Tradução: Zaraia Guará
Fonte: El Socialista - uma publicação de Izquierda Socialista
7 de outubro de 2009 Nro. 149
15 de Outubro de 1926, nascia Michel Foucault
Este filósofo e historiador francês se converteu em uma das principais referências das correntes que reivindicam os movimentos em oposição ao protagonismo da classe operária. E que não está colocada a tomada do poder.
Foucault
cresceu no seio de uma família acomodada. Seu avô era psiquiatra e seu
pai cirurgião. Estudou num colégio jesuíta, durante a ocupação alemã da
França. Depois da guerra, se licenciou primeiro em filosofia e logo em
psicologia.
Então
era enorme a influência do partido comunista francês, que capitalizava o
prestígio adquirido pela URSS, pro papel na derrota do nazismo. Como
grande parte dos jovens inquietos e rebeldes e seguindo o filosofo
comunista Louis Althusser, Foucault foi membro do PC entre 1950 e 1953.
.
Pelo Stalinismo rompeu com o marxismo...
Pelo Stalinismo rompeu com o marxismo...
A
ditadura brutal que a burocracia encabeçada por Stalin impunha na URSS
era defendida pela militância comunista com todo tipo de argumento, ou
simplesmente com o silencio submisso. Houve um escândalo celebre, porque
a academia de ciências da URSS, com Trofim Lysenko como herói, e o
Comitê Central do PCUS votaram que não existia os genes, que a genética
era uma “ciência burguesa”.Proibiu-se seu desenvolvimento na URSS e
foram presos os geneticistas. O justo rechaço de Foucault a estas
monstruosidades o levou a sua definitiva ruptura com o marxismo. Era o
caminho que empreeendiam a maior parte dos intelectuais e acadêmicos que
colocaram um sinal de igual entre stalinismo e o marxismo. Desde a
década de 30, só uma ínfima minoria, praticamente insignificante, se
mantinha na defesa do marxismo revolucionário, empalmando a
oposição trotsquista, como o caso, por exemplo, do sociólogo Pierre
Naville. O reivindicava o marxismo desde uma posição antiestalinista.
As
críticas de Foucault aos dirigentes e intelectuais do PC descreviam uma
realidade. Destacava que o partido Comunista era parte da Instituição
Universitária e o establishment político, que se limitava a acompanhar
os mesmo temas e enfoques da academia, que, por exemplo, deixavam fora a
psiquiatria e o funcionamento político da medicina. Além disso,
criticava o dogmatismo, “ a repetição temerosa do que estava dito”¹.
E em um terceiro momento, decisivo, foi a utilização na URSS dos
hospitais psiquiátricos como destino dos opositores do regime
stalinista, que Foucault começou a denunciar em meados da década de 50.
Buscando
uma sociedade mais aberta que a francesa ante sua opção homossexual, se
transferiu para Uppsala (Suécia). Logo viveu em Varsóvia e Hamburgo.
Voltou a França em 1960 e publicou em 1961 sua tese doutorado “História
da loucura na Época Clássica”. Foi um impacto, e instalou o debate entre
os especialistas sobre o papel dos manicômios, as fronteiras entre a
razão e irracionalidade e seu tratamento.
Um intelectual rebelde
Meses
depois da revolução de Maio de 1968, Foucault se radicou
definitivamente na França. Junto a outros Intelectuais, como Jean Paul
Sartre, era solidário com as lutas e reivindicações dos distintos
setores que se mobilizavam. Se fez conhecer mais amplamente por seus
livros “As palavras e as coisas” (1966) e “A arqueologia do
Saber”(1969). Desde 1970 ocupou a cátedra de história dos sistemas de
pensamento no Collège de France.
Em
1971 ajudou a formar o "Groupe d'Information sur les Prisons"(GIP) que
se propôs a dar uma voz própria aos prisioneiros, que não prosperou. Em
1955 publicou uma de suas obras mais difundidas, “Vigiar e Punir”. Seu
ultimo trabalho, “A história da sexualidade”,ficou inconclusa. O
primeiro tomo, “A vontade de Saber”, foi publicado em 1976. O segundo
volume, assim como o terceiro, apareceram oito anos depois, e os tomos
prometidos sobre a época moderna não foram publicados. Foucault morreu
de Aids aos 58 anos e Paris, em 1984.
Um Antimarxismo alimentado pelo fracasso dos partidos comunistas
A
influência de Foucault é muito importante atualmente nas correntes
neoanarquistas, autonomistas e horizontais antipartidos. Estas foram
crescendo logo a partir do Maio Francês, quando se fez evidente a
traição do PC e que se salvava uma vez mais o capitalismo. O
desprestigio crescente do “marxismo oficial” e do “socialismo real”
imposto por mais de meio século por essas burocracias, iniciada na
década de 70 foram se instalando correntes idealistas e cada vez mais
irracionais na intelectualidade francesa e a rejeição do materialismo
histórico ².
Foucault
considerou equivocada a concepção marxista da existência das classes
sociais, determinadas pela propriedade privada dos meios de produção,
que dão lugar a um poder econômico e político dominante (da burguesia),
que se exerce sobre a grande maioria, as classes e setores explorados e
oprimidos, em primeiro lugar sobre a classe operária. Que existem
instituições e crenças ou ideologias (falsas) construídas ao largo de
séculos pelas classes dominantes, e que o Estado burguês (assentado no
monopólio das forças repressivas) é o centro institucional desse domínio
sobre o conjunto da sociedade.
Horrorizado
pelo regime totalitário da burocracia de Stalin, Foucault o interpretou
como a continuidade da revolução proletária, para a qual se perguntou
se era “desejável” a revolução e rechaçou definitivamente o marxismo e
toda sua política. Em sua concepção existem redes de poder a partir de
relações entre indivíduos, que interagem em todos os níveis da
sociedade, dando lugar a sistemas mais ou menos verticais, mais ou menos
centralizados e repressivos, independentemente dos vínculos e
interesses materiais das pessoas agrupadas em classes determinadas por
sua posição econômica e política, como sustenta o marxismo.
Seu
prólogo de 1972 a “El Antiedipo”,de Deleuze y Guattari, foi muito bem
recebido pela militância anarquista, antimarxista e antipartido. Ali
satiriza (tomando bastante a realidade) os militantes comunistas,
qualificando-os de “tristes”, “burocratas da revolução”,“funcionários da
verdade”. E declara que o maior inimigo da humanidade é o facismo.
Porém não só o de Hitler e Mussolini, mas também o “fascista” que vive
dentro de cada ser humano individual. Proclama então uma “ética” para
não nos tornarmos fascistas, dirigida principalmente a quem pretende ser
militante revolucionário: rejeitar toda centralização, toda hierarquia,
toda unidade totalizante, toda representação e, acima de tudo, “ não se
enamore pelo poder”.
Com
a queda do muro de Berlim em 1989 e a posterior dissolução da União
Soviética, ao calor dessas revoluções políticas antiburocráticas, as
correntes antipartidos e movimentistas se fortaleceram. Foucault,
falecido em 1984, foi uma crescente inspiração. Muitas de suas
elaborações foram tomadas pelas correntes que sustentam que mudou o
capitalismo imperialista, que já não existe mais a posição que Marx deu a
classe operária (que havia desaparecido ou mudado totalmente seu
papel), que a tarefa da rebelião anticapitalista passa pelo
desenvolvimento dos movimentos sociais (camponeses, indígenas, de
gênero, de trabalhadores, desempregados, etc.), sem hierarquia nem
organização políticas partidárias (que seriam aparatos burocráticos e
verticalistas), e sem a perspectiva de lutar pela tomada do poder e a
revolução socialista.
Um
das referencias mais conhecidas destas posições, surgido em 1994, é o
subcomandante Marcos, que encabeçou o zapatismo e que a anos tem
silenciou-se. No meio acadêmico, podemos citar o inglês radicado no
México, John Holloway. Em nosso país (Argentina) temos como exemplo ao
movimentos de desempregados que se fortaleceram logo após 2001-Os MTD- e
muitas dos agrupamentos independentes que existem nas universidades de
todo o país.
O
paradoxo é que Foucault foi um rebelde, um lutador até que parou,
enquanto que a ampla maioria dos intelectuais argentinos “foucaultianos”
são o oposto. Um caso relevante é Thomas Abraham, o mais conhecido
deles, que apóia a direita de Mauricio Macri. Foucault tinha concepções
equivocadas, porém reconhecemos sua permanente solidariedade com as
causas justas. Muitos de seus seguidores são incapazes sequer de assinar
algo mínimo que seja contra uma repressão.
Por
nossa parte, sem desmerecer as contribuições que este autor teve para o
estudo das prisões, ou da sexualidade, consideramos que a realidade
segue confirmando o marxismo. Segue mostrando a centralidade da classe
operária. Que o poder é de classe, está nas mãos da burguesia, e que
todos seus aparatos, o mais importante é o Estado. Por ultimo, estamos
convencidos de que as monstruosidades do stalinismo foram o oposto do
pensamento e o programa de Marx. Lamentavelmente, aquele jovem francês
brilhante e inquieto a começos dos anos cinqüenta não viu assim.
1- Microfísica do poder. Edição La Piqueta. “Verdade e poder”. Entrevista con M. Fontana.
2- Ver,
por exemplo, Nas pegadas do materialismo histórico, século XXI, 1986,
de Perry Anderson, e contra o pos modernismo (Uma crítica marxista), el
ancora, Bogotá, 1993, de Alex Callinicos..

Nenhum comentário:
Postar um comentário