Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Há 60 anos morria Stalin

Postdam (aos arredores de Berlim), 1945. Se reuniram Churchill, Truman e Stalin e pactuaram as "zonas de influência".

O homem que traiu o leninismo e a revolução

Em 5 de março de 1953, vítima de uma hemorragia cerebral, morreu um dos homens mais poderosos do século XX. A URSS e sua "esfera de influência" já não existem mais. O debate sobre o papel de Joseph Stalin continua plenamente válido para os revolucionários do século XXI.

Em 1953, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), o maior país do mundo, era a segunda potência industrial e se preparava para disputar a conquista do cosmos com os Estados Unidos. Até então, para a "história oficial" do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e suas agências, que dominaram a Europa Oriental, essas conquistas foram graças ao trabalho de um homem: o "pai" Stalin. Apenas três anos depois, o novo secretário-geral do PCUS, Nikita Khrushchev, que fazia um "relatório secreto" contra Stalin e se iniciava uma "desestalinização". Em ambos os casos, a burocracia mentia ao povo soviético e para os trabalhadores do mundo, para preservar seus privilégios e a convivência com o imperialismo.

A ascensão de Stalin ao poder

Em meados dos anos 20 se produziram na jovem URSS mudanças muito profundas. Em 1917, se tinha conseguido a vitória do primeiro governo operário e camponês na história, apoiado na mobilização dos trabalhadores e do povo da Rússia e das nacionalidades oprimidas pelo czarismo. Se assentava nos sovietes, a democracia operária e a condução revolucionária e internacionalista do Partido Bolchevique. O imenso sacrifício que permitiu ao povo soviético ganhar uma sangrenta guerra civil deixou o país devastado. Na Europa, especialmente na Alemanha, a traição da socialdemocracia impediu novos triunfos da revolução socialista.

Neste contexto, enquanto se agravava seu frágil estado de saúde, Lenin começou uma dura batalha contra a burocratização do Estado e do partido. O seu apoio fundamental no Politburo era Leon Trotsky. O chefe da nascente burocracia era Joseph Stalin.

Favorecido pela morte de Lenin, Stalin ganhou o controle do aparato burocrático. Em 1924 se iniciou um curso de contra-revolução política, que se sintetizou na fórmula nefasta do "Socialismo em um só país". Apoiando-se no cansaço das massas soviéticas, o aparato burocrático conseguiu derrotar a Trotsky e a Oposição de Esquerda.

A regressão político se assentou no estabelecimento de uma ditadura cruel. Nos anos 30 reinava na URSS um regime repressivo que impôs um genocídio, com milhões de perseguidos, deportados a campos de concentração e mortos. Os "processos de Moscou" levou ao fuzilamento do que restava da velha direção bolchevique. Trotsky foi assassinado no exílio em 1940 por um agente de Stalin. Igualmente nefasta era a política de conciliação com as burguesias, chamada de "Frente Popular", e a substituição do partido leninista para sua caricatura, o "centralismo burocrático" stalinista.

A URSS no pós-guerra

Graças aos enormes esforços do Exército Vermelho e do povo soviético, que custaram 20 milhões de mortos, a URSS desempenhou um papel protagonista na Segunda Guerra Mundial para esmagar o nazismo (ver "70 anos após a vitória de Stalingrado"). Stalin foi capaz de fortalecer a sua figura adjudicando-se os méritos dessa conquista. E pessoalmente liderou os pactos que assinou com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos para estabelecer uma divisão do mundo no âmbito da dominação imperialista. Se fixaram as "esferas de influência" do pós-guerra. A burocracia soviética estendeu o seu poder através da criação de regimes semelhantes ao da URSS na Europa Oriental, as "democracias populares". A partir de 1949 se fortaleceu ainda mais pela vitória da revolução socialista na China, sob a liderança do Partido Comunista e de Mao Tse Tung.

No início dos anos 50, em um terço da humanidade se tinha expropriado a burguesia, com regimes totalitários. Stalin era o supremo ditador do assim chamado "socialismo real". Mas as massas soviéticas tinham começado a recuperar-se do esforço de guerra e se iniciava um novo ascenso, que provocou rearranjos e temores nas cúpulas da burocracia.

A morte de Stalin caiu bem à burocracia

Ainda hoje é muito comentando se Stalin teve um acidente vascular cerebral ou foi envenenado. Tudo seria possível nos corredores do poder stalinista e, em última instância, tem pouca ou nenhuma importância. O fato é que 1953 foi um ano abalado por novos atos de revolta das massas. Na URSS se produziram as grandes greves dos campos de concentração de Vorkuta e Cazaquistão. E em Berlim Oriental, pela primeira vez houve uma importante greve operária que foi esmagada pelo ocupante Exército Vermelho.

Os dois principais tenentes de Stalin eram Gregory Malenkov e Laurente Beria, que pretendiam manter-se no topo da cúpula. Eles não conseguiram. Beria, chefe dos sinistros serviços secretos, foi baleado em dezembro. O novo Secretário Geral, Nikita Khrushchev, foi consolidando sua manipulação e seu poder. Em 1955 foi destituído Malenkov.

Para fornecer uma válvula de escapre às reivindicações crescentes contra a ditadura, a burocracia encontrou seu bode expiatório: o falecido Stalin. Em fevereiro de 1956, com um relatório surpreendente e repentino de Khrushchev, foram atribuídos "erros" e um injustificável "culto da personalidade" (ver El Socialist nº 23). Não houve nenhum tipo de revisão ou crítica às políticas de pactuação com o imperialismo e as burguesias, que levavam à derrota ou estagnação das revoluções. A única questão "política" foi reivindicar como grande mérito de Stalin sua perseguição ao "trotskismo".

Este "mudar para que nada mude" teve sua confirmação em Outubro de 1956, quando o Exército Vermelho esmagou à sangue e fogo os trabalhadores húngaros que reivindicavam socialismo sem exército de ocupação e repressão. De qualquer forma, para manter a "desestalinização", em 1961, o caixão de Stalin foi retirado do lugar de maior honra que ocupava no mausoléu central junto a Lenin e mudou-se para as muralhas do Kremlin.

60 anos depois

Hoje, praticamente ninguém nega o caráter despótico do regime de Stalin e continuam saindo à luz seus traços genocidas, que Trotsky denunciou na década de 30. Alimenta-se assim a versão dos imperialistas e da socialdemocracia de que a URSS era simplesmente uma sinistra ditadura totalitária "herdeira do leninismo". Em sentido oposto, algumas vozes de "esquerda" continuam justificando a Stalin e seus crimes, com o argumento absurdo de que era a única maneira possível para que avançasse o "socialismo". Ao mesmo tempo, como a expropriação da burguesia foi revertida e se restaurou a exploração capitalista-imperialista em todo o mundo, muitas vozes tiram a conclusão de que fracassou esse falso "socialismo" porque houve um equivocado "estatismo".

Para desenvolver esses debates, é imprescindível lembrar a luta de Lenin, Trotsky e da Oposição de Esquerda para impedir a vitória e a consolidação do aparato burocrático que Stalin encabeçou. Trotsky argumentava que seria inevitável o fracasso da burocracia caso permanecesse no poder, já que iria transformar sua capitulação ao imperialismo na restauração direta do capitalismo. Só com uma nova revolução, que esmagasse a burocracia e retomasse o caminho inicial de luta consequente contra a burguesia e o imperialismo, de independência de classe e democracia operária, que se poderia ter salvo a URSS. Segue pendente a luta pela vitória da revolução socialista e a reconstrução da direção operária e internacionalista que a encabece.

A "sífilis" do movimento operário mundial

Em suma, como tantas vezes se referiu Nahuel Moreno aos partidos comunistas stalinistas. Desde 1953 observou que a morte de Stalin não alterou o problema mais grave da humanidade, vencer a burocracia e superar a crise de direção instalada na década de 20. Essa é a razão de ser da luta de Trotsky e o trotskismo revolucionário.

Moreno fazia uma sistemática contraposição entre leninismo e estalinismo. Dizia em 1957, comentando a "unanimidade" burocrática: "Este sinistro regime totalitário [stalinista] não tem nada a ver com o verdadeiro leninismo, com o comunismo. Com Lênin era exatamente o contrário que ocorria: não houve um só problema importante - uma vez que se fez a revolução para a guerra contra a Polônia - que resolveu, por unanimidade. Nunca havia unanimidade. Lenin foi derrotado repetidas vezes, embora a guerra civil e a defesa contra o ataque imperialista de vinte nações impuseram enormes restrições às liberdades democráticas operárias. A tendência dos leninistas era, precisamente, alcançar a uma democracia como jamais conheceu a humanidade."*

O regime inaugurado por Stalin, até que finalmente as massas soviéticas acabaram com ele, foi um dos mais terríveis que a humanidade já conheceu.


* "El marco histórico de la revolución húngara". Ver Escritos sobre a revolução política em www.nahuelmoreno.org

FONTE: UIT-CI

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