Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

domingo, 20 de maio de 2012

Michel Foucault, Neoanarquismo, Marxismo e a luta pelo poder

Escreve: Mercedes Petit
Tradução: Zaraia Guará
Fonte: El Socialista - uma publicação de Izquierda Socialista
7 de outubro de 2009 Nro. 149

15 de Outubro de 1926, nascia Michel Foucault

Este filósofo e historiador francês se converteu em uma das principais referências das correntes que reivindicam os movimentos em oposição ao protagonismo da classe operária. E que não está colocada a tomada do poder.
Foucault cresceu no seio de uma família acomodada. Seu avô era psiquiatra e seu pai cirurgião. Estudou num colégio jesuíta, durante a ocupação alemã da França. Depois da guerra, se licenciou primeiro em filosofia e logo em psicologia.
Então era enorme a influência do partido comunista francês, que capitalizava o prestígio adquirido pela URSS, pro papel na derrota do nazismo. Como grande parte dos jovens inquietos e rebeldes e seguindo o filosofo comunista Louis Althusser, Foucault foi membro do PC entre 1950 e 1953.
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Pelo Stalinismo rompeu com o marxismo...
A ditadura brutal que a burocracia encabeçada por Stalin impunha na URSS era defendida pela militância comunista com todo tipo de argumento, ou simplesmente com o silencio submisso. Houve um escândalo celebre, porque a academia de ciências da URSS, com Trofim Lysenko como herói, e o Comitê Central do PCUS votaram que não existia os genes, que a genética era uma “ciência burguesa”.Proibiu-se seu desenvolvimento na URSS e foram presos os geneticistas. O justo rechaço de Foucault a estas monstruosidades o levou a sua definitiva ruptura com o marxismo. Era o caminho que empreeendiam a maior parte dos intelectuais e acadêmicos que colocaram um sinal de igual entre stalinismo e o marxismo. Desde a década de 30, só uma ínfima minoria, praticamente insignificante, se mantinha na defesa do marxismo revolucionário, empalmando a oposição trotsquista, como o caso, por exemplo, do sociólogo Pierre Naville. O reivindicava o marxismo desde uma posição antiestalinista.
As críticas de Foucault aos dirigentes e intelectuais do PC descreviam uma realidade. Destacava que o partido Comunista era parte da Instituição Universitária e o establishment político, que se limitava a acompanhar os mesmo temas e enfoques da academia, que, por exemplo, deixavam fora a psiquiatria e o funcionamento político da medicina. Além disso, criticava o dogmatismo, “ a repetição temerosa do que estava dito”¹. E em um terceiro momento, decisivo, foi a utilização na URSS dos hospitais psiquiátricos como destino dos opositores do regime stalinista, que Foucault começou a denunciar em meados da década de 50.
Buscando uma sociedade mais aberta que a francesa ante sua opção homossexual, se transferiu para Uppsala (Suécia). Logo viveu em Varsóvia e Hamburgo. Voltou a França em 1960 e publicou em 1961 sua tese doutorado “História da loucura na Época Clássica”. Foi um impacto, e instalou o debate entre os especialistas sobre o papel dos manicômios, as fronteiras entre a razão e irracionalidade e seu tratamento.

Um intelectual rebelde
Meses depois da revolução de Maio de 1968, Foucault se radicou definitivamente na França. Junto a outros Intelectuais, como Jean Paul Sartre, era solidário com as lutas e reivindicações dos distintos setores que se mobilizavam. Se fez conhecer mais amplamente por seus livros “As palavras e as coisas” (1966) e “A arqueologia do Saber”(1969). Desde 1970 ocupou a cátedra de história dos sistemas de pensamento no Collège de France.
Em 1971 ajudou a formar o "Groupe d'Information sur les Prisons"(GIP) que se propôs a dar uma voz própria aos prisioneiros, que não prosperou. Em 1955 publicou uma de suas obras mais difundidas, “Vigiar e Punir”. Seu ultimo trabalho, “A história da sexualidade”,ficou inconclusa. O primeiro tomo, “A vontade de Saber”, foi publicado em 1976. O segundo volume, assim como o terceiro, apareceram oito anos depois, e os tomos prometidos sobre a época moderna não foram publicados. Foucault morreu de Aids aos 58 anos e Paris, em 1984.

Um Antimarxismo alimentado pelo fracasso dos partidos comunistas
A influência de Foucault é muito importante atualmente nas correntes neoanarquistas, autonomistas e horizontais antipartidos. Estas foram crescendo logo a partir do Maio Francês, quando se fez evidente a traição do PC e que se salvava uma vez mais o capitalismo. O desprestigio crescente do “marxismo oficial” e do “socialismo real” imposto por mais de meio século por essas burocracias, iniciada na década de 70 foram se instalando correntes idealistas e cada vez mais irracionais na intelectualidade francesa e a rejeição do materialismo histórico ².
Foucault considerou equivocada a concepção marxista da existência das classes sociais, determinadas pela propriedade privada dos meios de produção, que dão lugar a um poder econômico e político dominante (da burguesia), que se exerce sobre a grande maioria, as classes e setores explorados e oprimidos, em primeiro lugar sobre a classe operária. Que existem instituições e crenças ou ideologias (falsas) construídas ao largo de séculos pelas classes dominantes, e que o Estado burguês (assentado no monopólio das forças repressivas) é o centro institucional desse domínio sobre o conjunto da sociedade.
Horrorizado pelo regime totalitário da burocracia de Stalin, Foucault o interpretou como a continuidade da revolução proletária, para a qual se perguntou se era “desejável” a revolução e rechaçou definitivamente o marxismo e toda sua política. Em sua concepção existem redes de poder a partir de relações entre indivíduos, que interagem em todos os níveis da sociedade, dando lugar a sistemas mais ou menos verticais, mais ou menos centralizados e repressivos, independentemente dos vínculos e interesses materiais das pessoas agrupadas em classes determinadas por sua posição econômica e política, como sustenta o marxismo.
Seu prólogo de 1972 a “El Antiedipo”,de Deleuze y Guattari, foi muito bem recebido pela militância anarquista, antimarxista e antipartido. Ali satiriza (tomando bastante a realidade) os militantes comunistas, qualificando-os de “tristes”, “burocratas da revolução”,“funcionários da verdade”. E declara que o maior inimigo da humanidade é o facismo. Porém não só o de Hitler e Mussolini, mas também o “fascista” que vive dentro de cada ser humano individual. Proclama então uma “ética” para não nos tornarmos fascistas, dirigida principalmente a quem pretende ser militante revolucionário: rejeitar toda centralização, toda hierarquia, toda unidade totalizante, toda representação e, acima de tudo, “ não se enamore pelo poder”.
Com a queda do muro de Berlim em 1989 e a posterior dissolução da União Soviética, ao calor dessas revoluções políticas antiburocráticas, as correntes antipartidos e movimentistas se fortaleceram. Foucault, falecido em 1984, foi uma crescente inspiração. Muitas de suas elaborações foram tomadas pelas correntes que sustentam que mudou o capitalismo imperialista, que já não existe mais a posição que Marx deu a classe operária (que havia desaparecido ou mudado totalmente seu papel), que a tarefa da rebelião anticapitalista passa pelo desenvolvimento dos movimentos sociais (camponeses, indígenas, de gênero, de trabalhadores, desempregados, etc.), sem hierarquia nem organização políticas partidárias (que seriam aparatos burocráticos e verticalistas), e sem a perspectiva de lutar pela tomada do poder e a revolução socialista.
Um das referencias mais conhecidas destas posições, surgido em 1994, é o subcomandante Marcos, que encabeçou o zapatismo e que a anos tem silenciou-se. No meio acadêmico, podemos citar o inglês radicado no México, John Holloway. Em nosso país (Argentina) temos como exemplo ao movimentos de desempregados que se fortaleceram logo após 2001-Os MTD- e muitas dos agrupamentos independentes que existem nas universidades de todo o país.
O paradoxo é que Foucault foi um rebelde, um lutador até que parou, enquanto que a ampla maioria dos intelectuais argentinos “foucaultianos” são o oposto. Um caso relevante é Thomas Abraham, o mais conhecido deles, que apóia a direita de Mauricio Macri. Foucault tinha concepções equivocadas, porém reconhecemos sua permanente solidariedade com as causas justas. Muitos de seus seguidores são incapazes sequer de assinar algo mínimo que seja contra uma repressão.
Por nossa parte, sem desmerecer as contribuições que este autor teve para o estudo das prisões, ou da sexualidade, consideramos que a realidade segue confirmando o marxismo. Segue mostrando a centralidade da classe operária. Que o poder é de classe, está nas mãos da burguesia, e que todos seus aparatos, o mais importante é o Estado. Por ultimo, estamos convencidos de que as monstruosidades do stalinismo foram o oposto do pensamento e o programa de Marx. Lamentavelmente, aquele jovem francês brilhante e inquieto a começos dos anos cinqüenta não viu assim.

1- Microfísica do poder. Edição La Piqueta. “Verdade e poder”. Entrevista con M. Fontana.
2- Ver, por exemplo, Nas pegadas do materialismo histórico, século XXI, 1986, de Perry Anderson, e contra o pos modernismo (Uma crítica marxista), el ancora, Bogotá, 1993, de Alex Callinicos..

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