(tem um monte de spoilers)
Dentre as várias possibilidades de interpretação, uma das mais evidentes é que o filme Coringa - em diversas camadas - é a de ligação entre protestos populares por dignidade, empregos, salários e direitos sociais à ideias beirando a insanidade coletiva, rebeliões vingativas, vontade de assassinatos e até terrorismo revanchista. Por mais que não se afirme isso, por mais que haja uma nublada relação de nexos de causalidade entre as ações das massas revoltas em Gotham com os atos pessoais do protagonista em contínua decadência mental, essa talvez seja a impressão que mais fique no imaginário dos espectadores: há uma lógica de "liderança popular" anti-herói. Todo o martírio de Artur até tornar-se Coringa produz revolta anticapitalista, afinal é dos desdobramentos desse sistema em crise e apodrecido que compõem parte importante de seus sofrimentos, bem como dos sofrimentos dos demais trabalhadores da cidade. No entanto, o caminho que trilha o personagem é o de um ressentimento individual violentamente vingativo... Nessa perspectiva, é terrível e reacionário como o filme mescla a lógica e legitimidade da luta popular, a consciência de classe, o ímpeto de rebelar-se contra a injustiça de governos cruéis e tão frios às nossas necessidades, como se tudo isso fosse uma marcha ao abismo geral do caos puro e simples, sem objetivos, sem organização, sem nenhum projeto de libertação estruturado e facilmente aderente ao mais anárquico dos extremismos - como no imaginário do que seria o estopim de um atual "neofascismo" ordeiro como resposta a uma rebelião "anarcoterrorista" por parte dos pobres. O contexto que vivemos hoje é de uma época de crise política, econômica e social que tanto detona vários protestos nos Estados Unidos, coração do capitalismo, quanto também na China, no Brasil, na Venezuela, na Argentina e agora recentemente no Peru e Equador - não é curioso pensar que ao mesmo tempo que o filme passa nos cinemas, há governos caindo por aqui? O contexto, definitivamente, é este. As castas governantes sejam de "direita" ou "esquerda", sejam estatistas ou ultra liberais das corporações transnacionais estão incomodadas por todo lado pela marcha caótica que trilham. Coringa está nessa vibe de: "turbulências narrativas". É o espírito do nosso tempo esse conflito. O filme - fodasticamente construído em todos os sentidos - atira para todos os lados, tendo como eixo o desconserto e a perplexidade, ambiguidades e contradições inúmeras em um enredo que confunde real e irreal numa mente doente e um mundo conturbado, apela ao conflito emocional da plateia submetendo Artur a sofrimentos contínuos na intenção de desatar compaixão e empatia pelo desgraçado comediante do proletariado. Sofreu na mão da família, talvez seja abandonado pelo pai, desempregado, sendo espancado nas ruas, sofrendo de transtornos que não pode tratar pois foi destruída a assistência social que lhe garantia remédios, até seu ato desesperado de auto defesa - comove e revolta, como a realidade da nossa classe. Há uma questão aqui também: o suicídio. Artur planejava se suicidar ao vivo, na TV aberta, durante sua entrevista de estréia como se fosse a piada fatal que ele contaria. Mas a pressão da oportunidade e da revolta de Artur, transformando-o no Coringa encaminhou outra decisão. Entre explodir seus miolos diante da plateia, ele explodiu sua fúria junto aos miolos do âncora do talkshow, que ali representou o também frio e cruel deboche da TV contemporânea aos problemas populares. Da auto-defesa do primeiro assassinato ao extremo do terror individual que mata, há um salto. Enquanto "palhaços" vão às ruas e terminam lá elegendo como líder-símbolo um "palhaço louco" inspirandor de um movimento pautado por assassinatos (kill the rich) e que termina revirando a cidade toda do avesso, qual será o lado da plateia? Conflito. Essa miríade de conflitos e contradições é a engrenagem do filme. Inclusive, há uma coisa em comum entre HQs de super heróis e filmes de hollywoodianos: primeiro, o povo é sempre uma massa de gado que precisa de heróis para sempre serem salvos; segundo, a ideia de rebeliões e revoluções sociais nunca chega a uma conclusão positiva ou mudança fundamental, essas ideias sempre tem que ser massacradas, amaldiçoadas e esvaziadas de racionalidade sã e objetivos claros. O filme, evidentemente, é sobre o Coringa. Mas a mensagem é à nossa classe: "não pirem!". A mensagem é aos governos: "olhe, como eles estão pirando, hein!". E, podemos ainda esticar a corda até interpretar outro recado, como um convite e uma ameaça, talvez? "Parece incurável. Precisamos de Batman". Talvez seja por isso que Coringa ao final do filme ri e responde à sua psiquiátra que ela não entenderia a piada. A piada de que a loucura coletiva é que cria os "super heróis" - entra aqui a cena de Bruce Wayne com seus pais abatidos no chão pelos palhaços mascarados da multidão que roubavam o colar de pérolas de sua mãe. Há tantas vítimas e vilões-colaterais na narrativa, mas os "verdadeiros vilões" que constroem todo o sistema em crise de Gotham nem sequer tem máscaras, nem nomes e nem aparecem... Ou é impressão minha? Coringa é como um fenômeno-resultado da degeneração social de Gotham, que afunda na depressão e produz as condições para uma rebelião. Mas a loucura sistemática antipopular que massacra tanto Artur como o restante dos "clowns" da cidade é a raiz do problema central que o filme não esgota: a loucura capitalista contemporânea.
"A vida é assim..."?
"A vida é assim..."?

3 comentários:
Eu disse que iria ler Edu!
Hauahausu, eu só sei que tu comentastes, na verdade... Kkk
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