Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

quarta-feira, 4 de março de 2020

FHC e Lula defendem mandato de Bolsonaro. Não os escutemos! Fora Bolsonaro Já!

Eduardo Rodrigues, militante do PSOL.


De um lado, FHC diz para termos "paciência histórica com Bolsonaro", enquanto que, do outro lado, Lula pede a mesma paciência e reafirma o que diz desde que saiu da cadeia "(...) temos que esperar quatro anos". Ambos vão na contramão das mobilizações que ocorrem desde 2019.

Essa posição de manutenção do mandato presidencial é totalmente esperada de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), pela simples defesa da ordem democrático burguesa. No entanto, a posição de Lula se choca frontalmente com todos os discursos que estão permeando o espectro da esquerda há vários e vários meses - na realidade, desde a vitória de Jair Bolsonaro. Enquanto as pessoas comuns querem brigar pela sua dignidade e direitos agora, a esquerda oficial agora ajusta todo o discurso e diz para aceitar e esperar as eleições.

A tese da "onda conservadora" que arrasaria toda a oposição, da "ameaça neonazista" que instalaria uma ditadura, do rompante da força "fascista miliciana", etc, serviram como um importante alerta perpassando os discursos de vários partidos e grupos da esquerda. As vezes de forma mais crítica, as vezes de forma mais impressionista e desesperada. Em especial nos discursos "antigolpe" do PT, PCdoB, PDT e setores do PSOL. A gravidade do momento exigiria radicalidade e organização superiores em relação a tudo que vinha sendo oferecido há décadas por esses partidos.

Logo no primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro, os educadores e estudantes foram a ponta-de-lança para o enfrentamento de massas com os ataques de Bolsonaro e Mourão, indo às ruas e já ensaiando uma proposta de saída política pela deposição do governo através das ruas, ecoando a palavra-de-ordem "Fora Bolsonaro!" e "Fora Bolsonaro e Mourão!". A queda na popularidade do governo foi notória visto que muito acelerada, tanto que logo no primeiro semestre atingiu o maior índice de rejeição popular em início de mandato de qualquer governo eleito desde a redemocratização do Brasil. O "Ele Não", ainda no processo eleitoral, já mostrava como seria recorrente o enfrentamento político e como tendia a crescer essa rejeição popular. Não  a toa os protestos chegaram a pautar os editoriais de março de 2019 em todos os grandes jornais como uma verdadeira ameaça ao governo e alertando a possibilidade de não conclusão do mandato do presidente.

No entanto, é notório que a radicalidade advinda das ruas tem sido sistematicamente contida e abafada pela própria "oposição" ao governo, que desmontou as lutas da educação dispersando os calendários de ação, sabotou abertamente toda a luta contra a Reforma da Previdência e acabou dando um banho de água fria na ruas tentando transformar todas as ações de protesto em atos pelo "Lula Livre". Todo ativista honesto e minimamente antenado esteve percebendo o comportamento de entidades como UNE, UBES, CTB, CUT e suas direções lulistas, ao tentarem transformar o ex presidente na medida de todas as coisas e ao negligenciar pautas educacionais, ambientais e trabalhistas que foram a marca do ano de 2019 nas ruas. Todo aquela verborragia lulista pelo "antifascismo" e "antibolsonarismo" foi dando lugar a uma oposição comportada, tranquila, desarticulada e meramente parlamentarista, uma tática que só pode redundar em derrota permanente uma vez que a "oposição" é minoria no Congresso e ainda replica as políticas de contrarreformas onde é governo...

Agora em 2020 com calendário tão importante nesses dias 8, 14 e 18 de Março, a possibilidade de enfrentar e retomar aquelas ações de massas contra o governo Bolsonaro e Mourão poderia e deveria ser o objetivo central dos esforços daquelas forças políticas. No entanto, as burocracias tradicionais não tem esse compromisso, pelo que tudo indica. Muito ao contrário, seus porta-vozes maiores - desde a direita até a esquerda - estão todos defendendo o mandato do presidente Jair Bolsonaro, como bons moços que dão mais importância às formas normativas da democraria burguesa do que ao seu conteúdo abertamente antipopular nos planos de ajuste fiscal, retirada de direitos e na ampliação das margens de lucro dos capitalistas. Não a toa a CUT quis acabar com a greve dos Petroleiros esse ano, no seu momento mais forte. Não a toa ano passado sabotaram parcialmente a greve geral e permitiram aprovar a Reforma da Previdência sem nenhuma manifestação nós momentos de votação, um absurdo completo - que é fácil de explicar quando posteriormente esta mesma medida é também aplicada por governos do PCdoB e PT em outros estados, com apoio do PDT, inclusive.

O PSOL nesse momento atravessará o seu 7° Congresso Nacional e pode impulsionar um caminho diferente. Vários setores, grupos e correntes internas do partido escreveram teses que reivindicam a tarefa de derrotar imediatamente o governo Bolsonaro e Mourão nas ações de rua, na luta concreta e organizando um novo projeto de esquerda radical e socialista para o Brasil. Que esteja vinculando todas as lutas contra a exploração e opressões sistêmicas. Esse debate tem que chegar às ruas urgentemente e se materializar em uma política de organização de Comitês de Luta pelo Fora Bolsonaro. Para sistematizar e dar corpo ao processo de luta real, enraizar essa linha política entre ativistas que estão vendo as traições da velha esquerda, com respeito e democraria, para não permitirem que as burocracias dispersem novamente as lutas como fizeram em 2019. Quando se perdeu uma oportunidade de ouro de aprofundar a crise do projeto liberal autoritário que se gesta no governo e nas suas políticas.

Não devemos ouvir nem FHC e nem Lula, seus conselhos só favorecem a direita e os planos capitalistas, a estabilidade dos ataques aos trabalhadores. Devemos ouvir a voz das ruas por onde ecoa o "Fora Bolsonaro e Mourão!" e fortalecer esse caminho, porque o problema central são os ataques a direitos e retrocessos todos que estão impondo a todos nós. A luta é agora, não apenas em eleições, devemos seguir exigindo que todos somem consequentemente nessa luta, sem recuar. E, caso recuem, devemos denunciar as traições!

Fontes:

https://revistaforum.com.br/politica/fhc-diz-ser-contra-impeachment-e-recomenda-ter-paciencia-historica-com-bolsonaro/amp/

https://congressoemfoco.uol.com.br/governo/lula-diz-que-e-contra-impeachment-de-bolsonaro/

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Crise da segurança pública exige propostas civilizatórias à polícia


É inútil apenas xingar e acusar as partes em conflito. São necessárias soluções aos problemas, propostas às necessidades que se apresentam. Esse é o papo aqui. Os auto declarados democratas, progressistas, socialistas e os simpatizantes da esquerda não podem apenas resmungar, o que propõem diante da atual situação e debate aberto sobre segurança pública?

É evidente que a Polícia Militar como é hoje, serve como institução agressiva ao povo trabalhador, tanto aos formados dentro dela e suas duras diretrizes como aos que são alvos de suas ações nos conflitos sociais - ações em geral tornadas pelo alto comando e os governos em operações de guerra para atender a política de segurança vigente no Estado brasileiro. Todos os elementos horríveis de preconceito e discriminação que se desprendem dessa polícia são fruto do seu uso pela classe dominante e seus interesses. É visível como a polícia inspira desconfiança, antipatia, repulsa em grande parte da população, que sente mais é medo, morbidez e desconforto. Tudo é reflexo de todo o militarismo que a caracteriza e, em especial, o seu uso continuo contra o próprio povo em suas greves, manifestações e conflitos sociais, lutas políticas, etc. É compreensível e até certo ponto, inevitável.

É óbvio que a PM implica inúmeros problemas e que essa realidade precisa mudar. O que ocorre no Ceará é importante de ser debatido justamente nessa perspectiva de qual saída é dada ao problema e quais mudanças devem ocorrer. Até agora são mais de 300 policiais militares que estão respondendo Inquérito Policial Militar (IPM) após a greve (que a lei militarista não permite e criminaliza taxativamente) que vem exigindo aumentos de salários há várias semanas. Após negociação, parte dos policiais rejeitou o acordo e seguiu mobilizada com suas famílias e ocupou o prédio público que foi palco do conflito que viralizou nacionalmente. A guerra de narrativas se instalou para beneficiar e/ou atacar os atores políticos envolvidos: governos, políticos, policiais, população  sem policiamento, criar explicações e justificativas para se posicionar no conflito. Política é isso: uma disputa coletiva de interesses, com os discursos e as ações que os expressem.

No entanto, devemos refletir muito mais sobre qual o papel dos ditos democratas, progressistas e revolucionários face a Polícia Militar e as crises que esta atravessa em suas próprias contradições internas e em suas contradições externas com toda a sociedade. A greve dos policiais no Ceará é um marco muito importante sobre a Segurança Pública de todo o Brasil, porque é real e prático e confronta com os demônios das suas relações: as armas, a violência urbana, a repressão e perseguição que a legislação militar e a corporação reproduzem, a quebra dessa lei, modelo de polícia, conflito com o direito democrático de manifestação, as milícias e o poder estatal, a coerção social das polícias, os projetos políticos que querem manter as coisas como estão e os que querem mudar o estado de coisas atual (seja para pior ou para melhor), a posição política exigida diante de todas essas contradições. É preciso dar respostas SÉRIAS, dada a gravidade da situação e o crescimento desses processos de crise de modelo da política estatal de segurança pública... Pois nada ficará igual para sempre, uma hora irá mudar. O problema é justamente: em qual sentido irá mudar? Como?

Em um momento de sucessivas greves e lutas de diversas categorias de trabalhadores e com a atual crise gerada pela greve dos policiais, o governo de Camilo Santana (PT) solicitou o envio das Forças Armadas a Jair Bolsonaro - cuja família todos nós já sabemos que é envolvida até o pescoço com a ala podre, perigosa e criminosa que há por dentro das entranhas do Estado - o pedido prontamente atendido que ele ainda responde feliz que no Ceará "o bicho vai pegar!". Além disso, nessa quinta-feira o presidente declarou querer aprovada pelo Congresso a "excludente de ilicitude" para que os homens armados do Estado possam cometer assassinatos sem que seja apurado e condenado por crimes do gênero quando em ação. Percebem o tamanho da cagada perigosa que está rolando?

Decretar a ida das Forças Armadas ao Ceará é uma tática política de marketing diante do medo que causa uma paralisação na segurança pública e, de fato, também de lograr uma "normalização" da "ordem" e da "lei" em crise ali. Porque todo governo que perde o apoio das forças armadas está desprotegido das diversas rebeliões sociais possíveis de se gestar pelas contradições dessa sociedade tão desigual e tão enfurecida. As bases de todos os setores sociais está inquieta e a maioria de suas "direções" e "lideranças" está com alto grau de desprestígio. Pesquisas dos últimos anos apontam que também dentro da polícia há uma rejeição crescente ao seu caráter militarista e a legislação que o engendra, de tal modo que muitas greves - repito, ilegais - estouraram.

É inaceitável que não se apresente uma proposta de mudança na polícia que seja civilizatória e benéfica tanto aos trabalhadores dela quanto à todo o restante da sociedade brasileira. É flagrante e aberrante ver políticos do PDT e PT - que na queda de braço com os policiais - reivindicam a legislação militar igualzinho a direita ao proferir a argumentação estapafúrdia de que "é proibido policial militar fazer greve!", como se a lei burguesa fosse o ápice da moral e da justeza. Veja como é flagrante e obviamente ridículo um Senador que se diz "trabalhista" e "democrata" fazê-lo ao mesmo tempo que pra ganhar holofotes e bancar uma de herói "cabra macho" usa uma retroescavadeira para furar bloqueio grevista e intimidar servidores, criando a pecha ideológica de que sejam todos "milicianos" para tentar ganhar a queda de braço e forçar as pessoas a apoiar sua ação tresloucada! É totalmente flagrante e enojante ver o governo petista do Ceará pedir ao presidente Bolsonaro o envio das Forças Armadas para ajudar-lhe nessa queda de braço, pedindo que as ruas se encham de mais polícia e mais repressão estatal. Eu pergunto: afinal, quem está ganhando com isso tudo? O que se fortalece nessa escalada? Pelo que parece, quem capitaliza tudo são apenas os políticos do estado burguês, estes governos burgueses petistas e bolsonaristas, o predomínio da agenda política burguesa e o fortalecimento de toda a sua ordem repressiva...

O correto e necessário agora não é reproduzir discursos prontos veiculados pela mídia burguesa e nem pelos burocratas petistas, pdtistas e nem bolsonaristas, porque esses grupos políticos todos optam sistematicamente pela trincheira do Estado e da repressão estatal, a serviços dos interesses do capital e suas contrarreformas. Além dos policiais do Ceará há inúmeras outras categorias de trabalhadores que estão lutando por salários, empregos e seus direitos, subtraídos com os votos de todos esses setores! E o decreto de Bolsonaro solicitado pelo Camilo Santana não irá ajudar em nada a classe trabalhadora e suas lutas, serão sim mais um ponto de apoio da repressão e pra segurar as mobilizações sociais e fortalecer os governos que fingem que atendem ao povo, mas só pensam na estabilidade do seu poder e projeto de classe.

Essa enorme crise policial do Ceará deveria estar sendo utilizada pelos verdadeiros democratas, progressistas e socialistas para agitar um programa que combata o militarismo que subjuga toda classe trabalhadora brasileira, uma urgente mudança estrutural na Polícia Militar que acabe com essa política de segurança pública de guerra! Os próprios policiais são vítimas dos entulhos da Ditadura Militar! NÃO DEVE SER REIVINDICADA A LEI MILITAR, mas sim que os direitos humanos e democráticos cheguem aos policiais mudando o caráter dessa polícia que, inclusive, o petismo ajudou a piorar com leis repressivas e que agora bolsonarismo pretende recrudescer ainda mais com novas leis repressivas! O debate sobre uma desmilitarização das polícias, direito de sua sindicalização, garantia de direitos democráticos diversos, dignidade no trabalho e fim do combate aos pobres e periféricos, a criação de um modelo humanizado e cidadão de policiamento não-militar e pela segurança das pessoas, tem que ser feito no sentido de acabar com a guerra interna contra o próprio povo no Brasil, essa guerra de classes medonha, junto a diversas outras medidas estruturais civilizatórias que garantam mais e mais dignidade e direitos ao povo brasileiro ao invés de dar mais e mais barbárie, morte e precariedade na vida...

A onda de lutas que será esse mês de Março deve pautar também esse problema, é nossa obrigação levar propostas à sociedade e buscar ganhá-la. Assim como ganhar os policiais. A pressão tem que vir de fora e também de dentro, se quisermos nos libertar do militarismo que oprime a todos nós e que persegue também o próprio policial.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Por que a "esquerda" jogou a toalha das lutas diante de Bolsonaro?




As lutas desse ano sofreram uma operação desmonte enorme pela esquerda brasileira, especialmente pelo Partido dos Trabalhadores e Partido Comunista do Brasil - estes dois possuem os maiores aparatos sindicais, estudantis e populares em suas mãos há décadas  e com isso as condições de influenciar e emperrar grandes processos quando colocam suas máquinas para funcionar. Mas por que a "esquerda" desarticularia lutas sociais contra um governo de "direita"? Essa é a indagação honesta e lógica que as pessoas fazem ao olhar para a situação, mas ainda é ingênua e pautada por uma visão distorcida de uma bipolaridade entre o "bem" versus o "mal", "mocinhos" versus "bandidos". O fato é que o mundo não é tão simples quanto qualquer esquema desse tipo e as relações de poder incluem muito mais problemas, interesses, compromissos e condicionantes menos nobres que nossos ideais.

A realidade é que estes dois partidos não querem e, à rigor, nem podem se chocar contra o regime político da burguesia. Toda essa (des)ordem estabelecida que desgraça a vida das amplas massas, pobres e sofridas. Para os dirigentes do PT e PCdoB não se pode questionar o jogo da elite: se o Congresso votou, então tá votado. Se a classe dominante quer, então tem que entregar direitos para desmonte - e nem protestar se deve protestar (e todo o Brasil pôde ver o completo imobilismo deles face a Reforma da Previdência. As redes sociais são fundamentais pra difundir essa denúncia, que foi uma traição longa, paulatina, durou vários meses, se estendendo ao longo das quatro votações, duas no Congresso e duas no Senado, um angustiante calvário para o fim da aposentadoria gerava mal estar e confusão). De fato, esses partidos dependem da anuência de setores da burguesia para fazer sua política, também dependem da burguesia para ter continuidade o seu projeto de conciliação de classes. Pois apesar do "comunista" ou "dos trabalhadores" em seus nomes, a verdade é que eles servem aos ditames do agronegócio, dos bancos, das empreiteiras corruptas, de toda a máfia burguesa dos negócios privados nacionais e internacionais que controlam com seu poder econômico toda a política institucional do Brasil. Nunca se propuseram a peitar o capitalismo, apenas a administrá-lo e seguir cumprindo o papel de fiador do sistema e se beneficiando de sua posição nas instâncias de poder, como burocracias parlamentares e sindicais. O "golpe comunista" tão falado pela direita durante 20 anos para disputar o apoio permamperm das elites do pais nunca ocorreu nos governos petistas, ocorreu sim foram recordes de lucros empresariais. O capital foi tão beneficiado que Lula foi elogiado em todo o mundo capitalista, pelos jornais capitalistas, pelos governos capitalistas e até chamado de "o cara" pelo governo dos Estados Unidos - o imperialismo mais violento e explorador do capitalismo mundial. A Dívida Pública cresceu de 800 bilhões para 3 trilhões nos governos petistas, agora bateu 4 trilhões e vai seguir sugando os recursos sociais até a barbárie. Ou seja, a burguesia aceitou durante anos que o PT e o PCdoB governassem sob a tutela de seus vários partidos burgueses e coordenação das empresas e negocios, pois assim haveria "situacao" e "oposição" sempre comendo nas mesmas mãos em um grandd esquema bipartidário que sempre lhe seria favorável. As vezes abertamente, as vezes de maneira mais velada para evitar revoltas.

Lá em 2017, a Reforma da Previdência - que já tinha parcialmente pavimentada a estrada por Lula desde 2003 - foi desidrata junto ao governo Temer que ficou por um fio por quê? Porque o movimento "Fora Temer" foi muito poderoso, surgiu das bases da sociedade e poderia até ter derrubado não só o presidente, mas sua agenda - que, lembremos, incluiu a aprovação da Reforma do Ensino Médio, a Reforma Trabalhista e a PEC do Teto de Gastos. Mas os próprios petistas, Lula e Dilma diziam em seus comícios que não era hora de dizer "Fora Temer" e sim esperar as eleições ao final do governo para colocá-los no poder de novo, que não era necessário rebeldia nas ruas e nem também impedir as reformas. Tudo era o voto, voto e voto (no Lula). Foi a luta popular que desidratou Temer, não os petistas e suas táticas e estratégias. Foi provada no Brasil a força que a luta tem pra impactar os rumos da realidade. Mas se as lutas derrotaram a Reforma em 2017, por que não derrotram agora?

Esse ano de 2019 de novo uma gigantesca onda de lutas surgiu puxada pelos trabalhadores da Educação, com a bandeira central da aposentadoria para o dia 15 de Maio e logo se uniu à bandeira contra os cortes de recursos feito por Abraham Weintraub, que gerou mais indignação ainda e enormes explosões de lutas estudantis. Os jornais burgueses como a Folha de São Paulo, O Globo e Valor Econômico, após o enorme 15 de Maio expressaram em seus editoriais uma grande preocupação de que "as ruas" voltavam a ameaçar o governo central e os planos capitalistas no Brasil. Sempre que há manifestações massivas, abre-se o grande risco que estamos vendo em tempo real na América Latina, onde - pelo grau de destruição do sistema sobre as condições de vida - vários países agora estão em aberta crise política. É um "fora Lenín" ali, é um "fora Pinera" mais pra lá, é "fora Moïse" acolá, é dois presidentes ao mesmo tempo e fechamento de Congresso ali e ali, é greve geral, é rebelião social que dá umas porradas na polícia, são várias mortes de manifestantes e mais ira ainda em resposta, e assim segue o baile em chamas dos planos econômicos do capitalismo na região. E o Brasil é um país MUITO importante nessa região, o que acontece aqui pode virar um baita problema internacional. Toda essa colônia moderna aqui, todo esse grande quintal de exportação e importação vantajosa ao capitalismo central em degrimento do capitalismo periférico, pesa. E, por isso, a operação política do impeachment, o desgoverno de Michel Temer com seus terminais 3% de apoio e a eleição do fenômeno Bolsonaro tem sido tudo muito arriscado, pois ainda ronda o espectro assustador de Junho de 2013 que teve coragem de peitar não só Dilma e o PT, mas todos os governadores e prefeitos por todo o país que já passa por eleições cada vez mais abstinentes em votos. Não há estabilidade real, há uma ilusão que haja outra coisa que não seja uma crise profunda e estrutural se arrastando cansativamente e agora permanentemente na corda-bamba. Estamos todos em um barril de pólvora, em uma panela de pressão e as rebeliões estouram é nas horas de estresse social e recessão econômica.

O governo Bolsonaro está tendo que se adaptar a todas as maracutaias vulgares e normais de toda a bandalheira corrupta que é o Estado burguês brasileiro. É um aparato enorme que não vive sem conchavos entre todos os seus membros, não sobrevive a casta política nem pelas regras do próprio jogo da lei e da justiça e suas altas cúpulas se não for com rios de dinheiro, traições, negociatas, "acordões com o Supremo e com tudo", todos os partidos estão sujeitos a pressões e distorções enormes pois é assim que é desenhado para ser a reprodução do regime político aqui - da direita à esquerda, a "ordem" e damcar conforme a música da corrupcco. Até as milícias são o Estado, a máfia política é o Estado, a burguesia é o Estado, tudo é uma rede de circuito fechadíssimo que se retroalimenta e que é interdependente em suas frações. Se Bolsonaro não se adequa, não governa. Como se Lula não se adequasse, não governaria. Os ex operário e o ex capitão viraram parte do sistema para poder gerí-lo. Mas a insatisfação social e a classe trabalhadora tem um poder de bomba atômica na política, ela desestabiliza com facilidade toda a burocracia estatal, queima políticos, ergue ou afunda partidos e desorganizar e reorganiza toda vida "comum" da sociedade - se quiser e se armar pra isso. O PSL não era nada, virou o 2° maior partido da República. Bolsonaro era um zero a esquerda, mas virou o Presidente porque pareceu que era algo novo e radical e revoltado como anda revoltado o povo com essa política suja toda. De fato, mas, lá está, o "novo" era velho e o velho ja está enquadrado no esquemão nacional com a corda no pescoço, investigado, questionado, sem nenhuma habilidade política - pois realmente é um ogro tão inteligente quanto uma porta. Diante de todo esse cenário, algumas greves gerais e uma rebelião social já teriam mandado o Bolsonaro e o Congresso pelos ares como no Argentinaço em 2001. Simples assim, a burguesia ia falar "é, já deu desse palhaço. Bora pegar outro" ou "vamos mudar de tática, porrada não vai resolver, precisamos salvar o regime burguês - chama o Lula de novo que ele é um bom garoto pra impedir revolução". Mas não acontece essa rebelião exatamente porque toda a indignação social está difusa e desorganizada, tanto que foi fácil o PT e o PCdoB tomarem a frente das manifestações populares desse ano e as desarticularem ainda fazendo pose de esquerda enquanto tudo virava "um passeio na rua por mês" até ninguém mais ter disposição e nem paciência da falta de propostas e estratégias do movimento.

Pra eles tudo é "Lula Livre", nada mais importa, nada mais precisa de tanta atenção e nada mais vai resolver a situação do Brasil - um fanatismo louco que deixou muita gente incrédula com a tamanha baixaria de tentar roubar as lutas pra transformar numa pré-campanha eleitoral do PT. Agora em Agosto em Belém, os petistas chegaram a enfiar um carro-som só deles - e isso já numa manifestação muito pequena onde bastava um único carro - só pra ficar repetindo exaustivamente essa ladainha inócua de eleitoralismo barato enquanto a Reforma da Previdência era IGNORADA.  Eles não lutaram porque a luta bate de frente com o regime político e se eles não se comportarem, a burguesia não vai confiar neles para gerir os seus negócios, nem os vai permitir ganhar nas eleições e nem vai financiar suas campanhas eleitorais, e fim a estratégia petista de ser serviçal se o patrão não mais o quer para nada. Não precisamos mais de uma esquerda que seja a carta na manga da elite, precisamos de uma estratégia para destruir a elite e dar poder aos trabalhadores para mudar tudo. Tudo o que PT e PCdoB mantém: o capitalismo.

A rebelião no Brasil está se gestando, há uma enorme revolução popular se gestando pelo subterrâneo da crise da Nova República, vai explodir mais cedo ou mais tarde, todos os sinais de revolta estão cada vez mais recorrentes. E quando estourar a rebelião se irá varrer do mapa todos os burocratas traidores e todos aqueles que estiverem abraçados com eles, pois o povo não esquece. E nós estaremos aqui pra lembrar sempre que preciso, pois é tempo de abandonar a velha esquerda e construir uma outra, revolucionária e socialista. A única fórmula sócio econômica que não foi tentada ainda no Brasil neoliberal e pos-militarista e a única que se propõe a resolver os problemas dos explorados e oprimidos, dos trabalhadores em geral.

sábado, 12 de outubro de 2019

Devaneio sobre Coringa: entre revolta e loucura

(tem um monte de spoilers)


Dentre as várias possibilidades de interpretação, uma das mais evidentes é que o filme Coringa - em diversas camadas - é a de ligação entre protestos populares por dignidade, empregos, salários e direitos sociais à ideias beirando a insanidade coletiva, rebeliões vingativas, vontade de assassinatos e até terrorismo revanchista. Por mais que não se afirme isso, por mais que haja uma nublada relação de nexos de causalidade entre as ações das massas revoltas em Gotham com os atos pessoais do protagonista em contínua decadência mental, essa talvez seja a impressão que mais fique no imaginário dos espectadores: há uma lógica de "liderança popular" anti-herói. Todo o martírio de Artur até tornar-se Coringa produz revolta anticapitalista, afinal é dos desdobramentos desse sistema em crise e apodrecido que compõem parte importante de seus sofrimentos, bem como dos sofrimentos dos demais trabalhadores da cidade. No entanto, o caminho que trilha o personagem é o de um ressentimento individual violentamente vingativo... Nessa perspectiva, é terrível e reacionário como o filme mescla a lógica e legitimidade da luta popular, a consciência de classe, o ímpeto de rebelar-se contra a injustiça de governos cruéis e tão frios às nossas necessidades, como se tudo isso fosse uma marcha ao abismo geral do caos puro e simples, sem objetivos, sem organização, sem nenhum projeto de libertação estruturado e facilmente aderente ao mais anárquico dos extremismos - como no imaginário do que seria o estopim de um atual "neofascismo" ordeiro como resposta a uma rebelião "anarcoterrorista" por parte dos pobres. O contexto que vivemos hoje é de uma época de crise política, econômica e social que tanto detona vários protestos nos Estados Unidos, coração do capitalismo, quanto também na China, no Brasil, na Venezuela, na Argentina e agora recentemente no Peru e Equador - não é curioso pensar que ao mesmo tempo que o filme passa nos cinemas, há governos caindo por aqui? O contexto, definitivamente, é este. As castas governantes sejam de "direita" ou "esquerda", sejam estatistas ou ultra liberais das corporações transnacionais estão incomodadas por todo lado pela marcha caótica que trilham. Coringa está nessa vibe de: "turbulências narrativas". É o espírito do nosso tempo esse conflito. O filme - fodasticamente construído em todos os sentidos - atira para todos os lados, tendo como eixo o desconserto e a perplexidade, ambiguidades e contradições inúmeras em um enredo que confunde real e irreal numa mente doente e um mundo conturbado, apela ao conflito emocional da plateia submetendo Artur a sofrimentos contínuos na intenção de desatar compaixão e empatia pelo desgraçado comediante do proletariado. Sofreu na mão da família, talvez seja abandonado pelo pai, desempregado, sendo espancado nas ruas, sofrendo de transtornos que não pode tratar pois foi destruída a assistência social que lhe garantia remédios, até seu ato desesperado de auto defesa - comove e revolta, como a realidade da nossa classe. Há uma questão aqui também: o suicídio. Artur planejava se suicidar ao vivo, na TV aberta, durante sua entrevista de estréia como se fosse a piada fatal que ele contaria. Mas a pressão da oportunidade e da revolta de Artur, transformando-o no Coringa encaminhou outra decisão. Entre explodir seus miolos diante da plateia, ele explodiu sua fúria junto aos miolos do âncora do talkshow, que ali representou o também frio e cruel deboche da TV contemporânea aos problemas populares. Da auto-defesa do primeiro assassinato ao extremo do terror individual que mata, há um salto. Enquanto "palhaços" vão às ruas e terminam lá elegendo como líder-símbolo um "palhaço louco" inspirandor de um movimento pautado por assassinatos (kill the rich) e que termina revirando a cidade toda do avesso, qual será o lado da plateia? Conflito. Essa miríade de conflitos e contradições é a engrenagem do filme. Inclusive, há uma coisa em comum entre HQs de super heróis e filmes de hollywoodianos: primeiro, o povo é sempre uma massa de gado que precisa de heróis para sempre serem salvos; segundo, a ideia de rebeliões e revoluções sociais nunca chega a uma conclusão positiva ou mudança fundamental, essas ideias sempre tem que ser massacradas, amaldiçoadas e esvaziadas de racionalidade sã e objetivos claros. O filme, evidentemente, é sobre o Coringa. Mas a mensagem é à nossa classe: "não pirem!". A mensagem é aos governos: "olhe, como eles estão pirando, hein!". E, podemos ainda esticar a corda até interpretar outro recado, como um convite e uma ameaça, talvez? "Parece incurável. Precisamos de Batman". Talvez seja por isso que Coringa ao final do filme ri e responde à sua psiquiátra que ela não entenderia a piada. A piada de que a loucura coletiva é que cria os "super heróis" - entra aqui a cena de Bruce Wayne com seus pais abatidos no chão pelos palhaços mascarados da multidão que roubavam o colar de pérolas de sua mãe. Há tantas vítimas e vilões-colaterais na narrativa, mas os "verdadeiros vilões" que constroem todo o sistema em crise de Gotham nem sequer tem máscaras, nem nomes e nem aparecem... Ou é impressão minha? Coringa é como um fenômeno-resultado da degeneração social de Gotham, que afunda na depressão e produz as condições para uma rebelião. Mas a loucura sistemática antipopular que massacra tanto Artur como o restante dos "clowns" da cidade é a raiz do problema central que o filme não esgota: a loucura capitalista contemporânea.

"A vida é assim..."?

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Ainda há quem sonhe e lute

Ainda há pessoas dispostas a fazer sacrifícios pelo bem comum, por grandes causas e belos sonhos.

Ainda há gente disposta a sofrer as consequências de não se dobrar a um absoluto individualismo, pôr a cara à tapas de calúnias, perseguição e dúvidas.

Ainda há quem pacientemente tente desatar os nós tão apertados do mal entendido, da má fé e vilania, revertendo venenos em curas graciosas...

Ainda há os que com coragem amam, amam sem medo dos gritos histéricos de repulsa bárbara dos odiosos e amam repelindo toda a tóxica inveja dos encoleirados nos costumes

Ainda há aqueles que cantam, dançam e contam um lindo mundo gestado e parido dos cinzentos escombros desse mundo-cão ao qual a palavra da igualdade social, diversidade humana e liberdade plena colorirá aos céus ensolarados de arte!

Ainda há esses que sofrem e choram, ao mesmo passo que organizam e lutam com raiva, a raiva ardorosa e terna de quem sabe que para que o sofrimento acabe será preciso acabar com o status quo, a (des)ordem estabelecida e o mundo lunático, lucrocrático.

Ainda há a que sonha. Se perguntando se sonha ou se vive. Há a que vive se perguntando: tudo não passa de um pesadelo contra o qual a principal arma com a que se defender seja... este sonho?

Meio às greves. Passeatas nas ruas. A repressão recua face a multidão. Palavras de ordem estão em vez de trovão, ecoando em todas as cidades. O poder vacila, sibila e cai! Derrubado todo o monumento da pirâmide. Eis a luta, o sonho.

Ainda há eles que semeiam, que colhem, que subtraindo repartem e multiplicam. Ainda há os que enfrentam! Ainda há vocês que apontam, propagandeiam, recrutam, formam e bradam:

"Lá está! Nossa utopia é alcançável. A podemos construir com as próprias mãos, corações e mentes. Se destruirmos essa muralha-cárcere de egoísmo terrível: abaixo o capitalismo!"

Ainda há imprescindíveis