Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

domingo, 4 de abril de 2010

Amanecerá

Você provavelmente já caminhou pela madrugada, em rua deserta, sob os feixes de postes de luz. O silêncio lá fora pode ter causado algum medo ou algum conforto. O sereno e a solidão podem ter sido nesse momento tudo o que você precisava ou podem ter sido a expressão daquilo de que você mais quer fugir, daquilo que você quer se abrigar no morno de uma cama, entre quatro paredes, talvez com alguém importante...

Na caminhada por debaixo de cada lâmpado da rua, sua sombra se multiplicou, rodopiou em sua volta, enfraqueceu e fortaleceu, tornando-se mais nítida e desfocada, desfocada e nítida, várias e várias vezes. Pode ter soprado uma brisa, pode sua roupa ter-se humedecido numa garoa, pode o ar ter condensado na sua expiração. Pode a lua ter se mostrado, pode ter sido estendido sobre o mundo um céu estrelado ou pode não ter havido luz alguma, simplesmente.

Pode uma sensação de gato de rua, de cão ao relento, de criatura abandonada ou outra qualquer ter infiltrado no peito vazio, no semi-vago ou no maciço, rijo. Você talvez estivesse atrás de algo ou alguém, talvez não soubesse e nem saiba ainda o que procurava, ou mesmo se procurava algo. Mas você esteve lá, caminhando à noite. Sentindo que era tudo absoluto, por dentro e por fora. Extremamente válido, indizivelmente real. Ao seu redor, na sua carne, através do âmbito do psíquico, talvez no salgado de lágrimas, numa dor que maltratava o estômago, um nó na garganta, dor-alfinete penetrando o âmago, um silvo de lâmina veloz na alma...

Gemido engolido;
pulsar agónico;
tremor de músculo;
estalo fulminante...

Essa noite pode ter parecido infinita, nem que por inconstatável fração de tempo, nem que por um único e brevíssimo instante. Mas você não deveria jamais esquecer, que depois, logo em breve, indubitavelmente, há de amanhecer... A noite será passado.

E enquanto o astro maior permanecer brilhando e ressurgindo no horizonte; enquanto o impulsos elétricos percorrerem o corpo, o pulsar no peito mantenha o fluxo sanguíneo, a entrada e saída de ar nos pulmões oxigene; enquanto você escutar seus próprios pensamentos e puder filtrar o que é você do que é não-você, e cintilar lá no fundo alguma sentelha de carinho por algo...

Não é o fim.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Fim, Finalidade.

Não sei de onde vem esse desejo louco de querer condensar todos os caracteres do mundo, todas as pessoas, químicas, formas, coisas vivas ou não, fenômenos naturais, cada concepção...

Os raios elétricos que percorrem o céu nebuloso, os impulsos que energizam o corpo, cada gengiva, língua, vulva, lascívia, os movimentos articulados do complexo formigueiro que percorre a Terra, essa gigante esfera que vagueia no breu, a fumaça, o veneno, a ciência, o tempo... Cachoeiras de lamentos....

O programa de TV, o sangue inocente, o Amor, o desalmado, a História, um deus imaginário de misericórdia equivocada, a grande invenção, frasco de remédio, cápsula de revolver, violino onde guilhotino a dor da humanidade, o aplauso, o estalo, o chicote, os Estados... Pra onde tudo vai?

Acervos bibliográficos, o seu melhor amigo, um edifício quase infinito, um desconhecido assassinado, pássaro comido por um gato, o esgoto por onde perambula um rato, o concreto, o metal, o dinheiro, a religião, o ganha-pão, alguma superstar, alguma supermodelo, aquele mendigo fedido que morreu doente na esquina, o soldado e o morteiro...

Nomes, nomes repetidos,
nomes ilustres, os nomes idos...
Tudo o que já foi dito.

Desejo louco de misturar cada elemento invisível, cada ponto infinito, pressioná-los uns contra os outros e comprimir toda essa lógica do caos, toda essa certeza de dúvida, até ter o sumo, a síntese. Até ter: Num só, num todo, num compacto, autosuficiente, minúsculo e absoluto... ter o porquê.

Caminhada.

Passo ante passo. Sem afobamentos ou precipitados saltos.
Pequenas distâncias percorridas em pequenos momentos.

No caminho que num momento corremos e n'outro caminhamos, ofegantes e doloridos das andanças, o objetivo é seguir seguindo, superando-se, em nome do aperfeiçoamento. Por vezes, aperfeiçoamento vaidoso, por vezes, aperfeiçoamento urgentemente necessário para um mínimo de amor-próprio e de amor-alheio. Mão estendida, corpo pindurado, pingo de suor, em meio ao cheiro de orvalho. Brando som d'um prazer rememoriado, eco do amigo distanciado.

E hoje o sol amanheceu à três. Água aquecida, leite e café diluído, manteiga e ovos em pães. Conversa simpática, conversa risonha. E uma leve picada de um bichinho chamado vergonha. Incômodo que a gente sara passando sobre o local picado uma pomada de maturidade e lição. Indispensável pra nossa evolução.

Eis minha grande vontade,
Pequena palavra
Pela gagueira prolongada.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Reconstrução da Reconstrução.

O instante é absoluto, o infinito nele cabe.
Constante transformação, contínua fase de transição...

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Ansiedade.

Hoje vou-me pôr à prova.

Sendo o resultado bom, a felicidade vai me recompor de tudo de entristecedor que me aconteceu ultimamente, pois "Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade" como sabiamente observou Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1880. Por outro lado, sendo o resultado ruim...

Ah, só a pura "Anomia" Durkheimiana pra mim.
D'O Suicídio, de 1897.