De vez em quando, diante de um espelho, fotografia ou por conta do encontro com algum velho conhecido, nos damos conta da vida como ela é. Posto que um dia suas mãos foram menores, seus traços mais suaves e sua feição não fora cabal como agora parece... Eis então a consciência do Tempo se manifestando. E uma torrente de inferência premonitória, questionadora e nublada se espalha em nossos sentimentos, perpassando desejos e temores na incógnita do futuro...
Já é Abril, cara. E Abril já está terminando. Hoje é aniversário de um amigo, está fazendo 25 anos. O conheço desde meus 15 ou 16. E eu já tenho 20. Estou na faculdade, no meio do curso. Minha avaliação semestral já está na segunda etapa, já já estará terminando. Tem material pra estudar, atividades pra cumprir, depois provas de novo. Ocupam vez nas adjacências as atividades extra-curriculares e, pr'além delas, as coisas que me interessam mas que não contribuem diretamente com a formação técnico-acadêmica proposta por meu curso. Eu tenho a incumbência de ser diligente; O cotidiano segue as diretrizes, as normas, os esquemas menores, ditados e monitorados pelos esquemas sociais maiores que regem o mundo. Notícias de jornal [sem mencionar a tendenciosidade dos meios de comunicação] contam como vai o país, a conjuntura política, e nós, as partículas sociais, perambulamos entre possibilidades partidárias, ações políticas desvinculadas do governo, ONG's, fatos políticos [veja, por exemplo, toda a crítica sobre a hidrelétrica de Belo Monte ( para vídeo de Maurício Tolmasquim, Pres. Empresa de Energia Elétrica, e Ildo Sauer, conselheiro IEE/USP, analisando a polêmica, Clique aqui)], fatos sociais [os danos sobre as terras e as comunidades indígenas de lá e o interesse na mão-de-obra barata que a região vai angariar pro projeto e os protestos que andam rolando (horrível ver, por exemplo, gente falando absurdos sobre usar a força contra os indígenas, que serão vitimados mais adiante, pra parar os protestos, como na parte de comentários do Diário do Pará, clique aqui ) ], algum desastre natural [Haití, Chile, inundações e deslizamentos no Sul do Brasil], alguma alarmada epidemia [essa H1N1 que me fez tomar uma vacina com o mutirão de vacinação realizado agora] e etc, ou podemos nem sequer nos meter a procurar entender nada, nos dedicando ao nosso caminho, feito burro-de-carga com viseira...
Seria loucura ou muita ignorância viver feliz e satisfeito ao considerarmos a amedrontadora história recente do Brasil, a rasgante e colossal história recente da humanidade, o século XX, o século sangrento, as duas guerras mundiais e os perigos de auto-destruição da humanidade através de guerra nuclear, a enegrecida epopéia dos sonhos Comunistas e a dilaceração, amputação, à traição, dos sonhos de todo um planeta de escravos modernos, o próprio presente que é minado de problemáticas em âmbitos regionais ou planos internacionais [pra quem não sabe: ainda existe MUITA guerra, morte, fome e injustiça social], a imensa proporção da problemática ambiental que se apresenta hoje numa configuração nunca vista antes pela humanidade e etc. Então, como é que você, que constitui a juventude dos nossos tempos, tolamente, se desliga? "Ah, esse negócio da ditadura acabou, agora está tudo bem", "Ah, política não se discute", "Ah, se cada um fizer seu papel certinho, no seu canto, fica tudo bem", "Ah, cada um com seus problemas". Trabalha, estuda, namora, festeja, reclama e sofre quieto escolhendo o caminho mais condizente com a sua realidade, já que apossar-se de certo caminho implica abrir mão de outro naturalmente - desconsiderando as exceções, claro, quando o indivíduo é privilegiado, quando tudo está ao alcance da mão do indivíduo, quando é tudo simples de conseguir, sua carteira cheia da grana, morando em algum condomínio, bairro bacana e a vida é tranquila, posto que pra maioria é muito complicado ter sequer o básico. E essa realidade é angustiante. Você, na corda-bamba, equilibrando-se pra alcançar a estabilidade e com medo de cair na miséria... Mas, sendo essa a realidade propriamente dita, precisa posicionar-se, usando o que tem. Dinheiro é necessário, decisivo no nosso modo de vida. É preciso emprego, emprego demanda capacitação técnica, capacitação necessita estudo, estudo demanda instituições estudantis, que demandam recursos pra prática de sua finalidade, que demanda a correta distribuição destes recursos pelos seus mantenedores, numa cadeia sócio-política-econômicamente gerida pelas circunstâncias das normas, do governo, do sistema ao qual se submete, das condições regionais, das condições nacionais e etc. Eis a gaiola de ferro posta, invisível, mas sensível e aprisionadora. No entanto, ninguém deve ser bobo de ninguém, viver em servidão e submeter-se ao que não é necessário, daí a importância de cidadãos ativos politicamente, reivindicando seus direitos instituídos e instituindo seus direitos reivindicados.
Além desse nível amplo de obrigação labiríntica para com a nossa própria sobrevivência, existe ainda outro labirinto menor, mais pessoal, mais íntimo, relacionado ao nosso bem-estar de espírito, que, fluidicamente, abrange tudo e mais um pouco, se comunicando com a esfera pessoal de outros indivíduos de espíritos tão angustiados quanto a gente, maltratados e machucados, com sua humanidade cheia de marcas, desilusões que, por vezes, promovem na pessoa uma revolta e uma consequente inversão de valores, fazendo com que ela passe a considerar justas as injustiças e correto o que é errôneo, corrompendo seu senso de justiça. Em dados casos, que não são poucos, drogas, bebidas, orgias, entretenimentos, alienações, um gosto pela ignorância, pelas bizarrices espetaculosas e demais vaidades viciosas visam conduzir à um estado de felicidade e preencher o anseio advindo de vazio depressivo sem esperanças, quando isso nada mais é que pura usurpação do lugar que a felicidade deveria ocupar sem necessidade de fetiches para ser alcançada; Tem a fé em absolutismos e tiranias transcendentes, que faz um corte epistemológico em torno de um único âmbito de entendimento e negligencia todos os demais, tornando o todo submisso a um fragmento de si próprio, colocando o todo submisso à uma parte (parte talvez dissimulada, enganosa, equivocada) da interpretação do mundo, gerando segregações por conta do prender-se em particularidades de uma dogmática axiomática filosófica, ao invés de generalidades fáticas constatáveis, numa postura presunçosa, auto-suficiente e egocêntrica sem diálogos com o resto do mundo, baseado num fantasiosismo supersticioso crônico histórico mantido por conta de interesses de determinados grupos.
A humanidade se viu aturdida e desiludida, por consequência de um trauma histórico pós-guerra, bem como teve seu temperamento resfriado por conta da conquista de uma série de demandas universais. Existiu um enfraquecimento das grandes idéias, do hábito dos grandes feitos, das vanguardas. No entanto, essa espécie de pausa é passageira, e a reconstrução da consciência humana de insatisfação com as problemáticas do mundo se dá, naturalmente, pela própria convivência com o que é sensivelmente inaceitável e a consciência histórica e o poder de auto-controle do homem, exercido pelos grupos de indivíduos que tomam a responsabilidade pra si no caminho da evolução da humanidade rumo ao seu bem-estar, na transformação social. A humanidade é responsável pela educação da humanidade, sendo cada membro da espécie humana responsável pela educação de seus irmãos de espécie [assim deveria ser, pelo menos]. As pessoas deveriam ser mais responsáveis...
Resumindo, tudo está acontecendo ao mesmo tempo o tempo todo, e o tempo passa, e nenhum acontecimento é eterno, portanto, gerando natural e absoluta singularidade de cada momento, posta sua transitoriedade constante. E lá está você, atirado ao mundo elétrico. Girando em velocidade inimaginável pelo mistério sideral, enquanto as sociedades, com a predominante finalidade egoística que possuem (com a exploração do homem pelo próprio homem que o Capitalismo trata como direito), se degladiam em nome de sua hegemonia infundada sobre o planeta, enquanto o eco das canções de luta dos povos pela igualdade e justiça real ressoa bradando que a luta continua, em nome de uma humanidade digna e fraterna de fato.
Claro que eu, nas minhas condições específicas, só consigo fazer essas análises aéreas atualmente. Sou um jovem estudante apenas, na ignorância do princípio, eternamente aprendiz, mas que não vai se privar de declarar seu pensamento por ainda não saber de tudo.
Afinal, quem sabe?
Só sei que o tempo vai passando, passando e passando, e as decisões são constantes, que a história é continuada e que tudo o que se vive atualmente é fruto de situações passadas que, portanto, devem ser sempre levadas em consideração, tendo em vista a lenta transfomação do mundo em contraste com a curta duração de nossas vidas. E eu não gosto dos pessimismos filosóficos fatalistas, derrotistas e fragilizados (esse negócio de sermos incompletos, fracos, descartáveis, criados pra fazer a vontade do criador, feito um utensílio doméstico num processo culinário - sou contra essa coisificação do homem), tanto quanto intimistas e pessonalíssimos que são, que, por vezes, não passam de um tremendo lamento erudito inútil posto numa didática hermética.
Hermético feito essa droga de texto,
onde eu não sei falar de modo sucinto e claro e acessível.
*decepção*
[...]
Obs: Pra um blog que não tem nenhum objetivo, eu acho que esse post foi bem diferente dos demais. Tirando a parte mais subjetivista toda, eu ainda coloquei links pra outras páginas, cara. Mas eu ainda faço umas bagunças metodológicas muito, muito básicas... ¬¬' *fica refletindo sobre a coisa*
Sobre este blog:
Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
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Um comentário:
"quando isso nada mais é que pura usurpação do lugar que a felicidade deveria ocupar sem necessidade de fetiches para ser alcançada."
"A humanidade é responsável pela educação da humanidade."
Nenhum comentário seria a altura de tanta consciência de mundo. Extenso e com muito conteúdo.
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