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| Postdam (aos arredores de Berlim), 1945. Se reuniram Churchill, Truman e Stalin e pactuaram as "zonas de influência". |
O homem que traiu o leninismo e a revolução
Em 5 de março de 1953, vítima de uma hemorragia cerebral, morreu um dos homens mais poderosos do século XX. A URSS e sua "esfera de influência" já não existem mais. O debate sobre o papel de Joseph Stalin continua plenamente válido para os revolucionários do século XXI.
Em 1953, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), o maior país do mundo, era a segunda potência industrial e se preparava para disputar a conquista do cosmos com os Estados Unidos. Até então, para a "história oficial" do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e suas agências, que dominaram a Europa Oriental, essas conquistas foram graças ao trabalho de um homem: o "pai" Stalin. Apenas três anos depois, o novo secretário-geral do PCUS, Nikita Khrushchev, que fazia um "relatório secreto" contra Stalin e se iniciava uma "desestalinização". Em ambos os casos, a burocracia mentia ao povo soviético e para os trabalhadores do mundo, para preservar seus privilégios e a convivência com o imperialismo.
A ascensão de Stalin ao poder
Em meados dos anos 20 se produziram na jovem URSS mudanças muito profundas. Em 1917, se tinha conseguido a vitória do primeiro governo operário e camponês na história, apoiado na mobilização dos trabalhadores e do povo da Rússia e das nacionalidades oprimidas pelo czarismo. Se assentava nos sovietes, a democracia operária e a condução revolucionária e internacionalista do Partido Bolchevique. O imenso sacrifício que permitiu ao povo soviético ganhar uma sangrenta guerra civil deixou o país devastado. Na Europa, especialmente na Alemanha, a traição da socialdemocracia impediu novos triunfos da revolução socialista.
Neste contexto, enquanto se agravava seu frágil estado de saúde, Lenin começou uma dura batalha contra a burocratização do Estado e do partido. O seu apoio fundamental no Politburo era Leon Trotsky. O chefe da nascente burocracia era Joseph Stalin.
Favorecido pela morte de Lenin, Stalin ganhou o controle do aparato burocrático. Em 1924 se iniciou um curso de contra-revolução política, que se sintetizou na fórmula nefasta do "Socialismo em um só país". Apoiando-se no cansaço das massas soviéticas, o aparato burocrático conseguiu derrotar a Trotsky e a Oposição de Esquerda.
A regressão político se assentou no estabelecimento de uma ditadura cruel. Nos anos 30 reinava na URSS um regime repressivo que impôs um genocídio, com milhões de perseguidos, deportados a campos de concentração e mortos. Os "processos de Moscou" levou ao fuzilamento do que restava da velha direção bolchevique. Trotsky foi assassinado no exílio em 1940 por um agente de Stalin. Igualmente nefasta era a política de conciliação com as burguesias, chamada de "Frente Popular", e a substituição do partido leninista para sua caricatura, o "centralismo burocrático" stalinista.
A URSS no pós-guerra
Graças aos enormes esforços do Exército Vermelho e do povo soviético, que custaram 20 milhões de mortos, a URSS desempenhou um papel protagonista na Segunda Guerra Mundial para esmagar o nazismo (ver "70 anos após a vitória de Stalingrado"). Stalin foi capaz de fortalecer a sua figura adjudicando-se os méritos dessa conquista. E pessoalmente liderou os pactos que assinou com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos para estabelecer uma divisão do mundo no âmbito da dominação imperialista. Se fixaram as "esferas de influência" do pós-guerra. A burocracia soviética estendeu o seu poder através da criação de regimes semelhantes ao da URSS na Europa Oriental, as "democracias populares". A partir de 1949 se fortaleceu ainda mais pela vitória da revolução socialista na China, sob a liderança do Partido Comunista e de Mao Tse Tung.
No início dos anos 50, em um terço da humanidade se tinha expropriado a burguesia, com regimes totalitários. Stalin era o supremo ditador do assim chamado "socialismo real". Mas as massas soviéticas tinham começado a recuperar-se do esforço de guerra e se iniciava um novo ascenso, que provocou rearranjos e temores nas cúpulas da burocracia.
A morte de Stalin caiu bem à burocracia
Ainda hoje é muito comentando se Stalin teve um acidente vascular cerebral ou foi envenenado. Tudo seria possível nos corredores do poder stalinista e, em última instância, tem pouca ou nenhuma importância. O fato é que 1953 foi um ano abalado por novos atos de revolta das massas. Na URSS se produziram as grandes greves dos campos de concentração de Vorkuta e Cazaquistão. E em Berlim Oriental, pela primeira vez houve uma importante greve operária que foi esmagada pelo ocupante Exército Vermelho.
Os dois principais tenentes de Stalin eram Gregory Malenkov e Laurente Beria, que pretendiam manter-se no topo da cúpula. Eles não conseguiram. Beria, chefe dos sinistros serviços secretos, foi baleado em dezembro. O novo Secretário Geral, Nikita Khrushchev, foi consolidando sua manipulação e seu poder. Em 1955 foi destituído Malenkov.
Para fornecer uma válvula de escapre às reivindicações crescentes contra a ditadura, a burocracia encontrou seu bode expiatório: o falecido Stalin. Em fevereiro de 1956, com um relatório surpreendente e repentino de Khrushchev, foram atribuídos "erros" e um injustificável "culto da personalidade" (ver El Socialist nº 23). Não houve nenhum tipo de revisão ou crítica às políticas de pactuação com o imperialismo e as burguesias, que levavam à derrota ou estagnação das revoluções. A única questão "política" foi reivindicar como grande mérito de Stalin sua perseguição ao "trotskismo".
Este "mudar para que nada mude" teve sua confirmação em Outubro de 1956, quando o Exército Vermelho esmagou à sangue e fogo os trabalhadores húngaros que reivindicavam socialismo sem exército de ocupação e repressão. De qualquer forma, para manter a "desestalinização", em 1961, o caixão de Stalin foi retirado do lugar de maior honra que ocupava no mausoléu central junto a Lenin e mudou-se para as muralhas do Kremlin.
60 anos depois
Hoje, praticamente ninguém nega o caráter despótico do regime de Stalin e continuam saindo à luz seus traços genocidas, que Trotsky denunciou na década de 30. Alimenta-se assim a versão dos imperialistas e da socialdemocracia de que a URSS era simplesmente uma sinistra ditadura totalitária "herdeira do leninismo". Em sentido oposto, algumas vozes de "esquerda" continuam justificando a Stalin e seus crimes, com o argumento absurdo de que era a única maneira possível para que avançasse o "socialismo". Ao mesmo tempo, como a expropriação da burguesia foi revertida e se restaurou a exploração capitalista-imperialista em todo o mundo, muitas vozes tiram a conclusão de que fracassou esse falso "socialismo" porque houve um equivocado "estatismo".
Para desenvolver esses debates, é imprescindível lembrar a luta de Lenin, Trotsky e da Oposição de Esquerda para impedir a vitória e a consolidação do aparato burocrático que Stalin encabeçou. Trotsky argumentava que seria inevitável o fracasso da burocracia caso permanecesse no poder, já que iria transformar sua capitulação ao imperialismo na restauração direta do capitalismo. Só com uma nova revolução, que esmagasse a burocracia e retomasse o caminho inicial de luta consequente contra a burguesia e o imperialismo, de independência de classe e democracia operária, que se poderia ter salvo a URSS. Segue pendente a luta pela vitória da revolução socialista e a reconstrução da direção operária e internacionalista que a encabece.
A "sífilis" do movimento operário mundial
Em suma, como tantas vezes se referiu Nahuel Moreno aos partidos comunistas stalinistas. Desde 1953 observou que a morte de Stalin não alterou o problema mais grave da humanidade, vencer a burocracia e superar a crise de direção instalada na década de 20. Essa é a razão de ser da luta de Trotsky e o trotskismo revolucionário.
Moreno fazia uma sistemática contraposição entre leninismo e estalinismo. Dizia em 1957, comentando a "unanimidade" burocrática: "Este sinistro regime totalitário [stalinista] não tem nada a ver com o verdadeiro leninismo, com o comunismo. Com Lênin era exatamente o contrário que ocorria: não houve um só problema importante - uma vez que se fez a revolução para a guerra contra a Polônia - que resolveu, por unanimidade. Nunca havia unanimidade. Lenin foi derrotado repetidas vezes, embora a guerra civil e a defesa contra o ataque imperialista de vinte nações impuseram enormes restrições às liberdades democráticas operárias. A tendência dos leninistas era, precisamente, alcançar a uma democracia como jamais conheceu a humanidade."*
O regime inaugurado por Stalin, até que finalmente as massas soviéticas acabaram com ele, foi um dos mais terríveis que a humanidade já conheceu.
* "El marco histórico de la revolución húngara". Ver Escritos sobre a revolução política em www.nahuelmoreno.org
FONTE: UIT-CI


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