Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Morre Nelson Mandela: reflexão sobre os apartheids

Grande história de lutas contra o apartheid na África do Sul

Luta do povo sul-africano contra o regime rascista.
Neste dia 5 de dezembro de 2013 morreu uma das maiores lideranças da África do Sul: Nelson Mandela, advogado e defensor de direitos humanos. Uma onda de solidariedade e tristeza atinge seu país e todo o mundo, uma vez que realmente foi um dos mais expressivos líderes do CNA (Congresso Nacional Africano), organização que encampara a luta contra o regime do apartheid oficializado no seu país em 1948 - um regime fascista comparável ao sionismo de Israel hoje ou mesmo de Hitler.

A longa luta desenvolvida contra o regime racista produziu grandes e históricas revoltas, como as dos estudantes de Soweto de 1976 e 1990, que culminou na vitória de uma poderosa revolução democrática no país. Em sua juventude Mandela foi uma liderança radical no CNA que combatia setores mais recuados e conciliatórios - como os estalinistas do Partido Comunista. Nos anos 60 começou a luta de autodefesa armada, sendo capturado e mantido preso por 27 anos. Foi então que o CNA ganhou proporções e influência de massas, organizando a luta contra o apartheid e encurralando a burguesia segregacionista branca e conduzindo ao fim do regime em 1994. Diante de tudo isso, torna-se impossível não nos comovermos com a morte de Nelson Mandela e seu histórico de luta contra o regime que vigorava até recentemente. Mas achamos oportuno e fundamental dizer que sua resistência política só foi possível pois não se tratava da luta de um homem só, mas sim da luta de todo um povo oprimido pelo imperialismo e seus colonizadores brancos.

Nelson Mandel, o CNA e as negociações com o imperialismo

Antes da eleição de 94: Nelson Mandela e Bill Clinton.
Para além do carisma e de seu passado de luta. É preciso compreender também que, infelizmente, Mandela e o próprio CNA terminaram por pactuar com a elite branca e o imperialismo. No contexto do final dos anos 80 e início dos anos 90, o país havia sido expulso da ONU, descartado dos Jogos Olímpicos e atravessava uma profunda crise econômica. Enquanto cresciam as intensas mobilizações dos negros e colocavam em risco a estabilidade do regime capitalista. Foi quando o CNA iniciou negociações com o regime racista do apartheid, sob apreciação do imperialismo, para libertar Mandela e elaborar um processo de transição que mantivesse o status quo. Instalando um acordo dentro dos limites da democracia burguesa, para terminar o apartheid e manter a propriedade de importante parcela dos meios de produção do país nas mãos da burguesia branca, com um governo de transição onde participaram o CNA e Mandela. Depois, realizando as primeira eleições inter-raciais que deram o poder à Mandela em 1994. Um meio de colocar o prestígio de Mandela à serviço da desmobilização das massas e de preservação do status quo ante aos riscos que traziam as grandes mobilizações populares.

Atitudes muito criticadas e que posteriormente levaram a desagregação de segmentos que sempre o apoiaram, como sindicatos de trabalhadores e setores do próprio partido. Winnie Madikizela, ex-mulher de Nelson Mandela, o criticou em 2010 dizendo que decepcionara os negros sul-africanos, desperdiçando uma grande oportunidade, e mantendo-os ainda na pobreza e fazendo os brancos mais ricos. "Ele foi para a prisão como um jovem revolucionário, e olha como saiu", chegou a dizer. Esta contradição foi acumulada uma vez que Mandela manteve para os setores capitalistas, através de seu governo, as expectativas do mercado, com lentas reformas e distribuição de renda, nos marcos do regime burguês, no lugar de uma ruptura total com sistema de exploração e a coletivização da riqueza. Hoje o CNA governa o país com todos os vícios da corrupção, da repressão às greves dos trabalhadores e da pobreza que o sistema do capitalismo mundial impõe à todas as nações pelo globo. Não à Obama, o Presidente do Conselho Europeu, o Papa e toda a imensa mídia mundial e o aparato ideológico do imperialismo mergulha Mandela em elogios. Pois fora útil à seus interesses da manutenção do apartheid neoliberal.

No Brasil o racismo se expressa mesclando opressão e exclusão social.

Ecoava nas Jornadas de Junho: "Cadê o Amarildo?!?"
E veremos tão logo diversos líderes mundiais - muitos dos quais elitistas e autocratas - chorando "lágrimas de crocodilo", relembrando o processo de negociação e da nova África do Sul democrática, pela ocasião da morte de Nelson Mandela. Dentre eles, estará a presidenta Dilma Rousseff, que apesar de também possuir um passado de luta contra a ditadura militar, hoje compõe e representa um governo que não possui moral para falar sinceramente sobre igualdade social e racial, uma vez que no Brasil vigoram índices monstruosos sobre extermínio da juventude negra, da pobreza, marginalização nas favelas e brutalidade policial para a maioria da população de nosso país - negra, trabalhadora e pobre. População que vem saindo às ruas, descendo os morros e saindo das favelas, como nas manifestações de Junho, também protestando contra casos como o do pedreiro Amarildo, torturado e assassinado no Rio de Janeiro, e contra a precarização dos serviços públicos em nosso país. O Governo Dilma (PT/PMDB/PCdoB) que posa de igualitário ao mesmo tempo corta bilhões em verbas da saúde, educação, entrega nosso petróleo à multinacionais, como no caso do Campo de Libra, e despeja moradores das favela para construir suntuosos estádios de futebol em benefício da FIFA e seu projeto elitista de Copa do Mundo! O Governo Dilma também é servil às multinacionais e entrega quase metade de nosso PIB, cerca de 47%, para o mercado financeiro mundial...

É preciso estar ao lado do povo que segue em luta contra o racismo e a pobreza imposta a grande massa de trabalhadores. Compreendemos que é preciso ir além da conciliação burguesa que Lula e Dilma também vem aplicando em nosso país. Pois a luta contra o racismo não é apenas ético e moral, mas parte da luta de classes, é contra o sistema econômico do capitalismo que a todos nos explora. (para ver recente texto de contribuição sobre o tema da situação do negro no Brasil, clique aqui)

Nesses dias, que nós reflitamos e aprendamos com os acertos e erros de Nelson Mandela.

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