Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O Haver


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.




(Vinícius de Moraes)


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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Dar Fim?

Ainda agora eu estava copiando os posts desse blog e jogando num documento de Word. Colocando data, hora e em seguida colando o que eu disse no dia em questão. Eu ia apagar o blog. Se for pra parar um momento e pensar num por que, logo me dou conta que eu desisto muito fácil das coisas. Tem coisas que não me agradam, mas acontecem. Tem coisas que eu fiz, que me arrependo. E em algumas situações, ainda falando do blog, não é possível desfazer pois a tal coisa está incorporada a algo que eu não domino, algo fora do meu controle. Se for transferir essa perspectiva de pensamento pra vida, o que eu não domino seria algo como a memória do tempo, a história do que acontece, o que passou.

Em decorrência dessa minha falta de poder veio a vontade de apagar o blog. Sendo que nem é a primeira vez que isso me dá.

Mas por que eu estou copiando tudo que eu já disponibilizei nele e guardando no documento, então? Ora, a idéia não seria simplesmente acabar com ele, fazê-lo desaparecer e pronto? Bem, eu não quero simplesmente perdê-lo pra sempre. Tem muitas coisas que não me agradam em toda parte dele, eu sei, só que há também muita coisa importante pra mim, coisas que foram construídas devagar, que começaram sem premeditação e sem uma real noção de rumo. Costumava ser apenas um exercício de algo que gosto, uma prática, um passatempo, uma distração, um espaço onde eu podia me escutar, me ver pensar e, assim, poder criticar em mim tudo o que eu não gosto de ver brotar. E por mais que eu, hoje, julgue pobre a totalidade de tudo isso aqui, eu sei que me engano. O meu temperamento muda e eu sei que com ele muda também o modo como encaro as coisas. Eu sei que não é riqueza pura. Mas não é lixo.

E por várias vezes eu considerei de suma importância um trabalho de mudança. Um trabalho de diálogo, consigo mesmo ou com os outros, a chave pra compreensão do que se é e do que se pode ser. Proferir, comunicar, compreender, conversar, tudo importantíssimo. Eu sei que não há plenitude em nada da palavra, eu compreendo que inexiste a comunicação real, que é um ideal abstrato e absurdo, eu sei, eu acho, no entanto, as pessoas tem que aprender a lidar com a vida apartir do que possuem, apartir de suas capacidades, apartir dessas ferramentas disponíveis, que por mais rudimentares que sejam, servem muito bem à quem muito bem souber utilizá-las. O falar, o interpretar, o aprender são imensidão e profundeza indizíveis, são sim, mas é preciso criar a habilidade de lidar com esses mares mentais para que se evite o próprio afogamento. Ninguém pode se cerrar em desistência e julgar-se ápito, digno, praticante ou dono de alguma sabedoria. É preciso o propósito, o intuito, a razão, o motivo, o fundamento, o objetivo, o fim que serve de guia para todos os pensamentos e todos os esforços, promovendo a utilidade de todo o maquinário que nos é disposto...

Eu tenho muitos momentos de desertor. Isso não é motivo de orgulho, e a minha ciência à respeito disso tampouco, se eu não estiver fazendo nada a favor de uma transformação, uma reversão desses instantes antes que eles consolidem-se em algum novo arrependimento.

Mas a minha vontade de apagar não passa. Não o apagar definitivo, de esquecer por completo, de modo algum. Apagar da vista de quem conhece isso tudo que me desagrada (pensar isso sinceramente me incomoda, porque é de uma vaidade e de um orgulho tamanhos... Que eu me sinto sujo. E eu queria só me livrar destes defeitos. Eu condeno a arrogância, o esnobismo, a cegueira, a mentira, a enganação, a trapaça, a descortesia e etc... E não quero deixar de condenar em mim cada uma dessas desvirtudes. E trabalho pra expulsar de mim até que me sinta limpo.)... Deixar existir é permitir ser estigmatizado? Não. O estigma não está em nós, não vem conosco, fica lá no tempo passado.

Mesmo sendo a pessoa o alvo da pena, o que lhe é condenável é a sua conduta, não é a pessoa propriamente dito, pois ela continua possuindo sua capacidade de mudança, seu direito de se redimir, sua dignidade humana e etc. Aqui, no blog, existem uns posts ruins. Como marcas no tempo...

Estou devagar, divagando, devaneando, vagabundeando por idéias e tentando exprimir simultaneamente. Até aqui não gostei da maior parte do produto. Mas ainda vou aprender a colocar melhor o meu pensamento, com fluidez e expressão. Apartir desses exercícios (eu espero)...

Sinto que evoluí em clareza de alguma coisa, de alguma forma, só por este simples momento de reflexão. É como estar empunhando uma vela e ir caminhando no escuro da própria cabeça, conhecendo aposentos de uma casa sem iluminação, clareando e entendendo as formas de ambientes que se vai visitando, descobrindo caminhos e passagens em si mesmo.

"Passeio no escuro,
me clareando..."

[...]

O melhor talvez seja procurar recobrar a dignidade do que eu tenho. Parece que se perdeu, mas eu compreendo que não. Rumar pro que eu considero melhor, recriar, ajustar o que não condiz com o que eu quero me parece mais coerente, menos dramático e tolo. Deve ser mais por aí do que guardar num documento de Word e apagar o blog por orgulho, vaidade. Deve ser mais por aí do que guardar na memória e apagar o que há por orgulho, vaidade. Não que a luta contra o próprio orgulho e vaidade sejam o fim em si, porque querer ser virtuoso pode ser por pura vaidade também. Há um propósito essencial que norteia, sendo isso íntimo demais (pra minha limitadíssima capacidade de comunicação exprimir).

Eu ainda gosto daqui

...?

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A Pausa Imensa e Sem Propósito

A vontade de, pela ausência,
fazer-se presente.

...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Construção

Chico Buarque
Deus Lhe Pague
Cotidiano
Desalento
Construção
Cordão
Olha Maria
Samba de Orly
Valsinha
Minha História (Gesubambino)
Acalanto

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Valer

Pois é, existem tantas, tantas, tantas coisas sobre as quais podemos desperdiçar horas e horas falando, palavras e palavras entoando, discorrendo, discursando, discutindo, discordando... O mundo é tão imenso e cheio de coisas visíveis e invisíveis, sendo que nossa própria mente nos ilude de outras tantas quando produz infinitos frutos impossíveis.

Dentro, no inverificável, de tudo acontece. Fora, no sensivelmente constatável, parece tudo pronto, preparado, tudo simplesmente posto, que parece até imutável. Na interseção de fora-dentro, dentro-fora, a gente se dá conta do agora, desse agora, nosso agora, o momento, nosso tempo.

Meu Deus, é poder demais! A todo segundo eu sou capaz! Em minhas mãos, nos meus ideais, e somos jovens, somos fortes, comandantes da nossa própria sorte! Com a liberdade imparável de homem, de mulher! Eu vou longe se eu quiser e no destino eu faço um corte! QUEM AQUI, COMIGO PODE?!

Perae, perae... E quanto a ela, essa tal dona Morte? Ceifadora, findadora. Com ela ninguém brinca, pra ela não importa o quanto alguém é forte. É verdade, é indiscutível... Não vamos tão longe quanto queremos, porque, é claro, não demora nada e já estamos morrendo, tossindo, golfando, em nosso leito desfalecendo. Apodrecendo e fedendo, como todo e qualquer animal de carne, osso, impulso nervoso e etc. Na morte comum, casual, tão assustadoramente natural.

Ah, é poder de menos:

Se me tocarem, eu sentirei. Sei que estou vivo. Sou minha mente, meu corpo e desse pouco já não entendo quase nada. Se tocarem meus amigos, não perceberei. Porque fora de mim é onde toda a minha pequena consciência acaba, em curtos limites intransigíveis. Em todas essas extravagantes e caprichosas ondas que me são perceptíveis. Eu só sinto por mim, eu só penso por mim, eu só existo em mim, numa inegável solidão. Essa inevitável solidão existencial...

Eu, basicamente, acabo e sumo em mim.

Mas chega um ponto em que minha cabeça grita “BASTA!”. O meu ego se esvazia numa leveza indescritível. E uma tímida humildade me explica, num passo de cada vez, que eu não sei de nada, que nem o que eu sei que sei vale qualquer palavra. Que a vida, por si só, não é complicada. Que tudo não é nada. Diz até que o meu lugar está em tudo. E, no final, o que importa na nossa vida é apenas a relação social. Que é o outro, não o eu. Que o mundo é de todos, não é só meu.

Eu, basicamente, começo e fico nos outros.


Minha conclusão:

De nada vale tudo o que sou, se não há com quem compartilhar.
Eu só valho a pena pra mim, se com o mundo eu formo par.


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