Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Um Instante de Desgosto Juvenil...?

Já ao anoitecer,

no quintal de seus pais, pensava sobre atinências da liberdade
e quais seriam as consequências de largar de mão todas as suas obrigações.
Tão jovem, sem onde cair morto e humildemente arrogando-se imaturidade.

As situações constrangedoras aflorando da imaginação
e a consciência de que a dor imaginável é incomparável a dor vivenciada.
A vergonha advinda da idéia do julgamento alheio ainda possuir peso em sua vida
e, muito mais controlador que isso, o medo de perder o pouco que possui, ou melhor:
o pouco a que tem algum acesso, por tabela, dado o histórico familiar.

Cada situação gera determinada concepção
Ser homem, ser parte de uma família, ser filho do meio, ser jovem, ser estudante,
ser sustentado, ser da classe que se é, ser da vizinhança que se é,
ser física e mentalmente como se é, viver o cotidiano que se vive e etc...
Tudo que vivemos molda o que somos e gera o modo particular de entender as coisas.

Ele é assim. Ou pode-se dizer que está.
Portanto, vê tudo como vê...

Nada é plenamente nítido
exatamente como se dá o mundo para todos nós,
os um tanto ignorantes um tanto esclarecidos.
Por detrás dos óculos maltratadíssimos,
os olhos falhos fitaram a exterioridade das coisas
sob a vontade de, de algum modo, captar-lhes a essência.

No ar, trememovia-se um pequeno ponto preto.
Se fosse um inseto, o rapaz, talvez fosse lamentavelmente surpreendido
com a aderência dos fios primorosamente tecidos por tal ponto.
Por não aperceber-se da rede logo de longe envolveria-se até a imobilidade.
Provavelmente, lhe restaria apenas o presumível fim como alimento de aranha.

Que a morte vem sabemos todos - Pensou.
O evitável mesmo seria unicamente o modo?

Seguindo o devaneio veio a associação com a memória e, ali, enquanto admirava,
o mundo que percebera naquela tarde casou-se à imagem e a contida inquietude:
Vivemos num perigo similar ao que esta rede gera aos insetos miúdos,
pois corremos risco de sermos presos nas decorrências do socialmente colocado...

Um jovem estudante pode chegar a que grandes conclusões quando,
em troca de um simplório passeio literário,
mata um dia de aula dentro do ônibus que o levaria à faculdade?

De leitura em mãos, de espírito propício,
dá-se o entusiasmo íntimo dentro do coletivo
e, partindo da relação entre leitor e leitura, surgem percepções.

A beleza do entardecer daquele dia,
o vermelho-alaranjado misturado com manchas róseas
no decorrer das nuvens espumosamente dispersas pelo horizonte
e os celestiais feixes de luz que denunciavam a posição do sol por detrás destas;
os espelhos de vários andares que refletiam o céu e as cores do mundo todas arranjadas
no gentil arco-íris que a chuva rápida mencionou sobre toda a cidade
tão precária, cinzenta, suja e repleta de descaso consigo mesma.

Sim, surgiram estas percepções:
Muito mais sobre a carne em meio ao ferro e o concreto citadinos,
acentuando interiormente, pensou na pobreza à margem, em meio e em si dali.
Pelas ruas só via pessoas sedentas...

A ternura impaciente de aflição ao lidar com as necessidades alheias,
A vontade de vazar os próprios olhos decorrente da sensação de impotência
diante de uma verdade tão verdadeira, tão presente, tão amarga e sofrida:

O mercado beirando o rio;
igualitariamente, homens e vira-latas fuçando,
empapados do chorume dos sacos de lixo,
as moscas todas chupando-lhes as feridas e as inflamações,
enquanto continuavam ferindo-se nos cacos e nas latas meio a degradação
- pois quem não faz por si está condenado neste mundo -
e ferindo o coração de qualquer ser humano que vê.

Lembrou da vez que viu a moça cobradora,
o barrigão de grávida lá com seus seis ou sete meses de espera,
de pé à porta do transporte alternativo
propagandeando os rumos que a tão necessária importância
de um real e cinquenta centavos poderia levar o cidadão.
E eram mais de onze horas da noite, no instante referido.

Veio também à memória um velhinho enrugado e franzino
que, também naquela ocasião, trabalhava por ali.
Vendendo flores de papel. E Como pode algo assim?
Quem vende flores de papel às onze da noite?

A garganta engoliu em seco e no peito doeu mais forte a visão,
pois lembrou também que as pessoas não são poucas.

A condolência, a indignação, a falta de palavras e atos
e, como efeito, nada mais que a simples continuidade disso tudo.
O seguir das obrigações cotidianas como o continuar do funcionamento do ônibus,
do motor roncando, seguindo adiante e adiante e adiante, sem parar,
completamente indiferente aos pensamentos do rapaz...

Lacrimejante.

Então:
"O mundo é este. Não o devia ser" - Conclui,
sentindo como nunca a profundidade desta conclusão.

O que representa seu aprimoramente técnico-acadêmico diante do mundo?
O que representa sua sensação de tolhimento diante das dores todas do mundo?
E, como diria seu professor de Teoria Geral do Estado,
quanto ao "absurdo transcendental" teórico que sustenta esse modo de existir?
A Constituição, a Globalização, qual a finalidade de todo o organismo social?
E o valor atribuído às coisas, aos objetos, ao meros utensílios materiais em
relação ao desvalor dado às pessoas, aos sentimentos, à humanidade?

Muitas pessoas simplesmente não têm consciência das implicações de seus próprios atos.

A exploração no trabalho duro e diário.
São tantas questões, tantos pontos importantes,
ninguém parece dar o mínima de atenção pra nada disso,
todos ocupados demais com sua própria vida,
suas próprias vontadas...?

Há tanta indignidade no mundo!
Tudo tão ligado, correlacionado, interdependente!

Como o açoite estalando no burro de carga,
a ração econômica distribuída no criadouro,
a carroagem que o mundo todo puxa lentamente
e a mão de ferro dos passageiros nela acomodados.

Sim, tudo se dá do jeito que se dá:
O mecanismo do emburrecimento,
a pregação fervorosa do comodismo,
a implantação dos complexos de culpa,
o culto diário ao deus dinheiro,
o condicionamento da vida aos fins materiais,
a cultura do consumismo e das vaidades,
os processos de geração de ingenuidade,
a alimentação dos entretenimentos,
a arte socialmete descompromissada,
os canais de televisão vazios de pensamento crítico
e que transbordam exibicionismo, ostentação e propaganda,
o Ensino nos fundamentos da concepção mercadológica da educação,
a zombaria com as incorporações ativas da indignação nas pessoas,
a mal utilização do termo "utopia",
toda a decorrente descrença de dias melhores,
a transformação da vida humana em dados estatísticos,
a imensa inconsciência dos grilhões da realidade, a cadeia das horas e dos horários,
a injustificada omissão dos que vêem e entendem, a quase inexistência de quem entenda,
a ilusão dos que só vêem,
a supericialidade dos jovens de hoje,
o diário fomentar do egoísmo,
a degradação da formação familiar,
a desilusão com os fracassos e quase-sucessos do passado,
as sem-sentidolices adotadas para preencher o vazio,
o fatalismo das personalidades,
o desamor,
o desagrado,
o fácil acesso à drogas e álcool,
o trabalho exaustivo,
o assassinamento dos sonhos,
o assassinato dos sonhadores de alguma iniciativa,
o perpetuar da tradição de pura reprodução, a invés da criação,
a militância ignorante e descerebrada, bêbada e carnavalesca!
O equívoco da democracia representativa,
a mania de submissão do povo à idolatria,
a incompreensão que resulta do pré-conceito,
E cada outra ingrenagem integrante do mundo porcaria no qual vivemos são:

Produto do próprio homem,
sujeito a modificações efetivadas pelo próprio homem
e de exclusiva responsabilidade do próprio homem.

A prisão social consiste no esteriótipo de zé-alguém implicitado pelo do zé-ninguém exposto às crianças desde cedo...

Um comentário:

Felipe disse...

E lendo teu texto me veio em mente certas coisas que parecem "inerentes" a determinadas idades. Às vezes me assusto com a influência do tempo (enquanto fase da vida) na nossa vivência, sempre me pergunto como seria nossos desenvolvimento se não tivéssemos qualquer concepção cronológica .
Ah, e o texto é bem bonito.