Desejaram bom dia, perguntaram meu nome e pediram um minutinho do meu tempo. Fui solícito. Elas disseram que era muito bom poder conversar com um jovem e com respeito e paciência escutei, apesar de não ter apreciado tanto um ou outro excesso didático que elas usaram - mas compreendi a necessidade, se o diálogo fosse com outra pessoa menos inteirada em discussões religiosas.
Elas iniciaram me perguntando o que eu pensava a respeito do tempo que estamos atravessando. Assim mesmo, latu sensu, de modo amplo. Respondi que acredito que passamos por um momento muito específico na nossa história e que, diante desse importantíssimo período, deveríamos repensar muito do que é o nosso mundo, pra evitar grandes problemas que se avizinham... Uma das senhoras em especial abriu mais os olhos com uma expressão de admiração pela resposta que escutou, depois concordou profundamente. Daí, falou sobre alguns problemas que encaramos no dia a dia e de algumas preocupações que todo ser humano carrega consigo, então me perguntou, "Diante dessas mudanças no mundo você está receoso ou esperançoso?".
Pensei - não nessas palavras, mas pensei: "sei que nós não estamos falando das mesmas coisas e que vai chegar o ponto em que vão ficar bem claras as diferenças entre o que eu penso e o que você quer me dizer". Respondi a pergunta da senhora dizendo que estava esperançoso. E mais uma vez ela se mostrou feliz com a resposta, pois era uma senhora bem simpática. Achei meio engraçado na hora. Parecia que estávamos em alguma brincadeira de "certo ou errado", mas tudo bem. Adoro tagarelar. "Que bom, que bom!", "Mas e essa sua esperança? Você deposita onde? No que é que você acredita que deva ser feito?". Ela me fez essas perguntas remexendo sua bolsa.
Achei melhor responder indagando também, porque diálogos são conduzidos por dois. Perguntei a elas se tinham escutado falar da Usina Hidrelétrica de Belo Monte que está sendo construída em nossa região e de tudo o que ela vai causar aqui... Bem, a reação foi de repúdio, que bom, disseram que conhecem um rapaz que trabalha como piloto de avião e que ele sempre menciona as grandes áreas de desmatamento que se apresentam por aqui. Complementei mencionando os indígenas e as comunidades ribeirinhas que serão atingidas pela barragem. Elas concordaram, disseram que era muito entristecedor. Depois questionei, "Então, diante dessas coisas que o nosso governo está fazendo, o que vocês, enquanto Testemunhas de Jeová, acham que deva ser feito?". Digamos que aí era o ponto crucial do meu ponto de vista... O que se faz diante das coisas que acontecem no mundo?
A gentil senhora teve um pequeno estalo de memória e disse, "Ah, sim! Eu tenho uma pequena revista que fala exatamente disso do que estamos conversando, veja que interessante". Ela puxou de sua bolsa a revista de título "Despertai! É possível mudar este mundo para melhor?". Pensei, "Uau, eles carregam um arsenal, hehe". Daí a senhora leu alguns pequenos relatos contidos na revista (que era de 2004. Portanto, bem desatualizada, mas, claro, talvez tivesse conteúdo interessante, pelo menos para os interesses em questão). O primeiro lido foi esse trecho, que tinha no alto o título "O CLAMOR POR REFORMAS (de um redator na Alemanha)":
"Se eu fosse mais nova, iniciaria um movimento de reforma!",
exclamou Anna, uma senhora de 80 anos na Alemanha.
"O que é que a senhora mudaria?", perguntou Robert.
"Tudo!", respondeu Anna.
Depois, a senhora leu a história de um capitão de navio que, defendendo o meio ambiente, algemou-se numa âncora de navio num ato de protesto e que acabou sendo arrastado para o fundo do mar, quase morrendo. Em seguida, leu a história de uma jovem nascida nos anos 60, em algum lugar da Ásia, num período conturbado de revolução e perseguições, que fazia parte de um grupo de oposição ao governo, que foi presa na rua quando estava pregando cartazes e teve amigas executadas. A revista dizia que a moça teve que fugir do país para sobreviver.
Depois dessas leituras a senhora Testemunha de Jeová disse que tanto o capitão do navio quanto a ex-ativista política haviam "chegado à conclusão" de que não valia a pena lutar, pois o poder e os governos sempre fariam o que bem entendessem, mesmo tendo boas intenções de início e que a única solução para todos os problemas da humanidade seria o "Reino Messiânico de Deus"...
Pronto. Aí estávamos nós três. No ponto em que se diferencia e se opõem as minhas concepções das concepções das duas senhoras na porta de casa, numa manhã de terça-feira... Algumas coisas passaram pela minha cabeça rapidamente, assimilando a longa e indireta resposta que elas haviam me dado... Questionei novamente, procurando uma resposta mais clara: "Então... quer dizer que mesmo com tudo de errado que o meu governo esteja fazendo, eu devo ignorar? Vocês Testemunhas de Jeová não acreditam que as pessoas unidas possam resolver nada dos nossos problemas aqui e só podemos esperar?"
O assunto ficou complexo. Claro que ficou. Os questionamentos mais profundos vão precisar de análises e caracterizações mais profundas sempre, o mundo é assim. E é preciso ter em mente que não será uma conversinha de 10 ou 15 minutos que se vai conseguir explicar uma vida de experiências pessoais, de situações coletivas ou avaliações históricas mais amplas, etc... E muitas vezes eu penso que esse é o grande problema de muita gente ou a grande impossibilidade. As vezes, não querem se dispôr a entender as coisas ou simplesmente não podem se dispôr, porque não gozam de tempo para isso... A outra senhora, que estava calada, já notava que a coisa estava começando a tomar ares mais densos, mais argumentativos. Era lógico que não chegaríamos longe ali se não houvesse um avanço aprofundador. A senhora simpática teve que apelar para o caráter mais abstrato, mais de fé, mais dogmático. Fez um sinal para a sua colega, que entregou em suas mãos: a Bíblia.
Leu alguns versículos. Falou sobre o Armagedom, uma guerra onde as "iniquidades" seriam destruídas pelos poderes divinos e seus representantes, falou do paraíso prometido e disse que toda a decadência humana só seria derrotada com o advir deste "Governo de Deus". Que só caberia agora a humanidade "aprender sobre este novo mundo e preparar-se para a sua chegada", que estaria próxima... Posto que muitos morrerão e os que não estão com Deus estariam com suas vidas em risco, em grande perigo de não serem salvos e serem exterminados, como no dilúvio ou outro momento de divina chacina bíblica.
"Bem, eu gostaria de saber de vocês, que argumento que vocês usam...? Porque, assim, eu tenho amigos que são católicos, amigos evangélicos, tenho amigos espíritas e de outras religiões que, assim como as testemunhas de jeová, dizem estar corretos, têm suas próprias leituras, etc... Qual a diferença entre vocês?", perguntei. Perguntinha bandidinha, mas necessária. Todo mundo tem que saber se posicionar num mundo cheio de vertentes, doutrinas e correntes diferentes, senão se perde.
A senhora respondeu que o problema era que, "como todo mundo pode notar", todas as outras religiões se envolvem com Política. Enquanto que as Testemunhas de Jeová não se envolvem, mantendo-se "neutros" com relação a essas coisas, mais preocupados no que virá, passando de casa em casa, conversando com as pessoas, estudando a Bíblia e resgatando o cristianismo antigo, etc...
Bem, a minha impressão é que nesse ponto da conversa a senhora já tinha um pouco mais de cautela, de cuidado, porque já passava a sentir alguma dificuldade em explicar qual a diferença da religião dela em relação as outras e, inclusive, sobre o que seriam esses envolvimentos políticos ou falta deles... A gente sabe de determinadas coisas sobre as Testemunhas de Jeová de vez em quando, por exemplo aquele negócio de não aceitarem transfusões de sangue, que gera algumas complicações jurídicas e médicas, e a questão da "moralidade sexual" - bem usual no campo religioso.
Eu sou completamente contra a "omissão política" das pessoas - uma coisa que é meio complicada de existir, quando até omissão consiste em uma espécie de decisão política. Cada vez mais acredito que é necessária a organização das pessoas em entidades de luta social, exigência de direitos, como vem acontecendo em todo o mundo ultimamente (no Chile, na Espanha, no Egito, na Líbia, na Tunísia).
Mas naquela situação tão informal e desprovida de elementos que embasassem um diálogo mais sério e produtivo, eu nunca iria tentar conversar sobre a "consciência de classe", "unidade popular" sobre "a nova onda de ataque do neoliberalismo sobre o mundo e a ampliação da exploração capitalista", "globalitarismo", "a crise estrutural do capital", "luta de classes" e "revolução" - assuntos que estou me acostumando a discutir... Mas ainda dava pra mencionar alguma coisinha sobre a fome, os sofrimentos humanos, a falta de empregos, os altos impostos e um pouquinho sobre Justiça Social. Tudo por alto, claro.
Ela se posicionou dizendo que os governos, por não serem de deus, não resolverão as coisas. Mas ela não pôde me explicar o que seria um "governo de deus". Ela só disse que o divino governaria direto dos céus e ninguém iria sofrer como hoje... Achei que não haveria mais avanços no nosso breve diálogo, porque estavam surgindo Máximas. E a desconstrução das Máximas é um tanto custoso, sem contar que eu realmente não esperava convertê-la numa militante política, hahaha.
Ela, por outro lado, me convidou para uma reunião, disse que lá eles estudam a Bíblia, primeiro de forma abrangente e superficial, depois aprofundam com leituras e reflexões... Respondi que pensaria no caso e pedi a revistinha que ela tinha em mãos, pois iria ler com curiosidade - é bom saber minimamente como as organizações pensam, pra que possamos nos posicionar sobre estas.
Ela, por outro lado, me convidou para uma reunião, disse que lá eles estudam a Bíblia, primeiro de forma abrangente e superficial, depois aprofundam com leituras e reflexões... Respondi que pensaria no caso e pedi a revistinha que ela tinha em mãos, pois iria ler com curiosidade - é bom saber minimamente como as organizações pensam, pra que possamos nos posicionar sobre estas.
Nos despedimos e desejamos Bom Dia.
Um comentário:
Bastante equilibrada a tua postura, Parabéns!
Gostaria de ter visto a conversa... rsrs
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