Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

terça-feira, 17 de março de 2020

Ciro Gomes disputa "saída antissistêmica" enquanto parte do PSOL vacila em 7° Congresso

De Eduardo Rodrigues, militante do PSOL-PA

Palavras-chave: agenda liberal; bolsonarismo; lulopetismo; crise capitalista brasileira; alternativa antissistêmica; Cirismo; 7° CONPSOL; programa e união socialista.


Diante de uma crise brasileira brutal onde o povo sofre cada vez mais restrições de direitos e dignidade, além de desastres ambientais, econômicos e de saúde pública agora, que há de saídas políticas?

Com uma "esquerda tradicional" morta que vive em uma irreversível "retirada permanente" das lutas sociais, com as direitas vivíssimas e atuantes na política e dirigindo os poderes, a disputa pela nova alternativa que represente a necessária saída antissistêmica está posta de novo no tabuleiro político e eleitoral... Bolsonaro disputa ainda essa mesma posição antissistêmica da forma mais reacionária possível, com sua saída aos moldes liberal-autoritário. A população acumula uma enorme indignação e frustração que estoura em lutas esporádicas e desorganizadas, mas corretas. Que ecoam em carnavais e outros eventos culturais de massas, mas insuficientes.

A realidade é que essa saída antissistêmica é a única disputa política que existe no Brasil para se opor ao continuísmo. Como um país parte do capitalismo periférico e dependente, as nossas tarefas históricas são sempre a negação da grave situação de miséria e autoritarismos da qual nasceu e que segue vivendo o Brasil, desde a colônia até a moderna "neocolonia" do século XXI. Toda grande alternativa politica de massas aqui faz essa disputa antissistêmica porque a vida da maioria aqui é sempre uma desgraça a ser denunciada como culpa contínua dos governos anteriore, posto que é estrutural do capitalismo a nossa desgraça.

É evidente que o mal estar atual está ligado a todas as agendas antipopulares de reformas contra os trabalhadores, parte das orientações mundiais para fazer frente a crise capitalista internacional que não para de avançar e gerar mais crises políticas por todos os lados. A América Latina - mas não só ela - tem sido palco de rebeliões populares contra governos burgueses tradicionais e contra governos progressistas da esquerda capitalista. No entanto, nessa atual conjuntura constata-se que a nossa política no Brasil está unificada em um consenso do capital contra os direitos dos trabalhadores. E dividida publicamente apenas entre aqueles que diante dessa tão monstruosa agenda liberal e antipopular só são capazes de dizer "sim" (esquerda) ou "SIM, SENHOR!" (direita). Na realidade, o mais preciso e correto de afirmar é que há um pacto entre direita e esquerda no Brasil, um pacto dos expoentes políticos do capitalismo atual: bolsonarismo e lulismo. E a quebra de todas as falsas polarizações bipartidárias na política é a ÚNICA forma visível e instantânea de se diferenciar aos olhos do povo em todas as últimas eleições presidenciais, exatamente porque é a verdade. Seja Heloísa Helena, Eduardo Campos, Marina Silva, Plínio de Arruda ou Luciana Genro, não importa, toda as oposições que realmente disputaram uma posição fizeram essa discussão.

Ontem o Ministro Ciro Gomes deu entrevista ao Roda Viva e reafirmou querer ocupar o espaço que agora se reabre de "alternativa contra tudo que está aí" - mesmo sendo parte histórica de tudo que aí já esteve durante décadas... Qual a sua posição? O combate simultâneo ao lulopetismo sujo e ao bolsonarismo tresloucado que ele advogou é CORRETÍSSIMO e inegociável para aqueles que querem uma alternativa a tudo isso. O combate ao "rentismo", às radicalizações reacionárias e, óbvio, à destruição dos serviços públicos do Estado brasileiro são CORRETOS e urgentes.

Ciro - inclusive, em contradição ao próprio PDT e a todos os seus aliados, fazendo discurso à esquerda - está muito melhor posicionado hoje do que toda a esquerda tradicional capitalista que lambeu as botas do FMI e do Banco Mundial no que tange à denúncia do desmonte da indústria nacional, da estrutura antidemocrática e corrupta de poder que permeia as instituições brasileiras e da gravíssima desigualdade que vivemos. No entanto, é evidente que o projeto Ciro é mais um matiz dos reformismos nacionais que se opõem à rupturas com o capitalismo e se propõem a domar a fera selvagem que estrutura todo sofrimento dos trabalhadores e dos desalentados pelo sistema, o que é ilusão.

Mas ele capitaliza pois aproveita que todo dia, de fato, há uma nova prova que aquela esquerda do Partido dos Trabalhadores e do ex-PCdoB já morreu para as necessidades populares, traindo mobilizações, furando greves e aderindo às reformas bolsonaristas. Um exemplo foi o trágico episódio da restroescavadeira que usa como desmontração de afinco na luta social contra as milícias e uma forma de "contundência" ao passo que aquela esquerda que ele quer substituir ja está fedendo a cadáver e, pior!, intoxicando com os seus fracassos a cabeça do povo brasileiro. Seja com o imobilismo que ele chama de "bom mocismo inerte" ou - pela negativa - empurrando ao apoio de aventuras militaristas ditatoriais bolsonaristas, sob o peso da influência de parte da mídia e do ultra conservadorismo que reina. Mais pela falta de alternativa do que propriamente por uma concordância absoluta - não a toa os atos do dia 15 março foram tão minguados e a isolada pauta extremista vista na rua.

No campo socialista estamos enfraquecidos e alheios às grandes disputas, infelizmente. Hoje o PSOL (junto aos camaradas do PSTU e PCB) poderia estar cumprindo esse papel urgente e fundamental - como cumpriu ao longo de sua história - destacando-se em denúncias no cenário nacional e ainda oferecendo a única resposta adequada: uma agenda de socialização econômica e empoderamento popular, uma ruptura com a desordem estabelecida e que garanta todos os direitos básicos que  são PROIBIDOS pela economia política do "FODA-SE" aplicada pela burguesia e todos os seus partidos (incluindo o PDT), um sistema que está contra a população brasileira ao longo de toda a agenda liberal dos governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro que estão nos conduzindo à maior catástrofe social, política e econômica da Nova República. Nós estamos assistindo a própria falência sem freio dessa Constituição de 1988 e Ciro até comentou no programa a necessidade de uma "reformulação federativa" evidentemente precisa.

Esse é o debate mais importante hoje entre os militantes que defendem mudanças profundas no Brasil, em favor do povo e a criação da força política e social necessárias pra lutar contra o sistema capitalista e seus quadros burgueses todos. Meio ao 7° Congresso Nacional do PSOL, cruzado pela crise do COVID19 e da catástrofe econômico-social do país, é preciso reforçar os debates críticos a figuras como Guilherme Boulos, Edmilson Rodrigues, Marcelo Freixo e a toda a grave insuficiência de seus programas e política de alianças para essas tarefas - aliados a burguesia, ninguém fará mudanças profundas. Parte dos quadros políticos do PSOL e de correntes internas que estão abrindo mão de um necessário protagonismo nacional do partido e dos socialistas, planejando alianças com PT, PV, PDT, PCdoB e Rede. Essa política da "Aliança" interna que disputa o nosso 7° CONPSOL está funcionando como os aparelhos respiratórios e desfibriladores para o morimbundo lulopetismo decrépito e agonizante, contaminado e sem salvação. Sendo funcional a falsa polarização de lulismo x bolsonarismo, fortalecendo não só a ultra direita como também permitindo o espaço para que um novo projeto burguês como de Ciro Gomes se vista de "Bernie Sanders" brasileiro. Por isso a disputa de camaradas como Renato Cinco, David Miranda, Sâmia Bomfim, Carlos Giannazi e outros é fundamental de ser seguida por um grande movimento contra o neolulismo interno no PSOL.

Nós da tese "Bloco da Esquerda Radical - PSOL" e outras teses socialistas no partido devemos reforçar essas denúncias e unificar nessa tarefa de combate interno e externo pra evitar mais atrasos na construção da alternativa socialista brasileira. E os camaradas do PSTU, PCB e demais setores socialistas legais e não-legalizados como partidos eleitorais devemos reforçar a estratégia dos camaradas da Argentina: a Frente de Izqueirda e de los Trabajadores Unidad (FIT-U) pra avançar ou sim ou sim num pólo social e político unitário. O "Contrapoder" organizado por Plínio Jr é uma proposta nesse sentido também, urgente. Pois é uma necessidade pra construir um programa e uma coordenação das lutas dos explorados e oprimidos que estão a mercê de todos os ataques do capital hoje e sem condições de resistir como precisam. A burguesia está em guerra contra nós e nós urgente precisamos estar armados pra enfrentar isso. A organização coletiva é a nossa arma principal. Precisamos de uma força política que diga o "NÃO!" necessário contra o consenso do capital que hegemoniza o Brasil.

Esse é o grau do problema.

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