Sobre este blog:

Isto é uma nesga de liberdade. Campo de batalha, monólogo no palco escuro da noite. Espelho no qual reflito, pro qual sorrio, no qual cuspo, janela através da qual esbravejo ao mundo. Um eco, depósito de fragmentos de desejos, transcrição de alguns trajetos e momentos no tempo. Violino no qual guilhotino as minhas dores, de toda a Humanidade... Espécie de intimidade pública, de arestas aparadas. Movimento multitudinário de resíduos cerebrais, virtuais, multicolores nas ruas deste plano de signos... Ao qual só tenho acesso com um cabo de internet.

terça-feira, 7 de abril de 2020

O Poço - Aceitar ou não a barbárie como único e "óbvio" caminho?

por Eduardo Rodrigues

Trimagasi e Goreng

O filme “O Poço” (“El Hoyo”, original espanhol; “Platform”, no inglês) tem suscitado várias reflexões na internet, sido muito indicado nas redes sociais e conta com 97% de relevância no ranking da Netflix. Enquanto, de um lado, espectadores se debruçam na busca do significado do filme em perspectivas numerológicas, religiosas, filosóficas e meta-cinematográficas atrás da real intenção do diretor – que, de fato, cortou cenas finais e decidiu por uma “conclusão inconclusiva” – há, por outro lado, aqueles que buscam potencializar aspectos políticos do filme como instrumento de denúncia do sistema capitalista (e até do socialista) em exagerações equivocadas, vendo estes sistemas onde não existem e, ainda, perdendo a oportunidade de discutir outras temáticas mais verificáveis na ficção em si.

O filme inicia afirmando haver “três classes de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”. Sem demora compreendemos que aquela edificação vertical (o tal Poço) é composta de muitos andares, com cada andar abrigando um par de pessoas e uma estranha plataforma que todo dia desce trazendo um banquete servido pela Administração para garantir a alimentação dos “inquilinos”. Acontece que essa comida posta na plataforma passa por todos os andares, parando à disposição de cada par de pessoas por apenas alguns minutos ao dia. De modo que os ocupantes do andar de cima sempre comerão antes e deixarão suas sobras aos ocupantes do andar debaixo, que comerão e deixarão suas sobras ao do andar inferior seguinte, e assim por diante até que uma hora a comida acaba e os pares dos andares mais profundos do Poço devem se virar... Além dessa disfuncional divisão de alimentos, as duplas são trocadas de andar aleatoriamente uma vez ao mês. Ou seja, um par pode estar bem servido de alimentos em um mês no andar 48 ou 6 e, então, no mês seguinte passar uma fome desesperadora que leva à loucura nos andares 171, 222 ou outro dos mais baixos...

Toda essa construção do filme prova - para desgosto dos “apolíticos” - que é impossível despolitizar O Poço, uma vez que estes elementos levam à essência do que significa o próprio debate político: sistemas de sociedades, conflitos de interesses, relações de poder, luta pela sobrevivência, convívio humano em adversidades extremas, egoísmo versus altruísmo, distribuição e escassez de alimentos, adaptação conformista ou rebelião inconformista, entre diversas outras temáticas. Tudo está no filme e tudo isso, óbvio, são temas políticos. Temas gerais e interessantes, passíveis sim de relações e paralelos com a realidade em certas medidas e com os devidos cuidados. Mas, para os objetivos desse texto, quero focar em apenas um ou dois aspectos específicos quanto as figuras do velho Trimagasi e do protagonista Goreng face à situação que vivenciam na película.


TRIMAGASI, A REALIDADE QUE MATA A INGENUIDADE

Goreng é o protagonista do filme e contracena boa parte com o velho Trimagasi. Tudo começa no andar de número 48, quando Goreng, um homem adulto, acorda e conhece esse sério, distante e frio senhor de idade de olhar blasé. Após alguma relutância (pois “falar cansa”), Trimagasi passa a conversar com Goreng e vai mostrando sua curiosa personalidade.

O velho conta que assistia às propagandas na televisão. Que seu consumismo o empurrava a querer adquirir os bens mais modernos, estes que não paravam de ser reinventados e melhorados e, por isso, era sempre obrigado a comprar a nova versão do que já tinha. Até que certo dia, enfurecido de sentir feito de tolo pelos vendedores do canal de compras, jogou a televisão pela janela e acabou matando um “imigrante”. Se defende dizendo que foi um acidente e não foi culpa sua, que o homem “nem deveria estar ali”. Revela que foi mandado ao Poço para cumprir a sua pena em troca de não ser internado em um sanatório e que só ficaria ali mais dois meses. O presente e o próximo, depois sairia.

Notemos que Goreng tem muitas dúvidas, faz várias perguntas e questiona o funcionamento do Poço enquanto que para Trimagasi tudo é muito “óbvio”, simples. Óbvio que os de cima não escutam os debaixo, pois aqueles estão melhores; óbvio que os debaixo são humilhados pelos de cima, pois aqueles estão piores; óbvio que ele também deve humilhar, ser humilhado e não ser escutado, ao mesmo tempo que os xinga de “filhos da puta” por isso; é óbvio também que cada vez haja menos pessoas no Poço, porque elas estão morrendo; é óbvio que as vezes se está lá em cima e as vezes se está lá embaixo; enfim, “óbvio” que é tudo como é.

A dupla passa o mês inteiro no andar número 48, numa relação de coexistência pacífica que evolui para uma relação amigável, onde Goreng lê seu livro do Dom Quixote para Trimagasi quando este não consegue dormir, enquanto o idoso comprador compulsivo conta os dias que faltavam para o mês seguinte fazendo riscos na parede com a Samurai-Plus – sua faca de cozinha mais moderna e que fica mais afiada na medida que mais se faz uso dela.

De modo geral, há um simbolismo nesse velhinho. Ele representa a aceitação e resignação às estruturas do Poço. Como aqueles que chamam de “pragmáticos”: quem joga o jogo, aceita as regras, não as questiona e só pensa nos resultados permitidos ali. Isso é o que fica evidente ao extremo no momento em que a dupla é transferida do andar número 48 direto para o andar número 171, em uma sequência tenebrosa: Goreng acorda completamente amarrado à cama e aí se trava um diálogo diabólico com seu colega de quarto, onde Trimagasi explica que não chegaria comida nenhuma para eles agora que estavam tão fundo no Poço. Que isso os enlouqueceria pouco a pouco, destruiria sua amizade e, portanto, chegaria o ponto da fome e da desconfiança onde se imporia a necessidade de praticar o canibalismo. O velho explica que é mais fraco, por isso, teve de se precaver amarrando o colega logo. Explica que Goreng servirá de alimento até o final do mês, sendo cortado em pequenas fatias de carne pela Samurai-Plus. O velho ainda promete que cuidaria dos ferimentos para que Goreng não morresse logo e, assim, não estragasse sua carne. Aqui a grande questão é que o agora canibal Trimagasi aceita a condição de barbárie do Poço, a entende como parte da luta pela sobrevivência ali, sendo que não seria a primeira vez que comeria carne humana, inclusive. Falando em uma racionalidade calculada que durante vários dias ambos se alimentariam de Goreng, mas que faria aquilo com “respeito” e de maneira “limpa”. Retrucando os gritos do colega que a culpa não era sua, mas sim de todos os andares acima que impediam a comida de chegar até ali. “Óbvio”.

A cereja desse bolo medonho é que Trimagasi passa a chamar Goreng de “caramujo”, dizendo que facilitaria entender o colega agora como um animal, para poder comê-lo. Eis o grau de bestialidade e barbarização que a lógica do status quo valida na cabeça do velho: “comer ou ser comido”, com todo o “respeito”. Enquanto Goreng implora e grita aterrorizado por aqueles planos dia após dia.

Evidentemente que a crise de comida é uma virada inesperada e terrível no filme. Não passou pela cabeça do protagonista o que ocorreria se ambos fossem parar em andares mais profundos do Poço, não lhe ocorreu que não chegaria alimento e nem o que mais poderia acontecer de “óbvio” por lá. Ele não imaginou ser atacado e amarrado para ser mutilado pelo colega de quarto. O desespero toma conta dele nos dias em que o velho ainda tenta fazer jejum para adiar o início da mutilação. Até que chega o dia em que a lâmina corta um bife da sua coxa e Goreng explode de dor e horror. Mais uma reviravolta: acontece o contrário do que queria Trimagasi e, com ajuda da estranha Miharu, é Goreng quem o mata o velho com ódio e quem come da sua carne com toda a culpa ao longo do mês no andar 171. O sobrevivente se alimenta até que o cadáver apodreça. Agora contando com a companhia fantasmagórica de um Trimagasi o assombrando e zombando dentro de sua cabeça, como um profundo trauma de remorso por ter chegado ao ponto extremo que alcançou. Se justifica consigo mesmo que não teve outra escolha, que foi obrigado e que eles não são iguais por isso.


GORENG, UM “MESSIAS” FACE AO STATUS QUO

Antes de buscar a tentativa de mudar a lógica do Poço com Baharat, Goreng ainda experimenta mais um andar de fartura de alimentos no número 33 e depois mais um andar de escassez absoluta no número 202 - onde acaba devorando o corpo de Imoguiri, quem, aparentemente, se enforca ao ver o horrível sistema onde esteve trabalhando por tantos anos antes. Abstraindo a parte das alucinações fantasmagóricas e messiânicas que são vividas por Goreng no andar 202, podemos dizer que ele conseguiu entender desde as altas até as mais baixas perspectivas o dito “sistema vertical de auto gestão”. Essa consciência do fracasso e horror do sistema o revolta e o impele a querer mudá-lo.

Em um dos diálogos com a ex-funcionária Imoguiri, o "herói" afirma que “mudanças não acontecem espontaneamente”.  E a própria Imoguiri sugere que talvez Goreng estivesse ali no Poço justamente para fazer a diferença no sistema e, durante novas alucinações canibalescas, seu fantasma chega a chamá-lo de “Messias” enquanto ele comia sua carne e bebia seu sangue. Num ritual com citações bíblicas do "cordeiro de Deus". O evidente paralelo desse messianismo cristão com a vontade de mudar as coisas soa a um deboche, em parte. E é. Porque ele depois evolui para uma franca repressão assassina contra os que não concordarem.

Chegando ao andar de número 6, surge Baharat que é humilhado pelos de cima e frustrado na sua tentativa de sair do Poço escalando os andares restantes. Não pode contar com a boa vontade dos racistas ocupantes do 5º andar que, literalmente, cagam na sua cara. Goreng é solidário e convence Baharat que seja necessário intervir na lógica do Poço. Goreng quer descer os andares em cima da plataforma de comida, escoltando e distribuindo o alimento para que chegue aos mais famintos lá embaixo enquanto Baharat é convidado a ajudá-lo e a aproveitar o instante do retorno da plataforma para seguir rumo ao andar zero, ao topo do Poço onde está a Administração.

Goreng e Baharat se armam com barras do estrado de suas camas, sobem na plataforma e começam a sua missão. Pedem que os 50 primeiros andares façam um jejum neste dia, para que os famintos dos demais andares possam comer. A reação dos ocupantes varia: uns negam e outros aceitam, alguns pelo convencimento e outros pela coerção, ameaça e violência física que passam a empregar Goreng e Baharat contra aqueles que se negavam a cooperar. Ao passarem do quinquagésimo andar, afinal, começam a distribuir as porções de comida igualmente para os pares de famintos dos andares inferiores. Uma divisão de pães numa versão hardcore de cristianismo coercitivo que chega a ser questionado por um velho dos andares de cima “o messias multiplica os pães, não os toma!”.

Em outro diálogo – com o “homem sábio” – Baharat e Goreng são chamados a criar um símbolo, uma mensagem a ser entregue ao andar zero e à própria Administração do Poço. Há um apelo pelos bons modos pacíficos de “convencer antes de vencer”. Mas logo vemos que nem os bons modos, nem a simbologia e nem a pretensa mensagem tem o tipo de poder necessário para enfrentar os fatos. Pois após uma longa descida beneficente distribuindo comida para quem não comeria, a boa intenção dos mocinhos é solapada pela cruel realidade do Poço outra vez. São muito mais andares do que imaginavam. Calculavam ser uns 250, mas já iam longe disso e vendo cada vez mais andares com pessoas mortas, com mais pessoas enlouquecidas e mais pessoas violentas até encontrarem novamente com Miharu, que estava sendo agredida e que termina esfaqueada por um brutamontes. Goreng e Baharat lutam contra a dupla de assassinos, vencem o combate com dificuldade e saem gravemente feridos, com a sentença de morte já sendo executada em seus corpos.

Seguem descendo até o andar de número 333, onde ambos os companheiros de luta morrem tentando proteger o símbolo, alimentar quem tinha fome e entender qual era sua própria mensagem, tudo ao mesmo tempo. Basicamente, eles morrem na luta por mudar as coisas e por conquistar a liberdade. Uma série de cenas que não se sabe mais se são parte da realidade, se são delírios antes da morte ou um simples tapa-buraco mítico do diretor para que o filme ficasse com um final mais... qualquer-coisa...


UMA (IN)CONCLUSÃO POSSÍVEL E AS REFLEXÕES PRINCIPAIS

O fato é que não se vê uma mudança nas formas opressivas, violentadoras e estruturalmente assassinas do Poço. O que nos leva a considerar a possibilidade de que o próprio final do filme e sua “explicação” não são o mais importante. Que as mensagens mais interessantes de ponderar já foram apresentadas e postas para apreciação ao longo dele, antes da sua conclusão.

Afinal, aquela “mensagem” que Baharat e Goreng queriam entregar ao nível zero e à Administração – fosse ela só um pratinho de comida (que, particularmente, nada diz) ou fosse ela a criança faminta no fundo do paço que não deveria estar lá (e, talvez, nem estivesse mesmo) – termina ela própria sem o seu tradutor, sem o seu mensageiro, tal como diz Trimagasi na escuridão após o andar 333. O filme termina sem uma explicação porque ele é mais um exercício de reflexões e no seu decorrer já colocou os problemas que queria colocar. Seja a barbárie, fome, ganância, egoísmo, altruísmo, coletividade, conflitos, vontade de mudança, coragem, covardia, resignação, etc.  

Pois o final se descola daquela concretude oferecida entre as quatro paredes, entre os vários andares e as diversas relações estabelecidas ali. Se desvanece essa resposta final assim como se desvanece a mente do protagonista, que vai morrendo e só vai deixando os caminhos especulativos e subjetivistas da velha questão sem solução: “o que há após a morte?”. Portanto, sem a densidade imagética e sem a significação verbal real necessárias para explicar e responder com todas as letras o que se dá, então já não importa mais nada desse “depois”.

E apesar de ver muito mais pessimismo nesse filme, entendo que o intrigante nele é o desconforto causado pelo próprio sistema. Que, independente do que resulta da ação contra ele, o importante do filme foram as reações das personagens como alegoria das pessoas do nosso mundo injusto. A dupla rebelde não teve sucesso e isso pode ser lido como um: não dá pra mudar um sistema desgraçado como esse, simplesmente. Ele não vai ser solidário porque não é baseado na solidariedade, ponto final.

O que importa mesmo é que havia um sistema bárbaro e vil destruindo homens e mulheres e diante de cada pessoa ali dentro se colocavam as questões: É preciso mudar isso ou não? Se pode lutar contra as regras ou não? De que maneira se poderia mudar esse sistema? Você se adapta e dança conforme a música ou se rebelará contra isso tudo? Como? Por que? Por quais objetivos faria ou deixaria de fazer? O que importa no filme é como aquelas pessoas responderam à essas perguntas. Enquanto uma grande maioria se submetia e aceitava aquela barbárie, a alimentando e reproduzindo elas próprias, mesmo indignadas, se conformavam e colateralmente já estavam permitindo matar e morrer e suicidarem-se. Havia outras ali que tentavam fazer a diferença em menor ou maior grau de intervenção, com maneiras de inconformismo mais ou menos efetivas, mais individuais ou mais coletivas. Havia ainda aquelas que simplesmente desistiam. Na aceitação das regras, na desistência da vida ou na luta tenaz, vemos as respostas de Trimagasi, de Imoguiri e de Goreng-Baharat.

Essa é uma das reflexões interessantes e que melhor servem para fazer um paralelo com a realidade cruel de crise profunda dos sistemas societários que hoje estamos vivenciando no Brasil, na América Latina e em todo o planeta, seja sob os regimes políticos fracassados ou os sistemas econômicos em frangalhos que forem. A mensagem é que as sociedades verticais, onde não existe distribuição justa e igualitária de recursos e do poder, serão sempre um inferno de brutalização, de conflitos e de barbárie, como cada vez mais são hoje mesmo...

A simples existência daquelas três classes do filme já não é o “fundo do poço”? A terceira classe de pessoas se referia aos suicidas? Foi uma missão suicida a de Goreng e Baharat?

Mesmo após entender o terror do sistema se deve compactuar com ele como fez Trimagasi?

Nós devemos aceitar a barbárie como nosso único e “óbvio” caminho? Essa moralidade doentia tão normalizada de sobrevivência?

Goreng e Baharat deveriam ter tentando mudar as coisas no Poço como fizeram? Aquele era a única maneira?

O medo do fracasso em tentar mudar as coisas é mais heróico que qualquer tentativa corajosa mesmo que ineficaz?

Por que eles não cogitaram o caminho de destruir o Poço com apoio dos demais presos? Não seria o mais adequado estrategicamente?

Na vida real, a maioria das pessoas segue qual desses perfis diante da crueldade do mundo? Conformismo, desistência ou tentativa-erro de mudança?

Você é o Trimagasi, Imoguiri, Baharat ou Goreng?

segunda-feira, 23 de março de 2020

Entre notícias e lençóis

Março: todos os valores e prioridades que o sistema capitalista pregou estão em cheque. Não salva ninguém a adoração ao deus-mercado, em altares-banco não façam suas preces. Não há santo de dinheiro ou espírito financeiro, apenas ganâncias que enganam com promessas... O que salva é o tempo e a vida de trabalhadores que se condensam em amor nas artes mais diversas.

As médicas e enfermeiros, os cientistas - não, eles não são "malucos" - e os pesquisadores, que são capazes de uma mágica real. Brigam uma batalha colossal com a coragem e o sacrifício daqueles sem os recursos que comeu o demônio do capital. A saúde, não há nenhuma dúvida: será a mais notória das atrizes que sustentarão nossa sociedade nos dias a seguir. Mas não só ela. Vários outros seres de trabalho que fazem comida, que transportam e nos entregam recursos, ferramentas e pessoas, através de todos os modais de mobilidade. Quem fará a essencial manutenção da rede elétrica, telefônica, distribuição de água e o saneamento, que impedirão o mar de lixo inundar as ruas e afundar em xorume nosso sofrimento...?

Os burgueses não nos salvarão o futuro!

No fundo, estamos refletindo sobre o que é, de fato, mais importante e necessário. Filosofando em um tic-tac de calafrios: a fragilidade não só das vidas, a fragilidade desse maldito mundo egoísta; esta peteca espacial aí girando cosmicamente pelo escuro emudecido, titânica, de horizonte expansivo de mistérios e de sentidos, a Terra é o abrigo que ainda sofre de inúmeros perigos. E esperanças.

125; 375; 552; 902; 1115; 1504; 1855...

Mas o dia nasce e morre imparavelmente com patrões e governos em suas confabulações e teatros, sem poder esconder que se defenderem seus interesses parasitários até as últimas consequências, terão que matar incontáveis corpos de fome, sede, doenças, em dívidas mergulhados e, antes de tudo isso, pô-los em barbárie, todos contra todos no cenário de selvageria pela sobrevivência - filme que mais queremos evitar: da barbárie completa. Pois não há nada mais perigoso do que pessoas necessitadas e desesperadas.

A solidariedade e o espírito de comunidade são também o que está florindo em meio ao asfalto bruto das cidades. A única negação possível a todo o egoísmo é o inversamente proporcional sentido comunitário e solidário. Agora, saudade e solidão maltratarão, mas a ciência e tecnologia nos permite interagir com os irmãos, amores, amigos e familiares. Na tragédia, se grita: "temos que nos reencontrar!". Mas "precisamos nos preservar". Angústia. "De nós mesmos e do que carregamos conosco, ainda incurável". Sai o resultado do exame médico: negativo. Não foi dessa vez que nos pegou o coronavírus. Alívio.

Precisamos nos reencontrar.
Os burgueses não irão nos salvar!

Reencontrar com os planos de ter uma saúde que atenda a todos ao invés de entrar em colapso quando mais necessária. Nos reencontrar com um trabalho que preserve a nossa vida e não uma economia política de coisas inanimadas. Com a busca por um mundo de todos por todos e não do sacrifício da maioria pelos privilégios da minoria. Por aquela utopia que mostra que o impossível é que as coisas sigam como elas estão: erradas.

Espero reencontrar-nos. Já chega de aguentarmos tão calados. É tempo de mudar o mundo, sim. Já é o desastre que está nos impondo a mudá-lo!

Não deixem mofar o pão
Não permitamos sufocar a poesia
Esses são tempos de revolução
Evidente aos olhos até de quem menos queria

Em casa,
combalido de sonos,
acordo, aturdido, em sonhos incertos
Com o coração que se debulha pelos olhos
E só se repousa de volta em minhas mãos
enquanto ainda tenho vocês por perto

23.03.2020

terça-feira, 17 de março de 2020

Ciro Gomes disputa "saída antissistêmica" enquanto parte do PSOL vacila em 7° Congresso

De Eduardo Rodrigues, militante do PSOL-PA

Palavras-chave: agenda liberal; bolsonarismo; lulopetismo; crise capitalista brasileira; alternativa antissistêmica; Cirismo; 7° CONPSOL; programa e união socialista.


Diante de uma crise brasileira brutal onde o povo sofre cada vez mais restrições de direitos e dignidade, além de desastres ambientais, econômicos e de saúde pública agora, que há de saídas políticas?

Com uma "esquerda tradicional" morta que vive em uma irreversível "retirada permanente" das lutas sociais, com as direitas vivíssimas e atuantes na política e dirigindo os poderes, a disputa pela nova alternativa que represente a necessária saída antissistêmica está posta de novo no tabuleiro político e eleitoral... Bolsonaro disputa ainda essa mesma posição antissistêmica da forma mais reacionária possível, com sua saída aos moldes liberal-autoritário. A população acumula uma enorme indignação e frustração que estoura em lutas esporádicas e desorganizadas, mas corretas. Que ecoam em carnavais e outros eventos culturais de massas, mas insuficientes.

A realidade é que essa saída antissistêmica é a única disputa política que existe no Brasil para se opor ao continuísmo. Como um país parte do capitalismo periférico e dependente, as nossas tarefas históricas são sempre a negação da grave situação de miséria e autoritarismos da qual nasceu e que segue vivendo o Brasil, desde a colônia até a moderna "neocolonia" do século XXI. Toda grande alternativa politica de massas aqui faz essa disputa antissistêmica porque a vida da maioria aqui é sempre uma desgraça a ser denunciada como culpa contínua dos governos anteriore, posto que é estrutural do capitalismo a nossa desgraça.

É evidente que o mal estar atual está ligado a todas as agendas antipopulares de reformas contra os trabalhadores, parte das orientações mundiais para fazer frente a crise capitalista internacional que não para de avançar e gerar mais crises políticas por todos os lados. A América Latina - mas não só ela - tem sido palco de rebeliões populares contra governos burgueses tradicionais e contra governos progressistas da esquerda capitalista. No entanto, nessa atual conjuntura constata-se que a nossa política no Brasil está unificada em um consenso do capital contra os direitos dos trabalhadores. E dividida publicamente apenas entre aqueles que diante dessa tão monstruosa agenda liberal e antipopular só são capazes de dizer "sim" (esquerda) ou "SIM, SENHOR!" (direita). Na realidade, o mais preciso e correto de afirmar é que há um pacto entre direita e esquerda no Brasil, um pacto dos expoentes políticos do capitalismo atual: bolsonarismo e lulismo. E a quebra de todas as falsas polarizações bipartidárias na política é a ÚNICA forma visível e instantânea de se diferenciar aos olhos do povo em todas as últimas eleições presidenciais, exatamente porque é a verdade. Seja Heloísa Helena, Eduardo Campos, Marina Silva, Plínio de Arruda ou Luciana Genro, não importa, toda as oposições que realmente disputaram uma posição fizeram essa discussão.

Ontem o Ministro Ciro Gomes deu entrevista ao Roda Viva e reafirmou querer ocupar o espaço que agora se reabre de "alternativa contra tudo que está aí" - mesmo sendo parte histórica de tudo que aí já esteve durante décadas... Qual a sua posição? O combate simultâneo ao lulopetismo sujo e ao bolsonarismo tresloucado que ele advogou é CORRETÍSSIMO e inegociável para aqueles que querem uma alternativa a tudo isso. O combate ao "rentismo", às radicalizações reacionárias e, óbvio, à destruição dos serviços públicos do Estado brasileiro são CORRETOS e urgentes.

Ciro - inclusive, em contradição ao próprio PDT e a todos os seus aliados, fazendo discurso à esquerda - está muito melhor posicionado hoje do que toda a esquerda tradicional capitalista que lambeu as botas do FMI e do Banco Mundial no que tange à denúncia do desmonte da indústria nacional, da estrutura antidemocrática e corrupta de poder que permeia as instituições brasileiras e da gravíssima desigualdade que vivemos. No entanto, é evidente que o projeto Ciro é mais um matiz dos reformismos nacionais que se opõem à rupturas com o capitalismo e se propõem a domar a fera selvagem que estrutura todo sofrimento dos trabalhadores e dos desalentados pelo sistema, o que é ilusão.

Mas ele capitaliza pois aproveita que todo dia, de fato, há uma nova prova que aquela esquerda do Partido dos Trabalhadores e do ex-PCdoB já morreu para as necessidades populares, traindo mobilizações, furando greves e aderindo às reformas bolsonaristas. Um exemplo foi o trágico episódio da restroescavadeira que usa como desmontração de afinco na luta social contra as milícias e uma forma de "contundência" ao passo que aquela esquerda que ele quer substituir ja está fedendo a cadáver e, pior!, intoxicando com os seus fracassos a cabeça do povo brasileiro. Seja com o imobilismo que ele chama de "bom mocismo inerte" ou - pela negativa - empurrando ao apoio de aventuras militaristas ditatoriais bolsonaristas, sob o peso da influência de parte da mídia e do ultra conservadorismo que reina. Mais pela falta de alternativa do que propriamente por uma concordância absoluta - não a toa os atos do dia 15 março foram tão minguados e a isolada pauta extremista vista na rua.

No campo socialista estamos enfraquecidos e alheios às grandes disputas, infelizmente. Hoje o PSOL (junto aos camaradas do PSTU e PCB) poderia estar cumprindo esse papel urgente e fundamental - como cumpriu ao longo de sua história - destacando-se em denúncias no cenário nacional e ainda oferecendo a única resposta adequada: uma agenda de socialização econômica e empoderamento popular, uma ruptura com a desordem estabelecida e que garanta todos os direitos básicos que  são PROIBIDOS pela economia política do "FODA-SE" aplicada pela burguesia e todos os seus partidos (incluindo o PDT), um sistema que está contra a população brasileira ao longo de toda a agenda liberal dos governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro que estão nos conduzindo à maior catástrofe social, política e econômica da Nova República. Nós estamos assistindo a própria falência sem freio dessa Constituição de 1988 e Ciro até comentou no programa a necessidade de uma "reformulação federativa" evidentemente precisa.

Esse é o debate mais importante hoje entre os militantes que defendem mudanças profundas no Brasil, em favor do povo e a criação da força política e social necessárias pra lutar contra o sistema capitalista e seus quadros burgueses todos. Meio ao 7° Congresso Nacional do PSOL, cruzado pela crise do COVID19 e da catástrofe econômico-social do país, é preciso reforçar os debates críticos a figuras como Guilherme Boulos, Edmilson Rodrigues, Marcelo Freixo e a toda a grave insuficiência de seus programas e política de alianças para essas tarefas - aliados a burguesia, ninguém fará mudanças profundas. Parte dos quadros políticos do PSOL e de correntes internas que estão abrindo mão de um necessário protagonismo nacional do partido e dos socialistas, planejando alianças com PT, PV, PDT, PCdoB e Rede. Essa política da "Aliança" interna que disputa o nosso 7° CONPSOL está funcionando como os aparelhos respiratórios e desfibriladores para o morimbundo lulopetismo decrépito e agonizante, contaminado e sem salvação. Sendo funcional a falsa polarização de lulismo x bolsonarismo, fortalecendo não só a ultra direita como também permitindo o espaço para que um novo projeto burguês como de Ciro Gomes se vista de "Bernie Sanders" brasileiro. Por isso a disputa de camaradas como Renato Cinco, David Miranda, Sâmia Bomfim, Carlos Giannazi e outros é fundamental de ser seguida por um grande movimento contra o neolulismo interno no PSOL.

Nós da tese "Bloco da Esquerda Radical - PSOL" e outras teses socialistas no partido devemos reforçar essas denúncias e unificar nessa tarefa de combate interno e externo pra evitar mais atrasos na construção da alternativa socialista brasileira. E os camaradas do PSTU, PCB e demais setores socialistas legais e não-legalizados como partidos eleitorais devemos reforçar a estratégia dos camaradas da Argentina: a Frente de Izqueirda e de los Trabajadores Unidad (FIT-U) pra avançar ou sim ou sim num pólo social e político unitário. O "Contrapoder" organizado por Plínio Jr é uma proposta nesse sentido também, urgente. Pois é uma necessidade pra construir um programa e uma coordenação das lutas dos explorados e oprimidos que estão a mercê de todos os ataques do capital hoje e sem condições de resistir como precisam. A burguesia está em guerra contra nós e nós urgente precisamos estar armados pra enfrentar isso. A organização coletiva é a nossa arma principal. Precisamos de uma força política que diga o "NÃO!" necessário contra o consenso do capital que hegemoniza o Brasil.

Esse é o grau do problema.

quarta-feira, 4 de março de 2020

FHC e Lula defendem mandato de Bolsonaro. Não os escutemos! Fora Bolsonaro Já!

Eduardo Rodrigues, militante do PSOL.


De um lado, FHC diz para termos "paciência histórica com Bolsonaro", enquanto que, do outro lado, Lula pede a mesma paciência e reafirma o que diz desde que saiu da cadeia "(...) temos que esperar quatro anos". Ambos vão na contramão das mobilizações que ocorrem desde 2019.

Essa posição de manutenção do mandato presidencial é totalmente esperada de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), pela simples defesa da ordem democrático burguesa. No entanto, a posição de Lula se choca frontalmente com todos os discursos que estão permeando o espectro da esquerda há vários e vários meses - na realidade, desde a vitória de Jair Bolsonaro. Enquanto as pessoas comuns querem brigar pela sua dignidade e direitos agora, a esquerda oficial agora ajusta todo o discurso e diz para aceitar e esperar as eleições.

A tese da "onda conservadora" que arrasaria toda a oposição, da "ameaça neonazista" que instalaria uma ditadura, do rompante da força "fascista miliciana", etc, serviram como um importante alerta perpassando os discursos de vários partidos e grupos da esquerda. As vezes de forma mais crítica, as vezes de forma mais impressionista e desesperada. Em especial nos discursos "antigolpe" do PT, PCdoB, PDT e setores do PSOL. A gravidade do momento exigiria radicalidade e organização superiores em relação a tudo que vinha sendo oferecido há décadas por esses partidos.

Logo no primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro, os educadores e estudantes foram a ponta-de-lança para o enfrentamento de massas com os ataques de Bolsonaro e Mourão, indo às ruas e já ensaiando uma proposta de saída política pela deposição do governo através das ruas, ecoando a palavra-de-ordem "Fora Bolsonaro!" e "Fora Bolsonaro e Mourão!". A queda na popularidade do governo foi notória visto que muito acelerada, tanto que logo no primeiro semestre atingiu o maior índice de rejeição popular em início de mandato de qualquer governo eleito desde a redemocratização do Brasil. O "Ele Não", ainda no processo eleitoral, já mostrava como seria recorrente o enfrentamento político e como tendia a crescer essa rejeição popular. Não  a toa os protestos chegaram a pautar os editoriais de março de 2019 em todos os grandes jornais como uma verdadeira ameaça ao governo e alertando a possibilidade de não conclusão do mandato do presidente.

No entanto, é notório que a radicalidade advinda das ruas tem sido sistematicamente contida e abafada pela própria "oposição" ao governo, que desmontou as lutas da educação dispersando os calendários de ação, sabotou abertamente toda a luta contra a Reforma da Previdência e acabou dando um banho de água fria na ruas tentando transformar todas as ações de protesto em atos pelo "Lula Livre". Todo ativista honesto e minimamente antenado esteve percebendo o comportamento de entidades como UNE, UBES, CTB, CUT e suas direções lulistas, ao tentarem transformar o ex presidente na medida de todas as coisas e ao negligenciar pautas educacionais, ambientais e trabalhistas que foram a marca do ano de 2019 nas ruas. Todo aquela verborragia lulista pelo "antifascismo" e "antibolsonarismo" foi dando lugar a uma oposição comportada, tranquila, desarticulada e meramente parlamentarista, uma tática que só pode redundar em derrota permanente uma vez que a "oposição" é minoria no Congresso e ainda replica as políticas de contrarreformas onde é governo...

Agora em 2020 com calendário tão importante nesses dias 8, 14 e 18 de Março, a possibilidade de enfrentar e retomar aquelas ações de massas contra o governo Bolsonaro e Mourão poderia e deveria ser o objetivo central dos esforços daquelas forças políticas. No entanto, as burocracias tradicionais não tem esse compromisso, pelo que tudo indica. Muito ao contrário, seus porta-vozes maiores - desde a direita até a esquerda - estão todos defendendo o mandato do presidente Jair Bolsonaro, como bons moços que dão mais importância às formas normativas da democraria burguesa do que ao seu conteúdo abertamente antipopular nos planos de ajuste fiscal, retirada de direitos e na ampliação das margens de lucro dos capitalistas. Não a toa a CUT quis acabar com a greve dos Petroleiros esse ano, no seu momento mais forte. Não a toa ano passado sabotaram parcialmente a greve geral e permitiram aprovar a Reforma da Previdência sem nenhuma manifestação nós momentos de votação, um absurdo completo - que é fácil de explicar quando posteriormente esta mesma medida é também aplicada por governos do PCdoB e PT em outros estados, com apoio do PDT, inclusive.

O PSOL nesse momento atravessará o seu 7° Congresso Nacional e pode impulsionar um caminho diferente. Vários setores, grupos e correntes internas do partido escreveram teses que reivindicam a tarefa de derrotar imediatamente o governo Bolsonaro e Mourão nas ações de rua, na luta concreta e organizando um novo projeto de esquerda radical e socialista para o Brasil. Que esteja vinculando todas as lutas contra a exploração e opressões sistêmicas. Esse debate tem que chegar às ruas urgentemente e se materializar em uma política de organização de Comitês de Luta pelo Fora Bolsonaro. Para sistematizar e dar corpo ao processo de luta real, enraizar essa linha política entre ativistas que estão vendo as traições da velha esquerda, com respeito e democraria, para não permitirem que as burocracias dispersem novamente as lutas como fizeram em 2019. Quando se perdeu uma oportunidade de ouro de aprofundar a crise do projeto liberal autoritário que se gesta no governo e nas suas políticas.

Não devemos ouvir nem FHC e nem Lula, seus conselhos só favorecem a direita e os planos capitalistas, a estabilidade dos ataques aos trabalhadores. Devemos ouvir a voz das ruas por onde ecoa o "Fora Bolsonaro e Mourão!" e fortalecer esse caminho, porque o problema central são os ataques a direitos e retrocessos todos que estão impondo a todos nós. A luta é agora, não apenas em eleições, devemos seguir exigindo que todos somem consequentemente nessa luta, sem recuar. E, caso recuem, devemos denunciar as traições!

Fontes:

https://revistaforum.com.br/politica/fhc-diz-ser-contra-impeachment-e-recomenda-ter-paciencia-historica-com-bolsonaro/amp/

https://congressoemfoco.uol.com.br/governo/lula-diz-que-e-contra-impeachment-de-bolsonaro/

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Crise da segurança pública exige propostas civilizatórias à polícia


É inútil apenas xingar e acusar as partes em conflito. São necessárias soluções aos problemas, propostas às necessidades que se apresentam. Esse é o papo aqui. Os auto declarados democratas, progressistas, socialistas e os simpatizantes da esquerda não podem apenas resmungar, o que propõem diante da atual situação e debate aberto sobre segurança pública?

É evidente que a Polícia Militar como é hoje, serve como institução agressiva ao povo trabalhador, tanto aos formados dentro dela e suas duras diretrizes como aos que são alvos de suas ações nos conflitos sociais - ações em geral tornadas pelo alto comando e os governos em operações de guerra para atender a política de segurança vigente no Estado brasileiro. Todos os elementos horríveis de preconceito e discriminação que se desprendem dessa polícia são fruto do seu uso pela classe dominante e seus interesses. É visível como a polícia inspira desconfiança, antipatia, repulsa em grande parte da população, que sente mais é medo, morbidez e desconforto. Tudo é reflexo de todo o militarismo que a caracteriza e, em especial, o seu uso continuo contra o próprio povo em suas greves, manifestações e conflitos sociais, lutas políticas, etc. É compreensível e até certo ponto, inevitável.

É óbvio que a PM implica inúmeros problemas e que essa realidade precisa mudar. O que ocorre no Ceará é importante de ser debatido justamente nessa perspectiva de qual saída é dada ao problema e quais mudanças devem ocorrer. Até agora são mais de 300 policiais militares que estão respondendo Inquérito Policial Militar (IPM) após a greve (que a lei militarista não permite e criminaliza taxativamente) que vem exigindo aumentos de salários há várias semanas. Após negociação, parte dos policiais rejeitou o acordo e seguiu mobilizada com suas famílias e ocupou o prédio público que foi palco do conflito que viralizou nacionalmente. A guerra de narrativas se instalou para beneficiar e/ou atacar os atores políticos envolvidos: governos, políticos, policiais, população  sem policiamento, criar explicações e justificativas para se posicionar no conflito. Política é isso: uma disputa coletiva de interesses, com os discursos e as ações que os expressem.

No entanto, devemos refletir muito mais sobre qual o papel dos ditos democratas, progressistas e revolucionários face a Polícia Militar e as crises que esta atravessa em suas próprias contradições internas e em suas contradições externas com toda a sociedade. A greve dos policiais no Ceará é um marco muito importante sobre a Segurança Pública de todo o Brasil, porque é real e prático e confronta com os demônios das suas relações: as armas, a violência urbana, a repressão e perseguição que a legislação militar e a corporação reproduzem, a quebra dessa lei, modelo de polícia, conflito com o direito democrático de manifestação, as milícias e o poder estatal, a coerção social das polícias, os projetos políticos que querem manter as coisas como estão e os que querem mudar o estado de coisas atual (seja para pior ou para melhor), a posição política exigida diante de todas essas contradições. É preciso dar respostas SÉRIAS, dada a gravidade da situação e o crescimento desses processos de crise de modelo da política estatal de segurança pública... Pois nada ficará igual para sempre, uma hora irá mudar. O problema é justamente: em qual sentido irá mudar? Como?

Em um momento de sucessivas greves e lutas de diversas categorias de trabalhadores e com a atual crise gerada pela greve dos policiais, o governo de Camilo Santana (PT) solicitou o envio das Forças Armadas a Jair Bolsonaro - cuja família todos nós já sabemos que é envolvida até o pescoço com a ala podre, perigosa e criminosa que há por dentro das entranhas do Estado - o pedido prontamente atendido que ele ainda responde feliz que no Ceará "o bicho vai pegar!". Além disso, nessa quinta-feira o presidente declarou querer aprovada pelo Congresso a "excludente de ilicitude" para que os homens armados do Estado possam cometer assassinatos sem que seja apurado e condenado por crimes do gênero quando em ação. Percebem o tamanho da cagada perigosa que está rolando?

Decretar a ida das Forças Armadas ao Ceará é uma tática política de marketing diante do medo que causa uma paralisação na segurança pública e, de fato, também de lograr uma "normalização" da "ordem" e da "lei" em crise ali. Porque todo governo que perde o apoio das forças armadas está desprotegido das diversas rebeliões sociais possíveis de se gestar pelas contradições dessa sociedade tão desigual e tão enfurecida. As bases de todos os setores sociais está inquieta e a maioria de suas "direções" e "lideranças" está com alto grau de desprestígio. Pesquisas dos últimos anos apontam que também dentro da polícia há uma rejeição crescente ao seu caráter militarista e a legislação que o engendra, de tal modo que muitas greves - repito, ilegais - estouraram.

É inaceitável que não se apresente uma proposta de mudança na polícia que seja civilizatória e benéfica tanto aos trabalhadores dela quanto à todo o restante da sociedade brasileira. É flagrante e aberrante ver políticos do PDT e PT - que na queda de braço com os policiais - reivindicam a legislação militar igualzinho a direita ao proferir a argumentação estapafúrdia de que "é proibido policial militar fazer greve!", como se a lei burguesa fosse o ápice da moral e da justeza. Veja como é flagrante e obviamente ridículo um Senador que se diz "trabalhista" e "democrata" fazê-lo ao mesmo tempo que pra ganhar holofotes e bancar uma de herói "cabra macho" usa uma retroescavadeira para furar bloqueio grevista e intimidar servidores, criando a pecha ideológica de que sejam todos "milicianos" para tentar ganhar a queda de braço e forçar as pessoas a apoiar sua ação tresloucada! É totalmente flagrante e enojante ver o governo petista do Ceará pedir ao presidente Bolsonaro o envio das Forças Armadas para ajudar-lhe nessa queda de braço, pedindo que as ruas se encham de mais polícia e mais repressão estatal. Eu pergunto: afinal, quem está ganhando com isso tudo? O que se fortalece nessa escalada? Pelo que parece, quem capitaliza tudo são apenas os políticos do estado burguês, estes governos burgueses petistas e bolsonaristas, o predomínio da agenda política burguesa e o fortalecimento de toda a sua ordem repressiva...

O correto e necessário agora não é reproduzir discursos prontos veiculados pela mídia burguesa e nem pelos burocratas petistas, pdtistas e nem bolsonaristas, porque esses grupos políticos todos optam sistematicamente pela trincheira do Estado e da repressão estatal, a serviços dos interesses do capital e suas contrarreformas. Além dos policiais do Ceará há inúmeras outras categorias de trabalhadores que estão lutando por salários, empregos e seus direitos, subtraídos com os votos de todos esses setores! E o decreto de Bolsonaro solicitado pelo Camilo Santana não irá ajudar em nada a classe trabalhadora e suas lutas, serão sim mais um ponto de apoio da repressão e pra segurar as mobilizações sociais e fortalecer os governos que fingem que atendem ao povo, mas só pensam na estabilidade do seu poder e projeto de classe.

Essa enorme crise policial do Ceará deveria estar sendo utilizada pelos verdadeiros democratas, progressistas e socialistas para agitar um programa que combata o militarismo que subjuga toda classe trabalhadora brasileira, uma urgente mudança estrutural na Polícia Militar que acabe com essa política de segurança pública de guerra! Os próprios policiais são vítimas dos entulhos da Ditadura Militar! NÃO DEVE SER REIVINDICADA A LEI MILITAR, mas sim que os direitos humanos e democráticos cheguem aos policiais mudando o caráter dessa polícia que, inclusive, o petismo ajudou a piorar com leis repressivas e que agora bolsonarismo pretende recrudescer ainda mais com novas leis repressivas! O debate sobre uma desmilitarização das polícias, direito de sua sindicalização, garantia de direitos democráticos diversos, dignidade no trabalho e fim do combate aos pobres e periféricos, a criação de um modelo humanizado e cidadão de policiamento não-militar e pela segurança das pessoas, tem que ser feito no sentido de acabar com a guerra interna contra o próprio povo no Brasil, essa guerra de classes medonha, junto a diversas outras medidas estruturais civilizatórias que garantam mais e mais dignidade e direitos ao povo brasileiro ao invés de dar mais e mais barbárie, morte e precariedade na vida...

A onda de lutas que será esse mês de Março deve pautar também esse problema, é nossa obrigação levar propostas à sociedade e buscar ganhá-la. Assim como ganhar os policiais. A pressão tem que vir de fora e também de dentro, se quisermos nos libertar do militarismo que oprime a todos nós e que persegue também o próprio policial.