Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

COLETIVO VAMOS À LUTA: no 52º Congresso Nacional da UNE, em Goiânia. [integrando a Oposição de Esquerda na UNE]



O 52º Congresso Nacional da UNE foi minha segunda grande experiência na reunião do movimento estudantil e me serviu como prova prática do descaso da
direção majoritária da UNE em relação a todos os problemas da Educação e as demais demandas sociais. E devo dizer que é impossível mascarar o governismo que assola a União Nacional dos Estudantes. Tendo em vista que desde a abertura do CONUNE podia-se constatar o papel que a entidade assumia: o papel de palco para o Governo. Lula foi recebido com ovação pelos oradores, aclamado pela direção majoritária (UJS/PCdoB e PT) numa babação completamente desnecessária quando se consideram os inúmeros problemas da Educação e os tantos avanços da política Neoliberal permitidos pelo governo.

"QUEM É? QUEM É? VAMOS À LUTA NO LOCAL!"

Logo de início, na abertura, uma PROUNIsta foi colocada para discursar sobre os benefícios do programa e de sua experiência de conseguir adentrar numa universidade (particular), sem questionar em nenhum momento a respeito de seu direito de estar estudando em uma Universidade Pública gratuita e de qualidade. Nem mencionou que com a isenção dada às universidade privadas pela adesão ao Prouni poderia gerar 4 vezes mais vagas numa Universidade Pública de qualidade, atendendo ao tripé ensino, pesquisa e extenção. Nem falou sobre o sucateamento da educação pública, nem da necessidade de se investir 10% do PIB com a maior urgência nessa área... Só agradeceu.

Nós do coletivo Vamos À Luta, não recebemos o ex-presidente sem críticas e cobranças, uma vez que visamos atender a uma necessidade de radicalização do movimento estudantil condizente com a atual conjuntura internacional e nacional, onde organismos internacionais forçam inúmeros países a atender as exigências do império por meio de inúmeros cortes sociais e extinção de direitos, com o intúito de fazer com que a juventude e a classe trabalhadora mundiais paguem pela crise estrutural do capital. A majoritária não abre espaço para que a Oposição se pronuncie, portanto, fomos incisivos e não poupamos garganta e cantamos palavras de ordem criticando o governo, para que fôssemos escutados:

"Ô-Ô-Ô DILMA, QUE PAPELÃO! CORTANDO VERBAS DA EDUCAÇÃO!"


"UJS, NÃO LEVE À MAL: O GOVERNO LULA DEU O VETO NO PRÉ-SAL"


"Ô-Ô-Ô-Ô-Ô, CADÊ O DINHEIRO?!
A DILMA COMANDA O BONDE DOS EMPREITEIROS!"


"VIVA À GREVE DOS SERVIDORES, VIVA À GREVE DOS SERVIDORES!"

Inúmeras são as constatações de que a direção majoritária da UNE atua de modo a frear as mobilizações no Brasil, ignorando os problemas sociais e ataques do governo do PT-PMDB-PCdoB e demais, servindo de cabo eleitoral e funcionando como escadinha para a conquista de cargos no poder, evitando debates fundamentais (como foi o caso do g.d. sobre o novo Código Florestal do Aldo Rebelo (PCdoB), que foi implodido pela majoritária), não mobilizando a classe estudantil contra o aumento das passagens de ônibus em todo o Brasil no início do ano (o que a Oposição de Esquerda fez), faltando com apoio às greves dos servidores públicos da Educação que reivindicam melhores condições de trabalho (que a Oposição defendeu no congresso, contando inclusive com a presença de trabalhadores técnico-administrativos grevistas), assim como a falta de denúncias dos inúmeros escândalos de corrupção que vemos, bem como a ausência de crítica sobre os sigilos do governo Dilma em torno das licitações para a construção das suas grandes obras e dos arquivos da Ditadura Militar brasileira - que reprimiu estudantes duramente.

A direção da UNE transformou a passeata que se seguiu a recepção de Lula em uma espécie de trio elétrico de auto elogios (a Juventude do PT só fazia duas coisas: escutava músicas no último volume e se envaidecia - o que me chamou muito a atenção), enquanto nós da Oposição de Esquerda à majoritária falávamos a respeito dos inúmeros problemas sociais que merecem solução urgente como: auditoria da Dívida Pública, parar o projeto jurássico da Hidrelétrica de Belo Monte e investir em energias limpas, a priorização do Ensino Público gratuito e de qualidade, defesa dos 10% do PIB para Educação já (e não somente para 2020, escalonadamente, como quer a juvetude do PT e a UJS), o Petróleo tem que ser nosso, à favor do PLC 122 que criminaliza a homofobia, parar o Código Florestal do Aldo Rebelo que anistia desmatadores e legitima os crimes no campo, dentre inúmeras outras pautas fundamentais como a Reforma Agrária. A Oposição de Esquerda falava sobre tudo isso enquanto os governistas diziam "Vamo lá, tá bonita a passeata, somos a juventude do PT. Que lindo! Toca o som!" e seguiamos caminhando. Quanto mais alto falávamos ao microfone de nosso carro-som, mais alto eles colocavam o volume das suas musiquinhas...


Na Espanha, na Grécia, no Egito, na Palestina, na Europa, e aqui ao lado no Chile, as passeatas da juventude tem crescido e radicalizado, tomando as ruas e somando muito mais mobilizações do que aquelas das históricas datas que estudamos na escola, como o Maio de 1968 - como bem observou um de nossos companheiros do Vamos À Luta. "A juventude se mobiliza porque é seu futuro que está em jogo! Cada vez mais perdemos o direito à aposentadoria, o direito à Educação Pública gratuita e de qualidade, o direito à participar da construção de nossos próprios países, de nosso próprio mundo", cada vez mais perdemos o direito à construir nossa História, perdemos nosso direito à emprego, à bons salários, à dignidade e vida plena, por conta de uma crise internacional da qual não temos culpa nenhuma! Todos somos INDIGNADOS, como apontamos em nossa tese (clique e leia na íntegra). Pois no Brasil não é diferente! 80% dos estudantes universitários estão matriculados em universidades pagas, somente 20% dos universitários do nosso país estudam em universidades públicas! Das 10 piores universidades do nosso país, 8 são particulares, são pagas!



"E QUEM SÃO ELES QUE NÃO CANSAM DE LUTAR?!
INDIGNADOS, VAMOS À LUTA JÁ!"

São inúmeros problemas... E a direção majoritária da UNE não os discute. Não mobiliza, não luta como antigamente, na época da Ditadura, das Diretas Já, dos Caras-Pintadas, do Fora Collor. São vinte anos de imobilidade! De UJS na direção da UNE. A independência da entidade está completamente perdida para o governismo e para a propaganda do status quo. Exatamente como o meu coletivo estudantil havia me alertado e como pude constatar, assistindo de perto!

Percebo que é justamente por tudo isso, e muito mais, que apontamos o dedo na cara, dando nosso recado, utilizamos diversas palavras de ordem politizadas, cobramos e denunciamos o governo, sem pedir licença a ninguém, porque é nosso dever lutar e construir um movimento estudantil crítico e independente que defenda os interesses da classe estudantil e da classe trabalhadora (na qual estaremos inseridos futuramente), cumprindo o papel real do militante estudantil - que a majoritária da UNE abandonou.

E não podemos simplesmente abandonar a UNE. Pois ela, por conta de seu passado de lutas, ainda aglutina uma grande massa estudantil que simpatiza com as mobilizações sociais. Se abandonarmos a UNE, abandonares uma infinidade de estudantes sob o comando de uma direção alienante que os fará de massa de manobra com seus discursos de comodismo governista. O papel que assumimos é o do diálogo com essa base numa atuação simpática, pedagógica e profundamente crítica sobre os rumos do movimento estudantil e as consequências dessa direção que engessa as mobilizações. Nossa disputa não é simplesmente pela entidade e seus cargos, mas pela consciência da classe estudantil. Que deve tomar os exemplos internacionais da mobilizações estudantil e dar uma guinada à radicalização necessária.

"ESPANHA, EGITO, PALESTINA,
QUE SIRVAM DE EXMPLO PARA A AMÉRICA LATINA!"

"EU QUERO VER NO DIA A DIA,
SÓ NO CONGRESSO UJS É MAIORIA!"

O fato da Oposição de Esquerda ter praticado uma dinâmica organizada contra os governistas também foi um ponto muito importante nesse congresso, sinalizando possibilidades de uma atuação conjunta e unificada para o futuro, desde que atendendo a uma programática acertada e clara de conduta. E - impossível negar - construímos juntos o bloco mais entusiasmado, mais dinâmico e crítico de toda a UNE, de modo que é perceptível o fortalecimento e ampliamento da esquerda nesse 52º congresso.

O meu coletivo, o Vamos À Luta, participou de vários debates, ferrenhamente, com nossos militantes fomentando o debate sobre o pobre monólogo da UJS de que está tudo lindo e maravilhoso, dando dados concretos, enriquecendo a criticidade do congresso e oferecendo uma opção aos estudantes que não estejam tão a par da realidade política que atravessamos, agitando com palavras de ordem e demonstrando os ventos indignados que sopram sobre o mundo. De modo que saio desse congresso com muito orgulho de ter ficado tão rouco, superando os tantos contratempos que a esquerda sempre enfrenta com a dificultação de sua atuação, em alojamentos precários, de banheiros péssimos, com falta de água, situados distante do congresso, com ônibus problemáticos e tentativas de censura, como as que eu e outros companheiros meus sofreram durante os momentos próprios para nossas intervenções.

Saímos atendendo ao que nos propomos enquanto coletivo estudantil. Agregamos companheiros para a nossa luta diária e praticamos o diálogo com a base da UNE. Contamos inclusive com ex-integrantes da juventude do PT, com ex-integrantes da UJS e independentes que se somaram a nós do Vamos À Luta, compreendendo e reconhecendo a nossa posição e a necessidade da continuidade da luta que empregamos. Acabou que minha delegação voltou pra casa entre discussões e pronunciamentos emocionados de como estivemos acertados em nossa linha e proposições, de como nos dá orgulho estarmos atuando no movimento estudantil e de como continuaremos lutando, independentemente da UNE, no dia a dia, em cada DCE e CA, em nossas universidades, apoiando as demandas sociais e as lutas dos trabalhadores. Com o fogo incendiário dos Indignados aceso mais forte ainda, aquecendo nosso espírito de luta nesse segundo semestre de 2011. Porque amamos a nossa luta, que é luta de amor!

Tenho muito orgulho do Vamos À Luta e da camisa da Oposição de Esquerda que vestimos conjuntamente com os companheiros dos demais coletivos nesse congresso. Espero ótimas atuações com o nosso calendário de lutas.

"VAMOS À LUTA JUNTOS, ROMPENDO AS AMARRAS,
LEVANTE O CONTRAPONTO OPOSIÇÃO UNIFICADA!"
(palavra de ordem cantada pela oposição de esquerda que entrou organizada na arena, com a força de quem acredita de verdade no que faz)




"NÃO, NÃO, NÃO NOS REPRESENTA!"
(palavra de ordem usada pela Oposição de Esquerda contra a direção majoritária da UNE durante a plenária final - estudantes de costas à direção que abandona as lutas históricas do movimento estudantil e abraçam o governismo acriticamente)

Um comentário:

Eraldo Paulino disse...

Lembro de uma fala tua, numa plenária realizada em frente ao ginásio. Na ocasião, observavas o quanto as previsões (proféticas eu diria) da vanguarda de esquerda se confirmavam a cada ato, a cada não ato, a cada discurso e a cada falácia.

Como diria um poeta de nossa música: "o mundo da linguagem sem o mundo da prática é um mundo vazio". Por isso que nossa voz, mesmo sendo menos parecia mais - Ela não partia do vazio.

Muito bom o texto, caro Eduardo.

Abraço!