Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Papa visita um Brasil conturbado

Por Miguel Lamas

A visita do Papa Francisco I ao Brasil - planejada pelo Papa anterior, Bento XVI, antes de sua renúncia - adquiriu uma nova dimensão política após as gigantescas mobilizações de milhões de pessoas em Junho e no "Dia Nacional de Luta" dos trabalhadores no 11 de Julho.

Estas grandes manifestações, protagonizadas principalmente por jovens, inciadas por protestos contra o aumento das tarifas de ônibus, conseguiu uma primeira vitória impondo o cancelamento do aumento das tarifas de transportes, e evoluindo rapidamente à demanda por saúde, educação e trabalho, mostrando que o "milagre" brasileiro sob o governo do PT beneficiou, principalmente, aos bancos, às transnacionais e latifundiários do agronegócio, mas não aos trabalhadores e o povo.

Como evento extraordinário para o Brasil, os manifestantes questionaram fortemente os gastos de bilhões de dólares para a construção de estádios para a Copa do Mundo. As "Jornadas de Junho" abruptamente mudou a realidade política brasileira. A presidente Dilma Rousseff, que tinha um índice de aprovação de 58% antes dos protestos, caiu agora para os 30%. Os manifestantes estão exigindo a renúncia de governadores, como Sergio Cabral do Rio de Janeiro, onde as manifestações foram muito grandes e onde chega o Papa.

Em 11 de Julho houve outro fato extremamente importante, que era a unidade dos oito centrais sindicais em um dia nacional de luta, no qual milhões de trabalhadores mostraram a vontade de lutar por suas reivindicações, apesar do freio das direções sindicais governistas (especialmente da CUT) que se recusam a organizar uma greve geral.

A visita papal e da Igreja no Brasil

O Papa visita durante 7 dias o Brasil, onde ele preside, no Rio de Janeiro, a Jornada Mundial da Juventude (a Igreja estima 2 milhões de participantes).

A Igreja Católica brasileira sempre teve uma significativa influência política. No Brasil foi muito forte a "Teologia da Libertação", que se originou na década de sessenta e mobilizou milhares de padres e freiras para organizar as Comunidades Eclesiais de Base que atingiram milhões de participantes e teve forte influência sobre o massivo Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (camponeses) e também no surgimento do Partido dos Trabalhadores. Se baseava no chamado "compromisso com os pobres". Os sacerdotes Frei Betto e Frei Leonardo Boff, tiveram uma influência decisiva na fundação, em 1979, do Partido dos Trabalhadores, liderado pelo fervoroso católico Lula.

Apesar das intenções e honestos esforços de milhares de militantes católicos da teologia da libertação, que lutaram para melhorar a vida dos pobres e reforçaram a sua mobilização de luta - em muitos casos foram reprimidos, presos e torturados por isso - a cúpula da Igreja Católica orientou esse movimento para impedir um desenvolvimento revolucionário e conduzi-lo rumo à conciliação de classes do Partido dos Trabalhadores com o capitalismo, que terminou, no poder, aliando-se às multinacionais, aos bancos e ao agronegócio, e o próprio Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra converteu-se em um dos pilares do governo do PT, em grande parte abandonando a luta histórica pela terra. A Igreja Católica, como uma instituição global, está aliado desde o Império Romano aos exploradores e ricos e não aos pobres. João Paulo II e, especialmente Ratzinger, Bento XVI, perseguiram os teólogos da libertação. A Leonardo Boff chegaram a puni-lo com um ano de silêncio.

Agora Francisco I vem dizer "reconciliar-se" com a Teologia da Libertação, para reforçar a influência da Igreja Católica (que desde 1970 caiu de 90% de fiéis para os 57% de hoje) e, mais uma vez, para tentar frear a rebelião de milhões de jovens e do povo no Brasil. Por um lado falou que não se atendem as questões da juventude, como a necessidade de trabalho e disse que se deve "alimentar a chama do amor fraternal". Mas não mencionou os responsáveis capitalistas, governos como o de Dilma Rousseff, as multinacionais e os banqueiros, culpados diretos da exclusão (Teria-se que amá-los e convencê-los de que "amem" aos pobres?). Por isso Dilma Rousseff pôde saudar, ao lado do Papa, o seu discurso, propondo uma "aliança entre o governo e a Igreja no combate à pobreza."

Preparar a greve geral

Pr'além da confusão que poderia provocar o Papa e a Igreja, uma vez que eles têm prestígio em setores da população, o povo, a juventude e os trabalhadores já saíram massivamente às ruas e comprovaram que eles podem impor suas demandas (como foi o cancelamento de aumento das tarias) com a luta (e não com o "amor" aos exploradores) e que o governo de Dilma Rousseff é o principal responsável pela situação dos jovens e do povo. Como diz o jornal Combate Socialista da CST/PSOL: "As centrais falam de uma nova jornada de luta em 30 de Agosto, no entanto sem fazer assembleias para discutir com as bases. É necessário preparar uma verdadeira greve geral, com assembleias de base democráticas, para discutir o programa de luta, que tem que ter como centro enfrentar e derrotar o governo de Dilma Rousseff, a sua política econômica e seu pacto de ajuste fiscal. Essa será a única maneira de conquistar o passe livre, serviços de saúde e educação de qualidade, salários de acordo com a inflação, a prisão dos corruptos... unificando a juventude com a classe trabalhadora."

FONTE: UIT-CI

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