O 52º Congresso Nacional da UNE foi minha segunda grande experiência na reunião do movimento estudantil e me serviu como prova prática do descaso da
direção majoritária da UNE em relação a todos os problemas da Educação e as demais demandas sociais. E devo dizer que é impossível mascarar o governismo que assola a União Nacional dos Estudantes. Tendo em vista que desde a abertura do CONUNE podia-se constatar o papel que a entidade assumia: o papel de palco para o Governo. Lula foi recebido com ovação pelos oradores, aclamado pela direção majoritária (UJS/PCdoB e PT) numa babação completamente desnecessária quando se consideram os inúmeros problemas da Educação e os tantos avanços da política Neoliberal permitidos pelo governo.
"QUEM É? QUEM É? VAMOS À LUTA NO LOCAL!"
Logo de início, na abertura, uma PROUNIsta foi colocada para discursar sobre os benefícios do programa e de sua experiência de conseguir adentrar numa universidade (particular), sem questionar em nenhum momento a respeito de seu direito de estar estudando em uma Universidade Pública gratuita e de qualidade. Nem mencionou que com a isenção dada às universidade privadas pela adesão ao Prouni poderia gerar 4 vezes mais vagas numa Universidade Pública de qualidade, atendendo ao tripé ensino, pesquisa e extenção. Nem falou sobre o sucateamento da educação pública, nem da necessidade de se investir 10% do PIB com a maior urgência nessa área... Só agradeceu.
Nós do coletivo Vamos À Luta, não recebemos o ex-presidente sem críticas e cobranças, uma vez que visamos atender a uma necessidade de radicalização do movimento estudantil condizente com a atual conjuntura internacional e nacional, onde organismos internacionais forçam inúmeros países a atender as exigências do império por meio de inúmeros cortes sociais e extinção de direitos, com o intúito de fazer com que a juventude e a classe trabalhadora mundiais paguem pela crise estrutural do capital. A majoritária não abre espaço para que a Oposição se pronuncie, portanto, fomos incisivos e não poupamos garganta e cantamos palavras de ordem criticando o governo, para que fôssemos escutados:
"Ô-Ô-Ô DILMA, QUE PAPELÃO! CORTANDO VERBAS DA EDUCAÇÃO!"
"UJS, NÃO LEVE À MAL: O GOVERNO LULA DEU O VETO NO PRÉ-SAL"
"Ô-Ô-Ô-Ô-Ô, CADÊ O DINHEIRO?!
A DILMA COMANDA O BONDE DOS EMPREITEIROS!"
"VIVA À GREVE DOS SERVIDORES, VIVA À GREVE DOS SERVIDORES!"
Inúmeras são as constatações de que a direção majoritária da UNE atua de modo a frear as mobilizações no Brasil, ignorando os problemas sociais e ataques do governo do PT-PMDB-PCdoB e demais, servindo de cabo eleitoral e funcionando como escadinha para a conquista de cargos no poder, evitando debates fundamentais (como foi o caso do g.d. sobre o novo Código Florestal do Aldo Rebelo (PCdoB), que foi implodido pela majoritária), não mobilizando a classe estudantil contra o aumento das passagens de ônibus em todo o Brasil no início do ano (o que a Oposição de Esquerda fez), faltando com apoio às greves dos servidores públicos da Educação que reivindicam melhores condições de trabalho (que a Oposição defendeu no congresso, contando inclusive com a presença de trabalhadores técnico-administrativos grevistas), assim como a falta de denúncias dos inúmeros escândalos de corrupção que vemos, bem como a ausência de crítica sobre os sigilos do governo Dilma em torno das licitações para a construção das suas grandes obras e dos arquivos da Ditadura Militar brasileira - que reprimiu estudantes duramente.
A direção da UNE transformou a passeata que se seguiu a recepção de Lula em uma espécie de trio elétrico de auto elogios (a Juventude do PT só fazia duas coisas: escutava músicas no último volume e se envaidecia - o que me chamou muito a atenção), enquanto nós da Oposição de Esquerda à majoritária falávamos a respeito dos inúmeros problemas sociais que merecem solução urgente como: auditoria da Dívida Pública, parar o projeto jurássico da Hidrelétrica de Belo Monte e investir em energias limpas, a priorização do Ensino Público gratuito e de qualidade, defesa dos 10% do PIB para Educação já (e não somente para 2020, escalonadamente, como quer a juvetude do PT e a UJS), o Petróleo tem que ser nosso, à favor do PLC 122 que criminaliza a homofobia, parar o Código Florestal do Aldo Rebelo que anistia desmatadores e legitima os crimes no campo, dentre inúmeras outras pautas fundamentais como a Reforma Agrária. A Oposição de Esquerda falava sobre tudo isso enquanto os governistas diziam "Vamo lá, tá bonita a passeata, somos a juventude do PT. Que lindo! Toca o som!" e seguiamos caminhando. Quanto mais alto falávamos ao microfone de nosso carro-som, mais alto eles colocavam o volume das suas musiquinhas...

Na Espanha, na Grécia, no Egito, na Palestina, na Europa, e aqui ao lado no Chile, as passeatas da juventude tem crescido e radicalizado, tomando as ruas e somando muito mais mobilizações do que aquelas das históricas datas que estudamos na escola, como o Maio de 1968 - como bem observou um de nossos companheiros do Vamos À Luta. "A juventude se mobiliza porque é seu futuro que está em jogo! Cada vez mais perdemos o direito à aposentadoria, o direito à Educação Pública gratuita e de qualidade, o direito à participar da construção de nossos próprios países, de nosso próprio mundo", cada vez mais perdemos o direito à construir nossa História, perdemos nosso direito à emprego, à bons salários, à dignidade e vida plena, por conta de uma crise internacional da qual não temos culpa nenhuma! Todos somos INDIGNADOS, como apontamos em nossa tese (clique e leia na íntegra). Pois no Brasil não é diferente! 80% dos estudantes universitários estão matriculados em universidades pagas, somente 20% dos universitários do nosso país estudam em universidades públicas! Das 10 piores universidades do nosso país, 8 são particulares, são pagas!

"E QUEM SÃO ELES QUE NÃO CANSAM DE LUTAR?!
INDIGNADOS, VAMOS À LUTA JÁ!"
São inúmeros problemas... E a direção majoritária da UNE não os discute. Não mobiliza, não luta como antigamente, na época da Ditadura, das Diretas Já, dos Caras-Pintadas, do Fora Collor. São vinte anos de imobilidade! De UJS na direção da UNE. A independência da entidade está completamente perdida para o governismo e para a propaganda do status quo. Exatamente como o meu coletivo estudantil havia me alertado e como pude constatar, assistindo de perto!
Percebo que é justamente por tudo isso, e muito mais, que apontamos o dedo na cara, dando nosso recado, utilizamos diversas palavras de ordem politizadas, cobramos e denunciamos o governo, sem pedir licença a ninguém, porque é nosso dever lutar e construir um movimento estudantil crítico e independente que defenda os interesses da classe estudantil e da classe trabalhadora (na qual estaremos inseridos futuramente), cumprindo o papel real do militante estudantil - que a majoritária da UNE abandonou.
E não podemos simplesmente abandonar a UNE. Pois ela, por conta de seu passado de lutas, ainda aglutina uma grande massa estudantil que simpatiza com as mobilizações sociais. Se abandonarmos a UNE, abandonares uma infinidade de estudantes sob o comando de uma direção alienante que os fará de massa de manobra com seus discursos de comodismo governista. O papel que assumimos é o do diálogo com essa base numa atuação simpática, pedagógica e profundamente crítica sobre os rumos do movimento estudantil e as consequências dessa direção que engessa as mobilizações. Nossa disputa não é simplesmente pela entidade e seus cargos, mas pela consciência da classe estudantil. Que deve tomar os exemplos internacionais da mobilizações estudantil e dar uma guinada à radicalização necessária.
"ESPANHA, EGITO, PALESTINA,
QUE SIRVAM DE EXMPLO PARA A AMÉRICA LATINA!"

"EU QUERO VER NO DIA A DIA,
SÓ NO CONGRESSO UJS É MAIORIA!"
O fato da Oposição de Esquerda ter praticado uma dinâmica organizada contra os governistas também foi um ponto muito importante nesse congresso, sinalizando possibilidades de uma atuação conjunta e unificada para o futuro, desde que atendendo a uma programática acertada e clara de conduta. E - impossível negar - construímos juntos o bloco mais entusiasmado, mais dinâmico e crítico de toda a UNE, de modo que é perceptível o fortalecimento e ampliamento da esquerda nesse 52º congresso.
O meu coletivo, o Vamos À Luta, participou de vários debates, ferrenhamente, com nossos militantes fomentando o debate sobre o pobre monólogo da UJS de que está tudo lindo e maravilhoso, dando dados concretos, enriquecendo a criticidade do congresso e oferecendo uma opção aos estudantes que não estejam tão a par da realidade política que atravessamos, agitando com palavras de ordem e demonstrando os ventos indignados que sopram sobre o mundo. De modo que saio desse congresso com muito orgulho de ter ficado tão rouco, superando os tantos contratempos que a esquerda sempre enfrenta com a dificultação de sua atuação, em alojamentos precários, de banheiros péssimos, com falta de água, situados distante do congresso, com ônibus problemáticos e tentativas de censura, como as que eu e outros companheiros meus sofreram durante os momentos próprios para nossas intervenções.
Saímos atendendo ao que nos propomos enquanto coletivo estudantil. Agregamos companheiros para a nossa luta diária e praticamos o diálogo com a base da UNE. Contamos inclusive com ex-integrantes da juventude do PT, com ex-integrantes da UJS e independentes que se somaram a nós do Vamos À Luta, compreendendo e reconhecendo a nossa posição e a necessidade da continuidade da luta que empregamos. Acabou que minha delegação voltou pra casa entre discussões e pronunciamentos emocionados de como estivemos acertados em nossa linha e proposições, de como nos dá orgulho estarmos atuando no movimento estudantil e de como continuaremos lutando, independentemente da UNE, no dia a dia, em cada DCE e CA, em nossas universidades, apoiando as demandas sociais e as lutas dos trabalhadores. Com o fogo incendiário dos Indignados aceso mais forte ainda, aquecendo nosso espírito de luta nesse segundo semestre de 2011. Porque amamos a nossa luta, que é luta de amor!
Tenho muito orgulho do Vamos À Luta e da camisa da Oposição de Esquerda que vestimos conjuntamente com os companheiros dos demais coletivos nesse congresso. Espero ótimas atuações com o nosso calendário de lutas.
"VAMOS À LUTA JUNTOS, ROMPENDO AS AMARRAS,
LEVANTE O CONTRAPONTO OPOSIÇÃO UNIFICADA!"
(palavra de ordem cantada pela oposição de esquerda que entrou organizada na arena, com a força de quem acredita de verdade no que faz)
"NÃO, NÃO, NÃO NOS REPRESENTA!"
(palavra de ordem usada pela Oposição de Esquerda contra a direção majoritária da UNE durante a plenária final - estudantes de costas à direção que abandona as lutas históricas do movimento estudantil e abraçam o governismo acriticamente)
Um comentário:
Lembro de uma fala tua, numa plenária realizada em frente ao ginásio. Na ocasião, observavas o quanto as previsões (proféticas eu diria) da vanguarda de esquerda se confirmavam a cada ato, a cada não ato, a cada discurso e a cada falácia.
Como diria um poeta de nossa música: "o mundo da linguagem sem o mundo da prática é um mundo vazio". Por isso que nossa voz, mesmo sendo menos parecia mais - Ela não partia do vazio.
Muito bom o texto, caro Eduardo.
Abraço!
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