Por Miguel Sorans, da Izquierda Socialista (UIT-CI), Argentina.
(Traduzido por Clístenes Mendonça e Eduardo Rodrigues)
Há um mês crescem as mútuas ameaças militares entre os governos da Coréia do Norte contra a Coréia do Sul e os EUA. A Coréia do Norte declarou que está em "estado de guerra" e pronta para lançar mísseis se for atacada. Crescem os preparativos militares. Qual é a raiz do conflito? É realmente possível se iniciar uma nova guerra no sudeste asiático?
Poucos acreditam que se possa chegar a uma guerra total, mais além de algum dos muitos conflitos que têm ocorrido nos últimos anos. Mas também não se poderia descartar completamente devido ao caráter irresponsável e criminoso dos adversários. De um lado, um regime ditatorial de velho viés stalinista, odiado pelo povo, e, do outro lado, o imperialismo ianque, que quer manter o seu papel de polícia do mundo a todo custo.
Qual é a origem desse conflito? O marco histórico é a divisão da Coréia em dois países, produzida após a Segunda Guerra Mundial, e da guerra de 1950, com o armistício de 1953 que consolidou esta partição e os conflitos posteriores. Agora o imperialismo procura colocar todo o ônus do perigo de guerra no governo norte-coreano, aproveitando-se de sua natureza ditatorial e imprevisível. Mas na realidade é o imperialismo que há anos vem desafiando o direito soberano da Coréia do Norte de desenvolver energia nuclear. Em fevereiro, durante o anúncio de um novo teste nuclear, a ONU impôs por unanimidade, incluindo o voto da China, duras sanções econômicas à Coréia do Norte que visam congelar seus ativos no exterior. Desta forma, a China se distanciou de seu aliado norte-coreano e se juntou às sanções. Ao mesmo tempo, os EUA e a Coréia do Sul fizeram exercícios conjuntos com aviões bombardeiros B52 e B-2 com capacidade nuclear. Em resposta, o regime de Kim Jong Un anunciou sua desconsideração do armistício de 1953 e lançou todos os tipos de ameaças de lançamento de mísseis e de um possível início de guerra, caso fosse agredido.
Uma ditadura "comunista" capitalista
É claro, nós, os socialistas revolucionários, não reconhecemos o direito do imperialismo e de seus lacaios, de desafiar ninguém por suas decisões soberanas, uma vez que são eles os primeiros agressores do mundo e desenvolvedores de todo tipo de armamento de assassinato em massa, atômico e nuclear. Por isso, se finalmente vier a se produzir uma agressão, nós estaremos do lado do povo norte-coreano.
Isso não significa dar nenhum apoio à ditadura do denominado Partido dos Trabalhadores da Coréia do Norte, uma ditadura de partido único que tem governado com mão de ferro durante mais de 60 anos. Um regime que continua a venerar o ditador Stalin, que tenha chegado ao cúmulo de tornar-se uma "dinastia comunista" já que começou liderada por Kim Il-Sung, avô do atual presidente, o jovem Kim Jong Un. Este, por sua vez herdou o posto de seu pai, o assassino Kim Jong-Il. É tarefa do povo norte-coreano acabar com essa ditadura capitalista de viés stalinista.
O colapso da URSS e o processo de restauração capitalista na China e URSS tem deixado-na isolada política e economicamente. Isso, juntamente com dois anos consecutivos de inundações catastróficas em 1995 e 1996, e uma administração burocrática e corrupta, produziu uma grave escassez de alimentos em 1997, o que resultou em um período de fome que deixou o saldo de cerca de 4 milhões de mortos.
Enquanto isso estava acontecendo a burocracia cívico-militar continuou com seus altos salários e privilégios, criando a loucura de uma "indústria nuclear". Por outro lado, o país foi caindo aos pedaços, se degradando com a escassez de alimentos, os cortes permanentes de energia e quase sem transporte dada a contínua escassez de combustível.
De fato, essa ditadura não tem nada de comunista nem de socialista, salvo o nome. Porque desde a década de 1990 que começou um curso de restauração do capitalismo, seguindo o exemplo de sua vizinha e assessora, a China. Com salários de 60-80 dólares, sem sindicatos e sem direito à greve, o direito investimento estrangeiro foi autorizado desde 1999. Assim se foram instalando no norte do país empresas capitalistas chinesas e no sul criaram um complexo com a Hyundai, multinacional da Coréia do Sul. E no resto do país já há investimentos da Fiat, Siemens e capitais da Rússia, Paquistão, Cingapura e Tailândia. Esses investidores estão se voltando para a mineração, petróleo, energia nuclear, aparelhos eletrodomésticos, estradas de ferro, etc. Mas com "dificuldades" para os capitalistas devido aos cortes de energia e a infra-estrutura deficiente (há menos de 10% de rodovias pavimentadas).
O plano mais avançado do capitalismo na Coréia do Norte é o conglomerado sul-coreano Hyundai, a principal multinacional sul-coreana, que construiu um complexo industrial em Kaesong em uma zona especial de 7 km da fronteira com a Coréia do Sul. Neste complexo há 123 fábricas que empregam 54.000 trabalhadores. Eles fabricam roupas, calçados, componentes eletrônicos e relógios durante 48 horas semanais por 57,5 dólares por mês. Mas os trabalhadores não recebem pagamento direto, recebem apenas uma parte, justamente ao estilo cubano - onde o Estado é que recebe o dinheiro das empresas. Em outras palavras, a exploração é maior. Para ver o lucro da Hyundai & Cia, deve-se levar em conta que um trabalhador sul-coreano recebe salários mensais entre 2 mil e 3 mil dólares mensais.
A entrada do capitalismo não fez mais do que aprofundar a exploração e a miséria das massas norte-coreano e a crise econômica e social.
Assim, a ditadura vive usando a "chantagem" de sua "indústria nuclear" e "testes" para buscar uma negociação com o imperialismo dos EUA para obter concessões, tais como a entrega de alimentos em larga escala (o que aconteceu várias vezes sob a administração Clinton) e tentar negociar um status capitalista e comercial como a China ou Vietnã.
Assim, a ditadura vive usando a "chantagem" de sua "indústria nuclear" e "testes" para buscar uma negociação com o imperialismo dos EUA para obter concessões, tais como a entrega de alimentos em larga escala (o que aconteceu várias vezes sob a administração Clinton) e tentar negociar um status capitalista e comercial como a China ou Vietnã.
Imperialismo usa a Coréia do Norte para reforçar sua presença militar na região
Os EUA têm uma presença militar permanente desde 1953, com cerca de 40 mil soldados instalados em bases sul-coreanas, a sua praça de armas no sudeste asiático, e que há muito já declarou ao regime norte-coreano como parte do "eixo do mal", como um Estado "terrorista". E se recusam, desde a era Bush, a chegar a um acordo político-econômico como fizeram com China e Vietnã.
Na verdade, o imperialismo exagera o suposto poder da Coréia do Norte para ter a justificativa para seguir reforçando sua presença militar na Coréia do Sul e toda a região. Cada "ameaça" norte-coreano tem servido para aumentar sua presença em tropas, aviões e navios em uma região chave. Além disso, eles suspeitam que a Coréia do Norte não tenha o poder nuclear e de mísseis que dizem. E que se o utilizam iria acabar rapidamente já que é um país muito atrasado em tecnologia industrial e infra-estrutura.
Obama segue a "doutrina" de George W. Bush de criar o "eixo do mal" e de ter a Coréia do Norte como um de seus bodes expiatórios favoritos para continuar sua própria corrida armamentista. Era um ministro de Bush, o general Colin Power quem disse, logo após a Guerra do Golfo: "estou ficando sem vilões. Não tenho mais do que Castro e Kim Il Sun". (Citado no livro "Coréia do Norte e Coréia do Sul", por John Feffer, página 10).
Nós, os socialistas revolucionários, sem prestar nenhum apoio político à nefasta ditadura norte-coreana, exigimos o fim das sanções econômicas da ONU contra a Coréia do Norte, e rejeitamos qualquer ataque militar imperialista na Coréia do Norte, bem como reivindicamos a imediata retirada da presença militar imperialista na Coréia do Sul e em toda a região.
Fonte: Unidade Internacional dos Trabalhadores - IV Internacional
Fonte: Unidade Internacional dos Trabalhadores - IV Internacional

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