a esta questão, como que sua direção colaborou na elaboração de um artigo sobre
o mesmo tema para Correspondência Internacional”.
Não nos interessa o que escreve a
direção da OCI(u) para C.I., revista
teórica e informativa internacional, mas sim o que aparece em IO, o órgão de imprensa que reflete sua política oficial.
Quem seguir a política da OCI(u) pelo IO como fizemos nós, saberá que Forgue
está mentindo: não há em IO um único editorial nacional ou internacional,
nem um único artigo dedicado à conferência de Ottawa, ou que sequer a mencione.
Novamente, como no caso do IRA,
se recorre à mentira consciente para confundir o leitor desprevenido, ou que
não tem acesso à imprensa da OCI(u), contanto que se ganhe a discussão.
3. Um
editorial em seis meses
Em IO 1024 (que saiu um mês
depois do artigo de Forgue) há um editorial internacional sobre a conferência
Norte-Sul de Cancúm, o único que vimos em IO a esse respeito. Ali se diz, ao
contrapor as declarações de Reagan e Mitterrand:
“Mas tanto em um caso como em
outro, se trata de manter e defender o sistema imperialista e manter em seus
postos os governos compradores que governam na maioria dos países
economicamente atrasados devido à sua exploração pelo imperialismo”. E o
editorial conclui:
“Devemos terminar com o
imperialismo, o capital e todas as classe e camadas exploradores e seus
governos. O único caminho é o socialismo. Em todo caso, é intolerável que um
governo levado ao poder pelas massas populares contra Giscard, tome a seu cargo
a política imperialista deste”.
Quando se diz que “devemos
terminar com o imperialismo (...) e seus governos”, se inclui o governo de
Mitterrand? Se é assim, por que o órgão do partido francês não o diz
claramente? Por exemplo: O governo de Mitterrand é peça chave na estrutura
imperialista que explora os países atrasados, como demonstra toda sua política,
assim como sua participação em Ottawa e Cancúm. Os trabalhadores franceses
devem combater esse governo. A mais elementar solidariedade de classe com
nossos irmãos africanos exige que lutemos pela retirada das tropas francesas da
África, pela expropriação das multinacionais e a devolução de suas riquezas
naturais aos povos de Camarões, Zaire, Gabão, Marrocos, Argélia etc”.
Nada disso: o único editorial
internacional em seis meses, dedicado ao imperialismo francês, se limita a
dizer que é “intolerável” que Mitterrand aplique a política de Giscard, sem agregar
que além de intolerável é lógico, já que se trata de um governo burguês.
Digamos, para concluir, que isto
dá uma nova dimensão à mentira de François Forgue. Este editorial que
comentamos não só não havia aparecido quando Forgue escreveu seu artigo, senão
que é o único em seis meses: quem pode acreditar que a OCI(u) está fazendo uma
campanha de denúncia do papel contra-revolucionários de Mitterrand a nível
internacional?
4. A
POLÍTICA SINDICAL DA OCI(u)
NO
MOVIMENTO OPERÁRIO
Vimos em nossa carta ao CC do
POSI qual é, em linhas gerais, a política sindical da OCI(u), e
fundamentalmente, que não tem uma política de denúncia constante e sistemática
das traições da burocracia sindical. Pelo contrário, como demonstramos no caso
da plataforma de Orly, faz suas as propostas das direções traidoras. Ou seja,
não atua como um partido revolucionário, que acata disciplinadamente uma
decisão que considera equivocada, mas ao mesmo tempo a denuncia.
Não queremos repetir aqui esses
argumentos, mas aprofundar em dois aspectos que só vimos de passagem na carta
citada: o apoliticismo sindical e a falta de palavras de ordem pela unidade do
movimento operário.
1. O
apoliticismo, política burguesa
A militância dos trotskistas nos
sindicatos tem um sentido muito preciso: vamos a essas organizações de massas
colocar nosso programa revolucionário e ganhar a vanguarda proletária para o
mesmo, ou seja, para nosso partido. É evidente que adequamos nossas formulações
de forma que fiquem compreensíveis para todos os trabalhadores, inclusive os
mais atrasados. Em cada sindicato, formulamos um programa político específico
com bandeiras para a ação.
A orientação de não fazer
política nos sindicatos faz o jogo do sindicalismo amarelo e da burocracia, que
busca fazer com que as organizações sindicais deixem a atividade em mãos dos
partidos separados das massas.
As bandeiras políticas brilham
por sua ausência nos artigos sindicais de IO na presente etapa. É muito
chocante o contraste com o jornal anterior ao 10 de maio de 1981. Naquela época,
a OCI(u) fazia uma campanha política no movimento operário pela eleição de
Mitterrand. Quase não havia artigo sindical em IO que não terminasse com as
bandeiras políticas do partido: “expulsar Giscard”; “abaixo a V República”;
“votar por Mitterrand e uma maioria PS-PCF” etc. Com isso, se dava uma
perspectiva política às reivindicações dos trabalhadores.
Isto é o que falta agora em IO.
Mais ainda, como dissemos em nossa carta ao CC do POSI, a direção da UNEF se
opôs explicitamente a que o sindicato de estudantes secundários recentemente
criado votasse uma posição política de votar por Mitterrand nas eleições.
Vejamos o que disseram nossos
mestres a respeito. A III Internacional aprovou em seu IV Congresso as “Teses
sobre a ação comunista no movimento sindical”. Uma delas está dedicada
justamente ao problema do neutralismo sindical:
“A influência da burguesia sobre
o proletariado se reflete na teoria da neutralidade, segundo a qual os
sindicatos deveriam ter objetivos corporativos, estritamente econômicos e não
de classe. O neutralismo sempre foi uma doutrina puramente burguesa contra a
qual o marxismo revolucionário leva a cabo uma luta a morte. Os sindicalistas
que não se colocam nenhum objetivo de classe, ou seja, que não apontam para a
derrocada do sistema capitalista são, apesar de sua composição proletária, os
melhores defensores da ordem e do regime burguês”. (Los quatro primeros
congresos de la IC, vol. 2, pp. 216-217).
Leve-se em conta que esta tese
programática estava destinada a armar os comunistas, corrente minoritária nesse
momento, em luta contra a corrente reformista nos sindicatos. Esta é justamente
a situação da OCI(u). Está tentando ganhar força no movimento sindical ocultando
seu programa político, capitulando assim diante “dos melhores defensores da
ordem e do regime burguês”.
2. A
unidade sindical
A citada tese do IV Congresso da
IC afirma: “os interesses da burguesia exigem a divisão do movimento
sindical”(op.cit., p.215). E um pouco mais adiante: “Nos países onde existem
paralelamente duas centrais sindicais nacionais (Espanha, França,
Checoslováquia etc), os comunistas devem lutar sistematicamente pela fusão das
organizações paralelas (...) A preservação da unidade sindical assim como o
restabelecimento da unidade destruída só são possível se os comunistas
levamadiante um programa prático para cada país e cada setor da indústria”(op.
cit., pp. 219-220).
Na França, o movimento sindical
está dividido em várias centrais: CGT, CFDT, CGT-FO etc. A OCI(u) afirmou que a
V República se mantém de pé e sua agonia se prolonga ao não existir uma ação
unificada que provoque sua derrubada final.
Sendo assim, por que não propõe a
unidade sindical, a filiação de todos os trabalhadores a sindicatos por ramo
industrial e a organização de uma central única? Esta teria que ser uma
campanha de agitação permanente no movimento operário. Se a unidade é uma
reivindicação tão sentida pelas operários franceses, que operário de base (não
burocrata de aparato) estaria contra essa proposta? A orientação da OCI(u), de
não reivindicar a unidade sindical, faz o jogo da burguesia e dos aparatos em
seu afã de manter a divisão do movimento operário.
5. A
POLÍTICA SINDICAL DA OCI(u)
PARA O
MOVIMENTO ESTUDANTIL
Nossa carta ao POSI dedicava um
capítulo à política da OCI(u) para o movimento estudantil, política aplicada
por meio do sindicato UNEF Independente e Democrática. Recordemos que esse
organismo é dirigido conjuntamente por militantes socialistas e da OCI(u). Seu
presidente, Jean-Cristophe Cambadélis, é membro do CC da OCI(u).
Dizíamos que a UNEF, chamada
Independente e Democrática para diferenciar-se dos stalinistas de Renouveau,
considera que seu papel consiste em “informar as autoridades de todas as
reivindicações e aspirações dos estudantes”(IO 1000), como resposta ao anúncio
do primeiro-ministro Mauroy, de que a política do governo para as universidades
seria o resultado de uma “concertação e negociação” com o movimento estudantil.
Esta política da UNEF se acentuou
até um grau monstruoso, como o demonstra um comunicado do sindicato estudantil
publicado em IO 1025, onde se diz:
“A UNEF Independente e
Democrática e a Federação da Educação Nacional [FEN, sindicato dos professores
universitários dirigido por socialistas] estudaram a situação da universidade e
se felicitam por:
“1) A revogação definitiva da Lei
Salvasse decidida em 2 de outubro [pelo parlamento];
“2) A decisão do governo de apresentar
em novembro de 1982 um informe para uma nova política universitária”.
Então, além de limitar-se a
informar as autoridade e concertar com o governo as soluções dos problemas
estudantis, a UNE, sob a direção da OCI(u), felicita o governo pelo anúncio de
que, dentro de um ano, publicará um informe sobre a situação universitária. Se
chegou a um grau de degradação tal, que não só apoiam as medidas “progressivas”
tomadas pelo governo, como se antecipa que suas futuras medidas também serão
“progressivas”.
Nossa carta ao C/C do POSI
qualificava a política da OCI(u) no terreno estudantil de “oportunista”. Frente a esses novos fatos, não podemos menos
que modificar nossa apreciação: é uma política de traição direta e consciente
ao movimento estudantil.
Esta política obedece, como
descobrimos posteriormente, razões muito profundas. Devemos dizer que já
suspeitávamos dessas razões, mas agora as mesmas são confirmadas por certos
dados que se tornaram públicos.
1.
Favre responde a Nahuel Moreno
Antes de mais nada, vejamos uma
resposta parcial que a OCI(u) deu às críticas formuladas na Carta. O autor da
resposta é o inefável Luís Favre, em suas intervenção perante o plenário dos
partidos angolanos. Ele não se dignou responder nossa colocação central, de que
a UNEF se havia convertido em correia de transmissão do governo burguês no
movimento estudantil. Se limitou a responder sobre a política de “concertação e
negociação” da UNEF, e de passagem, distorceu grosseiramente nossa posição.
Favre começa esclarecendo, com um
pedantismo que está totalmente fora de lutar em uma discussão séria entre
trotskistas, que leu “um livrinho que não é nem de Lenin, nem de Marx, nem de
Engels, nem de Trotsky, peguei um livrinho que em meu país se chama
‘mataburros’[dicionário], que é para aqueles que têm dificuldade para saber o
significado de uma palavra. Concertação quer dizer discutir, negociar”.
E conclui em um tom irônico:
“Acontece que o governo de Mitterrrand, não é culpa nossa, decidiu abrir as
negociações com o sindicato estudantil, e os sindicatos estudantis disseram:
‘Revogação da lei de orientação’. Os camaradas estão contra que os sindicatos
negociem com o governo e a patronal? Isso é absurdo!
“Vamos recomendar a esse campeão
do “sentido comum” que deixe de lado o dicionário e se dedique a ler um pouco
de Lenin, Marx, Engels e Trotsky. Descobrirá que, efetivamente, nossos mestres
não se opõem à “concertação” (como sinônimo de negociação) dos sindicatos com a
patronal e o governo (“com o diabo e com sua avó”, segundo a conhecida frase de
Trotsky). Mas, contra a corrupta burocracia sindical, correia de transmissão
dos interesses da patronal, se opõem terminantemente a fazer da
negociação/concertação o eixo da atividade do sindicato, como é para a UNEF, a
OCI(u) e Favre.
A tarefa do sindicato é mobilizar
seus filiados por suas reivindicações: no caso do movimento estudantil, por
maior orçamento universitário, melhores instalações, trabalho para os graduados
de acordo com seu nível de capacitação etc. A negociação concertação é uma
tática dentro dessa tarefa central ,uma tática que depende da relação de
forças.
Por exemplo: suponhamos que o movimento
estudantil está se mobilizando por um aumento do orçamento universitário. Se os
estudantes estão fortes, se contam com a solidariedade do movimento operário e
se encontram em condições de levar adiante uma verdadeira luta, proporemos
medidas radicais, tais como ocupação da universidade, manifestações etc, e
negociaremos o fim da luta em troca da satisfação dessa reivindicação. Mas como
somos trotskistas, ligaremos a reivindicação “econômica” a bandeiras de
transição: por exemplo, controle da universidade e o orçamento controlado pelos
sindicatos dos estudantes e professores e dos trabalhadores da Universidade.
Se, pelo contrário, os estudantes
estão lutando sós, o movimento operário está em refluxo, etc, nossas medidas de
luta deverão se adequar a essa situação e limitar-se a abaixo-assinados, cartas
abertas e outras do gênero. Possivelmente negociemos o fim da luta em troca de
que não haja estudantes expulsos, deixando a reivindicação do orçamento para um
momento mais favorável.
Por último, se o governo está tão
forte que consegue impor a “normalidade” nas aulas sem conceder nenhuma
reivindicação, então nos dedicaremos a preparar pacientemente as lutas futuras
para quando surja uma relação de forças mais favorável.
A UNEF e a OCI(u) dizem o
contrário: basta que o governo receba os
delegados do sindicato e lhes diga: “Temos em conta suas reivindicações” para
que a UNEF os felicite publicamente por sua atitude.
Em síntese, para a burocracia
sindical e a UNEF, o eixo da atividade do sindicato é ‘concertar’ com o governo
imperialista contra-revolucionário de Mitterrand. Em linguagem do dicionário,
caro Favre, isso significa “negociar”. Em linguagem marxista, significa
entregar o movimento estudantil atado de pés e mãos ao governo burguês.
Para os trotskistas, o eixo da
atividade é mobilizar os estudantes contra o governo, e negociar com ele como e
quando a relação de forças nos imponha.
2. As
verdadeiras razões por trás de uma política
Ao estudar a política da UNEF e
da OCI(u) para o movimento estudantil, nos perguntávamos com assombro os
motivos profundos da mesma: verdadeiramente acreditavam nas virtudes
revolucionárias do governo de Mitterrand? Não: as verdadeiras razões saíram à
luz pouco depois de enviada nossa Carta ao CC do POSI.
Em
UNEF Inform (órgão do sindicato estudantil) de 7 de outubro, aparece uma
carta do ministro da educação nacional Alain Savary, datada de 30 de setembro,
onde se diz:
“É
necessário (...) reconhecer a representatividade das organizações estudantis e
brindar-lhes os meios para assumir essa representatividade nas melhores
condições de vida democrática. É a dita necessidade que respondeu a
busca, particularmente difícil, dos meios financeiros suplementares que serão
entregues de forma constante às associações sob a forma de subvenções”.
E
Le Monde de 10 de dezembro informa que a UNEF Independente e Democrática
está recebendo um subsídio anual de 200.000 francos, ou seja, 35.000 dólares ao
cambio atual.
Trinta
e cinco mil dólares, além dos “meios financeiros suplementares” que serão
entregues “de forma constante” à UNEF... eis aí a verdadeira causa da política
putrefata da “concertação”!
Já
sabemos que a burguesia tem duas políticas alternativas frente às organizações
sindicais: destruí-las, e quando isso não é possível, corromper seus dirigentes
com dinheiro e brindes.
Cambadélis,
membro do CC da OCI(u) e presidente da UNEF, tornou-se um membro a mais da
confraria de traidores como Maire, Bergeron e Seguy. Não é um oportunista, ou o
é secundariamente. É um traidor, um burocrata corrompido que vendeu o movimento
estudantil à burguesia em troca de trinta e cinco mil dólares além dos “meios
financeiros suplementares”.
Desde
já, nós, os trotskistas franceses, temos pela frente uma campanha no movimento
estudantil: “Fora o judas Cambadélis da direção da UNEF!
NOTA FINAL: Quando estávamos dando os últimos toques neste
documento, nos chegou a versão francesa de nossa carta ao CC do POSI, publicada
no Bulletin intérieur d’information et de discussion international,
junto com uma resposta de François Forgue.
Ainda
não pudemos ler a resposta de Forgue a nossa carta, mas devemos notar o
seguinte: nossa carta ao POSI está datada de 13 de outubro. O “conselho geral”
convocado pela OCI(u) se reuniu em novembro. Este boletim com a versão francesa
de nossa carta tem data de 20 de dezembro. O Congresso da OCI(u) está marcado
para 26 de dezembro.
Isto
significa que os membros desse suposto “conselho geral” não conheceram nossa
carta, e os delegados ao congresso da OCI(u) a conheceram com apenas seis dias
antecedência. No entanto, sim, conheciam, com um mês de antecedência, as
críticas parciais a nossa carta.
Assim
é como a direção da OCI(u) discute....
DOCUMENTOS
DA ORGANIZAÇÃO
COMUNISTA
INTERNACIONALISTA (unificada)
Projeto
de informe político preparatório ao XXVI Congresso da OCI(u), aprovado pelo
Comitê Central de 22, 23 e 24 de agosto de 1981. Seu autor é Pierre Lambert.
Versão em espanhol, Correspondência Internacional nº 15, 12/11/81.
Documento
discutido e aprovado pelo Burô Político da OCI(u), publicado em La Lettre
d’Informations Ouvrieres 10 e 11. Seu autor é Stéphane Just. Não existe
versão espanhola.
Resoluções
do “conselho geral” posterior à divisão da OCI(u), reunido de 21 a 26 de
novembro de 1981. Bulletin intérieur d’information et de discussion
international, nº 1, 30/11/81. Se aclara que essas resoluções se baseiam no
informe de Stéphane Just, “As frentes populares e a política da OCI(u), seção
francesa da Quarta Internacional (Comitê Internacional). Não existe tradução
espanhola no momento de redigir este documento.
Forgue,
François: “Primeira resposta ao camarada Capa”,
Correspondência Internacional 13, outubro de 1981.
Favre,
Luis: “Sobre a frente única antiimperialista”, Correspondência Internacional
10 e 11, julho-agosto de 1981.
Favre,
Luis: Intervenção no plenário conjunto dos dois partidos angolanos aderentes à
ex-CI(QI); atas gravadas, versão espanhola.
Jornal
Informations Ouvrieres, órgão da OCI(u), números 1000 a 1032 (16 de maio
a 26 de dezembro de 1981)
Jornal
UNEF Inform, órgão da União Nacional dos Estudantes da França,
independente e democrática.
MATERIAIS
DA CORRENTE PABLISTA
Pour
l’autogestion y Sous le drapeau du socialisme.
MATERIAIS
DE NOSSA CORRENTE
Moreno, Nahuel: Carta ao Comitê
Central do Partido Operário Socialista Internacionalista da Espanha, 13 de
outubro de 1981.
Capa, Miguel: “O governo
Mitterrand, suas perspectivas e nossa política”, em Correspondência Internacional nº 13,
outubro de 1981.
TEXTOS
Lenin, V.I. Obras Completas,
Buenos Aires, Editorial Cartago, 1970.
Mao Tsé-tung Obras Escogidas,
Pequim, Edições em línguas estrangeiras, quatro tomos, 1971.
Trotsky, L. Escritos,
Bogotá, Ed. Pluma, 1977-79.
Trotsky, L. Programa de
Transición, Bogotá, Ed. Pluma, 1977
Trotsky, L. La revolución
española, Barcelona, Ed. Fontanella, 1977.
Trotsky,
L. On China. New York, Monad Press, 1976
Trotsky,
L. On France, new York, Monad Press, 1979
Trotsky,
L. The Challenge of the Left Oposition. New York, Pathfinder Press, 1975
Trotsky,
L. The Crisis of the French Section. New York, Pathfinder Press, 1977
Trotsky,
L. The First Five Years of the Communist International, 2da. Ed. New
York, Monad Press, 1972.
Trotsky,
L. The Struggle Against Fascism in Germany. New York, Pathfinder Press,
1971.
Trotsky,
L. The Third International After Lenin. New York, Pathfinder Press, 1971
Trotsky,
L. Oeuvres, Paris, EDI, 1981.
Vários
– Documents of the Fourth International, 1933-40. New York, Pathfinder
Press, 1973.
Just,
S. e Berg, Ch. Fronts populaires d’hier et d’aujourd’hui. Paris, Selio,
1971.
Guérin,
D. Front populaire, révolution manguée. Paris,
Maspero, 1979.
Internacional Comunista: Los
cuatro primeros congresos de la Internacional Comunista, Córdoba, Cuadernos
de Pasado y Presente, 1ra. Ed., 1973.
Degras,
J., ed. The Communist International, 1919-1943. Londres, Frank Cass
& Co., 1971.

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