Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Entre notícias e lençóis

Março: todos os valores e prioridades que o sistema capitalista pregou estão em cheque. Não salva ninguém a adoração ao deus-mercado, em altares-banco não façam suas preces. Não há santo de dinheiro ou espírito financeiro, apenas ganâncias que enganam com promessas... O que salva é o tempo e a vida de trabalhadores que se condensam em amor nas artes mais diversas.

As médicas e enfermeiros, os cientistas - não, eles não são "malucos" - e os pesquisadores, que são capazes de uma mágica real. Brigam uma batalha colossal com a coragem e o sacrifício daqueles sem os recursos que comeu o demônio do capital. A saúde, não há nenhuma dúvida: será a mais notória das atrizes que sustentarão nossa sociedade nos dias a seguir. Mas não só ela. Vários outros seres de trabalho que fazem comida, que transportam e nos entregam recursos, ferramentas e pessoas, através de todos os modais de mobilidade. Quem fará a essencial manutenção da rede elétrica, telefônica, distribuição de água e o saneamento, que impedirão o mar de lixo inundar as ruas e afundar em xorume nosso sofrimento...?

Os burgueses não nos salvarão o futuro!

No fundo, estamos refletindo sobre o que é, de fato, mais importante e necessário. Filosofando em um tic-tac de calafrios: a fragilidade não só das vidas, a fragilidade desse maldito mundo egoísta; esta peteca espacial aí girando cosmicamente pelo escuro emudecido, titânica, de horizonte expansivo de mistérios e de sentidos, a Terra é o abrigo que ainda sofre de inúmeros perigos. E esperanças.

125; 375; 552; 902; 1115; 1504; 1855...

Mas o dia nasce e morre imparavelmente com patrões e governos em suas confabulações e teatros, sem poder esconder que se defenderem seus interesses parasitários até as últimas consequências, terão que matar incontáveis corpos de fome, sede, doenças, em dívidas mergulhados e, antes de tudo isso, pô-los em barbárie, todos contra todos no cenário de selvageria pela sobrevivência - filme que mais queremos evitar: da barbárie completa. Pois não há nada mais perigoso do que pessoas necessitadas e desesperadas.

A solidariedade e o espírito de comunidade são também o que está florindo em meio ao asfalto bruto das cidades. A única negação possível a todo o egoísmo é o inversamente proporcional sentido comunitário e solidário. Agora, saudade e solidão maltratarão, mas a ciência e tecnologia nos permite interagir com os irmãos, amores, amigos e familiares. Na tragédia, se grita: "temos que nos reencontrar!". Mas "precisamos nos preservar". Angústia. "De nós mesmos e do que carregamos conosco, ainda incurável". Sai o resultado do exame médico: negativo. Não foi dessa vez que nos pegou o coronavírus. Alívio.

Precisamos nos reencontrar.
Os burgueses não irão nos salvar!

Reencontrar com os planos de ter uma saúde que atenda a todos ao invés de entrar em colapso quando mais necessária. Nos reencontrar com um trabalho que preserve a nossa vida e não uma economia política de coisas inanimadas. Com a busca por um mundo de todos por todos e não do sacrifício da maioria pelos privilégios da minoria. Por aquela utopia que mostra que o impossível é que as coisas sigam como elas estão: erradas.

Espero reencontrar-nos. Já chega de aguentarmos tão calados. É tempo de mudar o mundo, sim. Já é o desastre que está nos impondo a mudá-lo!

Não deixem mofar o pão
Não permitamos sufocar a poesia
Esses são tempos de revolução
Evidente aos olhos até de quem menos queria

Em casa,
combalido de sonos,
acordo, aturdido, em sonhos incertos
Com o coração que se debulha pelos olhos
E só se repousa de volta em minhas mãos
enquanto ainda tenho vocês por perto

23.03.2020

Nenhum comentário: