Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

domingo, 25 de maio de 2014

As greves policiais e os socialistas revolucionários

FONTE: Izquierda Socialista (Seção da UIT-QI na Argentina) - Outubro de 2012.

A greve de "gendarmaria" e "prefectos" (categorias policiais) na Argentina por reivindicações salariais e o apoio aos mesmos, como ao direito de formar sindicatos formulada por Izquierda Socialista, entre outras organizações, tem gerado uma nova polêmica na esquerda.


Apoiar as reivindicações salariais da polícia não significa reivindicar a instituição repressora patronal

Este debate não é novo na esquerda internacional, já que há correntes como a que encarna o PTS - Fração trotskista, que vem se opondo a toda e qualquer greve policial ou de outras forças em qualquer país do mundo em que ocorram. Assim como seus pequenos grupos de afinidade do Brasil e da Bolívia, que, com argumentos semelhantes, se opuseram à greve dos bombeiros no Rio de Janeiro ( Brasil) e a greve da polícia de baixa patente da Bolívia. Ambas as greves foram reprimidas pelos governos de centro-esquerda de Dilma Russef e Evo Morales.

É um debate muito importante pois faz parte da estratégia revolucionária e as questões sobre as quais o marxismo sempre debateu e adotou posições. O marco é fornecido pelas resoluções da III Internacional e as experiências revolucionárias do século XX.

Consideramos que a negação de intervir com uma política de classe nas greves das polícias vai contra a tradição do marxismo revolucionário.

1) A citação de Trotsky, usada pelo PTS através do seu dirigente Christian Castillo e pelo Professor Rolando Astarita sobre a Alemanha na década de 30 contra a polícia, não corresponde a um caso de greve da polícia ou de bombeiros, ou rebeliões salariais ou por reivindicações da base e dos quadros médios militares. Sua utilização é a negação do método marxista. Com citações mal utilizadas se pode fingir que se prova qualquer coisa. Trotsky, quando refere-se corretamente ao papel repressivo e burguês da polícia alemã: "o trabalhador, convertido em policial a serviço do Estado capitalista, é um policial burguês e não um trabalhador", está discutindo uma polêmica com a social-democracia alemã, quando esta se recusava (1932) a mobilizar a classe trabalhadora contra o avanço político das gangues fascistas de Hitler e do partido nazista. A social-democracia, que apoiava o regime burguês do momento, argumentava que só iria parar com a polícia nos marcos da Constituição e da justiça burguesa do governo e do regime. Argumentava em seu favor, dizendo que a maioria dos policiais eram de origem "operária" e filiados à social-democracia. (Ver em "A luta contra o fascismo na Alemanha", Capítulo "A social-democracia", Editora Pluma, 1973, p. 93 e seguintes). Polemiza e denuncia uma política traidora e reformista que considerava a instituição policial como "progressista", enquanto desmobilizava a classe trabalhadora alemã. Seu slogan era "Estado, intervenha". É o oposto da nossa postura, a dos verdadeiros marxistas. Em nenhum momento reivindicamos a "polícia" nem a instituição burguesa repressora "Gendarmería" ou "Prefectura". Apoiamos as reivindicações salariais da base e quadros médios contra os comandos superiores e o governo burguês de turno.

2) O PTS e o professor Astarita vão contra toda a tradição do marxismo e de nossos mestres Lênin e Trotsky. O PTS - que alega ser um partido revolucionário - não cumpriria com as 21 condições da III Internacional, que no seu ponto 4 assinala: "O dever de difundir as idéias comunistas implica a necessidade absoluta de desenvolver uma propaganda e uma agitação sistemática e perseverante entre as tropas. Onde a propaganda ostensiva seja difícil por causa das leis de exceção, deve se desenvolver ilegalmente; recusar-se a fazê-lo seria uma traição às exigências do dever revolucionário e, por consequência, incompatível com a filiação na Terceira Internacional". O ponto é uma condição clara e excludente para ser da internacional, porque se considera traição. Esta resolução é do Segundo Congresso, liderado por Lênin e Trotsky.

3) O argumento de que não se pode apoiar porque "eles não são trabalhadores" é desmentido pela resolução da Terceira Internacional. É evidente que a Terceira não considerava e nem argumentava que a agitação tinha que se fazer porque eles seriam trabalhadores, partia de que eram as forças repressivas do Estado burguês. Por que, então, recomendou essa agitação sistemática? Porque considerava que era parte da estratégia revolucionária ter uma política para tentar dividí-las ou paralisá-las para quando chegasse o momento de uma insurreição operária e popular. Eles se baseavam na experiência revolucionária.

4) O argumento de que só em situações de insurreição proletária ou de massas se pode ter uma agitação e política para agir sobre as forças repressivas é falso. O ponto 4 da Terceira Internacional não coloca essa condição.

5) Lenin levantava, nos acontecimentos revolucionários de 1905, que tinham que apoiar as reivindicações salariais e melhorias nos serviços exigidos pelos soldados e pelos marinheiros das forças armadas czaristas. "Os soldados de São Petersburgo querem melhores vestuários, alojamentos e cobram aumentos salariais" [...] "não é possível permanecer à margem da luta de todo o povo pela liberdade. Quem mostrar indiferença para com esta luta, de fato apoia os desmandos do governo da polícia" (ver "Duas táticas da social-democracia na revolução democrática", julho de 1905)

6) O argumento de que apoiar melhores salários é igual a apoiar o reforço do aparelho repressivo, é tão ridículo quanto dizer que Lenin, ao apoiar as reivindicações salariais dos soldados e marinheiros do regime czarista, era um traidor que ajudava a que o aparelho criminoso czarista ficasse mais forte para continuar assassinando ao proletariado e aos camponeses russos.

7) Também observou Trotsky - em polêmica com os pacifistas e os reformistas que viam a impossibilidade de enfrentar o poder burguês pelas suas forças repressivas e seu poderoso armamento -, "por trás de cada máquina há homens, ligados por relações não apenas técnicas, mas também sociais e políticas" ("Para onde vai a França?", Editora Pluma, 1974, página 37). Em outras palavras, disse que com uma política correta se poderia ganhar ou paralisar setores dessas forças repressivas.

8) O PTS, há tempos dá cursos sobre Clausewitz, um dos maiores teóricos da arte militar. Mas esquece de um de seus ensinamentos mais importantes, que gostava de citar Trotsky neste trabalho e outros. Que a guerra civil é a continuação da política por outros meios. É evidente que quando se chega à beira de uma guerra civil ou de uma insurreição, que enfrenta a repressão das forças repressivas, é vital ter uma política mais radical na base destas forças (incluindo a auto-defesa de trabalhadores), dividi-las ou paralisa-las, incluindo apoiar suas reivindicações salariais ou outras reivindicações. Mas, por que essa política não é válida quando não há guerra ou insurreição, se, segundo Clausewitz, esta é a continuação "da política por outros meios"? Em tempos de "paz" é necessário que exista essa política preparatória, como aconselhava a Terceira Internacional, e não esperar por uma insurreição ou o início de uma guerra civil. Parte dessa preparação é a agitação política e propagandística e parte dela é buscar aprofundar, com as políticas corretas, as divisões conjunturais ou muito excepcionais que se provocam nas forças repressivas do regime burguês, como são as greves salariais que, objetivamente, vão contra as normas burguesas básicas, que são o não reinvindicar, o obedecer às ordens, não usar os métodos do movimento operário como as greves ou tentativas de formar sindicatos. Neste contexto, apoiar as greves da polícia, de bombeiros ou outras forças militares é correto com a condição de que não se reivindique à instituição burguesa repressiva e de uní-la às lutas da classe trabalhadora.

9) As greves policiais ou de forças semelhantes se dão precisamente em tempos de grande tensão social de um país. As rimeiro que se conheceram foram na Inglaterra de 1918-1919, onde surgiram os primeiros sindicatos, varridos pelo Império Britânico. O professor Astarita dá como prova de que não é lógico propor sindicatos policiais e nem apoiar as suas greves, porque depois dessa greve histórica e de ter um sindicato, a polícia britânica não mudou e permaneceu reprimindo. O detalhe que está faltando a este pseudo erudito do marxismo, é que o governo imperialista britânico demitiu e deu baixa a mais de mil policiais daquela greve heróica. As greves policiais de 1918-1919 eram parte da onda operária revolucionária pós revolução russa. Que haja greves da polícia e surjam sindicatos (como existem na França e em outros países europeus) não muda o caráter das forças repressivas de um Estado burguês, isso só pode ocorrer quando triunfe uma revolução socialista e surja um Estado operário que as dissolva. Hoje as greves policiais são comuns na Grã-Bretanha, na Europa e no mundo, em meio ao aprofundamento da crise social capitalista. Não se conhece um caso de que tenham sido rejeitados pelos trabalhadores quando eles se juntaram a luta. Por sua vez, esses mesmos policiais são repudiados e enfrentados quando reprimem aos trabalhadores e a juventude. É a realidade, com todas as suas contradições. Querer substituí-la por esquemas e citações mal utilizadas não serve para nada mais que afastar os trabalhadores de uma verdadeira política de classe e revolucionária. E favorecer objetivamente, por sua infantilidade, ao governo e ao regime capitalista de turno, como o governo peronista de Cristina Kirchner, que também questiona as greves da polícia e dos gendarmes. Por outro lado, ao não apoiar e repudiar essas reivindicações, abandona-se a luta estratégica de buscar dividir ou neutralizar a setores das forças repressivas, uma das tarefas chave da classe trabalhadora e dos socialistas revolucionários.

Outro esclarecimento para PTS

Em uma nota polêmica com um artigo dessa página, o dirigente do PTS Jonatan Ros escreve: "Clausewitz escreveu a famosa frase "A guerra é a continuação da política por outros meios". No entanto, Sorans diz, tentando citá-lo que "a Guerra Civil (sic) é a continuação da política por outros meios". Sem fingir que Miguel Sorans (ou IS) estude sistematicamente a Clausewitz, como fazemos no PTS, seria bom, pelo menos, que lessem a Lênin e Trotsky que citam inúmeras vezes a conhecidíssima "fórmula" do teórico militar prussiano, que como todo mundo sabe não fala de "guerra civil" ( La Verdad Obrera, 18/10/12).

Neste sentido, gostaríamos de esclarecer ao autor e aos leitores de La Verdad Obrera que Sorans não citou a Clausewitz, mas, simplesmente, repetiu a Leon Trotsky. Para seu conhecimento reproduzimos a citação: "A Guerra Civil, temos dito após Clausewitz, é a continuação da política, mas por outros meios" ("Aonde vai a França?", Leon Trotsky, página 40, Editora Pluma, Buenos Aires, 1974).

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ucrânia: rebelião popular frente a crise sócio-econômica




A mobilização de centenas de milhares de pessoas na Ucrânia forçou o governo a revogar as leis repressivas (anti-protestos), enfrentou e derrotou a polícia em muitos casos, e há dezenas de prédios públicos de ministérios ocupados e de províncias e forçou a renúncia do primeiro-ministro e todo o seu gabinete.

Ucrânia, um país de 45 milhões de habitantes, que pertenceu à antiga União Soviética, está enfrentando uma crise terminal relacionada com a crise mundial e o neoliberalismo extremo que levou à pobreza a grande parte da população, a massiva fuga de capitais por parte de uma oligarquia saqueadora que não paga impostos, são meses de atraso nos salários dos trabalhadores estatais, e o país não consegue pagar o gás importado da Rússia. O desemprego é muito elevado (8%) e o salário médio na Ucrânia é entre 2 e 2,5 vezes menor do que na Rússia e Bielorrússia, e muitíssimo menor do que na União Europeia. Estas são as razões básicas para o descontentamento popular e da força da mobilização. A rebelião tem relação direta com o processo da revolução árabe e os protestos em massa no país vizinho, Turquia.

O governo liderado pelo presidente Viktor Yanukovych é pró-russo, aliado a Vladimir Putin e é contra a adesão à União Europeia (UE). Putin parou o acordo com a UE concordando com Yanukovich baixar o preço do gás (a 50%) que lhe vende e se oferecendo um empréstimo de 15.000 milhões de dólares, mas vinculado a seus próprios planos de pilhagem da Ucrânia.A mobilização começou justamente em novembro de repudiando a decisão do governo de congelar o acordo de associação com a UE. A oposição burguesa, liderada pelo ex- primeiro-ministro Yuli Timoshenko, exige a entrada para a União Europeia e setores populares apoiam porque tem ilusões de que isto poderia melhorar a situação (enquanto que na Grécia ou no Estado Espanhol são muitos que dizem que tem de sair da União Europeia em crise, ante os ajustes antipopulares que esta impõe). Precisamente a mobilização popular com milhares de pessoas instaladas na Praça da Independência, em Kiev, adquiriu o nome de "Euromaidan" (Praça Europa). A revolta popular que se mantém desde há dois meses, transbordou a própria direção, enfrentou violentamente a polícia com centenas de feridos em ambos os lados e alguns mortos, agora exige novas eleições nacionais.

Os socialistas revolucionários apoiamos a mobilização do povo, da juventude e dos trabalhadores ucranianos por seus direitos democráticos, contra a dura repressão e pelo seu direito a decidir seu destino retirando o atual governo repressivo. Acreditamos que a solução não passa nem pela entrada na UE e nem em apoiar aos líderes dos capitalistas que estão saqueando o país, sejam situação ou "oposição", nem por acordos com a Rússia. Neste sentido, destacamos o manifesto do agrupamento ucraniano Oposição de Esquerda que convoca à lutar pelo não pagamento da dívida e à ruptura com o FMI e "nacionalizar a metalurgia, a mineração e as indústrias químicas, em conjunto com as empresas estruturais (energia, transportes e comunicações) que, controladas pelos trabalhadores, devem contribuir para o bem comum". Só um programa dos trabalhadores e do povo, com base em recuperar o controle das riquezas e da produção nacionais, pode começar a resolver a crise.

Miguel Lamas para "El Socialista" (de Izquierda Socialista, Argentina, UIT-CI)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Em memória de Lenin


 “Lenin já não existe, mas temos o leninismo. O que havia de imortal em Lenin – os seus ensinamentos, o seu trabalho, os seus métodos, o seu exemplo." (Leon Trotski, 22 de Janeiro de 1924)

Escreve Diego Vitello – CST/PSOL - RS

Em 21 de janeiro de 1924, morria aos 53 anos Vladimir Ilitch Ulianov, que entrou para história conhecido como Lenin. O primeiro Estado Operário da história da humanidade perdia seu principal dirigente. A primeira revolução operária vitoriosa, que iniciou em todo mundo uma nova época, perdia seu principal arquiteto.

Vladimir Ilitch nos deixou uma obra imensa, que mostra claramente um marxismo para ação revolucionária. A teoria marxista é, para Lenin, um guia para a ação. Toda sua obra é escrita a partir das necessidades das estratégias e táticas da revolução proletária em seu tempo. Lenin escreveu obras geniais de economia como O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia e Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, de filosofia como Materialismo e Empiriocriticismo, além é claro de milhares de páginas sobre tática e estratégia política. Sempre buscando de forma obcecada construir o partido revolucionário do proletariado e fortalecer a consciência de classe dos trabalhadores para que estes pudessem derrubar a burguesia, governar e construir o socialismo, uma sociedade dirigida e organizada democraticamente por trabalhadores.

Os escritos de Lenin praticamente não são ensinados em nossas universidades. Este homem de ação, que dirigiu a primeira revolução operária da história, que influenciou e moveu a vida de milhões de homens durante todo século XX, que formulou a teoria de um partido político que foi reivindicada por milhões de militantes operários ao longo dos últimos 110 anos, é conscientemente “esquecido” pela academia.


Lenin e o partido político operário revolucionário

Uma das maiores contribuições de Lenin à luta da classe operária, foi a elaboração da concepção de partido. Em 1902, já como um dos principais dirigente do POSDR(Partido Operário Social-Democrata Russo), Lenin escreve sua obra Que Fazer? onde formula a concepção de um partido centralizado democraticamente e para a ação. Um partido da classe operária, que levasse a consciência de classe para as lutas que surgiam espontaneamente nas fábricas. Um partido que deveria construir-se inserindo os seus militantes nos locais de trabalho para fortalecer, aprender e dirigir as lutas dos trabalhadores. Esse instrumento político deveria refletir em seu programa as tarefas históricas da classe operária e em sua atuação cotidiana ter o eixo onde esta classe estivesse concentrada. Apesar de a Rússia ser um país que continha 80% de sua população formada por camponeses, o partido dirigido por Lenin quis conscientemente ser um partido de base social operária concentrado sobretudo nas grandes fábricas de Petrogrado e Moscou, refletindo um método profundamente marxista que tinha na classe operária o eixo da luta pelo socialismo.
Em sua concepção de partido Lenin elaborou a categoria do revolucionário profissional, militante cujo eixo de vida seria a dedicação à atividade revolucionária. A organização revolucionária deveria ter como sua “coluna vertebral” companheiros e companheiras que fossem revolucionários profissionais. Para Lenin, estes militantes precisavam de uma dedicação exclusiva, combinando estudo da realidade com a ação revolucionária de forma permanente.

Em Que Fazer? Lenin polemiza com os “economicistas” que queriam limitar a classe operária às lutas econômicas e sindicais. Esta limitação, que também era e é até hoje difundida pelos anarquistas e reformistas de toda espécie, significa subordinar a classe trabalhadora à burguesia. Segundo Lenin, os trabalhadores não podem apenas lutar para atenuar sua exploração e vender de forma mais vantajosa sua força de trabalho, é preciso lutar pelo poder político para derrotar a burguesia e acabar de vez com a exploração. A partir do partido revolucionário, Lenin propunha que os trabalhadores participassem ativamente da luta política na Rússia e no mundo, tendo em vista que a solução final de seus problemas só poderia vir com a tomada do poder e a derrubada da burguesia.

Para Lenin, a luta entre os partidos mostrava um alto grau de desenvolvimento da luta de classes. Os partidos, ele classificava como representações superestruturais dos interesses de cada classe social. Criticando o “revolucionarismo sem partido” ele coloca: “Numa sociedade baseada em classes, a luta entre as classes hostis converte-se de maneira infalível, numa determinada fase de seu desenvolvimento, em luta política. A luta entre os partidos é a expressão mais perfeita, completa e acabada da luta política entre as classes.” (O Partido Socialista e o revolucionarismo sem cunho partidário, 1905).

Em meio a uma nova “onda” que existe dos “anti-partido”, que negam na prática a necessidade da classe trabalhadora se organizar politicamente, o estudo da obra de Lenin e de sua concepção de partido se faz fundamental. A burguesia, consciente do quanto são “perigosas” as organizações políticas dos trabalhadores que lutem pela sua derrubada, ajuda a reproduzir e difundir ideologicamente a ideia do “anti-partidarismo” até os dias de hoje. Não à toa, durante grande parte da história do século XX, os partidos da classe trabalhadora foram proibidos, censurados e tiveram seus militantes perseguidos e assassinados pelos mais distintos tipos de regimes burgueses.


O primeiro governo de Frente-Popular na história e o combate de Lenin

Os governos de Frente-Popular ou de conciliação de classes, sempre geraram inúmeras polêmicas entre as organizações operárias e de esquerda. No movimento operário russo não foi diferente. Ao longo do século XX e nos inícios do nosso século, o fato de partidos de origem operária formarem governos em comum com a burguesia, sempre levou a governos burgueses para administrar as crises do capitalismo, beneficiando a classe capitalista e não a classe operária.

Lenin enfrentou o primeiro governo deste tipo em seu país. Em fevereiro de 1917, uma revolução derruba o czarismo e leva ao poder um governo de coalizão formada fundamentalmente pelo partido socialista revolucionário, pelos mencheviques (setor reformista do partido operário socialdemocrata russo) e o partido Cadete, liberal-burguês. A prática desastrosa dos mencheviques no governo, se chocando permanentemente com as reivindicações dos trabalhadores, mostrou que governar com a burguesia é sinônimo de governar para ela. Neste contexto, Lenin volta do exílio e elabora as famosas Teses de Abril, onde propõe que o proletariado russo lute para derrubar o governo de coalização de classes e implemente um governo seu, sem participação de nenhum setor burguês. Ao mesmo tempo, Lenin ainda sustenta uma dura batalha no seio do próprio partido bolchevique, quando Stalin e Kamenev, que estavam à frente do trabalho partidário na Rússia, defendiam o “apoio crítico” ao governo.

Em meio a novos governos de frente-popular e a rendição da ampla maioria da esquerda a eles, os ensinamentos do velho dirigente bolchevique seguem atuais. Os que apoiam governos de conciliação de classes na Venezuela, Bolívia, Equador e agora também no Uruguai, onde setores burgueses governam ao lado de organizações de origem na classe trabalhadora, nada mais fazem do que reproduzir a velha teoria menchevique de governar em conjunto com a burguesia que Lenin derrotou há quase um século. Assim como Stalin fez após a morte de Lenin, muitos hoje tergiversam a obra de Lenin para apoiar este tipo de governo. Estes setores da esquerda nada mais fazem do que entrar em um beco sem saída, pois não conseguem explicar porque Lenin não apoiou o governo de conciliação de classes em seu país. O maior empreendimento histórico de Lenin em vida foi justamente o de dirigir a derrubada do governo de frente-popular varrendo também do poder os partidos operários que tinham optado pelo “caminho mais fácil” para chegar ao poder. O partido bolchevique de Lenin, mesmo quando ainda as massas trabalhadoras da Rússia apoiavam o governo de coalização de classes e o partido menchevique dirigia politicamente a maior parte dos operários, soube nadar contra a corrente. Defendeu intransigentemente a independência de classe dos trabalhadores e “explicou pacientemente” a necessidade dos trabalhadores não se subordinarem politicamente a nenhum setor burguês, mesmo que ele tente aparecer como mais “progressivo” que outro como tentavam parecer os burgueses que apoiaram a queda do czarismo na Rússia. Lenin dizia que era preciso esperar e ajudar os trabalhadores a tirar conclusões sobre o caráter do governo a partir das suas lutas e experiências práticas. Nos meses que antecedem a Revolução de Outubro, se tornou célebre sua frase: “Não temos medo de ser minoria, a hora do bolchevismo chegará”. E de fato chegou.


O combate ao lado de Trotski contra a burocratização da URSS

Muitos intelectuais e militantes de esquerda, influenciados pela propaganda ideológica da burguesia contra Lenin, chegaram a uma conclusão completamente equivocada, de que as monstruosidades cometidas por Stalin à frente da burocracia soviética seriam apenas uma continuidade irreversível do leninismo. Este erro amplamente difundido, não leva em conta a última batalha de Lenin.
O último grande combate de sua vida foi contra o início da burocratização do primeiro estado operário. Porém, para falarmos do avanço da burocracia na URSS, é preciso contextualizar historicamente. Os bolcheviques, na sua tomada do poder em outubro, apostavam que a Revolução na Rússia seria um forte impulso a novas tomadas de poder nos países mais desenvolvidos da Europa, sobretudo a Alemanha. De fato, a simpatia e empolgação nos meios operários com as notícias que vinham da Rússia ocorreram no mundo todo. Porém, apesar de algumas tentativas, como na Alemanha em 1919 e 1923, o proletariado não logrou derrotar a burguesia em mais nenhum país. Combinado com este isolamento, o operariado russo ainda teve de enfrentar uma guerra civil onde cerca de 20 países capitalistas montaram um exército contra-revolucionário, conhecido como Exército Branco, para derrotar o governo dos bolcheviques na Rússia. Apesar da vitória na guerra, o governo soviético sofreu com um declínio brutal das forças produtivas e também com o desaparecimento de grande parte dos melhores e mais ativos operários que infelizmente tombaram em combate.

Neste período de tantas baixas, a burocracia do estado e do partido, começa a adquirir um poder muito grande. Encontra como seu chefe um antigo dirigente bolchevique, cuja obra poucos conhecem até então, Josef Stalin. Lenin, ao ver com clareza a burocratização em curso, propõe a Trotski uma batalha em conjunto contra a burocratização e contra Stalin. No seu testamento, Lenin deixa escrito que é preciso retirar Stalin do posto de Secretário-Geral: “proponho aos camaradas que pensem a forma de passar Stalin a outro posto e nomear a este cargo outro homem que se diferencie do camarada Stalin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem, a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas...”
A morte de Lenin coloca Trotski em uma condição muito mais difícil para seguir a batalha contra a burocratização. Uma das grandes batalhas da vida de Trotski após a morte de Lenin, foi seguir esta luta que iniciaram juntos, elaborando uma obra de imenso valor acerca do tema com livros brilhantes como A Revolução Traída. A burocracia chefiada por Stalin foi feroz contra Trotski, o expulsou do partido, da URSS, e depois de pouco mais de uma década de perseguição, o assassinou. Além de Trotski, a burocracia stalinista ainda comandou o assassinato dos principais dirigente bolcheviques da Revolução de Outubro como Zinoviev, Kamenev, Bukharin, Preobrajenski, Antonov-Ovseenko, Smilga, Smirnov, entre outros milhões de deportados e assassinados..

Não temos dúvidas de que a obra de Lenin tem um imenso valor para nós, militantes socialistas que vivemos neste conturbado início do século XXI, onde a classe trabalhadora e a juventude voltam a promover, nos diversos continentes, do mundo árabe à Europa, da Turquia ao Brasil, imensas mobilizações, insurreições e revoluções e também onde milhares de ativistas surgem nas lutas sociais por todo o mundo buscando uma nova sociedade sem exploração nem opressão.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Por um rolêzinho dos indignados em Belém!

Querem reduzir a discussão em um "contra ou a favor" do rolêzinho?

Não se trata apenas dessa importante posição política. É preciso, acima de tudo, ter clareza que: os pobres e favelados são parte da sociedade que nós construímos - inclusive, são grande parte da massa brasileira. É preciso ser científico pra falar das coisas, não ser mera e obitusamente ideológicos ["ideologia" - segunda Marx, é avisão distorcida da realidade]. Não podemos ser descriteriosamente taxativos, como tanta gente anda sendo, desde o topo de sua arrogância. Não vivemos um apartheid decretado juridicamente, é verdade, eu concordo, somos todos iguais no mundo FORMAL da Constituição Federal (e todo seu belo conto-de-fadas postivista). Mas vivemos sim um apartheid sócio-econômico que é MATERIAL. É só olhar os índices de pobreza, de miséria e concentração da riqueza. E não estou falando das categorias cosméticas que o Banco Mundial criou pra dizer que com tantos reais se é pobre e que acrescentando mais R$ 1,00 se é agora, tcharam!, classe tal. Bem como nada serve de parâmetro de análise científica senão o próprio mundo concreto: são inúteis os valores pessoais, os jargões pré-programados de TV a la Arnaldo Jabor e Rachel Cheherazade. Não são argumentos, são ideologia mastigada e escarrada pra rotular e convencer as pessoas sobre a posição que devem ter diante do mundo, buscando legitimar ações como a brutalidade policial - porque seriam só vagabundos, vândalos, arruaceiros, subvertendo a "ordem", a "paz" e os "bons costumes". Que "ordem"?! "Paz" e "bons costumes" de quem, colega?! Tampouco serve a parcialidade das organizações do tradicionalismo "ordeiro" e, muitas vezes, hipócrita de grupos partidários das correntes idealistas, empiristas, jus naturalistas, etc. É preciso ter método de análise das coisas, ao invés de reproduzir o lugar comum ou as manias dos inertes "observadores semi-críticos" a cada novo evento que surge - todo mundo leva um sustinho, aí comenta, depois mais um sustinho e comenta de novo. O eterno comentarismo sem práxis. Os pobres existem e os favelados existem, amigo, no mesmo mundo que nós e não vão ficar no curralzinho, domesticados, feito gado só porque desagrada a alguém ou a algum setor social. Tem criminalidade? Tem. Tem barbarização? Tem. Mas o que gera a criminalidade e a barbarização está aí desde antes de eu, você e eles chegarmos aqui, se reproduzindo e perpetuando através de nós todos. O povo da periferia vai reproduzir aquilo que a sociedade lhes oferece e permitiu conhecer, na matemática materialista do mundo concreto.

O "rolêzinho" não vai parar por aqui!

O rolêzinho tem grandes possibilidades de evoluir em futuro próximo e se transformar em explosões sociais sérias, de revolta como as ocorridas de Londres, porque a política econômica e a crise social só estão crescendo e sendo descarregadas nas costas das classes inferiores do mosaico social. Na Região Metropolitana de Belém cerca de 50% das pessoas vive em periferias e vemos perspectivas de melhora aqui na cidade-debaixo-água? Não. Então a lógica sistêmica é exatamente o aprofundamento dos choques sociais, na medida em que os "bombeiros loucos" do sistema e do governo continuarem jogando na fogueira dessa crise a gasolina da repressão e da exclusão sócio-econômica. Ser pobre não é gostoso, não é legal, é escroto pra $%#@# e ninguém é à favor da condição da pobreza humana. Mas se as pessoas não gostam desses efeitos colaterais do capitalismo, que passem a refletir sobre mudar o sistema QUE PRODUZ A POBREZA E A FAVELIZAÇÃO DO SER HUMANO EM LARGA ESCALA. QUE SE ORGANIZE PRA MUDAR AS COISAS, ao invés de repetir sem querer, ou querendo-por-querer, determinados discursos como papagaio e/ou bater palma ao que NÃO melhorará NADA: como a burra repressão estatal e a continuidade da política de aprofundamento das mazelas sociais.

Por um rolêzinho dos indignado em Belém!

Por outro lado, todos podemos ajudar e contribuir no "desenvolvimento positivo" do rolêzinho, dando a ele um conteúdo mais profundo e engajado. Claro que não será a mesma coisa. Em vez de viver reclamando, por que as pessoas não vão protestar contra a repressão, o racismo e a exclusão perpetrada, etc? cobrar o fim da Dívida Pública, essa Bolsa-Banqueiro, que ROUBA quase 50% do PIB brasileiro?! Esse dinheiro que falta pra educar, empregar e aprimorar a sociedade, dando perspectivas pra juventude, etc! Por que não vão protestar contra a política do Governo Dilma e os cortes de BILHÕES das áreas sociais!? Por que não vão protestar contra o raquitismo do Estado de Direitos em contraposição a uma hipertrofia de um Estado Penal repressor viciado? Contra essa Copa do Mundo inútil que não ajudará em nada! Contra o Zenaldo e o Jatene que tentam fechar Curisinhos/Vestibulares públicos, que negam o PASSE LIVRE à juventude e reproduzem o caos social em Belém. Temos muito do que reclamar! Dar uns rolêzinhos na Prefeitura de Belém.

Pois não se trata meramente de fazer avaliação moral e comportamental dos rolêzinhos, se baseando em valores de uma classe para julgar outra. Se trata de entender que eles são o efeito lógico de um modelo societário contraditório e desarmônico, cada vez mais conflituoso, em crise - no Brasil e em todo o planeta. Nos unirmos e nos organizarmos no combate às CAUSAS é infinitamente mais útil e digno do que ficarmos no loop-eterno do mimi sobre os efeitos, as medidas paliativas e a repreensão bestial que não quer resolver nada... Sejamos contra o sistema capitalista e os seus governos, isso sim! Pois somos todos vítimas deles.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Fora Sarneys! Derrotar coronéis e corruptos nas ruas!

Fonte: Vamos À Luta!

As cenas de detentos decapitados no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, divulgados na imprensa na semana passada chocou o país. Dias depois, quatro ônibus foram incendiados matando uma criança de seis anos e deixando várias pessoas feridas. A governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), foi aos meios de comunicação dizer que a violência aumentou porque o Maranhão ficou mais rico. Na mesma semana, a chefe do clã dos Sarney, no Estado, encomendou R$ 1 milhão em lagosta, camarão e refrigerantes para abastecer o palácio do governo. Tamanha ostentação só remete ao período colonial, quando a nobreza, de forma parecida, esnobava dos escravos e do povo pobre.

O cenário de aprofundamento da violência no Maranhão tem relação direta com a velha política que impera em nosso país. As velhas oligarquias seguem governando, junto com o PT ao longo de seus 11 anos no poder, bem como governaram nos tempos de FHC e no regime militar. Lula, Dilma e o PT tem como aliados privilegiados para governar velhas raposas da política como Sarney, Maluf, Colllor, Renan Calleiros e Jader Barbalho. Essas famílias se perpetuam no poder, enriquecem com o dinheiro público e levam estados como o Maranhão a indicadores sociais alarmantes.

Para a juventude pobre e marginalizada das periferias restam os presídios e toda forma de preconceito e criminalização. Enquanto o governo federal gasta bilhões em luxuosos estádios para a copa e prepara um contingente de 10 mil homens para reprimir as manifestações, as áreas da saúde, educação e serviços públicos ficam com migalhas.

O caminho para derrotar esse senhores nós aprendemos nas manifestações de junho do ano passado. Ocupando as ruas reduzimos a passagem de ônibus e os governos ficaram em xeque. O ano de 2014 já começa com a crise social escancarada em vários estados e municípios, seja com o avanço da insegurança, os alagamentos com as chuvas e o caos no transporte, na saúde e educação.

É preciso derrotar com mobilização os Sarneys e suas variantes. Tarefa que passa também por derrotar o ajuste fiscal do governo Dilma e sua velha forma de fazer política, aliada com corruptos e oligarcas.
Defendemos prisão para corruptos e corruptores, bem como confisco de seus bens. Fim da criminalização da pobreza. Mais verbas pra saúde e educação e não para Copa, banqueiros e empreiteiras. Basta de coronéis governando o Brasil! Esses senhores não nos representam! Fora Sarneys!

Vamos à Luta!