Sobre este blog:
Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
"VOTO ÚTIL"? CIRO ESTÁ COM OS PARTIDOS DO AJUSTE E DA CORRUPÇÃO!
Crítica pela esquerda de Eduardo Rodrigues, militante do PSOL no Pará. Por uma luta e por votos antifascistas e anticapitalistas!
Temos visto uma importante e necessária vontade social de derrotar Bolsonaro, que está politizando ainda mais a polarização social. Por outro lado, temos visto crescer também uma enorme ilusão em torno do projeto de Ciro Gomes - um candidato que não teve o apoio nem do "Centrão" e nem do "Lulismo" na chapa nacional com Kátia Abreu. Uma vez que parte dos seus almejados aliados está com Alckmin e Haddad, ou com candidaturas próprias. No entanto, o PDT de Ciro está coligado a TODOS os velhos partidos que aplicam a retirada de direitos e inúmeros casos de corrupção no Brasil. É fundamental travar um bom debate sobre a derrota de Bolsonaro, com certeza, mas sem cair cegos nas demais armadilhas criadas pela burguesia e suas castas políticas de mãos sujas.
Ciro Gomes no Pará está com o DEM - um partido filhote da Ditadura Militar - e o PSDB de Jatene e Zenaldo, dois inimigos do povo paraense e de Belém, apoiando que caia sobre nós o militar Márcio Miranda. Quando dizemos isso, os adeptos da candidatura Ciro-Kátia ficam chateados pelas denúncias. Mas precisamos dizer as coisas como elas são, sem medo e sem mascarar a verdade: Ciro também está com o DEM no Mato Grosso, ao lado do MDB do Michel Temer e do fundamentalista PSC. Está ainda com o PP - o partido mais corrupto do Brasil - e o PRTB que é outro partido igrejeiro fundamentalista, com Suely Campos em Roraima! Ao mesmo tempo lá no Ceará, apoia o Camilo Santana do PT junto ao DEM e o PP! Veja que lambança é o tal "projeto nacional" do Ciro e da Kátia Motosserra. O ruralismo, o latifúndio e o agronegócio não são problemas para eles? Concordam também com a política de Belo Monte em Altamira do lulismo e das isenções milionárias a Hydro Alunorte em Barcarena que os tucanos fazem.
Não basta discursos e firulas, a prática política do PDT é tão fisiológica, tão fisiológica e tão velha que Osmar Dias (PDT) desistiu da candidatura ao governo no Paraná porque teria que subir no palanque de duas candidaturas adversárias, dado o grau de coligações cruzadas de cima a baixo. Isso é de uma inviabilidade tão gritante que caiu fora pra não passar mais vergonha! O Renato Casagrande (PSB) no Espírito Santo está com PSDB, DEM, PP, PCdoB e o PSC, veja só. E na Bahia, o Rui Costa (PT) também está tendo apoio do DEM, do PSD da Bancada da Bala - que aqui no Pará é responsável por Éder Mauro e Coronel Neil - também o PCdoB e o PP, apoiados pelo Cirão da Massa. Só se for a argamassa da corrupção! O Fernando Pimentel (PT), que o PDT apoia em Minas Gerais, está com o PR além do PCdoB, DC e PSB. Foi esse mesmo Pimentel quem reprimiu duramente a greve de educadores em MG e foi denunciado pelas organizações populares... Todas essas informações de coligacões estão no site da Gazeta do Povo no Especial das Eleições e com todas as informações publicadas pela Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.
Eu não estou nem falando dos inúmeros processos e escândalos nos quais todos esses partidos batem recordes, seja no Mensalão, no Propinoduto ou na Operação Lava Jato! Será tão difícil entender que o Bolsonaro deve ser derrotado sim, mas que o Ciro representa tudo que o povo odeia e que tem levado a mais completa desilusão política nas massas trabalhadoras e pessoas comuns? É a DEMAGOGIA do Ciro o que irrita, mas ela está velada sob o manto do medo que as pessoas tem da política fascistizante do PSL. O Bolsonaro se fortalece se briga com o Ciro, porque o Ciro tá com toda a turma podre do país - igual o próprio Bolsonaro sempre esteve. Foram tantos os partidos que ambos passaram, inclusive, para mostrar suas inconsistências ideologicas! Ciro simplesmente não conseguiu o apoio na chapa nacional, mas babou o ovo tanto do "Centrão" (a direita tradicional) quanto do Lulopetismo (a exquerda que a direita gosta, pra brincar de polarização).
Substancialmente podemos afirmar que não vai mudar nada se Ciro ganhar e, pior, a ultradireita ainda vai ter um tempão pra dizer "Viu? Deu no mesmo! A saída era e continua sendo nós, os 'honeeeestos'". Que autoridade vai ter o eleitor de "esquerda" que votou na direita toda que vai formar o novo governo e que não seria negada por Ciro?!? Não se combate o fascismo fortalecendo a direita e seu projeto fisiológico de poder! Precisamos ser sérios e responsáveis, defender o central: um programa político que faça uma revolução política e social no Brasil guiada por garantir os direitos dos trabalhadores e não de tirá-los com estas reformas terríveis. Nem as privatizações que enfraquecem o trabalho em favor do capital. Se não for isso, se esse projeto de igualdade não vingar urgente, haverá um projeto de uma verdadeira contrarrevolução social que será um retrocesso absoluto em médio prazo. Essa é a polarização real: capital x trabalho. Apostar na mobilização das mulheres e de todo o povo é o caminho pra reverter isso, indicando uma saída real. Não esse "projeto nacional" da burguesia com Ciro e Kátia! O PSOL tem autoridade política e programática, é sempre premiado pelo CONGRESSO EM FOCO com os melhores parlamentares do Brasil, não está em nenhum dos inúmeros escândalos de corrupção que nutre o Congresso Nacional, e ainda propõe mais poder ao povo e caminhar para findar oa privilégios da casta política!
Vote sim no que você acredita, numa atuação política pautada pelos interesses do povo e não do PSDB, PT, MDB, PP, seus financiadores de campanha e marketeiros, é toda essa corja que está com Ciro pelo país todo e com o Alckmin também. Bolsonaro, Alckmin, Ciro, Marina, Haddad, Álvaro Dias, Meirelles, nenhum dos candidatos da "direita" e da "esquerda" desse podre regime político nos serve. A rejeição de Bolsonaro está em cerca de 41% de acordo com as últimas pesquisas do Ibope e DataFolha, ainda as mulheres são barreira importante contra o seu neofascismo e agora que os indecisos podem começar a se posicionar, embalados pela vontade de protesto. Não tem sentido definir-se por um "voto útil" com tanta água pra rola de debaixo da ponte ainda com quase um mês de campanha e fatos políticos possíveis. A grave facada em Bolsonaro no dia 6, o atual pedido de seu vice General Mourão de assumir o seu lugar e a criação do Mulheres Contra Bolsonaro com já mais de 1 milhão e 500 mil membros são exemplos. Com o teu reforço nessa reta final de campanha o PSOL pode e deve passar a crescer como um Projeto de Brasil aplicável! Contra o desemprego e por infraestrutura que dê os direitos a quem mais precisa e promova a dignidade de todos os setores hoje oprimidos e marginalizados por essa falsa democracia. Proteste nas ruas! E também nas urnas! Vote 50 e se organize pra derrotar esse sistema podre que promete um terremoto em 2019 com o novo plano de ajuste fiscal que todos esses partidos irão aplicar contra nós!
Fortaleça uma saída verdadeira, o PSOL fica mais forte com VOCÊ!
terça-feira, 19 de junho de 2018
Esse blog fez 10 anos e nem percebi
Comecei a usar esse blog muitos anos atrás fundamentalmente como um exercício. Exercício de reflexão, de produção textual e de expressão do que pensava e sentia. Não tinha o menor objetivo de torná-lo algo "propriamente público", pois não passava de uma "brincadeira pessoal". Era um pouco da tal de intimidade pública de arestas aparadas, invenção das redes sociais. Durante um certo tempo tive alguns colegas bloggers que também postavam seus próprios blogs e que passaram a compartilhar comigo algumas coisas legais por aqui... Depois descarreguei várias coisas aqui, em signos virtuais para memórias e sensações residuais de toda sorte. Nada demais porque nunca foi para ser algo mais que meus próprios murmúrios pessoais para mim mesmo - não na maior parte do tempo, pelo menos. Mas como tudo muda, mudou também o teor das postagens. E o que era só brincadeira foi virando uma brincadeira diferente. Depois mais diferente. Até virar "só uma página" estranha de vários textos políticos em espanhol e inglês que eu traduzia. Perdeu toda a graça e sentimento que um dia teve, rs. Mas, blergh!, passou. Deixa pra lá. O importante é que esse blog bobo foi bem útil para mim em alguns momentos e, de alguma forma, me ajudou - junto de muitas outras experiências reais - como o tal do exercício que deveria ser, no aprendizado das ordenações de ideias, das palavras e até em um pouquinho de poesia. 10 anos é muito pra vida humana, por mais que não signifique quase nada na História da Existência.
E, quando olho aqui, vejo que muito do que penso hoje já pensava há uma década atrás - talvez eu não tenha mudado tanto quanto imaginei que mudaria em uma década ou talvez não seja bem assim, e eu só não esteja atento agora enquanto digito. Enfim: para ajudar a perceber o que mudou, vou voltar a digitar aqui. Partindo do que acabo de fazer agora. Boa noite: são 4h da manhã e escuto Casa das Máquinas, o disco "Lar das Maravilhas".
E, quando olho aqui, vejo que muito do que penso hoje já pensava há uma década atrás - talvez eu não tenha mudado tanto quanto imaginei que mudaria em uma década ou talvez não seja bem assim, e eu só não esteja atento agora enquanto digito. Enfim: para ajudar a perceber o que mudou, vou voltar a digitar aqui. Partindo do que acabo de fazer agora. Boa noite: são 4h da manhã e escuto Casa das Máquinas, o disco "Lar das Maravilhas".
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domingo, 3 de setembro de 2017
domingo, 25 de maio de 2014
As greves policiais e os socialistas revolucionários
FONTE: Izquierda Socialista (Seção da UIT-QI na Argentina) - Outubro de 2012.
A greve de "gendarmaria" e "prefectos" (categorias policiais) na Argentina por reivindicações salariais e o apoio aos mesmos, como ao direito de formar sindicatos formulada por Izquierda Socialista, entre outras organizações, tem gerado uma nova polêmica na esquerda.
Apoiar as reivindicações salariais da polícia não significa reivindicar a instituição repressora patronal
Este debate não é novo na esquerda internacional, já que há correntes como a que encarna o PTS - Fração trotskista, que vem se opondo a toda e qualquer greve policial ou de outras forças em qualquer país do mundo em que ocorram. Assim como seus pequenos grupos de afinidade do Brasil e da Bolívia, que, com argumentos semelhantes, se opuseram à greve dos bombeiros no Rio de Janeiro ( Brasil) e a greve da polícia de baixa patente da Bolívia. Ambas as greves foram reprimidas pelos governos de centro-esquerda de Dilma Russef e Evo Morales.
É um debate muito importante pois faz parte da estratégia revolucionária e as questões sobre as quais o marxismo sempre debateu e adotou posições. O marco é fornecido pelas resoluções da III Internacional e as experiências revolucionárias do século XX.
Consideramos que a negação de intervir com uma política de classe nas greves das polícias vai contra a tradição do marxismo revolucionário.
1) A citação de Trotsky, usada pelo PTS através do seu dirigente Christian Castillo e pelo Professor Rolando Astarita sobre a Alemanha na década de 30 contra a polícia, não corresponde a um caso de greve da polícia ou de bombeiros, ou rebeliões salariais ou por reivindicações da base e dos quadros médios militares. Sua utilização é a negação do método marxista. Com citações mal utilizadas se pode fingir que se prova qualquer coisa. Trotsky, quando refere-se corretamente ao papel repressivo e burguês da polícia alemã: "o trabalhador, convertido em policial a serviço do Estado capitalista, é um policial burguês e não um trabalhador", está discutindo uma polêmica com a social-democracia alemã, quando esta se recusava (1932) a mobilizar a classe trabalhadora contra o avanço político das gangues fascistas de Hitler e do partido nazista. A social-democracia, que apoiava o regime burguês do momento, argumentava que só iria parar com a polícia nos marcos da Constituição e da justiça burguesa do governo e do regime. Argumentava em seu favor, dizendo que a maioria dos policiais eram de origem "operária" e filiados à social-democracia. (Ver em "A luta contra o fascismo na Alemanha", Capítulo "A social-democracia", Editora Pluma, 1973, p. 93 e seguintes). Polemiza e denuncia uma política traidora e reformista que considerava a instituição policial como "progressista", enquanto desmobilizava a classe trabalhadora alemã. Seu slogan era "Estado, intervenha". É o oposto da nossa postura, a dos verdadeiros marxistas. Em nenhum momento reivindicamos a "polícia" nem a instituição burguesa repressora "Gendarmería" ou "Prefectura". Apoiamos as reivindicações salariais da base e quadros médios contra os comandos superiores e o governo burguês de turno.
2) O PTS e o professor Astarita vão contra toda a tradição do marxismo e de nossos mestres Lênin e Trotsky. O PTS - que alega ser um partido revolucionário - não cumpriria com as 21 condições da III Internacional, que no seu ponto 4 assinala: "O dever de difundir as idéias comunistas implica a necessidade absoluta de desenvolver uma propaganda e uma agitação sistemática e perseverante entre as tropas. Onde a propaganda ostensiva seja difícil por causa das leis de exceção, deve se desenvolver ilegalmente; recusar-se a fazê-lo seria uma traição às exigências do dever revolucionário e, por consequência, incompatível com a filiação na Terceira Internacional". O ponto é uma condição clara e excludente para ser da internacional, porque se considera traição. Esta resolução é do Segundo Congresso, liderado por Lênin e Trotsky.
3) O argumento de que não se pode apoiar porque "eles não são trabalhadores" é desmentido pela resolução da Terceira Internacional. É evidente que a Terceira não considerava e nem argumentava que a agitação tinha que se fazer porque eles seriam trabalhadores, partia de que eram as forças repressivas do Estado burguês. Por que, então, recomendou essa agitação sistemática? Porque considerava que era parte da estratégia revolucionária ter uma política para tentar dividí-las ou paralisá-las para quando chegasse o momento de uma insurreição operária e popular. Eles se baseavam na experiência revolucionária.
4) O argumento de que só em situações de insurreição proletária ou de massas se pode ter uma agitação e política para agir sobre as forças repressivas é falso. O ponto 4 da Terceira Internacional não coloca essa condição.
5) Lenin levantava, nos acontecimentos revolucionários de 1905, que tinham que apoiar as reivindicações salariais e melhorias nos serviços exigidos pelos soldados e pelos marinheiros das forças armadas czaristas. "Os soldados de São Petersburgo querem melhores vestuários, alojamentos e cobram aumentos salariais" [...] "não é possível permanecer à margem da luta de todo o povo pela liberdade. Quem mostrar indiferença para com esta luta, de fato apoia os desmandos do governo da polícia" (ver "Duas táticas da social-democracia na revolução democrática", julho de 1905)
6) O argumento de que apoiar melhores salários é igual a apoiar o reforço do aparelho repressivo, é tão ridículo quanto dizer que Lenin, ao apoiar as reivindicações salariais dos soldados e marinheiros do regime czarista, era um traidor que ajudava a que o aparelho criminoso czarista ficasse mais forte para continuar assassinando ao proletariado e aos camponeses russos.
7) Também observou Trotsky - em polêmica com os pacifistas e os reformistas que viam a impossibilidade de enfrentar o poder burguês pelas suas forças repressivas e seu poderoso armamento -, "por trás de cada máquina há homens, ligados por relações não apenas técnicas, mas também sociais e políticas" ("Para onde vai a França?", Editora Pluma, 1974, página 37). Em outras palavras, disse que com uma política correta se poderia ganhar ou paralisar setores dessas forças repressivas.
8) O PTS, há tempos dá cursos sobre Clausewitz, um dos maiores teóricos da arte militar. Mas esquece de um de seus ensinamentos mais importantes, que gostava de citar Trotsky neste trabalho e outros. Que a guerra civil é a continuação da política por outros meios. É evidente que quando se chega à beira de uma guerra civil ou de uma insurreição, que enfrenta a repressão das forças repressivas, é vital ter uma política mais radical na base destas forças (incluindo a auto-defesa de trabalhadores), dividi-las ou paralisa-las, incluindo apoiar suas reivindicações salariais ou outras reivindicações. Mas, por que essa política não é válida quando não há guerra ou insurreição, se, segundo Clausewitz, esta é a continuação "da política por outros meios"? Em tempos de "paz" é necessário que exista essa política preparatória, como aconselhava a Terceira Internacional, e não esperar por uma insurreição ou o início de uma guerra civil. Parte dessa preparação é a agitação política e propagandística e parte dela é buscar aprofundar, com as políticas corretas, as divisões conjunturais ou muito excepcionais que se provocam nas forças repressivas do regime burguês, como são as greves salariais que, objetivamente, vão contra as normas burguesas básicas, que são o não reinvindicar, o obedecer às ordens, não usar os métodos do movimento operário como as greves ou tentativas de formar sindicatos. Neste contexto, apoiar as greves da polícia, de bombeiros ou outras forças militares é correto com a condição de que não se reivindique à instituição burguesa repressiva e de uní-la às lutas da classe trabalhadora.
9) As greves policiais ou de forças semelhantes se dão precisamente em tempos de grande tensão social de um país. As rimeiro que se conheceram foram na Inglaterra de 1918-1919, onde surgiram os primeiros sindicatos, varridos pelo Império Britânico. O professor Astarita dá como prova de que não é lógico propor sindicatos policiais e nem apoiar as suas greves, porque depois dessa greve histórica e de ter um sindicato, a polícia britânica não mudou e permaneceu reprimindo. O detalhe que está faltando a este pseudo erudito do marxismo, é que o governo imperialista britânico demitiu e deu baixa a mais de mil policiais daquela greve heróica. As greves policiais de 1918-1919 eram parte da onda operária revolucionária pós revolução russa. Que haja greves da polícia e surjam sindicatos (como existem na França e em outros países europeus) não muda o caráter das forças repressivas de um Estado burguês, isso só pode ocorrer quando triunfe uma revolução socialista e surja um Estado operário que as dissolva. Hoje as greves policiais são comuns na Grã-Bretanha, na Europa e no mundo, em meio ao aprofundamento da crise social capitalista. Não se conhece um caso de que tenham sido rejeitados pelos trabalhadores quando eles se juntaram a luta. Por sua vez, esses mesmos policiais são repudiados e enfrentados quando reprimem aos trabalhadores e a juventude. É a realidade, com todas as suas contradições. Querer substituí-la por esquemas e citações mal utilizadas não serve para nada mais que afastar os trabalhadores de uma verdadeira política de classe e revolucionária. E favorecer objetivamente, por sua infantilidade, ao governo e ao regime capitalista de turno, como o governo peronista de Cristina Kirchner, que também questiona as greves da polícia e dos gendarmes. Por outro lado, ao não apoiar e repudiar essas reivindicações, abandona-se a luta estratégica de buscar dividir ou neutralizar a setores das forças repressivas, uma das tarefas chave da classe trabalhadora e dos socialistas revolucionários.
Outro esclarecimento para PTS
Em uma nota polêmica com um artigo dessa página, o dirigente do PTS Jonatan Ros escreve: "Clausewitz escreveu a famosa frase "A guerra é a continuação da política por outros meios". No entanto, Sorans diz, tentando citá-lo que "a Guerra Civil (sic) é a continuação da política por outros meios". Sem fingir que Miguel Sorans (ou IS) estude sistematicamente a Clausewitz, como fazemos no PTS, seria bom, pelo menos, que lessem a Lênin e Trotsky que citam inúmeras vezes a conhecidíssima "fórmula" do teórico militar prussiano, que como todo mundo sabe não fala de "guerra civil" ( La Verdad Obrera, 18/10/12).
Neste sentido, gostaríamos de esclarecer ao autor e aos leitores de La Verdad Obrera que Sorans não citou a Clausewitz, mas, simplesmente, repetiu a Leon Trotsky. Para seu conhecimento reproduzimos a citação: "A Guerra Civil, temos dito após Clausewitz, é a continuação da política, mas por outros meios" ("Aonde vai a França?", Leon Trotsky, página 40, Editora Pluma, Buenos Aires, 1974).
A greve de "gendarmaria" e "prefectos" (categorias policiais) na Argentina por reivindicações salariais e o apoio aos mesmos, como ao direito de formar sindicatos formulada por Izquierda Socialista, entre outras organizações, tem gerado uma nova polêmica na esquerda.
Apoiar as reivindicações salariais da polícia não significa reivindicar a instituição repressora patronal
Este debate não é novo na esquerda internacional, já que há correntes como a que encarna o PTS - Fração trotskista, que vem se opondo a toda e qualquer greve policial ou de outras forças em qualquer país do mundo em que ocorram. Assim como seus pequenos grupos de afinidade do Brasil e da Bolívia, que, com argumentos semelhantes, se opuseram à greve dos bombeiros no Rio de Janeiro ( Brasil) e a greve da polícia de baixa patente da Bolívia. Ambas as greves foram reprimidas pelos governos de centro-esquerda de Dilma Russef e Evo Morales.
É um debate muito importante pois faz parte da estratégia revolucionária e as questões sobre as quais o marxismo sempre debateu e adotou posições. O marco é fornecido pelas resoluções da III Internacional e as experiências revolucionárias do século XX.
Consideramos que a negação de intervir com uma política de classe nas greves das polícias vai contra a tradição do marxismo revolucionário.
1) A citação de Trotsky, usada pelo PTS através do seu dirigente Christian Castillo e pelo Professor Rolando Astarita sobre a Alemanha na década de 30 contra a polícia, não corresponde a um caso de greve da polícia ou de bombeiros, ou rebeliões salariais ou por reivindicações da base e dos quadros médios militares. Sua utilização é a negação do método marxista. Com citações mal utilizadas se pode fingir que se prova qualquer coisa. Trotsky, quando refere-se corretamente ao papel repressivo e burguês da polícia alemã: "o trabalhador, convertido em policial a serviço do Estado capitalista, é um policial burguês e não um trabalhador", está discutindo uma polêmica com a social-democracia alemã, quando esta se recusava (1932) a mobilizar a classe trabalhadora contra o avanço político das gangues fascistas de Hitler e do partido nazista. A social-democracia, que apoiava o regime burguês do momento, argumentava que só iria parar com a polícia nos marcos da Constituição e da justiça burguesa do governo e do regime. Argumentava em seu favor, dizendo que a maioria dos policiais eram de origem "operária" e filiados à social-democracia. (Ver em "A luta contra o fascismo na Alemanha", Capítulo "A social-democracia", Editora Pluma, 1973, p. 93 e seguintes). Polemiza e denuncia uma política traidora e reformista que considerava a instituição policial como "progressista", enquanto desmobilizava a classe trabalhadora alemã. Seu slogan era "Estado, intervenha". É o oposto da nossa postura, a dos verdadeiros marxistas. Em nenhum momento reivindicamos a "polícia" nem a instituição burguesa repressora "Gendarmería" ou "Prefectura". Apoiamos as reivindicações salariais da base e quadros médios contra os comandos superiores e o governo burguês de turno.
2) O PTS e o professor Astarita vão contra toda a tradição do marxismo e de nossos mestres Lênin e Trotsky. O PTS - que alega ser um partido revolucionário - não cumpriria com as 21 condições da III Internacional, que no seu ponto 4 assinala: "O dever de difundir as idéias comunistas implica a necessidade absoluta de desenvolver uma propaganda e uma agitação sistemática e perseverante entre as tropas. Onde a propaganda ostensiva seja difícil por causa das leis de exceção, deve se desenvolver ilegalmente; recusar-se a fazê-lo seria uma traição às exigências do dever revolucionário e, por consequência, incompatível com a filiação na Terceira Internacional". O ponto é uma condição clara e excludente para ser da internacional, porque se considera traição. Esta resolução é do Segundo Congresso, liderado por Lênin e Trotsky.
3) O argumento de que não se pode apoiar porque "eles não são trabalhadores" é desmentido pela resolução da Terceira Internacional. É evidente que a Terceira não considerava e nem argumentava que a agitação tinha que se fazer porque eles seriam trabalhadores, partia de que eram as forças repressivas do Estado burguês. Por que, então, recomendou essa agitação sistemática? Porque considerava que era parte da estratégia revolucionária ter uma política para tentar dividí-las ou paralisá-las para quando chegasse o momento de uma insurreição operária e popular. Eles se baseavam na experiência revolucionária.
4) O argumento de que só em situações de insurreição proletária ou de massas se pode ter uma agitação e política para agir sobre as forças repressivas é falso. O ponto 4 da Terceira Internacional não coloca essa condição.
5) Lenin levantava, nos acontecimentos revolucionários de 1905, que tinham que apoiar as reivindicações salariais e melhorias nos serviços exigidos pelos soldados e pelos marinheiros das forças armadas czaristas. "Os soldados de São Petersburgo querem melhores vestuários, alojamentos e cobram aumentos salariais" [...] "não é possível permanecer à margem da luta de todo o povo pela liberdade. Quem mostrar indiferença para com esta luta, de fato apoia os desmandos do governo da polícia" (ver "Duas táticas da social-democracia na revolução democrática", julho de 1905)
6) O argumento de que apoiar melhores salários é igual a apoiar o reforço do aparelho repressivo, é tão ridículo quanto dizer que Lenin, ao apoiar as reivindicações salariais dos soldados e marinheiros do regime czarista, era um traidor que ajudava a que o aparelho criminoso czarista ficasse mais forte para continuar assassinando ao proletariado e aos camponeses russos.
7) Também observou Trotsky - em polêmica com os pacifistas e os reformistas que viam a impossibilidade de enfrentar o poder burguês pelas suas forças repressivas e seu poderoso armamento -, "por trás de cada máquina há homens, ligados por relações não apenas técnicas, mas também sociais e políticas" ("Para onde vai a França?", Editora Pluma, 1974, página 37). Em outras palavras, disse que com uma política correta se poderia ganhar ou paralisar setores dessas forças repressivas.
8) O PTS, há tempos dá cursos sobre Clausewitz, um dos maiores teóricos da arte militar. Mas esquece de um de seus ensinamentos mais importantes, que gostava de citar Trotsky neste trabalho e outros. Que a guerra civil é a continuação da política por outros meios. É evidente que quando se chega à beira de uma guerra civil ou de uma insurreição, que enfrenta a repressão das forças repressivas, é vital ter uma política mais radical na base destas forças (incluindo a auto-defesa de trabalhadores), dividi-las ou paralisa-las, incluindo apoiar suas reivindicações salariais ou outras reivindicações. Mas, por que essa política não é válida quando não há guerra ou insurreição, se, segundo Clausewitz, esta é a continuação "da política por outros meios"? Em tempos de "paz" é necessário que exista essa política preparatória, como aconselhava a Terceira Internacional, e não esperar por uma insurreição ou o início de uma guerra civil. Parte dessa preparação é a agitação política e propagandística e parte dela é buscar aprofundar, com as políticas corretas, as divisões conjunturais ou muito excepcionais que se provocam nas forças repressivas do regime burguês, como são as greves salariais que, objetivamente, vão contra as normas burguesas básicas, que são o não reinvindicar, o obedecer às ordens, não usar os métodos do movimento operário como as greves ou tentativas de formar sindicatos. Neste contexto, apoiar as greves da polícia, de bombeiros ou outras forças militares é correto com a condição de que não se reivindique à instituição burguesa repressiva e de uní-la às lutas da classe trabalhadora.
9) As greves policiais ou de forças semelhantes se dão precisamente em tempos de grande tensão social de um país. As rimeiro que se conheceram foram na Inglaterra de 1918-1919, onde surgiram os primeiros sindicatos, varridos pelo Império Britânico. O professor Astarita dá como prova de que não é lógico propor sindicatos policiais e nem apoiar as suas greves, porque depois dessa greve histórica e de ter um sindicato, a polícia britânica não mudou e permaneceu reprimindo. O detalhe que está faltando a este pseudo erudito do marxismo, é que o governo imperialista britânico demitiu e deu baixa a mais de mil policiais daquela greve heróica. As greves policiais de 1918-1919 eram parte da onda operária revolucionária pós revolução russa. Que haja greves da polícia e surjam sindicatos (como existem na França e em outros países europeus) não muda o caráter das forças repressivas de um Estado burguês, isso só pode ocorrer quando triunfe uma revolução socialista e surja um Estado operário que as dissolva. Hoje as greves policiais são comuns na Grã-Bretanha, na Europa e no mundo, em meio ao aprofundamento da crise social capitalista. Não se conhece um caso de que tenham sido rejeitados pelos trabalhadores quando eles se juntaram a luta. Por sua vez, esses mesmos policiais são repudiados e enfrentados quando reprimem aos trabalhadores e a juventude. É a realidade, com todas as suas contradições. Querer substituí-la por esquemas e citações mal utilizadas não serve para nada mais que afastar os trabalhadores de uma verdadeira política de classe e revolucionária. E favorecer objetivamente, por sua infantilidade, ao governo e ao regime capitalista de turno, como o governo peronista de Cristina Kirchner, que também questiona as greves da polícia e dos gendarmes. Por outro lado, ao não apoiar e repudiar essas reivindicações, abandona-se a luta estratégica de buscar dividir ou neutralizar a setores das forças repressivas, uma das tarefas chave da classe trabalhadora e dos socialistas revolucionários.
Outro esclarecimento para PTS
Em uma nota polêmica com um artigo dessa página, o dirigente do PTS Jonatan Ros escreve: "Clausewitz escreveu a famosa frase "A guerra é a continuação da política por outros meios". No entanto, Sorans diz, tentando citá-lo que "a Guerra Civil (sic) é a continuação da política por outros meios". Sem fingir que Miguel Sorans (ou IS) estude sistematicamente a Clausewitz, como fazemos no PTS, seria bom, pelo menos, que lessem a Lênin e Trotsky que citam inúmeras vezes a conhecidíssima "fórmula" do teórico militar prussiano, que como todo mundo sabe não fala de "guerra civil" ( La Verdad Obrera, 18/10/12).
Neste sentido, gostaríamos de esclarecer ao autor e aos leitores de La Verdad Obrera que Sorans não citou a Clausewitz, mas, simplesmente, repetiu a Leon Trotsky. Para seu conhecimento reproduzimos a citação: "A Guerra Civil, temos dito após Clausewitz, é a continuação da política, mas por outros meios" ("Aonde vai a França?", Leon Trotsky, página 40, Editora Pluma, Buenos Aires, 1974).
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Ucrânia: rebelião popular frente a crise sócio-econômica
A mobilização de centenas de milhares de pessoas na Ucrânia forçou o governo a revogar as leis repressivas (anti-protestos), enfrentou e derrotou a polícia em muitos casos, e há dezenas de prédios públicos de ministérios ocupados e de províncias e forçou a renúncia do primeiro-ministro e todo o seu gabinete.
Ucrânia, um país de 45 milhões de habitantes, que pertenceu à antiga União Soviética, está enfrentando uma crise terminal relacionada com a crise mundial e o neoliberalismo extremo que levou à pobreza a grande parte da população, a massiva fuga de capitais por parte de uma oligarquia saqueadora que não paga impostos, são meses de atraso nos salários dos trabalhadores estatais, e o país não consegue pagar o gás importado da Rússia. O desemprego é muito elevado (8%) e o salário médio na Ucrânia é entre 2 e 2,5 vezes menor do que na Rússia e Bielorrússia, e muitíssimo menor do que na União Europeia. Estas são as razões básicas para o descontentamento popular e da força da mobilização. A rebelião tem relação direta com o processo da revolução árabe e os protestos em massa no país vizinho, Turquia.
O governo liderado pelo presidente Viktor Yanukovych é pró-russo, aliado a Vladimir Putin e é contra a adesão à União Europeia (UE). Putin parou o acordo com a UE concordando com Yanukovich baixar o preço do gás (a 50%) que lhe vende e se oferecendo um empréstimo de 15.000 milhões de dólares, mas vinculado a seus próprios planos de pilhagem da Ucrânia.A mobilização começou justamente em novembro de repudiando a decisão do governo de congelar o acordo de associação com a UE. A oposição burguesa, liderada pelo ex- primeiro-ministro Yuli Timoshenko, exige a entrada para a União Europeia e setores populares apoiam porque tem ilusões de que isto poderia melhorar a situação (enquanto que na Grécia ou no Estado Espanhol são muitos que dizem que tem de sair da União Europeia em crise, ante os ajustes antipopulares que esta impõe). Precisamente a mobilização popular com milhares de pessoas instaladas na Praça da Independência, em Kiev, adquiriu o nome de "Euromaidan" (Praça Europa). A revolta popular que se mantém desde há dois meses, transbordou a própria direção, enfrentou violentamente a polícia com centenas de feridos em ambos os lados e alguns mortos, agora exige novas eleições nacionais.
Os socialistas revolucionários apoiamos a mobilização do povo, da juventude e dos trabalhadores ucranianos por seus direitos democráticos, contra a dura repressão e pelo seu direito a decidir seu destino retirando o atual governo repressivo. Acreditamos que a solução não passa nem pela entrada na UE e nem em apoiar aos líderes dos capitalistas que estão saqueando o país, sejam situação ou "oposição", nem por acordos com a Rússia. Neste sentido, destacamos o manifesto do agrupamento ucraniano Oposição de Esquerda que convoca à lutar pelo não pagamento da dívida e à ruptura com o FMI e "nacionalizar a metalurgia, a mineração e as indústrias químicas, em conjunto com as empresas estruturais (energia, transportes e comunicações) que, controladas pelos trabalhadores, devem contribuir para o bem comum". Só um programa dos trabalhadores e do povo, com base em recuperar o controle das riquezas e da produção nacionais, pode começar a resolver a crise.
Miguel Lamas para "El Socialista" (de Izquierda Socialista, Argentina, UIT-CI)
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