Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

terça-feira, 7 de abril de 2020

O Poço - Aceitar ou não a barbárie como único e "óbvio" caminho?

por Eduardo Rodrigues

Trimagasi e Goreng

O filme “O Poço” (“El Hoyo”, original espanhol; “Platform”, no inglês) tem suscitado várias reflexões na internet, sido muito indicado nas redes sociais e conta com 97% de relevância no ranking da Netflix. Enquanto, de um lado, espectadores se debruçam na busca do significado do filme em perspectivas numerológicas, religiosas, filosóficas e meta-cinematográficas atrás da real intenção do diretor – que, de fato, cortou cenas finais e decidiu por uma “conclusão inconclusiva” – há, por outro lado, aqueles que buscam potencializar aspectos políticos do filme como instrumento de denúncia do sistema capitalista (e até do socialista) em exagerações equivocadas, vendo estes sistemas onde não existem e, ainda, perdendo a oportunidade de discutir outras temáticas mais verificáveis na ficção em si.

O filme inicia afirmando haver “três classes de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”. Sem demora compreendemos que aquela edificação vertical (o tal Poço) é composta de muitos andares, com cada andar abrigando um par de pessoas e uma estranha plataforma que todo dia desce trazendo um banquete servido pela Administração para garantir a alimentação dos “inquilinos”. Acontece que essa comida posta na plataforma passa por todos os andares, parando à disposição de cada par de pessoas por apenas alguns minutos ao dia. De modo que os ocupantes do andar de cima sempre comerão antes e deixarão suas sobras aos ocupantes do andar debaixo, que comerão e deixarão suas sobras ao do andar inferior seguinte, e assim por diante até que uma hora a comida acaba e os pares dos andares mais profundos do Poço devem se virar... Além dessa disfuncional divisão de alimentos, as duplas são trocadas de andar aleatoriamente uma vez ao mês. Ou seja, um par pode estar bem servido de alimentos em um mês no andar 48 ou 6 e, então, no mês seguinte passar uma fome desesperadora que leva à loucura nos andares 171, 222 ou outro dos mais baixos...

Toda essa construção do filme prova - para desgosto dos “apolíticos” - que é impossível despolitizar O Poço, uma vez que estes elementos levam à essência do que significa o próprio debate político: sistemas de sociedades, conflitos de interesses, relações de poder, luta pela sobrevivência, convívio humano em adversidades extremas, egoísmo versus altruísmo, distribuição e escassez de alimentos, adaptação conformista ou rebelião inconformista, entre diversas outras temáticas. Tudo está no filme e tudo isso, óbvio, são temas políticos. Temas gerais e interessantes, passíveis sim de relações e paralelos com a realidade em certas medidas e com os devidos cuidados. Mas, para os objetivos desse texto, quero focar em apenas um ou dois aspectos específicos quanto as figuras do velho Trimagasi e do protagonista Goreng face à situação que vivenciam na película.


TRIMAGASI, A REALIDADE QUE MATA A INGENUIDADE

Goreng é o protagonista do filme e contracena boa parte com o velho Trimagasi. Tudo começa no andar de número 48, quando Goreng, um homem adulto, acorda e conhece esse sério, distante e frio senhor de idade de olhar blasé. Após alguma relutância (pois “falar cansa”), Trimagasi passa a conversar com Goreng e vai mostrando sua curiosa personalidade.

O velho conta que assistia às propagandas na televisão. Que seu consumismo o empurrava a querer adquirir os bens mais modernos, estes que não paravam de ser reinventados e melhorados e, por isso, era sempre obrigado a comprar a nova versão do que já tinha. Até que certo dia, enfurecido de sentir feito de tolo pelos vendedores do canal de compras, jogou a televisão pela janela e acabou matando um “imigrante”. Se defende dizendo que foi um acidente e não foi culpa sua, que o homem “nem deveria estar ali”. Revela que foi mandado ao Poço para cumprir a sua pena em troca de não ser internado em um sanatório e que só ficaria ali mais dois meses. O presente e o próximo, depois sairia.

Notemos que Goreng tem muitas dúvidas, faz várias perguntas e questiona o funcionamento do Poço enquanto que para Trimagasi tudo é muito “óbvio”, simples. Óbvio que os de cima não escutam os debaixo, pois aqueles estão melhores; óbvio que os debaixo são humilhados pelos de cima, pois aqueles estão piores; óbvio que ele também deve humilhar, ser humilhado e não ser escutado, ao mesmo tempo que os xinga de “filhos da puta” por isso; é óbvio também que cada vez haja menos pessoas no Poço, porque elas estão morrendo; é óbvio que as vezes se está lá em cima e as vezes se está lá embaixo; enfim, “óbvio” que é tudo como é.

A dupla passa o mês inteiro no andar número 48, numa relação de coexistência pacífica que evolui para uma relação amigável, onde Goreng lê seu livro do Dom Quixote para Trimagasi quando este não consegue dormir, enquanto o idoso comprador compulsivo conta os dias que faltavam para o mês seguinte fazendo riscos na parede com a Samurai-Plus – sua faca de cozinha mais moderna e que fica mais afiada na medida que mais se faz uso dela.

De modo geral, há um simbolismo nesse velhinho. Ele representa a aceitação e resignação às estruturas do Poço. Como aqueles que chamam de “pragmáticos”: quem joga o jogo, aceita as regras, não as questiona e só pensa nos resultados permitidos ali. Isso é o que fica evidente ao extremo no momento em que a dupla é transferida do andar número 48 direto para o andar número 171, em uma sequência tenebrosa: Goreng acorda completamente amarrado à cama e aí se trava um diálogo diabólico com seu colega de quarto, onde Trimagasi explica que não chegaria comida nenhuma para eles agora que estavam tão fundo no Poço. Que isso os enlouqueceria pouco a pouco, destruiria sua amizade e, portanto, chegaria o ponto da fome e da desconfiança onde se imporia a necessidade de praticar o canibalismo. O velho explica que é mais fraco, por isso, teve de se precaver amarrando o colega logo. Explica que Goreng servirá de alimento até o final do mês, sendo cortado em pequenas fatias de carne pela Samurai-Plus. O velho ainda promete que cuidaria dos ferimentos para que Goreng não morresse logo e, assim, não estragasse sua carne. Aqui a grande questão é que o agora canibal Trimagasi aceita a condição de barbárie do Poço, a entende como parte da luta pela sobrevivência ali, sendo que não seria a primeira vez que comeria carne humana, inclusive. Falando em uma racionalidade calculada que durante vários dias ambos se alimentariam de Goreng, mas que faria aquilo com “respeito” e de maneira “limpa”. Retrucando os gritos do colega que a culpa não era sua, mas sim de todos os andares acima que impediam a comida de chegar até ali. “Óbvio”.

A cereja desse bolo medonho é que Trimagasi passa a chamar Goreng de “caramujo”, dizendo que facilitaria entender o colega agora como um animal, para poder comê-lo. Eis o grau de bestialidade e barbarização que a lógica do status quo valida na cabeça do velho: “comer ou ser comido”, com todo o “respeito”. Enquanto Goreng implora e grita aterrorizado por aqueles planos dia após dia.

Evidentemente que a crise de comida é uma virada inesperada e terrível no filme. Não passou pela cabeça do protagonista o que ocorreria se ambos fossem parar em andares mais profundos do Poço, não lhe ocorreu que não chegaria alimento e nem o que mais poderia acontecer de “óbvio” por lá. Ele não imaginou ser atacado e amarrado para ser mutilado pelo colega de quarto. O desespero toma conta dele nos dias em que o velho ainda tenta fazer jejum para adiar o início da mutilação. Até que chega o dia em que a lâmina corta um bife da sua coxa e Goreng explode de dor e horror. Mais uma reviravolta: acontece o contrário do que queria Trimagasi e, com ajuda da estranha Miharu, é Goreng quem o mata o velho com ódio e quem come da sua carne com toda a culpa ao longo do mês no andar 171. O sobrevivente se alimenta até que o cadáver apodreça. Agora contando com a companhia fantasmagórica de um Trimagasi o assombrando e zombando dentro de sua cabeça, como um profundo trauma de remorso por ter chegado ao ponto extremo que alcançou. Se justifica consigo mesmo que não teve outra escolha, que foi obrigado e que eles não são iguais por isso.


GORENG, UM “MESSIAS” FACE AO STATUS QUO

Antes de buscar a tentativa de mudar a lógica do Poço com Baharat, Goreng ainda experimenta mais um andar de fartura de alimentos no número 33 e depois mais um andar de escassez absoluta no número 202 - onde acaba devorando o corpo de Imoguiri, quem, aparentemente, se enforca ao ver o horrível sistema onde esteve trabalhando por tantos anos antes. Abstraindo a parte das alucinações fantasmagóricas e messiânicas que são vividas por Goreng no andar 202, podemos dizer que ele conseguiu entender desde as altas até as mais baixas perspectivas o dito “sistema vertical de auto gestão”. Essa consciência do fracasso e horror do sistema o revolta e o impele a querer mudá-lo.

Em um dos diálogos com a ex-funcionária Imoguiri, o "herói" afirma que “mudanças não acontecem espontaneamente”.  E a própria Imoguiri sugere que talvez Goreng estivesse ali no Poço justamente para fazer a diferença no sistema e, durante novas alucinações canibalescas, seu fantasma chega a chamá-lo de “Messias” enquanto ele comia sua carne e bebia seu sangue. Num ritual com citações bíblicas do "cordeiro de Deus". O evidente paralelo desse messianismo cristão com a vontade de mudar as coisas soa a um deboche, em parte. E é. Porque ele depois evolui para uma franca repressão assassina contra os que não concordarem.

Chegando ao andar de número 6, surge Baharat que é humilhado pelos de cima e frustrado na sua tentativa de sair do Poço escalando os andares restantes. Não pode contar com a boa vontade dos racistas ocupantes do 5º andar que, literalmente, cagam na sua cara. Goreng é solidário e convence Baharat que seja necessário intervir na lógica do Poço. Goreng quer descer os andares em cima da plataforma de comida, escoltando e distribuindo o alimento para que chegue aos mais famintos lá embaixo enquanto Baharat é convidado a ajudá-lo e a aproveitar o instante do retorno da plataforma para seguir rumo ao andar zero, ao topo do Poço onde está a Administração.

Goreng e Baharat se armam com barras do estrado de suas camas, sobem na plataforma e começam a sua missão. Pedem que os 50 primeiros andares façam um jejum neste dia, para que os famintos dos demais andares possam comer. A reação dos ocupantes varia: uns negam e outros aceitam, alguns pelo convencimento e outros pela coerção, ameaça e violência física que passam a empregar Goreng e Baharat contra aqueles que se negavam a cooperar. Ao passarem do quinquagésimo andar, afinal, começam a distribuir as porções de comida igualmente para os pares de famintos dos andares inferiores. Uma divisão de pães numa versão hardcore de cristianismo coercitivo que chega a ser questionado por um velho dos andares de cima “o messias multiplica os pães, não os toma!”.

Em outro diálogo – com o “homem sábio” – Baharat e Goreng são chamados a criar um símbolo, uma mensagem a ser entregue ao andar zero e à própria Administração do Poço. Há um apelo pelos bons modos pacíficos de “convencer antes de vencer”. Mas logo vemos que nem os bons modos, nem a simbologia e nem a pretensa mensagem tem o tipo de poder necessário para enfrentar os fatos. Pois após uma longa descida beneficente distribuindo comida para quem não comeria, a boa intenção dos mocinhos é solapada pela cruel realidade do Poço outra vez. São muito mais andares do que imaginavam. Calculavam ser uns 250, mas já iam longe disso e vendo cada vez mais andares com pessoas mortas, com mais pessoas enlouquecidas e mais pessoas violentas até encontrarem novamente com Miharu, que estava sendo agredida e que termina esfaqueada por um brutamontes. Goreng e Baharat lutam contra a dupla de assassinos, vencem o combate com dificuldade e saem gravemente feridos, com a sentença de morte já sendo executada em seus corpos.

Seguem descendo até o andar de número 333, onde ambos os companheiros de luta morrem tentando proteger o símbolo, alimentar quem tinha fome e entender qual era sua própria mensagem, tudo ao mesmo tempo. Basicamente, eles morrem na luta por mudar as coisas e por conquistar a liberdade. Uma série de cenas que não se sabe mais se são parte da realidade, se são delírios antes da morte ou um simples tapa-buraco mítico do diretor para que o filme ficasse com um final mais... qualquer-coisa...


UMA (IN)CONCLUSÃO POSSÍVEL E AS REFLEXÕES PRINCIPAIS

O fato é que não se vê uma mudança nas formas opressivas, violentadoras e estruturalmente assassinas do Poço. O que nos leva a considerar a possibilidade de que o próprio final do filme e sua “explicação” não são o mais importante. Que as mensagens mais interessantes de ponderar já foram apresentadas e postas para apreciação ao longo dele, antes da sua conclusão.

Afinal, aquela “mensagem” que Baharat e Goreng queriam entregar ao nível zero e à Administração – fosse ela só um pratinho de comida (que, particularmente, nada diz) ou fosse ela a criança faminta no fundo do paço que não deveria estar lá (e, talvez, nem estivesse mesmo) – termina ela própria sem o seu tradutor, sem o seu mensageiro, tal como diz Trimagasi na escuridão após o andar 333. O filme termina sem uma explicação porque ele é mais um exercício de reflexões e no seu decorrer já colocou os problemas que queria colocar. Seja a barbárie, fome, ganância, egoísmo, altruísmo, coletividade, conflitos, vontade de mudança, coragem, covardia, resignação, etc.  

Pois o final se descola daquela concretude oferecida entre as quatro paredes, entre os vários andares e as diversas relações estabelecidas ali. Se desvanece essa resposta final assim como se desvanece a mente do protagonista, que vai morrendo e só vai deixando os caminhos especulativos e subjetivistas da velha questão sem solução: “o que há após a morte?”. Portanto, sem a densidade imagética e sem a significação verbal real necessárias para explicar e responder com todas as letras o que se dá, então já não importa mais nada desse “depois”.

E apesar de ver muito mais pessimismo nesse filme, entendo que o intrigante nele é o desconforto causado pelo próprio sistema. Que, independente do que resulta da ação contra ele, o importante do filme foram as reações das personagens como alegoria das pessoas do nosso mundo injusto. A dupla rebelde não teve sucesso e isso pode ser lido como um: não dá pra mudar um sistema desgraçado como esse, simplesmente. Ele não vai ser solidário porque não é baseado na solidariedade, ponto final.

O que importa mesmo é que havia um sistema bárbaro e vil destruindo homens e mulheres e diante de cada pessoa ali dentro se colocavam as questões: É preciso mudar isso ou não? Se pode lutar contra as regras ou não? De que maneira se poderia mudar esse sistema? Você se adapta e dança conforme a música ou se rebelará contra isso tudo? Como? Por que? Por quais objetivos faria ou deixaria de fazer? O que importa no filme é como aquelas pessoas responderam à essas perguntas. Enquanto uma grande maioria se submetia e aceitava aquela barbárie, a alimentando e reproduzindo elas próprias, mesmo indignadas, se conformavam e colateralmente já estavam permitindo matar e morrer e suicidarem-se. Havia outras ali que tentavam fazer a diferença em menor ou maior grau de intervenção, com maneiras de inconformismo mais ou menos efetivas, mais individuais ou mais coletivas. Havia ainda aquelas que simplesmente desistiam. Na aceitação das regras, na desistência da vida ou na luta tenaz, vemos as respostas de Trimagasi, de Imoguiri e de Goreng-Baharat.

Essa é uma das reflexões interessantes e que melhor servem para fazer um paralelo com a realidade cruel de crise profunda dos sistemas societários que hoje estamos vivenciando no Brasil, na América Latina e em todo o planeta, seja sob os regimes políticos fracassados ou os sistemas econômicos em frangalhos que forem. A mensagem é que as sociedades verticais, onde não existe distribuição justa e igualitária de recursos e do poder, serão sempre um inferno de brutalização, de conflitos e de barbárie, como cada vez mais são hoje mesmo...

A simples existência daquelas três classes do filme já não é o “fundo do poço”? A terceira classe de pessoas se referia aos suicidas? Foi uma missão suicida a de Goreng e Baharat?

Mesmo após entender o terror do sistema se deve compactuar com ele como fez Trimagasi?

Nós devemos aceitar a barbárie como nosso único e “óbvio” caminho? Essa moralidade doentia tão normalizada de sobrevivência?

Goreng e Baharat deveriam ter tentando mudar as coisas no Poço como fizeram? Aquele era a única maneira?

O medo do fracasso em tentar mudar as coisas é mais heróico que qualquer tentativa corajosa mesmo que ineficaz?

Por que eles não cogitaram o caminho de destruir o Poço com apoio dos demais presos? Não seria o mais adequado estrategicamente?

Na vida real, a maioria das pessoas segue qual desses perfis diante da crueldade do mundo? Conformismo, desistência ou tentativa-erro de mudança?

Você é o Trimagasi, Imoguiri, Baharat ou Goreng?

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