Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Devaneio: consciência ingênua sobre líderes, representação e participação direta

Estava refletindo coisas sobre o episódio da votação em 1° turno no Congresso Nacional quanto a Reforma da Previdência e a reação ao voto de Tábata Amaral e outros deputados federais. Aí acabei digitando esse devaneio bagunçado no Facebook. Mas não quis publicar porque lembrei que tenho um Blog abandonado que agora quero ressignificar. Então, aí está o texto pra quem quiser compartilhar ideias ou fazer colocações.


É muito importante levar os debates para fora da cultura de linchamento e deboche que redes como o Facebook acabam repercutindo. Então, por isso prefiro refletir sobre esse assunto aqui, nesse formato, porque é um exercício saudável a reflexão sobre como contribuir melhor para que as discussões sobre as coisas que ocorrem levem para conclusões e não só para conflitos gratuitos e infrutíferos.

Hoje vejo que um dos principais problemas que as lutadoras e os lutadores sociais se confrontam nas batalhas politicas cotidianas é com uma grande dificuldade de "leitura" dos fenômenos da política. Pois impera, infelizmente, uma consciência ingênua generalizada sobre nosso povo, em verdade sobre todos nós e nossos iguais, trabalhadores e pobres, enquanto classe. As pessoas olham para as coisas da política, mas só enxergam as aparências e não conseguem perceber as essências. Ou seja, não se analisa em profundidade, mas apenas em superficialidade as disputas políticas em curso. É por isso que vivem caindo numa espécie de "seguidismo carismático" que termina em desilusões e experiências frustrantes, sem nem ao menos conseguir perceber quando estão sendo iludidas e muito menos em como está se dando essa ilusão até que reste o constrangimento público. E a indignação.

Não se lê o conjunto dos processos como o "filme" que são, se olha para os fatos de forma tão estática como se fosse uma "fotografia". Falta consciência dialética, falta enxergar que as coisas todas são dinâmicas, mudam e mudam. Falta consciência crítica de entender causas, efeitos e prognósticos quanto ao futuro, análises profundas e mais detalhadas dos fenômenos. O conteúdo dos programas, a localização dentro da luta de classes das diversas organizações e forças políticas.

E pior ainda, pois existe uma tendência desgraçada dentre os não-críticos de se achar ou de tentar sempre colocar uma pecha de que as pessoas que fazem crítica são pessoas que querem ser "donas da verdade", que sejam "arrogantes", que pensem que "só elas estão certas" e uma série de outras generalizações agressiva ao debate para tentar, objetivamente, impedir a realização das discussões e da reflexão crítica. É um método de não-debate para evitar que sejam deslocadas consciências para fora da zona de conforto acrítico e do lugar comum dos consensos sociais pré fabricados. Divergir é sempre tratado como algo ruim, negativo e penoso, não construtivo, ou divisionista e prejudicial quando isso é o completo oposto da realidade. Pois sem ambiente de debate livre e saudável impera o monolitismo autoritário de opiniões e decisões de alguém que exerce o poder.

Além de tudo isso existe uma grande falta de consciência do próprio poder, do poder coletivo, da força das pessoas, da importância da participação direta, ativa, coletiva, contributiva e dinâmica do máximo de pessoas no processo de luta social, da organização e mobilização das batalhas que se encampar, no se tem muita consciência sobre nosso própria capacidade de intervir e mudar os rumos dos fenômenos em desenvolvimento. Da nossa capacidade transformadora e de como ficamos mais fortes, mais capazes e mais inteligentes quando estamos agindo em unidade. E acabamos entregando o nosso poder coletivo a pessoas, a indivíduos ou grupos e vamos nos esvaziando inconscientemente desse poder.

Esse é o caso dos "líderes". Estas figuras são um fenômeno político também, que se dá em um tempo e um espaço como parte de um processo vivo e dinâmico de relações interpessoais que se transforma continuamente. Portanto, nós precisamos ser cirúrgicos na análise do papel que cumprem essas figuras. Seja quando são papéis progressivos e positivos para o avanço e contrução da luta ou seja quando passam a ser um fator negativo, obstrutivo e nocivo, onde o "eu" vai agindo em detrimento do "nós", se deixando de lado o coletivo e a coletividade em nome do individual e da individualidade. Quando projetos pessoais são maiores que os projetos coletivos, é o momento mesmo da traição, muito provavelmente.

É a vulnerabilidade crítica, é a armadilha da ingenuidade política que nos impede de nos livrarmos dos "mitos" que surgem sempre e a todo momento em todo lugar desse país. Há por todo lado fábricas e mais fábricas de "mitos" políticos, religiosos, comunitários, estudantis, acadêmicos, jurídicos, enfim, a sociedade está cheia de pessoas artificialmente construídas consciente ou inconscientemente preparadas para enganar as pessoas e detonar e destruir os sentimentos e os valores de comunidade, coletividade, civilidade, solidariedade, construção conjunta, bem comum, etc. Porque ao sistema capitalista no qual vivemos só interessa o que se pode fazer de propriedade privada, lucros e vantagens de seus agentes sociais e ideológicos. Ou seja, essa própria "consciência ingênua" é parte dos programas de poder da classe burguesa sobre toda a nação brasileira, pois ela quer um povo ignorante, sem escola, sem nível superior, sem política, sem debate e liberdade, ou mesmo quaisquer sociabilidades diversas aos seus padrões estéticos, morais, éticos e econômicos. A ingenuidade política, no caso, é um desastre completo onde tudo é decidido pelo voto nessa democraria dos ricos, mas que, na prática, não decide nada além de indivíduos e simulações em crise de processos democráticos.

Porque as pessoas ao invés de ver as práticas, os métodos e os conteúdos, acabam sendo condicionadas por essa consciência ingênua a se apegarem a seus afetos passionais e não-racionais, ao carisma das "figuras públicas". Quando deveriam, na verdade, se apaixonar e fazer reproduzir estas práticas, estes métodos e estes conteúdos que são apenas representados por pessoas, sim, obviamente, mas que não são características exclusivas delas! O "culto a personalidade" é o escárnio da coletividade. A idolatria de heróis e o menosprezo do comum.

Por exemplo, se formos olhar criticamente para além da pessoa e estudarmos o que, de fato, Lula significou em várias áreas da sociedade brasileira, veremos o seu ataque contra aposentados e pensionistas quando alterou as regras da previdência e quebrou a paridade entre aposentados e da ativo, gerando perdas econômicas aos idosos e seus cônjuges; ou como seu projeto educacional gerou uma explosiva privatização do ensino brasileiro que chegou na casa dos 85% das instituições de ensino superior, com transferência massiva de recursos públicos aos negócios privados via FIES e ProUni; ou como o abandono do projeto da Reforma Agrária e o incentivo ao Agronegócio exportador reforçou o caráter de Neocolonia do Brasil ao mesmo tempo que ativou um retrocesso industrial nacional que nos enfraqueceu diante a divisão internacional do trabalho; ou de como as sucessivas alianças e apoios do lulopetismo ao fundamentalismo religioso nutriu Edir Macedo, Marco Feliciano e até a própria família Bolsonaro, posto que todos eles foram aliados ou membros da base aliada do PT e saíram muito mais fortes do que entraram na política, destruindo o kit de combate a homofobia nas escolas, entre outras pautas, direitos femininos, que viraram moeda de troca por apoio eleitoral; ou a linha ascendente do encarceramento de jovens negros e de uma técnica de militarização das favelas via UPPs, a criação de novas forças de repressão e até uma lei "antiterror", sendo que sabemos que o terrorismo no Brasil vem do Estado e não dos movimentos sociais; E um longo etc...

Infelizmente, a ampla maioria das pessoas nem sequer sabe dos dados mais básicos desses problemas. Que seria um problema também de informação, mas, para além disso, também de formação porque: apenas conseguem enxergar um velhinho barbudo, simpático e de fala simples, que veio do nordeste e prometia destruir a corrupção e mudar tudo de horrível que havia. Tocante. Mas que não vai além dessa superficial análise, que FOI real em certo tempo e em certo espaço, mas que não é nem a totalidade da realidade e nem é mais realidade hoje, depois de tanta corrupção e servilismo a elite brasileira e ínfimos projetos aos pobres que não resolveram nada do que se prometia resolver. Há muito no subterrâneo que não se explora. Há muito que não se alcança, posta a ingenuidade política. E isso serve tanto para o ex operário como para o ex capitão ou a ex guerrilheira. As coisas mudaram e nenhum deles é hoje igual ao que já foram no passado. A dissonância da palavra e das ações é também algo essencial de termos em mente que ocorre.

A ampla maioria das pessoas não reflete para além do discurso e conceitos oficiais sobre a pobreza - nem sequer refletiram o que significa a palavra "pobreza", que não expressa apenas o número de reais e centavos no bolso, mas todas as condições de reprodução social das pessoas que são alijadas de seus direitos. A ampla maioria das pessoas não reflete que não acabou a pobreza, e nem percebeu que nós todos caminhamos para um país onde o fosso entre os mais ricos e os mais pobres cresceu muitas vezes mais do que qualquer "digestão moral da pobreza" praticado em programas assistencialistas governamentais.

Outro caso é do Guilherme Boulos do PSOL que foi candidato pelo partido que eu milito e que eu crítico sempre que vejo erros que, em minha opinião, precisam ser enfrentados com dureza e honestidade. Boulos teve um modus operando interno e outro externo, por dentro das entranhas do processo político interno sua candidatura foi uma imposição autoritária, burocrática e que negou a que a militância do PSOL pudesse realizar uma eleição direta desde suas bases e decidir coletivamente e democraticamente. Boulos foi colocado como candidato por delegados de um Congresso que não debateu em suas etapas e pautas nada sobre candidaturas presidenciais, foi algo que entrou pela janela e, bionicamente, feriu a democraria interna como nunca antes tinha ocorrido na organização. Isso gerou uma crise no partido que casou desgaste e levou a pior votação de toda a trajetória do PSOL, vários militantes decidiram abandonar a campanha e não mover forças por ele. Eu era contra a su candidatura, mas achei que as bandeiras do PSOL estavam hasteadas parcialmente e por isso era preciso disputar ainda o espaço que fosse aberto por ela, mas com críticas. Enquanto isso, para fora do partido parecia que Boulos era o líder e campeão da "defesa da democracia", o que, na prática, é falso pois não respeitou nem sequer os militantes do partido pelo qual concorreu e aplicou uma política diferente da usual do partido e o fez, inclusive, nos fez perder parte grande do nosso eleitorado mais fiel. Isso é um exemplo de fábrica de lideranças biônicas por cima e não por baixo, que gera desconfiança e deseduca. Boulos acabou perdendo votos para outras ilusões como Ciro Gomes, para Bolsonaro, para Haddad, etc. Mas a realidade mais importante é que todo o processo eleitoral já é, por si mesmo, uma ilusão e a tarefa dos lutadores é denunciar essa farsa antidemocrática e disputar consciências para a crítica e para a luta e para a organização contra essa ordem do capital e sua democraria burguesa. Não sonhar em entrar nas regras do jogo como fez o PT e sim destruí-las para criar novas regras, as regras de uma Democracia Direta, de uma Democraria dos Trabalhadores. Coisa que Boulos e sua Plataforma "VAMOS" não conseguem fazer...

O problema de termos uma população sem consciência crítica, mergulhada em uma consciência ingênua superficial e alienante de sua capacidade de ver as coisas é que as pessoas estão mais vulneráveis a acreditar em qualquer coisa. E também ficam incapazes de com essa consciência crítica poder mudar as coisas com suas próprias mãos, com suas próprias forças. Tudo parece recair sobre os líderes, sobre os políticos, sobre as instituições, sobre as representações de todo tipo, tudo parece ter mais força do que as pessoas comuns. Parece que quem tem menos poder somos justamente nós e nossas mãos de cidadãos. Mas isso não é real, isso é ilusão.

O problema é que isto acostuma as pessoas a receber pouco, sempre se satisfazendo com a lógica de "pelos menos isso", então nossa classe sempre está subjugada e dominada e submetida a aceitar péssimos acordos. Desarmada para disputar algo maior e mais estratégico, desarmada de Sonhos e Bandeiras pelas quais lutar, muitas vezes. Aceitando a "miséria do possível". E assim também sempre deixando que os outros peguem a sua responsabilidade de resolver os problemas do país, sem nunca se resolver nada e sempre ainda conseguir piorar muita coisa.

É fácil enganar o brasileiro, infelizmente.

Toda a nossa consciência política mais avançada foi amputada pela Ditadura Militar e todo o autoritarismo obscurantista que veio junto nos mantém até hoje em uma "idade mental social" infantil - ou senil. Porque conseguimos chegar à loucura de ter gente hoje dizendo até que o Brasil já foi "socialista" ou que o PT é "comunista", quando o petismo foi fiador das classes dominantes e sempre estave servindo a capitalistas nacionais e mais ainda aos capitalistas e banqueiros internacionais! O próprio Obama, presidente imperialista do país mais capitalista e bélico do mundo todo, chamava o Lula de "o cara" por sempre estar a disposição dos EUA. Foi, inclusive, o Lula quem mandou as tropas do Exército brasileiro irem oprimir como um exército racista o povo do Haiti! Ou seja, o Brasil já até serviu de cachorro dos EUA quanto a sua atuação geopolítica, fingindo que cumpria uma missão de paz quando ia bater em pobres famintos desesperados que queria pegar comida nos supermercados...

O mundo é todo ao contrário e as pessoas se enganam como crianças, bebendo tinta pensando que é um suco delicioso de morango. E tanto mais velho alguns, às vezes, mais infantil parecem se tornar os membros de nossas gerações anteriores, lamentavelmente.

A ignorância - no sentido do desconhecimento - é a condição que as classes dominantes conseguiram vitoriosamente instalar no país pra melhor dominar e pilhar os pobres e quem vive do seu trabalho. Da venda de suas forças e suor por um salário de fome que não paga nem o que a Constituição diz que deveria ser pago, como função social do salário para alimentos, vestuário, lazer, saúde, etc. Não só os ricos gananciosos mas também os seus serviçais políticos canalhas de "esquerda" são campeões em falar bonito e fazer terrível o tempo todo. No parlamento: mocinhos. Na luta de classes: burocratas traidores da pior espécie dispostos a desmontar greves, lutas e mobilizações.

As pessoas precisam de CRÍTICA pra conquistar sua emancipação política, epistemológica, ideológica, religiosa, sexual, relacionamental, em geral, em tudo. Para conseguir se livrar desse vício doentio de gostar de viver ilusões inúmeras, viver falsificações das mais perversas e tolas e muitas vezes cruéis.

O cotidiano é cheio de ilusões, as relações são cheias de acriticidade, cheias de paixões tão irracionais que se tornam tóxicas, venenosas pra própria saúde mental e emocional das pessoas que convivem, um em relação às outras. As pessoas estão se adoecendo umas às outras também como efeito da deterioração do tecido social da sociedade burguesa, uma sociedade que vive uma decadência estrutural tanto no Brasil quanto no mundo. Na sua moral, na sua civilização. O suicídio e a depressão são debates feitos já pela nossa própria juventude, tão atingida pela crise de desemprego e a falta de perspectiva de futuro,. A tristeza se abate de forma crônica, a solidão mata aos pouquinhos pelos golpes que as opressões conscientes e inconscientes produzem. A violência. O medo. Há demais pressões nos ambientes de moradia, estudo e trabalho. Isso quando você tem onde morar, onde estudar e onde trabalhar. Sorte de quem ainda não teve o mundo desmoronado em pedacinhos de esperança perdida por todos os lados.

Veja bem...

Quantos casais abusivos, amigos-juízes e colegas autoritários a gente conhece em todo lugar? Que não ouvem uns aos outros e que não procuram ser compreendidos e nem compreender ninguém. Quantos patrões ou quantos representantes do Estado que cruzam nossa vida não aplicam assédios morais contra nós? Quantos egoístas arrogantes conhecemos? Que vivem só em função de si e de suas vontades, seus objetivos e "fodam-se vocês pra lá" todos ao seu redor? Que acham engraçado e fazem deboche sistemático do própria ideia de disposição ao diálogo? Que batalham e militam pra que as pessoas se sintam mal e excluídas dos espaços que mais deveriam ser de todos nós? Quantos oprimidos que são campeões em oprimir que a gente acaba conhecendo no dia a dia? Que falam de liberdade, mas só defendem a própria enquanfo vivem pra julgar e fazer troça dos seus desafetos? Nossa! É de cima a baixo, seja do Congresso ou do Presidente da República, até os mais ferrados, até os mais na rabeira da cadeia alimentar, nós temos uma sociedade doente e em crise e em degeneração. Quantos falso moralistas, cínicos e falsários a gente não conhece nos espaços religiosos, empresariais e políticos? Corrupção generalizada, com certeza. Mas organizada de cima pra baixo, contra tudo e contra todos, até ter ares de cultura... Mas cultura é resultado de algo concreto, ou seja, dos sistemas sociais que sempre foram instalados contra o povo.

É uma vida caótica viver nessa sociedade como está. Estamos longe, muito longe, totalmente distantes de ter consciência de como o Brasil ainda vive relações desumanas e de séculos passados, ao mesmo tempo que vive o tempo moderno da tecnologia informacional rápida e reproduz das crendices mais ri-dí-cu-las já inventadas pelo homem primitivo... Vivemos um puta exemplo do que é o "desenvolvimento desigual e combinado", com pensamentos e crenças ainda coloniais e práticas modernas de exploração e opressão. Chocante.

Por isso se acredita em Messias.

Por isso se acreditou e ainda se acredita em Lula. Por isso se acreditou e ainda se acredita em Bolsonaro. Por isso se acreditava em Sérgio Moro. Porque não vivemos uma sociedade emancipada e livre, capacitada para realizar análises profundas das coisas, mas numa nação prisioneira de todos os seus mais velhos e carcomidos autoritarismos. Nossos heróis são aqueles que a História não conta, que vão nadando contra a maré, que morreram e que morrem em combate contra velhas forças da ganância e da violência do capital.

Imagine, então, sonharmos de chegar ao patamar da população saber separar o indivíduo de suas práticas, métodos e conteúdos? Imagine lutar politicamente se não se sabe nem criticar o tio que espanca a mulher em casa com falas como "ninguém mete a colher"?!? Se não conseguimos nem criticar o autoritarismo institucional que se comete em nosso local de estudo e trabalho?!

Mas é urgente aprender a lutar e a identificar quem luta ao nosso lado ou não, se não nossa vida vai ser pra ter Tábatas e Úrsulas e Marinas posando de diferente, quando são iguais a todo o resto da estirpe de traidores e traidoras dos trabalhadores e sua juventude.

Práticas. Métodos. Conteúdos.

É preciso uma Prática diante dos ataques do governo, qual? Lutar com força, essa é a prática dos lutadores sociais. É preciso método, qual? Coletividade, construção conjunta e participativa, envolver o máximo de cérebros no processo de luta. Esse é o Método de quem quer mudanças coletivas e não louros personalistas, um.exemplo é o debate que mais tem surgido contra os burocratas sindicais e estudantis, como os "Comitês de Base" nos locais de moradia, trabalho e estudo. É preciso Conteúdo que dê objetivos para nossos esforços, qual conteúdo? Avançar nos direitos e em mais conquistas como, por exemplo, os "10% do PIB para a Educação" para enfrentar a política de cortes do governo.

Às vezes as lideranças nem lutam com força, nem constroem de forma coletiva e nem apresentam nenhuma proposta. Isso já é um risco enorme, mas ainda pode alguma pessoa ganhar a condição de "representação" pelo afeto e carisma. Pois muitas pessoas se deixam levar por líderes e não por ideais, são levadas por formas aparentes e não por proposições objetivas.

E, em geral, as pessoas tratam a política como qualquer coisa que não seja uma luta entre as práticas, os métodos e os conteúdos, mas como uma luta entre indivíduos, um jogo de futebol, uma luta de UFC, um esporte onde estas são apenas parte da torcida e não dos participantes reais do jogo. Só vem as pessoas que encarnam um papel de caudilho, de referência-controle, super heróis messiânicos. Isso é um desastre porque as eleições burguesas, por exemplo, são feitas para só fazer as pessoas acreditarem menos no seu próprio potencial de contribuição participativa, essa democracia é contra a democracia direta porque ela é representativa apenas, onde o povo vota para ser substituído por um indivíduo ou grupo que se absolutiza no poder. Do micro ao macro, nas relações mais corriqueiras do cotidiano até às relações titânica internacionais da geopolítica. Essa ingenuidade, essa consciência ingênua sobre tudo é algoz do nosso povo, é algoz de todos nós, porque é um subproduto da vontade das classes dominantes que nos querem ingênuos.

Está entre nossas tarefas urgentes  sempre pensar e construir maneiras de superar essa despolitização e deseducação tão grave, de maneira revolucionária. De maneira que faça mudanças profundas e estruturais, portanto, em toda a nossa sociabilidade de maneira contundente permanentemente. Política é Educação e Educação é Política. Estão ligadas umbilicalmente porque ambas são aspectos de  toda a sociabilidade humana, não existe ação que não seja educacativa e política em algum sentido. E arrisco dizer que é a participação direta nos processos sociais a mais educativa de todas as ações políticas, provavelmente.

Enfim, acabei de decidir que vou estudar nessas férias sobre essa questão da consciência ingênua. Quem tiver recomendações, aceito.

"Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam emtre si, mediatizados pelo mundo"

- Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

"VOTO ÚTIL"? CIRO ESTÁ COM OS PARTIDOS DO AJUSTE E DA CORRUPÇÃO!


Crítica pela esquerda de Eduardo Rodrigues, militante do PSOL no Pará. Por uma luta e por votos antifascistas e anticapitalistas!


Temos visto uma importante e necessária vontade social de derrotar Bolsonaro, que está politizando ainda mais a polarização social. Por outro lado, temos visto crescer também uma enorme ilusão em torno do projeto de Ciro Gomes - um candidato que não teve o apoio nem do "Centrão" e nem do "Lulismo" na chapa nacional com Kátia Abreu. Uma vez que parte dos seus almejados aliados está com Alckmin e Haddad, ou com candidaturas próprias. No entanto, o PDT de Ciro está coligado a TODOS os velhos partidos que aplicam a retirada de direitos e inúmeros casos de corrupção no Brasil. É fundamental travar um bom debate sobre a derrota de Bolsonaro, com certeza, mas sem cair cegos nas demais armadilhas criadas pela burguesia e suas castas políticas de mãos sujas.

Ciro Gomes no Pará está com o DEM - um partido filhote da Ditadura Militar - e o PSDB de Jatene e Zenaldo, dois inimigos do povo paraense e de Belém, apoiando que caia sobre nós o militar Márcio Miranda. Quando dizemos isso, os adeptos da candidatura Ciro-Kátia ficam chateados pelas denúncias. Mas precisamos dizer as coisas como elas são, sem medo e sem mascarar a verdade: Ciro também está com o DEM no Mato Grosso, ao lado do MDB do Michel Temer e do fundamentalista PSC. Está ainda com o PP - o partido mais corrupto do Brasil - e o PRTB que é outro partido igrejeiro fundamentalista, com Suely Campos em Roraima! Ao mesmo tempo lá no Ceará, apoia o Camilo Santana do PT junto ao DEM e o PP! Veja que lambança é o tal "projeto nacional" do Ciro e da Kátia Motosserra. O ruralismo, o latifúndio e o agronegócio não são problemas para eles? Concordam também com a política de Belo Monte em Altamira do lulismo e das isenções milionárias a Hydro Alunorte em Barcarena que os tucanos fazem.

Não basta discursos e firulas, a prática política do PDT é tão fisiológica, tão fisiológica e tão velha que Osmar Dias (PDT) desistiu da candidatura ao governo no Paraná porque teria que subir no palanque de duas candidaturas adversárias, dado o grau de coligações cruzadas de cima a baixo. Isso é de uma inviabilidade tão gritante que caiu fora pra não passar mais vergonha! O Renato Casagrande (PSB) no Espírito Santo está com PSDB, DEM, PP, PCdoB e o PSC, veja só. E na Bahia, o Rui Costa (PT) também está tendo apoio do DEM, do PSD da Bancada da Bala - que aqui no Pará é responsável por Éder Mauro e Coronel Neil - também o PCdoB e o PP, apoiados pelo Cirão da Massa. Só se for a argamassa da corrupção! O Fernando Pimentel (PT), que o PDT apoia em Minas Gerais, está com o PR além do PCdoB, DC e PSB. Foi esse mesmo Pimentel quem reprimiu duramente a greve de educadores em MG e foi denunciado pelas organizações populares... Todas essas informações de coligacões estão no site da Gazeta do Povo no Especial das Eleições e com todas as informações publicadas pela Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Eu não estou nem falando dos inúmeros processos e escândalos nos quais todos esses partidos batem recordes, seja no Mensalão, no Propinoduto ou na Operação Lava Jato! Será tão difícil entender que o Bolsonaro deve ser derrotado sim, mas que o Ciro representa tudo que o povo odeia e que tem levado a mais completa desilusão política nas massas trabalhadoras e pessoas comuns? É a DEMAGOGIA do Ciro o que irrita, mas ela está velada sob o manto do medo que as pessoas tem da política fascistizante do PSL. O Bolsonaro se fortalece se briga com o Ciro, porque o Ciro tá com toda a turma podre do país - igual o próprio Bolsonaro sempre esteve. Foram tantos os partidos que ambos passaram, inclusive, para mostrar suas inconsistências ideologicas! Ciro simplesmente não conseguiu o apoio na chapa nacional, mas babou o ovo tanto do "Centrão" (a direita tradicional) quanto do Lulopetismo (a exquerda que a direita gosta, pra brincar de polarização).

Substancialmente podemos afirmar que não vai mudar nada se Ciro ganhar e, pior, a ultradireita ainda vai ter um tempão pra dizer "Viu? Deu no mesmo! A saída era e continua sendo nós, os 'honeeeestos'". Que autoridade vai ter o eleitor de "esquerda" que votou na direita toda que vai formar o novo governo e que não seria negada por Ciro?!? Não se combate o fascismo fortalecendo a direita e seu projeto fisiológico de poder! Precisamos ser sérios e responsáveis, defender o central: um programa político que faça uma revolução política e social no Brasil guiada por garantir os direitos dos trabalhadores e não de tirá-los com estas reformas terríveis. Nem as privatizações que enfraquecem o trabalho em favor do capital. Se não for isso, se esse projeto de igualdade não vingar urgente, haverá um projeto de uma verdadeira contrarrevolução social que será um retrocesso absoluto em médio prazo. Essa é a polarização real: capital x trabalho. Apostar na mobilização das mulheres e de todo o povo é o caminho pra reverter isso, indicando uma saída real. Não esse "projeto nacional" da burguesia com Ciro e Kátia! O PSOL tem autoridade política e programática, é sempre premiado pelo CONGRESSO EM FOCO com os melhores parlamentares do Brasil, não está em nenhum dos inúmeros escândalos de corrupção que nutre o Congresso Nacional, e ainda propõe mais poder ao povo e caminhar para findar oa privilégios da casta política!

Vote sim no que você acredita, numa atuação política pautada pelos interesses do povo e não do PSDB, PT, MDB, PP, seus financiadores de campanha e marketeiros, é toda essa corja que está com Ciro pelo país todo e com o Alckmin também. Bolsonaro, Alckmin, Ciro, Marina, Haddad, Álvaro Dias, Meirelles, nenhum dos candidatos da "direita" e da "esquerda" desse podre regime político nos serve. A rejeição de Bolsonaro está em cerca de 41% de acordo com as últimas pesquisas do Ibope e DataFolha, ainda as mulheres são barreira importante contra o seu neofascismo e agora que os indecisos podem começar a se posicionar, embalados pela vontade de protesto. Não tem sentido definir-se por um "voto útil" com tanta água pra rola de debaixo da ponte ainda com quase um mês de campanha e fatos políticos possíveis. A grave facada em Bolsonaro no dia 6, o atual pedido de seu vice General Mourão de assumir o seu lugar e a criação do Mulheres Contra Bolsonaro com já mais de 1 milhão e 500 mil membros são exemplos. Com o teu reforço nessa reta final de campanha o PSOL pode e deve passar a crescer como um Projeto de Brasil aplicável! Contra o desemprego e por infraestrutura que dê os direitos a quem mais precisa e promova a dignidade de todos os setores hoje oprimidos e marginalizados por essa falsa democracia. Proteste nas ruas! E também nas urnas! Vote 50 e se organize pra derrotar esse sistema podre que promete um terremoto em 2019 com o novo plano de ajuste fiscal que todos esses partidos irão aplicar contra nós!

Fortaleça uma saída verdadeira, o PSOL fica mais forte com VOCÊ!

terça-feira, 19 de junho de 2018

Esse blog fez 10 anos e nem percebi

Comecei a usar esse blog muitos anos atrás fundamentalmente como um exercício. Exercício de reflexão, de produção textual e de expressão do que pensava e sentia. Não tinha o menor objetivo de torná-lo algo "propriamente público", pois não passava de uma "brincadeira pessoal". Era um pouco da tal de intimidade pública de arestas aparadas, invenção das redes sociais. Durante um certo tempo tive alguns colegas bloggers que também postavam seus próprios blogs e que passaram a compartilhar comigo algumas coisas legais por aqui... Depois descarreguei várias coisas aqui, em signos virtuais para memórias e sensações residuais de toda sorte. Nada demais porque nunca foi para ser algo mais que meus próprios murmúrios pessoais para mim mesmo - não na maior parte do tempo, pelo menos. Mas como tudo muda, mudou também o teor das postagens. E o que era só brincadeira foi virando uma brincadeira diferente. Depois mais diferente. Até virar "só uma página" estranha de vários textos políticos em espanhol e inglês que eu traduzia. Perdeu toda a graça e sentimento que um dia teve, rs. Mas, blergh!, passou. Deixa pra lá. O importante é que esse blog bobo foi bem útil para mim em alguns momentos e, de alguma forma, me ajudou - junto de muitas outras experiências reais - como o tal do exercício que deveria ser, no aprendizado das ordenações de ideias, das palavras e até em um pouquinho de poesia. 10 anos é muito pra vida humana, por mais que não signifique quase nada na História da Existência.

E, quando olho aqui, vejo que muito do que penso hoje já pensava há uma década atrás - talvez eu não tenha mudado tanto quanto imaginei que mudaria em uma década ou talvez não seja bem assim, e eu só não esteja atento agora enquanto digito. Enfim: para ajudar a perceber o que mudou, vou voltar a digitar aqui. Partindo do que acabo de fazer agora. Boa noite: são 4h da manhã e escuto Casa das Máquinas, o disco "Lar das Maravilhas".

domingo, 3 de setembro de 2017

Caminhando em busca de palavras
Pra expressar essa sensação
De estar sozinho atrás do rumo
Que fundirá nossos neurônios

domingo, 25 de maio de 2014

As greves policiais e os socialistas revolucionários

FONTE: Izquierda Socialista (Seção da UIT-QI na Argentina) - Outubro de 2012.

A greve de "gendarmaria" e "prefectos" (categorias policiais) na Argentina por reivindicações salariais e o apoio aos mesmos, como ao direito de formar sindicatos formulada por Izquierda Socialista, entre outras organizações, tem gerado uma nova polêmica na esquerda.


Apoiar as reivindicações salariais da polícia não significa reivindicar a instituição repressora patronal

Este debate não é novo na esquerda internacional, já que há correntes como a que encarna o PTS - Fração trotskista, que vem se opondo a toda e qualquer greve policial ou de outras forças em qualquer país do mundo em que ocorram. Assim como seus pequenos grupos de afinidade do Brasil e da Bolívia, que, com argumentos semelhantes, se opuseram à greve dos bombeiros no Rio de Janeiro ( Brasil) e a greve da polícia de baixa patente da Bolívia. Ambas as greves foram reprimidas pelos governos de centro-esquerda de Dilma Russef e Evo Morales.

É um debate muito importante pois faz parte da estratégia revolucionária e as questões sobre as quais o marxismo sempre debateu e adotou posições. O marco é fornecido pelas resoluções da III Internacional e as experiências revolucionárias do século XX.

Consideramos que a negação de intervir com uma política de classe nas greves das polícias vai contra a tradição do marxismo revolucionário.

1) A citação de Trotsky, usada pelo PTS através do seu dirigente Christian Castillo e pelo Professor Rolando Astarita sobre a Alemanha na década de 30 contra a polícia, não corresponde a um caso de greve da polícia ou de bombeiros, ou rebeliões salariais ou por reivindicações da base e dos quadros médios militares. Sua utilização é a negação do método marxista. Com citações mal utilizadas se pode fingir que se prova qualquer coisa. Trotsky, quando refere-se corretamente ao papel repressivo e burguês da polícia alemã: "o trabalhador, convertido em policial a serviço do Estado capitalista, é um policial burguês e não um trabalhador", está discutindo uma polêmica com a social-democracia alemã, quando esta se recusava (1932) a mobilizar a classe trabalhadora contra o avanço político das gangues fascistas de Hitler e do partido nazista. A social-democracia, que apoiava o regime burguês do momento, argumentava que só iria parar com a polícia nos marcos da Constituição e da justiça burguesa do governo e do regime. Argumentava em seu favor, dizendo que a maioria dos policiais eram de origem "operária" e filiados à social-democracia. (Ver em "A luta contra o fascismo na Alemanha", Capítulo "A social-democracia", Editora Pluma, 1973, p. 93 e seguintes). Polemiza e denuncia uma política traidora e reformista que considerava a instituição policial como "progressista", enquanto desmobilizava a classe trabalhadora alemã. Seu slogan era "Estado, intervenha". É o oposto da nossa postura, a dos verdadeiros marxistas. Em nenhum momento reivindicamos a "polícia" nem a instituição burguesa repressora "Gendarmería" ou "Prefectura". Apoiamos as reivindicações salariais da base e quadros médios contra os comandos superiores e o governo burguês de turno.

2) O PTS e o professor Astarita vão contra toda a tradição do marxismo e de nossos mestres Lênin e Trotsky. O PTS - que alega ser um partido revolucionário - não cumpriria com as 21 condições da III Internacional, que no seu ponto 4 assinala: "O dever de difundir as idéias comunistas implica a necessidade absoluta de desenvolver uma propaganda e uma agitação sistemática e perseverante entre as tropas. Onde a propaganda ostensiva seja difícil por causa das leis de exceção, deve se desenvolver ilegalmente; recusar-se a fazê-lo seria uma traição às exigências do dever revolucionário e, por consequência, incompatível com a filiação na Terceira Internacional". O ponto é uma condição clara e excludente para ser da internacional, porque se considera traição. Esta resolução é do Segundo Congresso, liderado por Lênin e Trotsky.

3) O argumento de que não se pode apoiar porque "eles não são trabalhadores" é desmentido pela resolução da Terceira Internacional. É evidente que a Terceira não considerava e nem argumentava que a agitação tinha que se fazer porque eles seriam trabalhadores, partia de que eram as forças repressivas do Estado burguês. Por que, então, recomendou essa agitação sistemática? Porque considerava que era parte da estratégia revolucionária ter uma política para tentar dividí-las ou paralisá-las para quando chegasse o momento de uma insurreição operária e popular. Eles se baseavam na experiência revolucionária.

4) O argumento de que só em situações de insurreição proletária ou de massas se pode ter uma agitação e política para agir sobre as forças repressivas é falso. O ponto 4 da Terceira Internacional não coloca essa condição.

5) Lenin levantava, nos acontecimentos revolucionários de 1905, que tinham que apoiar as reivindicações salariais e melhorias nos serviços exigidos pelos soldados e pelos marinheiros das forças armadas czaristas. "Os soldados de São Petersburgo querem melhores vestuários, alojamentos e cobram aumentos salariais" [...] "não é possível permanecer à margem da luta de todo o povo pela liberdade. Quem mostrar indiferença para com esta luta, de fato apoia os desmandos do governo da polícia" (ver "Duas táticas da social-democracia na revolução democrática", julho de 1905)

6) O argumento de que apoiar melhores salários é igual a apoiar o reforço do aparelho repressivo, é tão ridículo quanto dizer que Lenin, ao apoiar as reivindicações salariais dos soldados e marinheiros do regime czarista, era um traidor que ajudava a que o aparelho criminoso czarista ficasse mais forte para continuar assassinando ao proletariado e aos camponeses russos.

7) Também observou Trotsky - em polêmica com os pacifistas e os reformistas que viam a impossibilidade de enfrentar o poder burguês pelas suas forças repressivas e seu poderoso armamento -, "por trás de cada máquina há homens, ligados por relações não apenas técnicas, mas também sociais e políticas" ("Para onde vai a França?", Editora Pluma, 1974, página 37). Em outras palavras, disse que com uma política correta se poderia ganhar ou paralisar setores dessas forças repressivas.

8) O PTS, há tempos dá cursos sobre Clausewitz, um dos maiores teóricos da arte militar. Mas esquece de um de seus ensinamentos mais importantes, que gostava de citar Trotsky neste trabalho e outros. Que a guerra civil é a continuação da política por outros meios. É evidente que quando se chega à beira de uma guerra civil ou de uma insurreição, que enfrenta a repressão das forças repressivas, é vital ter uma política mais radical na base destas forças (incluindo a auto-defesa de trabalhadores), dividi-las ou paralisa-las, incluindo apoiar suas reivindicações salariais ou outras reivindicações. Mas, por que essa política não é válida quando não há guerra ou insurreição, se, segundo Clausewitz, esta é a continuação "da política por outros meios"? Em tempos de "paz" é necessário que exista essa política preparatória, como aconselhava a Terceira Internacional, e não esperar por uma insurreição ou o início de uma guerra civil. Parte dessa preparação é a agitação política e propagandística e parte dela é buscar aprofundar, com as políticas corretas, as divisões conjunturais ou muito excepcionais que se provocam nas forças repressivas do regime burguês, como são as greves salariais que, objetivamente, vão contra as normas burguesas básicas, que são o não reinvindicar, o obedecer às ordens, não usar os métodos do movimento operário como as greves ou tentativas de formar sindicatos. Neste contexto, apoiar as greves da polícia, de bombeiros ou outras forças militares é correto com a condição de que não se reivindique à instituição burguesa repressiva e de uní-la às lutas da classe trabalhadora.

9) As greves policiais ou de forças semelhantes se dão precisamente em tempos de grande tensão social de um país. As rimeiro que se conheceram foram na Inglaterra de 1918-1919, onde surgiram os primeiros sindicatos, varridos pelo Império Britânico. O professor Astarita dá como prova de que não é lógico propor sindicatos policiais e nem apoiar as suas greves, porque depois dessa greve histórica e de ter um sindicato, a polícia britânica não mudou e permaneceu reprimindo. O detalhe que está faltando a este pseudo erudito do marxismo, é que o governo imperialista britânico demitiu e deu baixa a mais de mil policiais daquela greve heróica. As greves policiais de 1918-1919 eram parte da onda operária revolucionária pós revolução russa. Que haja greves da polícia e surjam sindicatos (como existem na França e em outros países europeus) não muda o caráter das forças repressivas de um Estado burguês, isso só pode ocorrer quando triunfe uma revolução socialista e surja um Estado operário que as dissolva. Hoje as greves policiais são comuns na Grã-Bretanha, na Europa e no mundo, em meio ao aprofundamento da crise social capitalista. Não se conhece um caso de que tenham sido rejeitados pelos trabalhadores quando eles se juntaram a luta. Por sua vez, esses mesmos policiais são repudiados e enfrentados quando reprimem aos trabalhadores e a juventude. É a realidade, com todas as suas contradições. Querer substituí-la por esquemas e citações mal utilizadas não serve para nada mais que afastar os trabalhadores de uma verdadeira política de classe e revolucionária. E favorecer objetivamente, por sua infantilidade, ao governo e ao regime capitalista de turno, como o governo peronista de Cristina Kirchner, que também questiona as greves da polícia e dos gendarmes. Por outro lado, ao não apoiar e repudiar essas reivindicações, abandona-se a luta estratégica de buscar dividir ou neutralizar a setores das forças repressivas, uma das tarefas chave da classe trabalhadora e dos socialistas revolucionários.

Outro esclarecimento para PTS

Em uma nota polêmica com um artigo dessa página, o dirigente do PTS Jonatan Ros escreve: "Clausewitz escreveu a famosa frase "A guerra é a continuação da política por outros meios". No entanto, Sorans diz, tentando citá-lo que "a Guerra Civil (sic) é a continuação da política por outros meios". Sem fingir que Miguel Sorans (ou IS) estude sistematicamente a Clausewitz, como fazemos no PTS, seria bom, pelo menos, que lessem a Lênin e Trotsky que citam inúmeras vezes a conhecidíssima "fórmula" do teórico militar prussiano, que como todo mundo sabe não fala de "guerra civil" ( La Verdad Obrera, 18/10/12).

Neste sentido, gostaríamos de esclarecer ao autor e aos leitores de La Verdad Obrera que Sorans não citou a Clausewitz, mas, simplesmente, repetiu a Leon Trotsky. Para seu conhecimento reproduzimos a citação: "A Guerra Civil, temos dito após Clausewitz, é a continuação da política, mas por outros meios" ("Aonde vai a França?", Leon Trotsky, página 40, Editora Pluma, Buenos Aires, 1974).