
Escuto Beatles desde criança. Os discos deles sempre foram a única unanimidade entre os meus pais. Cresci, fui me tornando quem sou hoje e criei uma grande aversão aos Beatles, num plano ideológico que no geral ninguém liga. Conheço quase todas as músicas, mas gosto de verdade de umas poucas. Detesto a paga-pauzice que a história incrustou neles, com a chegada das TVs que transportaram mundialmente seus “iê, iê, iês” como uma das primeiras grandes modas jovem. Os reconheço na medida do que avalio e bato palmas pro que acho que merece.
Nunca me dei ao trabalho de escutar a carreira solo de nenhum dos ex-beatles, por curtir outras coisas mas já por algum de preconceito também. No entanto, outro dia esbarrei num disco de 1970 do John Lennon. O “Plastic Ondo Band”, que é muito bonito (e triste) de modo geral, mas que só conseguiu mesmo me cativar pela mistura de poesia com ateísmo de “God”; A “Working Class Hero”, claro, porque eu sou socialista convicto, esse assunto me convém e porque a música ficou linda também (apesar da última frase não me agradar); “Mother” porque eu sofro de uma compaixão pelos sentimentos alheios que é meio trash de vez em quando e porque sofro de uma antecipação aguda das dores de perda; E “Love” porque é bonita e simples. Afinal, é exatamente disso que se trata toda essa vida esquisita, a simplicidade de amar – sem esses todos esses embaralhamentos inúteis que vemos por aí, de auto degradação, de ciúmes vaidosos e outras espécies de sofrimento fúteis que nos dão náuseas.
A entidade Natureza é muito indiferente com a as abstrações e sentimentalismos humanos, de modo que nosso apoio e tudo a que podemos nos agarrar no final das contas sempre acaba sendo nós mesmos. Sentimentalismos apoiados nos sentimentalismos alheios, corpos afagados pelos corpos alheios, num câmbio passageiro de vida. Até que morramos e nada mais reste além das lembranças e da dúvida daqueles que permaneceram vivos... “Há depois? Ou tudo é agora?”.
Detesto as teorizações do pós-vida, porque são todas infundadas. São todas baseadas na fé (que significa acreditar em algo sem verificação fática – até o momento, pelo menos). Não me sinto contemplado nas brincadeiras de auto ilusão, de auto dissociação do mundo real, de fuga e entretenimento puro. Sou adepto do materialismo-histórico dialético e procuro me preocupar com o mundo no qual vivo, não com o mundo das séries, dos filmes e dos romances. E é justamente essa alienação da realidade nos Beatles que mais me chateia, a ausência de alguma militância pra’além daqueles namoricos cantados, hahah. Porque sou um animal político fã radical de arte engajada.
Estou indo mais com a cara do John agora que li um pouco do histórico de ativismo político dele, com aquele negócio do disco “Power To The People” e as militâncias anti-racismo, anti-opressões que ele apoiou... rs
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