Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

70 Anos do Triunfo de Stalingrado

Por Mercedes Petit (tradução: Eduardo Rodrigues e Paula Alves)

Em fevereiro de 1943 os nazistas se renderam aos soviéticos

“Stalingrado (logo, Volgogrado) está situada ao sul da antiga União Soviética (URSS), onde começa o Cáucaso. Até então, os nazistas haviam chegado até ali. A Batalha de Stalingrado mudou o curso da Segunda Guerra Mundial e marcou o início do fim do poder de Hitler."

Em 1925, a contrarrevolução política havia se instalado na União Soviética. Começava o “culto à personalidade” do chefe do aparato burocrático, Joseph Stalin. A cidade de Tsaritsin, onde Stalin foi comissário político durante os meses da Guerra Civil, foi rebatizada de Stalingrado. Menos de 20 anos depois era uma importante cidade industrial, com cerca de 600.000 habitantes. Se produziam motores para automóveis e tratores, armas e munições, produtos petrolíferos e químicos. Havia serrarias e silos de grãos, um entroncamento ferroviário que ligava Moscou à região sul, e um movimentado porto fluvial, no rio Volga.

A Operação Barbarossa

Um dos principais objetivos estratégicos do nazismo era esmagar a União Soviética. Leon Trotsky o denunciava desde seu exílio, e também a Quarta Internacional fundada em 1938. O ditador Stalin sustentava o contrário. Em agosto de 1939 assinou um “pacto de não agressão” com Hitler, facilitando a invasão da Polônia e o início da guerra.

Como parte da eliminação e assassinatos contra todo vestígio de oposição ou "trotskismo", Stalin decapitou o alto comando do Exército Vermelho. E sistematicamente rechaçava os relatos de seus espiões que, desde o Japão e Alemanha, vinham informando sobre os preparativos da invasão nazista à União Soviética.

Em 22 de junho de 1941, o previsível aconteceu. Começou a Operação Barbarossa: a implantação colossal de tropas terrestres e aviões cruzou as fronteiras, penetrando na desprevenida União Soviética como faca quente na manteiga. Em dezembro, foram ocupadas a Lituânia, Bielorrússia e Ucrânia. Cerca de 1.500 aviões foram destruídos em terra e milhares de tanques. Mais de dois milhões de soldados foram feitos prisioneiros. No norte, a cidade de Leningrado (que desde 1991 voltou a se chamar São Petersburgo, novamente) sofreu um terrível cerco, que durou até janeiro de 1944, com centenas de milhares de mortos de fome. Os nazistas chegaram aos arredores de Moscou, mas a partir de 1941 foram barrados.

Passada a surpresa inicial, a União Soviética conseguiu pôr em pé o Exército Vermelho e a heróica resistência do povo soviético. Havia começado a “Grande Guerra Patriótica”. Por óbvio, Stalin se autonomeou Chefe de Defesa. Ao mesmo tempo, logo depois do desastre inicial, foram postos à frente do Exército generais soviéticos muito capacitados, como Zukhov (responsável principal pela defesa de Moscou) Rokossovski ou Chuikov, entre outros.

A Batalha de Stalingrado

Em dezembro de 1941, Hitler, descontente com o resultado da primeira ofensiva, tomou pessoalmente o controle do Alto Comando. A URSS era um osso mais duro de roer do que o previsto. Em meados de 1942, o líder nazista colocou em marcha uma nova operaçãoque, buscando manter o que já havia alcançado, permitiria aos nazistas avançar até a estepe de cereais e aos poços de petróleo do Cáucaso. O início, mais uma vez, foi auspicioso para os invasores.

Em fevereiro de 1943, os nazistas se renderam aos soviéticos. Sobre Stalingrado lançaram o 6º Exército do Marechal Von Paulus, o 4º Panzer de Hoth, dois exércitos romenos e um exército italiano. A Luftwaffe (Força Aérea alemã) reduziu a escombros os bairros da cidade situados na margem leste do rio Volga. A rendição parecia iminente. Mas não foi assim. As tropas de Chuikov caíam ou eram feitas prisioneiras, enquanto lutavam obstinadamente entre as ruínas. Ao mesmo tempo, desde o rio Don ao oeste, o general Rokossovski pôde cercar as tropas alemãs. Em 23 de novembro de 1942, os soviéticos conseguiram cercar os invasores, sitiando o 6º Exército de Paulus e um grande contingente dos Panzer. Começou o que alguns chamaram de "a maior carnificina da história". Entre a fome, os refúgios em porões e esgotos, e os franco-atiradores, se enfrentariam quarteirão a quarteirão durante mais de dois meses.

O terror que implementou Stalin na URSS desde a década de 30 se vivia dentro do Exército Vermelho. O historiador Beevor* afirma que durante a batalha foram mais de 13.000 execuções sumárias e judiciais, por tentativas de deserção ou ferimentos auto-inflingidos. Muitas dessas vítimas eram trabalhadores recrutados em grandes centros fabrís, que com frequência eram fusilados diante de dezenas de companheiros de divisão. Os suicídios eram definidos como "atos de covardia"**. Os sofrimentos da população civil foram pavorosos. O filme "Círculo de Fogo" mostra a brutalidade dos oficiais soviéticos, que assassinavam à sangue-frio a quem hesitasse no avanço, mas também o heroísmo de militares e civis que permitiram a vitória.

A Vitória e a "Glória" de Stalin

Em janeiro de 1943, a resistência alemã estava desmoronando. No dia 08, o general Rokossovski convocou a rendição de Paulus, cujos soldados em serviço recebiam uma ração diária de 200 gramas de pão. Mas Hitler continuou a rejeitar a capitulação. Segundo ele, as tropas encurraladas fariam "uma contribuição inevitável à salvação do mundo ocidental".

Até o final do mês, bandeiras brancas começaram a aparecer nas trincheiras alemãs, sem a permissão de seus superiores. Alguns atiravam em si depois de escrever uma carta de amor ao Führer. Em 31 de janeiro, finalmente se rendeu Paulus. Foi feito prisioneiro junto com 90.000 soldados, os que haviam sobrado dos 360.000 do início. Em 02 de fevereiro,  se firmou a capitulação total. A tremenda derrota marcou o início da retirada do sul da União Soviética e, finalmente, de toda da frente oriental.

A vitória soviética em Stalingrado mudou o rumo da guerra. Foi o começo do fim do nazismo. A sofrida população da URSS, em primeiro lugar os soldados alistados no Exército Vermelho, que tinha seguido dia após dia os acontecimentos no Volga, levantou sua moral de maneira indescritível.

O ditador Stalin, por sua parte, pôde reacomodar seu papel após o desastre provocado em 1941 por sua condução contrarrevolucionária e burocrática. Se autoadjudicou a "glória" pelo triunfo e foi nomeado marechal (como Napoleão em sua época). Os autênticos protagonistas, os generais comandantes, a tropa e a população que resistiram com dolorosos sofrimentos, passavam ao segundo plano. Ele reescreveu a história dos desastres de 1939-41:

Faziam parte do "genial plano de Stalin" para esmagar os alemães!

A vitória de Stalingrado devolveu aos povos ocupados a esperança de ser possível derrotar os nazistas. A resistência se fortaleceu em todas as partes. O avassalador avanço do Exército Vermelho não parou até,  finalmente, libertar Berlim em maio de 1944.

Desde a liberação, uma das estações de metrô de Paris se chama Stalingrado. O "paizinho Stalin" teve outra sorte. Em 1956, veio a "desestalinização". Em 1961, seu sucessor Nikita Kruschev (quem havia sido comissário político durante a batalha de Stalingrado) mudou o nome da heróica cidade. Desde então, se chama Volgogrado.

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* Stalingrado, Editorial Crítica, Barcelona, 2000. Anthony Beevor é autor de numerosas obras sobre as grandes batalhas da segunda guerra, e também uma da guerra civil espanhola.

** O filme "Enemy At The Gates" ("Enimigo a las puertas", na América Latina, "Círculo de Fogo", no Brasil) mostra a brutalidade dos oficiais soviéticos, que assassinvam a sangue-frio a quem hesitava em avançar, mas tambem o heroísmo de militares e civís que permitiu a vitória.

Fonte: UIT-CI

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