Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pequenas Perstectivas Infantis e algumas Cenas Embaralhadas

Eu não vou enganar: A minha compreensão é compreensão de quem está aprendendo. A minha vida começou fazem duas décadas, mas estas duas décadas eu tento avaliar com olhos hulmides...

Durante uma época eu fui criança, deixei passar informações que iam além do meu entendimento, confundi idéias, esbarrei nas complicações da infância, tropecei no trato com os outros, sapequeei sorridente, choraminguei bobagens... Nessa época, era o que todo mundo um dia foi. Um bichinho, filhote de humanos, em processo de aprendizado.

Com o avançar das séries na escola, com o perambular cada vez ousado meio o pequeno emaranhado das margens de mato nas ruas de piçarra próximas a minha vizinhança, com os coloridos canais de televisão, com meus professores e coleguinhas multiplicando, com as palavras que fui colhendo timidamente e as demais informações as quais fui tendo acesso, fui crescendo. Criando mais consciência do que me torna eu e o que torna os outros as pessoas que são...

De algumas pessoas eu gostei, de outras eu tive medo. Algumas pessoas me deixavam curioso, outras me causavam uma espécie de repulsa imediata ou gradual. Brinquei, briguei, apanhei, bati e fugi. Diversas pequenas situações que encerravam em si o meu desespero, a razão da minha vida, o equilíbrio do universo. Coisas de infância, pré-adolescência e adolescência.

Eu me apaixonava todo ano. Em cada turma sempre existia a menina dos meus olhos. Eu sempre arranjava alguém pra ser o meu indigníssimo rival, alguém pra ser o meu melhor amigo, alguém pra me servir de modelo e assim por diante. Geralmente isso era tudo segredo.

Tive professores favoritos aos quais prestava muito respeito, oferecia afeição e aquela espécie de simpatia de criança. Tive professores que corroboraram com o meu ridículo na frente de toda a turma, me colocando em situações escabrosas nas quais a minha reação era um misto de tudo possível mais explosivos atômicos. Uns me fizeram odiar disciplinas, outros ao contrário e, em outros momentos, o inverso.

Eu desenhei em sala de aula, fui humilhado e desisti da Matemática, me senti realizado por fazer bem qualquer pequena atividade, quis pulverizar o colégio, tirei uma foto vestido de corredor de fórmula 1, me escondi debaixo da cama dos meus pais com medo de parentes distantes e causei o pânico por parecer ter sido raptado... Meti a mão em bolo de aniversário alheio, disse uma coisa e menti acusando de ter sido outra pessoa, apanhei de cabo de vassoura, tive medo de uma senhora muda que frequentava a casa de minha avó, brincava com ovos de calango, quebrei vasos da minha mãe com bola de futebol, fiz xixi na cama, fiz escândalos noturnos pra não dormir sozinho...

Joguei videogame com meus primos, tentei fazer amigos em outras ruas onde tinha garotos da minha idade, terminei a catequese só depois de uma reprovação (foram 3 anos, Deus - lembre-se do meu calvário), comecei a fazer inglês, deixei o videocassete gravando desenhos que eu tinha medo de assistir de madrugada, refiz falas de diversos desenhos animados no gravador da minha mãe, escrevi uma carta pro papai Noel que eu sabia que era o papai. Desisti do papagaio, desisti do futebol, desisti de brincar com o pessoal da minha rua. Ganhei fitas e bonecos dos Cavaleiros dos Zodíacos que eu achava muito loucos. Meus irmãos escolheram arbitrariamente todos os seus personagens favoritos do desenho (inclusive com direito a duas escolhas, por parte do meu irmão mais velho) e pra mim só sobrou o Shun de Andrômeda que era um cavaleiro de armadura cor de rosa e cabelos verdes que usava umas correntes muitos maneiras, mas que era um óbvio viadinho inrustido.

Na adolescência me apaixonei valendo na escola. Recebi uma carta de uma garota apaixonada que tinha uma amiga que eu gostava, mas disso só vim dar-me conta quando tudo já era só uma memória distante. Gostei também de uma menina que foi embora morar em outro país. Fiz três amigos com os quais eu vivia discutindo e ficando de mal durante dias e dias. Dei um fora implícito numa menina maravilhosa, dei um fora implícito n'outra menina maravilhosa, não beijei a menina que eu queria beijar e fiquei pela primeira vez com uma menina que eu não gostava, não gosto e nunca ei de gostar. Tragédias, não? Burradas, sim?

Ainda nessa época comecei a escutar música com guitarra, baixo e bateria. Quis montar uma banda, fiz inúmeros planos, letras, capas de disco e nunca montei a bendita banda... Deixei o cabelo crescer e fui muito sacaneado por isso. Me destaquei em História e, em contrapeso, desisti também de Química e Física. Entrei em crises existênciais, odiei os meus pais, odiei todo mundo, quis botar a mão numa metralhadora e depois percebi que eu era um babaca.

Depois mudei de idéia. Depois mudei, mudei, mudei muito. De pouco em pouco eu virei um sábio, depois um semi-deus, depois um rapazote indeciso sem perspectivas de futuro não-artístico, depois um carinha divertido, depois um cara centrado e comecei a digitar textos em documentos de word, mas não fiz beckup e perdi as mais de 40 páginas de ladainhas pseudopoéticas, pseudofilosóficas e pseudotudomais. Descobri uns canais pornôs que desnudaram o lado mais prazeiroso da existência carnal, mas ao mesmo tempo me viciei no Cartoon Network da TV a cabo, o que talvez tenha evitado que eu me tornasse tão pervertido quanto certos colegas que tive no Ensino Fundamental. Apareceram uns poucos pêlos no meu corpo e depois fiz 16 anos.

Numa época, lia o dicionário todo dia achando que podia aprender todas as palavras, tentei criar um gráfico que contivesse tudo o que eu sabia, de modo que assim eu pudesse saber o que faltava aprender pra, com muito esforço, um dia saber todas as coisas do mundo... Até me tocar que talvez isso não fosse possível. Percebi que a gente vive aprendendo. Percebi que aprender a aprender é o passo mais fundamental de todos. Criei teorias que foram esmagadas pela realidade, pelos outros e mais tarde por mim mesmo.

Eu jurei que ia conseguir... E talvez um dia eu realmente consiga. Mas até lá, eu me pergunto: conseguir o que exatamente? As máximas possíveis pra abarcar o que penso possuem muitos nomes...

Mas eu não quero usá-los hoje.

[...]

O inferno e o céu se chocaram, a alucinação desvaneceu, engoli em seco e dei meus primeiros passos. Rumo a um mundo diferente, cheio de regras desregradas, cheio de complexidades. Um mundo de loucuras premeditadas. Lugar onde autodomínio, sinceridade e benevolência são tesouros raros...

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